Nathalie Cross não esperava para ser convidada.
Na terça-feira, às sete da manhã, Marcela chegou à recepção e encontrou um arranjo de flores do campo sobre o balcão, sem cartão. Girassóis pequenos, folhas de eucalipto, algumas margaridas. Perguntou ao rapaz do turno da noite quem tinha deixado.
— A senhora Cross. Pediu que eu colocasse aí antes de você chegar.
— Para a recepção?
— Para você.
Marcela olhou para as flores por um instante. Depois pegou o arranjo com as duas mãos, atravessou o saguão e o entregou a Isabela, que mastigava um pão de queijo atrás do balcão do restaurante.
— Para a sala dos funcionários.
— Ganhou flores? — Isabela arregalou os olhos. — De quem?
— De ninguém.
— Marcela.
— Coloca num vaso, Isa. É um desperdício deixar morrer.
Voltou ao trabalho com o rosto sereno. Quando o dia acabou, as flores ainda estavam na sala dos funcionários, e Nathalie, que passou por lá para pegar um café, ficou olhando para o vaso por um longo momento antes de sair sem dizer nada.
Na quarta, foi um convite.
Nathalie a encontrou no corredor da administração, de paletó azul-escuro e camisa branca, sem gravata, com o cabelo preto preso atrás da orelha.
— Jantar. Hoje. Às oito.
— Obrigada, Nathalie, mas eu tenho o turno da noite.
— Eu já falei com a Carolina. Você está liberada.
— Eu não pedi para ser liberada.
— Eu sei. — Nathalie sorriu. — Mas eu queria.
Marcela manteve o rosto neutro e a voz suave, do jeito que fazia com os hóspedes mais difíceis.
— Eu agradeço o convite, de verdade. Mas prefiro cumprir o meu horário.
— Você está me recusando.
— Estou sendo educada.
— As duas coisas.
— As duas coisas — Marcela concordou, e deu um passo para o lado. — Com licença.
Nathalie ficou parada no corredor, vendo-a se afastar.
Ninguém a tinha recusado daquele jeito em muito tempo. Não com raiva, não com desculpa, não com o rubor de quem queria dizer sim e se segurava. Aquela mulher tinha dito não com a mesma cortesia com que oferecia uma toalha a um hóspede.
E, por algum motivo, isso a interessou muito mais do que um sim.
Na quinta, Nathalie apareceu na sala de Marcela sem avisar.
A sala era pequena, com uma janela que dava para o jardim, uma mesa de madeira clara, um quadro de escala preso à parede e a camisa de futebol vermelha e preta pendurada no encosto da cadeira, onde só quem soubesse procurar a veria. Marcela estava de pé, conferindo uma planilha, quando a porta se abriu.
— Eu bati.
— Eu não ouvi.
— Bati em pensamento.
Marcela ergueu os olhos, controlou o suspiro e fechou a planilha.
— Em que posso ajudar?
Nathalie entrou, fechou a porta atrás de si e olhou ao redor com a curiosidade de quem entra na casa de alguém. Parou diante do quadro de escala, depois diante da janela, e por fim diante da camisa.
— Flamengo.
— É.
— Era do seu pai?
Marcela sentiu o corpo inteiro enrijecer.
— Como a senhora sabe?
— Eu não sei. — Nathalie virou o rosto, calma. — Perguntei. Você acabou de responder.
Era um truque simples, e Marcela caiu como uma criança. Cerrou o maxilar.
— Era.
— Sinto muito.
— Obrigada.
— Quanto tempo?
— Faz oito anos.
Nathalie assentiu devagar, sem insistir. Ficou ali um instante em silêncio, as mãos nos bolsos, os olhos cinza pousados na camisa.
— Eu perdi a minha mãe com dezenove — disse, sem emoção na voz. — Não tenho nada dela. Nenhuma camisa, nenhum objeto. Se pudesse escolher, queria ter uma coisa assim. Pendurada na cadeira, onde eu visse todo dia.
Marcela hesitou.
Havia algo naquele tom tão seco, quase administrativo, que tornava a frase mais verdadeira do que uma confissão chorosa. E Marcela, que tinha crescido cercada de gente que chorava em voz alta, reconheceu ali outra forma de dor: a de quem nunca aprendeu a falar dela.
— Eu sinto muito, Nathalie.
— Obrigada. — Nathalie se virou. — Mas eu não vim aqui para ser consolada.
— Então veio fazer o quê?
— Vim ser direta.
A palavra pairou entre as duas.
— Eu não sou boa em rodeios — Nathalie continuou, dando um passo à frente. — Passei a vida inteira vendo gente dar voltas, esconder o que quer, esperar o outro agir primeiro. Acho uma perda de tempo. Então eu vou te dizer.
Marcela cruzou os braços.
— Pode dizer.
— Você me interessa.
O silêncio caiu como um tijolo.
— Não é só pelo trabalho. Não é só porque você conhece o resort melhor que ninguém. — Nathalie falava devagar, sem desviar o olhar. — Você me interessa como mulher. Eu quero te conhecer. Jantar com você. Saber como é a sua voz quando não está sendo educada comigo.
Marcela sentiu o rosto esquentar, e detestou aquilo.
— Eu sou sua funcionária.
— Você é funcionária do resort. Eu sou sócia de trinta por cento. Não sou sua chefe.
— Para os efeitos práticos...
— Para os efeitos práticos, você é livre para dizer não. E eu vou aceitar. — Ela fez uma pausa. — Mas vou continuar perguntando.
— Isso é pressão.
— Isso é persistência.
— Tem diferença?
— Tem. A pressão ignora o seu não. A persistência respeita o seu não e tenta de novo outro dia.
Marcela quase riu. Foi um riso curto, irritado, escapando pelo nariz.
— Você é impossível.
— Já me disseram.
— Quem?
— Quase todo mundo.
Marcela respirou fundo e descruzou os braços. Quando falou, a voz saiu firme, polida, fria como mármore.
— Nathalie, eu vou ser tão direta quanto você. Eu agradeço o interesse. Reconheço que foi dito com respeito. Mas a resposta é não.
— Hoje.
— Em geral.
— Por quê?
— Porque eu não estou disponível.
— Você está com alguém?
— Não.
— Então disponível.
— Não — Marcela repetiu, mais devagar. — Não estou disponível.
Nathalie a observou por um longo momento. Os olhos cinza percorreram o rosto dela com uma atenção quase clínica, parando na boca, nos olhos, no ponto onde o pescoço encontrava o colarinho do uniforme.
— Existe uma pessoa — disse, enfim, sem pergunta na voz.
Marcela não se moveu.
— Não existe ninguém.
— Existe uma pessoa que não está aqui.
— Nathalie.
— E que você ainda espera.
— Isso não é da sua conta.
— Não é — Nathalie concordou, calma. — Mas explica muita coisa.
Marcela deu um passo à frente.
— A senhora pode sair da minha sala.
— Eu tentei de novo o tratamento formal.
— Nathalie. Por favor.
Ela ergueu as duas mãos em sinal de paz e recuou até a porta.
— Eu vou. Mas deixa eu te falar uma última coisa.
— Não preciso ouvir.
— Eu não sou o tipo de mulher que se contenta com meio interesse. Quando eu quero alguma coisa, vou atrás de frente, de peito aberto. Você vai saber sempre onde eu estou e o que eu estou pensando.
Abriu a porta.
— Acho que é isso que você merece. Alguém que não faça você adivinhar.
Saiu.
Marcela ficou parada no meio da sala, as mãos apoiadas na mesa, o coração batendo mais rápido do que gostaria.
Alguém que não faça você adivinhar.
Mavie tinha feito Marcela adivinhar uma semana inteira. Tinha feito adivinhar o silêncio, o olhar, o beijo, a fuga. Tinha feito adivinhar, por dois anos, se algum dia a procuraria.
A frase da outra, dita sem nenhuma intenção de ferir, entrou nela como um espinho.
Na sexta, Marcela evitou o corredor da administração.
Na sexta à tarde, evitou o restaurante.
Na sexta à noite, quando Isabela perguntou por que ela estava almoçando na cozinha com a equipe, respondeu apenas:
— Para economizar tempo.
— Você está se escondendo.
— Estou trabalhando.
— Você está se escondendo da gringa.
— Isa.
— Marcela. — Isabela largou o garfo. — Ela te chamou para jantar três vezes.
— Duas.
— Contando a de hoje de manhã, três.
— A de hoje de manhã foi só um "bom dia" meio comprido.
— Ela disse "bom dia" e "quando você quiser, a mesa está reservada".
— Isso é um convite?
— Isso é uma declaração.
Marcela empurrou o prato.
— Eu não quero.
— Claro.
— Eu não quero que ela seja direta. Eu não quero ser desejada de frente, dessa forma, como se fosse fácil. — Marcela abaixou a voz. — Eu só queria que as coisas não tivessem tanto peso.
Isabela a olhou com carinho.
— Amiga, você fala como se ela estivesse te obrigando.
— Eu sei que não.
— Então qual é o problema?
Marcela demorou a responder.
— O problema é que ela é clara. — Engoliu em seco. — E eu passei dois anos esperando alguém que nunca foi.
Isabela não disse nada. Só segurou a mão dela por cima da mesa, apertou com firmeza, e a deixou ali, sem pressa.
No sábado, Carolina chamou Marcela à sala dela.
— Senta. Quero conversar uma coisa com você.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada de ruim. — Carolina fechou a porta e se acomodou do outro lado da mesa. — Eu só queria saber como você está com a Nathalie.
Marcela sentiu o rosto esquentar.
— Como assim?
— Eu não sou cega, Marcela. Percebi desde o primeiro dia. As flores, o convite, a visita guiada de oito horas. — Carolina falava com delicadeza, sem julgamento. — Ela é sócia do resort e eu não quero que você se sinta pressionada por isso.
— Eu não me sinto.
— Tem certeza?
— Tenho. — Marcela respirou fundo. — Ela foi clara desde o começo. Disse o que queria e aceitou o meu não.
— Aceitou mesmo?
— Aceitou. Não do jeito que eu esperava, mas aceitou.
Carolina a observou por um momento, os dedos cruzados sobre a mesa.
— Eu quero que você saiba de uma coisa. Se ela passar do limite, em qualquer sentido, você me avisa. Não importa quanto ela tenha investido aqui. O Eduardo e eu pensamos igual.
— Obrigada, Carolina.
— Eu não estou dizendo isso por obrigação. — Carolina sorriu. — Estou dizendo porque você é a pessoa mais importante deste lugar, e eu não vou deixar ninguém te tratar como se fosse menos.
Marcela sentiu os olhos arderem. Piscou, rápido.
— Ela não fez nada de errado. Só é direta demais.
— Isso eu entendo. — Carolina inclinou a cabeça. — E você gosta?
A pergunta pegou Marcela desprevenida.
— Eu não sei.
— Tudo bem não saber.
— Eu fico... — Marcela procurou a palavra. — Desconfortável. Porque ela não faz joguinho. E eu passei muito tempo com alguém que só fazia.
Carolina não perguntou quem. Só assentiu, devagar, entendendo que certas coisas não precisam de nome.
— Então você tem a sua resposta — disse, com carinho. — Quando o desconforto passar, você descobre o que sente.
Marcela riu, um riso pequeno, embargado.
— Você parece a minha mãe.
— Eu aceito o elogio.
No domingo, Nathalie a encontrou no mirante.
Marcela estava sentada num dos bancos de madeira, de calça jeans e camiseta, sem uniforme, os cabelos soltos, os joelhos encolhidos contra o peito. O sol se punha devagar atrás das dunas, tingindo o céu de rosa e dourado. Ela olhava para a luz sem enxergar nada.
— Posso?
Marcela virou o rosto.
Nathalie estava parada na entrada da plataforma, sem paletó, a camisa branca com as mangas dobradas, os cabelos pretos soltos pelo vento. Parecia menos executiva, mais pessoa.
— O mirante é público.
— Eu perguntei por educação.
— Pode sentar.
Nathalie se sentou na outra ponta do banco, deixando meio metro de espaço entre as duas. Ficaram olhando o pôr do sol em silêncio por algum tempo.
— Você me evitou a semana inteira — Nathalie disse, enfim.
— Eu estava trabalhando.
— Você almoçou na cozinha com a equipe quatro dias seguidos.
— Eu estava economizando tempo.
— Marcela.
— Eu estava me escondendo — Marcela admitiu, e a franqueza saiu mais fácil do que esperava. — Um pouco.
— Eu sei. — Nathalie manteve os olhos nas dunas. — Eu fui direta demais.
— Foi.
— Eu sempre sou.
— Já imaginava.
— Mas não me arrependo.
Marcela soltou o ar devagar, quase um riso.
— Você é impossível.
— Já me disseram.
Ficaram em silêncio de novo. O vento mexia nos cabelos das duas. Lá embaixo, uma ave cruzava o céu em direção às lagoas.
— Eu posso perguntar uma coisa? — Marcela disse.
— Pode.
— Você veio para cá com outra intenção.
A frase saiu antes que ela pudesse segurar.
Nathalie não se mexeu.
— Como assim?
— Você perguntou do grupo irlandês no jantar. Da Mavie. — Marcela mantinha o rosto firme, apesar do coração disparado. — Você não veio só pelos negócios.
O silêncio durou três segundos.
Quatro.
Nathalie respirou fundo, devagar.
— Vim — admitiu. — Não vou mentir.
— Para quê?
— Para procurar uma coisa.
— Que coisa?
Nathalie olhou para ela, e dessa vez a hesitação foi real.
— Uma brecha. Algo que me desse vantagem sobre a Mavie.
Marcela sentiu o sangue gelar.
— E achou?
— Ainda não.
— Está procurando em mim?
— Não sei.
— Como não sabe?
— Porque eu cheguei com uma lista de nomes e uma teoria. — Nathalie falava devagar, escolhendo cada palavra. — E, depois de uma semana, estou sentada num banco de madeira, olhando um pôr do sol, esquecendo qual era a teoria.
Marcela a encarou, o rosto imóvel.
— Isso é manipulação?
— Se fosse, eu não te contaria.
— Pode ser uma técnica.
— Pode. — Nathalie assentiu. — Mas se eu quisesse te enganar, seria mais eficiente. Eu ia ficar calada.
— Então por que está contando?
— Porque eu cansei de fazer joguinho com você.
A voz dela ficou mais baixa, mais crua.
— Cheguei aqui com um plano. Mas você não funciona como plano. Você é uma pessoa de verdade, que eu não entendo, e que me interessa mais do que qualquer vingança.
Marcela ficou calada.
Lá embaixo, o sol tocou as dunas e o céu pegou fogo.
— Você não me deve nada — Nathalie continuou. — Nem explicação, nem resposta, nem jantar. Mas eu queria que você soubesse, porque não quero começar com mentira.
— Começar?
— Se houver começo.
Marcela se levantou.
Ficou de pé diante da mureta, de costas, os braços cruzados sobre o peito, olhando as dunas incendiarem. Pensou na mulher ruiva que já a tinha deixado uma vez sem dizer uma palavra. Pensou na que estava ali, sentada, dizendo tudo, sem esconder nada.
Qual das duas é mais perigosa?
— Eu não vou jantar com você — disse, sem se virar.
— Está bem.
— E não é por falta de educação.
— Eu sei.
— Mas se um dia você decidir usar o que descobrir contra ela...
— Eu não sei o que vou fazer. — Nathalie sustentou o olhar quando Marcela se virou. — Mas te prometo que, antes de fazer qualquer coisa, você vai ser a primeira a saber.
A promessa soou estranha no ar do fim de tarde, dita sem teatro por uma mulher que provavelmente nunca prometera nada.
Marcela assentiu, uma vez.
— Obrigada por ser sincera.
— Obrigada por ouvir.
— Boa noite, Nathalie.
— Boa noite, Marcela.
Ela foi embora devagar, sem olhar para trás.
Nathalie ficou sozinha no banco, vendo as dunas escurecerem. Só quando as luzes do resort acenderam lá embaixo, uma a uma, tirou o celular do bolso e abriu a lista que Siobhan lhe mandara na véspera.
Dezessete nomes.
Recepção, hospedagem, atendimento. Todos os que trabalhavam no resort dois anos antes.
O dedo dela desceu devagar até o décimo segundo.
Marcela Alves. Recepção e turismo. Admissão há seis anos. Formada em Turismo. Promovida a Coordenadora de Experiência do Hóspede.
Ficou olhando o nome por muito tempo.
A tela escureceu. Ela a acendeu de novo.
Não precisava mais da confirmação. Já sabia desde o primeiro dia, quando uma mulher tinha respondido que a nota da Mavie fora "máxima" com um sorriso que não chegou aos olhos.
Mas saber e aceitar eram coisas diferentes.
Nathalie guardou o celular.
Em Dublin, naquela mesma hora, uma mulher ruiva abria a porta de uma cobertura silenciosa, sem imaginar que a sua maior fraqueza acabava de ser descoberta.
E que a pessoa que a descobrira já não sabia mais se queria usá-la.
Na terça-feira, às sete da manhã, Marcela chegou à recepção e encontrou um arranjo de flores do campo sobre o balcão, sem cartão. Girassóis pequenos, folhas de eucalipto, algumas margaridas. Perguntou ao rapaz do turno da noite quem tinha deixado.
— A senhora Cross. Pediu que eu colocasse aí antes de você chegar.
— Para a recepção?
— Para você.
Marcela olhou para as flores por um instante. Depois pegou o arranjo com as duas mãos, atravessou o saguão e o entregou a Isabela, que mastigava um pão de queijo atrás do balcão do restaurante.
— Para a sala dos funcionários.
— Ganhou flores? — Isabela arregalou os olhos. — De quem?
— De ninguém.
— Marcela.
— Coloca num vaso, Isa. É um desperdício deixar morrer.
Voltou ao trabalho com o rosto sereno. Quando o dia acabou, as flores ainda estavam na sala dos funcionários, e Nathalie, que passou por lá para pegar um café, ficou olhando para o vaso por um longo momento antes de sair sem dizer nada.
Na quarta, foi um convite.
Nathalie a encontrou no corredor da administração, de paletó azul-escuro e camisa branca, sem gravata, com o cabelo preto preso atrás da orelha.
— Jantar. Hoje. Às oito.
— Obrigada, Nathalie, mas eu tenho o turno da noite.
— Eu já falei com a Carolina. Você está liberada.
— Eu não pedi para ser liberada.
— Eu sei. — Nathalie sorriu. — Mas eu queria.
Marcela manteve o rosto neutro e a voz suave, do jeito que fazia com os hóspedes mais difíceis.
— Eu agradeço o convite, de verdade. Mas prefiro cumprir o meu horário.
— Você está me recusando.
— Estou sendo educada.
— As duas coisas.
— As duas coisas — Marcela concordou, e deu um passo para o lado. — Com licença.
Nathalie ficou parada no corredor, vendo-a se afastar.
Ninguém a tinha recusado daquele jeito em muito tempo. Não com raiva, não com desculpa, não com o rubor de quem queria dizer sim e se segurava. Aquela mulher tinha dito não com a mesma cortesia com que oferecia uma toalha a um hóspede.
E, por algum motivo, isso a interessou muito mais do que um sim.
Na quinta, Nathalie apareceu na sala de Marcela sem avisar.
A sala era pequena, com uma janela que dava para o jardim, uma mesa de madeira clara, um quadro de escala preso à parede e a camisa de futebol vermelha e preta pendurada no encosto da cadeira, onde só quem soubesse procurar a veria. Marcela estava de pé, conferindo uma planilha, quando a porta se abriu.
— Eu bati.
— Eu não ouvi.
— Bati em pensamento.
Marcela ergueu os olhos, controlou o suspiro e fechou a planilha.
— Em que posso ajudar?
Nathalie entrou, fechou a porta atrás de si e olhou ao redor com a curiosidade de quem entra na casa de alguém. Parou diante do quadro de escala, depois diante da janela, e por fim diante da camisa.
— Flamengo.
— É.
— Era do seu pai?
Marcela sentiu o corpo inteiro enrijecer.
— Como a senhora sabe?
— Eu não sei. — Nathalie virou o rosto, calma. — Perguntei. Você acabou de responder.
Era um truque simples, e Marcela caiu como uma criança. Cerrou o maxilar.
— Era.
— Sinto muito.
— Obrigada.
— Quanto tempo?
— Faz oito anos.
Nathalie assentiu devagar, sem insistir. Ficou ali um instante em silêncio, as mãos nos bolsos, os olhos cinza pousados na camisa.
— Eu perdi a minha mãe com dezenove — disse, sem emoção na voz. — Não tenho nada dela. Nenhuma camisa, nenhum objeto. Se pudesse escolher, queria ter uma coisa assim. Pendurada na cadeira, onde eu visse todo dia.
Marcela hesitou.
Havia algo naquele tom tão seco, quase administrativo, que tornava a frase mais verdadeira do que uma confissão chorosa. E Marcela, que tinha crescido cercada de gente que chorava em voz alta, reconheceu ali outra forma de dor: a de quem nunca aprendeu a falar dela.
— Eu sinto muito, Nathalie.
— Obrigada. — Nathalie se virou. — Mas eu não vim aqui para ser consolada.
— Então veio fazer o quê?
— Vim ser direta.
A palavra pairou entre as duas.
— Eu não sou boa em rodeios — Nathalie continuou, dando um passo à frente. — Passei a vida inteira vendo gente dar voltas, esconder o que quer, esperar o outro agir primeiro. Acho uma perda de tempo. Então eu vou te dizer.
Marcela cruzou os braços.
— Pode dizer.
— Você me interessa.
O silêncio caiu como um tijolo.
— Não é só pelo trabalho. Não é só porque você conhece o resort melhor que ninguém. — Nathalie falava devagar, sem desviar o olhar. — Você me interessa como mulher. Eu quero te conhecer. Jantar com você. Saber como é a sua voz quando não está sendo educada comigo.
Marcela sentiu o rosto esquentar, e detestou aquilo.
— Eu sou sua funcionária.
— Você é funcionária do resort. Eu sou sócia de trinta por cento. Não sou sua chefe.
— Para os efeitos práticos...
— Para os efeitos práticos, você é livre para dizer não. E eu vou aceitar. — Ela fez uma pausa. — Mas vou continuar perguntando.
— Isso é pressão.
— Isso é persistência.
— Tem diferença?
— Tem. A pressão ignora o seu não. A persistência respeita o seu não e tenta de novo outro dia.
Marcela quase riu. Foi um riso curto, irritado, escapando pelo nariz.
— Você é impossível.
— Já me disseram.
— Quem?
— Quase todo mundo.
Marcela respirou fundo e descruzou os braços. Quando falou, a voz saiu firme, polida, fria como mármore.
— Nathalie, eu vou ser tão direta quanto você. Eu agradeço o interesse. Reconheço que foi dito com respeito. Mas a resposta é não.
— Hoje.
— Em geral.
— Por quê?
— Porque eu não estou disponível.
— Você está com alguém?
— Não.
— Então disponível.
— Não — Marcela repetiu, mais devagar. — Não estou disponível.
Nathalie a observou por um longo momento. Os olhos cinza percorreram o rosto dela com uma atenção quase clínica, parando na boca, nos olhos, no ponto onde o pescoço encontrava o colarinho do uniforme.
— Existe uma pessoa — disse, enfim, sem pergunta na voz.
Marcela não se moveu.
— Não existe ninguém.
— Existe uma pessoa que não está aqui.
— Nathalie.
— E que você ainda espera.
— Isso não é da sua conta.
— Não é — Nathalie concordou, calma. — Mas explica muita coisa.
Marcela deu um passo à frente.
— A senhora pode sair da minha sala.
— Eu tentei de novo o tratamento formal.
— Nathalie. Por favor.
Ela ergueu as duas mãos em sinal de paz e recuou até a porta.
— Eu vou. Mas deixa eu te falar uma última coisa.
— Não preciso ouvir.
— Eu não sou o tipo de mulher que se contenta com meio interesse. Quando eu quero alguma coisa, vou atrás de frente, de peito aberto. Você vai saber sempre onde eu estou e o que eu estou pensando.
Abriu a porta.
— Acho que é isso que você merece. Alguém que não faça você adivinhar.
Saiu.
Marcela ficou parada no meio da sala, as mãos apoiadas na mesa, o coração batendo mais rápido do que gostaria.
Alguém que não faça você adivinhar.
Mavie tinha feito Marcela adivinhar uma semana inteira. Tinha feito adivinhar o silêncio, o olhar, o beijo, a fuga. Tinha feito adivinhar, por dois anos, se algum dia a procuraria.
A frase da outra, dita sem nenhuma intenção de ferir, entrou nela como um espinho.
Na sexta, Marcela evitou o corredor da administração.
Na sexta à tarde, evitou o restaurante.
Na sexta à noite, quando Isabela perguntou por que ela estava almoçando na cozinha com a equipe, respondeu apenas:
— Para economizar tempo.
— Você está se escondendo.
— Estou trabalhando.
— Você está se escondendo da gringa.
— Isa.
— Marcela. — Isabela largou o garfo. — Ela te chamou para jantar três vezes.
— Duas.
— Contando a de hoje de manhã, três.
— A de hoje de manhã foi só um "bom dia" meio comprido.
— Ela disse "bom dia" e "quando você quiser, a mesa está reservada".
— Isso é um convite?
— Isso é uma declaração.
Marcela empurrou o prato.
— Eu não quero.
— Claro.
— Eu não quero que ela seja direta. Eu não quero ser desejada de frente, dessa forma, como se fosse fácil. — Marcela abaixou a voz. — Eu só queria que as coisas não tivessem tanto peso.
Isabela a olhou com carinho.
— Amiga, você fala como se ela estivesse te obrigando.
— Eu sei que não.
— Então qual é o problema?
Marcela demorou a responder.
— O problema é que ela é clara. — Engoliu em seco. — E eu passei dois anos esperando alguém que nunca foi.
Isabela não disse nada. Só segurou a mão dela por cima da mesa, apertou com firmeza, e a deixou ali, sem pressa.
No sábado, Carolina chamou Marcela à sala dela.
— Senta. Quero conversar uma coisa com você.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada de ruim. — Carolina fechou a porta e se acomodou do outro lado da mesa. — Eu só queria saber como você está com a Nathalie.
Marcela sentiu o rosto esquentar.
— Como assim?
— Eu não sou cega, Marcela. Percebi desde o primeiro dia. As flores, o convite, a visita guiada de oito horas. — Carolina falava com delicadeza, sem julgamento. — Ela é sócia do resort e eu não quero que você se sinta pressionada por isso.
— Eu não me sinto.
— Tem certeza?
— Tenho. — Marcela respirou fundo. — Ela foi clara desde o começo. Disse o que queria e aceitou o meu não.
— Aceitou mesmo?
— Aceitou. Não do jeito que eu esperava, mas aceitou.
Carolina a observou por um momento, os dedos cruzados sobre a mesa.
— Eu quero que você saiba de uma coisa. Se ela passar do limite, em qualquer sentido, você me avisa. Não importa quanto ela tenha investido aqui. O Eduardo e eu pensamos igual.
— Obrigada, Carolina.
— Eu não estou dizendo isso por obrigação. — Carolina sorriu. — Estou dizendo porque você é a pessoa mais importante deste lugar, e eu não vou deixar ninguém te tratar como se fosse menos.
Marcela sentiu os olhos arderem. Piscou, rápido.
— Ela não fez nada de errado. Só é direta demais.
— Isso eu entendo. — Carolina inclinou a cabeça. — E você gosta?
A pergunta pegou Marcela desprevenida.
— Eu não sei.
— Tudo bem não saber.
— Eu fico... — Marcela procurou a palavra. — Desconfortável. Porque ela não faz joguinho. E eu passei muito tempo com alguém que só fazia.
Carolina não perguntou quem. Só assentiu, devagar, entendendo que certas coisas não precisam de nome.
— Então você tem a sua resposta — disse, com carinho. — Quando o desconforto passar, você descobre o que sente.
Marcela riu, um riso pequeno, embargado.
— Você parece a minha mãe.
— Eu aceito o elogio.
No domingo, Nathalie a encontrou no mirante.
Marcela estava sentada num dos bancos de madeira, de calça jeans e camiseta, sem uniforme, os cabelos soltos, os joelhos encolhidos contra o peito. O sol se punha devagar atrás das dunas, tingindo o céu de rosa e dourado. Ela olhava para a luz sem enxergar nada.
— Posso?
Marcela virou o rosto.
Nathalie estava parada na entrada da plataforma, sem paletó, a camisa branca com as mangas dobradas, os cabelos pretos soltos pelo vento. Parecia menos executiva, mais pessoa.
— O mirante é público.
— Eu perguntei por educação.
— Pode sentar.
Nathalie se sentou na outra ponta do banco, deixando meio metro de espaço entre as duas. Ficaram olhando o pôr do sol em silêncio por algum tempo.
— Você me evitou a semana inteira — Nathalie disse, enfim.
— Eu estava trabalhando.
— Você almoçou na cozinha com a equipe quatro dias seguidos.
— Eu estava economizando tempo.
— Marcela.
— Eu estava me escondendo — Marcela admitiu, e a franqueza saiu mais fácil do que esperava. — Um pouco.
— Eu sei. — Nathalie manteve os olhos nas dunas. — Eu fui direta demais.
— Foi.
— Eu sempre sou.
— Já imaginava.
— Mas não me arrependo.
Marcela soltou o ar devagar, quase um riso.
— Você é impossível.
— Já me disseram.
Ficaram em silêncio de novo. O vento mexia nos cabelos das duas. Lá embaixo, uma ave cruzava o céu em direção às lagoas.
— Eu posso perguntar uma coisa? — Marcela disse.
— Pode.
— Você veio para cá com outra intenção.
A frase saiu antes que ela pudesse segurar.
Nathalie não se mexeu.
— Como assim?
— Você perguntou do grupo irlandês no jantar. Da Mavie. — Marcela mantinha o rosto firme, apesar do coração disparado. — Você não veio só pelos negócios.
O silêncio durou três segundos.
Quatro.
Nathalie respirou fundo, devagar.
— Vim — admitiu. — Não vou mentir.
— Para quê?
— Para procurar uma coisa.
— Que coisa?
Nathalie olhou para ela, e dessa vez a hesitação foi real.
— Uma brecha. Algo que me desse vantagem sobre a Mavie.
Marcela sentiu o sangue gelar.
— E achou?
— Ainda não.
— Está procurando em mim?
— Não sei.
— Como não sabe?
— Porque eu cheguei com uma lista de nomes e uma teoria. — Nathalie falava devagar, escolhendo cada palavra. — E, depois de uma semana, estou sentada num banco de madeira, olhando um pôr do sol, esquecendo qual era a teoria.
Marcela a encarou, o rosto imóvel.
— Isso é manipulação?
— Se fosse, eu não te contaria.
— Pode ser uma técnica.
— Pode. — Nathalie assentiu. — Mas se eu quisesse te enganar, seria mais eficiente. Eu ia ficar calada.
— Então por que está contando?
— Porque eu cansei de fazer joguinho com você.
A voz dela ficou mais baixa, mais crua.
— Cheguei aqui com um plano. Mas você não funciona como plano. Você é uma pessoa de verdade, que eu não entendo, e que me interessa mais do que qualquer vingança.
Marcela ficou calada.
Lá embaixo, o sol tocou as dunas e o céu pegou fogo.
— Você não me deve nada — Nathalie continuou. — Nem explicação, nem resposta, nem jantar. Mas eu queria que você soubesse, porque não quero começar com mentira.
— Começar?
— Se houver começo.
Marcela se levantou.
Ficou de pé diante da mureta, de costas, os braços cruzados sobre o peito, olhando as dunas incendiarem. Pensou na mulher ruiva que já a tinha deixado uma vez sem dizer uma palavra. Pensou na que estava ali, sentada, dizendo tudo, sem esconder nada.
Qual das duas é mais perigosa?
— Eu não vou jantar com você — disse, sem se virar.
— Está bem.
— E não é por falta de educação.
— Eu sei.
— Mas se um dia você decidir usar o que descobrir contra ela...
— Eu não sei o que vou fazer. — Nathalie sustentou o olhar quando Marcela se virou. — Mas te prometo que, antes de fazer qualquer coisa, você vai ser a primeira a saber.
A promessa soou estranha no ar do fim de tarde, dita sem teatro por uma mulher que provavelmente nunca prometera nada.
Marcela assentiu, uma vez.
— Obrigada por ser sincera.
— Obrigada por ouvir.
— Boa noite, Nathalie.
— Boa noite, Marcela.
Ela foi embora devagar, sem olhar para trás.
Nathalie ficou sozinha no banco, vendo as dunas escurecerem. Só quando as luzes do resort acenderam lá embaixo, uma a uma, tirou o celular do bolso e abriu a lista que Siobhan lhe mandara na véspera.
Dezessete nomes.
Recepção, hospedagem, atendimento. Todos os que trabalhavam no resort dois anos antes.
O dedo dela desceu devagar até o décimo segundo.
Marcela Alves. Recepção e turismo. Admissão há seis anos. Formada em Turismo. Promovida a Coordenadora de Experiência do Hóspede.
Ficou olhando o nome por muito tempo.
A tela escureceu. Ela a acendeu de novo.
Não precisava mais da confirmação. Já sabia desde o primeiro dia, quando uma mulher tinha respondido que a nota da Mavie fora "máxima" com um sorriso que não chegou aos olhos.
Mas saber e aceitar eram coisas diferentes.
Nathalie guardou o celular.
Em Dublin, naquela mesma hora, uma mulher ruiva abria a porta de uma cobertura silenciosa, sem imaginar que a sua maior fraqueza acabava de ser descoberta.
E que a pessoa que a descobrira já não sabia mais se queria usá-la.
Fim do capítulo

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