Por Nalú:
— Antes de qualquer coisa, quero ver os coletores de amostra. Todas as caixas e maletas abertas em cima da mesa, por favor.
Os estudantes se entreolharam. Pedro foi o primeiro a seguir minha ordem.
— Professora, a gente já conferiu ontem — Isabela disse, os olhos ainda meio fechados, de quem não dormiu direito.
— E vamos conferir de novo agora, porque a cara de sono de alguns aqui não está me dando muita confiança.
Marina riu e já foi abrindo as caixas e maletas. Ao lado dela, Isabela revirou os olhos e pegou a lista de materiais para começar a conferência.
Fui de item em item. Kit de pH, frascos esterilizados, GPS, as pranchetas plastificadas com as fichas de campo que eu mesma tinha revisado três vezes na semana anterior. Faltava um kit de análise de água na bolsa que Tomás jurou estar lá. Foi procurar na sala e voltou alguns minutos depois com o kit na mão, sem graça.
Ninguém morria por aquilo. E eu preferia brigar por uma coisa dessas agora a perder um dia inteiro de coleta lá na frente porque tinha faltado material.
— Certo. — Bati a palma da mão na mesa, um gesto que virou hábito depois de anos dando aula. — Duas coisas antes de sairmos. Primeira: na ilha de Itamaré, vocês são pesquisadores, não turistas. Ninguém vai ficar tirando selfies e fotografando gaivotas ou a rede de um pescador em horário de pesquisa. Segunda: se alguém da comunidade perguntar algo que vocês não sabem responder, a resposta sempre vai ser "vou perguntar pra minha professora". Entendido?
— Entendido — responderam, quase em coro, com aquele entusiasmo que em breve seria testado pelo clima quente e um barco balançando.
Carregamos os dois carros. Comigo, foram Isabela, Marina e o material mais frágil. No outro, Tomás e Pedro, com as caixas de isopor amarradas no porta-malas com um suporte que eu mesma prendi, porque não confiei no dó que eles haviam dado.
A estrada até a plataforma cortava um trecho de mata. Fizemos o trajeto quase em silêncio, os alunos no banco de trás comentando alguma coisa sobre uma série, e eu prestando atenção só o suficiente pra rir no momento certo.
Na plataforma, o barco já estava encostado. O senhor Osvaldo aguardava todos. Era o mesmo piloto de sempre. Um ajudante passou as caixas de equipamentos por cima da amurada enquanto Osvaldo reclamava do preço da gasolina marítima, um assunto que ele trazia à tona desde que eu tinha uns 18 anos e saía de Itamaré para Ventura.
O mar estava manso. Assim que o motor pegou e a costa começou a se afastar, alguma coisa em mim relaxou e apertou ao mesmo tempo, do jeito que sempre acontece nessa travessia. Lembrar dos meus avós foi inevitável. Toda vez que fazia aquele trajeto, meus avós apareciam na memória sem que eu precisasse chamá-los.
Peguei meu celular para checar a hora e vi que tinha sinal, o que em alto-mar é sempre uma surpresa boa. Aproveitei para enviar uma mensagem para Alicia.
“Bom dia! Tudo bem? Preciso falar com você quando chegarmos.”
A resposta veio quase instantaneamente.
“ Bom dia! Ia te enviar uma mensagem agora, perguntando se já estavam a caminho. Que horas vocês chegam?”
“Estamos no barco. Devemos atracar por volta das 9h.”
“Ótimo! Fiquem no cais, já consegui um motorista pra buscar vocês.”
“Não precisa, a gente resolve.”
Alicia insistiu: “Vocês estão com muito equipamento e não vai ter aplicativo disponível pra fazer duas viagens até o hotel. Já está resolvido, só aguardar no cais. E conversamos quando você chegar ao hotel.”
Fiquei olhando a tela.
“Tudo bem”, respondi, e guardei o celular na bolsa.
Olhei para os meus estudantes. Tomás tirava fotos da água com o celular erguido, tentando enquadrar alguma coisa que só ele estava vendo. Pedro estava debruçado sobre o cronograma da semana, fazendo anotações. E Marina e Isabela estavam sentadas de encontro à amurada, ombro contra ombro, Isabela com a cabeça baixa mostrando alguma coisa no celular e Marina rindo baixo, aquele riso que a gente solta perto de alguém que a gente já conhece bem.
Fiquei feliz por elas. E, sem pedir licença, o pensamento escorregou para Alicia.
Lembrei do jeito que ela me olha quando está prestes a discordar de mim. Os olhos castanhos se estreitam um pouco antes da boca formar qualquer palavra. Lembrei do sorriso de canto que aparece quando ela acha que venceu em algum argumento ou quando… Por que estou pensando nisso?
Somos de mundos que não se cruzam em nenhum outro contexto. Ela cresceu sabendo que tinha o mundo em suas mãos e ouvindo sobre balanços orçamentários na mesa de almoço. Eu cresci ouvindo sobre maré e sobre rede que rendeu pouco naquele mês. Ela representa a empresa que financia meu programa. Em qualquer roteiro razoável, isso deveria bastar para manter distância.
O barco encostou às nove e cinco, cinco minutos depois do previsto. O cais de Itamaré nunca muda muito de uma viagem para outra. Mesmo que a minha última viagem tenha sido realizada há anos, eram as mesmas tábuas desbotadas pelo sol, o mesmo cheiro de peixe fresco vindo da bancada onde alguém tinha limpado a pesca da manhã.
Um grupo de crianças correu pela beira olhando para nós enquanto descíamos com as caixas, curiosas com o material, até que uma senhora gritou de longe chamando-as e o grupo se desfez.
O motorista já estava esperando, encostado em uma van preta com o nome Sá Noronha estampado na porta.
— Bom dia! Dona Nalú? — perguntou, olhando pra mim. — Vim buscar o grupo da dona Alicia.
— Bom dia! Sou eu mesma — confirmei, ajudando Tomás a acomodar a última caixa. — Será que cabe tudo?
— Cabe.
Levamos alguns minutos para carregar a van. Os estudantes foram passando caixa por caixa em uma corrente improvisada enquanto eu conferia cada uma na lista antes de deixar entrar. O motorista esperou com paciência.
***
A estrada que liga o cais ao Hotel Pedras Brancas corta a vila por dentro, passando pela igrejinha branca com o sino que ainda toca na hora certa, pelo mercadinho do seu Zeca com as redes de pesca penduradas na varanda que servem como decoração e mercadoria ao mesmo tempo, pela escola onde eu mesma estudei até os dezessete anos, antes de me mudar para Ventura e fazer faculdade.
Os alunos ficaram colados na janela feito criança na primeira viagem de ônibus escolar, apontando pra tudo. Deixei que aproveitassem. Esse espanto inicial não dura, e faz parte do trabalho de campo, esse primeiro contato antes de tudo virar rotina de coleta, anotação e planilha.
A van subiu a última ladeira e o Hotel Pedras Brancas apareceu entre duas fileiras de coqueiro, a fachada baixa e branca contra o verde escuro do morro atrás. Uma construção luxuosa com uma vista de tirar o fôlego. Dali dava para ver a baía inteira se abrindo lá embaixo e os barcos ancorados como pontos coloridos na água do mar.
Foi só quando a van parou na entrada do hotel que percebi uma ansiedade tomando conta do meu corpo, que eu já sentia um pouco tenso.
Entrei no saguão do hotel Pedras Brancas um passo atrás dos estudantes, ainda com a maresia grudada na roupa. O teto era alto e o ar vinha gelado demais depois do calor do cais, o tipo de choque que faz a pele arrepiar e, na hora, acreditei que aquele era o único motivo.
Alicia estava perto da recepção, de costas para um dos balcões, falando baixo com dois funcionários de uniforme. Tinha trocado a roupa de trabalho por um macacão de linho cor areia, que deixava seus ombros à mostra. Nos pés usava uma sandália rasteira. O cabelo estava molhado e penteado para trás. Nada daquilo combinava com as versões dela que eu já conhecia. Precisei de um tempo para desviar os olhos da pele exposta nos ombros dela.
Os estudantes pararam de falar assim que passaram pela porta de vidro. Tomás cutucou o braço de Pedro, achando que ninguém tinha visto. Isabela sussurrou algo no ouvido de Marina, que respondeu com um sorriso torto. Aquilo estava longe do que a maioria deles devia imaginar quando eu falei em "hospedagem de trabalho de campo".
— Bom dia! — Alicia se aproximou com os dois funcionários ao seu lado. — Fizeram uma boa viagem?
— Ótima — respondeu Pedro, rápido demais, a voz saindo mais aguda do que ele devia pretender.
Os outros confirmaram com aceno de cabeça, olhos ainda percorrendo o salão.
Ela se virou pra mim, e o jeito como me olhou de cima a baixo fez com que eu esquecesse o que ia dizer em seguida.
— Vocês sobreviveram à travessia — disse, com um quê de gozação na voz. — Vou anotar isso como ponto positivo.
— Não anote rápido demais.
Ela riu sorriu e fez sinal para um dos funcionários em direção às caixas na van.
— Jean e Maurício vão levar os equipamentos direto pro quarto que deixei reservado. Acredito que comporta todo o material. — Estendeu o cartão. — O cartão deste quarto também fica com você.
Os dedos dela roçaram os meus na troca, um contato que não precisava ter acontecido daquele jeito. Segurei o cartão com firmeza e recolhi a mão rápido demais pra parecer natural.
— Obrigada. Podemos deixar os itens pessoais nos quartos antes de começarmos?
— Claro. — Ela apontou para o balcão, e sua mão quente pousou no meu braço no meio do gesto. — Vão até a recepção finalizar o check-in. E eu fico aqui esperando.
Alicia parecia ter acabado de sair do banho. O perfume dela veio junto com o toque, fresco e delicado. Não comentei nada. Apenas segui para a recepção.
A funcionária deu um sorriso simpático, conferiu os documentos e informou que teríamos quatro quartos no terceiro andar. Um para os equipamentos, um para Pedro e Tomás, um para Marina e Isabela e um só pra mim.
Fazia sentido. Dividir quarto com algum deles seria estranho. Talvez mais estranho ainda para eles, pensei, achando graça da própria linha de raciocínio.
Subimos pelo elevador e quando chegamos ao terceiro andar, avisei:
— Deixem pra desfazer a mala quando voltarmos. Temos muito trabalho hoje.
— Prof, que hotel chique! — Tomás falou, atrás de Pedro.
— Vamos dormir bem, pelo menos — Pedro sorriu.
O quarto dos dois ficava ao lado do de Marina e Isabela. O meu ficava mais afastado, no fim do corredor.
Larguei a mala aos pés da cama e fui direto para a janela. A vista pegava o mar de Itamaré em um ângulo que eu nunca tinha visto de perto. Cresci do outro lado dessa mesma praia, onde as casas são baixas e as redes secam no varal ao lado da roupa lavada. Daquela altura, a ilha parecia outra coisa.
Voltei para o corredor e encontrei os estudantes já reunidos. Descemos juntos até o saguão. Alicia nos esperava, agora encostada em uma coluna, com os braços cruzados.
— Bom... agora que se acomodaram, imagino que estejam com fome. — Sorriu para o grupo, e só depois deslizou os olhos até mim. — Pedi que separassem uma mesa pra vocês tomarem um café reforçado antes de começar.
— Não precisava se incomodar com isso — falei, sem jeito com a maneira como ela me olhava.
— Não é incômodo nenhum. — Deu um passo mais perto, o suficiente pra baixar a voz sem precisar sussurrar. — E já que você disse que precisava falar comigo, pensei que podia ser agora. No café.
— Ótimo.
Ela sorriu, e seguimos na frente até o restaurante. Era um salão inteiro voltado para o mar, com mesas de madeira maciça, espaçadas o suficiente para preservar a conversa de uma mesa para outra. Uma teoria que caiu por terra assim que entramos: a acústica ali era boa até demais.
— Tô com uma fome — Pedro comentou, vindo logo atrás de nós. — Fiquei com medo de comer antes do barco e passar mal.
— Imagina gorfar na frente da nossa prof preferida — Tomás disse, rindo da própria piada.
As meninas riram junto.
— Aí tu ia acabar com qualquer chance de impressionar ela — Marina provocou.
Pedro soltou uma risada curta, meio sem graça.
— Chance de quê?
— Ah, não te faz de sonso — Marina respondeu. — Tu fica todo diferente quando ela tá por perto.
— Vocês estão viajando.
— Aham — Tomás riu. — A gente nunca percebe nada.
— Vocês são muito idiotas.
Continuei caminhando sem me virar.
Eu já sabia.
Pedro havia me procurado alguns meses depois da graduação e me convidado para sair. Recusei. Não precisei de muito tempo para entender o que havia por trás daquele convite, nem quis deixar espaço para que ele pudesse interpretá-lo de outra maneira.
Naquele momento, imaginei que bastaria.
Alguns meses depois, porém, o nome dele apareceu entre os selecionados para trabalhar no PAICI.
Lembro de ter parado diante da lista por alguns segundos.
Não havia nada de errado com a escolha. Pedro era competente, tinha sido um ótimo aluno e merecia a oportunidade.
Desde que ele entrou no programa, mantive a distância que considerei necessária. Delegava a ele tarefas que exigissem pouco contato direto, evitava situações desnecessárias e jamais transformei o assunto em uma conversa entre nós. Não havia necessidade. Eu sabia do interesse dele. Ele sabia que eu havia recusado o convite. E, até ali, aquele silêncio parecia suficiente.
Atrás de mim, as risadas continuaram por mais alguns segundos, até que a conversa tomou outro rumo.
Foi só quando nos aproximamos de uma das mesas que Alicia se inclinou discretamente na minha direção e falou em baixa intensidade:
— Ele cora até a orelha quando falam o seu nome para ele. Sabia?
Olhei pra ela.
— Do que você está falando?
— Do seu aluno ali. — Ela fez um aceno mínimo de queixo na direção do Pedro, sem nem olhar direito para trás. — Passei cinco minutos com vocês e já deu para perceber.
— Não sei aonde você quer chegar.
— A lugar nenhum. — Ela sorriu. — Só achei engraçado. Super clichê, né? Todo mundo se apaixonando pela professora.
Não respondi nada. Respirei fundo e a acompanhei.
Alicia apontou a mesa para os quatro estudantes.
— Fiquem à vontade. Eu vou roubar a professora preferida de vocês por alguns instantes.
O restaurante estava praticamente vazio àquela hora. Tarde demais para o café da manhã, cedo demais para o almoço. Havia um bufê comprido, encostado na parede de vidro que dava direto para o mar, com travessas de frutas cortadas em cubos perfeitos, potes de granola, vários pães ainda mornos e diversos tipos de queijo. Do outro lado, uma mesa de sucos naturais com um funcionário que estava ali só para preparar o suco na hora.
Alicia se serviu com ovos mexidos, uma fatia de bolo e café puro, sem açúcar. Eu peguei salada de frutas, um sanduíche natural e um suco de frutas vermelhas.
Fomos para uma mesa menor, isolada em um canto, de onde ainda dava para ver os quatro no meio das risadas.
— Está um pouco tarde pra tomar café — falei, acomodando a bandeja na mesa.
— Um pouco. Mas encara como um brunch. Assim saímos bem alimentadas. — Ela cortou o ovo com o garfo, sem pressa nenhuma, e me olhou.
— Saímos? — Arqueei uma sobrancelha.
— Sim. Quero participar do que vocês programaram pra hoje, se você não se importar.
— Não me importo, não. Já tínhamos combinado isso. Mas devo avisar que pode ser meio entediante pra você.
— Acho que não. — Deu uma olhada rápida pra mesa dos estudantes, o sorriso subindo só de um lado. — Percebi como seus alunos estão animados. Vai ser divertido.
— Veremos se ainda pensará assim no final do dia.
Ela bebeu um gole de café antes de continuar. Estava com os olhos fixos nos meus por cima da xícara, sem nenhuma pressa em desviar.
— Você comentou mais cedo que queria falar comigo.
— Sim. Tenho uma notícia que acho que vai melhorar ainda mais seu humor.
— Uma boa notícia? — Ela sorriu, inclinando o corpo para frente, colocando os cotovelos na mesa. — Sou toda ouvidos.
— Depois de analisar os dados levantados pela equipe que fez o laudo anterior, percebi que dá pra aproveitar parte do material.
Ela me olhou intensamente e balançou a cabeça, em um gesto curto, pedindo que eu continuasse.
— Vamos ter que redimensionar os cálculos deles com dados atuais, mas não é um trabalho que precisa ser refeito do zero. E ainda consigo usar alguns estudos acadêmicos anteriores como base, então...
— Então... — ela repetiu, o meio sorriso subindo de novo. Aquilo mexeu comigo. Alicia tinha esse dom. Sabia exatamente o efeito que causava.
— Então — retomei, recuperando o fio da meada. — Vamos economizar tempo.
— Isso é ótimo, Nalú.
Ela pousou a mão sobre a minha em cima da mesa. Foi o gesto somado à intensidade do olhar que fez alguma coisa em mim amolecer sem permissão. Alicia era linda e sabia disso. Fiquei paralisada por um segundo antes de puxar a mão de volta, devagar, olhando para o lado.
Ela percebeu o meu desconforto. Pigarreou, um som pequeno que quebrou um pouco da tensão.
— Isso é ótimo — repetiu, mais contida. — Já começamos com o pé direito.
Ela recolheu a mão de volta ao colo de um jeito natural.
Terminamos o café sem voltar ao assunto. Quando me levantei para chamar os estudantes, senti o olhar dela nas minhas costas.
— Bora, gente — falei, batendo de leve na mesa deles. — A praia não vai esperar a digestão de ninguém.
Pedro se levantou rápido. Tomás sorriu e pegou uma bolsa com os equipamentos. Peguei a outra maleta e me virei. Alicia já estava ali, por perto. Quando nossos olhos se encontraram, havia alguma coisa em sua expressão que me fez esquecer, por um instante, para onde eu estava indo.
— Antes de qualquer coisa, quero ver os coletores de amostra. Todas as caixas e maletas abertas em cima da mesa, por favor.
Os estudantes se entreolharam. Pedro foi o primeiro a seguir minha ordem.
— Professora, a gente já conferiu ontem — Isabela disse, os olhos ainda meio fechados, de quem não dormiu direito.
— E vamos conferir de novo agora, porque a cara de sono de alguns aqui não está me dando muita confiança.
Marina riu e já foi abrindo as caixas e maletas. Ao lado dela, Isabela revirou os olhos e pegou a lista de materiais para começar a conferência.
Fui de item em item. Kit de pH, frascos esterilizados, GPS, as pranchetas plastificadas com as fichas de campo que eu mesma tinha revisado três vezes na semana anterior. Faltava um kit de análise de água na bolsa que Tomás jurou estar lá. Foi procurar na sala e voltou alguns minutos depois com o kit na mão, sem graça.
Ninguém morria por aquilo. E eu preferia brigar por uma coisa dessas agora a perder um dia inteiro de coleta lá na frente porque tinha faltado material.
— Certo. — Bati a palma da mão na mesa, um gesto que virou hábito depois de anos dando aula. — Duas coisas antes de sairmos. Primeira: na ilha de Itamaré, vocês são pesquisadores, não turistas. Ninguém vai ficar tirando selfies e fotografando gaivotas ou a rede de um pescador em horário de pesquisa. Segunda: se alguém da comunidade perguntar algo que vocês não sabem responder, a resposta sempre vai ser "vou perguntar pra minha professora". Entendido?
— Entendido — responderam, quase em coro, com aquele entusiasmo que em breve seria testado pelo clima quente e um barco balançando.
Carregamos os dois carros. Comigo, foram Isabela, Marina e o material mais frágil. No outro, Tomás e Pedro, com as caixas de isopor amarradas no porta-malas com um suporte que eu mesma prendi, porque não confiei no dó que eles haviam dado.
A estrada até a plataforma cortava um trecho de mata. Fizemos o trajeto quase em silêncio, os alunos no banco de trás comentando alguma coisa sobre uma série, e eu prestando atenção só o suficiente pra rir no momento certo.
Na plataforma, o barco já estava encostado. O senhor Osvaldo aguardava todos. Era o mesmo piloto de sempre. Um ajudante passou as caixas de equipamentos por cima da amurada enquanto Osvaldo reclamava do preço da gasolina marítima, um assunto que ele trazia à tona desde que eu tinha uns 18 anos e saía de Itamaré para Ventura.
O mar estava manso. Assim que o motor pegou e a costa começou a se afastar, alguma coisa em mim relaxou e apertou ao mesmo tempo, do jeito que sempre acontece nessa travessia. Lembrar dos meus avós foi inevitável. Toda vez que fazia aquele trajeto, meus avós apareciam na memória sem que eu precisasse chamá-los.
Peguei meu celular para checar a hora e vi que tinha sinal, o que em alto-mar é sempre uma surpresa boa. Aproveitei para enviar uma mensagem para Alicia.
“Bom dia! Tudo bem? Preciso falar com você quando chegarmos.”
A resposta veio quase instantaneamente.
“ Bom dia! Ia te enviar uma mensagem agora, perguntando se já estavam a caminho. Que horas vocês chegam?”
“Estamos no barco. Devemos atracar por volta das 9h.”
“Ótimo! Fiquem no cais, já consegui um motorista pra buscar vocês.”
“Não precisa, a gente resolve.”
Alicia insistiu: “Vocês estão com muito equipamento e não vai ter aplicativo disponível pra fazer duas viagens até o hotel. Já está resolvido, só aguardar no cais. E conversamos quando você chegar ao hotel.”
Fiquei olhando a tela.
“Tudo bem”, respondi, e guardei o celular na bolsa.
Olhei para os meus estudantes. Tomás tirava fotos da água com o celular erguido, tentando enquadrar alguma coisa que só ele estava vendo. Pedro estava debruçado sobre o cronograma da semana, fazendo anotações. E Marina e Isabela estavam sentadas de encontro à amurada, ombro contra ombro, Isabela com a cabeça baixa mostrando alguma coisa no celular e Marina rindo baixo, aquele riso que a gente solta perto de alguém que a gente já conhece bem.
Fiquei feliz por elas. E, sem pedir licença, o pensamento escorregou para Alicia.
Lembrei do jeito que ela me olha quando está prestes a discordar de mim. Os olhos castanhos se estreitam um pouco antes da boca formar qualquer palavra. Lembrei do sorriso de canto que aparece quando ela acha que venceu em algum argumento ou quando… Por que estou pensando nisso?
Somos de mundos que não se cruzam em nenhum outro contexto. Ela cresceu sabendo que tinha o mundo em suas mãos e ouvindo sobre balanços orçamentários na mesa de almoço. Eu cresci ouvindo sobre maré e sobre rede que rendeu pouco naquele mês. Ela representa a empresa que financia meu programa. Em qualquer roteiro razoável, isso deveria bastar para manter distância.
O barco encostou às nove e cinco, cinco minutos depois do previsto. O cais de Itamaré nunca muda muito de uma viagem para outra. Mesmo que a minha última viagem tenha sido realizada há anos, eram as mesmas tábuas desbotadas pelo sol, o mesmo cheiro de peixe fresco vindo da bancada onde alguém tinha limpado a pesca da manhã.
Um grupo de crianças correu pela beira olhando para nós enquanto descíamos com as caixas, curiosas com o material, até que uma senhora gritou de longe chamando-as e o grupo se desfez.
O motorista já estava esperando, encostado em uma van preta com o nome Sá Noronha estampado na porta.
— Bom dia! Dona Nalú? — perguntou, olhando pra mim. — Vim buscar o grupo da dona Alicia.
— Bom dia! Sou eu mesma — confirmei, ajudando Tomás a acomodar a última caixa. — Será que cabe tudo?
— Cabe.
Levamos alguns minutos para carregar a van. Os estudantes foram passando caixa por caixa em uma corrente improvisada enquanto eu conferia cada uma na lista antes de deixar entrar. O motorista esperou com paciência.
***
A estrada que liga o cais ao Hotel Pedras Brancas corta a vila por dentro, passando pela igrejinha branca com o sino que ainda toca na hora certa, pelo mercadinho do seu Zeca com as redes de pesca penduradas na varanda que servem como decoração e mercadoria ao mesmo tempo, pela escola onde eu mesma estudei até os dezessete anos, antes de me mudar para Ventura e fazer faculdade.
Os alunos ficaram colados na janela feito criança na primeira viagem de ônibus escolar, apontando pra tudo. Deixei que aproveitassem. Esse espanto inicial não dura, e faz parte do trabalho de campo, esse primeiro contato antes de tudo virar rotina de coleta, anotação e planilha.
A van subiu a última ladeira e o Hotel Pedras Brancas apareceu entre duas fileiras de coqueiro, a fachada baixa e branca contra o verde escuro do morro atrás. Uma construção luxuosa com uma vista de tirar o fôlego. Dali dava para ver a baía inteira se abrindo lá embaixo e os barcos ancorados como pontos coloridos na água do mar.
Foi só quando a van parou na entrada do hotel que percebi uma ansiedade tomando conta do meu corpo, que eu já sentia um pouco tenso.
Entrei no saguão do hotel Pedras Brancas um passo atrás dos estudantes, ainda com a maresia grudada na roupa. O teto era alto e o ar vinha gelado demais depois do calor do cais, o tipo de choque que faz a pele arrepiar e, na hora, acreditei que aquele era o único motivo.
Alicia estava perto da recepção, de costas para um dos balcões, falando baixo com dois funcionários de uniforme. Tinha trocado a roupa de trabalho por um macacão de linho cor areia, que deixava seus ombros à mostra. Nos pés usava uma sandália rasteira. O cabelo estava molhado e penteado para trás. Nada daquilo combinava com as versões dela que eu já conhecia. Precisei de um tempo para desviar os olhos da pele exposta nos ombros dela.
Os estudantes pararam de falar assim que passaram pela porta de vidro. Tomás cutucou o braço de Pedro, achando que ninguém tinha visto. Isabela sussurrou algo no ouvido de Marina, que respondeu com um sorriso torto. Aquilo estava longe do que a maioria deles devia imaginar quando eu falei em "hospedagem de trabalho de campo".
— Bom dia! — Alicia se aproximou com os dois funcionários ao seu lado. — Fizeram uma boa viagem?
— Ótima — respondeu Pedro, rápido demais, a voz saindo mais aguda do que ele devia pretender.
Os outros confirmaram com aceno de cabeça, olhos ainda percorrendo o salão.
Ela se virou pra mim, e o jeito como me olhou de cima a baixo fez com que eu esquecesse o que ia dizer em seguida.
— Vocês sobreviveram à travessia — disse, com um quê de gozação na voz. — Vou anotar isso como ponto positivo.
— Não anote rápido demais.
Ela riu sorriu e fez sinal para um dos funcionários em direção às caixas na van.
— Jean e Maurício vão levar os equipamentos direto pro quarto que deixei reservado. Acredito que comporta todo o material. — Estendeu o cartão. — O cartão deste quarto também fica com você.
Os dedos dela roçaram os meus na troca, um contato que não precisava ter acontecido daquele jeito. Segurei o cartão com firmeza e recolhi a mão rápido demais pra parecer natural.
— Obrigada. Podemos deixar os itens pessoais nos quartos antes de começarmos?
— Claro. — Ela apontou para o balcão, e sua mão quente pousou no meu braço no meio do gesto. — Vão até a recepção finalizar o check-in. E eu fico aqui esperando.
Alicia parecia ter acabado de sair do banho. O perfume dela veio junto com o toque, fresco e delicado. Não comentei nada. Apenas segui para a recepção.
A funcionária deu um sorriso simpático, conferiu os documentos e informou que teríamos quatro quartos no terceiro andar. Um para os equipamentos, um para Pedro e Tomás, um para Marina e Isabela e um só pra mim.
Fazia sentido. Dividir quarto com algum deles seria estranho. Talvez mais estranho ainda para eles, pensei, achando graça da própria linha de raciocínio.
Subimos pelo elevador e quando chegamos ao terceiro andar, avisei:
— Deixem pra desfazer a mala quando voltarmos. Temos muito trabalho hoje.
— Prof, que hotel chique! — Tomás falou, atrás de Pedro.
— Vamos dormir bem, pelo menos — Pedro sorriu.
O quarto dos dois ficava ao lado do de Marina e Isabela. O meu ficava mais afastado, no fim do corredor.
Larguei a mala aos pés da cama e fui direto para a janela. A vista pegava o mar de Itamaré em um ângulo que eu nunca tinha visto de perto. Cresci do outro lado dessa mesma praia, onde as casas são baixas e as redes secam no varal ao lado da roupa lavada. Daquela altura, a ilha parecia outra coisa.
Voltei para o corredor e encontrei os estudantes já reunidos. Descemos juntos até o saguão. Alicia nos esperava, agora encostada em uma coluna, com os braços cruzados.
— Bom... agora que se acomodaram, imagino que estejam com fome. — Sorriu para o grupo, e só depois deslizou os olhos até mim. — Pedi que separassem uma mesa pra vocês tomarem um café reforçado antes de começar.
— Não precisava se incomodar com isso — falei, sem jeito com a maneira como ela me olhava.
— Não é incômodo nenhum. — Deu um passo mais perto, o suficiente pra baixar a voz sem precisar sussurrar. — E já que você disse que precisava falar comigo, pensei que podia ser agora. No café.
— Ótimo.
Ela sorriu, e seguimos na frente até o restaurante. Era um salão inteiro voltado para o mar, com mesas de madeira maciça, espaçadas o suficiente para preservar a conversa de uma mesa para outra. Uma teoria que caiu por terra assim que entramos: a acústica ali era boa até demais.
— Tô com uma fome — Pedro comentou, vindo logo atrás de nós. — Fiquei com medo de comer antes do barco e passar mal.
— Imagina gorfar na frente da nossa prof preferida — Tomás disse, rindo da própria piada.
As meninas riram junto.
— Aí tu ia acabar com qualquer chance de impressionar ela — Marina provocou.
Pedro soltou uma risada curta, meio sem graça.
— Chance de quê?
— Ah, não te faz de sonso — Marina respondeu. — Tu fica todo diferente quando ela tá por perto.
— Vocês estão viajando.
— Aham — Tomás riu. — A gente nunca percebe nada.
— Vocês são muito idiotas.
Continuei caminhando sem me virar.
Eu já sabia.
Pedro havia me procurado alguns meses depois da graduação e me convidado para sair. Recusei. Não precisei de muito tempo para entender o que havia por trás daquele convite, nem quis deixar espaço para que ele pudesse interpretá-lo de outra maneira.
Naquele momento, imaginei que bastaria.
Alguns meses depois, porém, o nome dele apareceu entre os selecionados para trabalhar no PAICI.
Lembro de ter parado diante da lista por alguns segundos.
Não havia nada de errado com a escolha. Pedro era competente, tinha sido um ótimo aluno e merecia a oportunidade.
Desde que ele entrou no programa, mantive a distância que considerei necessária. Delegava a ele tarefas que exigissem pouco contato direto, evitava situações desnecessárias e jamais transformei o assunto em uma conversa entre nós. Não havia necessidade. Eu sabia do interesse dele. Ele sabia que eu havia recusado o convite. E, até ali, aquele silêncio parecia suficiente.
Atrás de mim, as risadas continuaram por mais alguns segundos, até que a conversa tomou outro rumo.
Foi só quando nos aproximamos de uma das mesas que Alicia se inclinou discretamente na minha direção e falou em baixa intensidade:
— Ele cora até a orelha quando falam o seu nome para ele. Sabia?
Olhei pra ela.
— Do que você está falando?
— Do seu aluno ali. — Ela fez um aceno mínimo de queixo na direção do Pedro, sem nem olhar direito para trás. — Passei cinco minutos com vocês e já deu para perceber.
— Não sei aonde você quer chegar.
— A lugar nenhum. — Ela sorriu. — Só achei engraçado. Super clichê, né? Todo mundo se apaixonando pela professora.
Não respondi nada. Respirei fundo e a acompanhei.
Alicia apontou a mesa para os quatro estudantes.
— Fiquem à vontade. Eu vou roubar a professora preferida de vocês por alguns instantes.
O restaurante estava praticamente vazio àquela hora. Tarde demais para o café da manhã, cedo demais para o almoço. Havia um bufê comprido, encostado na parede de vidro que dava direto para o mar, com travessas de frutas cortadas em cubos perfeitos, potes de granola, vários pães ainda mornos e diversos tipos de queijo. Do outro lado, uma mesa de sucos naturais com um funcionário que estava ali só para preparar o suco na hora.
Alicia se serviu com ovos mexidos, uma fatia de bolo e café puro, sem açúcar. Eu peguei salada de frutas, um sanduíche natural e um suco de frutas vermelhas.
Fomos para uma mesa menor, isolada em um canto, de onde ainda dava para ver os quatro no meio das risadas.
— Está um pouco tarde pra tomar café — falei, acomodando a bandeja na mesa.
— Um pouco. Mas encara como um brunch. Assim saímos bem alimentadas. — Ela cortou o ovo com o garfo, sem pressa nenhuma, e me olhou.
— Saímos? — Arqueei uma sobrancelha.
— Sim. Quero participar do que vocês programaram pra hoje, se você não se importar.
— Não me importo, não. Já tínhamos combinado isso. Mas devo avisar que pode ser meio entediante pra você.
— Acho que não. — Deu uma olhada rápida pra mesa dos estudantes, o sorriso subindo só de um lado. — Percebi como seus alunos estão animados. Vai ser divertido.
— Veremos se ainda pensará assim no final do dia.
Ela bebeu um gole de café antes de continuar. Estava com os olhos fixos nos meus por cima da xícara, sem nenhuma pressa em desviar.
— Você comentou mais cedo que queria falar comigo.
— Sim. Tenho uma notícia que acho que vai melhorar ainda mais seu humor.
— Uma boa notícia? — Ela sorriu, inclinando o corpo para frente, colocando os cotovelos na mesa. — Sou toda ouvidos.
— Depois de analisar os dados levantados pela equipe que fez o laudo anterior, percebi que dá pra aproveitar parte do material.
Ela me olhou intensamente e balançou a cabeça, em um gesto curto, pedindo que eu continuasse.
— Vamos ter que redimensionar os cálculos deles com dados atuais, mas não é um trabalho que precisa ser refeito do zero. E ainda consigo usar alguns estudos acadêmicos anteriores como base, então...
— Então... — ela repetiu, o meio sorriso subindo de novo. Aquilo mexeu comigo. Alicia tinha esse dom. Sabia exatamente o efeito que causava.
— Então — retomei, recuperando o fio da meada. — Vamos economizar tempo.
— Isso é ótimo, Nalú.
Ela pousou a mão sobre a minha em cima da mesa. Foi o gesto somado à intensidade do olhar que fez alguma coisa em mim amolecer sem permissão. Alicia era linda e sabia disso. Fiquei paralisada por um segundo antes de puxar a mão de volta, devagar, olhando para o lado.
Ela percebeu o meu desconforto. Pigarreou, um som pequeno que quebrou um pouco da tensão.
— Isso é ótimo — repetiu, mais contida. — Já começamos com o pé direito.
Ela recolheu a mão de volta ao colo de um jeito natural.
Terminamos o café sem voltar ao assunto. Quando me levantei para chamar os estudantes, senti o olhar dela nas minhas costas.
— Bora, gente — falei, batendo de leve na mesa deles. — A praia não vai esperar a digestão de ninguém.
Pedro se levantou rápido. Tomás sorriu e pegou uma bolsa com os equipamentos. Peguei a outra maleta e me virei. Alicia já estava ali, por perto. Quando nossos olhos se encontraram, havia alguma coisa em sua expressão que me fez esquecer, por um instante, para onde eu estava indo.
Fim do capítulo

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