Por Nalú:
Quando Alicia saiu, fiquei parada no meio do quarto. Minha boca ainda formigava. Levei os dedos até o lábio inferior, lembrei do peso da mão dela na minha nuca, o jeito como meu corpo inteiro reagiu aos toques dela.
Eu tinha retribuído o beijo. Não recuei. Retribuí com uma vontade tão intensa que isso me assustou mais do que o próprio beijo.
E sabia que aquilo tinha sido a escolha errada. Eu estava ali a trabalho. Alicia representava a Sá Noronha. Havia uma linha entre nós que não tinha nada a ver com desejo e sim com bom senso, e eu tinha acabado de passar por cima dela.
Ainda assim, um sorriso escapou.
Peguei o travesseiro e enfiei o rosto nele pra abafar uma risada que não tinha uma explicação racional.
Fui até a mesa onde a comida esperava, intacta, e destampei as bandejas. O peixe com salada que eu tinha pedido estava ali, ao lado de um copo de suco e, encostada no prato, uma caixinha pequena de chocolates.
Suspirei. Mordi o lábio, ainda sensível, e outro sorriso escapou.
Comi devagar, mastigando mais vezes do que o necessário e olhando a parede que separava o meu quarto do dela. Alicia estava ali, do outro lado, a poucos metros de distância, fazendo sei lá o quê. Se estava tão perturbada quanto eu, se estava se achando imprudente, ou se estava, pior ainda, achando toda aquela situação divertida, se divertindo às minhas custas...
Sacudi a cabeça, tentando espantar o pensamento.
Terminei o jantar, escovei os dentes e tomei o remédio para dor. Deitei com o pé apoiado na almofada e deixei a luz do abajur ainda acesa por mais um tempo.
O último pensamento antes de dormir não foi sobre o beijo. Foi sobre o remédio, a pomada, a caixa de chocolate, o jeito como Alicia tinha subido correndo sem nem ter jantado. Independente de qualquer escolha errada que eu tivesse feito naquele quarto, ainda faltava uma coisa simples que eu não tinha dito.
Agradecer de novo. Direito, dessa vez.
***
No dia seguinte, com o pé ainda um pouco sensível, fiquei no hotel para adiantar o trabalho documental.
Levei os quatro estudantes até o quarto que Alicia tinha reservado para o material. Era um cômodo amplo no térreo, com as caixas de equipamento empilhadas contra a parede e uma mesa redonda.
Sentamos ao redor, cada um com o próprio notebook e o material do dia anterior espalhado em caixas e pastas.
— Professora, isso aqui não fecha — Pedro disse. — O fluxo de embarcações de julho do ano passado está quase o dobro do que consta no laudo antigo.
— O dobro?
— É. Olha. — Ele girou o notebook na minha direção. — O laudo anterior registra uma média de dez a doze saídas por dia na alta temporada. Os dados novos mostram picos de dezessete a vinte e três, em vários dias seguidos daquele mês.
Puxei a cadeira para perto, examinando a planilha.
— Pode ser que isso aconteça mesmo nessa época, ou talvez o relatório anterior não tenha registrado tudo. — Passei o dedo pela coluna de datas. — Julho é época de tainha. Faz sentido ter mais saída de barco.
— Mas o volume de captura também bateu recorde — Isabela acrescentou, puxando outra pasta. — Olha aqui, nos dados que a colônia de pescadores me passou. Tainha e robalo juntos, numa quantidade que os relatórios antigos nunca registraram nessa proporção. Quase o triplo do que constava como média histórica pra março.
— Robalo em março? — Franzi a testa. — O período de defeso já começou.
— Isso mesmo — ela confirmou. — E ainda assim tá aqui, em quantidade grande, registrado como capturado dentro do período normal de pesca.
— Caramba. — Marina olhou por cima do ombro de Pedro. — O dobro de saída de barco, o triplo de captura, e metade disso sendo espécie em reprodução, que deveria estar protegida.
Aquela sensação familiar de desconforto voltou a se instalar em mim
— Isabela, você consegue cruzar isso com os dados de venda? Se o volume vendido bate com o volume de captura declarado, a gente sabe que pelo menos a contabilidade está consistente, mesmo que ilegal. Se não bater, tem mais gente envolvida do que só quem está no barco.
— Consigo. Vou começar agora.
— Faz isso.
Tomás, que tinha ficado quieto conferindo outra planilha, ergueu a cabeça.
— E essa área aqui, perto do manguezal, prof? Tem um trecho que o laudo antigo classifica como de baixa relevância ecológica, mas as fotos que a gente tirou mostram berçário de caranguejo. Bastante caranguejo, inclusive. Mangue, mangue, mangue...— Começou a cantarolar baixinho a música da Nação Zumbi.
— Isso é complicado — falei, segurando um riso. — Se era berçário e constou como irrelevante, alguém classificou errado. De propósito ou não, ainda não sabemos. Vamos ter bastante trabalho hoje revendo isso.
— Teremos mesmo. — Isabela fez uma pausa, olhando pra mim. — Prof Nalú, como é mesmo o nome da ilha do resort embargado?
— Ilha do Sino.
— A gente vai fazer esse trabalho de mapeamento e coleta lá também, né? — Marina perguntou.
— Vamos sim. Com a mudança de hoje no calendário, reagendei o barco para irmos no sábado.
— Professora, por que chama Ilha do Sino? Tem um sino lá? — Tomás perguntou sorrindo.
Sorri e olhei para ele com mais atenção do que a pergunta em si exigia. E, sem decidir conscientemente, deixei por um momento de lado a postura profissional, e deixei vir à tona outra coisa. Algo antigo. A pergunta tocou uma memória de infância, de quando meu avô Manoel me contava histórias de pescadores na varanda.
— Não tem sino lá agora — comecei. — Mas a lenda diz que já teve.
Foi nesse instante que avistei, num relance, Alicia entrando no quarto, de mansinho. Ela parou perto da porta, sem interromper, e eu continuei.
— Há muito tempo. Antes de qualquer um de nós nascer.
Os quatro se aproximaram um pouco, do jeito que as pessoas fazem quando sentem que uma história está prestes a ser contada.
— Tinha uma moça que subia uma torre todas as manhãs pra tocar um sino. Um sino que atravessava a água inteira, como se distância fosse só um mal-entendido que dava pra resolver com um som alto o suficiente. E tinha um pescador apaixonado que voltava guiado por aquele toque, porque confiava mais nele do que nas estrelas e nos faróis.
Minha voz encontrou um ritmo diferente, mais lento. Devia ser o mesmo ritmo que meu avô usava.
— Diziam que ela era filha de um pescador importante da região, e que o sino era dele, trazido de algum lugar distante, pendurado em uma torre pra ela poder tocar para os barcos de pesca. Os dois namoravam escondido, porque o pai dela queria um casamento melhor, com gente de posses, não com um rapaz que só tinha o próprio barco e as próprias mãos.
— Clássico — Isabela murmurou, sorrindo.
— Pois é. — Continuei. — Mas o rapaz apaixonado disse que convenceria o pai dela, dando-lhe a melhor pesca de todas. Ele prometeu pra ela três toques, no dia em que fosse pedir a mão dela ao pai. Três toques pra avisar que o pedido tinha sido feito e aceito.
Baixei a voz sem perceber.
— E numa madrugada, ele saiu pra buscar essa bênção. Atravessou a enseada de barco, sozinho, porque queria pescar muito e chegar até o pôr do sol para conversar com o pai dela sobre o amor entre eles. Mas o mar não deixou.
— Ele morreu? — Tomás perguntou, baixinho.
— Não sei dizer.
— Como assim, não sabe? É você que tá contando a história, prof… — Marina argumentou.
— Estou. Mas quem contou pra mim também não sabia. Só disse que o barco voltou vazio no dia seguinte. Tem perda que não cabe em frase nenhuma, Marina. Nem numa lenda contada há gerações.
Ela assentiu devagar.
— Faz sentido — Isabela murmurou.
— Mas a moça... ela subiu a torre de novo — continuei. — E tocou o sino. Três vezes. Naquela noite, e em todas as outras depois. Como se repetir pudesse desfazer o que já tinha sido feito.
Dizem que ela subiu até ficar velha, até as pernas não aguentarem mais a escada, e que só parou quando morreu.
Senti passos leves. Alicia tinha se aproximado, e agora estava de pé atrás do grupo. Os alunos deram uma olhada rápida para ela, mas voltaram a atenção para mim sem quebrar o fio da história.
Havia algo no olhar de Alicia que me prendia.
— E os navegantes começaram a ouvir o sino em algumas noites — falei, com os olhos fixos nela. — Sem fonte. Sem sineiro. Só o som, vindo da ilha, como se alguém continuasse tocando mesmo sem ninguém mais ali pra tocar.
— E batizaram o lugar do único jeito que fazia sentido — completei.
— Ilha do Sino — Alicia disse, antes que eu pudesse terminar.
— Ilha do Sino — confirmei, e cravei os olhos nela.
— Talvez nunca tenha existido um sino de verdade lá — continuei, ainda sem desviar de Alicia. — Mas dizem que quem quiser pode ouvir, se prestar atenção. Dizem que ainda toca. Pra quem sabe escutar.
Alicia não disse nada. Só ficou ali, os lábios entreabertos como se quisesse me dizer algo e tivesse decidido, no último instante, guardar o assunto pra depois.
— Ou é zumbido no ouvido dos navegantes — Tomás disse, quebrando o clima. — Ficar muito tempo no mar dá nisso, sabe. Zumbido, visão embaçada...
— Tomás! — Isabela deu um tapa de leve no braço dele. — Estraga tudo mesmo, hein.
— O quê? Eu só tô dando uma explicação científica.
Todos riram. Alicia também, mais baixo. Ela continuou me olhando por cima da risada geral, e eu segurei o olhar dela por um tempo antes de desviar.
— Não vim atrapalhar — Alicia disse, já mais perto da mesa. — Só queria avisar que o almoço já está sendo servido no restaurante, caso vocês queiram dar um tempo.
Pensei rápido. Se a gente parasse agora, com o clima daquele jeito, ia ser difícil voltar ao trabalho depois.
— Vamos terminar de organizar esses dados primeiro e almoçamos mais tarde.
— Mais tarde então — ela repetiu, sem discordar.
Os estudantes voltaram a atenção para os notebooks, a conversa foi se dissolvendo em comentários soltos sobre planilhas e fórmulas. Alicia ficou ali por mais um instante, olhando o chão antes de perguntar:
— E o pé? Como está?
— Melhor. — Mexi o tornozelo de leve, só pra mostrar. — Não lembro se te agradeci ontem, então muito obrigada. Pelo creme. Pelo remédio.
— Não foi nada. — Ela me lançou um sorriso breve antes de se virar.
Fiquei ali, olhando a porta, com uma vontade enorme de ter dito mais alguma coisa. Não sabia bem o quê. Só sabia que tinha ficado alguma coisa presa na garganta, atravessada.
***
Terminamos de organizar os dados um pouco antes da uma e meia, e o estômago de todo mundo já reclamava havia tempo. Descemos para o restaurante em fila, os estudantes discutindo entre si se o buffet ia ter o mesmo risoto do dia anterior.
Encontrei Luiz perto das geladeiras de bebidas, carregando uma bandeja de copos vazios.
— Luiz.
Ele parou e o sorriso de reconhecimento foi surgindo.
— O seu Dito ainda pesca?
— Pesca, sim. Nunca parou. — Ajeitou a bandeja no quadril. — Mesmo com a idade, sai quase todo dia. Diz que só vai parar quando o corpo mandar.
— E o que ele anda pegando agora? Faz tempo que eu não acompanho a temporada direito.
— Ah, o de sempre. Tainha, papa-terra, camarão. — Ele deu de ombros, rápido demais. — Por que a pergunta?
— Curiosidade. Saudade de conversar sobre pesca com alguém que entende.
Ele riu.
— Vou dizer pra ele que você perguntou. Ele vai gostar.
Foi embora antes que eu conseguisse continuar a conversa. Fiquei olhando as costas dele sumirem na direção da cozinha. Tinha alguma coisa acontecendo, e provavelmente Luiz sabia o que era.
Sentamos em uma mesa redonda perto da janela. Os pratos foram se enchendo. Peixe grelhado, arroz, uma salada de rúcula e palmito que Marina elogiou sem parar.
Quando o garçom colocou o prato na minha frente, reconheci o peixe.
Robalo.
Fiquei encarando o prato por um tempo.
— Alguma coisa errada? — Alicia perguntou, se aproximando e sentando à mesa, notando a minha pausa.
— Não, só... — Cortei um pedaço pequeno. — Robalo não é um peixe deste mês. O período de defeso começou há duas semanas. E pelos dados que acabamos de analisar, estão pescando e ninguém deveria fazer isso agora.
— Mas os aqui do restaurante podem ser de criação, né? — Isabela sugeriu.
— Podem. — Virei o olhar para Alicia. — Você sabe de onde vem o estoque do restaurante?
Ela baixou o olhar para o meu prato antes de responder, o interesse dela foi mudando, ficando mais atento e calculado.
— Quem cuida disso é o chef Renato. Imagino que ele trabalhe com os melhores fornecedores e sempre dentro da legalidade. Isso é grave? — ela perguntou, depois de um instante.
— Dependendo da origem, sim. Pesca em período de defeso é crime ambiental. E se tiver fornecedor comprando peixe fora de época pra vender pra um hotel, isso é maior do que um pescador furando regra sozinho.
Ela ficou calada por um instante, os olhos ainda no meu prato.
— Sabe o que isso pode significar, se for verdade? — disse, por fim, voltando a olhar para mim.
— Que alguém está cometendo crime ambiental numa área que já está sob pressão.
— Isso também. — Ela se inclinou um pouco para frente, o tom ficando mais empolgado. — Mas pensa comigo. Se os próprios pescadores da comunidade estão descumprindo a lei, pescando fora de período, isso muda a narrativa inteira do caso.
Larguei o garfo.
— Muda como?
— O promotor vai olhar com outros olhos pro lado da empresa. — Ela continuou. — Pode até relevar a falta de um acordo formal com a comunidade pesqueira, já que a própria comunidade não estaria exatamente cumprindo a lei.
— Você não pode estar falando sério.
— Estou falando estrategicamente.
— Você quer usar uma informação sobre pesca ilegal, que a gente nem confirmou ainda, pra enfraquecer a posição da comunidade que já está sendo atropelada pelo projeto de vocês, Alicia?
— Eu quero resolver um embargo que está me custando uma fortuna por dia, Nalú. — A voz dela não baixou, e isso me irritou ainda mais. — Não estou inventando nada. Se eles estiverem pescando fora de época, isso é fato. Eu só estou pensando em como usar os fatos a meu favor.
Senti o sangue subir, quente, rápido, e não fiz esforço nenhum para disfarçar.
— Fatos não existem soltos. Eles têm contexto. E o contexto aqui é que essas famílias vivem da pesca há gerações, enquanto o resort de vocês fecha um trato com o governo pra construir em cima do que sobrou de recurso natural. Comparar as duas coisas como se fossem equivalentes é...
— Nalú.
— ...é desonesto.
A mesa tinha ficado em silêncio. Por um momento, esqueci dos estudantes ali. Pedro olhava para o próprio prato com uma atenção desproporcional. Marina e Isabela trocaram aquele olhar de sempre, mas dessa vez sem nenhuma graça nele. Tomás tinha um brilho nos olhos, como quem está torcendo abertamente pelo lado da briga.
Respirei fundo, sentindo os olhos deles em mim.
— Desculpa. — Baixei a voz, mas não a firmeza. — Não devia ter dito isso na frente de vocês. É uma discussão que a gente nem devia estar tendo aqui, porque ninguém tem, até agora, prova nenhuma de quem está cometendo a pesca ilegal. Eu tenho uma suspeita, baseada num peixe fora de época. Isso não é fato nenhum ainda.
Olhei para Alicia.
— E até virar fato, ninguém aqui vai usar isso como munição. Pra nenhum lado.
Ela segurou meu olhar, e vi alguma coisa entre irritação e decepção passando pelo rosto dela.
— Peço licença a vocês. Tenho muito trabalho hoje. — disse, por fim, e se levantou, afastando-se da nossa mesa.
Ninguém mais falou no assunto durante o restante do almoço. Mas o silêncio que ficou não era o silêncio de assunto encerrado. Era o silêncio de assunto adiado, e eu sabia que aquilo ia voltar.
***
Não vi mais Alicia em nenhum momento daquele dia. À noite, já deitada, com o notebook aberto e o pé finalmente sem dor nenhuma, abri meu e-mail.
Havia um e-mail novo da Alicia, enviado fazia menos de uma hora, com o assunto "Equipamentos - confirmação".
Abri.
Ela escrevia que tinha fechado com a empresa de logística o envio do material que estava faltando, e que a entrega estava confirmada para amanhã de manhã no cais. No corpo do e-mail, copiada, havia uma mensagem da própria empresa, formal, assinada no rodapé.
Janaína Ferraz — Consultora Técnica de Equipamentos Ambientais.
Fiquei olhando o nome na tela.
O destino só podia estar me pregando alguma peça.
Quando Alicia saiu, fiquei parada no meio do quarto. Minha boca ainda formigava. Levei os dedos até o lábio inferior, lembrei do peso da mão dela na minha nuca, o jeito como meu corpo inteiro reagiu aos toques dela.
Eu tinha retribuído o beijo. Não recuei. Retribuí com uma vontade tão intensa que isso me assustou mais do que o próprio beijo.
E sabia que aquilo tinha sido a escolha errada. Eu estava ali a trabalho. Alicia representava a Sá Noronha. Havia uma linha entre nós que não tinha nada a ver com desejo e sim com bom senso, e eu tinha acabado de passar por cima dela.
Ainda assim, um sorriso escapou.
Peguei o travesseiro e enfiei o rosto nele pra abafar uma risada que não tinha uma explicação racional.
Fui até a mesa onde a comida esperava, intacta, e destampei as bandejas. O peixe com salada que eu tinha pedido estava ali, ao lado de um copo de suco e, encostada no prato, uma caixinha pequena de chocolates.
Suspirei. Mordi o lábio, ainda sensível, e outro sorriso escapou.
Comi devagar, mastigando mais vezes do que o necessário e olhando a parede que separava o meu quarto do dela. Alicia estava ali, do outro lado, a poucos metros de distância, fazendo sei lá o quê. Se estava tão perturbada quanto eu, se estava se achando imprudente, ou se estava, pior ainda, achando toda aquela situação divertida, se divertindo às minhas custas...
Sacudi a cabeça, tentando espantar o pensamento.
Terminei o jantar, escovei os dentes e tomei o remédio para dor. Deitei com o pé apoiado na almofada e deixei a luz do abajur ainda acesa por mais um tempo.
O último pensamento antes de dormir não foi sobre o beijo. Foi sobre o remédio, a pomada, a caixa de chocolate, o jeito como Alicia tinha subido correndo sem nem ter jantado. Independente de qualquer escolha errada que eu tivesse feito naquele quarto, ainda faltava uma coisa simples que eu não tinha dito.
Agradecer de novo. Direito, dessa vez.
***
No dia seguinte, com o pé ainda um pouco sensível, fiquei no hotel para adiantar o trabalho documental.
Levei os quatro estudantes até o quarto que Alicia tinha reservado para o material. Era um cômodo amplo no térreo, com as caixas de equipamento empilhadas contra a parede e uma mesa redonda.
Sentamos ao redor, cada um com o próprio notebook e o material do dia anterior espalhado em caixas e pastas.
— Professora, isso aqui não fecha — Pedro disse. — O fluxo de embarcações de julho do ano passado está quase o dobro do que consta no laudo antigo.
— O dobro?
— É. Olha. — Ele girou o notebook na minha direção. — O laudo anterior registra uma média de dez a doze saídas por dia na alta temporada. Os dados novos mostram picos de dezessete a vinte e três, em vários dias seguidos daquele mês.
Puxei a cadeira para perto, examinando a planilha.
— Pode ser que isso aconteça mesmo nessa época, ou talvez o relatório anterior não tenha registrado tudo. — Passei o dedo pela coluna de datas. — Julho é época de tainha. Faz sentido ter mais saída de barco.
— Mas o volume de captura também bateu recorde — Isabela acrescentou, puxando outra pasta. — Olha aqui, nos dados que a colônia de pescadores me passou. Tainha e robalo juntos, numa quantidade que os relatórios antigos nunca registraram nessa proporção. Quase o triplo do que constava como média histórica pra março.
— Robalo em março? — Franzi a testa. — O período de defeso já começou.
— Isso mesmo — ela confirmou. — E ainda assim tá aqui, em quantidade grande, registrado como capturado dentro do período normal de pesca.
— Caramba. — Marina olhou por cima do ombro de Pedro. — O dobro de saída de barco, o triplo de captura, e metade disso sendo espécie em reprodução, que deveria estar protegida.
Aquela sensação familiar de desconforto voltou a se instalar em mim
— Isabela, você consegue cruzar isso com os dados de venda? Se o volume vendido bate com o volume de captura declarado, a gente sabe que pelo menos a contabilidade está consistente, mesmo que ilegal. Se não bater, tem mais gente envolvida do que só quem está no barco.
— Consigo. Vou começar agora.
— Faz isso.
Tomás, que tinha ficado quieto conferindo outra planilha, ergueu a cabeça.
— E essa área aqui, perto do manguezal, prof? Tem um trecho que o laudo antigo classifica como de baixa relevância ecológica, mas as fotos que a gente tirou mostram berçário de caranguejo. Bastante caranguejo, inclusive. Mangue, mangue, mangue...— Começou a cantarolar baixinho a música da Nação Zumbi.
— Isso é complicado — falei, segurando um riso. — Se era berçário e constou como irrelevante, alguém classificou errado. De propósito ou não, ainda não sabemos. Vamos ter bastante trabalho hoje revendo isso.
— Teremos mesmo. — Isabela fez uma pausa, olhando pra mim. — Prof Nalú, como é mesmo o nome da ilha do resort embargado?
— Ilha do Sino.
— A gente vai fazer esse trabalho de mapeamento e coleta lá também, né? — Marina perguntou.
— Vamos sim. Com a mudança de hoje no calendário, reagendei o barco para irmos no sábado.
— Professora, por que chama Ilha do Sino? Tem um sino lá? — Tomás perguntou sorrindo.
Sorri e olhei para ele com mais atenção do que a pergunta em si exigia. E, sem decidir conscientemente, deixei por um momento de lado a postura profissional, e deixei vir à tona outra coisa. Algo antigo. A pergunta tocou uma memória de infância, de quando meu avô Manoel me contava histórias de pescadores na varanda.
— Não tem sino lá agora — comecei. — Mas a lenda diz que já teve.
Foi nesse instante que avistei, num relance, Alicia entrando no quarto, de mansinho. Ela parou perto da porta, sem interromper, e eu continuei.
— Há muito tempo. Antes de qualquer um de nós nascer.
Os quatro se aproximaram um pouco, do jeito que as pessoas fazem quando sentem que uma história está prestes a ser contada.
— Tinha uma moça que subia uma torre todas as manhãs pra tocar um sino. Um sino que atravessava a água inteira, como se distância fosse só um mal-entendido que dava pra resolver com um som alto o suficiente. E tinha um pescador apaixonado que voltava guiado por aquele toque, porque confiava mais nele do que nas estrelas e nos faróis.
Minha voz encontrou um ritmo diferente, mais lento. Devia ser o mesmo ritmo que meu avô usava.
— Diziam que ela era filha de um pescador importante da região, e que o sino era dele, trazido de algum lugar distante, pendurado em uma torre pra ela poder tocar para os barcos de pesca. Os dois namoravam escondido, porque o pai dela queria um casamento melhor, com gente de posses, não com um rapaz que só tinha o próprio barco e as próprias mãos.
— Clássico — Isabela murmurou, sorrindo.
— Pois é. — Continuei. — Mas o rapaz apaixonado disse que convenceria o pai dela, dando-lhe a melhor pesca de todas. Ele prometeu pra ela três toques, no dia em que fosse pedir a mão dela ao pai. Três toques pra avisar que o pedido tinha sido feito e aceito.
Baixei a voz sem perceber.
— E numa madrugada, ele saiu pra buscar essa bênção. Atravessou a enseada de barco, sozinho, porque queria pescar muito e chegar até o pôr do sol para conversar com o pai dela sobre o amor entre eles. Mas o mar não deixou.
— Ele morreu? — Tomás perguntou, baixinho.
— Não sei dizer.
— Como assim, não sabe? É você que tá contando a história, prof… — Marina argumentou.
— Estou. Mas quem contou pra mim também não sabia. Só disse que o barco voltou vazio no dia seguinte. Tem perda que não cabe em frase nenhuma, Marina. Nem numa lenda contada há gerações.
Ela assentiu devagar.
— Faz sentido — Isabela murmurou.
— Mas a moça... ela subiu a torre de novo — continuei. — E tocou o sino. Três vezes. Naquela noite, e em todas as outras depois. Como se repetir pudesse desfazer o que já tinha sido feito.
Dizem que ela subiu até ficar velha, até as pernas não aguentarem mais a escada, e que só parou quando morreu.
Senti passos leves. Alicia tinha se aproximado, e agora estava de pé atrás do grupo. Os alunos deram uma olhada rápida para ela, mas voltaram a atenção para mim sem quebrar o fio da história.
Havia algo no olhar de Alicia que me prendia.
— E os navegantes começaram a ouvir o sino em algumas noites — falei, com os olhos fixos nela. — Sem fonte. Sem sineiro. Só o som, vindo da ilha, como se alguém continuasse tocando mesmo sem ninguém mais ali pra tocar.
— E batizaram o lugar do único jeito que fazia sentido — completei.
— Ilha do Sino — Alicia disse, antes que eu pudesse terminar.
— Ilha do Sino — confirmei, e cravei os olhos nela.
— Talvez nunca tenha existido um sino de verdade lá — continuei, ainda sem desviar de Alicia. — Mas dizem que quem quiser pode ouvir, se prestar atenção. Dizem que ainda toca. Pra quem sabe escutar.
Alicia não disse nada. Só ficou ali, os lábios entreabertos como se quisesse me dizer algo e tivesse decidido, no último instante, guardar o assunto pra depois.
— Ou é zumbido no ouvido dos navegantes — Tomás disse, quebrando o clima. — Ficar muito tempo no mar dá nisso, sabe. Zumbido, visão embaçada...
— Tomás! — Isabela deu um tapa de leve no braço dele. — Estraga tudo mesmo, hein.
— O quê? Eu só tô dando uma explicação científica.
Todos riram. Alicia também, mais baixo. Ela continuou me olhando por cima da risada geral, e eu segurei o olhar dela por um tempo antes de desviar.
— Não vim atrapalhar — Alicia disse, já mais perto da mesa. — Só queria avisar que o almoço já está sendo servido no restaurante, caso vocês queiram dar um tempo.
Pensei rápido. Se a gente parasse agora, com o clima daquele jeito, ia ser difícil voltar ao trabalho depois.
— Vamos terminar de organizar esses dados primeiro e almoçamos mais tarde.
— Mais tarde então — ela repetiu, sem discordar.
Os estudantes voltaram a atenção para os notebooks, a conversa foi se dissolvendo em comentários soltos sobre planilhas e fórmulas. Alicia ficou ali por mais um instante, olhando o chão antes de perguntar:
— E o pé? Como está?
— Melhor. — Mexi o tornozelo de leve, só pra mostrar. — Não lembro se te agradeci ontem, então muito obrigada. Pelo creme. Pelo remédio.
— Não foi nada. — Ela me lançou um sorriso breve antes de se virar.
Fiquei ali, olhando a porta, com uma vontade enorme de ter dito mais alguma coisa. Não sabia bem o quê. Só sabia que tinha ficado alguma coisa presa na garganta, atravessada.
***
Terminamos de organizar os dados um pouco antes da uma e meia, e o estômago de todo mundo já reclamava havia tempo. Descemos para o restaurante em fila, os estudantes discutindo entre si se o buffet ia ter o mesmo risoto do dia anterior.
Encontrei Luiz perto das geladeiras de bebidas, carregando uma bandeja de copos vazios.
— Luiz.
Ele parou e o sorriso de reconhecimento foi surgindo.
— O seu Dito ainda pesca?
— Pesca, sim. Nunca parou. — Ajeitou a bandeja no quadril. — Mesmo com a idade, sai quase todo dia. Diz que só vai parar quando o corpo mandar.
— E o que ele anda pegando agora? Faz tempo que eu não acompanho a temporada direito.
— Ah, o de sempre. Tainha, papa-terra, camarão. — Ele deu de ombros, rápido demais. — Por que a pergunta?
— Curiosidade. Saudade de conversar sobre pesca com alguém que entende.
Ele riu.
— Vou dizer pra ele que você perguntou. Ele vai gostar.
Foi embora antes que eu conseguisse continuar a conversa. Fiquei olhando as costas dele sumirem na direção da cozinha. Tinha alguma coisa acontecendo, e provavelmente Luiz sabia o que era.
Sentamos em uma mesa redonda perto da janela. Os pratos foram se enchendo. Peixe grelhado, arroz, uma salada de rúcula e palmito que Marina elogiou sem parar.
Quando o garçom colocou o prato na minha frente, reconheci o peixe.
Robalo.
Fiquei encarando o prato por um tempo.
— Alguma coisa errada? — Alicia perguntou, se aproximando e sentando à mesa, notando a minha pausa.
— Não, só... — Cortei um pedaço pequeno. — Robalo não é um peixe deste mês. O período de defeso começou há duas semanas. E pelos dados que acabamos de analisar, estão pescando e ninguém deveria fazer isso agora.
— Mas os aqui do restaurante podem ser de criação, né? — Isabela sugeriu.
— Podem. — Virei o olhar para Alicia. — Você sabe de onde vem o estoque do restaurante?
Ela baixou o olhar para o meu prato antes de responder, o interesse dela foi mudando, ficando mais atento e calculado.
— Quem cuida disso é o chef Renato. Imagino que ele trabalhe com os melhores fornecedores e sempre dentro da legalidade. Isso é grave? — ela perguntou, depois de um instante.
— Dependendo da origem, sim. Pesca em período de defeso é crime ambiental. E se tiver fornecedor comprando peixe fora de época pra vender pra um hotel, isso é maior do que um pescador furando regra sozinho.
Ela ficou calada por um instante, os olhos ainda no meu prato.
— Sabe o que isso pode significar, se for verdade? — disse, por fim, voltando a olhar para mim.
— Que alguém está cometendo crime ambiental numa área que já está sob pressão.
— Isso também. — Ela se inclinou um pouco para frente, o tom ficando mais empolgado. — Mas pensa comigo. Se os próprios pescadores da comunidade estão descumprindo a lei, pescando fora de período, isso muda a narrativa inteira do caso.
Larguei o garfo.
— Muda como?
— O promotor vai olhar com outros olhos pro lado da empresa. — Ela continuou. — Pode até relevar a falta de um acordo formal com a comunidade pesqueira, já que a própria comunidade não estaria exatamente cumprindo a lei.
— Você não pode estar falando sério.
— Estou falando estrategicamente.
— Você quer usar uma informação sobre pesca ilegal, que a gente nem confirmou ainda, pra enfraquecer a posição da comunidade que já está sendo atropelada pelo projeto de vocês, Alicia?
— Eu quero resolver um embargo que está me custando uma fortuna por dia, Nalú. — A voz dela não baixou, e isso me irritou ainda mais. — Não estou inventando nada. Se eles estiverem pescando fora de época, isso é fato. Eu só estou pensando em como usar os fatos a meu favor.
Senti o sangue subir, quente, rápido, e não fiz esforço nenhum para disfarçar.
— Fatos não existem soltos. Eles têm contexto. E o contexto aqui é que essas famílias vivem da pesca há gerações, enquanto o resort de vocês fecha um trato com o governo pra construir em cima do que sobrou de recurso natural. Comparar as duas coisas como se fossem equivalentes é...
— Nalú.
— ...é desonesto.
A mesa tinha ficado em silêncio. Por um momento, esqueci dos estudantes ali. Pedro olhava para o próprio prato com uma atenção desproporcional. Marina e Isabela trocaram aquele olhar de sempre, mas dessa vez sem nenhuma graça nele. Tomás tinha um brilho nos olhos, como quem está torcendo abertamente pelo lado da briga.
Respirei fundo, sentindo os olhos deles em mim.
— Desculpa. — Baixei a voz, mas não a firmeza. — Não devia ter dito isso na frente de vocês. É uma discussão que a gente nem devia estar tendo aqui, porque ninguém tem, até agora, prova nenhuma de quem está cometendo a pesca ilegal. Eu tenho uma suspeita, baseada num peixe fora de época. Isso não é fato nenhum ainda.
Olhei para Alicia.
— E até virar fato, ninguém aqui vai usar isso como munição. Pra nenhum lado.
Ela segurou meu olhar, e vi alguma coisa entre irritação e decepção passando pelo rosto dela.
— Peço licença a vocês. Tenho muito trabalho hoje. — disse, por fim, e se levantou, afastando-se da nossa mesa.
Ninguém mais falou no assunto durante o restante do almoço. Mas o silêncio que ficou não era o silêncio de assunto encerrado. Era o silêncio de assunto adiado, e eu sabia que aquilo ia voltar.
***
Não vi mais Alicia em nenhum momento daquele dia. À noite, já deitada, com o notebook aberto e o pé finalmente sem dor nenhuma, abri meu e-mail.
Havia um e-mail novo da Alicia, enviado fazia menos de uma hora, com o assunto "Equipamentos - confirmação".
Abri.
Ela escrevia que tinha fechado com a empresa de logística o envio do material que estava faltando, e que a entrega estava confirmada para amanhã de manhã no cais. No corpo do e-mail, copiada, havia uma mensagem da própria empresa, formal, assinada no rodapé.
Janaína Ferraz — Consultora Técnica de Equipamentos Ambientais.
Fiquei olhando o nome na tela.
O destino só podia estar me pregando alguma peça.
Fim do capítulo

Dessinha
15/10/2026 às 18:39
Sobre a história, maravilhosa, óbvio.