Capítulo 14

Capítulo 14 - O Convite

de Sob Nova Direção, por Mary_b94

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Nathalie fez o convite numa quarta-feira, depois do jantar, com a taça de vinho na mão e a calma de quem já tinha ensaiado cada frase.

Estavam em quatro à mesa do terraço: ela, Eduardo, Carolina e Rodrigo, o responsável pela tecnologia do resort, um rapaz de trinta e poucos anos que passava o dia com um notebook no colo e uma lapiseira atrás da orelha. Marcela estava no balcão da recepção. Nathalie fez questão de que fosse assim.

— Vocês conhecem a Aura? — perguntou.

— A plataforma da Meridian? — Eduardo ergueu as sobrancelhas. — Li sobre ela numa revista.

— Funciona nos nossos hotéis em Dublin há dezoito meses. Check-in digital, reserva de passeios em tempo real, previsão de ocupação, relatório de satisfação do hóspede minuto a minuto. — Nathalie girou a taça. — Reduziu em quarenta por cento o tempo de espera na recepção e aumentou em vinte e dois por cento a receita com experiências.

Rodrigo parou de digitar.

— Vinte e dois?

— Vinte e dois. Eu sou chata com números.

Carolina sorriu, disfarçando.

— E o que você propõe?

— Implantar a Aura aqui, como parte da minha participação, sem custo de licença nos primeiros dois anos. — Nathalie apoiou os cotovelos na mesa. — Mas não vou mandar uma equipe de fora tentar entender o resort em duas semanas. Quero que vocês venham ver como ela funciona lá. Conhecer a operação, treinar a equipe, adaptar o sistema à realidade de vocês.

— Dublin — Eduardo disse.

— Dublin.

— Por quanto tempo?

— Três meses. Uma equipe do resort trabalhando junto com o meu time de tecnologia. Eu cuido da passagem, da moradia e do visto.
Eduardo e Carolina se olharam.

— A gente não pode sair daqui por três meses — Carolina disse, devagar. — Estamos entrando na alta temporada.

— Eu sei. Por isso estou falando de uma equipe, não dos donos.

— Quem?

Nathalie tomou um gole.

— O Rodrigo, com mais dois da TI. E alguém da operação que conheça o hóspede, que saiba o que precisa mudar no atendimento para o sistema funcionar de verdade.

O silêncio foi curto.

— A Marcela — Carolina respondeu.

— Eu ia sugerir. — Nathalie sorriu, sem pressa. — Mas a decisão é de vocês.

Eduardo coçou a barba.

— Ela vai ter que se afastar da coordenação.

— Por três meses, e voltar sabendo mais do que qualquer um aqui. Vai como representante do resort, com o cargo preservado, em missão de trabalho. Não é favor. É investimento.

Rodrigo levantou o dedo.

— Posso dizer uma coisa?

— Claro.

— Eu preciso dela. Sem a Marcela, o sistema vai ficar bonito e ninguém vai conseguir usar. Ela sabe o que o hóspede reclama, o que a equipe aguenta, o que dá certo e o que não dá.

Carolina olhou para ele com carinho.

— Verdade.

— Então eu voto sim.

— Ninguém votou ainda — Eduardo brincou.

— Eu voto sim — Carolina disse.

— Eu também.

Nathalie ergueu a taça, o rosto sereno.

— Então brindemos.

Ninguém percebeu o que se movia por trás dos olhos cinza. Nem a satisfação discreta, nem o outro sentimento, que vinha logo atrás e era mais difícil de nomear. Uma culpa pequena, afiada, que ela se recusava a olhar de frente.

Carolina chamou Marcela à sala no dia seguinte, às nove.

— Fecha a porta.

Marcela fechou, o estômago já apertando.

— Eu vi a mesa de ontem do balcão — disse, antes que Carolina começasse. — Tinha um brinde e ninguém me chamou.

— Você não é boba.

— Foi a Nathalie?

— A proposta foi dela. — Carolina cruzou as mãos sobre a mesa. — Mas a escolha de mandar você foi do Eduardo, do Rodrigo e minha. Quero que isso fique claro.

— Mhm.

— Três meses em Dublin, com o Rodrigo e mais dois da TI. Você cuida da parte operacional e do treinamento. Sai em duas semanas.
Marcela ficou calada um instante.

— Meu cargo?

— Mantido. Salário mantido. Contrato com o resort.

— E se eu recusar?

— Recusa. Ninguém vai te obrigar.

Marcela olhou pela janela. O jardim estava vivo, as crianças corriam entre as palmeiras com baldes de areia. Era a vida que ela conhecia, a que amava. E mesmo assim algo pequeno e teimoso começou a se mexer dentro dela.

Dublin.

Uma cidade chuvosa, fria, do outro lado de um oceano que sempre lhe pareceu intransponível. Uma cidade onde, em algum prédio de vidro e aço, uma mulher de cabelos ruivos devia estar, naquele exato momento, olhando um papel qualquer sem imaginar que era pensada.

— Eu preciso pensar.

— Claro.

— Posso responder depois?

— Quando quiser.

Marcela levou quatro dias para responder.

Não contou a ninguém que estava pensando. Cumpriu o horário, atendeu os hóspedes, resolveu um vazamento no bangalô seis e uma discussão entre duas famílias por causa da mesma mesa no café da manhã. À noite, ficava sentada no sofá do apartamento, com o notebook aberto numa página em branco, tentando escrever uma lista de prós e contras que nunca passava de duas linhas.
Isabela aguentou dois dias antes de se sentar ao lado dela e fechar o notebook com um estalo.

— Chega.

— Eu estava pensando.

— Você estava se torturando. É diferente.

— Isa...

— Quer saber o que eu acho? Você já decidiu e está com medo de admitir.

Marcela olhou para as próprias mãos.

— Eu nunca saí do país.

— Eu sei.

— Eu nem tenho passaporte.

— Dá para tirar.

— Eu falo inglês, Isa. Mas é inglês de balcão, de hóspede. Eu nunca morei dentro dele.

— Você fala melhor que eu e melhor que metade do resort.

— E se eu chegar lá e for horrível? E se eu odiar o frio, a comida, as pessoas? E se eu me sentir sozinha?

Isabela ficou em silêncio. Depois pegou a mão dela e a segurou entre as suas.

— Você se sente sozinha aqui, amiga.

Marcela levantou os olhos.

— Não é verdade.

— É, sim. Você tem a gente, tem sua família, tem o resort inteiro te amando. E de vez em quando eu te vejo olhando para um ponto que ninguém mais enxerga. — Apertou os dedos dela. — Faz dois anos que você espera uma coisa que não vai bater na sua porta.
— Eu não estou esperando a Mavie.

— Não?

— Talvez um pouco. — Marcela respirou fundo. — Muito.

Isabela sorriu, os olhos marejados.

— Então vai.

— Isso não é motivo.

— Não é. O motivo é que você sempre quis conhecer o mundo. — Apontou para o mapa-múndi desbotado colado na parede. — Aquilo está ali desde que você chegou. E nunca teve um alfinete.

Marcela olhou para o mapa. Em seis anos, nunca tinha marcado nenhum lugar. Só estudado, só sonhado, só olhado de longe, com a certeza de que um dia ia acontecer, mas não agora, mas depois, mas quando desse.

Quando desse.

— E se eu encontrar a Mavie?

A pergunta saiu baixinho.

— Aí você encontra e decide na hora o que fazer. Como adulta.

— E se eu não souber?

— Você vai saber. Você sempre sabe, só demora um pouco.

Marcela riu, uma risada trêmula, e apoiou a cabeça no ombro da amiga.

— Quem vai me acordar?

— Eu ligo todo dia. Às seis e quarenta.

— Lá vai ser duas e quarenta.

— Ligo mesmo assim.

No domingo, Marcela ligou para casa.

A videochamada demorou quase um minuto para completar. Quando se estabilizou, ela viu a sala de São Luís inteira ocupada. Dona Teresa no centro, de avental. Lucas e Rafael atrás, de braços cruzados. Camila e Helena no sofá, com Alice no colo. Renata, Júlia e Gabriel espremidos em volta, todos tentando caber na tela.

— Ela está viva! — gritou Lucas.

— Sai da frente, menino — Dona Teresa o empurrou de lado. — Marcela, filha. Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu. Nada ruim. — Marcela respirou fundo. — Eu recebi uma proposta de trabalho. Seis meses, não, três. Em Dublin, com o pessoal da TI, para implantar um sistema novo no resort.

— Dublin — Dona Teresa repetiu, saboreando a palavra. — É onde mesmo?

— Irlanda, mãe.

— A mesma Irlanda da moça?

Marcela sentiu o rosto esquentar.

— Mãe!

— Que moça? — Camila se inclinou para a tela. — Que moça, mãe?

— Nada. Esquece.

— Eu quero saber da moça.

— Camila.

— Que moça, Marcela?

— Ninguém! — Marcela cobriu o rosto com as duas mãos. — Eu quero falar da proposta.

— Eu quero falar da moça — Lucas disse, rindo.

— Cala a boca, Lucas.

Dona Teresa ergueu a mão, e a sala inteira se calou como se alguém tivesse desligado um interruptor.

— Quem vai decidir é a Marcela. Ninguém aqui pergunta mais nada sobre moça. Ela conta quando quiser.

Camila se encolheu no sofá.

— Fala, filha.

— Eu quero ir, mãe. Eu acho. — A voz embargou. — Eu tenho medo de ir tão longe e não voltar.

— Você vai voltar.

— E se eu gostar? E se eu...

— Marcela.

Dona Teresa se aproximou da tela, tanto que o rosto dela ocupou quase tudo. Os olhos escuros, cansados e firmes, olhavam direto para a filha.
— Seu pai sonhava com isso.

Marcela parou.

— Com o quê?

— Com você viajando. Dizia que a caçula ia ver o mundo, porque era a única que tinha cabeça para isso. — A voz fraquejou, só um segundo. — No último mês, no hospital, ele me falou: "Teresa, deixa a Marcela ir. Se ela quiser, deixa."

As lágrimas escorreram sem permissão.

— Ele falou isso?

— Falou. E eu guardei. Não queria te contar, porque era egoísmo meu. Eu queria você perto. Mas ele tinha razão.

— Mãe...

— Vai, filha.


Na sala, ninguém falava. Helena enxugava os olhos com a barra da camisa. Rafael olhava para o chão. Lucas, o mais barulhento, fazia esforço para não chorar e não conseguia.

— E liga todo domingo — Dona Teresa continuou.

— Eu ligo.

— E come direito.

— Eu como.

— E leva casaco.

— Mãe, é Irlanda, eu vou levar casaco.

— Leva dois.

Marcela riu com o rosto molhado, e viu a família inteira rir junto, num riso frouxo, emocionado, barulhento, que só aquela casa sabia fazer.

— Eu amo vocês.

— Amamos você mais — Lucas respondeu, sem vergonha nenhuma.

Naquela noite, antes de dormir, ela pegou um alfinete vermelho na gaveta e o espetou no mapa, num ponto pequeno e verde, no canto superior esquerdo da Europa.

Ficou olhando.

Pela primeira vez em dois anos, o coração dela batia sem peso.

Na segunda-feira, foi até a sala de Carolina e entregou uma folha escrita à mão.

— Eu aceito. Com duas condições.

Carolina leu.

— "Um: o contrato é com o resort e o meu cargo fica garantido. Dois: eu volto no fim dos três meses." — Ergueu os olhos. — Isso eu consigo.

— E o resto?

— O resto é você fazendo o que sabe fazer.

Marcela sorriu, os olhos ainda inchados da noite mal dormida.

— Posso pedir uma coisa?

— Qualquer uma.

— Que ninguém aqui trate isso como favor. Eu quero que saibam que fui porque me escolheram pelo trabalho.

— Eles sabem.

— Porque se alguém falar...

— Ninguém vai falar. — Carolina apertou a mão dela por cima da mesa. — E se falar, vai ter que se ver comigo.

O passaporte foi a parte mais difícil.

Marcela passou dois dias seguidos na fila da Polícia Federal em São Luís, com Isabela a tiracolo, uma pasta de documentos debaixo do braço e uma foto 5x7 em que não sabia se parecia assustada ou empolgada.

— Você parece uma foragida — Isabela disse, olhando o resultado.

— Eu pareço uma pessoa com sono.

— Isso também.

A moça do balcão carimbou o protocolo e sorriu.

— Primeira viagem?

— Primeira.

— Para onde?

— Irlanda.

— Que lindo. Chove muito lá, hein.

— Eu ouvi dizer.

— Leva casaco.

Marcela e Isabela se olharam e caíram na gargalhada na frente da fila inteira.

Antes de viajar, ela procurou Nathalie.

Encontrou-a no terraço, debruçada sobre uma pilha de papéis, de óculos de leitura, o cabelo preso de qualquer jeito. Parecia mais humana assim, menos blindada.

— Posso falar com você?

— Sempre.

Marcela parou diante da mesa, as mãos cruzadas na frente do corpo, e falou como falava com os hóspedes mais difíceis: voz suave, olhar firme, nenhuma dúvida no rosto.

— Eu vou aceitar.

Um brilho atravessou os olhos cinza, rápido demais para ela decifrar.

— Fico feliz.

— Mas eu preciso te perguntar uma coisa.

— Pergunta.

— Por que Dublin? E por que eu?

Nathalie tirou os óculos devagar.

— Porque a Aura é real, e porque você é a pessoa certa para fazê-la funcionar. Isso é verdade.

— Eu sei. Mas não é só isso.

— Não é só isso — Nathalie concordou, sem desviar o olhar. — Eu queria você lá. E não vou fingir que não.

— Por causa da Mavie.

— Por causa de várias coisas. A Mavie é uma delas. — Fez uma pausa. — Eu te disse no mirante que você seria a primeira a saber de qualquer coisa. Continua valendo.

— E o que você vai fazer?

— Ainda não sei.

— Isso não me tranquiliza.

— Não era para tranquilizar. Era para ser honesto.

Marcela ficou olhando para ela por um longo momento. Não achou nenhuma armadilha ali, só o cansaço de uma mulher que tinha parado de se esconder atrás dos próprios planos.

— Eu vou por mim — disse. — Por um projeto que eu acredito, por uma cidade que eu quero conhecer, por uma equipe que depende de mim. E se eu encontrar a Mavie, eu decido o que fazer. Você não.

— Eu notei.

— E se você tentar usar isso para machucar qualquer uma das duas...

— Eu vou ter que lidar com você.

— Exato.

Nathalie quase sorriu.

— Seria a primeira vez que eu perdia um jogo por uma razão que valesse a pena.

A resposta desarmou Marcela mais do que qualquer ameaça. Ela abriu a boca, não achou o que dizer e fechou de novo.
— Boa noite, Nathalie.

— Boa noite, Marcela.

Ela saiu com o coração acelerado, sem saber se era medo, empolgação ou os dois.

Nathalie ficou sozinha no terraço. Havia uma folha virada para baixo na mesa, ao lado de uma xícara de café frio. Virou-a e leu, pela décima vez naquela manhã, as poucas linhas que Siobhan tinha mandado de Dublin.

Mavie Smith segue sem aceitar contato pessoal. Recusou o convite de jantar da semana passada e duas reuniões extras. Cinco horas de sono, nenhum relacionamento conhecido. A conta do resort continua com Fiona Doyle, sob ordem expressa de não receber relatórios com o nome do estado.

Dobrou o papel em quatro e o guardou no bolso do paletó.

Eu prometi que ela seria a primeira a saber.

Eu nunca disse que a outra não saberia também.

Mavie soube numa segunda-feira.

Estava na sala do conselho, no meio de uma apresentação trimestral, quando Fiona Doyle entrou sem bater e deixou um envelope pardo sobre a mesa, com a ordem silenciosa de quem sabia que o assunto não podia esperar. Mavie terminou a frase que estava dizendo, agradeceu aos diretores e pediu dez minutos.

Já na sala dela, de porta fechada, abriu o envelope.

Uma carta de intenção. Um cronograma. Uma lista de nomes.

Rodrigo Menezes, Tecnologia. Letícia Prado, Tecnologia. André Souza, Tecnologia. Marcela Alves, Coordenadora de Experiência do Hóspede.
O nome dela estava ali. Impresso, formal, entre dois outros.

Mavie leu uma vez.

Duas.

Na terceira, as letras já não faziam sentido.

— Chegam dia catorze — Fiona disse, de pé do outro lado da mesa. — A Meridian vai hospedá-los num apartamento corporativo em Ballsbridge. O projeto dura três meses.

— Três meses.

— Aqui. Em Dublin.

Mavie levantou os olhos.

Fiona não disse mais nada. Era inteligente demais, e tinha juntado, ao longo de dois anos de silêncio, pistas suficientes para entender o que aquele nome significava.

— Como você soube?

— Pela diretora de operações da Meridian. Ligou para combinar a logística de um evento e comentou, de passagem, que a Nathalie estava recebendo uma equipe do Brasil.

— De passagem.

— De passagem.

— Claro.

Mavie voltou os olhos para a folha.

Marcela Alves.

Duas palavras. Doze letras. Dois anos de silêncio rachados por uma linha de impressora.

— A Nathalie sabe? — Fiona perguntou, baixinho. — Que ela é a pessoa.

Mavie fechou o envelope devagar.

— Sabe.

— Como você tem certeza?

— Porque ela não faz nada por acaso.

O silêncio ficou pesado.

— O que você quer que eu faça?

Mavie olhou pela janela. Dublin estava cinzenta, como sempre, as nuvens baixas, a chuva fina batendo no vidro.
— Nada.

— Nada?

— Por enquanto. — A voz saiu firme, mas os dedos, por baixo da mesa, tremiam. — Preciso pensar.
— Mavie...

— Pode ir, Fiona. Obrigada.

A porta se fechou.

Mavie ficou parada no meio da sala, o corpo reto, a respiração controlada, o rosto imóvel. Só as mãos entregavam: a direita tinha se fechado sobre o encosto da cadeira com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

Dia catorze.

Contou nos dedos, sem querer. Doze dias.

Em doze dias, uma mulher de olhos azuis ia descer de um avião numa cidade de chuva, sem saber que alguém, a poucos quilômetros dali, estaria acordada às quatro e meia da manhã olhando para o teto e pensando no nome dela.

Mavie foi até a janela e encostou a testa no vidro frio.
O que eu vou dizer?

Eu passei dois anos sem dizer nada.

Fechou os olhos. E, pela primeira vez desde o mirante, não tentou afastar a lembrança. A mão no cabelo dela. O lençol azul. A voz baixa dizendo fica comigo.

Deixou vir, inteira, sem defesa. Quando as lágrimas chegaram, não as enxugou.

Do outro lado do oceano, no apartamento de dois quartos nos fundos de um resort, Marcela fechava o zíper de uma mala velha.

Isabela estava sentada na cama, os joelhos dobrados, olhando.
— Casaco.

— Dois.

— Meia grossa.

— Seis pares.

— Carregador.

— Dois.

— Livro.

— Um.

— Dois.

— Isa...

— Dois. — Isabela sorriu, a voz já embargada. — Você vai precisar de companhia.

Marcela pegou o segundo livro da estante e o colocou na mala, junto com a camisa vermelha e preta do pai, dobrada com cuidado entre as roupas.

Fechou o zíper.

As duas ficaram olhando para a mala.

— Em doze dias — Isabela disse.

— Em doze dias.

— Eu ligo às seis e quarenta.

— Lá vai ser duas e quarenta.

— Ligo mesmo assim.

Marcela riu, e a abraçou, forte, de olhos fechados.

— Obrigada por tudo.

— Não agradece. Vai viver.

No mapa preso à parede, o alfinete vermelho brilhava num ponto pequeno do canto da Europa. Ela olhou para ele uma última vez antes de apagar a luz.

Dublin.

Eu estou indo.

Fim do capítulo

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