Foi na sexta-feira, entre uma xícara de chá e uma fatia de pão com manteiga, que Nathalie fez o convite.
— Você joga tênis?
Marcela parou com a faca no ar.
— Eu jogo futevôlei.
— Não é a mesma coisa.
— É quase. Tem rede, bola e gente brigando por ponto.
— Em futevôlei não se usa raquete.
— Em compensação, a gente usa os pés, que é bem mais difícil.
Nathalie riu e tomou um gole de chá. Fazia dois dias que os cafés da manhã tinham virado rotina, sempre dividindo a conta, sempre sem presente. Marcela já tinha parado de fingir que não esperava por eles.
— Eu sou sócia de um clube em Dublin — Nathalie continuou. — Fica na zona sul, tem quadras cobertas. Eu jogo todo sábado de manhã, faz anos. Pensei que você gostasse de ver.
— Ver?
— Ou jogar. Eu empresto uma raquete.
— E a roupa?
— O clube exige branco.
— Então eu não vou.
— Marcela.
— Eu não tenho roupa branca de tênis, e você não vai me comprar nada.
— Eu não ia.
— Ia.
— Ia — Nathalie admitiu, sem vergonha. — Mas não vou.
— Então eu me viro.
— Se virar como?
— Eu tenho a Aoife.
Na manhã de sábado, às nove e meia, Marcela esperava na calçada da Elgin Road com um casaco por cima do braço, uma sacola pendurada no ombro e o rosto de quem tinha acabado de sair de uma briga com um provador.
Tinha passado a tarde de sexta num shopping com Aoife, e tinha comprado, com o próprio dinheiro, uma saia branca pregueada, uma camisa de gola polo da mesma cor e um par de tênis que a vendedora jurou ser "adequado para quadra". Custou noventa e quatro euros, e Marcela tinha dividido mentalmente por dois, depois por dois outra vez, e feito a pergunta da lição do avião. A resposta foi um sim com muita culpa.
O carro preto de Nathalie parou diante do prédio, e Marcela entrou.
— Bom dia.
— Bom dia — Nathalie disse, e ficou olhando para ela.
— O que foi?
— Nada.
— Está olhando.
— Estou conferindo o uniforme.
— Aprovado?
— Aprovado. — Nathalie sorriu de lado. — A etiqueta está para fora.
Marcela levou a mão à nuca, apalpou, e encontrou o papelzinho de preço pendurado no colarinho.
— Meu Deus.
— Eu sempre achei fofo.
— Você achou fofo.
— Eu achei muito fofo.
— Cala a boca, Nathalie.
Arrancou a etiqueta com um puxarão, dobrou-a em quatro e a enfiou no bolso do casaco, o rosto vermelho até as orelhas. Nathalie riu o caminho inteiro.
O clube ficava numa rua larga e arborizada, cercada de muros de pedra e portões de ferro. Era antigo, de tijolo escuro e janelas altas, com uma entrada de cascalho e uma placa de bronze que dizia apenas Merrion Lawn. Por dentro, tinha o aconchego discreto das coisas que envelhecem bem: carpetes grossos, madeira polida, quadros de paisagens, um cheiro de cera e de chá preto.
Nathalie conduziu Marcela por um corredor longo, até uma porta dupla de vidro. Do outro lado havia uma quadra coberta, de piso azul, com um teto alto de vigas de madeira e uma parede lateral toda de vidro, que se abria para uma galeria no andar de cima.
— O restaurante fica ali — Nathalie apontou. — Dá para ver os jogos de lá.
— Tem público?
— Aos sábados, sempre. Os sócios gostam de almoçar olhando os outros suarem.
— Que sadismo.
— É tradição.
Marcela olhou para cima. A galeria, uma sacada comprida de madeira escura, tinha algumas mesas com toalhas brancas, em que gente elegante tomava chá e conversava em voz baixa. Ninguém olhava para a quadra. Não ainda.
— Eu vou passar vergonha — murmurou.
— Vai.
— Você podia dizer que não.
— Eu não minto.
— Eu sei.
— Mas eu vou ser gentil.
— Você vai ser um pouco gentil.
— Um pouco.
Pegaram duas raquetes. Nathalie mostrou como segurar, como girar o pulso, como posicionar os pés. Marcela repetia cada gesto com uma seriedade comovente, o rosto franzido, a língua entre os dentes.
— Você vai bater na bola, não matar ela.
— É assim que eu bato em tudo.
— Eu percebi.
Primeiro foram só trocas de bola, de longe, devagar. Marcela errava três em cada quatro, acertava uma ou outra no ângulo errado, mandava a bola para o teto, para a rede, para o canto da quadra onde uma funcionária recolhia bolas e se esquivava com cara de quem já tinha visto de tudo. Mas, a cada acerto, soltava um grito de comemoração que ecoava pelas vigas de madeira.
— Eu acertei!
— Eu vi.
— Você viu?
— Todo mundo viu.
— Eu quero uma medalha.
— Eu posso providenciar um adesivo.
— Eu aceito o adesivo.
Quando passaram para o jogo de verdade, Nathalie cedeu a primeira bola de graça, só por protocolo. Depois jogou a segunda com força média. A terceira, sem dó.
— Quinze a zero — Nathalie anunciou.
— Eu não vi a bola.
— Ela passou rápido.
— Ela passou invisível.
— Trinta a zero.
— Espera!
— Quarenta a zero.
— Nathalie!
— Game.
Marcela olhou para o placar, olhou para a bola quicando longe, olhou para a raquete na mão, e encostou a testa na rede com um suspiro teatral.
— Eu vou morrer aqui.
— Ainda faltam cinco games.
— Eu vou morrer em cada um deles.
— Eu te enterro com honra.
O jogo continuou. Marcela perdeu o segundo game, o terceiro, o quarto. Em dois, chegou a fazer um ponto, e comemorou como se fosse o título de um campeonato mundial, com os braços para cima e um grito que fez Nathalie rir tanto que errou o saque seguinte.
— Isso não vale — Marcela disse. — Você estava rindo.
— Eu estava me divertindo.
— Isso é falta.
— Não é.
— É falta de respeito.
— É falta de profissionalismo — Nathalie concordou, ainda rindo, e pegou a bola do chão.
Foi no quinto game que aconteceu. Marcela correu para uma bola curta, tropeçou nos próprios pés, escorregou e caiu sentada no piso azul. A raquete foi parar do outro lado da quadra.
Nathalie largou a dela no chão e correu até a rede.
— Você se machucou?
— Só o orgulho.
— Posso ajudar?
— Se você rir, eu te mato.
— Eu não vou rir.
— Você está com cara de quem vai.
— Eu estou com cara de quem está preocupada.
— Você está com cara de quem está preocupada e vai rir.
Nathalie mordeu o lábio, o rosto vermelho, os olhos úmidos. Estendeu a mão. Marcela a segurou e se levantou, sacudindo a saia, com os cabelos soltos do rabo de cavalo, uma mecha grudada na testa suada.
— Eu quero ir embora — disse.
— Falta um game.
— Eu perdi seis a zero.
— Falta um game para você perder seis a zero.
— Isso é cruel.
— É o esporte.
Marcela olhou para ela. E aí, devagar, o lábio inferior começou a tremer. Os olhos azuis ficaram brilhantes, grandes, úmidos. O queixo se franziu. A testa se enrugou numa cara de choro tão exagerada e tão sincera que Nathalie ficou congelada por três segundos, sem saber se estava vendo uma encenação ou uma crise de verdade.
— Marcela?
— Eu perdi — ela disse, com a voz fininha, baixinha, quase de criança. — Eu perdi tudo. Eu nem pontuei.
— Você pontuou duas vezes.
— Duas é nada.
— É mais que zero.
— Eu estou triste.
— Eu estou vendo.
— Você ganhou e eu perdi.
— Percebi.
— Eu quero um colo.
— Eu... — Nathalie olhou para a quadra vazia. — Eu posso te dar um café.
— Eu quero um colo e um café.
— Os dois.
— Os dois.
Nathalie abriu a boca, não achou nada para dizer e começou a rir, uma risada de verdade, solta, de cabeça jogada para trás, que ecoou pela quadra inteira. Marcela, vendo que o truque tinha funcionado, escorregou da cara de choro para um sorriso largo, e as duas ficaram ali, de pé, uma de frente para a outra, rindo sem conseguir parar.
— Você é terrível — Nathalie disse, enxugando os olhos.
— Eu sou ótima atriz.
— Eu quase acreditei.
— Eu sei. Eu vi o seu rosto.
— Eu entrei em pânico.
— Foi a melhor parte.
— Você é a pior pessoa que eu conheço.
— Eu sou a única que você conhece.
— Isso também.
Nathalie estendeu a mão, num gesto automático, e puxou a mecha de cabelo que grudava na testa de Marcela, colocando-a atrás da orelha dela. Foi só um segundo, os dedos tocando a pele quente do rosto suado, mas o riso das duas diminuiu, e os olhos se encontraram, e a quadra pareceu ficar um pouco maior e um pouco mais quieta.
— Obrigada — Marcela disse, baixinho.
— De nada.
— Por tudo isso.
— Eu só joguei tênis.
— Você me fez rir.
— Você me fez rir primeiro.
Ficaram alguns segundos assim, a respiração ainda ofegante, uma bola amarela rolando devagar até parar perto da linha.
Foi Nathalie quem desviou o olhar, devagar, para pegar a bola.
— Um game — disse. — Eu prometo ser gentil.
— Eu não quero que você seja gentil.
— Não?
— Eu quero que você jogue com vontade. Se você me deixar ganhar, eu vou embora.
— Eu não ia te deixar ganhar.
— Ótimo.
— Eu ia te dar um ponto de graça.
— Nathalie.
— Está bem. Jogo limpo.
Jogaram o último game. Marcela perdeu de quarenta a quinze, fez um ponto de sorte com uma bola que bateu na fita da rede e caiu do lado errado, e comemorou com um pulo tão alto que derrubou a raquete. Nathalie aplaudiu, de pé, com o rosto aberto de uma maneira que ninguém, em onze anos de clube, jamais tinha visto.
Uma galeria acima, atrás de uma parede de vidro, uma mulher ruiva segurava uma xícara de chá.
Mavie tinha ido ao Merrion Lawn pela mãe.
Victoria Smith tinha o hábito de almoçar no clube aos sábados, e fazia tempo que pedia à filha que a acompanhasse. Mavie sempre arranjava uma desculpa. Naquela manhã, depois de cinco horas de sono e uma noite inteira olhando para o teto, Victoria telefonou às oito e disse, sem rodeios: "Eu quero almoçar com a minha filha. Hoje." E Mavie, sem energia para negociar, aceitou.
Chegou ao restaurante às onze e meia, de calça escura e casaco de caxemira cinza, o cabelo preso, sem maquiagem além do batom. A mãe já estava à mesa, perto da parede de vidro, com um vestido verde-musgo e o rosto tranquilo de quem não estava ali por acaso.
— Você está pálida.
— Eu estou bem.
— Eu não perguntei.
— Eu sei.
Victoria sorriu, de leve, e fez sinal ao garçom. Pediram chá. Falaram de coisas pequenas: do jantar de domingo, de Ethan e das provas de fim de ano, de uma exposição na galeria nacional que Victoria queria visitar. Mavie respondia no tom certo, com os olhos fixos na xícara.
— Você não está ouvindo nada do que eu digo.
— Estou.
— O que eu disse?
— Que o Ethan precisa de aulas de matemática.
— Eu disse isso há dez minutos. Depois falei da exposição, do vestido da sua cunhada e de um escândalo envolvendo a esposa de um deputado.
Mavie piscou.
— Desculpa.
— Não precisa. — Victoria pousou a xícara no pires, devagar. — Eu só quero que você saiba que, quando quiser falar, eu escuto.
— Eu sei, mãe.
— Mas não vou insistir.
— Obrigada.
Ficaram em silêncio. Lá embaixo, na quadra coberta, duas figuras de branco trocavam bolas. Mavie olhou sem prestar atenção, como se olha pela janela de um trem. Uma das jogadoras era alta, de cabelo escuro preso num rabo, movimentos firmes e elegantes. A outra, um pouco mais baixa, era desajeitada, tropeçava, errava, ria.
Mavie levou a xícara aos lábios.
Parou.
Havia alguma coisa naquela risada.
Não ouvia o som, o vidro e a distância impediam. Mas via o corpo inteiro da mulher dobrar para a frente a cada erro, a cabeça jogada para trás, os braços abertos, a raquete escorregando da mão. Via o cabelo castanho solto do rabo, balançando. Via os ombros sacudindo.
Mavie pousou a xícara no pires. O pires tilintou.
— Mavie?
Ela não respondeu.
A jogadora desajeitada escorregou, caiu sentada. A outra correu até a rede. Mavie viu, como num filme mudo, as duas se encontrarem, uma mão estendida, outra segurando, um levantar rápido, e depois o rosto da mulher caída se transformar numa cara de choro tão exagerada, tão de criança, tão cheia de graça, que o peito de Mavie se contraiu antes de a cabeça entender.
Aquele beicinho.
Ela conhecia aquele beicinho.
Tinha visto, uma vez, em outra vida, numa cabana de madeira, debaixo de uma chuva torrencial: o mesmo lábio inferior tremendo de brincadeira, a mesma sobrancelha franzida, o mesmo brilho nos olhos azuis.
Marcela.
O nome subiu pelo corpo todo como um calafrio.
— Mavie — Victoria repetiu, mais baixo, e seguiu o olhar da filha até a quadra. Ficou olhando um instante. Depois, sem mudar de expressão, pegou o guardanapo e o dobrou ao meio. — Quer que a gente mude de mesa?
— Não.
— Posso pedir que...
— Não, mãe. Obrigada.
A voz saiu firme, mas as mãos, sobre o colo, tinham se fechado tanto que as unhas deixaram marcas nas palmas.
Lá embaixo, Nathalie estendeu a mão para o rosto de Marcela e arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. O gesto foi rápido, quase casual. Durou os dois segundos mais longos da vida de Mavie.
As duas riam de novo.
Nathalie ria. Mavie nunca a tinha visto rir. Em onze anos de mercado, de reuniões, de brindes forçados, de olhares enviesados em jantares de gala, nunca tinha visto aquela mulher rir de verdade. E agora ria com a boca aberta, a cabeça inclinada, os olhos cinza apertados, de um jeito leve e despreocupado, de uma pessoa que não está se defendendo de nada.
Foi isso que ela fez com a Marcela.
Foi isso que a Marcela fez com ela.
Mavie sentiu uma coisa fria subir pelo estômago. Um tipo de raiva que não tinha nada de quente, nada de explosivo. Uma raiva lenta, comprida, que se instalava nos ossos.
Victoria pediu a conta sem dizer uma palavra.
Foi no corredor, a caminho do vestiário, que Mavie encontrou o casal.
— Mavie Smith! — Conor Whelan, sessenta e poucos anos, de cabelo branco e rosto corado, abriu os braços como se fosse abraçá-la, e se contentou com um aperto de mão. — Faz um século.
— Conor.
— Você conhece a Sinéad.
— Claro. Boa tarde.
— Boa tarde, querida — Sinéad disse, com um sorriso largo. — Que bom ver você por aqui. Sua mãe está lá em cima?
— Está.
— Ótimo. Vou cumprimentá-la.
— Estávamos agora mesmo comentando — Conor interrompeu, olhando por cima do ombro para a quadra, que se via através de uma janela comprida — da Nathalie Cross.
Mavie ficou imóvel.
— Da Nathalie.
— Você a viu? Jogando ali embaixo?
— Vi de passagem.
— Eu a conheço há quinze anos, Mavie. Quinze. Em todo esse tempo, eu nunca a tinha visto rir na quadra. — Conor balançou a cabeça, com um ar de espanto bem-humorado. — Joga como uma máquina, ganha de todo mundo, sai de cara fechada. Hoje, olha só.
— Parece outra pessoa — Sinéad completou. — Está mais leve. Eu a vi dar uma risada que... bom, eu nem sabia que ela tinha.
— Quem é a moça?
— Uma brasileira. — Conor baixou a voz, partilhando uma fofoca. — Trabalha com ela. Estão implantando um sistema novo, ouvi dizer. Chegou há uns dias.
— Dizem que ela se hospedou no apartamento corporativo, em Ballsbridge — Sinéad acrescentou. — E que a Nathalie foi buscar a equipe no aeroporto. Pessoalmente.
— A Nathalie. No aeroporto.
— Eu sei. Eu também não acreditei.
— Eles combinam — Conor disse, olhando de novo para a quadra. — Há uma coisa nelas. Uma harmonia.
Mavie sorriu.
Era um sorriso perfeito, de cortesia, aprendido em décadas de jantares como aquele. Cabia em qualquer situação.
— Fico feliz por ela.
— Todo mundo fica. — Conor deu uma palmadinha no braço dela. — Ela merecia.
— Com licença. Preciso voltar à minha mãe.
— Claro, claro. Mande lembranças ao Richard.
— Mandarei.
Virou-se e caminhou pelo corredor com a coluna reta, os passos regulares, o queixo erguido. Passou pela porta do vestiário, pela escada, pela sala de leitura vazia. Só quando chegou ao fim do corredor, onde havia uma janela estreita dando para um jardim cinzento, parou, apoiou as duas mãos no parapeito de mármore e respirou fundo.
O mármore estava frio.
Mavie fechou os olhos e deixou a raiva vir.
Era uma raiva grande. E não tinha um alvo só.
Tinha a Nathalie, que passara dois anos tentando destruí-la e agora ria, de mãos dadas com uma coisa que ela não tinha o direito de tocar. A Nathalie, que sabia exatamente quem era Marcela e a levava a um clube onde os sócios do pai de Mavie almoçavam, para exibi-la como um troféu.
Tinha a Marcela, que ria sem ela. Que fora feliz, de saia branca, de tênis novo, de beicinho, em cima de uma quadra azul, sem nenhuma sombra nos olhos, sem nenhuma pergunta. Como se os dois anos tivessem passado sem deixar rastro. Como se o mirante, a cama de lençol azul, o fica comigo e o silêncio de Mavie como resposta fossem uma história que tinha acontecido com outras duas pessoas.
E tinha, acima de todas, ela mesma.
Porque Mavie sabia. Sabia que não tinha direito nenhum àquela raiva. Que fora ela quem saíra do quarto sem uma palavra. Que fora ela quem recusara uma despedida, quem trancara a porta, quem jogara a chave no mar. Que o riso de Marcela, naquele momento, era a coisa mais justa que podia acontecer.
E, mesmo assim, doía.
Doía de um jeito que ela nunca tinha sentido. Não era a dor do abandono, nem a do arrependimento. Era a de ver uma coisa viva, quente, que a gente carregou em segredo durante dois anos, florescer em outro jardim.
A raiva ia corroendo por dentro, devagar, como ferrugem. Mavie percebeu que estava apertando o mármore com tanta força que os dedos tremiam.
Respira.
Você não tem direito.
Respira.
— Mavie.
A voz da mãe veio de trás, baixa, sem cobrança. Mavie não se virou.
— Eu estou bem.
— Eu sei que não.
— Eu só preciso de um minuto.
— Eu espero.
Victoria ficou ali, parada a dois passos, de bolsa na mão, em silêncio. Era uma mulher que sabia esperar. Que tinha aprendido, num casamento de décadas com um homem como Richard, que certas conversas só começam quando ninguém tenta forçá-las.
— É ela? — perguntou, depois de muito tempo.
Mavie abriu os olhos.
— Quem?
— A moça lá embaixo. A que ri.
Mavie ficou calada.
Victoria assentiu devagar, como se aquela falta de resposta fosse exatamente a resposta que esperava.
— Eu nunca perguntei por que você terminou com o Alex — disse. — Seu pai perguntou, mas eu não. Achei que, se fosse importante, você me contaria.
— Mãe...
— Mas hoje eu vi o seu rosto olhando aquela quadra. — Victoria deu um passo à frente, pousou a mão no braço da filha, leve. — E eu entendi que nunca precisei perguntar.
Mavie baixou os olhos.
— Eu não tenho direito de sentir isso.
— Não existe direito. Existe o que a gente sente.
— Eu fui embora.
— Claro.
— Sem dizer nada.
— Eu imagino.
— Eu fui covarde.
— Foi — Victoria concordou, sem crueldade. — Mas você era muito jovem, sozinha, e carregava uma coisa que ninguém ensinou a carregar.
Mavie sentiu os olhos arderem. Piscou depressa, duas vezes.
— Eu não vou chorar aqui.
— Eu sei. Você nunca chorou na frente de ninguém desde os doze anos.
— Você lembra?
— Eu lembro de tudo. — Victoria sorriu, tristemente. — Fui eu quem te encontrou no banheiro da escola, depois da final do xadrez.
Mavie fechou os olhos.
— Não fala disso.
— Falo. Porque naquele dia eu prometi a mim mesma que ia te proteger. E falhei por vinte anos, deixando seu pai te ensinar que sentir era perder.
— Mãe.
— Eu não vou dizer o que você deve fazer. Mas vou dizer isto. — Os olhos dela, cinzentos e firmes, procuraram os da filha. — Se você ficar parada, olhando, vai continuar vendo outra pessoa ser feliz do outro lado do vidro. E a vida passa, Mavie. Passa muito mais rápido do que a gente imagina.
Mavie ficou em silêncio por um tempo.
Depois, devagar, soltou o mármore, endireitou os ombros, passou as costas da mão pelo canto do olho.
— Vamos almoçar — disse. — Eu estou com fome.
Victoria sorriu, e não insistiu.
Lá embaixo, na quadra de piso azul, Marcela dobrava a toalha sobre o banco e conversava com Nathalie, que enchia duas garrafas de água. Era meio-dia e quinze, o salão ainda cheirava a suor e borracha, e a luz acinzentada de Dublin entrava pela parede de vidro, derramando sobre as duas uma claridade baixa e suave.
— Eu preciso de um banho — Marcela disse.
— O vestiário é por ali.
— E depois?
— Depois a gente almoça.
— Aqui?
— No restaurante lá em cima.
— Eu não sei se estou vestida para o lugar.
— Você está vestida de branco. É o uniforme do clube.
— Eu estou suada.
— Isso também é tradição.
Marcela riu e pegou a bolsa.
— Preciso falar com você uma coisa antes.
— Fala.
— Obrigada por hoje. De verdade.
— Eu já disse que não precisa.
— Eu preciso. Foi... — Procurou a palavra. — Foi a primeira vez em dois anos que eu me senti leve.
Nathalie ficou imóvel por um instante.
— Dois anos.
— Mais ou menos.
— Desde o resort.
— Desde um pouco depois dele.
Nathalie não perguntou. Só segurou a garrafa com um pouco mais de força.
— Que bom — disse, baixinho. — Eu fico feliz de ter ajudado.
— Você ajudou muito.
— Então nós duas ganhamos.
— Eu perdi seis a zero.
— Você ganhou outra coisa.
Marcela sorriu, balançou a cabeça, e foi em direção ao vestiário. Na porta, parou e olhou para trás.
— Você vem?
— Já vou.
Ela ficou ali, no meio da quadra, com a garrafa na mão e os olhos fixos nas costas dela até que a porta se fechasse. Só então ergueu o rosto, devagar, e olhou para a galeria de vidro lá em cima.
Havia uma mesa vazia.
Duas xícaras de chá pela metade.
E, no vidro, o reflexo de uma luz pálida que parecia, por um instante, a forma de alguém que acabara de ir embora.
Nathalie ficou olhando por um segundo a mais do que devia.
Depois respirou fundo, abaixou a cabeça e guardou a garrafa na bolsa.
Eu prometi que ela seria a primeira a saber.
Mas não prometi que a outra não ia ver.
Do outro lado do vidro, num salão de chá silencioso, uma mulher ruiva levava o garfo à boca sem sentir o gosto de nada, e uma mãe elegante olhava a filha com a ternura cautelosa de quem enxerga, pela primeira vez em décadas, o que ela sempre escondeu.
Marcela não sabia.
Estava debaixo do chuveiro quente do vestiário, cantando baixinho uma música brasileira de que nem lembrava o nome, com a água escorrendo pelos cabelos e a pele ainda formigando da risada.
Era sábado, e ela estava feliz.
E, por algum motivo que ainda não conseguia explicar, essa felicidade tinha um gosto estranho de véspera.
— Você joga tênis?
Marcela parou com a faca no ar.
— Eu jogo futevôlei.
— Não é a mesma coisa.
— É quase. Tem rede, bola e gente brigando por ponto.
— Em futevôlei não se usa raquete.
— Em compensação, a gente usa os pés, que é bem mais difícil.
Nathalie riu e tomou um gole de chá. Fazia dois dias que os cafés da manhã tinham virado rotina, sempre dividindo a conta, sempre sem presente. Marcela já tinha parado de fingir que não esperava por eles.
— Eu sou sócia de um clube em Dublin — Nathalie continuou. — Fica na zona sul, tem quadras cobertas. Eu jogo todo sábado de manhã, faz anos. Pensei que você gostasse de ver.
— Ver?
— Ou jogar. Eu empresto uma raquete.
— E a roupa?
— O clube exige branco.
— Então eu não vou.
— Marcela.
— Eu não tenho roupa branca de tênis, e você não vai me comprar nada.
— Eu não ia.
— Ia.
— Ia — Nathalie admitiu, sem vergonha. — Mas não vou.
— Então eu me viro.
— Se virar como?
— Eu tenho a Aoife.
Na manhã de sábado, às nove e meia, Marcela esperava na calçada da Elgin Road com um casaco por cima do braço, uma sacola pendurada no ombro e o rosto de quem tinha acabado de sair de uma briga com um provador.
Tinha passado a tarde de sexta num shopping com Aoife, e tinha comprado, com o próprio dinheiro, uma saia branca pregueada, uma camisa de gola polo da mesma cor e um par de tênis que a vendedora jurou ser "adequado para quadra". Custou noventa e quatro euros, e Marcela tinha dividido mentalmente por dois, depois por dois outra vez, e feito a pergunta da lição do avião. A resposta foi um sim com muita culpa.
O carro preto de Nathalie parou diante do prédio, e Marcela entrou.
— Bom dia.
— Bom dia — Nathalie disse, e ficou olhando para ela.
— O que foi?
— Nada.
— Está olhando.
— Estou conferindo o uniforme.
— Aprovado?
— Aprovado. — Nathalie sorriu de lado. — A etiqueta está para fora.
Marcela levou a mão à nuca, apalpou, e encontrou o papelzinho de preço pendurado no colarinho.
— Meu Deus.
— Eu sempre achei fofo.
— Você achou fofo.
— Eu achei muito fofo.
— Cala a boca, Nathalie.
Arrancou a etiqueta com um puxarão, dobrou-a em quatro e a enfiou no bolso do casaco, o rosto vermelho até as orelhas. Nathalie riu o caminho inteiro.
O clube ficava numa rua larga e arborizada, cercada de muros de pedra e portões de ferro. Era antigo, de tijolo escuro e janelas altas, com uma entrada de cascalho e uma placa de bronze que dizia apenas Merrion Lawn. Por dentro, tinha o aconchego discreto das coisas que envelhecem bem: carpetes grossos, madeira polida, quadros de paisagens, um cheiro de cera e de chá preto.
Nathalie conduziu Marcela por um corredor longo, até uma porta dupla de vidro. Do outro lado havia uma quadra coberta, de piso azul, com um teto alto de vigas de madeira e uma parede lateral toda de vidro, que se abria para uma galeria no andar de cima.
— O restaurante fica ali — Nathalie apontou. — Dá para ver os jogos de lá.
— Tem público?
— Aos sábados, sempre. Os sócios gostam de almoçar olhando os outros suarem.
— Que sadismo.
— É tradição.
Marcela olhou para cima. A galeria, uma sacada comprida de madeira escura, tinha algumas mesas com toalhas brancas, em que gente elegante tomava chá e conversava em voz baixa. Ninguém olhava para a quadra. Não ainda.
— Eu vou passar vergonha — murmurou.
— Vai.
— Você podia dizer que não.
— Eu não minto.
— Eu sei.
— Mas eu vou ser gentil.
— Você vai ser um pouco gentil.
— Um pouco.
Pegaram duas raquetes. Nathalie mostrou como segurar, como girar o pulso, como posicionar os pés. Marcela repetia cada gesto com uma seriedade comovente, o rosto franzido, a língua entre os dentes.
— Você vai bater na bola, não matar ela.
— É assim que eu bato em tudo.
— Eu percebi.
Primeiro foram só trocas de bola, de longe, devagar. Marcela errava três em cada quatro, acertava uma ou outra no ângulo errado, mandava a bola para o teto, para a rede, para o canto da quadra onde uma funcionária recolhia bolas e se esquivava com cara de quem já tinha visto de tudo. Mas, a cada acerto, soltava um grito de comemoração que ecoava pelas vigas de madeira.
— Eu acertei!
— Eu vi.
— Você viu?
— Todo mundo viu.
— Eu quero uma medalha.
— Eu posso providenciar um adesivo.
— Eu aceito o adesivo.
Quando passaram para o jogo de verdade, Nathalie cedeu a primeira bola de graça, só por protocolo. Depois jogou a segunda com força média. A terceira, sem dó.
— Quinze a zero — Nathalie anunciou.
— Eu não vi a bola.
— Ela passou rápido.
— Ela passou invisível.
— Trinta a zero.
— Espera!
— Quarenta a zero.
— Nathalie!
— Game.
Marcela olhou para o placar, olhou para a bola quicando longe, olhou para a raquete na mão, e encostou a testa na rede com um suspiro teatral.
— Eu vou morrer aqui.
— Ainda faltam cinco games.
— Eu vou morrer em cada um deles.
— Eu te enterro com honra.
O jogo continuou. Marcela perdeu o segundo game, o terceiro, o quarto. Em dois, chegou a fazer um ponto, e comemorou como se fosse o título de um campeonato mundial, com os braços para cima e um grito que fez Nathalie rir tanto que errou o saque seguinte.
— Isso não vale — Marcela disse. — Você estava rindo.
— Eu estava me divertindo.
— Isso é falta.
— Não é.
— É falta de respeito.
— É falta de profissionalismo — Nathalie concordou, ainda rindo, e pegou a bola do chão.
Foi no quinto game que aconteceu. Marcela correu para uma bola curta, tropeçou nos próprios pés, escorregou e caiu sentada no piso azul. A raquete foi parar do outro lado da quadra.
Nathalie largou a dela no chão e correu até a rede.
— Você se machucou?
— Só o orgulho.
— Posso ajudar?
— Se você rir, eu te mato.
— Eu não vou rir.
— Você está com cara de quem vai.
— Eu estou com cara de quem está preocupada.
— Você está com cara de quem está preocupada e vai rir.
Nathalie mordeu o lábio, o rosto vermelho, os olhos úmidos. Estendeu a mão. Marcela a segurou e se levantou, sacudindo a saia, com os cabelos soltos do rabo de cavalo, uma mecha grudada na testa suada.
— Eu quero ir embora — disse.
— Falta um game.
— Eu perdi seis a zero.
— Falta um game para você perder seis a zero.
— Isso é cruel.
— É o esporte.
Marcela olhou para ela. E aí, devagar, o lábio inferior começou a tremer. Os olhos azuis ficaram brilhantes, grandes, úmidos. O queixo se franziu. A testa se enrugou numa cara de choro tão exagerada e tão sincera que Nathalie ficou congelada por três segundos, sem saber se estava vendo uma encenação ou uma crise de verdade.
— Marcela?
— Eu perdi — ela disse, com a voz fininha, baixinha, quase de criança. — Eu perdi tudo. Eu nem pontuei.
— Você pontuou duas vezes.
— Duas é nada.
— É mais que zero.
— Eu estou triste.
— Eu estou vendo.
— Você ganhou e eu perdi.
— Percebi.
— Eu quero um colo.
— Eu... — Nathalie olhou para a quadra vazia. — Eu posso te dar um café.
— Eu quero um colo e um café.
— Os dois.
— Os dois.
Nathalie abriu a boca, não achou nada para dizer e começou a rir, uma risada de verdade, solta, de cabeça jogada para trás, que ecoou pela quadra inteira. Marcela, vendo que o truque tinha funcionado, escorregou da cara de choro para um sorriso largo, e as duas ficaram ali, de pé, uma de frente para a outra, rindo sem conseguir parar.
— Você é terrível — Nathalie disse, enxugando os olhos.
— Eu sou ótima atriz.
— Eu quase acreditei.
— Eu sei. Eu vi o seu rosto.
— Eu entrei em pânico.
— Foi a melhor parte.
— Você é a pior pessoa que eu conheço.
— Eu sou a única que você conhece.
— Isso também.
Nathalie estendeu a mão, num gesto automático, e puxou a mecha de cabelo que grudava na testa de Marcela, colocando-a atrás da orelha dela. Foi só um segundo, os dedos tocando a pele quente do rosto suado, mas o riso das duas diminuiu, e os olhos se encontraram, e a quadra pareceu ficar um pouco maior e um pouco mais quieta.
— Obrigada — Marcela disse, baixinho.
— De nada.
— Por tudo isso.
— Eu só joguei tênis.
— Você me fez rir.
— Você me fez rir primeiro.
Ficaram alguns segundos assim, a respiração ainda ofegante, uma bola amarela rolando devagar até parar perto da linha.
Foi Nathalie quem desviou o olhar, devagar, para pegar a bola.
— Um game — disse. — Eu prometo ser gentil.
— Eu não quero que você seja gentil.
— Não?
— Eu quero que você jogue com vontade. Se você me deixar ganhar, eu vou embora.
— Eu não ia te deixar ganhar.
— Ótimo.
— Eu ia te dar um ponto de graça.
— Nathalie.
— Está bem. Jogo limpo.
Jogaram o último game. Marcela perdeu de quarenta a quinze, fez um ponto de sorte com uma bola que bateu na fita da rede e caiu do lado errado, e comemorou com um pulo tão alto que derrubou a raquete. Nathalie aplaudiu, de pé, com o rosto aberto de uma maneira que ninguém, em onze anos de clube, jamais tinha visto.
Uma galeria acima, atrás de uma parede de vidro, uma mulher ruiva segurava uma xícara de chá.
Mavie tinha ido ao Merrion Lawn pela mãe.
Victoria Smith tinha o hábito de almoçar no clube aos sábados, e fazia tempo que pedia à filha que a acompanhasse. Mavie sempre arranjava uma desculpa. Naquela manhã, depois de cinco horas de sono e uma noite inteira olhando para o teto, Victoria telefonou às oito e disse, sem rodeios: "Eu quero almoçar com a minha filha. Hoje." E Mavie, sem energia para negociar, aceitou.
Chegou ao restaurante às onze e meia, de calça escura e casaco de caxemira cinza, o cabelo preso, sem maquiagem além do batom. A mãe já estava à mesa, perto da parede de vidro, com um vestido verde-musgo e o rosto tranquilo de quem não estava ali por acaso.
— Você está pálida.
— Eu estou bem.
— Eu não perguntei.
— Eu sei.
Victoria sorriu, de leve, e fez sinal ao garçom. Pediram chá. Falaram de coisas pequenas: do jantar de domingo, de Ethan e das provas de fim de ano, de uma exposição na galeria nacional que Victoria queria visitar. Mavie respondia no tom certo, com os olhos fixos na xícara.
— Você não está ouvindo nada do que eu digo.
— Estou.
— O que eu disse?
— Que o Ethan precisa de aulas de matemática.
— Eu disse isso há dez minutos. Depois falei da exposição, do vestido da sua cunhada e de um escândalo envolvendo a esposa de um deputado.
Mavie piscou.
— Desculpa.
— Não precisa. — Victoria pousou a xícara no pires, devagar. — Eu só quero que você saiba que, quando quiser falar, eu escuto.
— Eu sei, mãe.
— Mas não vou insistir.
— Obrigada.
Ficaram em silêncio. Lá embaixo, na quadra coberta, duas figuras de branco trocavam bolas. Mavie olhou sem prestar atenção, como se olha pela janela de um trem. Uma das jogadoras era alta, de cabelo escuro preso num rabo, movimentos firmes e elegantes. A outra, um pouco mais baixa, era desajeitada, tropeçava, errava, ria.
Mavie levou a xícara aos lábios.
Parou.
Havia alguma coisa naquela risada.
Não ouvia o som, o vidro e a distância impediam. Mas via o corpo inteiro da mulher dobrar para a frente a cada erro, a cabeça jogada para trás, os braços abertos, a raquete escorregando da mão. Via o cabelo castanho solto do rabo, balançando. Via os ombros sacudindo.
Mavie pousou a xícara no pires. O pires tilintou.
— Mavie?
Ela não respondeu.
A jogadora desajeitada escorregou, caiu sentada. A outra correu até a rede. Mavie viu, como num filme mudo, as duas se encontrarem, uma mão estendida, outra segurando, um levantar rápido, e depois o rosto da mulher caída se transformar numa cara de choro tão exagerada, tão de criança, tão cheia de graça, que o peito de Mavie se contraiu antes de a cabeça entender.
Aquele beicinho.
Ela conhecia aquele beicinho.
Tinha visto, uma vez, em outra vida, numa cabana de madeira, debaixo de uma chuva torrencial: o mesmo lábio inferior tremendo de brincadeira, a mesma sobrancelha franzida, o mesmo brilho nos olhos azuis.
Marcela.
O nome subiu pelo corpo todo como um calafrio.
— Mavie — Victoria repetiu, mais baixo, e seguiu o olhar da filha até a quadra. Ficou olhando um instante. Depois, sem mudar de expressão, pegou o guardanapo e o dobrou ao meio. — Quer que a gente mude de mesa?
— Não.
— Posso pedir que...
— Não, mãe. Obrigada.
A voz saiu firme, mas as mãos, sobre o colo, tinham se fechado tanto que as unhas deixaram marcas nas palmas.
Lá embaixo, Nathalie estendeu a mão para o rosto de Marcela e arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. O gesto foi rápido, quase casual. Durou os dois segundos mais longos da vida de Mavie.
As duas riam de novo.
Nathalie ria. Mavie nunca a tinha visto rir. Em onze anos de mercado, de reuniões, de brindes forçados, de olhares enviesados em jantares de gala, nunca tinha visto aquela mulher rir de verdade. E agora ria com a boca aberta, a cabeça inclinada, os olhos cinza apertados, de um jeito leve e despreocupado, de uma pessoa que não está se defendendo de nada.
Foi isso que ela fez com a Marcela.
Foi isso que a Marcela fez com ela.
Mavie sentiu uma coisa fria subir pelo estômago. Um tipo de raiva que não tinha nada de quente, nada de explosivo. Uma raiva lenta, comprida, que se instalava nos ossos.
Victoria pediu a conta sem dizer uma palavra.
Foi no corredor, a caminho do vestiário, que Mavie encontrou o casal.
— Mavie Smith! — Conor Whelan, sessenta e poucos anos, de cabelo branco e rosto corado, abriu os braços como se fosse abraçá-la, e se contentou com um aperto de mão. — Faz um século.
— Conor.
— Você conhece a Sinéad.
— Claro. Boa tarde.
— Boa tarde, querida — Sinéad disse, com um sorriso largo. — Que bom ver você por aqui. Sua mãe está lá em cima?
— Está.
— Ótimo. Vou cumprimentá-la.
— Estávamos agora mesmo comentando — Conor interrompeu, olhando por cima do ombro para a quadra, que se via através de uma janela comprida — da Nathalie Cross.
Mavie ficou imóvel.
— Da Nathalie.
— Você a viu? Jogando ali embaixo?
— Vi de passagem.
— Eu a conheço há quinze anos, Mavie. Quinze. Em todo esse tempo, eu nunca a tinha visto rir na quadra. — Conor balançou a cabeça, com um ar de espanto bem-humorado. — Joga como uma máquina, ganha de todo mundo, sai de cara fechada. Hoje, olha só.
— Parece outra pessoa — Sinéad completou. — Está mais leve. Eu a vi dar uma risada que... bom, eu nem sabia que ela tinha.
— Quem é a moça?
— Uma brasileira. — Conor baixou a voz, partilhando uma fofoca. — Trabalha com ela. Estão implantando um sistema novo, ouvi dizer. Chegou há uns dias.
— Dizem que ela se hospedou no apartamento corporativo, em Ballsbridge — Sinéad acrescentou. — E que a Nathalie foi buscar a equipe no aeroporto. Pessoalmente.
— A Nathalie. No aeroporto.
— Eu sei. Eu também não acreditei.
— Eles combinam — Conor disse, olhando de novo para a quadra. — Há uma coisa nelas. Uma harmonia.
Mavie sorriu.
Era um sorriso perfeito, de cortesia, aprendido em décadas de jantares como aquele. Cabia em qualquer situação.
— Fico feliz por ela.
— Todo mundo fica. — Conor deu uma palmadinha no braço dela. — Ela merecia.
— Com licença. Preciso voltar à minha mãe.
— Claro, claro. Mande lembranças ao Richard.
— Mandarei.
Virou-se e caminhou pelo corredor com a coluna reta, os passos regulares, o queixo erguido. Passou pela porta do vestiário, pela escada, pela sala de leitura vazia. Só quando chegou ao fim do corredor, onde havia uma janela estreita dando para um jardim cinzento, parou, apoiou as duas mãos no parapeito de mármore e respirou fundo.
O mármore estava frio.
Mavie fechou os olhos e deixou a raiva vir.
Era uma raiva grande. E não tinha um alvo só.
Tinha a Nathalie, que passara dois anos tentando destruí-la e agora ria, de mãos dadas com uma coisa que ela não tinha o direito de tocar. A Nathalie, que sabia exatamente quem era Marcela e a levava a um clube onde os sócios do pai de Mavie almoçavam, para exibi-la como um troféu.
Tinha a Marcela, que ria sem ela. Que fora feliz, de saia branca, de tênis novo, de beicinho, em cima de uma quadra azul, sem nenhuma sombra nos olhos, sem nenhuma pergunta. Como se os dois anos tivessem passado sem deixar rastro. Como se o mirante, a cama de lençol azul, o fica comigo e o silêncio de Mavie como resposta fossem uma história que tinha acontecido com outras duas pessoas.
E tinha, acima de todas, ela mesma.
Porque Mavie sabia. Sabia que não tinha direito nenhum àquela raiva. Que fora ela quem saíra do quarto sem uma palavra. Que fora ela quem recusara uma despedida, quem trancara a porta, quem jogara a chave no mar. Que o riso de Marcela, naquele momento, era a coisa mais justa que podia acontecer.
E, mesmo assim, doía.
Doía de um jeito que ela nunca tinha sentido. Não era a dor do abandono, nem a do arrependimento. Era a de ver uma coisa viva, quente, que a gente carregou em segredo durante dois anos, florescer em outro jardim.
A raiva ia corroendo por dentro, devagar, como ferrugem. Mavie percebeu que estava apertando o mármore com tanta força que os dedos tremiam.
Respira.
Você não tem direito.
Respira.
— Mavie.
A voz da mãe veio de trás, baixa, sem cobrança. Mavie não se virou.
— Eu estou bem.
— Eu sei que não.
— Eu só preciso de um minuto.
— Eu espero.
Victoria ficou ali, parada a dois passos, de bolsa na mão, em silêncio. Era uma mulher que sabia esperar. Que tinha aprendido, num casamento de décadas com um homem como Richard, que certas conversas só começam quando ninguém tenta forçá-las.
— É ela? — perguntou, depois de muito tempo.
Mavie abriu os olhos.
— Quem?
— A moça lá embaixo. A que ri.
Mavie ficou calada.
Victoria assentiu devagar, como se aquela falta de resposta fosse exatamente a resposta que esperava.
— Eu nunca perguntei por que você terminou com o Alex — disse. — Seu pai perguntou, mas eu não. Achei que, se fosse importante, você me contaria.
— Mãe...
— Mas hoje eu vi o seu rosto olhando aquela quadra. — Victoria deu um passo à frente, pousou a mão no braço da filha, leve. — E eu entendi que nunca precisei perguntar.
Mavie baixou os olhos.
— Eu não tenho direito de sentir isso.
— Não existe direito. Existe o que a gente sente.
— Eu fui embora.
— Claro.
— Sem dizer nada.
— Eu imagino.
— Eu fui covarde.
— Foi — Victoria concordou, sem crueldade. — Mas você era muito jovem, sozinha, e carregava uma coisa que ninguém ensinou a carregar.
Mavie sentiu os olhos arderem. Piscou depressa, duas vezes.
— Eu não vou chorar aqui.
— Eu sei. Você nunca chorou na frente de ninguém desde os doze anos.
— Você lembra?
— Eu lembro de tudo. — Victoria sorriu, tristemente. — Fui eu quem te encontrou no banheiro da escola, depois da final do xadrez.
Mavie fechou os olhos.
— Não fala disso.
— Falo. Porque naquele dia eu prometi a mim mesma que ia te proteger. E falhei por vinte anos, deixando seu pai te ensinar que sentir era perder.
— Mãe.
— Eu não vou dizer o que você deve fazer. Mas vou dizer isto. — Os olhos dela, cinzentos e firmes, procuraram os da filha. — Se você ficar parada, olhando, vai continuar vendo outra pessoa ser feliz do outro lado do vidro. E a vida passa, Mavie. Passa muito mais rápido do que a gente imagina.
Mavie ficou em silêncio por um tempo.
Depois, devagar, soltou o mármore, endireitou os ombros, passou as costas da mão pelo canto do olho.
— Vamos almoçar — disse. — Eu estou com fome.
Victoria sorriu, e não insistiu.
Lá embaixo, na quadra de piso azul, Marcela dobrava a toalha sobre o banco e conversava com Nathalie, que enchia duas garrafas de água. Era meio-dia e quinze, o salão ainda cheirava a suor e borracha, e a luz acinzentada de Dublin entrava pela parede de vidro, derramando sobre as duas uma claridade baixa e suave.
— Eu preciso de um banho — Marcela disse.
— O vestiário é por ali.
— E depois?
— Depois a gente almoça.
— Aqui?
— No restaurante lá em cima.
— Eu não sei se estou vestida para o lugar.
— Você está vestida de branco. É o uniforme do clube.
— Eu estou suada.
— Isso também é tradição.
Marcela riu e pegou a bolsa.
— Preciso falar com você uma coisa antes.
— Fala.
— Obrigada por hoje. De verdade.
— Eu já disse que não precisa.
— Eu preciso. Foi... — Procurou a palavra. — Foi a primeira vez em dois anos que eu me senti leve.
Nathalie ficou imóvel por um instante.
— Dois anos.
— Mais ou menos.
— Desde o resort.
— Desde um pouco depois dele.
Nathalie não perguntou. Só segurou a garrafa com um pouco mais de força.
— Que bom — disse, baixinho. — Eu fico feliz de ter ajudado.
— Você ajudou muito.
— Então nós duas ganhamos.
— Eu perdi seis a zero.
— Você ganhou outra coisa.
Marcela sorriu, balançou a cabeça, e foi em direção ao vestiário. Na porta, parou e olhou para trás.
— Você vem?
— Já vou.
Ela ficou ali, no meio da quadra, com a garrafa na mão e os olhos fixos nas costas dela até que a porta se fechasse. Só então ergueu o rosto, devagar, e olhou para a galeria de vidro lá em cima.
Havia uma mesa vazia.
Duas xícaras de chá pela metade.
E, no vidro, o reflexo de uma luz pálida que parecia, por um instante, a forma de alguém que acabara de ir embora.
Nathalie ficou olhando por um segundo a mais do que devia.
Depois respirou fundo, abaixou a cabeça e guardou a garrafa na bolsa.
Eu prometi que ela seria a primeira a saber.
Mas não prometi que a outra não ia ver.
Do outro lado do vidro, num salão de chá silencioso, uma mulher ruiva levava o garfo à boca sem sentir o gosto de nada, e uma mãe elegante olhava a filha com a ternura cautelosa de quem enxerga, pela primeira vez em décadas, o que ela sempre escondeu.
Marcela não sabia.
Estava debaixo do chuveiro quente do vestiário, cantando baixinho uma música brasileira de que nem lembrava o nome, com a água escorrendo pelos cabelos e a pele ainda formigando da risada.
Era sábado, e ela estava feliz.
E, por algum motivo que ainda não conseguia explicar, essa felicidade tinha um gosto estranho de véspera.
Fim do capítulo

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