Por Alicia:
Encontrei Nalú e os estudantes saindo pela porta de vidro da recepção quando desci até o saguão. Ela tinha um boné branco puxado quase até as sobrancelhas e a bolsa de equipamento pendurada em um ombro só. Os quatro alunos já estavam espalhados pela calçada, discutindo alguma coisa sobre a van com Joaquim. Trocamos um aceno rápido de cabeça. Nada mais. Ali não havia nem tempo, nem espaço para mais nada.
Eu ia pra Ilha do Sino dar andamento à fase de marketing do Projeto Poente. A equipe contratada já esperava no cais, e o dia inteiro seria dedicado às fotos dos bangalôs. Junto com a sensação estranha e incômoda do desencontro, veio um alívio que não fazia sentido nenhum. Eu ia vê-la de novo à noite, no jantar, como já tínhamos combinado.
Só isso já bastou pra me deixar com uma disposição ridícula para aquele horário da manhã.
Segui para o carro tentando não sorrir sozinha, o que só piorou as coisas. Porque reparar que eu estava tentando não sorrir era, de certo modo, a prova de que eu já tinha perdido.
Nalú tinha ocupado um espaço enorme do meu tempo e dos meus pensamentos nos últimos dias, e eu sabia reconhecer atração quando ela aparecia. Isso nunca tinha sido um problema pra mim. O problema era a intensidade. Isso, sim, era novo. E se eu não tomasse cuidado, ia parar de ser um segredo só meu.
***
Fui até o cais com dois funcionários, e de lá embarcamos pra ilha. A equipe era composta por um fotógrafo, dois modelos, uma assistente e mais dois rapazes carregando as caixa, mas trouxemos materiais suficientes para encher um barco pequeno. Um dos bangalôs seria decorado com frutas, champanhe, vinho, cestas montadas especialmente para casais, pétalas secas espalhadas e velas.
As fotos precisavam mostrar exatamente aquilo que o resort prometia: luxo e conforto. Uma ilha privativa devia parecer um convite irrecusável. Quem olhasse aquelas fotos tinha que sentir vontade, não só interesse.
Pensei no embargo enquanto o barco cortava a água, e uma ponta de amargura me atravessou. Aquilo precisava ser resolvido logo. As instalações estavam prontas, os móveis todos no lugar, a decoração fechada até o último detalhe. Faltava só o papel. O alvará de funcionamento, parado na gaveta de algum juiz, esperando uma assinatura que ninguém parecia com pressa de dar.
Dinheiro parado não rende. Ouvi a voz do meu pai dizer isso tantas vezes que já nem sabia se o pensamento era meu ou dele.
Ao chegarmos, me deparei com um cenário de natureza quase intocada. O tipo de paisagem que faz qualquer pessoa esquecer, por um segundo, o motivo profissional de estar ali. O ensaio ocupou a manhã inteira. Escolhi o bangalô três para as fotos. Os modelos se acomodaram nas poltronas de vime trançado, estofado branco, de frente para o mar, enquanto o fotógrafo ajustava o ângulo, pedindo que inclinassem o corpo, cruzassem as pernas de um jeito, depois de outro, olhassem para a câmera, depois para o horizonte. Os funcionários ajudavam com a decoração do cenário e com a luz, movendo refletores de um lado para o outro. Um deles me mostrou onde ficava o registro geral de energia, caso alguma coisa desarmasse durante a sessão da tarde.
Seguimos até o fim do entardecer. Quando a luz dourada começou a descer sobre os bangalôs, presenciei um dos pores do sol mais bonitos que já vi. E, mesmo cercada de champanhe, pétalas e um cenário construído para parecer perfeito, senti uma falta que não conseguia justificar direito. Alguma coisa continuava incompleta ali.
A viagem de volta durou a hora e meia de sempre, o barco cortando a água já escura e o motor abafando qualquer vontade de conversa.
***
No hotel, tomei banho e pensei que Nalú já devia estar no restaurante, provavelmente puxando conversa com algum dos estudantes. Um sorriso me escapou embaixo do chuveiro.
Estava curiosa sobre os dois dias de trabalho. Realmente curiosa, porque aquilo também era do meu interesse. Mas, acima disso, estava ansiosa para vê-la. Só isso. Ver, falar, dividir uma mesa de novo.
Vesti um conjunto de linho off-white, camiseta e calça, e desci pelo corredor. Todas as portas estavam fechadas. Nenhum som saindo de nenhuma delas.
No restaurante, encontrei os quatro estudantes já reunidos em uma mesa, jantando e conversando baixo. Olhei em volta. Nalú não estava ali.
Me aproximei, já meio decepcionada, tentando não deixar transparecer.
— Boa noite! Tudo bem com vocês?
— Tudo bem — Pedro respondeu, e os outros acenaram com a cabeça.
Ficamos ali por um segundo, ninguém dizendo mais nada, até eu finalmente perguntar o que não saía da minha cabeça desde que entrei no salão.
— E a professora de vocês? Decidiu não jantar hoje? — Tentei um tom leve, de brincadeira, para amenizar meu próprio interesse.
— Na verdade, depois do que aconteceu, ela decidiu jantar no quarto e descansar — Tomás disse.
Deixei o resto do constrangimento de lado.
— O que houve?
Eles se entreolharam. Foi Isabela quem respondeu.
— A prof Nalú torceu o pé.
— Como assim? Ela se machucou?
— Ela está bem — Marina disse, rápido. — Não precisou de médico. O pé só ficou um pouco inchado.
Ainda assim, os quatro continuavam trocando aquele olhar estranho entre si, do tipo que esconde alguma coisa que ninguém quer contar primeiro.
— Vou verificar se ela pediu algo pra jantar — falei, já me afastando.
Fui até a cozinha. Falei com Luiz sobre os pedidos de hóspedes para os quartos, e ele me disse que, até aquele momento, não tinha recebido nenhum pedido.
Saí de lá sem saber direito o que fazer, e simplesmente segui para o elevador.
Não apertei botão nenhum no elevador e decidi falar com o gerente.
— Boa noite, Guilherme! Um dos hospedes teve uma torção no pé. Nós temos algum kit de primeiros socorros aqui? Um creme anestésico ou qualquer coisa neste sentido? — perguntei, com uma certa ansiedade na voz.
— Temos sim, mas a senhora quer que eu também chame um médico pra dar uma olhada? — o gerente perguntou, já pegando o telefone.
— Não precisa. Só a caixa e o creme está ótimo, por enquanto.
— Vou mandar separar. Cinco minutos, senhora Alicia.
Esperei ali mesmo, sem me sentar, batendo o pé sem perceber que estava fazendo isso. Quando a caixa chegou, peguei e segui direto para o terceiro andar.
***
Hesitei na porta do 307 por um tempo. Toquei a campainha antes de mudar de ideia.
Nalú abriu a porta. Estava de pijama. Um conjunto americano branco, short e camiseta, o cabelo ainda molhado do banho. O cheiro de flor que ela emanava chegou antes de qualquer coisa que ela pudesse dizer.
— Alicia?
— Os estudantes comentaram que você se machucou. — Mostrei a maleta. — Está tudo bem?
— Que exagero da parte deles. Está tudo bem, sim. Você não precisava...
— Nalú, eu já estou aqui, e tem uma pomada que me garantiram ser milagrosa. Vamos pelo menos passar ela, e depois te deixo descansar. Pode ser?
Ela olhou para mim por um segundo, e alguma coisa no rosto dela desistiu de começar qualquer discussão.
— Pode. — Disse, me dando espaço para entrar.
Aquele quarto também era meu. Na verdade, sei lá de quem era. Naquele momento era dela, o jeito como a mala ficava em um canto, o notebook fechado em cima da cômoda, a luz do abajur mais amarela do que a do meu quarto.
Nalú andou até a cama num ritmo lento, provavelmente por causa da dor, e sentou na beira. O short subiu um pouco, revelando mais das coxas bronzeadas do que eu tinha visto até então. Tentei focar de novo no motivo real de eu estar ali.
— Você já jantou? — perguntei, me aproximando.
— Ainda não.
Nossos olhares se encontraram, e ficaram ali, presos um no outro.
— Vamos pedir algo? — sugeri.
— Podemos pedir, mas, Alicia... estou achando um exagero tudo isso. Comentei com os meninos que só precisava ficar deitada com a perna pra cima, e que amanhã estaria novinha em folha. Não foi nada tão grave assim.
— Mesmo assim. — Deixei a caixa em uma cadeira perto da cama e comecei a abrir. — Você precisa comer algo. Olha aqui. — Peguei meu celular, abri o aplicativo com o cardápio do restaurante e entreguei para ela. — Pede algo pra você e um risoto de legumes pra mim, por favor.
— Você não jantou?
— Não. Soube do que aconteceu e vim direto pra cá.
— Ai, Alicia... estou envergonhada ao extremo agora. Não precisava disso tudo. — Ela se ajeitou na cama, fazendo menção de levantar.
Fiz um gesto com a mão.
— Fica aí. Pede seu jantar, e eu vou ver essa tal pomada milagrosa.
Ela me deu uma última olhada antes de voltar a atenção pro celular. Enquanto isso, peguei a pomada e fiquei alternando meu olhar entre ela e Nalú, sem disfarçar muito bem.
Absurdamente linda. Os traços dela eram ao mesmo tempo expressivos e delicados. Os olhos verdes, a pele bronzeada, o jeito como o cabelo molhado caía nos ombros. Tudo ali me chamava, me atraía.
— Pronto — ela disse, estendendo meu celular de volta.
Peguei o aparelho, e nossos dedos se tocaram no meio do gesto. Acrescentei mais um item ao pedido antes de finalizar, e coloquei na observação: entregar no quarto 307.
Coloquei uma almofada da poltrona no chão e me sentei nela, de frente pra Nalú, que continuava na cama.
— Foi este tornozelo que você machucou? — perguntei, abrindo a pomada enquanto apontava para o pé esquerdo, que tinha uma vermelhidão pequena na altura do osso.
— Sim, mas você não preci...
Ela não conseguiu terminar a frase, porque eu já estava passando a pomada do pé em direção ao tornozelo. Um cheiro mentolado subiu no ar entre a gente. O toque das minhas mãos na pele dela fez meu corpo tremer, de leve. Onde já se viu isso. Tremer encostando na pele de alguém.
Massageei o pé dela devagar, e vi os olhos verdes escurecerem. Ela mantinha os olhos cravados nos meus, e por um instante nenhuma das duas disse nada. Me perguntei se ela sentia o mesmo que eu sentia ali, ajoelhada naquele chão de hotel com as mãos na pele dela.
— Eu agradeço — Nalú disse, baixinho, quando meu toque parou.
Minha mão continuava sobre a pele dela.
— Está doendo?
— Um pouco. Bem pouco mesmo. — Ela afastou o pé devagar e se levantou.
Me levantei também. Ficamos de frente uma para outra.
— Agradeço por ter vindo. E ter trazido o creme... e ter passado o creme... — Ela desviou o olhar antes de terminar. — Provavelmente você quer atualizações?
— Atualizações? — perguntei, confusa, o clima de antes sendo quebrado de repente.
— Do trabalho de campo. Conforme combinamos ontem. De jantar e falar sobre esses dois primeiros dias. — Ela foi até a cômoda, na direção do notebook.
— Ah. Sim. O que combinamos. — Balancei a cabeça, tentando recompor meu raciocínio. — Mas não precisa ser agora. Descansa. Tem um remédio pra dor aqui também. — Apontei pra caixa. — Mas acho melhor tomar depois de comer.
Nalú se virou para mim.
— Eu não me importo de te repassar tudo. Acho até bom. Assim durmo com a cabeça mais leve também.
— Tem certeza?
— Absoluta. — Ela sorriu, pegando o remédio e deixando-o sobre a cômoda. — Mas acho que o ideal é eu ficar sentada na cama com o pé pra cima. Você pode sentar aí, se quiser.
— Claro. Pode ser. — Fiquei parada um segundo. — Vou só lavar as mãos.
Enquanto lavava as mãos no banheiro, ouvi ela se ajeitando na cama. O som do notebook sendo aberto, dos travesseiros sendo arrumados contra a cabeceira. Quando voltei, ela já estava sentada, uma almofada grande sustentando o pé machucado.
Sentei do outro lado da cama, mantendo certa distância.
— E então... antes da gente começar... como foi que isso aconteceu? — perguntei, apontando para o pé e sorrindo.
Ela sorriu de volta.
— Distração. Pisei em falso e deu nisso.
— Acontece. Que bom que nada mais grave aconteceu.
— Verdade.
Nalú passou para o modo profissional como quem vira uma chave, conseguindo ajustar tom e postura mesmo com um pé erguido e o corpo quase deitado na cama.
— As coletas foram melhores do que eu esperava pro primeiro dia. — Ela girou o notebook um pouco na minha direção, mostrando uma planilha que eu não entendia bulhufas. — Os testes de campo deram resultado dentro do previsto. Os mais complexos vão precisar de laboratório, então as amostras já seguiram pra Ventura hoje de manhã.
— E quando sai resultado disso?
— Depende do laboratório. Uma semana, no máximo duas.
Assenti, olhando mais para boca dela falando do que para tela do computador.
— E o pé atrasou o trabalho de hoje?
— Nem um pouco, porque eu não vou deixar. — Ela sorriu. — Aproveitando que estou de perna pra cima mesmo, e que o diretor da capitania resolveu ser tão... solícito — a palavra saiu com uma ironia leve — pensei em amanhã adiantar parte da parte documental aqui no hotel. Se você não se importar.
— Não me importo nem um pouco. — Aproximei um pouco mais meu corpo, apoiando o peso de uma das mãos em cima do colchão. — Você tem liberdade para fazer do jeito que quiser.
— Você não fica preocupada com essa liberdade toda que me dá?
— Devia ficar?
— Talvez. — Ela fechou o notebook devagar, sem pressa nenhuma de continuar a explicação técnica. — Você nem me conhece.
— Conheço o suficiente.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Tem certeza?
— Tenho.
— E se estiver errada?
Aproximei um pouco mais o rosto.
— Aí você me conta. Aí eu descubro. — Sorri, e vi o sorriso dela respondendo ao meu.
Silêncio. Só o som baixo do ar-condicionado, e a respiração dela, que eu sentia mudar de ritmo quanto mais perto eu ficava.
— Alicia... — A voz dela saiu mais baixa.
— O que?
— Você está olhando pra minha boca de novo — Nalú sussurrou.
— Estou.
— E é a segunda vez hoje.
Olhei nos olhos dela.
— Sabe o que acontece se eu olhar três vezes? — Disse com um sorriso de canto.
— Pode pedir música? — Ela riu, baixinho, mas o riso morreu antes de terminar, porque eu já tinha encurtado a distância que sobrava entre a gente.
— Não.
— Acontece isso — Olhei para os lábios dela mais uma vez, sem intenção nenhuma de disfarçar, e encostei minha boca na dela.
O primeiro toque dos nossos lábios foi cuidadoso. Nalú não se afastou. Pelo contrário. Senti quando ela relaxou contra mim, quando os lábios dela se ajustaram aos meus, e foi naquele instante que alguma coisa dentro de mim perdeu o último resto de cautela.
A boca de Nalú era mais ainda do que eu tinha imaginado. Mais macia, mais quente, com um gosto doce e úmido.
Beijei-a devagar, demorando-me na boca dela antes de aprofundar o beijo. Nalú correspondeu sem hesitar.
Minha língua encontrou a dela, e Nalú acompanhou o movimento. Senti sua mão subindo pelo meu braço até parar no ombro. Seus dedos se fecharam ali. Nossas respirações ficaram ofegantes, presas entre um beijo e o movimento do próximo. Cada centímetro da minha pele parecia ter ficado mais sensível de uma hora para outra.
Levei uma das mãos até a nuca dela, os dedos se perdendo no cabelo ainda úmido. A outra encontrou sua cintura, primeiro com cuidado, depois com mais firmeza. Quando meus dedos avançaram por baixo da barra da camiseta e encontraram a pele quente, um arrepio subiu pelo meu braço inteiro.
Nalú abriu a boca contra a minha e deixou escapar um gemido baixo, quase perdido entre um beijo e outro. O som fez alguma coisa se apertar dentro de mim.
Meu corpo inteiro despertou.
Ela também queria. Eu sentia isso no jeito como ela se curvava na minha direção, buscando mais contato.
Voltei a beijá-la, agora sem o cuidado de antes. Apertei de leve sua cintura, e ela se aproximou ainda mais, seu corpo agora estava colado ao meu. Me inclinei mais sobre ela.
A campainha tocou.
Nos afastamos rápido, quase em um susto. Os lábios de Nalú estavam mais vermelhos do que o normal, inchados, e eu não conseguia olhar nos olhos dela por medo do que meu próprio rosto estivesse entregando. Levantei o mais rápido que pude e fui até a porta.
A camareira, do outro lado, fingiu perfeitamente bem não se surpreender ao me encontrar ali, dentro do quarto de uma hóspede. Peguei o carrinho, agradeci e fechei a porta.
Quando me virei, Nalú já estava de pé, no meio do quarto.
Ficamos nos olhando por um instante.
— A comida chegou. Mas minha vontade é...
— Alicia. — Ela me interrompeu, a voz baixa. — Acho melhor você levar o jantar pro seu quarto.
Uma piada infeliz me passou pela cabeça. Não disse nada. Sorri, peguei as bandejas que eram dela, coloquei sobre a mesa, peguei o carrinho de volta e abri a porta. Antes de sair, olhei para ela mais uma vez.
— Boa noite, Nalú.
— Boa noite — ela respondeu, e virou de costas.
Encontrei Nalú e os estudantes saindo pela porta de vidro da recepção quando desci até o saguão. Ela tinha um boné branco puxado quase até as sobrancelhas e a bolsa de equipamento pendurada em um ombro só. Os quatro alunos já estavam espalhados pela calçada, discutindo alguma coisa sobre a van com Joaquim. Trocamos um aceno rápido de cabeça. Nada mais. Ali não havia nem tempo, nem espaço para mais nada.
Eu ia pra Ilha do Sino dar andamento à fase de marketing do Projeto Poente. A equipe contratada já esperava no cais, e o dia inteiro seria dedicado às fotos dos bangalôs. Junto com a sensação estranha e incômoda do desencontro, veio um alívio que não fazia sentido nenhum. Eu ia vê-la de novo à noite, no jantar, como já tínhamos combinado.
Só isso já bastou pra me deixar com uma disposição ridícula para aquele horário da manhã.
Segui para o carro tentando não sorrir sozinha, o que só piorou as coisas. Porque reparar que eu estava tentando não sorrir era, de certo modo, a prova de que eu já tinha perdido.
Nalú tinha ocupado um espaço enorme do meu tempo e dos meus pensamentos nos últimos dias, e eu sabia reconhecer atração quando ela aparecia. Isso nunca tinha sido um problema pra mim. O problema era a intensidade. Isso, sim, era novo. E se eu não tomasse cuidado, ia parar de ser um segredo só meu.
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Fui até o cais com dois funcionários, e de lá embarcamos pra ilha. A equipe era composta por um fotógrafo, dois modelos, uma assistente e mais dois rapazes carregando as caixa, mas trouxemos materiais suficientes para encher um barco pequeno. Um dos bangalôs seria decorado com frutas, champanhe, vinho, cestas montadas especialmente para casais, pétalas secas espalhadas e velas.
As fotos precisavam mostrar exatamente aquilo que o resort prometia: luxo e conforto. Uma ilha privativa devia parecer um convite irrecusável. Quem olhasse aquelas fotos tinha que sentir vontade, não só interesse.
Pensei no embargo enquanto o barco cortava a água, e uma ponta de amargura me atravessou. Aquilo precisava ser resolvido logo. As instalações estavam prontas, os móveis todos no lugar, a decoração fechada até o último detalhe. Faltava só o papel. O alvará de funcionamento, parado na gaveta de algum juiz, esperando uma assinatura que ninguém parecia com pressa de dar.
Dinheiro parado não rende. Ouvi a voz do meu pai dizer isso tantas vezes que já nem sabia se o pensamento era meu ou dele.
Ao chegarmos, me deparei com um cenário de natureza quase intocada. O tipo de paisagem que faz qualquer pessoa esquecer, por um segundo, o motivo profissional de estar ali. O ensaio ocupou a manhã inteira. Escolhi o bangalô três para as fotos. Os modelos se acomodaram nas poltronas de vime trançado, estofado branco, de frente para o mar, enquanto o fotógrafo ajustava o ângulo, pedindo que inclinassem o corpo, cruzassem as pernas de um jeito, depois de outro, olhassem para a câmera, depois para o horizonte. Os funcionários ajudavam com a decoração do cenário e com a luz, movendo refletores de um lado para o outro. Um deles me mostrou onde ficava o registro geral de energia, caso alguma coisa desarmasse durante a sessão da tarde.
Seguimos até o fim do entardecer. Quando a luz dourada começou a descer sobre os bangalôs, presenciei um dos pores do sol mais bonitos que já vi. E, mesmo cercada de champanhe, pétalas e um cenário construído para parecer perfeito, senti uma falta que não conseguia justificar direito. Alguma coisa continuava incompleta ali.
A viagem de volta durou a hora e meia de sempre, o barco cortando a água já escura e o motor abafando qualquer vontade de conversa.
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No hotel, tomei banho e pensei que Nalú já devia estar no restaurante, provavelmente puxando conversa com algum dos estudantes. Um sorriso me escapou embaixo do chuveiro.
Estava curiosa sobre os dois dias de trabalho. Realmente curiosa, porque aquilo também era do meu interesse. Mas, acima disso, estava ansiosa para vê-la. Só isso. Ver, falar, dividir uma mesa de novo.
Vesti um conjunto de linho off-white, camiseta e calça, e desci pelo corredor. Todas as portas estavam fechadas. Nenhum som saindo de nenhuma delas.
No restaurante, encontrei os quatro estudantes já reunidos em uma mesa, jantando e conversando baixo. Olhei em volta. Nalú não estava ali.
Me aproximei, já meio decepcionada, tentando não deixar transparecer.
— Boa noite! Tudo bem com vocês?
— Tudo bem — Pedro respondeu, e os outros acenaram com a cabeça.
Ficamos ali por um segundo, ninguém dizendo mais nada, até eu finalmente perguntar o que não saía da minha cabeça desde que entrei no salão.
— E a professora de vocês? Decidiu não jantar hoje? — Tentei um tom leve, de brincadeira, para amenizar meu próprio interesse.
— Na verdade, depois do que aconteceu, ela decidiu jantar no quarto e descansar — Tomás disse.
Deixei o resto do constrangimento de lado.
— O que houve?
Eles se entreolharam. Foi Isabela quem respondeu.
— A prof Nalú torceu o pé.
— Como assim? Ela se machucou?
— Ela está bem — Marina disse, rápido. — Não precisou de médico. O pé só ficou um pouco inchado.
Ainda assim, os quatro continuavam trocando aquele olhar estranho entre si, do tipo que esconde alguma coisa que ninguém quer contar primeiro.
— Vou verificar se ela pediu algo pra jantar — falei, já me afastando.
Fui até a cozinha. Falei com Luiz sobre os pedidos de hóspedes para os quartos, e ele me disse que, até aquele momento, não tinha recebido nenhum pedido.
Saí de lá sem saber direito o que fazer, e simplesmente segui para o elevador.
Não apertei botão nenhum no elevador e decidi falar com o gerente.
— Boa noite, Guilherme! Um dos hospedes teve uma torção no pé. Nós temos algum kit de primeiros socorros aqui? Um creme anestésico ou qualquer coisa neste sentido? — perguntei, com uma certa ansiedade na voz.
— Temos sim, mas a senhora quer que eu também chame um médico pra dar uma olhada? — o gerente perguntou, já pegando o telefone.
— Não precisa. Só a caixa e o creme está ótimo, por enquanto.
— Vou mandar separar. Cinco minutos, senhora Alicia.
Esperei ali mesmo, sem me sentar, batendo o pé sem perceber que estava fazendo isso. Quando a caixa chegou, peguei e segui direto para o terceiro andar.
***
Hesitei na porta do 307 por um tempo. Toquei a campainha antes de mudar de ideia.
Nalú abriu a porta. Estava de pijama. Um conjunto americano branco, short e camiseta, o cabelo ainda molhado do banho. O cheiro de flor que ela emanava chegou antes de qualquer coisa que ela pudesse dizer.
— Alicia?
— Os estudantes comentaram que você se machucou. — Mostrei a maleta. — Está tudo bem?
— Que exagero da parte deles. Está tudo bem, sim. Você não precisava...
— Nalú, eu já estou aqui, e tem uma pomada que me garantiram ser milagrosa. Vamos pelo menos passar ela, e depois te deixo descansar. Pode ser?
Ela olhou para mim por um segundo, e alguma coisa no rosto dela desistiu de começar qualquer discussão.
— Pode. — Disse, me dando espaço para entrar.
Aquele quarto também era meu. Na verdade, sei lá de quem era. Naquele momento era dela, o jeito como a mala ficava em um canto, o notebook fechado em cima da cômoda, a luz do abajur mais amarela do que a do meu quarto.
Nalú andou até a cama num ritmo lento, provavelmente por causa da dor, e sentou na beira. O short subiu um pouco, revelando mais das coxas bronzeadas do que eu tinha visto até então. Tentei focar de novo no motivo real de eu estar ali.
— Você já jantou? — perguntei, me aproximando.
— Ainda não.
Nossos olhares se encontraram, e ficaram ali, presos um no outro.
— Vamos pedir algo? — sugeri.
— Podemos pedir, mas, Alicia... estou achando um exagero tudo isso. Comentei com os meninos que só precisava ficar deitada com a perna pra cima, e que amanhã estaria novinha em folha. Não foi nada tão grave assim.
— Mesmo assim. — Deixei a caixa em uma cadeira perto da cama e comecei a abrir. — Você precisa comer algo. Olha aqui. — Peguei meu celular, abri o aplicativo com o cardápio do restaurante e entreguei para ela. — Pede algo pra você e um risoto de legumes pra mim, por favor.
— Você não jantou?
— Não. Soube do que aconteceu e vim direto pra cá.
— Ai, Alicia... estou envergonhada ao extremo agora. Não precisava disso tudo. — Ela se ajeitou na cama, fazendo menção de levantar.
Fiz um gesto com a mão.
— Fica aí. Pede seu jantar, e eu vou ver essa tal pomada milagrosa.
Ela me deu uma última olhada antes de voltar a atenção pro celular. Enquanto isso, peguei a pomada e fiquei alternando meu olhar entre ela e Nalú, sem disfarçar muito bem.
Absurdamente linda. Os traços dela eram ao mesmo tempo expressivos e delicados. Os olhos verdes, a pele bronzeada, o jeito como o cabelo molhado caía nos ombros. Tudo ali me chamava, me atraía.
— Pronto — ela disse, estendendo meu celular de volta.
Peguei o aparelho, e nossos dedos se tocaram no meio do gesto. Acrescentei mais um item ao pedido antes de finalizar, e coloquei na observação: entregar no quarto 307.
Coloquei uma almofada da poltrona no chão e me sentei nela, de frente pra Nalú, que continuava na cama.
— Foi este tornozelo que você machucou? — perguntei, abrindo a pomada enquanto apontava para o pé esquerdo, que tinha uma vermelhidão pequena na altura do osso.
— Sim, mas você não preci...
Ela não conseguiu terminar a frase, porque eu já estava passando a pomada do pé em direção ao tornozelo. Um cheiro mentolado subiu no ar entre a gente. O toque das minhas mãos na pele dela fez meu corpo tremer, de leve. Onde já se viu isso. Tremer encostando na pele de alguém.
Massageei o pé dela devagar, e vi os olhos verdes escurecerem. Ela mantinha os olhos cravados nos meus, e por um instante nenhuma das duas disse nada. Me perguntei se ela sentia o mesmo que eu sentia ali, ajoelhada naquele chão de hotel com as mãos na pele dela.
— Eu agradeço — Nalú disse, baixinho, quando meu toque parou.
Minha mão continuava sobre a pele dela.
— Está doendo?
— Um pouco. Bem pouco mesmo. — Ela afastou o pé devagar e se levantou.
Me levantei também. Ficamos de frente uma para outra.
— Agradeço por ter vindo. E ter trazido o creme... e ter passado o creme... — Ela desviou o olhar antes de terminar. — Provavelmente você quer atualizações?
— Atualizações? — perguntei, confusa, o clima de antes sendo quebrado de repente.
— Do trabalho de campo. Conforme combinamos ontem. De jantar e falar sobre esses dois primeiros dias. — Ela foi até a cômoda, na direção do notebook.
— Ah. Sim. O que combinamos. — Balancei a cabeça, tentando recompor meu raciocínio. — Mas não precisa ser agora. Descansa. Tem um remédio pra dor aqui também. — Apontei pra caixa. — Mas acho melhor tomar depois de comer.
Nalú se virou para mim.
— Eu não me importo de te repassar tudo. Acho até bom. Assim durmo com a cabeça mais leve também.
— Tem certeza?
— Absoluta. — Ela sorriu, pegando o remédio e deixando-o sobre a cômoda. — Mas acho que o ideal é eu ficar sentada na cama com o pé pra cima. Você pode sentar aí, se quiser.
— Claro. Pode ser. — Fiquei parada um segundo. — Vou só lavar as mãos.
Enquanto lavava as mãos no banheiro, ouvi ela se ajeitando na cama. O som do notebook sendo aberto, dos travesseiros sendo arrumados contra a cabeceira. Quando voltei, ela já estava sentada, uma almofada grande sustentando o pé machucado.
Sentei do outro lado da cama, mantendo certa distância.
— E então... antes da gente começar... como foi que isso aconteceu? — perguntei, apontando para o pé e sorrindo.
Ela sorriu de volta.
— Distração. Pisei em falso e deu nisso.
— Acontece. Que bom que nada mais grave aconteceu.
— Verdade.
Nalú passou para o modo profissional como quem vira uma chave, conseguindo ajustar tom e postura mesmo com um pé erguido e o corpo quase deitado na cama.
— As coletas foram melhores do que eu esperava pro primeiro dia. — Ela girou o notebook um pouco na minha direção, mostrando uma planilha que eu não entendia bulhufas. — Os testes de campo deram resultado dentro do previsto. Os mais complexos vão precisar de laboratório, então as amostras já seguiram pra Ventura hoje de manhã.
— E quando sai resultado disso?
— Depende do laboratório. Uma semana, no máximo duas.
Assenti, olhando mais para boca dela falando do que para tela do computador.
— E o pé atrasou o trabalho de hoje?
— Nem um pouco, porque eu não vou deixar. — Ela sorriu. — Aproveitando que estou de perna pra cima mesmo, e que o diretor da capitania resolveu ser tão... solícito — a palavra saiu com uma ironia leve — pensei em amanhã adiantar parte da parte documental aqui no hotel. Se você não se importar.
— Não me importo nem um pouco. — Aproximei um pouco mais meu corpo, apoiando o peso de uma das mãos em cima do colchão. — Você tem liberdade para fazer do jeito que quiser.
— Você não fica preocupada com essa liberdade toda que me dá?
— Devia ficar?
— Talvez. — Ela fechou o notebook devagar, sem pressa nenhuma de continuar a explicação técnica. — Você nem me conhece.
— Conheço o suficiente.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Tem certeza?
— Tenho.
— E se estiver errada?
Aproximei um pouco mais o rosto.
— Aí você me conta. Aí eu descubro. — Sorri, e vi o sorriso dela respondendo ao meu.
Silêncio. Só o som baixo do ar-condicionado, e a respiração dela, que eu sentia mudar de ritmo quanto mais perto eu ficava.
— Alicia... — A voz dela saiu mais baixa.
— O que?
— Você está olhando pra minha boca de novo — Nalú sussurrou.
— Estou.
— E é a segunda vez hoje.
Olhei nos olhos dela.
— Sabe o que acontece se eu olhar três vezes? — Disse com um sorriso de canto.
— Pode pedir música? — Ela riu, baixinho, mas o riso morreu antes de terminar, porque eu já tinha encurtado a distância que sobrava entre a gente.
— Não.
— Acontece isso — Olhei para os lábios dela mais uma vez, sem intenção nenhuma de disfarçar, e encostei minha boca na dela.
O primeiro toque dos nossos lábios foi cuidadoso. Nalú não se afastou. Pelo contrário. Senti quando ela relaxou contra mim, quando os lábios dela se ajustaram aos meus, e foi naquele instante que alguma coisa dentro de mim perdeu o último resto de cautela.
A boca de Nalú era mais ainda do que eu tinha imaginado. Mais macia, mais quente, com um gosto doce e úmido.
Beijei-a devagar, demorando-me na boca dela antes de aprofundar o beijo. Nalú correspondeu sem hesitar.
Minha língua encontrou a dela, e Nalú acompanhou o movimento. Senti sua mão subindo pelo meu braço até parar no ombro. Seus dedos se fecharam ali. Nossas respirações ficaram ofegantes, presas entre um beijo e o movimento do próximo. Cada centímetro da minha pele parecia ter ficado mais sensível de uma hora para outra.
Levei uma das mãos até a nuca dela, os dedos se perdendo no cabelo ainda úmido. A outra encontrou sua cintura, primeiro com cuidado, depois com mais firmeza. Quando meus dedos avançaram por baixo da barra da camiseta e encontraram a pele quente, um arrepio subiu pelo meu braço inteiro.
Nalú abriu a boca contra a minha e deixou escapar um gemido baixo, quase perdido entre um beijo e outro. O som fez alguma coisa se apertar dentro de mim.
Meu corpo inteiro despertou.
Ela também queria. Eu sentia isso no jeito como ela se curvava na minha direção, buscando mais contato.
Voltei a beijá-la, agora sem o cuidado de antes. Apertei de leve sua cintura, e ela se aproximou ainda mais, seu corpo agora estava colado ao meu. Me inclinei mais sobre ela.
A campainha tocou.
Nos afastamos rápido, quase em um susto. Os lábios de Nalú estavam mais vermelhos do que o normal, inchados, e eu não conseguia olhar nos olhos dela por medo do que meu próprio rosto estivesse entregando. Levantei o mais rápido que pude e fui até a porta.
A camareira, do outro lado, fingiu perfeitamente bem não se surpreender ao me encontrar ali, dentro do quarto de uma hóspede. Peguei o carrinho, agradeci e fechei a porta.
Quando me virei, Nalú já estava de pé, no meio do quarto.
Ficamos nos olhando por um instante.
— A comida chegou. Mas minha vontade é...
— Alicia. — Ela me interrompeu, a voz baixa. — Acho melhor você levar o jantar pro seu quarto.
Uma piada infeliz me passou pela cabeça. Não disse nada. Sorri, peguei as bandejas que eram dela, coloquei sobre a mesa, peguei o carrinho de volta e abri a porta. Antes de sair, olhei para ela mais uma vez.
— Boa noite, Nalú.
— Boa noite — ela respondeu, e virou de costas.
Fim do capítulo

HelOliveira
02/10/2026 às 22:59
MalluBlues 15/10/2026 às 11:57
Dessinha
30/09/2026 às 07:59
MalluBlues 15/10/2026 às 11:58