Alex apareceu na cobertura numa quinta-feira, às sete da noite, com dois cafés nas mãos.
Fazia um mês que tinham voltado do Brasil. Um mês de reuniões, de mensagens sobre agenda, de jantares de família em que os dois se sentavam lado a lado e não se tocavam. Ninguém tinha dito nada em voz alta. Mas todos na mesa sabiam que alguma coisa havia quebrado.
Mavie abriu a porta e olhou para os copos. Era o café de padaria que ele comprava havia anos e que ela nunca teve coragem de dizer que nem gostava tanto assim.
— Pensei que você fosse querer.
— Obrigada.
Sentaram na sala, ele na poltrona, ela no sofá. O silêncio já não era o de antes, confortável, de gente que não precisa falar. Era o de quem sabe o que vem a seguir.
— Eu passei esse mês tentando — Alex começou, olhando para o copo. — Juro que tentei. Falei pra mim mesmo que a gente superava, que era uma fase, que o tempo ajeitava.
— Alex...
— Mas eu olho pra você e vejo aquele mirante. Você chorando. Eu nunca tinha te visto chorar, Mavie. Nunca, a vida inteira. E o motivo não era eu.
Ela baixou os olhos.
— Eu falei que a gente ia resolver como adultos. — Ele pousou o café na mesa e tirou do bolso uma caixinha de veludo azul-escuro. — Então vou resolver.
Mavie reconheceu a caixa antes de ele abrir. O anel que usara por anos sem nunca sentir o peso dele no dedo, até aquele mês.
— Eu avisei o meu pai ontem — ele disse. — Falei que o casamento não vai acontecer.
— Eu ia falar.
— Eu sei. Mas eu precisava ser quem terminava. — Ele sorriu, curto, cansado. — Deixa eu ter isso.
Mavie assentiu. As lágrimas voltaram, e dessa vez ela não as escondeu.
— Eu sinto muito.
— Eu sei que sente.
— Você merecia...
— Não me diz o que eu mereço. — A voz dele saiu suave, sem raiva. — Eu merecia que você tivesse me contado antes de eu descobrir sozinho que o que a gente tinha cabia numa planilha.
A frase doeu porque era justa.
Alex se levantou, ficou um instante olhando a cidade pela janela, as mãos nos bolsos.
— Eu não vou te odiar — repetiu, e Mavie percebeu que ele dizia isso para si mesmo também. — Mas vou precisar de um tempo. Um tempo bom.
— Eu entendo.
— Cuida de você.
Saiu sem beijar a testa dela.
Foi isso que mais machucou. Anos inteiros de beijos na testa, e a primeira ausência.
Richard recebeu a notícia no domingo, durante o jantar de família. Largou o garfo, olhou para a filha como quem olha um contrato rasgado e perguntou apenas:
— Por quê?
— Porque eu não o amo.
— Ninguém falou em amor quando isso foi combinado.
— Eu sei. — Mavie sustentou o olhar dele. — E esse foi o erro.
— Décadas de aliança com os Carter, Mavie.
— Não era uma aliança. Era um contrato.
— No qual você assinou.
Ela não respondeu. Victoria, do outro lado da mesa, ergueu os olhos por cima da taça e a observou um segundo além do normal, com aquela expressão elegante e indecifrável. Não disse nada.
Richard passou as semanas seguintes sem falar com a filha além do estritamente profissional. Só e-mails curtos, secos, assinados "R. Smith".
Mavie leu todos como se fossem elogios. Pelo menos eram sobre trabalho.
Dois anos depois
Mavie tinha trinta e um anos. Marcela, vinte e oito.
E nenhuma das duas era a mesma mulher que se despedira no mirante.
Mavie acordava às quatro e meia. O corpo decidira sozinho que dormir era desperdício, e ela, que sempre obedecera a ele, passou a usar aquelas horas para ler relatórios, estudar mercados em que a Smith ainda não entrava, responder e-mails antes que o dia começasse a cobrar.
Em dois anos, a empresa abriu um escritório em Berlim, comprou uma firma de segurança digital em Cork e dobrou o valor de mercado. O rosto dela virou capa de revista de negócios, cabelo ruivo preso, terno preto, o queixo erguido, sob o título "A Mulher Que Não Perde". Richard guardou o exemplar numa gaveta e mandou uma mensagem curta: "Bom trabalho."
Foi a primeira vez em meses que ele escreveu algo que não fosse assinado só com a inicial.
Ela leu e não sentiu nada.
As reuniões se empilhavam. Conselho às nove, financeiro às onze, almoço com investidores que ela já não cancelava, videoconferência com Berlim às três, jurídico às cinco, jantar de negócios às oito. Voltava à cobertura depois da meia-noite, tirava os sapatos no meio da sala, bebia um copo de água de pé na cozinha e ia dormir olhando para o teto.
Tinha parado de abrir as cortinas.
A conta do resort no Maranhão passou para Fiona, a assistente dela, no mesmo mês em que Alex saiu da vida dela. Mavie entregou a pasta com uma frase seca: "Cuida disso. Não me mande relatório com a palavra Maranhão." Fiona, inteligente demais para perguntar, assentiu e nunca mais tocou no assunto.
Mas a foto continuava no celular.
Mavie nunca a apagou. Em algumas madrugadas, quando a insônia vencia, abria a galeria, olhava o rosto de Marcela com o vento nos cabelos e fechava de novo antes de doer demais. Uma vez, às três da manhã, digitou o nome do resort no navegador. A página carregou devagar. As dunas, a piscina, o restaurante, uma lagoa refletindo o céu. Ela rolou a tela sem respirar, procurando um uniforme e um par de olhos azuis.
Nada. Era só o site de um hotel.
Fechou a aba, o coração disparado, e passou o resto da noite acordada.
Na família, quem percebia era o sobrinho. No jantar de aniversário dos trinta anos dela, Ethan, que acabara de completar dezesseis, ficou vermelho até as orelhas e disse baixinho, olhando para o prato:
— Tia, você não ri mais.
Olivia tentou calar o filho. Mavie ergueu a mão.
— Tudo bem. Ele tem razão.
— Você ria mais antes. Quando eu era pequeno.
Mavie olhou para o garoto, tão parecido com Xander na idade dele, e uma tristeza antiga subiu até a garganta.
— Eu sei.
Por baixo da mesa, Victoria pousou a mão sobre a dela, rápido, um toque quase imperceptível. Quando Mavie a olhou, a mãe já tinha voltado a cortar a carne, impassível.
Mas a mão ficou ali mais um minuto.
Do outro lado do oceano, Marcela também tinha mudado, só que de outro jeito.
Nos primeiros meses, emagreceu cinco quilos sem perceber. Voltou para casa no Natal e foi desmascarada por Dona Teresa em menos de dez minutos. Na cozinha, de madrugada, diante de um prato de cuscuz que ela comeu inteiro sem reclamar, contou à mãe a verdade que tinha guardado de todo mundo, até de si mesma.
— Foi uma mulher. Uma hóspede. A gente teve uma coisa curta, e ela foi embora.
— Foi embora pra onde?
— Irlanda.
— É longe. — Dona Teresa repetiu a palavra, saboreando. — E ela era boa pra você?
— Era a melhor coisa que já me aconteceu.
— Então vale. — A mãe limpou uma lágrima dela com o polegar calejado. — Dói porque foi de verdade. Coisa de mentira não dói assim. Eu aprendi isso quando perdi o seu pai.
Marcela chorou ali, sem vergonha, com o rosto apoiado na mão áspera da mãe. Naquela mesma madrugada, a sobrinha Alice nasceu, filha de Helena, pequena e vermelha, e Marcela a segurou nos braços por um tempo longo demais para ser só ternura.
Depois a vida foi andando.
Ela se formou com nota máxima, numa monografia sobre turismo sustentável e comunidades locais nos Lençóis, e a família inteira lotou o auditório. Dona Teresa chorou da entrada ao fim da cerimônia. Rafael, o mais calado dos irmãos, a levantou do chão num abraço e disse, com a voz embargada, que o pai teria gritado mais alto que o Lucas. Na semana seguinte, Carolina entregou uma pasta com o cargo de Coordenadora de Experiência do Hóspede, salário novo, equipe de seis pessoas e uma sala com janela.
Tentou, também, se apaixonar de novo. Bianca, bióloga de olhos castanhos e riso fácil, medidora de plâncton nas lagoas. Foram quatro meses leves, gostosos, honestos.
— Você está aqui — Bianca disse uma noite, olhando o teto —, mas fica olhando para outro lugar.
— Desculpa.
— Não precisa. Mas eu mereço alguém que olhe só pra mim.
Terminaram com um abraço e uma amizade que as duas cumpriram. Isabela ouviu a história com um pote de sorvete no colo.
— Você sabe que ela nunca vai te ligar, né?
— Eu sabia.
— E mesmo assim.
— Mesmo assim — Marcela concordou, baixinho.
Todo ano, no dia do aniversário daquela noite, ela subia ao mirante antes do amanhecer, com a camisa vermelha e preta do pai nos ombros, e ficava olhando as dunas mudarem de cor.
Em Dublin, na mesma madrugada, Mavie estava de pé na varanda da cobertura, o roupão apertado contra o corpo, olhando as luzes da cidade.
Nenhuma das duas sabia. Mas as duas olhavam para o céu ao mesmo tempo.
Foi nessa época que Nathalie Cross entrou de vez na vida de Mavie.
Já se conheciam do mercado, de eventos e frases polidas. Mas no ano anterior, depois que a Meridian tomou da Smith o contrato da prefeitura de Dublin, Nathalie apareceu na sala reservada onde Mavie descansava dos aplausos de uma palestra e disse, encostada no batente: "Você ganhou a sala. Eu ganhei o contrato. Acho justo."
Tinha trinta e três anos, cabelos pretos até os ombros, olhos cinza-escuros, terno vinho costurado sobre o corpo e uma paciência que Mavie jamais tinha visto em ninguém. Desde então, aparecia em todo lugar. Reuniões, disputas de contrato, um evento de caridade em que sentou ao lado de Mavie sem pedir e passou a noite provocando.
— Eu estudo meus rivais — dissera, naquela primeira vez. — Gosto de saber onde estão as brechas. E durante anos a única que encontrei em você foi que não tinha nenhuma. Agora tem.
— Não sei do que está falando.
— Todo mundo que sente falta de alguém olha o celular do mesmo jeito. Você olhou três vezes durante nossa conversa.
Mavie nunca respondeu. Mas desde aquele dia passou a esconder o celular em reuniões.
Naquele outono, num jantar de empresários num salão de hotel, Nathalie atravessou o salão e parou ao lado da cadeira dela.
— Posso?
— Você vai sentar de qualquer jeito.
— Gosto de perguntar. É educado.
Sentou. Pegou a taça de Mavie, bebeu um gole, devolveu. Mavie contou até três.
— O que você quer, Nathalie?
— Fiz uma compra hoje. Quis te contar pessoalmente.
— Não me interessa.
— Vai interessar.
Nathalie se inclinou, os cotovelos sobre a mesa, o rosto a centímetros do dela.
— Comprei uma participação num resort. Fora da Irlanda, fora da Europa. Nordeste do Brasil. Num lugar de dunas brancas e lagoas que só existem alguns meses do ano. Lençóis alguma coisa.
O mundo parou.
Mavie não se mexeu. Não piscou. Mas alguma coisa no rosto dela se desfez, só por um segundo, o suficiente para uma mulher treinada em ler brechas enxergar o que havia por trás da armadura.
Nathalie ficou imóvel. Depois, devagar, sorriu.
Não foi um sorriso de vitória. Foi pior. Foi o sorriso de quem acaba de encontrar a chave de uma porta que procurava havia muito tempo.
— Ah — disse, baixinho. — Então é isso.
— Não sei do que você está falando.
— Sabe, sim. Maranhão. Você passou uma semana lá. Eu li o relatório da sua assistente.
— Você não tinha o direito.
— Eu tenho todos os direitos que o mercado me dá. — Ela se levantou e arrumou a bainha do vestido, sem pressa. — Vou ter que ir conhecer. Parece um lugar bonito.
— Fica longe de lá.
— Por quê?
Mavie não respondeu.
Nathalie se debruçou, os lábios quase no ouvido dela, a voz um sussurro cheio de promessa.
— Quando eu descobrir quem é, Mavie, você vai me agradecer por ser eu e não outra pessoa a te dar o que você quer.
Foi embora com a mesma calma com que chegara. Mavie ficou olhando a taça que ainda guardava a marca de um batom vinho.
Nathalie não tinha dito o nome.
Ainda não sabia.
Mas ia descobrir.
Na manhã seguinte, no resort, Carolina chamou Marcela à sala dela e fechou a porta com cuidado.
— Senta, por favor.
— Aconteceu alguma coisa?
Marcela já tinha aprendido a reconhecer o tom de voz de Carolina quando vinha notícia.
— O Eduardo fechou uma venda parcial do resort. Novos sócios.
Um frio estranho subiu pela nuca dela.
— Quem?
— Um grupo europeu. Irlandês.
O mundo girou devagar.
— Eles chegam no mês que vem — Carolina continuou, observando-a com atenção. — E querem conhecer pessoalmente a equipe. Principalmente quem coordena a experiência dos hóspedes.
Marcela segurou a beirada da cadeira.
Do outro lado do oceano, em algum lugar de Dublin, uma mulher de olhos cinza abria um mapa e circulava com a ponta da unha um ponto na costa do Maranhão.
E duas mulheres que passaram dois anos tentando esquecer uma à outra estavam, sem saber, a poucas semanas de se reencontrar.
Fim do capítulo

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