— Dez graus.
Marcela ergueu os olhos da mala aberta sobre a cama.
— O quê?
— A previsão para a semana que você chega. — Nathalie estava parada na porta do quarto, o celular na mão, o rosto sério como se anunciasse o resultado de uma auditoria. — Dez graus de máxima. Chuva em cinco dos sete dias.
— Eu sei. Eu pesquisei.
— Pesquisou, e trouxe o quê?
Marcela apontou para a pilha dobrada ao lado da mala: dois casacos, seis pares de meia grossa, um cachecol de lã mostarda e uma blusa de moletom com o nome de uma universidade que ela nunca tinha visitado.
Nathalie olhou para a pilha por um longo segundo.
— Isso não aguenta uma semana em Dublin.
— Minha mãe comprou os casacos em São Luís.
— Em São Luís faz trinta e dois graus.
— Por isso mesmo estavam em promoção.
— Eu mandei uma loja de Dublin separar algumas peças — disse,
— Casaco de lã, botas impermeáveis, um cachecol decente. A Siobhan pode despachar tudo para o apartamento antes de você chegar.
— Não.
— Eu pago.
— Não.
— Marcela, é só roupa.
— Nathalie.
A voz saiu baixa, muito calma, daquelas que Marcela usava com os hóspedes que passavam do limite. Ela largou a meia que estava dobrando e se endireitou.
— Eu agradeço a intenção. Mas isso me ofende.
— Ofende?
— Ofende. — Ela cruzou os braços. — Você olhou a minha mala e viu uma coisa que precisava ser consertada. Eu sei que não foi por mal. Mas eu não sou uma pessoa que chega num lugar e precisa ser vestida por outra.
— Eu só queria que você não passasse frio.
— Eu posso passar frio sozinha. Eu sou adulta, tenho salário, e se eu precisar de um casaco melhor eu compro. Com o meu dinheiro, na hora que eu achar que preciso.
Nathalie ficou imóvel.
Não estava acostumada com aquilo. Em trinta e quatro anos de vida, a palavra "não" tinha chegado a ela de várias formas: com medo, com interesse disfarçado, com a falsa modéstia de quem queria ser convencida. Mas nunca como uma fronteira simples, sem raiva, sem cálculo, tão natural quanto fechar uma porta.
— Você não quer — disse, devagar.
— Não quero.
— Nem o casaco, nem a bota, nem nada.
— Nada que eu não tenha pedido.
— E isso é por orgulho?
Marcela pensou um instante antes de responder.
— É por jeito de ser. Eu cresci numa casa em que tudo era dividido por oito. Roupa passava de irmã para irmã, brinquedo de irmão para irmão. A gente aprendeu a gostar do que tinha. Não tem vergonha nisso, mas também não tem fome de mais. — Deu de ombros. — Casaco caro é casaco. Esquenta igual.
— Não esquenta igual.
— Esquenta o suficiente.
A frase ficou no ar.
Nathalie olhou para ela como se visse algo pela primeira vez. Tinha passado a vida cercada de gente que queria mais: mais cargo, mais ações, mais presentes, mais atenção. Gente que aceitava tudo e pedia ainda outra coisa. E ali estava uma mulher que recusava um casaco de dois mil euros como quem recusa um segundo prato.
— Você é a primeira pessoa que eu conheço que não quer nada de mim — Nathalie disse, em voz baixa.
— Eu quero uma coisa.
— O quê?
— Respeito.
— Isso você tem.
— Então estamos bem.
Ela voltou a dobrar as meias.
Nathalie ficou ali um instante a mais, as mãos nos bolsos, sem saber direito o que fazer com o silêncio. Depois sentou na ponta da cama, ao lado da mala, e ficou olhando o cachecol mostarda.
— Esse é bonito.
— Foi a Isa que tricotou. Ficou torto.
— Ficou torto — Nathalie concordou, pegando o cachecol. — Mas eu gostei.
— Pode ficar com ele se quiser.
— Eu não aceito presentes.
Marcela ergueu o rosto, e as duas se olharam. Foi a Marcela quem riu primeiro, um riso solto, de cabeça jogada para trás, e Nathalie, depois de um segundo de surpresa, riu também.
— Você aprende rápido — disse.
— Eu aprendo com quem me ensina.
— Eu estou aprendendo muita coisa nesta semana.
— Por exemplo?
Nathalie pensou.
— Que dá para perder uma discussão e gostar do resultado.
— Isso é raro?
— Comigo, é inédito.
Ficaram em silêncio por um momento, e foi um silêncio mais leve que os anteriores.
— Você nunca perdeu uma discussão? — Marcela perguntou, ajeitando o cachecol de volta na mala.
— Perdi algumas. Mas nunca por escolha.
— E o que você faz quando perde?
— Descubro o que o outro sabia que eu não sabia.
— E depois?
— Depois eu ganho a seguinte.
Marcela balançou a cabeça, sorrindo.
— Você é muito competitiva.
— É o único jeito que eu conheço de existir.
Havia uma ponta de verdade seca naquela frase, e Marcela notou. Não comentou. Só terminou de arrumar a mala e fechou o zíper com cuidado.
— Se você quiser, eu aceito um café em Dublin — disse, sem olhar para ela. — Quando eu chegar. Num lugar normal, com preço normal, em que a gente divide a conta.
Nathalie ergueu as sobrancelhas.
— Dividir a conta.
— Eu pago o meu.
— Aceito.
— Sem casaco.
— Sem casaco.
— Sem bota.
— Sem bota — Nathalie repetiu, e dessa vez o sorriso que apareceu no rosto dela não tinha nada de calculado.
O voo saiu de São Luís às onze da noite.
Nathalie tinha reservado a classe executiva para todos, inclusive para o Rodrigo, a Letícia e o André, que ocupavam as poltronas do outro lado do corredor com a expressão de quem tinha acabado de descobrir que cadeira podia virar cama. Marcela foi acomodada na janela. Nathalie, ao lado.
— Eu pedi para trocar — Marcela disse, quando sentou.
— Por quê?
— Para sentar com o pessoal.
— Eles estão ali.
— Do outro lado do corredor.
— A três metros.
— É diferente.
— A Letícia já dormiu.
Marcela olhou. Letícia estava de olhos fechados, o encosto reclinado, com um travesseiro do tamanho de um bebê. Rodrigo tentava entender o controle da tela. André mastigava uma castanha com cara de quem estava vivendo o melhor dia da vida.
— Está bem — Marcela cedeu, sorrindo. — Mas se eu acabar roncando no seu ombro, a culpa é sua.
— Eu aceito o risco.
— Você é corajosa.
— Eu nunca disse que não era.
Marcela tirou da bolsa um livro de capa gasta, as bordas dobradas, a lombada tão usada que as letras do título já estavam apagadas em alguns pontos. Acomodou-o no colo e passou os dedos pela capa, reencontrando um velho amigo.
Nathalie ergueu uma sobrancelha.
— O que é?
— Clarice Lispector.
— Quem?
— Você não conhece Clarice Lispector?
— Eu devia?
— Devia. — Marcela se virou no assento, com o corpo todo inclinado na direção dela, os olhos azuis acesos de uma empolgação que Nathalie ainda não tinha visto. — Ela nasceu na Ucrânia, veio para o Brasil com meses de vida, cresceu em Recife. É uma das maiores escritoras do país. Talvez a maior.
— Eu nunca li nenhum livro brasileiro.
— Isso é uma tristeza. — Marcela levou a mão ao peito. — Eu estou lendo A Hora da Estrela de novo. É a quarta vez.
— Quatro vezes o mesmo livro?
— Cada vez eu entendo uma coisa diferente. É sobre uma moça nordestina, a Macabéa, que vai morar no Rio e vive tão pequena, tão apagada, que quase pede desculpa por existir. E tem um narrador que fica meio perdido, meio apaixonado por ela, meio sem saber como contar a história dela sem estragar.
— Parece triste.
— É triste. Mas não é só isso. — Marcela se animava a cada frase, as mãos se movendo no ar. — A Clarice escreve como se não pedisse licença. Ela pensa em voz alta, interrompe, muda de ideia no meio da frase. E você lê e sente que ela está sentada do seu lado, confusa e honesta, contando uma coisa que ela mesma não entende direito.
Nathalie a olhava em silêncio.
— O que foi? — Marcela perguntou, e parou. — Eu estou falando demais?
— Não.
— Eu sempre falo demais quando é livro.
— Eu estou gostando.
— Gostando de quê?
— De te ver assim.
Marcela sentiu o rosto esquentar, e fingiu procurar alguma coisa na bolsa para disfarçar.
— Meu pai dizia que eu ia ser professora de literatura. Eu falava tanto de livro que ele cansava.
— E por que turismo?
— Porque livro me levava para dentro de cabeça de gente. Mas eu queria ir para dentro de lugar. — Ela deu de ombros. — Cheguei no turismo achando que era a mesma coisa. Descobri que não, mas gostei do mesmo jeito.
— Você gosta de muitas coisas.
— Eu gosto de quase tudo.
— Isso é invejável.
— Não é qualidade. É teimosia.
Nathalie riu baixo, e o avião começou a taxiar.
Marcela fechou o livro, apertou o cinto, e agarrou os braços da poltrona com as duas mãos. Nathalie percebeu.
— Primeira decolagem?
— Segunda. A primeira foi para Brasília, anos atrás. Mas não vale, era um avião pequeno.
— Está com medo?
— Estou ótima.
— Seus dedos estão brancos.
— Eu gosto de apertar braço de poltrona.
— Posso segurar a sua mão.
— Não precisa.
— Eu não estava oferecendo como investida.
Marcela olhou para ela. Os olhos cinza não tinham ironia nenhuma, só uma gentileza simples, quase desajeitada.
— Pode — disse, depois de um segundo.
Nathalie estendeu a mão, aberta, sem pressa. Marcela a segurou. Os dedos dela eram frios, firmes, e a palma, quente. O avião ganhou velocidade, o chão sumiu, e Marcela fechou os olhos até sentir a cabine nivelar.
— Pronto — Nathalie murmurou. — Já passou.
— Eu detesto isso.
— Todo mundo detesta.
— Você também?
— Eu viajo cinquenta vezes por ano. Ainda aperto o braço da poltrona na decolagem. — Nathalie sorriu de lado. — Só que ninguém vê.
Marcela soltou a mão dela devagar, sentindo o rosto quente.
— Obrigada.
— De nada.
— Você não vai contar para ninguém que eu tive medo.
— Eu vou contar para todo mundo.
— Nathalie!
— Para a Isa, a Carolina e a sua mãe. Vou ligar para São Luís agora mesmo.
— Você nem tem o telefone.
— Eu tenho o telefone de todo mundo.
— Isso é assustador.
— Eu sei. — Nathalie estendeu a mão para a tela. — Quer ver um filme?
— Quero comer.
— Acabamos de decolar.
— Eu sempre como quando estou com medo.
— Então vai comer muito.
— Eu vou comer tudo.
E comeu. Aceitou duas entradas, um prato principal, uma sobremesa e um pão de forma, o que arrancou da comissária de bordo um olhar divertido e de Nathalie uma gargalhada que fez Letícia abrir um olho do outro lado do corredor.
— Cuscuz eu não gosto — Marcela comentou, brincando com o guardanapo —, mas pão eu sou fã.
— Isso é uma heresia para o seu estado.
— Eu sei. Minha mãe me deserdou por causa disso.
— Ela te deserdou?
— Uma vez por mês. Depois me perdoa. — Marcela mordeu o pão e mastigou, pensativa. — Você sabe que o cuscuz maranhense não é igual ao nordestino? O nosso é de arroz, de milho, de tapioca, tem de tudo. Ainda assim, eu não gosto.
— Por quê?
— Porque cuscuz me lembra o café da manhã de quando meu pai estava doente. Ele pedia todo dia e eu fazia careta. Agora tenho vergonha de não ter gostado.
Nathalie não disse nada.
Marcela percebeu o que tinha falado e ficou em silêncio, os olhos no pão.
— Eu não tinha pensado nisso até agora.
— As coisas aparecem quando a gente fala.
— Aparecem.
— Eu não como mais nada que minha mãe fazia.
Marcela levantou o rosto.
— Nem uma coisa?
— Nenhuma. Ela fazia um bolo de laranja aos domingos. Quando ela morreu, eu passei seis meses sem entrar em padaria. — Nathalie falava com a voz sem peso, olhando a janela escura. — Hoje eu consigo olhar para um bolo de laranja, mas não consigo comer.
— Quantos anos você tinha?
— Dezenove.
— Como foi?
— Foi um câncer. Rápido. Quatro meses do diagnóstico ao enterro. — Ela virou o rosto. — Meu pai trabalhava fora o tempo todo, então fui eu quem cuidou dela. Faculdade de manhã, hospital de tarde, noite acordada. Quando acabou, eu não sabia quem eu era sem aquela rotina.
— O que você fez?
— Abri uma empresa.
Marcela soltou uma risada curta, surpresa.
— Foi assim?
— Mais ou menos. Foi um jeito de ocupar a cabeça. Primeiro uma consultoria, no quarto da casa do meu pai. Depois um escritório, um funcionário, dois. — Nathalie olhou para as próprias mãos. — Quando eu percebi, estava com cinquenta pessoas e nenhum amigo.
— Isso é triste.
— Isso é a minha vida.
— Não precisa ser.
— Eu sei. Só não aprendi o outro jeito.
Marcela ficou calada por um momento.
— Quer saber o que eu acho?
— Quero.
— Você tem uma coisa rara. Você fala a verdade mesmo quando não precisa. As pessoas confundem isso com frieza, mas é o contrário. É uma forma de respeito.
Nathalie a olhou, e algo mudou no rosto dela, uma rachadura mínima, uma luz.
— Ninguém nunca me disse isso.
— Alguém tinha que dizer.
— Obrigada.
— De nada.
Ficaram em silêncio, as duas olhando a escuridão pela janela. O motor zumbia baixo, o avião inteiro era um sussurro contínuo. Em algum lugar abaixo deles, o Atlântico ia passando sem fazer barulho.
— Eu tenho uma pergunta — Marcela disse, depois de algum tempo.
— Faça.
— Quando você era pequena, o que queria ser?
— Piloto.
— Piloto de avião?
— De avião, de barco, de carro. Qualquer coisa que se movesse. — Nathalie sorriu. — Eu achava que quem pilotava nunca precisava se explicar para ninguém.
— E hoje?
— Hoje eu pilotei uma empresa e descobri que explicação é o que mais tem.
Marcela riu.
— Você devia escrever isso num cartão.
— Eu devia escrever num livro.
— Eu leio.
— Você leria?
— Eu leio tudo.
— Então eu escrevo.
— Mas a primeira edição é minha.
— Combinado.
O avião atravessou a noite, e a conversa foi se esticando, se desfazendo, se retomando. Marcela contou do pai e das oito cadeiras da mesa, da vez em que Lucas pintou o cachorro de azul, do dia em que Camila quebrou o braço por causa de uma aposta de bicicleta. Nathalie contou do primeiro funcionário, de uma briga com um investidor que acabou com um copo de água na cara, de uma viagem a Tóquio em que se perdeu e comeu o melhor sushi da vida num beco sem nome.
Houve silêncios, alguns longos. Mas nenhum pesado.
Pela primeira vez em muito tempo, Marcela não estava medindo cada palavra. Fazia piadas bobas, tropeçava nas próprias frases, soltava gargalhadas que ecoavam na cabine escura. Disse que o Atlântico era maior do que parecia no mapa, que o travesseiro do avião tinha cheiro de hospital, que a comissária de bordo parecia uma personagem de novela. Nathalie ria, às vezes baixinho, às vezes com a cabeça jogada para trás, e uma ou duas vezes teve de pedir "para, para" quando a risada começou a doer.
— Você está fazendo piada com tudo — Nathalie disse, enxugando um olho.
— É o meu jeito de me acalmar.
— Está funcionando?
— Está.
— Então continua.
— Eu posso fazer piada de você?
— Pode.
— Você tem cara de quem passa o cheque antes de olhar o preço.
— Isso não é piada, é diagnóstico.
— Você nunca olha o preço.
— Nunca.
— Isso é muito triste.
— Eu sei.
— Eu posso te ensinar.
— Me ensina.
— Primeira lição: olhar o preço, dividir por dois, dividir de novo por dois, e perguntar: eu pagaria isso por esse produto?
— E se a resposta for não?
— Você não compra.
— E se a resposta for sim?
— Você pensa mais um dia.
Nathalie balançou a cabeça, rindo.
— Você teria sido uma ótima diretora financeira.
— Eu sou uma ótima filha de Dona Teresa.
O dia clareou em algum ponto sobre o oceano, uma faixa laranja se abrindo devagar no horizonte, tingindo as nuvens por baixo. Marcela encostou a testa no vidro e ficou olhando, com o livro ainda aberto no colo.
— É lindo.
— É.
— Todo dia tem um desses?
— Todo dia.
— Eu nunca tinha visto de cima.
Nathalie olhou para ela, e depois, devagar, também para a janela.
— Eu esqueci que era bonito.
— Isso é grave.
— Eu sei. Você está me ensinando a lembrar.
Marcela virou o rosto, e as duas ficaram olhando uma para a outra por um instante. Não havia tensão no olhar, nem desafio. Só um reconhecimento mudo, de duas mulheres que tinham começado o voo como estranhas e acabavam a noite sabendo coisas uma da outra que ninguém mais sabia.
— Obrigada por essa noite — Marcela disse.
— Foi você quem fez.
— Eu só falei.
— Falou do jeito que ninguém fala.
Marcela mordeu o lábio, e voltou os olhos para a janela.
Cuidado, pensou. Ela é boa em fazer a gente baixar a guarda.
Mas a voz dentro dela soou, desta vez, menos como alarme e mais como lembrete.
Dublin apareceu entre as nuvens às nove da manhã, um xadrez de verde e cinza, de telhados molhados e ruas estreitas, de um mar escuro encostado na cidade como um bicho dormindo. O avião mergulhou na camada de chuva, e Marcela colou o rosto no vidro.
— É igual ao filme.
— Qual filme?
— Todos. Todo filme que se passa na Irlanda tem essa chuva.
— Hoje está bom. Normalmente chove mais.
— Isso é bom?
— Depende do seu ponto de vista.
O avião pousou, e Marcela sentiu o corpo se contrair, não de medo, mas de uma emoção grande demais para caber. Rodrigo, do outro lado do corredor, tirou o celular do bolso e filmou a pista pela janela. Letícia aplaudiu baixinho. André bocejou, com os olhos inchados.
— Chegamos — disse Marcela, só para ouvir.
— Chegamos — Nathalie repetiu.
O aeroporto estava cheio, o ar frio e seco, cheirando a café e a chuva. Marcela vestiu o casaco azul-marinho da mãe e olhou o próprio reflexo no vidro de uma loja.
Parecia uma estrangeira.
Era uma estrangeira.
E, por algum motivo, gostou disso.
Siobhan estava à espera deles no desembarque, de casaco preto, tablet na mão, os cabelos presos num coque impecável. Cumprimentou Nathalie com um aceno curto, apresentou-se à equipe com um sorriso profissional e conduziu todos até duas vans que esperavam do lado de fora.
— O apartamento fica em Ballsbridge — disse, ao ligar o motor. — Uns quinze minutos daqui. A Meridian tem a sede a vinte minutos a pé.
— Quem vai ficar com quem? — Rodrigo perguntou.
— Vocês três ficam num dois quartos, no segundo andar. A senhorita Alves fica no terceiro.
Marcela virou o rosto.
— No terceiro?
— É um estúdio. Um apartamento pequeno, individual, no mesmo prédio.
— Eu esperava dividir com a equipe.
— A senhora Cross achou que seria melhor ter espaço próprio. — Siobhan sustentou o olhar dela pelo retrovisor, sem expressão. — Se preferir dividir, podemos reorganizar.
Marcela olhou para Nathalie, que olhava pela janela com a atenção exagerada de quem finge não ter ouvido.
— Não precisa — disse. — Pode ser.
A van atravessou a cidade devagar, e Marcela esqueceu da conversa assim que as ruas apareceram. Casas de tijolo vermelho coladas umas às outras, portas pintadas em cores vivas, azul, verde, amarelo, vermelho. Pubs de fachada escura, com nomes em letras douradas. Ciclistas de capa de chuva, crianças de uniforme, gente caminhando com guarda-chuva e um ar de quem não ligava para a água.
— É tão pequeno — murmurou.
— Dublin?
— Tudo. As casas, as ruas, as portas. Parece cidade de brinquedo.
— Eu nunca tinha pensado nisso.
— Em São Luís tudo é largo. Aqui é... aconchegante.
— É um jeito gentil de dizer.
— É o único jeito que eu conheço.
O prédio ficava numa rua tranquila, ladeada de árvores desfolhadas, três andares de tijolo escuro com janelas brancas e uma porta verde-musgo. Tinha a elegância discreta de uma casa antiga transformada em apartamentos. Siobhan entregou as chaves, mostrou o elevador minúsculo, que mal cabia duas pessoas com mala, e deixou a equipe se instalar.
O dois quartos do segundo andar era amplo, claro, com sofá de couro, cozinha americana e uma varanda minúscula com vista para os fundos. Rodrigo abriu a geladeira, assobiou, e fechou de novo.
— Tem de tudo.
— A Siobhan providenciou — Nathalie disse. — Se faltar alguma coisa, é só falar.
Subiram para o terceiro andar a pé, só Marcela e Nathalie, porque o elevador tinha ido buscar as malas.
— Eu posso ir sozinha — Marcela disse.
— Eu sei. Mas gostaria de ver.
A porta do estúdio era de madeira escura, com uma maçaneta de ferro. Marcela abriu devagar.
Era pequeno.
Pequeno de verdade. Uma sala que também era quarto, com uma cama de solteiro encostada na parede, uma mesa dobrável, uma poltrona de veludo verde, uma cozinha do tamanho de um armário, um banheiro onde mal cabia uma pessoa. As paredes eram brancas, o piso de tábua corrida, o teto baixo, inclinado em um dos lados, com uma janela redonda lá em cima.
Mas havia uma janela grande, de vidro quadriculado, que dava para uma fileira de chaminés e telhados molhados, e para o céu cinza de Dublin.
Marcela ficou parada no meio do cômodo.
— É meu.
— Se você quiser.
— É pequeno.
— Sim.
— É a coisa mais bonita que eu já vi.
Nathalie ergueu as sobrancelhas.
— Mais que o resort?
— O resort é do Eduardo. Isso aqui é meu.
— Por três meses.
— Por três meses.
Ela foi até a janela, apoiou as mãos no parapeito frio e olhou para fora. Chovia fino, sem pressa. Um pássaro cinza pousou na chaminé mais próxima e a olhou de lado, avaliando a vizinha nova.
— Eu nunca tive um lugar só meu — Marcela disse, baixinho. — Sempre dividi quarto. Com irmã, com a Isa, com colega de faculdade. Nunca tive uma porta que fosse só minha.
Nathalie ficou na entrada, as mãos nos bolsos.
— Era isso que eu esperava.
— Esperava?
— Que você fosse gostar.
Marcela se virou.
— Você planejou?
— Siobhan escolheu o prédio. Eu escolhi o terceiro andar. — Nathalie hesitou. — Eu imaginei que depois de uma vida inteira com gente em volta, três meses de silêncio fariam bem.
— Mesmo sabendo que eu ia ficar sozinha.
— Principalmente sabendo.
Marcela olhou para ela, e no rosto dela passou alguma coisa que Nathalie não soube nomear. Surpresa, talvez, ou um começo de gratidão, ou algo ainda mais difícil de dizer.
— Obrigada.
— Não me agradeça. Eu te disse que não aceito presentes.
— Isso não é presente.
— O que é?
— É uma coisa que você acertou.
Nathalie sorriu, torta, quase tímida.
— Eu vou te deixar descansar.
— Nathalie.
— Sim?
— Eu aceito aquele café. Amanhã.
— Dividindo a conta.
— Dividindo a conta.
— Às dez?
— Às dez.
Nathalie assentiu e fechou a porta com cuidado.
Marcela ficou ali, no meio do estúdio, ouvindo os passos dela descerem a escada até sumirem. Depois voltou à janela, tirou o casaco, soltou o cabelo e se encostou ao vidro.
A mala ainda estava na porta, fechada. A cama, arrumada. O silêncio, enorme.
Pegou o celular, e a tela se acendeu com uma sequência de mensagens que tinha chegado durante o voo.
Isa: CHEGOU??
Isa: Manda foto.
Isa: Marcela.
Isa: ESTOU VENDO QUE VOCÊ VISUALIZOU.
Marcela riu, sozinha, e tirou uma foto da janela. A fileira de chaminés, os telhados escuros, a chuva fina. Enviou, e escreveu logo abaixo:
Cheguei. É lindo. É pequeno. É meu.
A resposta veio em segundos, um monte de coração, uma carinha chorando, uma figurinha de mapa-múndi.
Ela guardou o celular e tirou da mala a camisa vermelha e preta do pai. Pendurou-a no encosto da poltrona verde, no único lugar onde ia aparecer quando a luz da janela batesse certa.
Depois voltou a olhar a cidade.
Era cedo ainda, o dia só começando. As nuvens baixas escondiam parte do horizonte, mas, entre dois telhados, muito ao longe, uma torre de vidro furava a névoa. Escura, alta, solitária, com letras brancas acesas no topo que ela não conseguia ler daquela distância.
Ainda.
Marcela encostou a testa no vidro frio, e o coração, sem aviso, começou a bater mais forte.
Eu vim trabalhar.
Eu vim conhecer o mundo.
Mas o coração, que nunca soube mentir, apontava para aquela torre como uma bússola aponta para o norte.
Marcela ergueu os olhos da mala aberta sobre a cama.
— O quê?
— A previsão para a semana que você chega. — Nathalie estava parada na porta do quarto, o celular na mão, o rosto sério como se anunciasse o resultado de uma auditoria. — Dez graus de máxima. Chuva em cinco dos sete dias.
— Eu sei. Eu pesquisei.
— Pesquisou, e trouxe o quê?
Marcela apontou para a pilha dobrada ao lado da mala: dois casacos, seis pares de meia grossa, um cachecol de lã mostarda e uma blusa de moletom com o nome de uma universidade que ela nunca tinha visitado.
Nathalie olhou para a pilha por um longo segundo.
— Isso não aguenta uma semana em Dublin.
— Minha mãe comprou os casacos em São Luís.
— Em São Luís faz trinta e dois graus.
— Por isso mesmo estavam em promoção.
— Eu mandei uma loja de Dublin separar algumas peças — disse,
— Casaco de lã, botas impermeáveis, um cachecol decente. A Siobhan pode despachar tudo para o apartamento antes de você chegar.
— Não.
— Eu pago.
— Não.
— Marcela, é só roupa.
— Nathalie.
A voz saiu baixa, muito calma, daquelas que Marcela usava com os hóspedes que passavam do limite. Ela largou a meia que estava dobrando e se endireitou.
— Eu agradeço a intenção. Mas isso me ofende.
— Ofende?
— Ofende. — Ela cruzou os braços. — Você olhou a minha mala e viu uma coisa que precisava ser consertada. Eu sei que não foi por mal. Mas eu não sou uma pessoa que chega num lugar e precisa ser vestida por outra.
— Eu só queria que você não passasse frio.
— Eu posso passar frio sozinha. Eu sou adulta, tenho salário, e se eu precisar de um casaco melhor eu compro. Com o meu dinheiro, na hora que eu achar que preciso.
Nathalie ficou imóvel.
Não estava acostumada com aquilo. Em trinta e quatro anos de vida, a palavra "não" tinha chegado a ela de várias formas: com medo, com interesse disfarçado, com a falsa modéstia de quem queria ser convencida. Mas nunca como uma fronteira simples, sem raiva, sem cálculo, tão natural quanto fechar uma porta.
— Você não quer — disse, devagar.
— Não quero.
— Nem o casaco, nem a bota, nem nada.
— Nada que eu não tenha pedido.
— E isso é por orgulho?
Marcela pensou um instante antes de responder.
— É por jeito de ser. Eu cresci numa casa em que tudo era dividido por oito. Roupa passava de irmã para irmã, brinquedo de irmão para irmão. A gente aprendeu a gostar do que tinha. Não tem vergonha nisso, mas também não tem fome de mais. — Deu de ombros. — Casaco caro é casaco. Esquenta igual.
— Não esquenta igual.
— Esquenta o suficiente.
A frase ficou no ar.
Nathalie olhou para ela como se visse algo pela primeira vez. Tinha passado a vida cercada de gente que queria mais: mais cargo, mais ações, mais presentes, mais atenção. Gente que aceitava tudo e pedia ainda outra coisa. E ali estava uma mulher que recusava um casaco de dois mil euros como quem recusa um segundo prato.
— Você é a primeira pessoa que eu conheço que não quer nada de mim — Nathalie disse, em voz baixa.
— Eu quero uma coisa.
— O quê?
— Respeito.
— Isso você tem.
— Então estamos bem.
Ela voltou a dobrar as meias.
Nathalie ficou ali um instante a mais, as mãos nos bolsos, sem saber direito o que fazer com o silêncio. Depois sentou na ponta da cama, ao lado da mala, e ficou olhando o cachecol mostarda.
— Esse é bonito.
— Foi a Isa que tricotou. Ficou torto.
— Ficou torto — Nathalie concordou, pegando o cachecol. — Mas eu gostei.
— Pode ficar com ele se quiser.
— Eu não aceito presentes.
Marcela ergueu o rosto, e as duas se olharam. Foi a Marcela quem riu primeiro, um riso solto, de cabeça jogada para trás, e Nathalie, depois de um segundo de surpresa, riu também.
— Você aprende rápido — disse.
— Eu aprendo com quem me ensina.
— Eu estou aprendendo muita coisa nesta semana.
— Por exemplo?
Nathalie pensou.
— Que dá para perder uma discussão e gostar do resultado.
— Isso é raro?
— Comigo, é inédito.
Ficaram em silêncio por um momento, e foi um silêncio mais leve que os anteriores.
— Você nunca perdeu uma discussão? — Marcela perguntou, ajeitando o cachecol de volta na mala.
— Perdi algumas. Mas nunca por escolha.
— E o que você faz quando perde?
— Descubro o que o outro sabia que eu não sabia.
— E depois?
— Depois eu ganho a seguinte.
Marcela balançou a cabeça, sorrindo.
— Você é muito competitiva.
— É o único jeito que eu conheço de existir.
Havia uma ponta de verdade seca naquela frase, e Marcela notou. Não comentou. Só terminou de arrumar a mala e fechou o zíper com cuidado.
— Se você quiser, eu aceito um café em Dublin — disse, sem olhar para ela. — Quando eu chegar. Num lugar normal, com preço normal, em que a gente divide a conta.
Nathalie ergueu as sobrancelhas.
— Dividir a conta.
— Eu pago o meu.
— Aceito.
— Sem casaco.
— Sem casaco.
— Sem bota.
— Sem bota — Nathalie repetiu, e dessa vez o sorriso que apareceu no rosto dela não tinha nada de calculado.
O voo saiu de São Luís às onze da noite.
Nathalie tinha reservado a classe executiva para todos, inclusive para o Rodrigo, a Letícia e o André, que ocupavam as poltronas do outro lado do corredor com a expressão de quem tinha acabado de descobrir que cadeira podia virar cama. Marcela foi acomodada na janela. Nathalie, ao lado.
— Eu pedi para trocar — Marcela disse, quando sentou.
— Por quê?
— Para sentar com o pessoal.
— Eles estão ali.
— Do outro lado do corredor.
— A três metros.
— É diferente.
— A Letícia já dormiu.
Marcela olhou. Letícia estava de olhos fechados, o encosto reclinado, com um travesseiro do tamanho de um bebê. Rodrigo tentava entender o controle da tela. André mastigava uma castanha com cara de quem estava vivendo o melhor dia da vida.
— Está bem — Marcela cedeu, sorrindo. — Mas se eu acabar roncando no seu ombro, a culpa é sua.
— Eu aceito o risco.
— Você é corajosa.
— Eu nunca disse que não era.
Marcela tirou da bolsa um livro de capa gasta, as bordas dobradas, a lombada tão usada que as letras do título já estavam apagadas em alguns pontos. Acomodou-o no colo e passou os dedos pela capa, reencontrando um velho amigo.
Nathalie ergueu uma sobrancelha.
— O que é?
— Clarice Lispector.
— Quem?
— Você não conhece Clarice Lispector?
— Eu devia?
— Devia. — Marcela se virou no assento, com o corpo todo inclinado na direção dela, os olhos azuis acesos de uma empolgação que Nathalie ainda não tinha visto. — Ela nasceu na Ucrânia, veio para o Brasil com meses de vida, cresceu em Recife. É uma das maiores escritoras do país. Talvez a maior.
— Eu nunca li nenhum livro brasileiro.
— Isso é uma tristeza. — Marcela levou a mão ao peito. — Eu estou lendo A Hora da Estrela de novo. É a quarta vez.
— Quatro vezes o mesmo livro?
— Cada vez eu entendo uma coisa diferente. É sobre uma moça nordestina, a Macabéa, que vai morar no Rio e vive tão pequena, tão apagada, que quase pede desculpa por existir. E tem um narrador que fica meio perdido, meio apaixonado por ela, meio sem saber como contar a história dela sem estragar.
— Parece triste.
— É triste. Mas não é só isso. — Marcela se animava a cada frase, as mãos se movendo no ar. — A Clarice escreve como se não pedisse licença. Ela pensa em voz alta, interrompe, muda de ideia no meio da frase. E você lê e sente que ela está sentada do seu lado, confusa e honesta, contando uma coisa que ela mesma não entende direito.
Nathalie a olhava em silêncio.
— O que foi? — Marcela perguntou, e parou. — Eu estou falando demais?
— Não.
— Eu sempre falo demais quando é livro.
— Eu estou gostando.
— Gostando de quê?
— De te ver assim.
Marcela sentiu o rosto esquentar, e fingiu procurar alguma coisa na bolsa para disfarçar.
— Meu pai dizia que eu ia ser professora de literatura. Eu falava tanto de livro que ele cansava.
— E por que turismo?
— Porque livro me levava para dentro de cabeça de gente. Mas eu queria ir para dentro de lugar. — Ela deu de ombros. — Cheguei no turismo achando que era a mesma coisa. Descobri que não, mas gostei do mesmo jeito.
— Você gosta de muitas coisas.
— Eu gosto de quase tudo.
— Isso é invejável.
— Não é qualidade. É teimosia.
Nathalie riu baixo, e o avião começou a taxiar.
Marcela fechou o livro, apertou o cinto, e agarrou os braços da poltrona com as duas mãos. Nathalie percebeu.
— Primeira decolagem?
— Segunda. A primeira foi para Brasília, anos atrás. Mas não vale, era um avião pequeno.
— Está com medo?
— Estou ótima.
— Seus dedos estão brancos.
— Eu gosto de apertar braço de poltrona.
— Posso segurar a sua mão.
— Não precisa.
— Eu não estava oferecendo como investida.
Marcela olhou para ela. Os olhos cinza não tinham ironia nenhuma, só uma gentileza simples, quase desajeitada.
— Pode — disse, depois de um segundo.
Nathalie estendeu a mão, aberta, sem pressa. Marcela a segurou. Os dedos dela eram frios, firmes, e a palma, quente. O avião ganhou velocidade, o chão sumiu, e Marcela fechou os olhos até sentir a cabine nivelar.
— Pronto — Nathalie murmurou. — Já passou.
— Eu detesto isso.
— Todo mundo detesta.
— Você também?
— Eu viajo cinquenta vezes por ano. Ainda aperto o braço da poltrona na decolagem. — Nathalie sorriu de lado. — Só que ninguém vê.
Marcela soltou a mão dela devagar, sentindo o rosto quente.
— Obrigada.
— De nada.
— Você não vai contar para ninguém que eu tive medo.
— Eu vou contar para todo mundo.
— Nathalie!
— Para a Isa, a Carolina e a sua mãe. Vou ligar para São Luís agora mesmo.
— Você nem tem o telefone.
— Eu tenho o telefone de todo mundo.
— Isso é assustador.
— Eu sei. — Nathalie estendeu a mão para a tela. — Quer ver um filme?
— Quero comer.
— Acabamos de decolar.
— Eu sempre como quando estou com medo.
— Então vai comer muito.
— Eu vou comer tudo.
E comeu. Aceitou duas entradas, um prato principal, uma sobremesa e um pão de forma, o que arrancou da comissária de bordo um olhar divertido e de Nathalie uma gargalhada que fez Letícia abrir um olho do outro lado do corredor.
— Cuscuz eu não gosto — Marcela comentou, brincando com o guardanapo —, mas pão eu sou fã.
— Isso é uma heresia para o seu estado.
— Eu sei. Minha mãe me deserdou por causa disso.
— Ela te deserdou?
— Uma vez por mês. Depois me perdoa. — Marcela mordeu o pão e mastigou, pensativa. — Você sabe que o cuscuz maranhense não é igual ao nordestino? O nosso é de arroz, de milho, de tapioca, tem de tudo. Ainda assim, eu não gosto.
— Por quê?
— Porque cuscuz me lembra o café da manhã de quando meu pai estava doente. Ele pedia todo dia e eu fazia careta. Agora tenho vergonha de não ter gostado.
Nathalie não disse nada.
Marcela percebeu o que tinha falado e ficou em silêncio, os olhos no pão.
— Eu não tinha pensado nisso até agora.
— As coisas aparecem quando a gente fala.
— Aparecem.
— Eu não como mais nada que minha mãe fazia.
Marcela levantou o rosto.
— Nem uma coisa?
— Nenhuma. Ela fazia um bolo de laranja aos domingos. Quando ela morreu, eu passei seis meses sem entrar em padaria. — Nathalie falava com a voz sem peso, olhando a janela escura. — Hoje eu consigo olhar para um bolo de laranja, mas não consigo comer.
— Quantos anos você tinha?
— Dezenove.
— Como foi?
— Foi um câncer. Rápido. Quatro meses do diagnóstico ao enterro. — Ela virou o rosto. — Meu pai trabalhava fora o tempo todo, então fui eu quem cuidou dela. Faculdade de manhã, hospital de tarde, noite acordada. Quando acabou, eu não sabia quem eu era sem aquela rotina.
— O que você fez?
— Abri uma empresa.
Marcela soltou uma risada curta, surpresa.
— Foi assim?
— Mais ou menos. Foi um jeito de ocupar a cabeça. Primeiro uma consultoria, no quarto da casa do meu pai. Depois um escritório, um funcionário, dois. — Nathalie olhou para as próprias mãos. — Quando eu percebi, estava com cinquenta pessoas e nenhum amigo.
— Isso é triste.
— Isso é a minha vida.
— Não precisa ser.
— Eu sei. Só não aprendi o outro jeito.
Marcela ficou calada por um momento.
— Quer saber o que eu acho?
— Quero.
— Você tem uma coisa rara. Você fala a verdade mesmo quando não precisa. As pessoas confundem isso com frieza, mas é o contrário. É uma forma de respeito.
Nathalie a olhou, e algo mudou no rosto dela, uma rachadura mínima, uma luz.
— Ninguém nunca me disse isso.
— Alguém tinha que dizer.
— Obrigada.
— De nada.
Ficaram em silêncio, as duas olhando a escuridão pela janela. O motor zumbia baixo, o avião inteiro era um sussurro contínuo. Em algum lugar abaixo deles, o Atlântico ia passando sem fazer barulho.
— Eu tenho uma pergunta — Marcela disse, depois de algum tempo.
— Faça.
— Quando você era pequena, o que queria ser?
— Piloto.
— Piloto de avião?
— De avião, de barco, de carro. Qualquer coisa que se movesse. — Nathalie sorriu. — Eu achava que quem pilotava nunca precisava se explicar para ninguém.
— E hoje?
— Hoje eu pilotei uma empresa e descobri que explicação é o que mais tem.
Marcela riu.
— Você devia escrever isso num cartão.
— Eu devia escrever num livro.
— Eu leio.
— Você leria?
— Eu leio tudo.
— Então eu escrevo.
— Mas a primeira edição é minha.
— Combinado.
O avião atravessou a noite, e a conversa foi se esticando, se desfazendo, se retomando. Marcela contou do pai e das oito cadeiras da mesa, da vez em que Lucas pintou o cachorro de azul, do dia em que Camila quebrou o braço por causa de uma aposta de bicicleta. Nathalie contou do primeiro funcionário, de uma briga com um investidor que acabou com um copo de água na cara, de uma viagem a Tóquio em que se perdeu e comeu o melhor sushi da vida num beco sem nome.
Houve silêncios, alguns longos. Mas nenhum pesado.
Pela primeira vez em muito tempo, Marcela não estava medindo cada palavra. Fazia piadas bobas, tropeçava nas próprias frases, soltava gargalhadas que ecoavam na cabine escura. Disse que o Atlântico era maior do que parecia no mapa, que o travesseiro do avião tinha cheiro de hospital, que a comissária de bordo parecia uma personagem de novela. Nathalie ria, às vezes baixinho, às vezes com a cabeça jogada para trás, e uma ou duas vezes teve de pedir "para, para" quando a risada começou a doer.
— Você está fazendo piada com tudo — Nathalie disse, enxugando um olho.
— É o meu jeito de me acalmar.
— Está funcionando?
— Está.
— Então continua.
— Eu posso fazer piada de você?
— Pode.
— Você tem cara de quem passa o cheque antes de olhar o preço.
— Isso não é piada, é diagnóstico.
— Você nunca olha o preço.
— Nunca.
— Isso é muito triste.
— Eu sei.
— Eu posso te ensinar.
— Me ensina.
— Primeira lição: olhar o preço, dividir por dois, dividir de novo por dois, e perguntar: eu pagaria isso por esse produto?
— E se a resposta for não?
— Você não compra.
— E se a resposta for sim?
— Você pensa mais um dia.
Nathalie balançou a cabeça, rindo.
— Você teria sido uma ótima diretora financeira.
— Eu sou uma ótima filha de Dona Teresa.
O dia clareou em algum ponto sobre o oceano, uma faixa laranja se abrindo devagar no horizonte, tingindo as nuvens por baixo. Marcela encostou a testa no vidro e ficou olhando, com o livro ainda aberto no colo.
— É lindo.
— É.
— Todo dia tem um desses?
— Todo dia.
— Eu nunca tinha visto de cima.
Nathalie olhou para ela, e depois, devagar, também para a janela.
— Eu esqueci que era bonito.
— Isso é grave.
— Eu sei. Você está me ensinando a lembrar.
Marcela virou o rosto, e as duas ficaram olhando uma para a outra por um instante. Não havia tensão no olhar, nem desafio. Só um reconhecimento mudo, de duas mulheres que tinham começado o voo como estranhas e acabavam a noite sabendo coisas uma da outra que ninguém mais sabia.
— Obrigada por essa noite — Marcela disse.
— Foi você quem fez.
— Eu só falei.
— Falou do jeito que ninguém fala.
Marcela mordeu o lábio, e voltou os olhos para a janela.
Cuidado, pensou. Ela é boa em fazer a gente baixar a guarda.
Mas a voz dentro dela soou, desta vez, menos como alarme e mais como lembrete.
Dublin apareceu entre as nuvens às nove da manhã, um xadrez de verde e cinza, de telhados molhados e ruas estreitas, de um mar escuro encostado na cidade como um bicho dormindo. O avião mergulhou na camada de chuva, e Marcela colou o rosto no vidro.
— É igual ao filme.
— Qual filme?
— Todos. Todo filme que se passa na Irlanda tem essa chuva.
— Hoje está bom. Normalmente chove mais.
— Isso é bom?
— Depende do seu ponto de vista.
O avião pousou, e Marcela sentiu o corpo se contrair, não de medo, mas de uma emoção grande demais para caber. Rodrigo, do outro lado do corredor, tirou o celular do bolso e filmou a pista pela janela. Letícia aplaudiu baixinho. André bocejou, com os olhos inchados.
— Chegamos — disse Marcela, só para ouvir.
— Chegamos — Nathalie repetiu.
O aeroporto estava cheio, o ar frio e seco, cheirando a café e a chuva. Marcela vestiu o casaco azul-marinho da mãe e olhou o próprio reflexo no vidro de uma loja.
Parecia uma estrangeira.
Era uma estrangeira.
E, por algum motivo, gostou disso.
Siobhan estava à espera deles no desembarque, de casaco preto, tablet na mão, os cabelos presos num coque impecável. Cumprimentou Nathalie com um aceno curto, apresentou-se à equipe com um sorriso profissional e conduziu todos até duas vans que esperavam do lado de fora.
— O apartamento fica em Ballsbridge — disse, ao ligar o motor. — Uns quinze minutos daqui. A Meridian tem a sede a vinte minutos a pé.
— Quem vai ficar com quem? — Rodrigo perguntou.
— Vocês três ficam num dois quartos, no segundo andar. A senhorita Alves fica no terceiro.
Marcela virou o rosto.
— No terceiro?
— É um estúdio. Um apartamento pequeno, individual, no mesmo prédio.
— Eu esperava dividir com a equipe.
— A senhora Cross achou que seria melhor ter espaço próprio. — Siobhan sustentou o olhar dela pelo retrovisor, sem expressão. — Se preferir dividir, podemos reorganizar.
Marcela olhou para Nathalie, que olhava pela janela com a atenção exagerada de quem finge não ter ouvido.
— Não precisa — disse. — Pode ser.
A van atravessou a cidade devagar, e Marcela esqueceu da conversa assim que as ruas apareceram. Casas de tijolo vermelho coladas umas às outras, portas pintadas em cores vivas, azul, verde, amarelo, vermelho. Pubs de fachada escura, com nomes em letras douradas. Ciclistas de capa de chuva, crianças de uniforme, gente caminhando com guarda-chuva e um ar de quem não ligava para a água.
— É tão pequeno — murmurou.
— Dublin?
— Tudo. As casas, as ruas, as portas. Parece cidade de brinquedo.
— Eu nunca tinha pensado nisso.
— Em São Luís tudo é largo. Aqui é... aconchegante.
— É um jeito gentil de dizer.
— É o único jeito que eu conheço.
O prédio ficava numa rua tranquila, ladeada de árvores desfolhadas, três andares de tijolo escuro com janelas brancas e uma porta verde-musgo. Tinha a elegância discreta de uma casa antiga transformada em apartamentos. Siobhan entregou as chaves, mostrou o elevador minúsculo, que mal cabia duas pessoas com mala, e deixou a equipe se instalar.
O dois quartos do segundo andar era amplo, claro, com sofá de couro, cozinha americana e uma varanda minúscula com vista para os fundos. Rodrigo abriu a geladeira, assobiou, e fechou de novo.
— Tem de tudo.
— A Siobhan providenciou — Nathalie disse. — Se faltar alguma coisa, é só falar.
Subiram para o terceiro andar a pé, só Marcela e Nathalie, porque o elevador tinha ido buscar as malas.
— Eu posso ir sozinha — Marcela disse.
— Eu sei. Mas gostaria de ver.
A porta do estúdio era de madeira escura, com uma maçaneta de ferro. Marcela abriu devagar.
Era pequeno.
Pequeno de verdade. Uma sala que também era quarto, com uma cama de solteiro encostada na parede, uma mesa dobrável, uma poltrona de veludo verde, uma cozinha do tamanho de um armário, um banheiro onde mal cabia uma pessoa. As paredes eram brancas, o piso de tábua corrida, o teto baixo, inclinado em um dos lados, com uma janela redonda lá em cima.
Mas havia uma janela grande, de vidro quadriculado, que dava para uma fileira de chaminés e telhados molhados, e para o céu cinza de Dublin.
Marcela ficou parada no meio do cômodo.
— É meu.
— Se você quiser.
— É pequeno.
— Sim.
— É a coisa mais bonita que eu já vi.
Nathalie ergueu as sobrancelhas.
— Mais que o resort?
— O resort é do Eduardo. Isso aqui é meu.
— Por três meses.
— Por três meses.
Ela foi até a janela, apoiou as mãos no parapeito frio e olhou para fora. Chovia fino, sem pressa. Um pássaro cinza pousou na chaminé mais próxima e a olhou de lado, avaliando a vizinha nova.
— Eu nunca tive um lugar só meu — Marcela disse, baixinho. — Sempre dividi quarto. Com irmã, com a Isa, com colega de faculdade. Nunca tive uma porta que fosse só minha.
Nathalie ficou na entrada, as mãos nos bolsos.
— Era isso que eu esperava.
— Esperava?
— Que você fosse gostar.
Marcela se virou.
— Você planejou?
— Siobhan escolheu o prédio. Eu escolhi o terceiro andar. — Nathalie hesitou. — Eu imaginei que depois de uma vida inteira com gente em volta, três meses de silêncio fariam bem.
— Mesmo sabendo que eu ia ficar sozinha.
— Principalmente sabendo.
Marcela olhou para ela, e no rosto dela passou alguma coisa que Nathalie não soube nomear. Surpresa, talvez, ou um começo de gratidão, ou algo ainda mais difícil de dizer.
— Obrigada.
— Não me agradeça. Eu te disse que não aceito presentes.
— Isso não é presente.
— O que é?
— É uma coisa que você acertou.
Nathalie sorriu, torta, quase tímida.
— Eu vou te deixar descansar.
— Nathalie.
— Sim?
— Eu aceito aquele café. Amanhã.
— Dividindo a conta.
— Dividindo a conta.
— Às dez?
— Às dez.
Nathalie assentiu e fechou a porta com cuidado.
Marcela ficou ali, no meio do estúdio, ouvindo os passos dela descerem a escada até sumirem. Depois voltou à janela, tirou o casaco, soltou o cabelo e se encostou ao vidro.
A mala ainda estava na porta, fechada. A cama, arrumada. O silêncio, enorme.
Pegou o celular, e a tela se acendeu com uma sequência de mensagens que tinha chegado durante o voo.
Isa: CHEGOU??
Isa: Manda foto.
Isa: Marcela.
Isa: ESTOU VENDO QUE VOCÊ VISUALIZOU.
Marcela riu, sozinha, e tirou uma foto da janela. A fileira de chaminés, os telhados escuros, a chuva fina. Enviou, e escreveu logo abaixo:
Cheguei. É lindo. É pequeno. É meu.
A resposta veio em segundos, um monte de coração, uma carinha chorando, uma figurinha de mapa-múndi.
Ela guardou o celular e tirou da mala a camisa vermelha e preta do pai. Pendurou-a no encosto da poltrona verde, no único lugar onde ia aparecer quando a luz da janela batesse certa.
Depois voltou a olhar a cidade.
Era cedo ainda, o dia só começando. As nuvens baixas escondiam parte do horizonte, mas, entre dois telhados, muito ao longe, uma torre de vidro furava a névoa. Escura, alta, solitária, com letras brancas acesas no topo que ela não conseguia ler daquela distância.
Ainda.
Marcela encostou a testa no vidro frio, e o coração, sem aviso, começou a bater mais forte.
Eu vim trabalhar.
Eu vim conhecer o mundo.
Mas o coração, que nunca soube mentir, apontava para aquela torre como uma bússola aponta para o norte.
Fim do capítulo

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