Capítulo 12

Capítulo 12: A outra Nalú

de Nada Desvia o Destino, por MalluBlues

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Por Alicia:

Fiquei observando Nalú organizar os estudantes.

Ela terminava de conferir os equipamentos que seriam usados no trabalho do dia e, agora, passava de aluno em aluno, corrigindo uma coisa aqui, cobrando outra ali, sem elevar a voz e sem precisar repetir uma orientação.

Estava vestida com um jeans e uma blusa verde-oliva, com as mangas terminando pouco acima dos cotovelos, deixando seus braços bronzeados à mostra. Nada nela parecia ter sido escolhido para chamar atenção e mesmo assim chamava. E muito.

Nalú se abaixou para pegar uma caixa de equipamentos e a barra da blusa subiu o suficiente para revelar uma faixa de pele na cintura. Meus olhos ficaram ali, presos na pele de sol dela.

Lembrei do sonho. Péssima hora para lembrar dele.

Ela se levantou, prendeu o cabelo em um rabo baixo que deixou alguns fios escaparem na nuca. Depois se virou para Pedro e começou a explicar alguma coisa sobre os equipamentos.

Eu deveria estar prestando atenção ao que ela dizia.

Em vez disso, acompanhei o movimento da boca dela.

Cheia. Os cantos levemente voltados para cima. Havia alguma coisa naquela boca que me fazia pensar que ela estava sempre a um segundo de provocar alguém.

Ou de morder.

Fruta madura.

A imagem surgiu de repente e senti minha boca salivar.

Desviei os olhos por um instante, irritada comigo mesma.

Eu estava ali pelo trabalho. Ela também. Nalú era a responsável técnica pela equipe que produziria os dados de que a empresa precisava. Havia uma relação profissional entre nós, limites claros e uma quantidade considerável de razões para eu manter os olhos longe de onde eles estavam.

Além disso, eu era noiva. O anel estava no meu dedo e parecia subitamente mais pesado do que antes.

Olhei para Nalú outra vez.

E, apesar de todas as razões que eu tinha acabado de enumerar na minha mente, continuei olhando.

***

Nalú falava ao telefone com o motorista que viria buscar a equipe. Desligou alguns minutos depois, guardando o celular na bolsa.

— Ele chega em cinco minutos — anunciou, antes de se abaixar para pegar a maleta com os equipamentos.

A van apareceu praticamente no horário combinado. Era uma minivan branca, um pouco surrada, com um adesivo desbotado de alguma rádio local colado no para-brisa. O motorista desceu para ajudar com o equipamento.

Devia ter uns sessenta anos. Pele marcada pelo sol, cabelos grisalhos e um sorriso que se abriu inteiro assim que seus olhos encontraram Nalú.

— Ave-Maria, olha só quem apareceu! — disse, fechando a porta da van e vindo na direção dela. — A doutora Nalú.

Nalú abriu um sorriso diferente do que eu costumava ver nela.

— Seu Joaquim.

Ela o abraçou com carinho, e ele apertou os braços ao redor dela por um instante antes de se afastar para examiná-la melhor.

— Quanto tempo, menina. A última vez que te vi, tu tava com uma mochila nas costas e uma prancheta debaixo do braço. — Apontou o queixo para Isabela. — Mais nova que essa moça aí.

Isabela riu, provavelmente feliz com a comparação.

— E olha só pra ti agora. Virou professora doutora. — Joaquim bateu de leve no ombro dela. — Teu avô ia gostar de ver isso.

O sorriso de Nalú diminuiu um pouco.

Não desapareceu. Apenas mudou.

Alguma coisa passou pelo rosto dela rápido demais para eu decifrar. Não chegou a ser tristeza, mas também não era mais o mesmo sorriso de antes. Ela desviou os olhos por um instante e voltou a ajudar a acomodar as caixas.

— Ele ia mesmo — respondeu, mais baixo.

Joaquim não insistiu.

Terminamos de carregar o equipamento e entramos na van. Pedro foi na frente, ao lado de Joaquim. Tomás, Isabela e Marina ocuparam o banco de trás. Para nós, sobrou o banco do meio.
Nalú sentou primeiro, junto à janela. Sentei ao lado dela.

O espaço era estreito. Duas caixas de equipamento ocupavam parte do banco, obrigando-nos a ficar mais próximas.

— Pode seguir pela estrada da igreja — Nalú disse, inclinando-se para falar com Joaquim. — Depois eu vou te indicando.

— Pode deixar, doutora. Confio na senhora.

Ela revirou os olhos.

— Não começa, seu Joaquim.

— Ué. Agora que tu voltou importante, tenho que respeitar mais. — Joaquim disse, soltando uma gargalhada.

Nalú voltou a se acomodar ao meu lado, ainda sorrindo.

A van arrancou.

Nos primeiros minutos, ela ficou olhando pela janela, acompanhando a paisagem que começava a se afastar do hotel. De vez em quando, respondia alguma pergunta que Joaquim fazia.

Eu prestei atenção.

Ele queria saber da vida dela em Ventura, comentou sobre alguém que tinha se mudado para lá e, em algum momento, começou a reclamar do preço do peixe.

— Tá tudo caro demais, doutora. Peixe então... só sobe. Nunca desce.

— O senhor continua reclamando e aposto que continua comprando igual.

— Reclamar é de graça.

Nalú riu.

— Ainda bem.

Eu sorri sem querer.

Era estranho vê-la assim.

Eu nunca tinha visto esta versão dela. Mais solta. Mais jovem, talvez. A voz perdia a firmeza que costumava ter no trabalho. As respostas curtas, as pequenas piadas com Joaquim, a maneira como ria… tudo nela parecia mais leve. Era uma energia diferente da que eu conhecia. Mais viva. Mais difícil de ignorar. E devo confessar… era uma versão que me encantava.

— Ele te conhece desde criança — comentei, baixo.

Nalú virou o rosto para mim. Foi a proximidade que me deixou notar que os olhos verdes dela eram mais escuros perto da pupila e quase acinzentados nas bordas. Ela também tinha sardas discretas espalhadas pelo nariz quase invisíveis, do tipo que só se vê bem de perto.

— Conheceu minha família inteira.

— Dá para perceber.

Ela voltou a olhar pela janela.

— Aqui é assim. Todo mundo conhece todo mundo.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. O vento entrava pela janela entreaberta, trazendo um cheiro de mato molhado que eu não sabia identificar direito.

— Deve ser estranho voltar — falei. — Depois de tanto tempo. Ainda mais com todo mundo te chamando de doutora.

Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca dela.

— É estranho.

— Mas você gosta.

Ela demorou um pouco para responder.

— Gosto.

A paisagem passava pela janela, refletindo-se parcialmente no vidro. Nalú apoiou o braço na porta e continuou olhando para fora.

— Tem coisas que parecem diferentes quando a gente volta — disse. — E tem coisas que continuam exatamente no mesmo lugar.

— Como o seu Joaquim?

Ela sorriu.

— Principalmente o seu Joaquim.
Da frente, ele ouviu o próprio nome.

— Tô ouvindo, viu?

Nalú riu.

— Tá vendo? — Ela disse para mim, arqueando uma sobrancelha e sorrindo de um jeito lindo.

— E continuo bonito também — Joaquim disse, rindo.

— Isso já é discussão demais para uma manhã só.

Ele gargalhou novamente.

Eu acompanhei a risada deles.

Tinha vindo para aquela ilha pensando em números, prazos e relatórios. Naquele momento, nenhuma dessas coisas ocupava minha cabeça.

***

O céu tinha fechado desde a saída do hotel. Não chegava a ameaçar chuva, mas a luz havia perdido o brilho da manhã, deixando o mar quase da mesma cor das nuvens. Quando a estrada terminou e a vegetação abriu para a faixa de areia, o vento veio mais forte, fazendo com que toda a vegetação rasteira se curvasse para o mesmo lado, forte o bastante para fazer meu cabelo bater no rosto e obrigar Pedro a segurar a prancheta contra o peito.

Nalú parou alguns metros adiante, olhou para a praia e depois para o aparelho GPS que trazia nas mãos.

— Certo. Vamos começar pelo norte.

Todo mundo se aproximou dela.

— Pedro, fica com o outro GPS. Quero todas as coordenadas registradas. Marina, você vai com Tomás pela linha de vegetação. Quero comparação com o levantamento anterior, principalmente onde houver diferença de ocupação ou de limite. Isabela, você vem comigo.

Olhei para ela.

— E eu?

Nalú virou o rosto na minha direção. Me olhou de maneira intensa.

— Você vem comigo também, Alicia.

O olhar dela ficou no meu por um instante antes de seguir para os outros.

— Agora a gente vai fechar a coleta da manhã aqui. Depois disso, a gente sobe pra almoçar e, depois, retornamos.

A praia estava mais difícil de percorrer do que imaginei. A areia afundava sob os pés e as pedras deixavam o caminho irregular. Nalú caminhava na frente, parando de tempos em tempos para observar o terreno, comentar algo com Isabela, consultar o GPS ou fazer alguma anotação.

Eu a acompanhava.

De tão perto, era difícil não reparar nela.

A camiseta se movia com o vento e subia um pouco sempre que Nalú levantava os braços ou se inclinava para examinar alguma coisa. Em determinado momento, ela se abaixou perto de uma área de areia mais escura e apoiou uma das mãos no joelho.

Fiquei olhando.

Não para a área que ela examinava. Para a curva do quadril.

Desviei os olhos tarde demais. Ela virou e percebeu.

— O que foi? — disse, sentindo o olhar dela em mim.

Olhei para o rosto dela.

Meu olhar, traidor, desceu até a boca antes de eu conseguir impedir.

Nalú acompanhou o movimento e não disse nada. Apenas ergueu uma sobrancelha.

Senti o rosto esquentar.

— Precisa de alguma coisa? — perguntei, tentando transformar o constrangimento em alguma espécie de utilidade.

Ela me encarou por mais um instante. Havia um sorriso no canto da boca.

— Você pode olhar.

— O quê?

— O terreno. — Ela completou, apontando com o queixo para um trecho da areia. Os olhos brilhavam. — Só não pisa onde a Isabela já marcou.

Olhei para as pequenas fitas coloridas fincadas na areia.

— Certo.

Dei um passo para o lado.

— Assim?

O sorriso dela ficou maior dessa vez.

— Assim.

Fiquei com a nítida impressão de ter sido provocada de propósito e de ter caído direitinho.

***

— Alicia, senta aqui, se quiser. Isso vai demorar um pouco.

Nalú apontou para uma pedra plana próxima à água.

Sentei.

De onde estava, conseguia observá-la. Ela se abaixou na beira da água, as pernas dobradas, completamente concentrada no que fazia. Isabela estava ao lado, conferindo os registros. Elas utilizavam um aparelho dentro da água, aguardavam alguns segundos e anotavam os valores. Depois, enchiam os frascos até a marca indicada, tampavam, identificavam e guardavam tudo.

Quando ela se levantou, nossos olhos se encontraram de novo.

— Isso é pra quê, exatamente? — perguntei, porque senti que precisava dizer alguma coisa.

— Pra saber como a água está se comportando aqui. Se muda da manhã pra tarde, se muda com a maré, se muda ao longo do tempo.

— E vocês descobrem isso com uma coleta?

Ela limpou a mão na lateral da calça, se aproximando.

— Com uma, não. Com várias. Em horários diferentes, condições diferentes, períodos diferentes.

— Então demora.

Sorri.

Ela parou a poucos passos de mim.

— Demora sim e é por isso que estamos refazendo. Aquele levantamento sobre o trânsito de barcos na enseada no laudo anterior foi realizado em dois dias.

Meu sorriso desapareceu.

— E isso é pouco?

— É quase nada.

Nalú apontou para o mar.

— A circulação muda. Tem época em que os pescadores passam mais por um lado, época em que usam outro. Depende do vento, da maré, do peixe que estão procurando, do horário de saída e de retorno.

O celular vibrou no meu bolso.

Olhei a tela. Era a equipe de marketing.

— Preciso atender.

Afastei-me alguns passos antes de aceitar a ligação. A conversa durou pouco. Quando desliguei, encontrei Nalú guardando os últimos frascos na caixa térmica.

— Vou precisar voltar para o hotel — falei. — O pessoal do marketing chegou. Vou ter uma reunião com a equipe que vai fotografar as pousadas da ilha.

Nalú ergueu os olhos e percebi sua expressão mudando de leve.

— As pousadas do resort?

— Sim.

Ela ficou me olhando por um instante.

— O resort está embargado, Alicia.

— Eu sei.

— E vocês vão fotografar algo que não tem legalidade de funcionamento?

Percebi o olhar de Isabela em nossa direção e baixei um pouco o tom.

— É uma forma de adiantar serviço. Quando o embargo cair, não quero começar tudo do zero.

Ela fechou a caixa com um pouco mais de força do que precisava.

— O seu excesso de confiança não me surpreende em nada, sabia?

O tom dela continuava mais sério. Mesmo assim, havia um sorriso começando a aparecer no canto da boca.

— Eu admito que estou positiva. Não tem margem de erro comigo, só acertos, Doutora Nalú.

Nalú sustentou meu olhar. Demorou a responder, e quando respondeu, estreitou levemente os olhos e um sorriso pequeno apareceu em seu rosto.

— Está certo. Até amanhã, Alicia.

— Até amanhã, não. Até breve. Ou já esqueceu que estamos dormindo praticamente juntas?

Não esperei resposta. Virei de costas antes que meu rosto entregasse alguma coisa.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

3
H

HelOliveira

24/09/2026 às 23:46

Estou gostando muito, comecei a ler hoje a não parei até chegar aqui
M

MalluBlues 29/09/2026 às 14:31

Hel, acabei de postar mais dois capítulos. Espero que goste!!!
D

Dessinha

18/09/2026 às 12:22

Eu sou muito suspeita pra falar, mas que conto maravilhoso. Estou adotando. Só falta um beijinho daqueles bons pra alimentar mais as coisas.
M

MalluBlues 29/09/2026 às 14:31

Seu pedido foi um ordem, Dessinha! hahaha Espero que goste dos dois novos capítulos e que continue acompanhando.
M

marianaaleao

17/09/2026 às 21:07

Tenho a ligeira impressão que esses quartos juntos foi intencional.
M

MalluBlues 29/09/2026 às 14:30

E tá certa, Marina. As duas estão pertinho uma da outra.
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