Capítulo 13

Capítulo 13: Do outro lado da parede

de Nada Desvia o Destino, por MalluBlues

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Por Nalú:

Fechamos a última coleta quando a luz ao nosso redor já estava ficando amarelada, com aquele tom de fim de tarde.

Os frascos foram etiquetados um a um, as fichas conferidas duas vezes, as caixas térmicas fechadas com a tampa travada. Dei uma última olhada no ponto onde Isabela e eu tínhamos começado, ainda marcado com fitas que o vento tentava arrancar da areia, e fiz sinal para que recolhessem tudo.

Foi ali, enquanto eles arrastavam as mochilas pela faixa de pedras, que reparei nos quatro. Tomás andava com a cabeça meio baixa, o tripé apoiado no ombro. Marina tinha perdido o hábito de comentar cada coisa que via, e Isabela caminhava ao lado dela em um ritmo arrastado. Até o Pedro, que costuma ser o último a demonstrar cansaço, tinha ombros mais curvos e passos mais lentos do que o normal.

A energia deles já tinha ido embora. A orla cobra seu preço. Eu também sentia o peso do dia nas pernas. Mas quem trabalha no campo há tempo suficiente aprende a esconder o cansaço, principalmente diante dos estudantes.

— Professora, Nalú. — Pedro me alcançou, ajeitando a alça da mochila. — Lembra dos dados de embarcação que você pediu?

— O fluxo da enseada?

— Isso. Consegui os documentos com um diretor da capitania dos portos. Chegaram por e-mail hoje cedo, antes da gente sair. — Ele parou um instante para tomar fôlego. — Agora vão precisar ser mensurados, mas já estão comigo.

Parei de andar.

— Pedro, você mandou o pedido de quais datas?

— De março do ano passado até março deste ano. — Ele coçou a nuca, meio desconfortável. — Olhei o arquivo meio por cima ainda, na pressa. Mas as datas dos documentos que eles enviaram batem. Doze meses certinhos.

— Doze meses completos, com os dois picos de temporada?

— Acho que sim. Vou conferir direitinho hoje à noite.

— Hoje à noite não. Amanhã. — Voltei a andar, mais devagar para ele acompanhar. — Me envie os dados. Foi ótimo você já ter conseguido. Eu esperava que isso fosse arrastar por semanas. Ofício, protocolo, prazo de resposta, alguém pedindo carimbo em outro setor, mas você resolveu em quanto tempo?

— Foi rápido, na verdade. Enviei e-mail e liguei antes de sairmos de Ventura. Expliquei o motivo, e o diretor já sabia de tudo. Falou que tinha ciência do caso e que ia ajudar no que fosse preciso e ajudou mesmo. Já enviou os arquivos, sem enrolar.

Ele disse aquilo com um orgulho tímido, esperando que eu reconhecesse o mérito dele. E eu reconheci, em parte. Pedro tinha sido eficiente.

Mas não foi a eficiência do Pedro que me ocupou a cabeça.

Já sabia do caso.

Nenhum diretor da capitania sabe do caso de uma equipe universitária que ainda nem tinha chegado em Itamaré, muito menos abre e envia arquivo de doze meses sem ofício formal, sem nenhum papel na mesa. A não ser que alguém tivesse ligado antes. Alguém com o número certo, o tom certo e a total falta de constrangimento em resolver as coisas nos bastidores.

Eu sabia exatamente quem.

Deixei aquele pensamento de lado e me virei para o grupo, reunido perto da van.

— Gente. — Esperei os quatro olharem para mim. — O Pedro conseguiu os dados de embarcação, e o processo foi mais rápido do que eu imaginava. Pelo jeito, as portas por aqui estão abertas. Talvez o trabalho seja mais curto do que a gente calculou.

O silêncio durou pouco. Ainda assim, deu tempo de Marina e Isabela se encararem. Isabela apertou a mão dela por um instante. Marina soltou o ar, como quem finalmente recebia uma boa notícia.

Baixei os olhos para esconder o sorriso.

Eles estavam esgotados. E aquele era só o primeiro dia.

***

A água demorou a esquentar. Fiquei mexendo no registro até acertar a temperatura e, quando consegui, me coloquei debaixo dela e fechei os olhos. Deixei que escorresse pelo rosto, pelo pescoço, pelos ombros que ainda doíam um pouco da alça da mochila.

Comecei a listar de cabeça o que faríamos no dia seguinte: os pontos do lado sul, a conferência e envio das amostras, a planilha do Pedro. Balancei a cabeça enquanto tirava o condicionador dos fios. Não adiantava nada resolver aquilo no chuveiro. Mas o corpo tem esse hábito irritante de continuar trabalhando mesmo depois que a gente manda parar.

Meu fluxo de pensamentos foi interrompido por uma frase que eu não tinha convidado. "Ou já esqueceu que estamos dormindo praticamente juntas?"

Fechei o registro antes que ela se repetisse.

Abri a mala e peguei o vestido que tinha trazido. Verde-escuro, alças finas, simples. Guardei de volta. Peguei de novo. Vesti.

Sequei o cabelo às pressas e segui pelo corredor. A porta do quarto de Pedro e Tomás estava fechada. A de Marina e Isabela, entreaberta. Bati de leve e avisei que estava descendo.

— Já vamos, prof — Isabela gritou lá de dentro, e ouvi alguma coisa cair no chão, seguida de uma risada abafada.

Desci sozinha.

O saguão estava mais movimentado do que de manhã. Hóspedes chegando, outros saindo, um casal de idosos na recepção perguntando sobre passeio de barco para o dia seguinte. Segui para o restaurante e, perto da entrada, avistei a mesa.

Alicia já estava sentada com Pedro e Tomás, e os três riam de alguma coisa que Tomás contava com as mãos erguidas. Tinha trocado de roupa. Ela usava um vestido cor terracota, seu cabelo molhado, novamente penteado para trás e uma taça de vinho à mão. A cor caía tão bem na pele dela que passei da porta bem devagar para observar um pouco mais.

Nunca tinha visto o sorriso dela assim. Inteiro, tão aberto.

Alicia ergueu os olhos e me viu. O sorriso não mudou de formato, mudou de destino. Deixou de ser da mesa e passou a ser meu.

— Aí está ela — disse, puxando a cadeira vazia ao lado da dela. — Já estávamos começando a duvidar que você ia descer.

— Fui tratar de uns ferimentos de guerra. — Sentei, olhando para minhas mãos raladas de areia e sol. — Praia de manhã cobra o preço à noite.

Ao sentar, meu joelho encostou no dela por baixo da mesa. Ela não se afastou. Eu também não. E passei os segundos seguintes tentando me concentrar no que eu estava fazendo ali.

— Se acostuma, prof — Marina disse, chegando com Isabela e exibindo o joelho arranhado com um certo orgulho.

O garçom apareceu logo depois, um rapaz jovem que recitou o cardápio de cor. Pedi peixe grelhado, sem pensar muito. Depois de um dia inteiro perto da água, sempre acabo pedindo peixe, por um hábito que nem sei explicar.

Os alunos dominaram a conversa nos primeiros minutos. Alicia estava na segunda taça, e o olhar dela tinha ficado mais lento quando pousava em mim. Tomás contou, com exagero suficiente para arrancar risada de todo mundo, como Pedro quase escorregou numa pedra molhada e só não caiu porque se agarrou no tripé do GPS. Pedro tentou negar, sem sucesso, e Isabela e Marina cruzaram aquele olhar cúmplice.

Alicia ouvia tudo com interesse. Perguntou sobre a faculdade, sobre o que cada um queria fazer depois de formado, e escutou com atenção quando Marina explicou, meio tímida, que queria seguir em pesquisa marinha.

— E você? — Isabela perguntou. — O que você faz exatamente mesmo?

— Sou herdeira.

Todos riram. Balancei a cabeça e sorri de lado. Alicia manteve os olhos em mim.

— Mas também trabalho — completou. — Gestão de projetos hoteleiros. Cuido desde o aval para construir até a pintura das paredes. E ainda ajudo a equipe de marketing.

— Nossa, deve ser cansativo — Marina disse, fazendo um gesto com a mão para o salão ao redor. — Minha mãe se estressa com reforma de cozinha, imagina uma coisa desse tamanho.

— Não é fácil. Tem pressão de todo lado, e muitas vezes dá mais errado do que certo. O trabalho de vocês aqui, inclusive, nasceu de algo que deu errado. — Girou a taça pela haste, devagar. — Eu poderia estar desesperada agora. Se não fosse a confiança que tenho na mão que comanda essa equipe.

— Nisso você está certíssima — Isabela falou. — A professora Nalú arrasa.

Senti o rosto esquentar e fiquei sem saber se a causa era o elogio da Isabela ou o jeito como Alicia olhava a minha reação.

— Nada disso é possível sem vocês — respondi. E, porque a taça dela já estava na metade e eu queria ver o que ela faria com a informação, continuei: — Aliás, Alicia, você não vai acreditar. Com um e-mail e um telefonema, o Pedro conseguiu um ano inteiro de fluxo de embarcações com o diretor da capitania dos portos. Eu achava que ia levar um mês, no mínimo. Não é incrível?

Alicia olhou de relance para Pedro e voltou para mim.

— É... — Um sorriso de canto escapou antes que ela pudesse segurar. — Incrível. Parabéns, Pedro.

Ela não perguntou como. Nem qual diretor, nem em quanto tempo.

— Diretor solícito, esse — comentei, levando o copo de suco à boca. — Nunca vi isso acontecer sem ofício.

— Sorte do Pedro — Alicia respondeu, sem pressa, e bebeu o vinho me olhando por cima da borda da taça.

Pedro ficou vermelho até as orelhas, envergonhado de ter virado assunto da mesa outra vez. Tomás aproveitou para bater no ombro dele. Eu não disse mais nada.

Quando terminamos de jantar, os estudantes começaram a se levantar. Eu ainda estava afastando a cadeira quando Alicia falou:

— Nalú, você tem um minuto? Queria conversar com você. Se não for incômodo, claro.

— Não é — respondi.

Marina e Isabela trocaram um olhar rápido.

— Boa noite, então! — disse Pedro.

Marina, Isabela e Tomás se despediram logo depois, quase em uníssono.

— Descansem — falei. — Saímos às oito.

— Às oito — Tomás repetiu, com a voz de quem já sabia que ia desmaiar assim que deitasse na cama.

Ficamos as duas na mesa. O salão tinha esvaziado sem que eu percebesse. Só restavam um casal perto da janela e o funcionário da mesa de sucos, guardando as jarras.

Alicia apoiou o antebraço na toalha e ficou segurando a taça, sem beber.

— Pedi que você ficasse por um motivo bem menos nobre do que parece — disse. — Queria me desculpar por hoje. Por ter ido embora no meio do trabalho, sem acompanhar o resto.

— Tudo bem. — Ajeitei o guardanapo na mesa, só para ter o que fazer com as mãos. — Você tinha compromisso. A sessão de fotos com a equipe de marketing, não era?

Alicia riu, baixo, e balançou a cabeça.

— Não era sessão de foto. Foi só uma reunião com a equipe. As fotos nos bangalôs são amanhã.

— Ah. — Levantei a sobrancelha e sorri. — Então amanhã também não vamos contar com você.

— Infelizmente, não. — Ela fez uma careta pequena, entortando os lábios. — Mas queria jantar com você de novo amanhã. — Parou. Percebi o segundo exato em que ela ouviu a própria frase. — Com a equipe. Com a sua equipe. Pra saber se vocês já conseguem me adiantar alguma coisa sobre os resultados do trabalho.

Não sorri, e isso me custou algum esforço.

— Tudo bem.

— Ótimo.

Ela pigarreou, pegou a taça, e só então olhou para o meu lado da mesa. Para o copo vazio que estava na minha frente. Tinha sido suco o jantar inteiro.

— Você não bebe? — perguntou. O meio sorriso já estava no lugar.

— Não em trabalho. No meio da semana. E na frente dos meus alunos.

— Entendo. — Ela assentiu. — Mas o vinho daqui é ótimo.

— Acredito. Só que prefiro evitar somar valor extra ao acordo de hospedagem que a gente fechou.

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

— Um pouco tem.

— Não tem — Alicia insistiu, e apoiou o queixo na mão. — Faz uma coisa por mim. Promete que, quando a equipe encerrar o estudo, independente do resultado, você faz pelo menos um brinde comigo.

Independente do resultado. Ela disse a frase e eu guardei.

— Um brinde?

— Só um.

Ela sorriu, e eu sorri de volta.

— Se você faz questão, eu aceito.

— Faço muita questão.

Nenhuma das duas desviou o olhar. Eu contei, sem querer contar, uma respiração. Duas. O meu vestido devia estar mais apertado do que quando eu saí do quarto, porque o ar parecia difícil de puxar. Alicia tinha parado de girar a taça.

Um prato tilintou perto do meu cotovelo.

— Com licença, vou só retirar aqui.
Nós duas nos afastamos para lados opostos. Olhei para o rapaz que estendia o braço por cima da mesa, o guardanapo dobrado no antebraço. Reconheci o pescoço comprido antes do rosto.

— Luiz?

Ele parou com a mão no prato. Levou um segundo para me olhar direito, e depois o rosto todo se abriu.

— Nalú?

— Ela mesma. — Sorri. — Como está o seu Dito?

— O pai tá bem, Nalú. Cansado, teimoso, mas tá bem. — Luiz balançou a cabeça, incrédulo. — E você? Quanto tempo, hein!

— Pois é. Faz tempo mesmo.

— A mãe e o pai vão adorar saber que você tá por aqui. Vai visitar eles?

— Claro. Preciso só me programar, estou aqui a trabalho.

Luiz olhou em volta e reparou em Alicia, que acompanhava a conversa com curiosidade. O sorriso dele ficou mais formal.

— Senhora Alicia. Já vou terminar de retirar os pratos.

Levantei e abracei Luiz antes que ele começasse a empilhar louça. Ele cheirava a cebola frita e a sabonete, e ficou meio sem jeito com a bandeja no meio.

— Antes que você volte ao trabalho — falei, soltando ele. — Nem imaginava que você estava trabalhando aqui.

— Pois é. Coisas da vida.

— Alicia. — Virei para ela. — Esse é o Luiz. Luiz, pelo que você acabou de falar, acredito que já conheça a Alicia.

Ele assentiu, e não olhou para mim ao fazer isso. Alicia se levantou e estendeu a mão.

— Olá, Luiz. E sim, Nalú, já nos conhecemos. — A voz dela tinha ficado levemente mais séria e seu olhar tinha mudado um pouco de foco. — Só não entendi o que você está fazendo aqui, Luiz. Você não é auxiliar do chef Renato?

— Ah, memória boa a da patroa. — Luiz riu, e apertou a mão dela depressa. — Sou, sim. Só que hoje faltou gente, e o gerente, sabendo que a senhora está por aqui esta semana, pediu pra todo mundo dar uma mão. Pra não parecer bagunça, né, Dona Alicia.

Ele respondeu olhando para ela, não para mim.

— Entendi, Luiz. — Alicia sorriu. — Obrigada.

— Imagina.

Despedi-me dele com um aperto no braço e a promessa de passar na casa de seu Dito antes de ir embora. Ele recolheu os pratos com cuidado e sumiu na direção da cozinha, sem olhar para trás.

Alicia ficou parada um instante, olhando a porta vai e vem se fechar. Depois me olhou.

— Vamos?

***

O elevador estava vazio, de espelho no fundo. Alicia apertou o três antes de mim. Eu apenas observei as portas fechando.

— Posso fazer uma observação? — Alicia disse, sem me olhar.

— Depende.

— Seu cheiro é muito bom.

Virei o rosto, surpresa. Ela estava encostada na parede, com uma expressão divertida no rosto.

— É o xampu do hotel.

— Duvido. — Ela se afastou da parede e se virou, dando um passo na minha direção. Um passo só, mas o elevador não tinha espaço para muito mais que isso. — O meu é o mesmo, e nunca cheirou assim.

Inclinou-se um pouco, o suficiente para eu também sentisse o perfume dela. Aquele aroma fresco, amadeirado e marcante. Fechou os olhos por um segundo, respirou perto da curva do meu pescoço, sem encostar. Senti o ar entre a boca dela e a minha pele mudar de temperatura.

— É muito bom — repetiu, mais baixo.

Não consegui dizer nada. Olhei para o painel. Dois. Fiquei olhando o número.

A porta abriu no três com um som de sino.

Saí primeiro, tentando dar aos meus passos uma velocidade normal, e só depois de alguns metros percebi que os passos dela continuavam atrás dos meus.

Parei e me virei.

— O seu andar não é outro?

— Por que a surpresa? — Alicia levantou uma sobrancelha. — Também estou hospedada neste hotel.

— No mesmo andar?

— No mesmo andar.

Caminhamos juntas pelo corredor. Passamos pela porta de Pedro e Tomás, pela de Marina e Isabela. Ao chegar no fim do corredor, parei diante do meu.

— Este é o meu.

— E o meu é este — Alicia disse, apontando a porta ao lado. — Eu avisei que estávamos dormindo praticamente juntas. Só uma parede nos separa.

Ela disse a última frase com um sorriso enviesado, sem pressa nenhuma. Eu balancei a cabeça, e o meu sorriso escapou junto. Passei o cartão na fechadura, e a luzinha ficou verde.

— Boa noite, Alicia.

— Boa noite, Nalú.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
D

Dessinha

30/09/2026 às 07:55

Essa história é maravilhosa. Esse clima praiano cheio de detalhes, essa professora maravilhosa que nos lembra aquela professora boa dos tempos de faculdade, e essa milionária cheia das intenções. Meu sonho é Nalú se deixar sentir o que sente.
M

MalluBlues 15/10/2026 às 11:59

Amo também, Dessinha! Estas histórias com praia. Nalú vai se deixar envolver sim... coisas acontecerão, mas o sentimento é sempre maior
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