Na segunda-feira, o telefone tocou às seis e quarenta, e Marcela atendeu de olhos fechados. Fazia dois dias que ela tinha chegado a Dublin, e o corpo ainda não sabia que horas eram.
— Bom dia.
— Aqui são duas e quarenta da madrugada e eu estou cumprindo a minha palavra — Isabela disse, com a voz arrastada de quem tinha acabado de acordar, e não de quem ainda estava de pé. — Você está viva?
— Estou.
— Está com frio?
— Estou usando três camadas.
— Está com medo?
Marcela abriu os olhos e ficou olhando o teto inclinado, a luz cinzenta passando pela janela redonda.
— Um pouco.
— Vai dar tudo certo.
— Eu sei.
— Eu não sei, mas alguém tem que falar.
Marcela riu e se sentou na cama. Do lado de fora, a chuva batia no vidro com a regularidade de quem não tinha nenhuma pressa de parar.
— Você dormiu direito? — Isabela perguntou.
— Dormi como uma pedra.
— Isso é bom.
— Eu acordei duas vezes para ver se a janela ainda estava ali.
— Marcela.
— Eu sei. Eu sei.
Tomou o banho mais rápido da vida, porque a água quente levou quatro minutos para chegar e ela não pretendia testar a paciência do encanamento. Vestiu a calça escura, a camisa branca, o casaco azul-marinho da mãe, e prendeu o cabelo num coque que desmoronou duas vezes antes de ficar firme. Olhou o próprio reflexo no espelho pequeno do banheiro.
— Você consegue — disse.
O celular vibrou em cima da pia. Uma mensagem de Nathalie.
Nathalie: Bom dia. Reunião de emergência em Londres, volto só à noite. O café fica para amanhã, se você ainda quiser. Siobhan vai receber vocês. Boa sorte.
Marcela leu duas vezes e sentiu alguma coisa estranha, um alívio e uma pontinha de outro sentimento que ela preferiu não nomear.
Nathalie: Eu mesma paguei a minha passagem de volta, antes que você pergunte.
Ela riu, sozinha, na frente do espelho.
Marcela: Combinado. Boa reunião.
Guardou o celular no bolso e saiu.
Rodrigo, Letícia e André esperavam no saguão do prédio, os três de guarda-chuva aberto, apesar de ainda estarem do lado de dentro. Rodrigo segurava o celular com as duas mãos, o rosto iluminado pela tela.
— O aplicativo diz que são vinte e cinco minutos a pé.
— Dez, a gente já fez ontem.
— Ontem era de van.
— Então devem ser uns doze.
— O aplicativo diz vinte e cinco.
— O aplicativo está com você de cabeça para baixo — Letícia disse, virando o celular dele para o lado certo.
Marcela passou pelos três, abriu a porta e saiu para a rua.
O ar frio bateu no rosto como um tapa gentil. Cheirava a terra molhada, a pão assado, a alguma flor que ela não sabia nomear. A calçada estava vazia, o asfalto brilhando. Uma mulher passou de bicicleta com uma capa amarela e a cestinha cheia de baguetes. Marcela a seguiu com o olhar, sorrindo sem perceber.
— Que foi? — André perguntou, abrindo o guarda-chuva.
— Nada. Só estou aqui.
— Aqui onde?
— Aqui. Eu estou aqui.
Ele a olhou por um segundo, sem entender, e depois sorriu também.
A Meridian parecia diferente de manhã. Na véspera, tinha sido um prédio de vidro azulado, imponente, quase frio. Agora, com a chuva escorrendo pelas paredes e o movimento de gente entrando de capa e cachecol, parecia uma colmeia comprida e viva. Siobhan os esperava na recepção, o tablet debaixo do braço, o coque impecável.
— Bom dia. Aqui estão os crachás.
Entregou quatro cartões brancos, cada um com a foto e o nome impressos. Marcela segurou o dela, olhou a própria cara de sono na foto, e leu embaixo, em letras pretas e firmes: Marcela Alves, Consultora de Operações, Projeto Aura.
— Consultora.
— Foi a classificação do RH — Siobhan disse, sem mudar de expressão. — A senhora Cross pediu que ficasse claro que você não é estagiária.
— Eu não tinha pedido isso.
— Ela sabe. Disse que era para você não precisar pedir.
Marcela olhou para o crachá de novo e guardou-o no bolso do casaco. Não sabia se estava irritada ou grata, e decidiu que não precisava resolver isso antes das nove.
O décimo quinto andar já estava acordado. Gente andando de um lado para o outro, copos de café, monitores acesos, o ruído baixo de teclados e de vozes falando em ritmos que Marcela mal acompanhava. O diretor de tecnologia, Declan, de barba grisalha e camisa de flanela, os recebeu na porta da sala de reunião quatro com um aperto de mão tão forte que Rodrigo fez uma careta.
— Bem-vindos. Vocês vão trabalhar com o meu time. São seis pessoas, todas ótimas, todas teimosas, e nenhuma delas fala português.
— Eu falo um pouco — disse uma voz, e uma moça de cabelo curto e ruivo-escuro se aproximou, estendendo a mão. — Bom dia. Eu sou Aoife.
Marcela apertou a mão dela e sorriu.
— Ee-fa?
— Eefa. Escreve com quatro letras e ninguém acerta.
— Aoife.
— Perfeito.
— Você fala português?
— Aprendi três frases pelo aplicativo. Duas são "obrigada" e "onde fica o banheiro". A terceira, eu esqueci.
— A terceira é "a conta, por favor".
— Ah, é isso — Aoife riu. — Eu sabia que era útil.
A sala de reunião tinha uma mesa comprida, seis cadeiras de um lado, quatro do outro, e uma tela enorme na parede. Declan apresentou o time. Tomás, desenvolvedor, magro e sardento, que mexia numa caneta sem parar. Priya, analista de dados, de olhos escuros e um sorriso rápido, que trazia um caderno cheio de post-its coloridos. Callum, do suporte, um rapaz enorme e tímido que cumprimentou todo mundo olhando para os sapatos. Grace, de relacionamento com clientes, uma senhora de uns cinquenta anos, de cabelo grisalho cortado reto, que olhou para Marcela por cima dos óculos e disse, sem cerimônia:
— Você é a que entende de hóspede.
— Eu tento.
— Ótimo. Ninguém aqui entende.
— Grace — Declan disse, em tom de aviso.
— Estou sendo honesta. Eles sabem tudo de código e nada de gente. Se você tem paciência, eu quero ser sua amiga.
— Eu tenho muita paciência.
— Então somos amigas.
A manhã foi um passeio.
Aoife ficou como guia, e levou Marcela de andar em andar, mostrando os cantos que ela precisava conhecer. A central de reservas, no terceiro, onde vinte pessoas de fone de ouvido atendiam ligações do mundo todo em seis idiomas. O laboratório de testes, no sétimo, com um quarto de hotel falso, uma recepção de papelão e câmeras no teto. A cozinha corporativa, no décimo, com uma máquina de café tão cheia de botões que Marcela precisou de dois minutos para entender como tirar uma xícara de água quente.
Em todos os andares, ela parava.
Parava para ler o crachá de alguém, para perguntar de onde era, para elogiar uma planta, um desenho colado na parede, uma caneca com um gato. Parava na central de reservas e conversou dez minutos com uma atendente chamada Niamh, que atendia ligações de Barcelona e tinha vontade de aprender português. Parava no laboratório e deixou um técnico de som explicar, empolgado, como funcionava o microfone que captava o ruído da recepção.
— Você conhece todo mundo — Aoife disse, quando voltaram para o décimo quinto.
— Estou tentando.
— Eu trabalho aqui há quatro anos e não sei o nome da metade deles.
— Isso é triste.
— Isso é Dublin. — Aoife sorriu, pegando duas canecas. — Ninguém quer incomodar ninguém.
— No Brasil a gente incomoda tanto que acaba virando amigo.
— Eu gostei disso.
— Você gostaria da minha família. É um incômodo de oito.
— Oito?
— Oito filhos.
Aoife arregalou os olhos.
— Você é uma de oito?
— A caçula.
— Meu Deus. Eu tenho um irmão e quase nos matamos.
— A gente também quase se matou. Várias vezes.
— E como vocês sobreviveram?
— Dividindo o controle remoto.
Aoife começou a rir, e Marcela riu junto, e o riso das duas ecoou pelo corredor, fazendo Callum levantar a cabeça de um monitor, olhar para elas e abrir um sorrisinho tímido.
Ao meio-dia, a sala inteira se levantou ao mesmo tempo, como se alguém tivesse tocado um sino.
— Almoço — Aoife anunciou. — A gente vai ao Lantern. Você vem.
— Eu não sei se...
— Não foi uma pergunta.
— Eu não conheço o lugar.
— Por isso mesmo.
— Eu não tenho certeza se...
— Marcela — Grace disse, já de casaco, com a bolsa debaixo do braço —, se você ficar aqui, vai almoçar uma salada sozinha no décimo andar. E você não é uma pessoa de salada sozinha.
— Como a senhora sabe?
— Eu tenho olhos.
Marcela olhou para Rodrigo, que fazia um sinal vigoroso de "vai, vai". Pegou o casaco e foi.
O Lantern ficava a cinco minutos a pé, numa travessa estreita, com uma fachada de madeira escura e uma janela de vidro quadriculado onde brilhava uma luz amarela. Por dentro era pequeno, quente, cheirando a pão assado e a cebola refogada, com um balcão comprido, um fogão a lenha num canto, e mesas de madeira gasta em que alguém tinha gravado, com canivete, nomes e datas. Havia um cachorro velho dormindo sob uma delas, e ninguém parecia se importar.
O grupo ocupou uma mesa grande perto da janela. Declan não foi, mas Tomás, Priya, Callum, Aoife, Grace, Rodrigo, Letícia e André se espremeram em volta dela, entre casacos pendurados e xícaras de chá.
— Primeira vez num pub? — Tomás perguntou.
— Em pub irlandês, sim.
— Então você tem que pedir o shepherd's pie.
— O que é?
— Carne moída com legumes, coberta de purê de batata e gratinada.
— Parece escondidinho.
— O quê?
— Um prato brasileiro. Carne seca desfiada, coberta de purê de mandioca. A gente chama de escondidinho porque a carne fica escondida embaixo.
— Eu quero um escondidinho — Callum disse, num sussurro, e todo mundo riu.
— Eu também — Priya completou.
— Então eu vou ter que fazer um para vocês.
— Promete?
— Prometo.
O prato chegou fumegante, numa travessa de barro, com uma crosta dourada que estalava ao toque da colher. Marcela provou e fechou os olhos.
— É muito bom.
— É melhor com cerveja — Tomás disse.
— Eu não bebo no almoço.
— É meia caneca.
— Eu trabalho à tarde.
— A gente também. É Guinness, não é veneno.
— Tomás — Grace disse. — Deixa a moça em paz.
— Só um gole.
— Marcela — Aoife se inclinou, com os olhos brilhando —, você já ouviu falar da Guinness?
— Já.
— E nunca provou?
— Nunca.
— Então você tem obrigação.
Marcela olhou para a mesa inteira, e todos olhavam para ela, com a curiosidade de crianças diante de um truque de mágica. Soltou um suspiro dramático.
— Está bem.
Callum, solene, empurrou o copo escuro na direção dela. Marcela cheirou, franziu o nariz, tomou um gole pequeno e ficou imóvel por três segundos inteiros.
A mesa esperou.
— E então?
— Tem gosto de café queimado que brigou com uma cerveja.
A gargalhada foi geral. Tomás bateu na mesa, Priya escondeu o rosto nas mãos, e até Grace, séria como uma freira, soltou um ronco que chamou a atenção das mesas vizinhas.
— Isso é a coisa mais irlandesa que eu já ouvi — disse Tomás, enxugando os olhos.
— Eu posso escrever e emoldurar?
— Eu faço o quadro.
— Mas eu ainda prefiro chá.
— Isso nós aceitamos.
O almoço se estendeu por quase uma hora e meia. Perguntaram de tudo. Como era o Maranhão, se era verdade que as lagoas sumiam, se o calor era mesmo de quarenta graus, se existia cobra na areia. Marcela mostrou fotos no celular e viu seis cabeças se aproximarem da tela, boquiabertas.
— Isso é real? — Callum perguntou.
— É.
— Parece fotografia de computador.
— É a vida.
— Eu preciso ir lá.
— Você vai. Eu faço o roteiro.
— Eu pago — disse Priya, e todos riram de novo.
Ela contou da família de oito, das disputas por comida, do cachorro azul do Lucas. Explicou o que era saudade, e ficou observando as seis tentativas de pronúncia, cada uma pior que a anterior. Ensinou "cafuné" e Aoife anotou no celular. Rodrigo, que até então tinha ficado calado, observando, olhou para ela com um orgulho discreto, de quem vê alguém crescer na frente dele.
Foi Grace quem tocou no assunto, no meio de uma colherada de pudim.
— Você veio com a Nat, não foi?
O garfo de Marcela parou no ar.
— Com a... Nathalie?
— A senhora Cross. Nós chamamos de Nat, por trás. Mas não conta.
— Eu vim com a equipe do resort. A Nathalie foi no mesmo voo porque estava voltando para cá.
— Ela te buscou pessoalmente?
— Ela... estava na recepção quando a gente chegou.
— Uma mulher que nunca vai buscar ninguém.
— É a sócia do resort.
— É a pessoa mais difícil de se aproximar da Irlanda — Tomás disse, em voz baixa. — Eu trabalho aqui há seis anos e nunca vi ela almoçar com ninguém.
— Ela almoça sozinha na sala dela — Priya completou. — Come uma salada em pé, olhando a cidade.
— Eu já vi isso — Callum sussurrou.
— Todo mundo já viu.
Marcela abaixou o garfo devagar.
— Isso é triste.
— É o que ela é — Grace disse. — Competente, justa e solitária. A gente gosta dela do jeito que se gosta de uma tempestade: de longe.
— Eu acho que ela é mais do que isso.
A frase saiu antes que Marcela pudesse segurar. Seis rostos se viraram para ela ao mesmo tempo, com o mesmo brilho de curiosidade.
— Mais do quê? — Aoife perguntou.
— Mais... — Marcela procurou as palavras. — Ela é muito direta. Fala o que pensa. Isso assusta quem não está acostumado, mas é uma forma de respeito.
— Você acha?
— Acho.
— Hum — Grace disse, e voltou para o pudim, com um sorriso que Marcela não soube decifrar.
— Falando em pessoas assustadoras — Tomás se virou para a janela, apontando com a colher —, você já viu aquele prédio?
Marcela olhou.
Entre dois telhados, a distância, uma torre de vidro escuro subia acima de todos os prédios vizinhos, esguia e solitária, com letras brancas discretas no topo.
— A Smith — Priya disse. — Nossa maior concorrente.
— A gente ganhou o contrato da prefeitura deles no ano passado — Tomás completou. — Você devia ter visto a cara do diretor deles na hora do anúncio.
— A CEO é a mulher mais assustadora de Dublin — Callum falou, baixinho.
— Mavie Smith — Grace disse. — Vinte e poucos anos quando assumiu, trinta e poucos agora. Não perde uma negociação. Não faz uma entrevista. Dizem que não dorme.
— Dizem que mora no último andar do prédio dela.
— Isso é mentira — Priya corrigiu. — Mora numa cobertura. Mas não sai de lá.
— Eu li uma matéria — Aoife disse. — Chamava "A Mulher Que Não Perde".
— Eu li também.
— Dizem que tem um coração de gelo.
Marcela mexeu o chá, devagar, com a colherinha.
Tinha o rosto imóvel. A postura tranquila. A respiração sob controle. Só uma pessoa que a conhecesse muito bem teria percebido que os dedos da mão esquerda, apoiada no joelho, tinham se fechado em torno do tecido da calça.
— Eu já ouvi falar — disse, com a voz mais neutra que conseguiu.
— Ela esteve no Brasil — Grace comentou, sem olhar para ninguém. — Há uns dois anos. Foi para o Maranhão.
— Foi? — Marcela perguntou.
— Foi. Eu li numa revista de negócios. Uma viagem para fechar uma parceria com um resort.
— Não é o seu resort? — Aoife perguntou.
Silêncio.
Marcela levou a xícara aos lábios, tomou um gole demorado, e pousou-a no pires com cuidado.
— É. Era uma parceria entre a Smith e a Carter Hotels. Eles ficaram uma semana.
— Você conheceu?
— Eu trabalhava na recepção. Atendi eles.
— E como ela é?
Havia seis pares de olhos esperando.
Marcela sorriu, um sorriso pequeno, leve, que não chegou a nenhum lugar perigoso.
— Educada. Séria. Deu nota máxima no questionário.
— Só isso?
— Só isso.
Tomás soltou um riso, decepcionado.
— Eu esperava uma história.
— Eu tenho muitas histórias. Essa não é uma delas.
— Qual é a melhor?
— A do macaco no ombro de uma hóspede.
— Conta!
— Outro dia.
— Ah, não!
— Uma por almoço — Marcela disse. — É o meu preço.
A mesa protestou, riu, discutiu. E o assunto escorregou para outra coisa, para outra piada, para outro prato. Mas Grace ficou olhando para ela por um segundo a mais, por cima dos óculos, com a expressão de quem acabava de fazer uma anotação mental.
Marcela não percebeu. Estava olhando a janela.
A torre ainda estava lá.
Quando a conta chegou, ela já tinha a carteira na mão.
— Eu pago a minha parte.
— A gente divide — Tomás disse.
— Exato. Quanto dá para cada um?
Priya pegou o celular, fez uma conta rápida.
— Quinze euros e dezessete.
Marcela contou duas notas e uma moeda.
— Quinze e vinte. Fica o troco de gorjeta.
— Você nem olhou o recibo.
— Dividi por dois, depois por dois, e perguntei: eu pagaria isso? A resposta foi sim.
— O quê?
— Uma lição que eu ensinei num avião.
Os seis ficaram olhando para ela com cara de interrogação, e Marcela riu sozinha, sem explicar.
A tarde passou rápido.
Declan reuniu o time numa sala de vidro para uma sessão que Marcela não esperava dirigir. Ele pediu que ela contasse como era o dia a dia de uma recepção de resort, com todos os detalhes, os pequenos, os chatos, os que ninguém escreve em manual. Ela pegou um quadro branco, uma caneta, e começou.
Falou do hóspede que chega às onze da noite, cansado, com três filhos e uma mala quebrada. Do que ele quer primeiro: um sorriso, não uma ficha. Da família que reclama da piscina porque a criança não sabe nadar e a culpa é de alguém. Do idoso que não usa celular e fica perdido na fila digital. Do hóspede estrangeiro que não fala português e entende melhor um gesto do que uma tela. Da noite em que faltou luz e a equipe inteira acendeu velas e serviu jantar no escuro, e os hóspedes lembraram daquilo como a melhor parte da viagem.
— A tecnologia não pode atrapalhar isso — disse. — Ela tem que sumir. Se o hóspede percebe o sistema, o sistema falhou.
Tomás anotava sem parar. Priya riscava post-its. Callum, com a boca entreaberta, escrevia numa letra minúscula. Grace, no fundo da sala, de braços cruzados, tinha um meio sorriso nos lábios.
Quando Marcela terminou, houve um silêncio curto. Depois Declan se levantou e começou a bater palmas, lentamente. O resto da sala o acompanhou.
— Isso é exatamente o que a gente não sabia — ele disse.
— Eu só descrevi o que acontece.
— É isso. Ninguém aqui descreve. A gente só olha para números.
— Os números também são importantes.
— São. Mas você acabou de nos dar o que está do lado de lá deles.
Rodrigo, do outro lado da mesa, olhou para ela e levantou o polegar, discretamente, com os olhos úmidos de orgulho.
Marcela corou até as orelhas e voltou ao lugar.
Às seis, Aoife a esperou na porta do elevador.
— Você mora em Ballsbridge, né?
— Elgin Road.
— Eu moro duas ruas depois. Vamos juntas?
— Vamos.
Desceram, atravessaram o saguão e saíram para uma Dublin de fim de tarde, de luzes acesas e céu quase roxo. A chuva tinha parado. O ar cheirava a asfalto molhado e a castanhas assadas que um vendedor vendia na esquina. Aoife caminhava com as mãos nos bolsos, o cachecol enrolado até o queixo, e Marcela ia ao lado dela, devagar, de cabeça erguida, olhando cada vitrine.
— Você é boa — Aoife disse, depois de um tempo.
— No quê?
— Em fazer as pessoas gostarem de você.
— Eu só falo com elas.
— Ninguém mais faz isso.
— Eu sei. Já me disseram.
— Quem?
— Uma pessoa.
— Hum.
Andaram em silêncio por uma quadra.
— Se você precisar de alguma coisa — Aoife disse, sem olhar para ela —, qualquer coisa, é só me procurar. Eu moro sozinha, tenho um gato, um sofá velho e uma garrafa de vinho que ninguém bebe.
— Eu aceito o gato.
— O gato aceita você.
— Como ele se chama?
— Seamus.
— Que nome horrível.
— É um nome irlandês muito respeitável.
— É um nome de velho.
— Ele é um velho. Tem quinze anos.
Marcela riu.
— Quinta-feira a gente vai ao pub da esquina — Aoife continuou. — Todo mundo do time vai. Tem música ao vivo, sempre uma banda que ninguém conhece. Você vem?
— Vou.
— Vai gostar.
— Eu já gosto.
Chegaram à Elgin Road quando a noite já tinha caído por completo. Aoife apontou o fim da rua.
— Eu sou ali.
— Obrigada por me levar.
— Foi um prazer. Boa noite, Marcela.
— Boa noite, Aoife.
Ela ficou olhando a outra se afastar, de cachecol verde, os ombros encolhidos contra o frio, e sentiu um calor estranho no peito. Não era saudade. Era o contrário: a sensação nova e frágil de pertencer a um lugar onde, uma semana antes, ela não conhecia ninguém.
Subiu os três andares a pé.
No estúdio, tirou o casaco e as botas. Colocou água para esquentar. Sentou na poltrona verde, ao lado da camisa vermelha e preta, e abriu o celular.
Nathalie: Voltei. Acabei de chegar. Como foi o dia?
Marcela olhou a mensagem por um instante.
Depois digitou, devagar:
Marcela: Foi bom. Conheci o time inteiro. Almocei com eles num pub e provei Guinness.
Nathalie: E?
Marcela: Tem gosto de café queimado que brigou com uma cerveja.
A resposta demorou meio minuto.
Nathalie: Posso usar isso?
Marcela: Só com crédito.
Nathalie: Combinado. Amanhã, às dez, no Larkin's.
Marcela: Dividindo.
Nathalie: Dividindo.
Ela largou o celular no braço da poltrona e ficou olhando a janela redonda, o círculo de céu escuro, as chaminés molhadas ao longe.
O coração estava leve.
E, no entanto, bem no fundo, uma voz baixa, quase inaudível, perguntava se alguém, em algum lugar daquela cidade, estaria pensando nela naquele mesmo instante.
No trigésimo andar de uma torre de vidro, Mavie assinava o último papel do dia.
Fiona tinha entrado às cinco e meia, fechado a porta e dito, sem rodeios:
— Eles começaram hoje. A equipe do Brasil. Estão no décimo quinto andar da Meridian.
— Eu sabia.
— A Siobhan disse que a senhorita Alves foi muito bem recebida.
— Eu não perguntei.
— Eu sei que não. Estou dizendo mesmo assim.
Mavie não levantou os olhos do papel.
— Mais alguma coisa?
— Almoçaram num pub, com a equipe. Voltaram de tarde. Uma das funcionárias da Meridian é prima de uma colega minha, e comentou que ela deu uma palestra e todo mundo aplaudiu.
A caneta de Mavie parou.
— Aplaudiu.
— De pé.
Fiona esperou. Mavie não disse nada.
— Eu volto amanhã — Fiona disse, por fim, e saiu.
Mavie ficou sozinha na sala silenciosa.
Largou a caneta, levantou, foi até a janela. A noite caía sobre a cidade, as luzes acendendo uma a uma, as ruas molhadas refletindo o amarelo dos postes. À direita, do outro lado do rio, um prédio de vidro azulado ainda tinha vários andares iluminados.
O décimo quinto estava apagado.
Ela tinha contado, sem perceber, sem perceber, andar por andar.
De pé.
Encostou a testa no vidro frio.
Lembrou da voz dela, rindo, no último dia de um resort cheio de bandeirolas. Lembrou do jeito de contar as coisas com as mãos. Lembrou dela dançando um Bumba Meu Boi ao lado de uma desastrada de olhos verdes que errava todos os passos.
Ela devia estar tão bonita falando.
O pensamento veio sem aviso, e doeu de um jeito novo, que não era só saudade. Era um orgulho que ela não tinha o direito de sentir.
Mavie fechou os olhos.
Lá fora, na cidade, as luzes de uma janela redonda acenderam no alto de um prédio de tijolos escuros que ela não conseguia ver daquela distância.
E nenhuma das duas, naquela noite, soube que a outra estava olhando.
— Bom dia.
— Aqui são duas e quarenta da madrugada e eu estou cumprindo a minha palavra — Isabela disse, com a voz arrastada de quem tinha acabado de acordar, e não de quem ainda estava de pé. — Você está viva?
— Estou.
— Está com frio?
— Estou usando três camadas.
— Está com medo?
Marcela abriu os olhos e ficou olhando o teto inclinado, a luz cinzenta passando pela janela redonda.
— Um pouco.
— Vai dar tudo certo.
— Eu sei.
— Eu não sei, mas alguém tem que falar.
Marcela riu e se sentou na cama. Do lado de fora, a chuva batia no vidro com a regularidade de quem não tinha nenhuma pressa de parar.
— Você dormiu direito? — Isabela perguntou.
— Dormi como uma pedra.
— Isso é bom.
— Eu acordei duas vezes para ver se a janela ainda estava ali.
— Marcela.
— Eu sei. Eu sei.
Tomou o banho mais rápido da vida, porque a água quente levou quatro minutos para chegar e ela não pretendia testar a paciência do encanamento. Vestiu a calça escura, a camisa branca, o casaco azul-marinho da mãe, e prendeu o cabelo num coque que desmoronou duas vezes antes de ficar firme. Olhou o próprio reflexo no espelho pequeno do banheiro.
— Você consegue — disse.
O celular vibrou em cima da pia. Uma mensagem de Nathalie.
Nathalie: Bom dia. Reunião de emergência em Londres, volto só à noite. O café fica para amanhã, se você ainda quiser. Siobhan vai receber vocês. Boa sorte.
Marcela leu duas vezes e sentiu alguma coisa estranha, um alívio e uma pontinha de outro sentimento que ela preferiu não nomear.
Nathalie: Eu mesma paguei a minha passagem de volta, antes que você pergunte.
Ela riu, sozinha, na frente do espelho.
Marcela: Combinado. Boa reunião.
Guardou o celular no bolso e saiu.
Rodrigo, Letícia e André esperavam no saguão do prédio, os três de guarda-chuva aberto, apesar de ainda estarem do lado de dentro. Rodrigo segurava o celular com as duas mãos, o rosto iluminado pela tela.
— O aplicativo diz que são vinte e cinco minutos a pé.
— Dez, a gente já fez ontem.
— Ontem era de van.
— Então devem ser uns doze.
— O aplicativo diz vinte e cinco.
— O aplicativo está com você de cabeça para baixo — Letícia disse, virando o celular dele para o lado certo.
Marcela passou pelos três, abriu a porta e saiu para a rua.
O ar frio bateu no rosto como um tapa gentil. Cheirava a terra molhada, a pão assado, a alguma flor que ela não sabia nomear. A calçada estava vazia, o asfalto brilhando. Uma mulher passou de bicicleta com uma capa amarela e a cestinha cheia de baguetes. Marcela a seguiu com o olhar, sorrindo sem perceber.
— Que foi? — André perguntou, abrindo o guarda-chuva.
— Nada. Só estou aqui.
— Aqui onde?
— Aqui. Eu estou aqui.
Ele a olhou por um segundo, sem entender, e depois sorriu também.
A Meridian parecia diferente de manhã. Na véspera, tinha sido um prédio de vidro azulado, imponente, quase frio. Agora, com a chuva escorrendo pelas paredes e o movimento de gente entrando de capa e cachecol, parecia uma colmeia comprida e viva. Siobhan os esperava na recepção, o tablet debaixo do braço, o coque impecável.
— Bom dia. Aqui estão os crachás.
Entregou quatro cartões brancos, cada um com a foto e o nome impressos. Marcela segurou o dela, olhou a própria cara de sono na foto, e leu embaixo, em letras pretas e firmes: Marcela Alves, Consultora de Operações, Projeto Aura.
— Consultora.
— Foi a classificação do RH — Siobhan disse, sem mudar de expressão. — A senhora Cross pediu que ficasse claro que você não é estagiária.
— Eu não tinha pedido isso.
— Ela sabe. Disse que era para você não precisar pedir.
Marcela olhou para o crachá de novo e guardou-o no bolso do casaco. Não sabia se estava irritada ou grata, e decidiu que não precisava resolver isso antes das nove.
O décimo quinto andar já estava acordado. Gente andando de um lado para o outro, copos de café, monitores acesos, o ruído baixo de teclados e de vozes falando em ritmos que Marcela mal acompanhava. O diretor de tecnologia, Declan, de barba grisalha e camisa de flanela, os recebeu na porta da sala de reunião quatro com um aperto de mão tão forte que Rodrigo fez uma careta.
— Bem-vindos. Vocês vão trabalhar com o meu time. São seis pessoas, todas ótimas, todas teimosas, e nenhuma delas fala português.
— Eu falo um pouco — disse uma voz, e uma moça de cabelo curto e ruivo-escuro se aproximou, estendendo a mão. — Bom dia. Eu sou Aoife.
Marcela apertou a mão dela e sorriu.
— Ee-fa?
— Eefa. Escreve com quatro letras e ninguém acerta.
— Aoife.
— Perfeito.
— Você fala português?
— Aprendi três frases pelo aplicativo. Duas são "obrigada" e "onde fica o banheiro". A terceira, eu esqueci.
— A terceira é "a conta, por favor".
— Ah, é isso — Aoife riu. — Eu sabia que era útil.
A sala de reunião tinha uma mesa comprida, seis cadeiras de um lado, quatro do outro, e uma tela enorme na parede. Declan apresentou o time. Tomás, desenvolvedor, magro e sardento, que mexia numa caneta sem parar. Priya, analista de dados, de olhos escuros e um sorriso rápido, que trazia um caderno cheio de post-its coloridos. Callum, do suporte, um rapaz enorme e tímido que cumprimentou todo mundo olhando para os sapatos. Grace, de relacionamento com clientes, uma senhora de uns cinquenta anos, de cabelo grisalho cortado reto, que olhou para Marcela por cima dos óculos e disse, sem cerimônia:
— Você é a que entende de hóspede.
— Eu tento.
— Ótimo. Ninguém aqui entende.
— Grace — Declan disse, em tom de aviso.
— Estou sendo honesta. Eles sabem tudo de código e nada de gente. Se você tem paciência, eu quero ser sua amiga.
— Eu tenho muita paciência.
— Então somos amigas.
A manhã foi um passeio.
Aoife ficou como guia, e levou Marcela de andar em andar, mostrando os cantos que ela precisava conhecer. A central de reservas, no terceiro, onde vinte pessoas de fone de ouvido atendiam ligações do mundo todo em seis idiomas. O laboratório de testes, no sétimo, com um quarto de hotel falso, uma recepção de papelão e câmeras no teto. A cozinha corporativa, no décimo, com uma máquina de café tão cheia de botões que Marcela precisou de dois minutos para entender como tirar uma xícara de água quente.
Em todos os andares, ela parava.
Parava para ler o crachá de alguém, para perguntar de onde era, para elogiar uma planta, um desenho colado na parede, uma caneca com um gato. Parava na central de reservas e conversou dez minutos com uma atendente chamada Niamh, que atendia ligações de Barcelona e tinha vontade de aprender português. Parava no laboratório e deixou um técnico de som explicar, empolgado, como funcionava o microfone que captava o ruído da recepção.
— Você conhece todo mundo — Aoife disse, quando voltaram para o décimo quinto.
— Estou tentando.
— Eu trabalho aqui há quatro anos e não sei o nome da metade deles.
— Isso é triste.
— Isso é Dublin. — Aoife sorriu, pegando duas canecas. — Ninguém quer incomodar ninguém.
— No Brasil a gente incomoda tanto que acaba virando amigo.
— Eu gostei disso.
— Você gostaria da minha família. É um incômodo de oito.
— Oito?
— Oito filhos.
Aoife arregalou os olhos.
— Você é uma de oito?
— A caçula.
— Meu Deus. Eu tenho um irmão e quase nos matamos.
— A gente também quase se matou. Várias vezes.
— E como vocês sobreviveram?
— Dividindo o controle remoto.
Aoife começou a rir, e Marcela riu junto, e o riso das duas ecoou pelo corredor, fazendo Callum levantar a cabeça de um monitor, olhar para elas e abrir um sorrisinho tímido.
Ao meio-dia, a sala inteira se levantou ao mesmo tempo, como se alguém tivesse tocado um sino.
— Almoço — Aoife anunciou. — A gente vai ao Lantern. Você vem.
— Eu não sei se...
— Não foi uma pergunta.
— Eu não conheço o lugar.
— Por isso mesmo.
— Eu não tenho certeza se...
— Marcela — Grace disse, já de casaco, com a bolsa debaixo do braço —, se você ficar aqui, vai almoçar uma salada sozinha no décimo andar. E você não é uma pessoa de salada sozinha.
— Como a senhora sabe?
— Eu tenho olhos.
Marcela olhou para Rodrigo, que fazia um sinal vigoroso de "vai, vai". Pegou o casaco e foi.
O Lantern ficava a cinco minutos a pé, numa travessa estreita, com uma fachada de madeira escura e uma janela de vidro quadriculado onde brilhava uma luz amarela. Por dentro era pequeno, quente, cheirando a pão assado e a cebola refogada, com um balcão comprido, um fogão a lenha num canto, e mesas de madeira gasta em que alguém tinha gravado, com canivete, nomes e datas. Havia um cachorro velho dormindo sob uma delas, e ninguém parecia se importar.
O grupo ocupou uma mesa grande perto da janela. Declan não foi, mas Tomás, Priya, Callum, Aoife, Grace, Rodrigo, Letícia e André se espremeram em volta dela, entre casacos pendurados e xícaras de chá.
— Primeira vez num pub? — Tomás perguntou.
— Em pub irlandês, sim.
— Então você tem que pedir o shepherd's pie.
— O que é?
— Carne moída com legumes, coberta de purê de batata e gratinada.
— Parece escondidinho.
— O quê?
— Um prato brasileiro. Carne seca desfiada, coberta de purê de mandioca. A gente chama de escondidinho porque a carne fica escondida embaixo.
— Eu quero um escondidinho — Callum disse, num sussurro, e todo mundo riu.
— Eu também — Priya completou.
— Então eu vou ter que fazer um para vocês.
— Promete?
— Prometo.
O prato chegou fumegante, numa travessa de barro, com uma crosta dourada que estalava ao toque da colher. Marcela provou e fechou os olhos.
— É muito bom.
— É melhor com cerveja — Tomás disse.
— Eu não bebo no almoço.
— É meia caneca.
— Eu trabalho à tarde.
— A gente também. É Guinness, não é veneno.
— Tomás — Grace disse. — Deixa a moça em paz.
— Só um gole.
— Marcela — Aoife se inclinou, com os olhos brilhando —, você já ouviu falar da Guinness?
— Já.
— E nunca provou?
— Nunca.
— Então você tem obrigação.
Marcela olhou para a mesa inteira, e todos olhavam para ela, com a curiosidade de crianças diante de um truque de mágica. Soltou um suspiro dramático.
— Está bem.
Callum, solene, empurrou o copo escuro na direção dela. Marcela cheirou, franziu o nariz, tomou um gole pequeno e ficou imóvel por três segundos inteiros.
A mesa esperou.
— E então?
— Tem gosto de café queimado que brigou com uma cerveja.
A gargalhada foi geral. Tomás bateu na mesa, Priya escondeu o rosto nas mãos, e até Grace, séria como uma freira, soltou um ronco que chamou a atenção das mesas vizinhas.
— Isso é a coisa mais irlandesa que eu já ouvi — disse Tomás, enxugando os olhos.
— Eu posso escrever e emoldurar?
— Eu faço o quadro.
— Mas eu ainda prefiro chá.
— Isso nós aceitamos.
O almoço se estendeu por quase uma hora e meia. Perguntaram de tudo. Como era o Maranhão, se era verdade que as lagoas sumiam, se o calor era mesmo de quarenta graus, se existia cobra na areia. Marcela mostrou fotos no celular e viu seis cabeças se aproximarem da tela, boquiabertas.
— Isso é real? — Callum perguntou.
— É.
— Parece fotografia de computador.
— É a vida.
— Eu preciso ir lá.
— Você vai. Eu faço o roteiro.
— Eu pago — disse Priya, e todos riram de novo.
Ela contou da família de oito, das disputas por comida, do cachorro azul do Lucas. Explicou o que era saudade, e ficou observando as seis tentativas de pronúncia, cada uma pior que a anterior. Ensinou "cafuné" e Aoife anotou no celular. Rodrigo, que até então tinha ficado calado, observando, olhou para ela com um orgulho discreto, de quem vê alguém crescer na frente dele.
Foi Grace quem tocou no assunto, no meio de uma colherada de pudim.
— Você veio com a Nat, não foi?
O garfo de Marcela parou no ar.
— Com a... Nathalie?
— A senhora Cross. Nós chamamos de Nat, por trás. Mas não conta.
— Eu vim com a equipe do resort. A Nathalie foi no mesmo voo porque estava voltando para cá.
— Ela te buscou pessoalmente?
— Ela... estava na recepção quando a gente chegou.
— Uma mulher que nunca vai buscar ninguém.
— É a sócia do resort.
— É a pessoa mais difícil de se aproximar da Irlanda — Tomás disse, em voz baixa. — Eu trabalho aqui há seis anos e nunca vi ela almoçar com ninguém.
— Ela almoça sozinha na sala dela — Priya completou. — Come uma salada em pé, olhando a cidade.
— Eu já vi isso — Callum sussurrou.
— Todo mundo já viu.
Marcela abaixou o garfo devagar.
— Isso é triste.
— É o que ela é — Grace disse. — Competente, justa e solitária. A gente gosta dela do jeito que se gosta de uma tempestade: de longe.
— Eu acho que ela é mais do que isso.
A frase saiu antes que Marcela pudesse segurar. Seis rostos se viraram para ela ao mesmo tempo, com o mesmo brilho de curiosidade.
— Mais do quê? — Aoife perguntou.
— Mais... — Marcela procurou as palavras. — Ela é muito direta. Fala o que pensa. Isso assusta quem não está acostumado, mas é uma forma de respeito.
— Você acha?
— Acho.
— Hum — Grace disse, e voltou para o pudim, com um sorriso que Marcela não soube decifrar.
— Falando em pessoas assustadoras — Tomás se virou para a janela, apontando com a colher —, você já viu aquele prédio?
Marcela olhou.
Entre dois telhados, a distância, uma torre de vidro escuro subia acima de todos os prédios vizinhos, esguia e solitária, com letras brancas discretas no topo.
— A Smith — Priya disse. — Nossa maior concorrente.
— A gente ganhou o contrato da prefeitura deles no ano passado — Tomás completou. — Você devia ter visto a cara do diretor deles na hora do anúncio.
— A CEO é a mulher mais assustadora de Dublin — Callum falou, baixinho.
— Mavie Smith — Grace disse. — Vinte e poucos anos quando assumiu, trinta e poucos agora. Não perde uma negociação. Não faz uma entrevista. Dizem que não dorme.
— Dizem que mora no último andar do prédio dela.
— Isso é mentira — Priya corrigiu. — Mora numa cobertura. Mas não sai de lá.
— Eu li uma matéria — Aoife disse. — Chamava "A Mulher Que Não Perde".
— Eu li também.
— Dizem que tem um coração de gelo.
Marcela mexeu o chá, devagar, com a colherinha.
Tinha o rosto imóvel. A postura tranquila. A respiração sob controle. Só uma pessoa que a conhecesse muito bem teria percebido que os dedos da mão esquerda, apoiada no joelho, tinham se fechado em torno do tecido da calça.
— Eu já ouvi falar — disse, com a voz mais neutra que conseguiu.
— Ela esteve no Brasil — Grace comentou, sem olhar para ninguém. — Há uns dois anos. Foi para o Maranhão.
— Foi? — Marcela perguntou.
— Foi. Eu li numa revista de negócios. Uma viagem para fechar uma parceria com um resort.
— Não é o seu resort? — Aoife perguntou.
Silêncio.
Marcela levou a xícara aos lábios, tomou um gole demorado, e pousou-a no pires com cuidado.
— É. Era uma parceria entre a Smith e a Carter Hotels. Eles ficaram uma semana.
— Você conheceu?
— Eu trabalhava na recepção. Atendi eles.
— E como ela é?
Havia seis pares de olhos esperando.
Marcela sorriu, um sorriso pequeno, leve, que não chegou a nenhum lugar perigoso.
— Educada. Séria. Deu nota máxima no questionário.
— Só isso?
— Só isso.
Tomás soltou um riso, decepcionado.
— Eu esperava uma história.
— Eu tenho muitas histórias. Essa não é uma delas.
— Qual é a melhor?
— A do macaco no ombro de uma hóspede.
— Conta!
— Outro dia.
— Ah, não!
— Uma por almoço — Marcela disse. — É o meu preço.
A mesa protestou, riu, discutiu. E o assunto escorregou para outra coisa, para outra piada, para outro prato. Mas Grace ficou olhando para ela por um segundo a mais, por cima dos óculos, com a expressão de quem acabava de fazer uma anotação mental.
Marcela não percebeu. Estava olhando a janela.
A torre ainda estava lá.
Quando a conta chegou, ela já tinha a carteira na mão.
— Eu pago a minha parte.
— A gente divide — Tomás disse.
— Exato. Quanto dá para cada um?
Priya pegou o celular, fez uma conta rápida.
— Quinze euros e dezessete.
Marcela contou duas notas e uma moeda.
— Quinze e vinte. Fica o troco de gorjeta.
— Você nem olhou o recibo.
— Dividi por dois, depois por dois, e perguntei: eu pagaria isso? A resposta foi sim.
— O quê?
— Uma lição que eu ensinei num avião.
Os seis ficaram olhando para ela com cara de interrogação, e Marcela riu sozinha, sem explicar.
A tarde passou rápido.
Declan reuniu o time numa sala de vidro para uma sessão que Marcela não esperava dirigir. Ele pediu que ela contasse como era o dia a dia de uma recepção de resort, com todos os detalhes, os pequenos, os chatos, os que ninguém escreve em manual. Ela pegou um quadro branco, uma caneta, e começou.
Falou do hóspede que chega às onze da noite, cansado, com três filhos e uma mala quebrada. Do que ele quer primeiro: um sorriso, não uma ficha. Da família que reclama da piscina porque a criança não sabe nadar e a culpa é de alguém. Do idoso que não usa celular e fica perdido na fila digital. Do hóspede estrangeiro que não fala português e entende melhor um gesto do que uma tela. Da noite em que faltou luz e a equipe inteira acendeu velas e serviu jantar no escuro, e os hóspedes lembraram daquilo como a melhor parte da viagem.
— A tecnologia não pode atrapalhar isso — disse. — Ela tem que sumir. Se o hóspede percebe o sistema, o sistema falhou.
Tomás anotava sem parar. Priya riscava post-its. Callum, com a boca entreaberta, escrevia numa letra minúscula. Grace, no fundo da sala, de braços cruzados, tinha um meio sorriso nos lábios.
Quando Marcela terminou, houve um silêncio curto. Depois Declan se levantou e começou a bater palmas, lentamente. O resto da sala o acompanhou.
— Isso é exatamente o que a gente não sabia — ele disse.
— Eu só descrevi o que acontece.
— É isso. Ninguém aqui descreve. A gente só olha para números.
— Os números também são importantes.
— São. Mas você acabou de nos dar o que está do lado de lá deles.
Rodrigo, do outro lado da mesa, olhou para ela e levantou o polegar, discretamente, com os olhos úmidos de orgulho.
Marcela corou até as orelhas e voltou ao lugar.
Às seis, Aoife a esperou na porta do elevador.
— Você mora em Ballsbridge, né?
— Elgin Road.
— Eu moro duas ruas depois. Vamos juntas?
— Vamos.
Desceram, atravessaram o saguão e saíram para uma Dublin de fim de tarde, de luzes acesas e céu quase roxo. A chuva tinha parado. O ar cheirava a asfalto molhado e a castanhas assadas que um vendedor vendia na esquina. Aoife caminhava com as mãos nos bolsos, o cachecol enrolado até o queixo, e Marcela ia ao lado dela, devagar, de cabeça erguida, olhando cada vitrine.
— Você é boa — Aoife disse, depois de um tempo.
— No quê?
— Em fazer as pessoas gostarem de você.
— Eu só falo com elas.
— Ninguém mais faz isso.
— Eu sei. Já me disseram.
— Quem?
— Uma pessoa.
— Hum.
Andaram em silêncio por uma quadra.
— Se você precisar de alguma coisa — Aoife disse, sem olhar para ela —, qualquer coisa, é só me procurar. Eu moro sozinha, tenho um gato, um sofá velho e uma garrafa de vinho que ninguém bebe.
— Eu aceito o gato.
— O gato aceita você.
— Como ele se chama?
— Seamus.
— Que nome horrível.
— É um nome irlandês muito respeitável.
— É um nome de velho.
— Ele é um velho. Tem quinze anos.
Marcela riu.
— Quinta-feira a gente vai ao pub da esquina — Aoife continuou. — Todo mundo do time vai. Tem música ao vivo, sempre uma banda que ninguém conhece. Você vem?
— Vou.
— Vai gostar.
— Eu já gosto.
Chegaram à Elgin Road quando a noite já tinha caído por completo. Aoife apontou o fim da rua.
— Eu sou ali.
— Obrigada por me levar.
— Foi um prazer. Boa noite, Marcela.
— Boa noite, Aoife.
Ela ficou olhando a outra se afastar, de cachecol verde, os ombros encolhidos contra o frio, e sentiu um calor estranho no peito. Não era saudade. Era o contrário: a sensação nova e frágil de pertencer a um lugar onde, uma semana antes, ela não conhecia ninguém.
Subiu os três andares a pé.
No estúdio, tirou o casaco e as botas. Colocou água para esquentar. Sentou na poltrona verde, ao lado da camisa vermelha e preta, e abriu o celular.
Nathalie: Voltei. Acabei de chegar. Como foi o dia?
Marcela olhou a mensagem por um instante.
Depois digitou, devagar:
Marcela: Foi bom. Conheci o time inteiro. Almocei com eles num pub e provei Guinness.
Nathalie: E?
Marcela: Tem gosto de café queimado que brigou com uma cerveja.
A resposta demorou meio minuto.
Nathalie: Posso usar isso?
Marcela: Só com crédito.
Nathalie: Combinado. Amanhã, às dez, no Larkin's.
Marcela: Dividindo.
Nathalie: Dividindo.
Ela largou o celular no braço da poltrona e ficou olhando a janela redonda, o círculo de céu escuro, as chaminés molhadas ao longe.
O coração estava leve.
E, no entanto, bem no fundo, uma voz baixa, quase inaudível, perguntava se alguém, em algum lugar daquela cidade, estaria pensando nela naquele mesmo instante.
No trigésimo andar de uma torre de vidro, Mavie assinava o último papel do dia.
Fiona tinha entrado às cinco e meia, fechado a porta e dito, sem rodeios:
— Eles começaram hoje. A equipe do Brasil. Estão no décimo quinto andar da Meridian.
— Eu sabia.
— A Siobhan disse que a senhorita Alves foi muito bem recebida.
— Eu não perguntei.
— Eu sei que não. Estou dizendo mesmo assim.
Mavie não levantou os olhos do papel.
— Mais alguma coisa?
— Almoçaram num pub, com a equipe. Voltaram de tarde. Uma das funcionárias da Meridian é prima de uma colega minha, e comentou que ela deu uma palestra e todo mundo aplaudiu.
A caneta de Mavie parou.
— Aplaudiu.
— De pé.
Fiona esperou. Mavie não disse nada.
— Eu volto amanhã — Fiona disse, por fim, e saiu.
Mavie ficou sozinha na sala silenciosa.
Largou a caneta, levantou, foi até a janela. A noite caía sobre a cidade, as luzes acendendo uma a uma, as ruas molhadas refletindo o amarelo dos postes. À direita, do outro lado do rio, um prédio de vidro azulado ainda tinha vários andares iluminados.
O décimo quinto estava apagado.
Ela tinha contado, sem perceber, sem perceber, andar por andar.
De pé.
Encostou a testa no vidro frio.
Lembrou da voz dela, rindo, no último dia de um resort cheio de bandeirolas. Lembrou do jeito de contar as coisas com as mãos. Lembrou dela dançando um Bumba Meu Boi ao lado de uma desastrada de olhos verdes que errava todos os passos.
Ela devia estar tão bonita falando.
O pensamento veio sem aviso, e doeu de um jeito novo, que não era só saudade. Era um orgulho que ela não tinha o direito de sentir.
Mavie fechou os olhos.
Lá fora, na cidade, as luzes de uma janela redonda acenderam no alto de um prédio de tijolos escuros que ela não conseguia ver daquela distância.
E nenhuma das duas, naquela noite, soube que a outra estava olhando.
Fim do capítulo

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