Marcela
Estou começando a considerar seriamente a possibilidade de contratar uma segunda versão de mim mesma. Preciso de uma para cuidar da editora, outra para organizar a festa anual, uma terceira para revisar os contratos que se acumulam sobre a minha mesa.
E, se possível, uma quarta exclusivamente para lidar com as pessoas que parecem ter desenvolvido uma habilidade impressionante de me procurar exatamente quando estou prestes a perder a paciência. Eu quero afogar todas em algum lago.
Olho para a tela do computador, depois para a pilha de documentos esquecidos no canto da minha mesa e, por último, para o relógio. São onze e quarenta e três.
Ainda tenho alguns e-mails para responder, uma reunião totalmente desnecessária, dois fornecedores da festa anual esperando minha confirmação e uma planilha que insiste em apresentar números diferentes daqueles que eu mesma conferi cinco vezes, sem contar o decorador da festa, que está me dando nos nervos. Apenas respiro fundo.
— Eu vou demitir alguém — deixo meu pensamento intrusivo vencer.
— Você fala isso pelo menos duas vezes por semana — comenta Victoria, do outro lado da minha mesa.
Olho em sua direção, ela está sentada com as pernas cruzadas, o tablet apoiado sobre as coxas e uma expressão de absoluta tranquilidade que me parece ofensiva diante do caos que ameaça consumir a minha manhã.
— E, ainda assim, eu continuo cercada de incompetentes — Bufo.
— Talvez o problema seja você — solta uma risadinha que eu não acho graça nenhuma.
Victoria ergue os olhos do tablet, percebe a minha expressão e abre um sorriso tão pequeno quanto descarado, ela ama fazer isso.
— Eu estou brincando — diz, como se estivesse falando com qualquer amiga sua.
— Você está muito confortável para alguém que depende desse emprego — arqueio uma sobrancelha. — A primeira a ser demitida será você.
— E você está muito mal-humorada para alguém que precisa da minha companhia e dos meus serviços.
O pior é que ela tem razão, e o pior do pior é que eu gosto quando ela me enfrenta. Eu sei que não deveria, afinal eu sou a chefe dela. Existe uma hierarquia, uma estrutura organizacional, uma descrição de cargo e uma série de outras coisas que, em teoria, deveriam me ajudar a manter algum controle sobre essa mulher.
Porém, na prática, Victoria Almeida parece ter recebido um manual de instruções sobre como me tirar do sério e decidiu ignorar todas as recomendações de segurança e tornar disso uma missão em sua vida.
Ela volta a atenção para o tablet, completamente satisfeita consigo mesma. Observo a maneira como prende uma mecha de cabelo atrás da orelha, o movimento distraído dos dedos sobre a tela e a postura relaxada na cadeira.
É irritante. É extremamente irritante que alguém consiga parecer tão bonita sem fazer absolutamente nada.
— Vic — chamo sua atenção.
— Hm? — Responde, distraída.
— Você já almoçou?
— Ainda não. Por quê? — Ela levanta a cabeça.
Olho novamente para o relógio, minha agenda está apertada, mas consigo reservar uma hora para almoçar. Talvez uma hora e quinze, se eu não precisar assassinar ninguém antes de sair.
— Pensei em irmos almoçar juntas — digo, como quem não quer parecer super casual.
— Hoje? — Victoria me encara, aparentemente surpresa com o convite.
— Não, Victoria. No Natal do próximo ano — reviro os olhos — claro que hoje.
— Nossa, que delicadeza — solta uma risada sarcástica. — Estou até emocionada.
— Posso retirar o convite.
— Não precisa, chefe. — Ela ergue as mãos, rendida. — Eu adoraria, mas combinei de almoçar com as meninas hoje. A Chica está praticamente me ameaçando há dois dias porque, segundo ela, eu só sei trabalhar e cuidar da Heloísa e passar tempo com você.
— E ela está errada? — Provoco.
— Não, mas você não precisa concordar tão rápido.
Finjo voltar a atenção para o computador, embora a informação tenha provocado uma pequena decepção que eu preferiria não reconhecer.
Eu queria almoçar com Victoria. Não era como se eu tivesse planejado um encontro romântico, reservado uma mesa à luz de velas ou escolhido um restaurante com base na qualidade da carta de vinhos.
Eu só queria passar algum tempo com ela sem precisar discutir prazos, documentos ou os problemas da editora. Talvez vê-la sorrir daquele jeito que faz surgir uma covinha discreta na bochecha esquerda. Ou, quem sabe, descobrir se ela continuaria me chamando de mal-humorada quando eu estivesse comendo algo.
— Tudo bem — respondo, tentando parecer indiferente. — Vá com suas amigas.
— Obrigada pela compreensão — usa seu sarcasmo mais uma vez.
— Não se atrase na volta. — Digo sem pensar.
— E lá se foi a compreensão — Debocha.
— Estou falando sério.
— Eu sei. — Ela se levanta, pega o tablet e ajeita a camisa dentro da calça. — Prometo voltar no horário, senhora Tavares.
O modo como ela pronuncia meu sobrenome tem alguma coisa de provocação, eu não consigo responder nada, apenas fico encarando-a, enquanto ela dá um sorriso insolente antes de sair da sala.
Fico olhando para a porta fechada por alguns segundos, depois volto para o computador.
Cinco minutos se passam, talvez sete, não sei ao certo. Mas, quando percebo que reli o mesmo parágrafo de um contrato três vezes sem absorver absolutamente nada, fecho o documento com um suspiro.
Ótimo. Agora, além de todos os meus problemas, também estou sendo distraída por uma mulher que nem sequer está na sala.
******
Ao meio-dia, decido que vou almoçar na própria editora. É a escolha mais sensata. Peço alguma comida e, assim, uma quantidade razoável de tarefas que poderiam ser concluídas enquanto como.
Pego o celular e mando uma mensagem para Marina. Ontem ela me ligou dizendo que precisava conversar, ter um momento comigo.
Eu: Vou almoçar aqui mesmo.
Se precisar de mim, estarei no escritório.
Marina: Você está de castigo?
Eu: Estou trabalhando.
Marina: É praticamente a mesma coisa,
considerando a sua personalidade.
Eu: Não tenho tempo para você.
Marina: Mas tem tempo para responder
às minhas mensagens. Interessante.
Ignoro a última mensagem e tento me distrair com as coisas que preciso fazer. Alguns minutos depois, encaro novamente meu celular. Nenhuma mensagem de Victoria.
Ela está almoçando com as amigas, conversando, rindo e provavelmente falando mal da própria chefe.
Não que eu me importe. Por que eu deveria me importar?
Volto a trabalhar. Cinco minutos depois, recebo uma ligação de um dos fornecedores da festa. Dez minutos, ainda estou em minha mesa, sem nem ter pedido algo para comer.
A ligação com o fornecedor se transforma em uma discussão sobre a iluminação do salão. A discussão leva a uma alteração no orçamento. A alteração exige uma nova aprovação, e a nova aprovação me obriga a revisar uma planilha inteira.
Quando desligo, olho para a tela do computador com a sensação de que envelheci três anos em vinte minutos.
— Chega — digo a mim mesma.
Levanto-me, pego a bolsa e visto o blazer que havia deixado pendurado em minha cadeira. Preciso sair. Preciso comer alguma coisa que não venha de um recipiente de plástico.
E preciso conferir pessoalmente algumas opções de decoração que um fornecedor insistiu em descrever como elegantes e modernas, duas palavras que, na experiência dele, parecem significar qualquer coisa que tenha uma lâmpada e custe mais do que deveria. Estou começando a pensar que preciso de um novo decorador.
Pego o celular e ligo para Marina, e ela atende no segundo toque.
— Se você estiver ligando para me pedir alguma coisa, a resposta é não — diz, magoada.
— Que bom que você está disponível para uma conversa agradável — reviro os olhos. — Vamos almoçar.
— Agora?
— Não, Marina — que mania das pessoas questionarem o óbvio — amanhã, quando eu já tiver morrido de fome.
— Está bem — ela ri. — Onde?
— Vou escolher um restaurante perto daqui, assim você me ajuda com algumas coisas sobre a festa anual, e eu quero sair deste prédio antes que comece a arrancar os cabelos de alguém.
— Perfeito, estou por perto, não demorarei a chegar.
Desligo e pego os documentos que preciso levar. Chego antes que minha amiga, então escolho uma mesa mais reservada, porém com vista direta para a porta.
Ela realmente não demora muito a chegar, foi o tempo que precisei para aprovar um documento que o setor de marketing.
— Você está com uma cara péssima — é a primeira coisa que ela diz ao se sentar na mesa.
— Obrigada — respondo. — Muito gentil da sua parte.
— De nada. Estou aqui para ajudar.
Marina é uma das minhas amigas mais próximas, daquelas que me lê só com um olhar, me faz falar como me sinto, mesmo quando quero ficar em silêncio.
— A Victoria foi almoçar com a Chica e as outras meninas? — ela pergunta casualmente.
— Foi — desvio o olhar.
— E você ficou sozinha?
— Eu quis sua companhia, Marina.
— Claro — debocha. — É que falei com a Chica e ela me contou que iria almoçar com as meninas, incluindo sua namorada, e, segundos depois, você lembrou que tinha tempo para a sua amiga que, por coincidência, recebeu uma mensagem sua dizendo que estava super ocupada.
— Você está tentando chegar a algum lugar com essa análise? — Sou direta.
— Estou tentando descobrir que bicho te mordeu.
O garçom se aproxima e aproveitamos para fazer nossos pedidos. Marina pede uma massa enquanto eu escolho um filé com legumes.
Assim que o garçom se afasta, abro a pasta com as informações da festa.
— Preciso rever a disposição das mesas. O fornecedor quer colocar os convidados principais perto do palco, mas isso prejudica a circulação. Também preciso confirmar a iluminação e decidir se vou manter a apresentação musical antes ou depois dos discursos. O que você acha?
— Você sabe que eu sou sua amiga, não sua funcionária, certo? — Marina apoia o queixo na mão.
— Infelizmente, sei.
— Então guarde essa pasta por cinco minutos e me conte sobre a sua namorada.
— Eu sabia que não deveria ter convidado você — fecho os olhos.
— E eu sabia que você não conseguiria passar cinco minutos sem falar dela. — Solta uma risada.
— Não estou falando da Victoria — digo, indignada.
— Está pensando nela.
— Você tem alguma espécie de câmera instalada na minha cabeça? — Debocho.
— Não preciso — solta uma risada. — Todas às vezes que conversamos no telefone, você sempre fala dela e, quando é pessoalmente, você fica com uma expressão diferente sempre que alguém menciona o nome dela.
— Que expressão? — Fico curiosa.
Marina imita uma pessoa tentando parecer indiferente, apertando os lábios e franzindo a testa.
— Essa. Como se estivesse decidindo se manda a pessoa embora ou se pede para ela ficar mais cinco minutos.
Fico olhando para a minha amiga, decidindo se eu mando ela embora ou se deixo ela ficar. Que atrevida, com toda a certeza desse mundo que eu não faço essa cara.
— Eu não faço isso.
— Faz, sim — balança a cabeça positivamente, igual a uma criança pequena.
— Marina, eu tenho trinta e oito anos, dirijo uma editora e sou perfeitamente capaz de administrar os meus sentimentos e não ficar agindo como uma adolescente apaixonada.
— Disse a mulher, que mandou um fornecedor refazer um orçamento inteiro porque ele usou a palavra “aproximadamente”.
— Ele estava sendo impreciso. — Me justifico.
— E você fica encarando o celular a cada minuto, esperando alguma mensagem da Victoria.
— Eu estou esperando uma resposta sobre um documento. — Inventou a primeira desculpa que me vem à mente.
— Que documento? — Me desafia.
Silêncio. Não há como eu pensar rápido o suficiente para inventar mais uma desculpa, e isso me entrega. Marina abre um sorriso triunfante.
— Exatamente o que pensei — completa.
Pego meu copo de água e bebo um gole, tentando ganhar alguns segundos para formular uma resposta que não envolva ameaçar a integridade física da minha melhor amiga.
— Estamos bem — digo, me dando por vencida.
— Eu sei que vocês estão bem — a expressão dela muda. — Quero saber como você está.
A pergunta é simples, mas o tom, não. Marina me conhece há anos, sabe as minhas manias, as minhas defesas e, principalmente, a minha tendência a transformar qualquer sentimento que pareça grande demais em uma lista de problemas que precisam ser resolvidos. Ou melhor, controlados.
É mais fácil discutir um orçamento do que admitir que alguém está se tornando importante demais, ou mais fácil organizar uma festa para trezentas pessoas do que explicar por que uma única mulher consegue alterar o meu humor com uma frase.
— Estou bem — repito, dessa vez sem tanta firmeza.
Marina não insiste imediatamente, primeiro me analisa, respeita meu espaço enquanto o garçom traz nossos pratos, e aproveito a oportunidade para mudar de assunto.
— A propósito, preciso decidir quem vai apresentar a premiação dos novos autores.
— Você é muito ruim nisso — ela me observa.
— Em quê? — Me faço de desentendida.
— Em fugir de assuntos.
— Não estou fugindo.
— Claro que não — me acusa. — Está apenas tentando me fazer discutir a programação da festa no meio do almoço.
— É uma festa importante. — Pego os talheres.
— E a Victoria é importante para você.
O movimento da minha mão diminui e Marina percebe. É claro que percebe, ela está fazendo uma análise de cada movimento meu ou fala minha desde que chegou.
— Eu não disse que não é — respondo.
— Então fale sobre ela.
— O que exatamente você quer saber? — Suspiro.
— Tudo.
— Isso não é uma pergunta.
— Comece pelo que você mais gosta nela.
— Marina! — Quase engasgo com a comida.
Ela ri tão alto que duas pessoas na mesa ao lado olham em nossa direção, e eu morro de vergonha.
— Meu Deus, você ficou vermelha — continua rindo. — Eu nunca imaginei que viveria para ver esse dia.
— Você está fazendo um escândalo. — Digo entredentes.
— E você está apaixonada.
Olho ao redor, certificando-me de que ninguém conhecido está prestando atenção à nossa conversa.
— Podemos falar mais baixo? — A repreendo.
— Podemos — dá de ombros — desde que você responda.
Volto a olhar para o prato. O que eu mais gosto em Victoria? A pergunta parece simples até que preciso respondê-la em voz alta.
Gosto da maneira como ela não se curva diante de mim apenas porque sou sua chefe. Gosto de como enfrenta situações difíceis sem precisar transformar tudo em uma batalha. E de como protege as pessoas que ama, mesmo quando está cansada, mesmo quando tem mil motivos para simplesmente deixar que outra pessoa resolva o problema.
Gosto da mãe que ela é e da mulher que é quando ninguém está olhando. E gosto ainda mais da maneira como ela parece não fazer ideia do efeito que provoca em mim.
— Ela é muito competente — respondo.
— Você está descrevendo uma avaliação de desempenho? — Marina me encara sem paciência.
— Você perguntou o que eu gosto nela. Eu gosto da competência dela.
— Certo. Mais alguma coisa?
— Ela é dedicada.
— Marcela. — Chama minha atenção.
— Inteligente. — Eu prossigo.
— Marcela.
— Responsável.
— MARCELA!
— O que foi? — Dou um pequeno pulo na cadeira.
— Você está falando da Victoria como se estivesse escrevendo uma recomendação profissional para o LinkedIn.
— Você quer que eu diga o quê? — Minha voz sai baixa.
— Que ela é bonita — começa. — Que você gosta do sorriso dela, que perde a linha quando ela entra na sala. Que fica olhando para a boca dela quando ela está falando e depois precisa pedir que repita a última frase porque não prestou atenção em absolutamente nada.
Abro a boca e fecho algumas vezes. É estranho como Marina consegue dizer em voz alta tudo que eu tento esconder. Ela solta mais uma gargalhada.
— Meu Deus, é verdade! — Leva as mãos à boca.
— Você está inventando coisas. — Tento parecer indiferente.
— Então me explique por que você acabou de olhar para a porta do restaurante toda vez que alguém entrou.
Fico imóvel. Eu realmente fiz isso? Pelo sorriso de Marina, fiz. Coloco os talheres sobre o prato.
— Você é insuportável.
— E você está apaixonada por uma mulher que provavelmente nem percebe o quanto é bonita.
Minha primeira reação é negar, já a segunda é lembrar de Victoria entrando na minha sala naquela manhã, usando uma camisa escura com as mangas dobradas até os cotovelos, a calça ajustada na cintura e aquela expressão de quem está pronta para discutir com o mundo inteiro, se necessário.
O modo como ela estufa o peito quando discorda de mim. O jeito como os olhos ficam mais vivos quando está prestes a fazer uma provocação. E, principalmente, o contraste entre a aparência durona e a delicadeza que demonstra quando fala da filha.
— O jeito dela — respiro fundo.
— Como assim? — Marina, para de sorrir por um momento.
— O jeito durão — passo o guardanapo pelos lábios — a maneira como ela não tenta agradar todo mundo, como não muda de opinião só porque alguém discorda dela. Victoria tem uma personalidade forte. Às vezes, forte demais para a minha paciência.
— Imagino.
— Mas ela é… — interrompo a frase, procurando uma palavra que não me faça parecer completamente ridícula. — Ela é atraente.
— Você acabou de admitir que acha a sua assistente atraente!
— Eu tenho olhos, Marina.
— E aparentemente eles funcionam muito bem.
— O jeito durão dela a torna ainda mais atraente, está satisfeita? Ela pode estar discutindo comigo sobre qualquer coisa, com aquela expressão de quem não tem medo de absolutamente nada, e eu fico tentando me lembrar de que sou uma mulher adulta, responsável e perfeitamente capaz de conduzir uma conversa profissional.
— Acho que o seu único problema é que você está acostumada a ter controle sobre tudo. E a Victoria não parece muito interessada em facilitar isso.
— Ela não facilita nada. — Solto uma risada curta, completamente contrariada.
— Talvez seja exatamente por isso que você goste tanto dela.
Não respondo, porque, pela primeira vez desde que nos sentamos à mesa, Marina disse alguma coisa que não consigo rebater.
O garçom aparece para perguntar se queremos sobremesa. Recuso, mas Marina pede um pedaço de torta de chocolate para dividir.
Não demoramos muito a pagar a conta e voltar para o prédio onde eu trabalho.
Quando chegamos à editora, pouco depois das treze e quarenta, ainda estou pensando na conversa do almoço. Não porque tenha me abalado admitir que Victoria é atraente. O problema é ter dito em voz alta, diante de Marina, que o jeito dela me deixa sem argumentos. Agora a informação existe fora da minha cabeça, e isso me parece perigosamente parecido com perder o controle da situação.
Saio do carro enquanto Marina termina de responder a uma mensagem.
— Vamos subir? — pergunto.
— Vamos — sorri. — Quero saber sobre os avanços da sua maravilhosa festa anual.
Paro por um momento, meu celular vibra com uma mensagem do fornecedor da iluminação. Leio a primeira linha, depois a segunda.
— Eu vou matar esse homem — murmuro.
— Você precisa parar de ameaçar as pessoas — diz Marina.
— Ele acabou de me mandar um orçamento com o dobro do valor combinado.
— Talvez ele esteja tentando garantir uma morte rápida — solta uma risada. — Vou te passar o contato de uma empresa de decoração, elas são maravilhosas e garanto que são mais competentes do que esses decoradores que querem te passar a perna.
Continuamos andando em direção à entrada da editora, e é nesse momento que vejo um carro parar junto à calçada.
Não presto atenção de imediato. Há veículos entrando e saindo o tempo todo, e minha cabeça está ocupada com a possibilidade de precisar realmente trocar de decorador faltando menos de dois meses para a festa.
Então a porta do passageiro se abre e Victoria sai, reconheço-a antes mesmo de conseguir ver seu rosto por completo. Ela se inclina para dentro do carro, diz alguma coisa que não consigo ouvir e fecha a porta com um movimento tranquilo.
Meu passo diminui, a mulher ao volante também diz alguma coisa. Victoria sorri.
Sorri. Para dentro de um carro desconhecido. Com uma mulher que aparentemente tem o dom de fazê-la sorrir enquanto a deixa na porta do trabalho.
Sinto uma coisa quente subir pelo meu peito. Não é raiva, é uma reação perfeitamente racional. Victoria se afasta do carro e ajeita a bolsa no ombro. O veículo começa a se mover, mas, antes que desapareça no trânsito, consigo ver o rosto da motorista através do para-brisa.
Dora. A mesma Dora que fez aquela cena toda na minha sala e a mesma Dora que, na minha opinião, sorri demais sempre que tem a oportunidade de conversar com a minha…
Minha o quê, Marcela? Volte à realidade, mulher.
— Ah! A Victoria chegou — Marina diz, inocente.
— Percebi.
Volto a andar, não vou fazer uma cena. Não vou perguntar por que Victoria está chegando de carona com ela ou se existe algum motivo específico para que aquela mulher tenha escolhido deixá-la exatamente na porta da editora.
Não sou esse tipo de pessoa, sou uma mulher madura, racional, equilibrada e perfeitamente capaz de lidar com uma situação sem transformar tudo em um interrogatório.
Além disso, Marina está comigo e eu me recuso a dar a ela mais material para suas futuras provocações.
— Oi, meninas! — Victoria nos vê se aproximando e abre um sorriso.
— Oi, Vic! — Marina responde imediatamente.
— Victoria, querida. — Eu sorrio, ou tento.
Victoria me encara como se eu tivesse acabado de anunciar que vou distribuir a editora gratuitamente aos funcionários.
— Oi? — pergunta.
— Espero que tenha tido um excelente almoço — inclino a cabeça.
— Obrigada? — Victoria responde, desconfiada.
— E que tenha aproveitado bastante a companhia das suas amigas. — Não consigo evitar o comentário.
— Aproveitei.
— Que ótimo. — Sorrio um pouco mais, tentando ser convincente. — Fico muito feliz.
— Você está… diferente — comenta Victoria.
— Não sei do que está falando.
Ela me observa por mais alguns segundos, claramente tentando entender o que aconteceu entre a manhã e aquele momento. Eu, por minha vez, estou determinada a demonstrar que nada aconteceu.
— A propósito — eu continuo, com a cordialidade de uma anfitriã recebendo convidados em um jantar beneficente — gostaria que me enviasse o relatório atualizado assim que possível. Sem pressa, naturalmente. Quando for conveniente para você.
— O relatório está na sua mesa desde as dez e meia. — Ela me olha confusa.
— Ah, está? — pergunto, vendo Marina segurar o riso.
— Está.
— Excelente — a encaro. — Muito obrigada pela eficiência.
— Disponha, senhora Tavares.
Ela enfatiza meu sobrenome com um cuidado que me faz desconfiar de que está começando a entender alguma coisa.
— Você quer que eu vá até a enfermaria buscar um termômetro para você? — Volta a dizer.
— Por quê? — Sinto meu corpo ficar tenso.
— Porque você está sendo educada demais. Estou preocupada com a sua saúde.
Marina não consegue mais se controlar e começa a rir. Eu a encaro com uma promessa silenciosa de vingança, provavelmente ela será a primeira a ser afogada. Victoria cruza os braços, e aquele pequeno sorriso começa a surgir no canto da boca.
— Aconteceu alguma coisa, Marcela?
— Não — a resposta sai rápida demais.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Porque você está me tratando como se eu fosse uma cliente importante que acabou de doar um milhão de reais para a editora.
— Você é uma funcionária importante — digo, sem pensar.
— Ah, sim! Claro.
Marina faz um som estranho, Victoria olha para ela, depois para mim.
— Eu vou indo nessa, Má — minha amiga diz. — Depois te passo o contato da decoradora, acho que você está precisando ficar um pouco sozinha.
— Certo — é a única coisa que consigo responder.
Ela se afasta e Victoria e eu seguimos para dentro da editora.
Passo os vinte minutos seguintes tentando me concentrar. Consigo responder a dois e-mails, revisar metade de um orçamento e aprovar uma alteração na disposição das mesas para a festa.
Também verifico o celular algumas vezes, sete para ser mais específica. Às quatorze e vinte, decido que preciso de uma cópia impressa do cronograma da festa.
A impressora fica em frente à mesa de Victoria, é uma desculpa perfeitamente válida para sair da sala. Pego o documento e abro a porta. Ela está em sua mesa, concentrada no computador, mas logo percebe a minha presença e me avalia.
— Precisa de alguma coisa? — Se põe a disposição.
— Vou imprimir o cronograma. — Explico.
— Você pode me enviar que eu imprimo para você.
— Eu mesma posso fazer isso.
— Ótimo. — Dá de ombros.
Continuo parada, ela volta a se concentrar no computador, mas me encara novamente quando vê que eu não fiz o que vim fazer.
— Mais alguma coisa?
Não. Sim. Talvez.
Quero saber por que Dora a trouxe até aqui, quero saber se elas se encontraram por acaso ou se combinaram de almoçar juntas. Quero saber se Victoria sorriu daquele jeito durante todo o almoço ou se aquele sorriso foi reservado para a despedida.
Quero saber por que estou me comportando como uma adolescente que acabou de descobrir que a garota de quem gosta tem outras amigas. Em vez de perguntar qualquer uma dessas coisas, digo:
— Você voltou no horário.
— Voltei — Victoria olha para o relógio.
— Muito bem.
— Obrigada pela avaliação. — Ela aperta os lábios, tentando não rir.
Viro-me antes que ela perceba que estou prestes a rir também, ou a surtar. Ainda não decidi.
Pego as folhas na impressora e retorno à minha sala, e o restante da tarde se arrasta de uma maneira particularmente irritante.
Já no fim da tarde, Victoria entra na minha sala com uma pasta nas mãos.
— Trouxe os documentos que você pediu — estende os papéis.
— Obrigada — olho em sua direção.
— Marcela? — Chama minha atenção.
— Sim?
— Você está brava comigo?
— Não — a pergunta me pega desprevenida.
— Tem certeza? — Cruza os braços.
— Por que eu estaria brava com você? — Fico confusa.
— Não sei — pensa por alguns segundos. — Talvez porque você tenha me chamado de querida, elogiado a minha pontualidade e me tratado como se eu fosse a pessoa mais importante da editora.
— Você é uma pessoa importante na editora — dou de ombros.
— Marcela.
— Que?
— Está bem — ela suspira. — Vou reformular a pergunta: aconteceu alguma coisa enquanto eu estava almoçando?
Meu primeiro impulso é dizer que não, meu segundo impulso é perguntar sobre Dora, mas meu terceiro, muito mais sensato, é lembrar que Victoria não fez absolutamente nada de errado.
Ela saiu para almoçar com as amigas, encontrou alguém conhecido, aceitou uma carona, não existe crime algum nessa sequência de acontecimentos. O problema está inteiramente comigo.
— Não aconteceu nada — respondo, mais devagar.
— Certo — ela continua me observando.
Ela se vira para sair, mas alguma coisa na expressão dela me faz abandonar a minha tentativa de encerrar o assunto.
— Victoria — a chamo e ela para. — Você vai embora no seu horário hoje?
— Vou. Por quê? — Ergue uma sobrancelha.
— Por nada.
— Você acabou de me chamar de volta para perguntar se vou embora no horário? — Pergunta, completamente sem entender.
— Eu só estava confirmando.
— Está bem — ela deixa escapar uma risada curta. — Vou embora no horário, Marcela.
— Ótimo.
— Excelente — ela dá dois passos em direção à porta, mas para novamente. — Ah, antes que eu esqueça. Você sabe que a Dora me deu uma carona, não sabe?
Fico imóvel, por um instante, tenho a sensação de que todos os meus pensamentos foram revelados.
— Não sei do que está falando — Me faço de desentendida.
Victoria vira o corpo lentamente, o sorriso começa pequeno, quase imperceptível, mas cresce quando ela percebe minha expressão.
— Não sabe? — Insiste.
— Não.
— Engraçado — volta a se aproximar — porque você estava olhando para o carro quando eu desci.
O silêncio que se segue é humilhante. Eu não quero ter essa conversa, não quero que ela veja mais uma vez que estou com ciúmes dessa mulherzinha.
— Eu estava olhando para a rua — respondo.
— Claro — Victoria volta a morder o lábio inferior, tentando conter o riso. — Marcela, eu só estou dizendo que…
— Você não precisa me explicar absolutamente nada.
Ela fica em silêncio e, por algum motivo, isso me incomoda mais do que deveria. Victoria solta a pasta que ainda segurava contra o peito e se aproxima novamente da minha mesa.
— Eu encontrei a Dora no restaurante.
— Encontrou? — Deixo escapar minha curiosidade.
— Sim. Eu estava almoçando com a Chica e as meninas, e ela apareceu por lá porque tinha um compromisso ali perto. Nós conversamos um pouco, quando terminamos, ela disse que estava indo para a mesma região e perguntou se eu queria uma carona.
Fico quieta, tentando não imaginar a cena e nem perguntar por que as meninas não vieram com elas.
— Eu aceitei porque seria mais rápido do que chamar um carro, foi só isso.
A explicação é simples. Direta. Razoável. E deveria ser suficiente para encerrar o assunto. O problema é que agora sei que Victoria encontrou Dora por acaso, conversou com ela durante alguns minutos e aceitou uma carona porque seria mais conveniente.
Não há nada para contestar, nada que justifique o incômodo que sinto. Nada que me permita continuar fingindo que a minha reação tem qualquer relação com o trabalho.
— Entendi — digo.
— Entendeu? — Inclina a cabeça.
— Sim.
— Então por que você está com essa cara?
— Que cara?
— A cara de quem está prestes a comprar uma empresa de transporte só para impedir que eu entre em outro carro. — Solta uma gargalhada.
Fico encarando-a, a mulher está rindo de mim. Rindo. Na minha própria sala, e o pior é que ela não está completamente errada.
— Se eu vir você pegando carona com ela de novo, vou comprar um carro para você. — As palavras saem antes que eu consiga filtrá-las.
Victoria fica imóvel e eu também. Por um segundo inteiro, nenhuma de nós parece compreender o que acabou de acontecer.
— Você vai fazer o quê? — Ela se certifica se ouviu bem.
— Comprar um carro — respiro fundo e ligo o foda-se.
— Para mim? — Aponta para o próprio peito.
— Foi exatamente o que eu disse.
Victoria leva uma das mãos à boca, mas não consegue conter a risada.
— Meu Deus, Marcela!
— Não vejo motivo para essa reação.
Ela se apoia na beirada da minha mesa, rindo tanto que precisa fechar os olhos por alguns segundos.
— Você está falando sério?
— Estou falando de uma possibilidade perfeitamente razoável.
— Você pretende resolver todos os problemas da minha vida com dinheiro? — ela pergunta, ainda sorrindo.
— Não todos. — Eu continuo séria.
— Ah, não?
— Apenas aqueles que podem ser resolvidos de maneira prática.
— E aceitar uma carona é um problema que precisa ser resolvido de maneira prática? — Ela ergue as sobrancelhas.
— Você poderia ir e voltar do trabalho sem depender de ninguém. Poderia levar a Heloísa para a escola, resolver seus compromissos e se deslocar com mais facilidade.
O sorriso dela diminui um pouco, dando lugar a uma expressão mais suave.
— Marcela, eu sei me virar. — Para de me zoar.
— Eu sei.
— Não preciso que você compre um carro para mim.
— Eu não disse que precisava.
— Acabou de dizer que vai comprar um carro para mim se eu aceitar outra carona da Dora.
— Foi uma sugestão.
Victoria me encara por dois segundos, depois começa a rir novamente. Eu reviro os olhos, voltando a considerar que ela seja a primeira opção para o afogamento no lago.
— Uma sugestão?
— Você está repetindo tudo o que eu digo. — Estou perdendo a paciência.
— Porque você está falando coisas absurdas! — Diz como se fosse óbvio.
— Não são absurdas — digo. — São práticas.
— Marcela, você está com ciúmes!
— E você está se divertindo demais com a situação — tento manter a calma.
— Estou mesmo. — Ela endireita o corpo, ainda sorrindo. — Mas, para ser justa, a Dora realmente só me deu uma carona. Eu não combinei nada com ela, não estava esperando por ela e não pedi que viesse me buscar.
— Certo. — Assinto.
— Eu só aceitei porque estávamos indo para o mesmo lado.
— Entendi.
— Então o problema não é a carona.
Olho para ela, Victoria espera. É irritante como essa mulher consegue me encurralar sem levantar a voz.
— O problema — começo, escolhendo as palavras com cuidado — é que eu não gosto de sentir que estou perdendo o controle de uma situação.
— E que situação é essa? — Ela me observa com mais atenção.
Eu poderia dizer que se trata da nossa relação. Poderia admitir que ainda estou aprendendo a lidar com o fato de que Victoria ocupa um espaço cada vez maior nos meus pensamentos, que a ideia de a ver próxima de outra pessoa desperta em mim um desconforto que não sei administrar e que, às vezes, tenho medo de não ser suficiente para alguém que parece tão capaz de seguir a própria vida sem precisar de mim.
Mas não consigo dizer tudo isso. Ainda não.
— Você sabe do que estou falando — respondo.
— Acho que sei — agora ela sorri discretamente. — Mas preciso dizer que, se você realmente quiser me dar um carro, eu aceito escolher a cor.
Levanto a cabeça imediatamente, Victoria explode em uma nova gargalhada. Óbvio que ela não estaria falando sério, ela jamais aceitaria um carro.
— Você está insuportável hoje — é a única coisa que consigo dizer.
— Aprendi com a melhor. — Diz, atrevida.
— Não abuse da sorte, Almeida.
— Está bem, senhora Tavares. — O sorriso aumenta ao ouvir o sobrenome. — Para sua tranquilidade, se eu precisar de outra carona, prometo avisar.
A frase me pega desprevenida. É inacreditável o quanto ela se esforça para me deixar confortável, mesmo não tendo obrigação nenhuma.
— Você não precisa me avisar — tento não ser abusiva.
— Eu sei — pensa por um momento — mas posso avisar, se isso ajudar.
Fico olhando para ela, Victoria continua sendo uma mulher independente, com amigas, compromissos e uma vida que existia muito antes de mim.
Ainda assim, a oferta me deixa segura, porque ela não está dizendo que vai deixar de fazer alguma coisa para me agradar, está dizendo que se importa com o que sinto.
E isso, para mim, é muito mais significativo. Há uma honestidade tranquila na voz dela que me faz sorrir, mesmo contra a minha vontade.
— Ótimo. — Digo sem jeito.
— Ótimo — ela começa a caminhar em direção à porta.
— Victoria? — A chamo e ela vira-se.
Penso em fazer uma última observação sobre a conveniência de ter um carro próprio, mas desisto.
— Obrigada por me explicar. — Sou sincera.
Victoria me observa por um instante, depois assente, como se compreendesse que aquela pequena conversa significa mais para mim do que estou disposta a admitir.
— De nada, Marcela.
Estou começando a considerar seriamente a possibilidade de contratar uma segunda versão de mim mesma. Preciso de uma para cuidar da editora, outra para organizar a festa anual, uma terceira para revisar os contratos que se acumulam sobre a minha mesa.
E, se possível, uma quarta exclusivamente para lidar com as pessoas que parecem ter desenvolvido uma habilidade impressionante de me procurar exatamente quando estou prestes a perder a paciência. Eu quero afogar todas em algum lago.
Olho para a tela do computador, depois para a pilha de documentos esquecidos no canto da minha mesa e, por último, para o relógio. São onze e quarenta e três.
Ainda tenho alguns e-mails para responder, uma reunião totalmente desnecessária, dois fornecedores da festa anual esperando minha confirmação e uma planilha que insiste em apresentar números diferentes daqueles que eu mesma conferi cinco vezes, sem contar o decorador da festa, que está me dando nos nervos. Apenas respiro fundo.
— Eu vou demitir alguém — deixo meu pensamento intrusivo vencer.
— Você fala isso pelo menos duas vezes por semana — comenta Victoria, do outro lado da minha mesa.
Olho em sua direção, ela está sentada com as pernas cruzadas, o tablet apoiado sobre as coxas e uma expressão de absoluta tranquilidade que me parece ofensiva diante do caos que ameaça consumir a minha manhã.
— E, ainda assim, eu continuo cercada de incompetentes — Bufo.
— Talvez o problema seja você — solta uma risadinha que eu não acho graça nenhuma.
Victoria ergue os olhos do tablet, percebe a minha expressão e abre um sorriso tão pequeno quanto descarado, ela ama fazer isso.
— Eu estou brincando — diz, como se estivesse falando com qualquer amiga sua.
— Você está muito confortável para alguém que depende desse emprego — arqueio uma sobrancelha. — A primeira a ser demitida será você.
— E você está muito mal-humorada para alguém que precisa da minha companhia e dos meus serviços.
O pior é que ela tem razão, e o pior do pior é que eu gosto quando ela me enfrenta. Eu sei que não deveria, afinal eu sou a chefe dela. Existe uma hierarquia, uma estrutura organizacional, uma descrição de cargo e uma série de outras coisas que, em teoria, deveriam me ajudar a manter algum controle sobre essa mulher.
Porém, na prática, Victoria Almeida parece ter recebido um manual de instruções sobre como me tirar do sério e decidiu ignorar todas as recomendações de segurança e tornar disso uma missão em sua vida.
Ela volta a atenção para o tablet, completamente satisfeita consigo mesma. Observo a maneira como prende uma mecha de cabelo atrás da orelha, o movimento distraído dos dedos sobre a tela e a postura relaxada na cadeira.
É irritante. É extremamente irritante que alguém consiga parecer tão bonita sem fazer absolutamente nada.
— Vic — chamo sua atenção.
— Hm? — Responde, distraída.
— Você já almoçou?
— Ainda não. Por quê? — Ela levanta a cabeça.
Olho novamente para o relógio, minha agenda está apertada, mas consigo reservar uma hora para almoçar. Talvez uma hora e quinze, se eu não precisar assassinar ninguém antes de sair.
— Pensei em irmos almoçar juntas — digo, como quem não quer parecer super casual.
— Hoje? — Victoria me encara, aparentemente surpresa com o convite.
— Não, Victoria. No Natal do próximo ano — reviro os olhos — claro que hoje.
— Nossa, que delicadeza — solta uma risada sarcástica. — Estou até emocionada.
— Posso retirar o convite.
— Não precisa, chefe. — Ela ergue as mãos, rendida. — Eu adoraria, mas combinei de almoçar com as meninas hoje. A Chica está praticamente me ameaçando há dois dias porque, segundo ela, eu só sei trabalhar e cuidar da Heloísa e passar tempo com você.
— E ela está errada? — Provoco.
— Não, mas você não precisa concordar tão rápido.
Finjo voltar a atenção para o computador, embora a informação tenha provocado uma pequena decepção que eu preferiria não reconhecer.
Eu queria almoçar com Victoria. Não era como se eu tivesse planejado um encontro romântico, reservado uma mesa à luz de velas ou escolhido um restaurante com base na qualidade da carta de vinhos.
Eu só queria passar algum tempo com ela sem precisar discutir prazos, documentos ou os problemas da editora. Talvez vê-la sorrir daquele jeito que faz surgir uma covinha discreta na bochecha esquerda. Ou, quem sabe, descobrir se ela continuaria me chamando de mal-humorada quando eu estivesse comendo algo.
— Tudo bem — respondo, tentando parecer indiferente. — Vá com suas amigas.
— Obrigada pela compreensão — usa seu sarcasmo mais uma vez.
— Não se atrase na volta. — Digo sem pensar.
— E lá se foi a compreensão — Debocha.
— Estou falando sério.
— Eu sei. — Ela se levanta, pega o tablet e ajeita a camisa dentro da calça. — Prometo voltar no horário, senhora Tavares.
O modo como ela pronuncia meu sobrenome tem alguma coisa de provocação, eu não consigo responder nada, apenas fico encarando-a, enquanto ela dá um sorriso insolente antes de sair da sala.
Fico olhando para a porta fechada por alguns segundos, depois volto para o computador.
Cinco minutos se passam, talvez sete, não sei ao certo. Mas, quando percebo que reli o mesmo parágrafo de um contrato três vezes sem absorver absolutamente nada, fecho o documento com um suspiro.
Ótimo. Agora, além de todos os meus problemas, também estou sendo distraída por uma mulher que nem sequer está na sala.
******
Ao meio-dia, decido que vou almoçar na própria editora. É a escolha mais sensata. Peço alguma comida e, assim, uma quantidade razoável de tarefas que poderiam ser concluídas enquanto como.
Pego o celular e mando uma mensagem para Marina. Ontem ela me ligou dizendo que precisava conversar, ter um momento comigo.
Eu: Vou almoçar aqui mesmo.
Se precisar de mim, estarei no escritório.
Marina: Você está de castigo?
Eu: Estou trabalhando.
Marina: É praticamente a mesma coisa,
considerando a sua personalidade.
Eu: Não tenho tempo para você.
Marina: Mas tem tempo para responder
às minhas mensagens. Interessante.
Ignoro a última mensagem e tento me distrair com as coisas que preciso fazer. Alguns minutos depois, encaro novamente meu celular. Nenhuma mensagem de Victoria.
Ela está almoçando com as amigas, conversando, rindo e provavelmente falando mal da própria chefe.
Não que eu me importe. Por que eu deveria me importar?
Volto a trabalhar. Cinco minutos depois, recebo uma ligação de um dos fornecedores da festa. Dez minutos, ainda estou em minha mesa, sem nem ter pedido algo para comer.
A ligação com o fornecedor se transforma em uma discussão sobre a iluminação do salão. A discussão leva a uma alteração no orçamento. A alteração exige uma nova aprovação, e a nova aprovação me obriga a revisar uma planilha inteira.
Quando desligo, olho para a tela do computador com a sensação de que envelheci três anos em vinte minutos.
— Chega — digo a mim mesma.
Levanto-me, pego a bolsa e visto o blazer que havia deixado pendurado em minha cadeira. Preciso sair. Preciso comer alguma coisa que não venha de um recipiente de plástico.
E preciso conferir pessoalmente algumas opções de decoração que um fornecedor insistiu em descrever como elegantes e modernas, duas palavras que, na experiência dele, parecem significar qualquer coisa que tenha uma lâmpada e custe mais do que deveria. Estou começando a pensar que preciso de um novo decorador.
Pego o celular e ligo para Marina, e ela atende no segundo toque.
— Se você estiver ligando para me pedir alguma coisa, a resposta é não — diz, magoada.
— Que bom que você está disponível para uma conversa agradável — reviro os olhos. — Vamos almoçar.
— Agora?
— Não, Marina — que mania das pessoas questionarem o óbvio — amanhã, quando eu já tiver morrido de fome.
— Está bem — ela ri. — Onde?
— Vou escolher um restaurante perto daqui, assim você me ajuda com algumas coisas sobre a festa anual, e eu quero sair deste prédio antes que comece a arrancar os cabelos de alguém.
— Perfeito, estou por perto, não demorarei a chegar.
Desligo e pego os documentos que preciso levar. Chego antes que minha amiga, então escolho uma mesa mais reservada, porém com vista direta para a porta.
Ela realmente não demora muito a chegar, foi o tempo que precisei para aprovar um documento que o setor de marketing.
— Você está com uma cara péssima — é a primeira coisa que ela diz ao se sentar na mesa.
— Obrigada — respondo. — Muito gentil da sua parte.
— De nada. Estou aqui para ajudar.
Marina é uma das minhas amigas mais próximas, daquelas que me lê só com um olhar, me faz falar como me sinto, mesmo quando quero ficar em silêncio.
— A Victoria foi almoçar com a Chica e as outras meninas? — ela pergunta casualmente.
— Foi — desvio o olhar.
— E você ficou sozinha?
— Eu quis sua companhia, Marina.
— Claro — debocha. — É que falei com a Chica e ela me contou que iria almoçar com as meninas, incluindo sua namorada, e, segundos depois, você lembrou que tinha tempo para a sua amiga que, por coincidência, recebeu uma mensagem sua dizendo que estava super ocupada.
— Você está tentando chegar a algum lugar com essa análise? — Sou direta.
— Estou tentando descobrir que bicho te mordeu.
O garçom se aproxima e aproveitamos para fazer nossos pedidos. Marina pede uma massa enquanto eu escolho um filé com legumes.
Assim que o garçom se afasta, abro a pasta com as informações da festa.
— Preciso rever a disposição das mesas. O fornecedor quer colocar os convidados principais perto do palco, mas isso prejudica a circulação. Também preciso confirmar a iluminação e decidir se vou manter a apresentação musical antes ou depois dos discursos. O que você acha?
— Você sabe que eu sou sua amiga, não sua funcionária, certo? — Marina apoia o queixo na mão.
— Infelizmente, sei.
— Então guarde essa pasta por cinco minutos e me conte sobre a sua namorada.
— Eu sabia que não deveria ter convidado você — fecho os olhos.
— E eu sabia que você não conseguiria passar cinco minutos sem falar dela. — Solta uma risada.
— Não estou falando da Victoria — digo, indignada.
— Está pensando nela.
— Você tem alguma espécie de câmera instalada na minha cabeça? — Debocho.
— Não preciso — solta uma risada. — Todas às vezes que conversamos no telefone, você sempre fala dela e, quando é pessoalmente, você fica com uma expressão diferente sempre que alguém menciona o nome dela.
— Que expressão? — Fico curiosa.
Marina imita uma pessoa tentando parecer indiferente, apertando os lábios e franzindo a testa.
— Essa. Como se estivesse decidindo se manda a pessoa embora ou se pede para ela ficar mais cinco minutos.
Fico olhando para a minha amiga, decidindo se eu mando ela embora ou se deixo ela ficar. Que atrevida, com toda a certeza desse mundo que eu não faço essa cara.
— Eu não faço isso.
— Faz, sim — balança a cabeça positivamente, igual a uma criança pequena.
— Marina, eu tenho trinta e oito anos, dirijo uma editora e sou perfeitamente capaz de administrar os meus sentimentos e não ficar agindo como uma adolescente apaixonada.
— Disse a mulher, que mandou um fornecedor refazer um orçamento inteiro porque ele usou a palavra “aproximadamente”.
— Ele estava sendo impreciso. — Me justifico.
— E você fica encarando o celular a cada minuto, esperando alguma mensagem da Victoria.
— Eu estou esperando uma resposta sobre um documento. — Inventou a primeira desculpa que me vem à mente.
— Que documento? — Me desafia.
Silêncio. Não há como eu pensar rápido o suficiente para inventar mais uma desculpa, e isso me entrega. Marina abre um sorriso triunfante.
— Exatamente o que pensei — completa.
Pego meu copo de água e bebo um gole, tentando ganhar alguns segundos para formular uma resposta que não envolva ameaçar a integridade física da minha melhor amiga.
— Estamos bem — digo, me dando por vencida.
— Eu sei que vocês estão bem — a expressão dela muda. — Quero saber como você está.
A pergunta é simples, mas o tom, não. Marina me conhece há anos, sabe as minhas manias, as minhas defesas e, principalmente, a minha tendência a transformar qualquer sentimento que pareça grande demais em uma lista de problemas que precisam ser resolvidos. Ou melhor, controlados.
É mais fácil discutir um orçamento do que admitir que alguém está se tornando importante demais, ou mais fácil organizar uma festa para trezentas pessoas do que explicar por que uma única mulher consegue alterar o meu humor com uma frase.
— Estou bem — repito, dessa vez sem tanta firmeza.
Marina não insiste imediatamente, primeiro me analisa, respeita meu espaço enquanto o garçom traz nossos pratos, e aproveito a oportunidade para mudar de assunto.
— A propósito, preciso decidir quem vai apresentar a premiação dos novos autores.
— Você é muito ruim nisso — ela me observa.
— Em quê? — Me faço de desentendida.
— Em fugir de assuntos.
— Não estou fugindo.
— Claro que não — me acusa. — Está apenas tentando me fazer discutir a programação da festa no meio do almoço.
— É uma festa importante. — Pego os talheres.
— E a Victoria é importante para você.
O movimento da minha mão diminui e Marina percebe. É claro que percebe, ela está fazendo uma análise de cada movimento meu ou fala minha desde que chegou.
— Eu não disse que não é — respondo.
— Então fale sobre ela.
— O que exatamente você quer saber? — Suspiro.
— Tudo.
— Isso não é uma pergunta.
— Comece pelo que você mais gosta nela.
— Marina! — Quase engasgo com a comida.
Ela ri tão alto que duas pessoas na mesa ao lado olham em nossa direção, e eu morro de vergonha.
— Meu Deus, você ficou vermelha — continua rindo. — Eu nunca imaginei que viveria para ver esse dia.
— Você está fazendo um escândalo. — Digo entredentes.
— E você está apaixonada.
Olho ao redor, certificando-me de que ninguém conhecido está prestando atenção à nossa conversa.
— Podemos falar mais baixo? — A repreendo.
— Podemos — dá de ombros — desde que você responda.
Volto a olhar para o prato. O que eu mais gosto em Victoria? A pergunta parece simples até que preciso respondê-la em voz alta.
Gosto da maneira como ela não se curva diante de mim apenas porque sou sua chefe. Gosto de como enfrenta situações difíceis sem precisar transformar tudo em uma batalha. E de como protege as pessoas que ama, mesmo quando está cansada, mesmo quando tem mil motivos para simplesmente deixar que outra pessoa resolva o problema.
Gosto da mãe que ela é e da mulher que é quando ninguém está olhando. E gosto ainda mais da maneira como ela parece não fazer ideia do efeito que provoca em mim.
— Ela é muito competente — respondo.
— Você está descrevendo uma avaliação de desempenho? — Marina me encara sem paciência.
— Você perguntou o que eu gosto nela. Eu gosto da competência dela.
— Certo. Mais alguma coisa?
— Ela é dedicada.
— Marcela. — Chama minha atenção.
— Inteligente. — Eu prossigo.
— Marcela.
— Responsável.
— MARCELA!
— O que foi? — Dou um pequeno pulo na cadeira.
— Você está falando da Victoria como se estivesse escrevendo uma recomendação profissional para o LinkedIn.
— Você quer que eu diga o quê? — Minha voz sai baixa.
— Que ela é bonita — começa. — Que você gosta do sorriso dela, que perde a linha quando ela entra na sala. Que fica olhando para a boca dela quando ela está falando e depois precisa pedir que repita a última frase porque não prestou atenção em absolutamente nada.
Abro a boca e fecho algumas vezes. É estranho como Marina consegue dizer em voz alta tudo que eu tento esconder. Ela solta mais uma gargalhada.
— Meu Deus, é verdade! — Leva as mãos à boca.
— Você está inventando coisas. — Tento parecer indiferente.
— Então me explique por que você acabou de olhar para a porta do restaurante toda vez que alguém entrou.
Fico imóvel. Eu realmente fiz isso? Pelo sorriso de Marina, fiz. Coloco os talheres sobre o prato.
— Você é insuportável.
— E você está apaixonada por uma mulher que provavelmente nem percebe o quanto é bonita.
Minha primeira reação é negar, já a segunda é lembrar de Victoria entrando na minha sala naquela manhã, usando uma camisa escura com as mangas dobradas até os cotovelos, a calça ajustada na cintura e aquela expressão de quem está pronta para discutir com o mundo inteiro, se necessário.
O modo como ela estufa o peito quando discorda de mim. O jeito como os olhos ficam mais vivos quando está prestes a fazer uma provocação. E, principalmente, o contraste entre a aparência durona e a delicadeza que demonstra quando fala da filha.
— O jeito dela — respiro fundo.
— Como assim? — Marina, para de sorrir por um momento.
— O jeito durão — passo o guardanapo pelos lábios — a maneira como ela não tenta agradar todo mundo, como não muda de opinião só porque alguém discorda dela. Victoria tem uma personalidade forte. Às vezes, forte demais para a minha paciência.
— Imagino.
— Mas ela é… — interrompo a frase, procurando uma palavra que não me faça parecer completamente ridícula. — Ela é atraente.
— Você acabou de admitir que acha a sua assistente atraente!
— Eu tenho olhos, Marina.
— E aparentemente eles funcionam muito bem.
— O jeito durão dela a torna ainda mais atraente, está satisfeita? Ela pode estar discutindo comigo sobre qualquer coisa, com aquela expressão de quem não tem medo de absolutamente nada, e eu fico tentando me lembrar de que sou uma mulher adulta, responsável e perfeitamente capaz de conduzir uma conversa profissional.
— Acho que o seu único problema é que você está acostumada a ter controle sobre tudo. E a Victoria não parece muito interessada em facilitar isso.
— Ela não facilita nada. — Solto uma risada curta, completamente contrariada.
— Talvez seja exatamente por isso que você goste tanto dela.
Não respondo, porque, pela primeira vez desde que nos sentamos à mesa, Marina disse alguma coisa que não consigo rebater.
O garçom aparece para perguntar se queremos sobremesa. Recuso, mas Marina pede um pedaço de torta de chocolate para dividir.
Não demoramos muito a pagar a conta e voltar para o prédio onde eu trabalho.
Quando chegamos à editora, pouco depois das treze e quarenta, ainda estou pensando na conversa do almoço. Não porque tenha me abalado admitir que Victoria é atraente. O problema é ter dito em voz alta, diante de Marina, que o jeito dela me deixa sem argumentos. Agora a informação existe fora da minha cabeça, e isso me parece perigosamente parecido com perder o controle da situação.
Saio do carro enquanto Marina termina de responder a uma mensagem.
— Vamos subir? — pergunto.
— Vamos — sorri. — Quero saber sobre os avanços da sua maravilhosa festa anual.
Paro por um momento, meu celular vibra com uma mensagem do fornecedor da iluminação. Leio a primeira linha, depois a segunda.
— Eu vou matar esse homem — murmuro.
— Você precisa parar de ameaçar as pessoas — diz Marina.
— Ele acabou de me mandar um orçamento com o dobro do valor combinado.
— Talvez ele esteja tentando garantir uma morte rápida — solta uma risada. — Vou te passar o contato de uma empresa de decoração, elas são maravilhosas e garanto que são mais competentes do que esses decoradores que querem te passar a perna.
Continuamos andando em direção à entrada da editora, e é nesse momento que vejo um carro parar junto à calçada.
Não presto atenção de imediato. Há veículos entrando e saindo o tempo todo, e minha cabeça está ocupada com a possibilidade de precisar realmente trocar de decorador faltando menos de dois meses para a festa.
Então a porta do passageiro se abre e Victoria sai, reconheço-a antes mesmo de conseguir ver seu rosto por completo. Ela se inclina para dentro do carro, diz alguma coisa que não consigo ouvir e fecha a porta com um movimento tranquilo.
Meu passo diminui, a mulher ao volante também diz alguma coisa. Victoria sorri.
Sorri. Para dentro de um carro desconhecido. Com uma mulher que aparentemente tem o dom de fazê-la sorrir enquanto a deixa na porta do trabalho.
Sinto uma coisa quente subir pelo meu peito. Não é raiva, é uma reação perfeitamente racional. Victoria se afasta do carro e ajeita a bolsa no ombro. O veículo começa a se mover, mas, antes que desapareça no trânsito, consigo ver o rosto da motorista através do para-brisa.
Dora. A mesma Dora que fez aquela cena toda na minha sala e a mesma Dora que, na minha opinião, sorri demais sempre que tem a oportunidade de conversar com a minha…
Minha o quê, Marcela? Volte à realidade, mulher.
— Ah! A Victoria chegou — Marina diz, inocente.
— Percebi.
Volto a andar, não vou fazer uma cena. Não vou perguntar por que Victoria está chegando de carona com ela ou se existe algum motivo específico para que aquela mulher tenha escolhido deixá-la exatamente na porta da editora.
Não sou esse tipo de pessoa, sou uma mulher madura, racional, equilibrada e perfeitamente capaz de lidar com uma situação sem transformar tudo em um interrogatório.
Além disso, Marina está comigo e eu me recuso a dar a ela mais material para suas futuras provocações.
— Oi, meninas! — Victoria nos vê se aproximando e abre um sorriso.
— Oi, Vic! — Marina responde imediatamente.
— Victoria, querida. — Eu sorrio, ou tento.
Victoria me encara como se eu tivesse acabado de anunciar que vou distribuir a editora gratuitamente aos funcionários.
— Oi? — pergunta.
— Espero que tenha tido um excelente almoço — inclino a cabeça.
— Obrigada? — Victoria responde, desconfiada.
— E que tenha aproveitado bastante a companhia das suas amigas. — Não consigo evitar o comentário.
— Aproveitei.
— Que ótimo. — Sorrio um pouco mais, tentando ser convincente. — Fico muito feliz.
— Você está… diferente — comenta Victoria.
— Não sei do que está falando.
Ela me observa por mais alguns segundos, claramente tentando entender o que aconteceu entre a manhã e aquele momento. Eu, por minha vez, estou determinada a demonstrar que nada aconteceu.
— A propósito — eu continuo, com a cordialidade de uma anfitriã recebendo convidados em um jantar beneficente — gostaria que me enviasse o relatório atualizado assim que possível. Sem pressa, naturalmente. Quando for conveniente para você.
— O relatório está na sua mesa desde as dez e meia. — Ela me olha confusa.
— Ah, está? — pergunto, vendo Marina segurar o riso.
— Está.
— Excelente — a encaro. — Muito obrigada pela eficiência.
— Disponha, senhora Tavares.
Ela enfatiza meu sobrenome com um cuidado que me faz desconfiar de que está começando a entender alguma coisa.
— Você quer que eu vá até a enfermaria buscar um termômetro para você? — Volta a dizer.
— Por quê? — Sinto meu corpo ficar tenso.
— Porque você está sendo educada demais. Estou preocupada com a sua saúde.
Marina não consegue mais se controlar e começa a rir. Eu a encaro com uma promessa silenciosa de vingança, provavelmente ela será a primeira a ser afogada. Victoria cruza os braços, e aquele pequeno sorriso começa a surgir no canto da boca.
— Aconteceu alguma coisa, Marcela?
— Não — a resposta sai rápida demais.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Porque você está me tratando como se eu fosse uma cliente importante que acabou de doar um milhão de reais para a editora.
— Você é uma funcionária importante — digo, sem pensar.
— Ah, sim! Claro.
Marina faz um som estranho, Victoria olha para ela, depois para mim.
— Eu vou indo nessa, Má — minha amiga diz. — Depois te passo o contato da decoradora, acho que você está precisando ficar um pouco sozinha.
— Certo — é a única coisa que consigo responder.
Ela se afasta e Victoria e eu seguimos para dentro da editora.
Passo os vinte minutos seguintes tentando me concentrar. Consigo responder a dois e-mails, revisar metade de um orçamento e aprovar uma alteração na disposição das mesas para a festa.
Também verifico o celular algumas vezes, sete para ser mais específica. Às quatorze e vinte, decido que preciso de uma cópia impressa do cronograma da festa.
A impressora fica em frente à mesa de Victoria, é uma desculpa perfeitamente válida para sair da sala. Pego o documento e abro a porta. Ela está em sua mesa, concentrada no computador, mas logo percebe a minha presença e me avalia.
— Precisa de alguma coisa? — Se põe a disposição.
— Vou imprimir o cronograma. — Explico.
— Você pode me enviar que eu imprimo para você.
— Eu mesma posso fazer isso.
— Ótimo. — Dá de ombros.
Continuo parada, ela volta a se concentrar no computador, mas me encara novamente quando vê que eu não fiz o que vim fazer.
— Mais alguma coisa?
Não. Sim. Talvez.
Quero saber por que Dora a trouxe até aqui, quero saber se elas se encontraram por acaso ou se combinaram de almoçar juntas. Quero saber se Victoria sorriu daquele jeito durante todo o almoço ou se aquele sorriso foi reservado para a despedida.
Quero saber por que estou me comportando como uma adolescente que acabou de descobrir que a garota de quem gosta tem outras amigas. Em vez de perguntar qualquer uma dessas coisas, digo:
— Você voltou no horário.
— Voltei — Victoria olha para o relógio.
— Muito bem.
— Obrigada pela avaliação. — Ela aperta os lábios, tentando não rir.
Viro-me antes que ela perceba que estou prestes a rir também, ou a surtar. Ainda não decidi.
Pego as folhas na impressora e retorno à minha sala, e o restante da tarde se arrasta de uma maneira particularmente irritante.
Já no fim da tarde, Victoria entra na minha sala com uma pasta nas mãos.
— Trouxe os documentos que você pediu — estende os papéis.
— Obrigada — olho em sua direção.
— Marcela? — Chama minha atenção.
— Sim?
— Você está brava comigo?
— Não — a pergunta me pega desprevenida.
— Tem certeza? — Cruza os braços.
— Por que eu estaria brava com você? — Fico confusa.
— Não sei — pensa por alguns segundos. — Talvez porque você tenha me chamado de querida, elogiado a minha pontualidade e me tratado como se eu fosse a pessoa mais importante da editora.
— Você é uma pessoa importante na editora — dou de ombros.
— Marcela.
— Que?
— Está bem — ela suspira. — Vou reformular a pergunta: aconteceu alguma coisa enquanto eu estava almoçando?
Meu primeiro impulso é dizer que não, meu segundo impulso é perguntar sobre Dora, mas meu terceiro, muito mais sensato, é lembrar que Victoria não fez absolutamente nada de errado.
Ela saiu para almoçar com as amigas, encontrou alguém conhecido, aceitou uma carona, não existe crime algum nessa sequência de acontecimentos. O problema está inteiramente comigo.
— Não aconteceu nada — respondo, mais devagar.
— Certo — ela continua me observando.
Ela se vira para sair, mas alguma coisa na expressão dela me faz abandonar a minha tentativa de encerrar o assunto.
— Victoria — a chamo e ela para. — Você vai embora no seu horário hoje?
— Vou. Por quê? — Ergue uma sobrancelha.
— Por nada.
— Você acabou de me chamar de volta para perguntar se vou embora no horário? — Pergunta, completamente sem entender.
— Eu só estava confirmando.
— Está bem — ela deixa escapar uma risada curta. — Vou embora no horário, Marcela.
— Ótimo.
— Excelente — ela dá dois passos em direção à porta, mas para novamente. — Ah, antes que eu esqueça. Você sabe que a Dora me deu uma carona, não sabe?
Fico imóvel, por um instante, tenho a sensação de que todos os meus pensamentos foram revelados.
— Não sei do que está falando — Me faço de desentendida.
Victoria vira o corpo lentamente, o sorriso começa pequeno, quase imperceptível, mas cresce quando ela percebe minha expressão.
— Não sabe? — Insiste.
— Não.
— Engraçado — volta a se aproximar — porque você estava olhando para o carro quando eu desci.
O silêncio que se segue é humilhante. Eu não quero ter essa conversa, não quero que ela veja mais uma vez que estou com ciúmes dessa mulherzinha.
— Eu estava olhando para a rua — respondo.
— Claro — Victoria volta a morder o lábio inferior, tentando conter o riso. — Marcela, eu só estou dizendo que…
— Você não precisa me explicar absolutamente nada.
Ela fica em silêncio e, por algum motivo, isso me incomoda mais do que deveria. Victoria solta a pasta que ainda segurava contra o peito e se aproxima novamente da minha mesa.
— Eu encontrei a Dora no restaurante.
— Encontrou? — Deixo escapar minha curiosidade.
— Sim. Eu estava almoçando com a Chica e as meninas, e ela apareceu por lá porque tinha um compromisso ali perto. Nós conversamos um pouco, quando terminamos, ela disse que estava indo para a mesma região e perguntou se eu queria uma carona.
Fico quieta, tentando não imaginar a cena e nem perguntar por que as meninas não vieram com elas.
— Eu aceitei porque seria mais rápido do que chamar um carro, foi só isso.
A explicação é simples. Direta. Razoável. E deveria ser suficiente para encerrar o assunto. O problema é que agora sei que Victoria encontrou Dora por acaso, conversou com ela durante alguns minutos e aceitou uma carona porque seria mais conveniente.
Não há nada para contestar, nada que justifique o incômodo que sinto. Nada que me permita continuar fingindo que a minha reação tem qualquer relação com o trabalho.
— Entendi — digo.
— Entendeu? — Inclina a cabeça.
— Sim.
— Então por que você está com essa cara?
— Que cara?
— A cara de quem está prestes a comprar uma empresa de transporte só para impedir que eu entre em outro carro. — Solta uma gargalhada.
Fico encarando-a, a mulher está rindo de mim. Rindo. Na minha própria sala, e o pior é que ela não está completamente errada.
— Se eu vir você pegando carona com ela de novo, vou comprar um carro para você. — As palavras saem antes que eu consiga filtrá-las.
Victoria fica imóvel e eu também. Por um segundo inteiro, nenhuma de nós parece compreender o que acabou de acontecer.
— Você vai fazer o quê? — Ela se certifica se ouviu bem.
— Comprar um carro — respiro fundo e ligo o foda-se.
— Para mim? — Aponta para o próprio peito.
— Foi exatamente o que eu disse.
Victoria leva uma das mãos à boca, mas não consegue conter a risada.
— Meu Deus, Marcela!
— Não vejo motivo para essa reação.
Ela se apoia na beirada da minha mesa, rindo tanto que precisa fechar os olhos por alguns segundos.
— Você está falando sério?
— Estou falando de uma possibilidade perfeitamente razoável.
— Você pretende resolver todos os problemas da minha vida com dinheiro? — ela pergunta, ainda sorrindo.
— Não todos. — Eu continuo séria.
— Ah, não?
— Apenas aqueles que podem ser resolvidos de maneira prática.
— E aceitar uma carona é um problema que precisa ser resolvido de maneira prática? — Ela ergue as sobrancelhas.
— Você poderia ir e voltar do trabalho sem depender de ninguém. Poderia levar a Heloísa para a escola, resolver seus compromissos e se deslocar com mais facilidade.
O sorriso dela diminui um pouco, dando lugar a uma expressão mais suave.
— Marcela, eu sei me virar. — Para de me zoar.
— Eu sei.
— Não preciso que você compre um carro para mim.
— Eu não disse que precisava.
— Acabou de dizer que vai comprar um carro para mim se eu aceitar outra carona da Dora.
— Foi uma sugestão.
Victoria me encara por dois segundos, depois começa a rir novamente. Eu reviro os olhos, voltando a considerar que ela seja a primeira opção para o afogamento no lago.
— Uma sugestão?
— Você está repetindo tudo o que eu digo. — Estou perdendo a paciência.
— Porque você está falando coisas absurdas! — Diz como se fosse óbvio.
— Não são absurdas — digo. — São práticas.
— Marcela, você está com ciúmes!
— E você está se divertindo demais com a situação — tento manter a calma.
— Estou mesmo. — Ela endireita o corpo, ainda sorrindo. — Mas, para ser justa, a Dora realmente só me deu uma carona. Eu não combinei nada com ela, não estava esperando por ela e não pedi que viesse me buscar.
— Certo. — Assinto.
— Eu só aceitei porque estávamos indo para o mesmo lado.
— Entendi.
— Então o problema não é a carona.
Olho para ela, Victoria espera. É irritante como essa mulher consegue me encurralar sem levantar a voz.
— O problema — começo, escolhendo as palavras com cuidado — é que eu não gosto de sentir que estou perdendo o controle de uma situação.
— E que situação é essa? — Ela me observa com mais atenção.
Eu poderia dizer que se trata da nossa relação. Poderia admitir que ainda estou aprendendo a lidar com o fato de que Victoria ocupa um espaço cada vez maior nos meus pensamentos, que a ideia de a ver próxima de outra pessoa desperta em mim um desconforto que não sei administrar e que, às vezes, tenho medo de não ser suficiente para alguém que parece tão capaz de seguir a própria vida sem precisar de mim.
Mas não consigo dizer tudo isso. Ainda não.
— Você sabe do que estou falando — respondo.
— Acho que sei — agora ela sorri discretamente. — Mas preciso dizer que, se você realmente quiser me dar um carro, eu aceito escolher a cor.
Levanto a cabeça imediatamente, Victoria explode em uma nova gargalhada. Óbvio que ela não estaria falando sério, ela jamais aceitaria um carro.
— Você está insuportável hoje — é a única coisa que consigo dizer.
— Aprendi com a melhor. — Diz, atrevida.
— Não abuse da sorte, Almeida.
— Está bem, senhora Tavares. — O sorriso aumenta ao ouvir o sobrenome. — Para sua tranquilidade, se eu precisar de outra carona, prometo avisar.
A frase me pega desprevenida. É inacreditável o quanto ela se esforça para me deixar confortável, mesmo não tendo obrigação nenhuma.
— Você não precisa me avisar — tento não ser abusiva.
— Eu sei — pensa por um momento — mas posso avisar, se isso ajudar.
Fico olhando para ela, Victoria continua sendo uma mulher independente, com amigas, compromissos e uma vida que existia muito antes de mim.
Ainda assim, a oferta me deixa segura, porque ela não está dizendo que vai deixar de fazer alguma coisa para me agradar, está dizendo que se importa com o que sinto.
E isso, para mim, é muito mais significativo. Há uma honestidade tranquila na voz dela que me faz sorrir, mesmo contra a minha vontade.
— Ótimo. — Digo sem jeito.
— Ótimo — ela começa a caminhar em direção à porta.
— Victoria? — A chamo e ela vira-se.
Penso em fazer uma última observação sobre a conveniência de ter um carro próprio, mas desisto.
— Obrigada por me explicar. — Sou sincera.
Victoria me observa por um instante, depois assente, como se compreendesse que aquela pequena conversa significa mais para mim do que estou disposta a admitir.
— De nada, Marcela.
Fim do capítulo

Alice Maria
24/10/2026 às 10:39
Essa história está fazendo parte dos meus dias
Paloma Matias 24/10/2026 às 14:53