Victoria
A chuva bate contra as janelas da sala da casa de Marcela como se São Pedro tivesse decidido lavar a cidade inteira naquela noite. O céu está escuro, o vento sopra com força e, de vez em quando, um trovão me faz olhar instintivamente para a janela, só para confirmar que o mundo continua, não desabou.
É o cenário perfeito para ficar em casa, debaixo de um cobertor, assistindo a um filme ruim e fingindo que a vida não tem boletos, responsabilidades ou uma chefe insuportavelmente bonita que não para de me chamar atenção.
O problema é que a chefe insuportavelmente bonita está sentada a menos de um metro de mim e eu estou novamente na casa dela. Em um sábado à noite. De pijama.
Com o cabelo de qualquer jeito, uma meia de cada cor e uma tigela de pipoca no colo. Se alguém me contasse, alguns meses atrás, que eu passaria uma noite assim com Marcela Tavares, eu provavelmente perguntaria onde estava a câmera escondida, pois provavelmente seria uma pegadinha. Depois, perguntaria se a pessoa precisava de ajuda psicológica.
Agora, aqui estou eu, por livre e espontânea vontade.
— Você está olhando para a televisão ou para mim? — Marcela pergunta, sem tirar os olhos da tela.
— Para a televisão, obviamente — Pisco, voltando à realidade.
— Interessante — solta uma risadinha — porque a televisão está desligada.
Olho para a tela preta, depois olho para ela e novamente para a tela. Droga, ela me pegou desprevenida.
— Estou avaliando a qualidade da imagem antes de começarmos — invento qualquer desculpa.
Marcela vira o rosto lentamente na minha direção, com aquela expressão de quem está considerando se vale a pena me humilhar por isso.
— Você é sempre tão convincente ou faz um esforço especial quando está comigo? — Resolveu me humilhar.
— É um talento natural — respondo. — Algumas pessoas nascem com beleza, outras com inteligência, enquanto eu nasci com a capacidade de improvisar diante de situações constrangedoras.
— Então você deve improvisar bastante — solta uma risada — já que está sempre em uma situação constrangedora.
— Marcela, eu vim à sua casa para ter uma noite tranquila, não para sofrer assédio moral — reviro os olhos.
— Assédio moral? — Ela ergue uma sobrancelha. — Você está sentada no meu sofá, usando minhas roupas, comendo minha pipoca e prestes a escolher um filme na minha televisão. Eu diria que você está muito confortável para alguém que se considera vítima de assédio.
Olho para a roupa que estou usando. É dela, uma regata preta, macia, que encontrei depois de tomar banho, porque a chuva resolveu transformar a minha roupa numa esponja enquanto vim para cá.
— Primeiro — ergo o dedo indicador — esta camiseta estava abandonada...
— No meu armário. — Me interrompe.
— Exatamente — volto a falar. — Sem uso, uma situação triste, inclusive. Estou dando a oportunidade de ela ser usada.
— E a minha calça de moletom?
— Caridade.
Marcela solta uma gargalhada, o que me faz sorrir antes mesmo de perceber. Gosto de fazê-la rir, mais do que deveria.
Esse é o tipo de informação que não pretendo compartilhar com ninguém, principalmente com a própria interessada.
— Escolha logo o filme, Victoria — ela ordena, entregando o controle remoto. — Antes que eu me arrependa de ter convidado você.
— Você não me convidou — acuso. — Eu perguntei se podia vir.
— E eu disse que sim — dá de ombros.
— Porque sentiu saudade — faço a brincadeira.
— Porque estava chovendo.
— Você poderia ter assistido a um filme sozinha — continuo provocando-a.
— Poderia.
— Poderia ter pedido comida sozinha.
— Poderia.
— Poderia ter passado a noite inteira sem ouvir a minha voz te irritando.
— Essa última parte seria um benefício considerável — fala animada.
— Você é cruel — coloco a mão sobre o peito, fingindo que estou ofendida. — Um dia ainda vai se arrepender de tratar assim a mulher da sua vida.
O silêncio que vem depois torna o momento constrangedor novamente. Mas Marcela desvia os olhos para a televisão, pega uma almofada e a acomoda atrás das costas.
— A mulher da minha vida está demorando demais para escolher um filme. — Sua voz sai um pouco baixa.
Meu sorriso diminui um pouquinho, pois dizemos coisas que parecem brincadeiras, fazemos coisas que parecem carinho e nos olhamos de um jeito que definitivamente não combina com a nossa suposta falta de compromisso.
Depois, nos escondemos atrás de uma piada, de uma reunião ou de qualquer coisa que nos tire dessa bolha de casalzinho. Somos duas covardes com uma química absurda.
— Vou escolher uma comédia romântica — eu anuncio.
— Não — Marcela vira a cabeça tão depressa que quase me faz rir.
— Como assim, não? — Questiono.
— Não vou assistir a duas pessoas se apaixonando durante duas horas porque uma delas é incapaz de admitir que gosta da outra.
— Você acabou de descrever metade dos nossos problemas — deixo escapar.
— Escolha outro gênero — finge não me ouvir.
— Terror?
— Não.
— Suspense?
— Pode ser.
— Um documentário sobre a vida dos pinguins? — Seguro o riso.
— Por que pinguins? — Ela franze a testa
— Porque são monogâmicos em algumas espécies e eu acho que você combina com eles, gosta desse lance de amorzinho, mas precisa aprender a não ser uma pedrinha de gelo.
Marcela me encara, incrédula, e eu a encaro de volta. Rodolfo, que até então estava deitado no tapete, levanta a cabeça como se tivesse entendido a conversa e decidido que aquela era a sua deixa para opinar.
— Nem comece — Marcela avisa ao cachorro.
— Está vendo, Rodolfo? Sua mãe é uma verdadeira ogra.
— Victoria.
— E autoritária — Continuo.
— Victoria.
— E tem problemas sérios com demonstrações de afeto.
— Você está descrevendo você mesma, não eu — Retruca.
— Ela não aceita perder também — continuo falando com o peludinho.
— Eu vou expulsar você da minha casa — Avisa.
— Mas está chovendo! — Faço drama.
— Posso deixar você no jardim.
— Isso seria crueldade contra uma funcionária.
Ela ri finalmente de verdade. E pronto. É isso. Eu poderia passar o resto da noite fazendo papel de palhaça para ouvir essa risada.
Depois de quase quinze minutos de negociações, chegamos a um acordo: um suspense com uma investigação policial, um desaparecimento misterioso e um protagonista que, segundo Marcela, parece ser o único adulto funcional do filme.
Eu discordo, o homem tomou três decisões questionáveis nos primeiros dez minutos.
— Ele está entrando na casa sozinho — comento, pegando um punhado de pipoca.
— Ele é um detetive — ela o defende.
— E daí? Detetives não têm medo? Não tem família? Não tem alguém que vá precisar reconhecer o corpo depois? — Digo irritada.
— Você consegue assistir a um filme sem narrar todas as decisões dos personagens? — Questiona.
— Consigo — como mais algumas pipocas. — Mas por que desperdiçar meu talento se eu posso te irritar com isso?
— Você devia trabalhar com crítica cinematográfica.
— Eu devia procurar um emprego extra para receber um dinheirinho — a encaro. — Você me deu uma ótima ideia, vou ver como trabalho com isso.
— Você recebe para trabalhar comigo — revira os olhos.
— E veja o resultado — solto uma risada — Sou uma profissional multifuncional.
Ela estica a mão para pegar pipoca da tigela no meu colo, nossos dedos se encostam por um instante. Nenhuma de nós comenta nada, e nenhuma de nós afasta a mão depressa demais, como provavelmente aconteceria se fosse há algumas semanas. E, por alguma razão, esse toque me faz prestar mais atenção à mão dela do que ao filme inteiro.
Marcela pega um punhado de pipoca e se ajeita no sofá, cruzando as pernas, completamente à vontade. É uma versão de Marcela que poucas pessoas conhecem. Uma versão que, aparentemente, também tem um cachorro mimado que acredita ser o dono da casa. Rodolfo se levanta do tapete, dá duas voltas no próprio eixo e apoia as patas dianteiras no sofá.
— Não — Marcela diz imediatamente.
O cachorro olha para ela e ela olha para ele, então ele inclina a cabeça e eu mordo o lábio para não rir.
— Você sabe que ele está usando a mesma estratégia que você usa comigo, não sabe? — Digo.
— Que estratégia? — Se faz de desentendida.
— Essa cara de coitado — falo — Ele quer alguma coisa e está esperando você ceder.
— Rodolfo não faz jogos emocionais — dá de ombros. — E eu não vou ceder.
O cachorro solta um pequeno gemido, Marcela olha para ele e o cachorro geme novamente.
— Ah, pelo amor de Deus — ela murmura.
Dois segundos depois, ela o pega no colo e o coloca entre nós. Fico olhando para a cena, incrédula.
— Impressionante — fico de boca aberta.
— O quê?
— A facilidade com que você quebra as próprias regras — começo a rir.
— Ele é um cachorro, não tem como subir sozinho.
— E eu sou uma funcionária — digo, como se fizesse algum sentido. — Também preciso de ajuda.
— Exatamente, senhorita funcionária — diz sarcástica. — Você pode se servir sozinha.
— Está vendo? Dois pesos e duas medidas — Resmungo.
Rodolfo se acomoda entre nós, vira duas vezes e deita finalmente a cabeça na minha coxa, como se tivesse decidido que eu sou um travesseiro perfeitamente aceitável. Automaticamente, começo a acariciar suas orelhas e ele fecha os olhos.
— Traidor — Marcela comenta.
— Ele reconhece qualidade quando encontra — Provoco.
— Ele reconhece uma pessoa com as mãos disponíveis para fazer carinho.
— É assim que começa — solto uma risada. — Primeiro, o carinho, depois, a confiança. Quando você perceber, ele estará dormindo na minha casa nos fins de semana.
— Ele não vai dormir na sua casa — diz, séria.
— Vamos ver — continuo o carinho nele. — Já temos uma conexão emocional.
— Você está tentando roubar meu cachorro? — Marcela vira o rosto para mim.
— Não, estou apenas construindo uma relação saudável com ele.
Ela pega uma pipoca e joga na minha direção, eu desvio, rindo. A pipoca cai no sofá, Rodolfo levanta a cabeça imediatamente.
— Não! — Marcela e eu dizemos juntas.
Ele nos olha, ofendido, como se não pudesse acreditar que duas adultas acabaram de negar a ele o direito básico de comer uma pipoca que nem sequer caiu no chão.
— Está vendo? — digo, apontando para Marcela. — É por isso que ele vai fugir com a primeira família que lhe oferecer melhores condições.
— Ele tem uma cama ortopédica — dá de ombros.
— Eu também tenho uma cama.
O filme segue, o detetive encontra uma pista, a trilha sonora fica tensa e a chuva bate mais forte contra a janela. Por alguns minutos, conseguimos ficar quietas. Ou quase.
— Ele é o assassino — digo.
— Quem? — Pergunta confusa.
— O vizinho — Explico.
— Ele apareceu há cinco minutos — Marcela olha para a tela.
— Justamente — confirmo minha teoria — personagem que aparece do nada sempre é suspeito.
— Você acabou de acusar o vizinho de assassinato porque ele apareceu na própria casa.
— Tenho instinto investigativo.
— Você suspeitou que o entregador de comida estivesse envolvido num esquema internacional de lavagem de dinheiro porque ele demorou a devolver o troco — me acusa.
— Ele estava nervoso — Justifico.
— Ele tinha vinte pedidos para entregar.
— Detalhes.
Marcela ri e, dessa vez, não tenta esconder. Quando volto a olhar para a televisão, percebo que ela continua sorrindo e é tão fácil ficar aqui que chega a ser perigoso.
Existe apenas uma noite chuvosa, um filme que provavelmente vamos terminar sem prestar atenção, um cachorro que decidiu se instalar no meu colo e uma mulher que me faz querer ficar mais em sua companhia.
A primeira vítima aparece na tela justamente quando Marcela estica o braço para alcançar a tigela de pipoca. Um grito estridente explode na televisão, ela dá um pulo tão grande que a mão acerta meu ombro, e a tigela quase voa do meu colo.
Eu solto um grito também, Rodolfo late e, por três segundos, a sala vira um cenário de desastre. Quando o silêncio retorna, estou com uma mão no peito, Marcela está agarrada ao meu braço e Rodolfo late para a televisão como se estivesse disposto a resolver o caso pessoalmente.
Olho para Marcela, a mão dela continua apertando meu braço.
— Você está me machucando — digo, embora não esteja.
— Você gritou — ela solta imediatamente e me acusa.
— Você também — faço o mesmo.
— Eu fui surpreendida — ajeita-se no sofá.
— E eu fui vítima de violência doméstica por parte de uma mulher que se diz emocionalmente estável.
— Você está exagerando — revira os olhos mais uma vez.
— Estou traumatizada — dramatizo. — Talvez nunca mais consiga assistir a um filme.
— Ótimo — diz, brava. — Assim você fica em silêncio.
Tento fazer uma expressão magoada, mas ela começa a rir antes que eu consiga terminar. Acabo rindo também e, quando percebo, estou deitada perto dela, com o rosto próximo ao seu ombro, enquanto Marcela ainda tenta recuperar o fôlego. Ela disfarça, finge que vai se espreguiçar e passa o braço atrás de mim, o que faz com que eu me aconchegue nela.
— Você devia ter visto sua cara — ela diz, evitando tocar no assunto de como estamos agora.
— Você devia ter visto a sua, toda medrosa agarrando meu braço.
— Eu estava impedindo você de derrubar a pipoca — fala orgulhosa.
— Uma heroína — Debocho.
— Cale a boca, Victoria.
Mas ela está sorrindo quando diz isso, e eu gosto tanto que quase cometo o erro de falar que adoro esses momentos em que ela esquece de ser a mulher que precisa ter tudo sob controle. Quase digo que gosto de vê-la assim, desarmada, confortável, perto de mim. Ou que, quando ela me olha daquele jeito, fica cada vez mais difícil lembrar que combinamos não nos apaixonar. Em vez disso, pego uma pipoca e coloco na boca.
— Você está muito mandona hoje — mudo de assunto.
— E você está muito falante.
— Posso resolver isso — viro o rosto para ela, sorrindo.
— Como? — Questiona, curiosa.
— Posso te beijar.
Marcela para de rir, mas não completamente. O sorriso continua no canto da boca, mas alguma coisa muda no olhar. E isso é o suficiente para fazer meu coração tropeçar.
— Você fala isso como se fosse uma solução para todos os seus problemas — ela murmura.
— Ainda não encontrei um problema que um beijo seu não tenha, pelo menos, piorado de um jeito interessante.
— Você está impossível.
— E você gosta.
Ela me encara por um instante e depois, lentamente, aproxima o rosto do meu.
— Infelizmente — Sussurra.
A proximidade começa como quase todos os nossos momentos: com um desafio disfarçado de brincadeira.
Sou eu quem avança primeiro, porque, aparentemente, não tenho autocontrole suficiente para ficar me segurando. Encosto os lábios nos dela por um instante, apenas o suficiente para provocar, e então me afasto.
— Isso foi um beijo? — Marcela estreita os olhos.
— Foi uma demonstração gratuita dos meus serviços.
— Péssima qualidade — reclama.
— Posso fazer uma segunda demonstração — sugiro — mas essa tem custo adicional.
— Você fala demais — ela segura meu queixo.
— Você reclama demais.
Dessa vez, é ela quem me beija e, honestamente, acho injusto que alguém possa me calar tão facilmente. O beijo se aprofunda por alguns instantes, até que esqueço completamente a existência do filme, da chuva e do detetive, que provavelmente está prestes a cometer mais uma decisão estúpida.
Minha mão encontra a cintura dela e a mão de Marcela desliza até a minha nuca. Quando nos afastamos, ficamos próximas o suficiente para que eu perceba o sorriso discreto nos lábios dela.
Rodolfo escolhe exatamente esse momento para levantar a cabeça e enfiar o focinho entre nossos rostos.
— Sério? — Olho para o cachorro, indignada.
— Ele está com ciúmes — diz.
— Você também fica assim quando eu dou atenção a outras pessoas?
— Você está comparando minha reação à sua atenção com a de um cachorro? — Sua expressão é cômica.
— Não — solto uma gargalhada. — Estou tentando descobrir se vocês têm algo em comum.
— Assista ao filme, Victoria. — Ela coloca uma almofada entre nós.
A almofada fica ali por aproximadamente quatro segundos. Então Rodolfo a empurra com as patas, se acomoda sobre ela e volta a dormir.
O filme está chegando à metade quando descubro que Marcela tem uma habilidade impressionante para fingir que não está com sono. Ela pisca devagar, muda de posição a cada dois minutos e boceja sempre que acha que não estou olhando.
— Você está com sono — digo.
— Não estou.
— Você acabou de bocejar.
— Estou entediada — Se justifica.
— Você escolheu o filme — lembro.
— Não significa que eu precise gostar dele. — Diz o obvio.
— Você é uma péssima espectadora — Brinco.
— E você é uma péssima convidada.
— Engraçado — começo a dizer. — Você pareceu bem feliz quando a péssima convidada ligou para ver qual seria o seu programa para esse sábado à noite.
— Você só quis vir porque a Helô te abandonou para ficar com a Chica novamente e você não tinha companhia.
— Claro — respondo, tentando parecer indiferente. — Afinal, seria uma pena deixar você sozinha com esse filme horrível.
— Exatamente — solta um sorrisinho.
— E com esse cachorro carente. — Aponto para Rodolfo.
— Ele não é carente.
— E com a possibilidade de sentir saudade da minha presença — digo, em um tom mais baixo.
— Não force a sorte.
Sorrio e volto a me acomodar nos braços dela, parece tão natural que quase consigo imaginar como seria se fizéssemos isso sempre.
Se ela chegasse do trabalho, largasse a bolsa sobre a mesa e reclamasse do trânsito enquanto eu preparasse alguma coisa para comer. Se Heloísa estivesse aqui, ocupando metade do sofá e exigindo que assistíssemos ao mesmo desenho pela quinta vez.
Ou se Rodolfo dormisse entre nós todas as noites, acreditando que tinha sido ele quem organizou aquela família. Se eu tivesse uma escova de dentes no banheiro de Marcela, que ninguém precisasse fingir ser uma coincidência.
Mas não temos esse tipo de relação, somos duas adultas que se desejam, que gostam da companhia uma da outra e que concordaram em não transformar isso em algo complicado.
— Victoria? — A voz de Marcela me tira dos pensamentos.
— Hum?
— Você parou de falar.
— Está reclamando porque eu estou em silêncio? — Olho para ela, surpresa.
— Estou desconfiada.
— Aproveite, não acontece com frequência.
Não sei exatamente quanto tempo passa até Marcela se mexer novamente. Quando percebo, o filme já acabou e passa o letreiro final, a chuva diminuiu um pouco e o cachorro continua dormindo. Marcela levanta a cabeça, esfrega os olhos e olha para a televisão.
— Eu perdi alguma coisa? — Pergunta, sonolenta.
— Sim.
— O quê? — Ela se ajeita e eu me afasto, dando espaço.
— O protagonista descobriu que o vizinho é o assassino.
— Você está brincando — pergunta, indignada.
— Não — sorriu, vitoriosa. — Eu avisei.
Meu celular vibra de repente, em cima da mesa de centro. Penso se olho o que é ou se não. Lembro que pode ser Chica com alguma notícia de Heloisa, então pego o celular para ver o que é.
Me surpreendo ao ver que não é nada relacionado à minha filha, é uma mensagem de Dora.
Não é nada demais, apenas uma brincadeira sobre uma conversa antiga, seguida de uma pergunta sobre como andam as coisas comigo. Respondo mentalmente antes mesmo de começar a digitar, lembrando de uma situação engraçada que vivemos e acabo sorrindo.
— Está rindo de quê? — Marcela pergunta.
Levanto os olhos, ela está olhando para a televisão, ou fingindo olhar. É difícil dizer, porque a cabeça dela está virada para a tela, mas o corpo continua ligeiramente inclinado na minha direção.
— De uma mensagem.
— Percebi.
Volto a olhar para o celular, digito uma resposta curta, acrescento um comentário brincalhão e envio. Quando guardo o aparelho, Marcela está ajeitando a almofada atrás das costas. Uma almofada que não precisava ser ajeitada.
— Quem era? — ela pergunta.
A pergunta vem num tom perfeitamente casual, tão casual que quase consigo ouvir o esforço. Viro o rosto para ela.
— Era a Dora.
O rosto dela muda, e noto que a mão que estava acariciando distraidamente Rodolfo para por um instante. Um instante mínimo, mas eu noto.
— Entendi — ela diz.
E volta a olhar para a televisão, só isso. Nenhuma pergunta adicional, nenhum comentário atravessado, nenhuma expressão que me permita entender o que está passando pela cabeça dela.
O que, considerando que estamos falando de Marcela Tavares, é quase uma façanha.
— Ela perguntou como eu estou — acrescento.
— Que gentil — a resposta é tão seca que preciso morder a parte interna da bochecha para não sorrir.
— Foi mesmo.
Marcela ajeita o cobertor sobre as pernas. Mais silêncio, o tipo de silêncio que, se tivesse legenda, provavelmente exibiria alguma coisa como: Marcela Tavares está processando informações que não solicitou receber.
Vê-la com ciúmes me faz pensar coisas, que eu daria de tudo para ela não se importar com isso, porque não há motivos para ela temer a presença de qualquer outra pessoa quando meus olhos só procuram por ela.
Porque, no fim das contas, a parte mais assustadora não é imaginar que eu possa um dia me apaixonar por Marcela Tavares.
É perceber que, em algum momento entre uma piada sobre pinguins e um beijo na testa, comecei a desejar que ela também estivesse pensando nisso. E que, pela primeira vez, não tenho tanta certeza se estamos seguindo as regras do contrato.
A chuva bate contra as janelas da sala da casa de Marcela como se São Pedro tivesse decidido lavar a cidade inteira naquela noite. O céu está escuro, o vento sopra com força e, de vez em quando, um trovão me faz olhar instintivamente para a janela, só para confirmar que o mundo continua, não desabou.
É o cenário perfeito para ficar em casa, debaixo de um cobertor, assistindo a um filme ruim e fingindo que a vida não tem boletos, responsabilidades ou uma chefe insuportavelmente bonita que não para de me chamar atenção.
O problema é que a chefe insuportavelmente bonita está sentada a menos de um metro de mim e eu estou novamente na casa dela. Em um sábado à noite. De pijama.
Com o cabelo de qualquer jeito, uma meia de cada cor e uma tigela de pipoca no colo. Se alguém me contasse, alguns meses atrás, que eu passaria uma noite assim com Marcela Tavares, eu provavelmente perguntaria onde estava a câmera escondida, pois provavelmente seria uma pegadinha. Depois, perguntaria se a pessoa precisava de ajuda psicológica.
Agora, aqui estou eu, por livre e espontânea vontade.
— Você está olhando para a televisão ou para mim? — Marcela pergunta, sem tirar os olhos da tela.
— Para a televisão, obviamente — Pisco, voltando à realidade.
— Interessante — solta uma risadinha — porque a televisão está desligada.
Olho para a tela preta, depois olho para ela e novamente para a tela. Droga, ela me pegou desprevenida.
— Estou avaliando a qualidade da imagem antes de começarmos — invento qualquer desculpa.
Marcela vira o rosto lentamente na minha direção, com aquela expressão de quem está considerando se vale a pena me humilhar por isso.
— Você é sempre tão convincente ou faz um esforço especial quando está comigo? — Resolveu me humilhar.
— É um talento natural — respondo. — Algumas pessoas nascem com beleza, outras com inteligência, enquanto eu nasci com a capacidade de improvisar diante de situações constrangedoras.
— Então você deve improvisar bastante — solta uma risada — já que está sempre em uma situação constrangedora.
— Marcela, eu vim à sua casa para ter uma noite tranquila, não para sofrer assédio moral — reviro os olhos.
— Assédio moral? — Ela ergue uma sobrancelha. — Você está sentada no meu sofá, usando minhas roupas, comendo minha pipoca e prestes a escolher um filme na minha televisão. Eu diria que você está muito confortável para alguém que se considera vítima de assédio.
Olho para a roupa que estou usando. É dela, uma regata preta, macia, que encontrei depois de tomar banho, porque a chuva resolveu transformar a minha roupa numa esponja enquanto vim para cá.
— Primeiro — ergo o dedo indicador — esta camiseta estava abandonada...
— No meu armário. — Me interrompe.
— Exatamente — volto a falar. — Sem uso, uma situação triste, inclusive. Estou dando a oportunidade de ela ser usada.
— E a minha calça de moletom?
— Caridade.
Marcela solta uma gargalhada, o que me faz sorrir antes mesmo de perceber. Gosto de fazê-la rir, mais do que deveria.
Esse é o tipo de informação que não pretendo compartilhar com ninguém, principalmente com a própria interessada.
— Escolha logo o filme, Victoria — ela ordena, entregando o controle remoto. — Antes que eu me arrependa de ter convidado você.
— Você não me convidou — acuso. — Eu perguntei se podia vir.
— E eu disse que sim — dá de ombros.
— Porque sentiu saudade — faço a brincadeira.
— Porque estava chovendo.
— Você poderia ter assistido a um filme sozinha — continuo provocando-a.
— Poderia.
— Poderia ter pedido comida sozinha.
— Poderia.
— Poderia ter passado a noite inteira sem ouvir a minha voz te irritando.
— Essa última parte seria um benefício considerável — fala animada.
— Você é cruel — coloco a mão sobre o peito, fingindo que estou ofendida. — Um dia ainda vai se arrepender de tratar assim a mulher da sua vida.
O silêncio que vem depois torna o momento constrangedor novamente. Mas Marcela desvia os olhos para a televisão, pega uma almofada e a acomoda atrás das costas.
— A mulher da minha vida está demorando demais para escolher um filme. — Sua voz sai um pouco baixa.
Meu sorriso diminui um pouquinho, pois dizemos coisas que parecem brincadeiras, fazemos coisas que parecem carinho e nos olhamos de um jeito que definitivamente não combina com a nossa suposta falta de compromisso.
Depois, nos escondemos atrás de uma piada, de uma reunião ou de qualquer coisa que nos tire dessa bolha de casalzinho. Somos duas covardes com uma química absurda.
— Vou escolher uma comédia romântica — eu anuncio.
— Não — Marcela vira a cabeça tão depressa que quase me faz rir.
— Como assim, não? — Questiono.
— Não vou assistir a duas pessoas se apaixonando durante duas horas porque uma delas é incapaz de admitir que gosta da outra.
— Você acabou de descrever metade dos nossos problemas — deixo escapar.
— Escolha outro gênero — finge não me ouvir.
— Terror?
— Não.
— Suspense?
— Pode ser.
— Um documentário sobre a vida dos pinguins? — Seguro o riso.
— Por que pinguins? — Ela franze a testa
— Porque são monogâmicos em algumas espécies e eu acho que você combina com eles, gosta desse lance de amorzinho, mas precisa aprender a não ser uma pedrinha de gelo.
Marcela me encara, incrédula, e eu a encaro de volta. Rodolfo, que até então estava deitado no tapete, levanta a cabeça como se tivesse entendido a conversa e decidido que aquela era a sua deixa para opinar.
— Nem comece — Marcela avisa ao cachorro.
— Está vendo, Rodolfo? Sua mãe é uma verdadeira ogra.
— Victoria.
— E autoritária — Continuo.
— Victoria.
— E tem problemas sérios com demonstrações de afeto.
— Você está descrevendo você mesma, não eu — Retruca.
— Ela não aceita perder também — continuo falando com o peludinho.
— Eu vou expulsar você da minha casa — Avisa.
— Mas está chovendo! — Faço drama.
— Posso deixar você no jardim.
— Isso seria crueldade contra uma funcionária.
Ela ri finalmente de verdade. E pronto. É isso. Eu poderia passar o resto da noite fazendo papel de palhaça para ouvir essa risada.
Depois de quase quinze minutos de negociações, chegamos a um acordo: um suspense com uma investigação policial, um desaparecimento misterioso e um protagonista que, segundo Marcela, parece ser o único adulto funcional do filme.
Eu discordo, o homem tomou três decisões questionáveis nos primeiros dez minutos.
— Ele está entrando na casa sozinho — comento, pegando um punhado de pipoca.
— Ele é um detetive — ela o defende.
— E daí? Detetives não têm medo? Não tem família? Não tem alguém que vá precisar reconhecer o corpo depois? — Digo irritada.
— Você consegue assistir a um filme sem narrar todas as decisões dos personagens? — Questiona.
— Consigo — como mais algumas pipocas. — Mas por que desperdiçar meu talento se eu posso te irritar com isso?
— Você devia trabalhar com crítica cinematográfica.
— Eu devia procurar um emprego extra para receber um dinheirinho — a encaro. — Você me deu uma ótima ideia, vou ver como trabalho com isso.
— Você recebe para trabalhar comigo — revira os olhos.
— E veja o resultado — solto uma risada — Sou uma profissional multifuncional.
Ela estica a mão para pegar pipoca da tigela no meu colo, nossos dedos se encostam por um instante. Nenhuma de nós comenta nada, e nenhuma de nós afasta a mão depressa demais, como provavelmente aconteceria se fosse há algumas semanas. E, por alguma razão, esse toque me faz prestar mais atenção à mão dela do que ao filme inteiro.
Marcela pega um punhado de pipoca e se ajeita no sofá, cruzando as pernas, completamente à vontade. É uma versão de Marcela que poucas pessoas conhecem. Uma versão que, aparentemente, também tem um cachorro mimado que acredita ser o dono da casa. Rodolfo se levanta do tapete, dá duas voltas no próprio eixo e apoia as patas dianteiras no sofá.
— Não — Marcela diz imediatamente.
O cachorro olha para ela e ela olha para ele, então ele inclina a cabeça e eu mordo o lábio para não rir.
— Você sabe que ele está usando a mesma estratégia que você usa comigo, não sabe? — Digo.
— Que estratégia? — Se faz de desentendida.
— Essa cara de coitado — falo — Ele quer alguma coisa e está esperando você ceder.
— Rodolfo não faz jogos emocionais — dá de ombros. — E eu não vou ceder.
O cachorro solta um pequeno gemido, Marcela olha para ele e o cachorro geme novamente.
— Ah, pelo amor de Deus — ela murmura.
Dois segundos depois, ela o pega no colo e o coloca entre nós. Fico olhando para a cena, incrédula.
— Impressionante — fico de boca aberta.
— O quê?
— A facilidade com que você quebra as próprias regras — começo a rir.
— Ele é um cachorro, não tem como subir sozinho.
— E eu sou uma funcionária — digo, como se fizesse algum sentido. — Também preciso de ajuda.
— Exatamente, senhorita funcionária — diz sarcástica. — Você pode se servir sozinha.
— Está vendo? Dois pesos e duas medidas — Resmungo.
Rodolfo se acomoda entre nós, vira duas vezes e deita finalmente a cabeça na minha coxa, como se tivesse decidido que eu sou um travesseiro perfeitamente aceitável. Automaticamente, começo a acariciar suas orelhas e ele fecha os olhos.
— Traidor — Marcela comenta.
— Ele reconhece qualidade quando encontra — Provoco.
— Ele reconhece uma pessoa com as mãos disponíveis para fazer carinho.
— É assim que começa — solto uma risada. — Primeiro, o carinho, depois, a confiança. Quando você perceber, ele estará dormindo na minha casa nos fins de semana.
— Ele não vai dormir na sua casa — diz, séria.
— Vamos ver — continuo o carinho nele. — Já temos uma conexão emocional.
— Você está tentando roubar meu cachorro? — Marcela vira o rosto para mim.
— Não, estou apenas construindo uma relação saudável com ele.
Ela pega uma pipoca e joga na minha direção, eu desvio, rindo. A pipoca cai no sofá, Rodolfo levanta a cabeça imediatamente.
— Não! — Marcela e eu dizemos juntas.
Ele nos olha, ofendido, como se não pudesse acreditar que duas adultas acabaram de negar a ele o direito básico de comer uma pipoca que nem sequer caiu no chão.
— Está vendo? — digo, apontando para Marcela. — É por isso que ele vai fugir com a primeira família que lhe oferecer melhores condições.
— Ele tem uma cama ortopédica — dá de ombros.
— Eu também tenho uma cama.
O filme segue, o detetive encontra uma pista, a trilha sonora fica tensa e a chuva bate mais forte contra a janela. Por alguns minutos, conseguimos ficar quietas. Ou quase.
— Ele é o assassino — digo.
— Quem? — Pergunta confusa.
— O vizinho — Explico.
— Ele apareceu há cinco minutos — Marcela olha para a tela.
— Justamente — confirmo minha teoria — personagem que aparece do nada sempre é suspeito.
— Você acabou de acusar o vizinho de assassinato porque ele apareceu na própria casa.
— Tenho instinto investigativo.
— Você suspeitou que o entregador de comida estivesse envolvido num esquema internacional de lavagem de dinheiro porque ele demorou a devolver o troco — me acusa.
— Ele estava nervoso — Justifico.
— Ele tinha vinte pedidos para entregar.
— Detalhes.
Marcela ri e, dessa vez, não tenta esconder. Quando volto a olhar para a televisão, percebo que ela continua sorrindo e é tão fácil ficar aqui que chega a ser perigoso.
Existe apenas uma noite chuvosa, um filme que provavelmente vamos terminar sem prestar atenção, um cachorro que decidiu se instalar no meu colo e uma mulher que me faz querer ficar mais em sua companhia.
A primeira vítima aparece na tela justamente quando Marcela estica o braço para alcançar a tigela de pipoca. Um grito estridente explode na televisão, ela dá um pulo tão grande que a mão acerta meu ombro, e a tigela quase voa do meu colo.
Eu solto um grito também, Rodolfo late e, por três segundos, a sala vira um cenário de desastre. Quando o silêncio retorna, estou com uma mão no peito, Marcela está agarrada ao meu braço e Rodolfo late para a televisão como se estivesse disposto a resolver o caso pessoalmente.
Olho para Marcela, a mão dela continua apertando meu braço.
— Você está me machucando — digo, embora não esteja.
— Você gritou — ela solta imediatamente e me acusa.
— Você também — faço o mesmo.
— Eu fui surpreendida — ajeita-se no sofá.
— E eu fui vítima de violência doméstica por parte de uma mulher que se diz emocionalmente estável.
— Você está exagerando — revira os olhos mais uma vez.
— Estou traumatizada — dramatizo. — Talvez nunca mais consiga assistir a um filme.
— Ótimo — diz, brava. — Assim você fica em silêncio.
Tento fazer uma expressão magoada, mas ela começa a rir antes que eu consiga terminar. Acabo rindo também e, quando percebo, estou deitada perto dela, com o rosto próximo ao seu ombro, enquanto Marcela ainda tenta recuperar o fôlego. Ela disfarça, finge que vai se espreguiçar e passa o braço atrás de mim, o que faz com que eu me aconchegue nela.
— Você devia ter visto sua cara — ela diz, evitando tocar no assunto de como estamos agora.
— Você devia ter visto a sua, toda medrosa agarrando meu braço.
— Eu estava impedindo você de derrubar a pipoca — fala orgulhosa.
— Uma heroína — Debocho.
— Cale a boca, Victoria.
Mas ela está sorrindo quando diz isso, e eu gosto tanto que quase cometo o erro de falar que adoro esses momentos em que ela esquece de ser a mulher que precisa ter tudo sob controle. Quase digo que gosto de vê-la assim, desarmada, confortável, perto de mim. Ou que, quando ela me olha daquele jeito, fica cada vez mais difícil lembrar que combinamos não nos apaixonar. Em vez disso, pego uma pipoca e coloco na boca.
— Você está muito mandona hoje — mudo de assunto.
— E você está muito falante.
— Posso resolver isso — viro o rosto para ela, sorrindo.
— Como? — Questiona, curiosa.
— Posso te beijar.
Marcela para de rir, mas não completamente. O sorriso continua no canto da boca, mas alguma coisa muda no olhar. E isso é o suficiente para fazer meu coração tropeçar.
— Você fala isso como se fosse uma solução para todos os seus problemas — ela murmura.
— Ainda não encontrei um problema que um beijo seu não tenha, pelo menos, piorado de um jeito interessante.
— Você está impossível.
— E você gosta.
Ela me encara por um instante e depois, lentamente, aproxima o rosto do meu.
— Infelizmente — Sussurra.
A proximidade começa como quase todos os nossos momentos: com um desafio disfarçado de brincadeira.
Sou eu quem avança primeiro, porque, aparentemente, não tenho autocontrole suficiente para ficar me segurando. Encosto os lábios nos dela por um instante, apenas o suficiente para provocar, e então me afasto.
— Isso foi um beijo? — Marcela estreita os olhos.
— Foi uma demonstração gratuita dos meus serviços.
— Péssima qualidade — reclama.
— Posso fazer uma segunda demonstração — sugiro — mas essa tem custo adicional.
— Você fala demais — ela segura meu queixo.
— Você reclama demais.
Dessa vez, é ela quem me beija e, honestamente, acho injusto que alguém possa me calar tão facilmente. O beijo se aprofunda por alguns instantes, até que esqueço completamente a existência do filme, da chuva e do detetive, que provavelmente está prestes a cometer mais uma decisão estúpida.
Minha mão encontra a cintura dela e a mão de Marcela desliza até a minha nuca. Quando nos afastamos, ficamos próximas o suficiente para que eu perceba o sorriso discreto nos lábios dela.
Rodolfo escolhe exatamente esse momento para levantar a cabeça e enfiar o focinho entre nossos rostos.
— Sério? — Olho para o cachorro, indignada.
— Ele está com ciúmes — diz.
— Você também fica assim quando eu dou atenção a outras pessoas?
— Você está comparando minha reação à sua atenção com a de um cachorro? — Sua expressão é cômica.
— Não — solto uma gargalhada. — Estou tentando descobrir se vocês têm algo em comum.
— Assista ao filme, Victoria. — Ela coloca uma almofada entre nós.
A almofada fica ali por aproximadamente quatro segundos. Então Rodolfo a empurra com as patas, se acomoda sobre ela e volta a dormir.
O filme está chegando à metade quando descubro que Marcela tem uma habilidade impressionante para fingir que não está com sono. Ela pisca devagar, muda de posição a cada dois minutos e boceja sempre que acha que não estou olhando.
— Você está com sono — digo.
— Não estou.
— Você acabou de bocejar.
— Estou entediada — Se justifica.
— Você escolheu o filme — lembro.
— Não significa que eu precise gostar dele. — Diz o obvio.
— Você é uma péssima espectadora — Brinco.
— E você é uma péssima convidada.
— Engraçado — começo a dizer. — Você pareceu bem feliz quando a péssima convidada ligou para ver qual seria o seu programa para esse sábado à noite.
— Você só quis vir porque a Helô te abandonou para ficar com a Chica novamente e você não tinha companhia.
— Claro — respondo, tentando parecer indiferente. — Afinal, seria uma pena deixar você sozinha com esse filme horrível.
— Exatamente — solta um sorrisinho.
— E com esse cachorro carente. — Aponto para Rodolfo.
— Ele não é carente.
— E com a possibilidade de sentir saudade da minha presença — digo, em um tom mais baixo.
— Não force a sorte.
Sorrio e volto a me acomodar nos braços dela, parece tão natural que quase consigo imaginar como seria se fizéssemos isso sempre.
Se ela chegasse do trabalho, largasse a bolsa sobre a mesa e reclamasse do trânsito enquanto eu preparasse alguma coisa para comer. Se Heloísa estivesse aqui, ocupando metade do sofá e exigindo que assistíssemos ao mesmo desenho pela quinta vez.
Ou se Rodolfo dormisse entre nós todas as noites, acreditando que tinha sido ele quem organizou aquela família. Se eu tivesse uma escova de dentes no banheiro de Marcela, que ninguém precisasse fingir ser uma coincidência.
Mas não temos esse tipo de relação, somos duas adultas que se desejam, que gostam da companhia uma da outra e que concordaram em não transformar isso em algo complicado.
— Victoria? — A voz de Marcela me tira dos pensamentos.
— Hum?
— Você parou de falar.
— Está reclamando porque eu estou em silêncio? — Olho para ela, surpresa.
— Estou desconfiada.
— Aproveite, não acontece com frequência.
Não sei exatamente quanto tempo passa até Marcela se mexer novamente. Quando percebo, o filme já acabou e passa o letreiro final, a chuva diminuiu um pouco e o cachorro continua dormindo. Marcela levanta a cabeça, esfrega os olhos e olha para a televisão.
— Eu perdi alguma coisa? — Pergunta, sonolenta.
— Sim.
— O quê? — Ela se ajeita e eu me afasto, dando espaço.
— O protagonista descobriu que o vizinho é o assassino.
— Você está brincando — pergunta, indignada.
— Não — sorriu, vitoriosa. — Eu avisei.
Meu celular vibra de repente, em cima da mesa de centro. Penso se olho o que é ou se não. Lembro que pode ser Chica com alguma notícia de Heloisa, então pego o celular para ver o que é.
Me surpreendo ao ver que não é nada relacionado à minha filha, é uma mensagem de Dora.
Não é nada demais, apenas uma brincadeira sobre uma conversa antiga, seguida de uma pergunta sobre como andam as coisas comigo. Respondo mentalmente antes mesmo de começar a digitar, lembrando de uma situação engraçada que vivemos e acabo sorrindo.
— Está rindo de quê? — Marcela pergunta.
Levanto os olhos, ela está olhando para a televisão, ou fingindo olhar. É difícil dizer, porque a cabeça dela está virada para a tela, mas o corpo continua ligeiramente inclinado na minha direção.
— De uma mensagem.
— Percebi.
Volto a olhar para o celular, digito uma resposta curta, acrescento um comentário brincalhão e envio. Quando guardo o aparelho, Marcela está ajeitando a almofada atrás das costas. Uma almofada que não precisava ser ajeitada.
— Quem era? — ela pergunta.
A pergunta vem num tom perfeitamente casual, tão casual que quase consigo ouvir o esforço. Viro o rosto para ela.
— Era a Dora.
O rosto dela muda, e noto que a mão que estava acariciando distraidamente Rodolfo para por um instante. Um instante mínimo, mas eu noto.
— Entendi — ela diz.
E volta a olhar para a televisão, só isso. Nenhuma pergunta adicional, nenhum comentário atravessado, nenhuma expressão que me permita entender o que está passando pela cabeça dela.
O que, considerando que estamos falando de Marcela Tavares, é quase uma façanha.
— Ela perguntou como eu estou — acrescento.
— Que gentil — a resposta é tão seca que preciso morder a parte interna da bochecha para não sorrir.
— Foi mesmo.
Marcela ajeita o cobertor sobre as pernas. Mais silêncio, o tipo de silêncio que, se tivesse legenda, provavelmente exibiria alguma coisa como: Marcela Tavares está processando informações que não solicitou receber.
Vê-la com ciúmes me faz pensar coisas, que eu daria de tudo para ela não se importar com isso, porque não há motivos para ela temer a presença de qualquer outra pessoa quando meus olhos só procuram por ela.
Porque, no fim das contas, a parte mais assustadora não é imaginar que eu possa um dia me apaixonar por Marcela Tavares.
É perceber que, em algum momento entre uma piada sobre pinguins e um beijo na testa, comecei a desejar que ela também estivesse pensando nisso. E que, pela primeira vez, não tenho tanta certeza se estamos seguindo as regras do contrato.
Fim do capítulo

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