Por Alicia:
O domingo na casa dos meus pais tinha um ritmo que não mudava há anos. A mesa posta às treze horas em ponto, minha mãe controlando os detalhes com uma calma que escondia o quanto ela se importava com cada um deles e meu pai saindo do escritório com o jornal ainda debaixo do braço como se fosse 1995.
Rafael colocou a mão na parte baixa das minhas costas quando entramos, no mesmo lugar de sempre, com a mesma pressão de sempre. Eu não senti nada. Reparei nisso com uma clareza quase incômoda. A mão dele ali, o gesto repetido centenas de vezes, e nenhuma resposta do meu corpo além do hábito de aceitar o toque.
— Vocês estão atrasados — disse minha mãe, abrindo a porta. — De novo.
— Trânsito, Silvia — respondeu Rafael, com aquele sorriso que funcionava em qualquer situação.
Nos sentamos.
O almoço seguiu o roteiro habitual. A empregada servindo, meu pai perguntando sobre o trabalho de Rafael e minha mãe perguntando sobre absolutamente tudo.
Foi no prato principal que meu pai voltou ao assunto que eu sabia que ele estava guardando desde que sentamos.
— Falei com o financeiro essa semana — disse, cortando a carne com precisão. — Sobre os custos da parceria com a universidade.
— E?
— E não é um problema. — Ele ergueu os olhos. — Com o corte da consultoria anterior, os balanços que recebi mostram que estamos em vantagem orçamentária considerável.
— Que bom — eu disse.
— Mas o prazo, Alicia. — Ele apontou o garfo na minha direção, num gesto que eu reconhecia desde criança. — O prazo continua sendo o problema.
Senti certa impaciência, aquele reflexo automático de quem já sabe que vai precisar repetir um argumento que considerava encerrado.
— O prazo é o que precisa ser, pai. Prefiro um laudo correto em sessenta dias do que outro laudo malfeito em trinta que vai gerar um segundo embargo.
— Isso eu entendo. Mas o MP…
— O Rodrigo já comunicou o MP sobre a parceria com a universidade. — Cortei antes que ele completasse. — Protocolamos semana passada. Tecnicamente, isso já reduz a pressão imediata.
Ao dizer "universidade" pensei em Nalú, e o pensamento veio acompanhado de uma sensação física, quase um puxão baixo no estômago. Balancei a cabeça de leve, e voltei a atenção para o meu pai.
Meu pai abriu a boca para argumentar de novo.
Minha mãe foi mais rápida.
— Estamos à mesa e é domingo, Augusto. — Ela colocou o garfo no prato com um som que era suave mas definitivo. — Eu e o Rafael estamos olhando essa conversa entre vocês sem entender o motivo de estarmos falando disso em pleno almoço.
— Vou ter que concordar com a minha querida sogra — disse Rafael, levantando as mãos com fingida neutralidade.
Meu pai olhou para um, depois para o outro.
— Vocês venceram — disse, erguendo as mãos em rendição. — Assunto encerrado.
— Ainda não totalmente encerrado — minha mãe continuou.
Todos voltamos pra ela. Havia algo no tom que eu já conhecia e que sempre me deixava em alerta.
— Rafael, por que você não aproveita a ida da Alicia a Itamaré para tirarem um período de férias juntos por lá?
Senti meu corpo retrair. Não foi só desconforto. Foi algo mais concreto, quase territorial. Itamaré. Era onde eu ia encontrar Nalú de novo. A ideia de Rafael ali, dividindo aquele espaço comigo, me deu uma vontade de recuar na cadeira.
Sabia que minha mãe estava tentando fazer com que passássemos mais tempo juntos. Mas no fundo, eu não queria a presença do Rafael. Não sabia exatamente articular por quê, mas a recusa chegou antes de qualquer justificativa.
— Na verdade, sua linda filha não me convidou — Rafael disse, com bom humor.
Olhei pra ele.
Apenas olhei.
— Mas mesmo que tivesse convidado, seria inviável — ele continuou, sem se incomodar com o silêncio que eu tinha deixado no ar. — Tenho audiências marcadas nas próximas semanas.
— E quando você vai, Alicia? — meu pai perguntou.
— Vou na segunda-feira. O grupo chega na terça ou quarta, mas quero me certificar de que estará tudo pronto para recebê-los.
— Está certo. — Minha mãe assentiu, mas não soltou o assunto. — Entendo seus compromissos, Rafael. Mas o fim de semana vocês poderiam passar juntos, não poderiam? Ou as audiências também se estendem aos sábados e domingos?
— Não se estendem, não — disse Rafael, e havia algo no rosto dele que parecia entusiasmo. — E acho uma ideia maravilhosa.
— Rafael...
— O quê? — Ele sorriu para mim. — Estamos noivos, Alicia. E já passou da hora de passarmos mais tempo juntos sem uma agenda lotada no meio.
Minha mãe assentiu imediatamente.
Eu forcei um sorriso.
Talvez. Mas a palavra ficou presa na garganta.
Eu não disse nada. Fiquei olhando para o prato, sentindo o peso de uma decisão que tinha sido tomada por outras duas pessoas na mesa sem precisar da minha confirmação. E, por baixo disso, uma pergunta que eu não ousava fazer em voz alta: por que a ideia de ter Rafael em Itamaré me incomodava tanto?
***
Depois do almoço, em um momento a sós com minha mãe na varanda, finalmente perguntei.
— Mãe, por que essa insistência das minhas férias com o Rafael?
Ela me olhou com aquela paciência que eu nunca soube se admirava ou se temia.
— Minha filha, esse anel está virando lenda. — Ela apontou com o queixo pra minha mão. — Vocês precisam dar o próximo passo. Ou não.
— Ou não? — repeti, arqueando uma sobrancelha.
— Pelos céus, vocês almoçam aqui todo domingo, Alicia. E desconfio que se encontrem em algumas semanas apenas neste compromisso aqui.
Olhei pra ela e não confirmei.
Mas também não desmenti.
O que já era, por si só, uma resposta.
E, sem querer, pensei em Nalú. Não como pensamento, mais como sensação. A tensão estranha que se instalava sempre que ficávamos juntas, os olhares que demoravam mais do que deveriam, o calor que subia pelo meu pescoço sem aviso, e nenhuma das duas parecia disposta a ser a primeira a recuar. Havia alguma coisa ali, algo que eu sentia na pele.
Minha mãe continuou, interrompendo meus pensamentos, sem pressa, como quem já tinha decidido dizer tudo o que precisava dizer naquele momento e não ia parar.
— Quero que vocês passem um tempo juntos para avaliarem a convivência de verdade. Sou moderninha o suficiente pra aceitar que vocês morem juntos e ensaiem a vida de casal antes da oficialização legal. Mas não sou moderninha o suficiente pra aceitar esses casamentos vapt-vupt. Casa e descasa. Você precisa testar terreno pra saber se vai dar certo.
— Mãe... — tentei iniciar algo.
— Fica com isso e pensa no que eu digo. — Ela tocou minha mão de leve, com afeto. — E se não for suficiente, converse com uma amiga sobre isso.
— Está bem, Dona Silvia — eu disse, encerrando o assunto.
Ela sorriu e voltamos para dentro de casa.
***
Rafael tinha decidido, ainda na saída do almoço, que passaríamos o resto do domingo juntos. Não perguntou. Apenas anunciou, me lembrando do combinado da semana passada. Eu aceitei sem contestar. A ideia não me agradava, mas contestar exigiria uma explicação que eu não tinha pronta nem para mim mesma.
No meu apartamento, enquanto eu separava roupas sobre a cama e ia arrumando a mala aos poucos, adiantando o que dava pra adiantar, Rafael se jogou na poltrona do quarto com aquele ar de quem observa um espetáculo particular.
— Você está fazendo essa cara de general em operação — ele disse, rindo. — Relaxa, amor, é trabalho, não é guerra.
— É trabalho sabor férias — respondi, dobrando uma camisa. — O que é pior, porque eu não posso relaxar de verdade em nenhum dos dois modos.
Ele riu de novo, e por um segundo aquilo foi fácil entre nós, do jeito que costumava ser fácil.
— Se você estiver com muita pressão no trabalho semana que vem — falei, sem tirar os olhos da mala —, não precisa ir pra Itamaré no fim de semana. Sério. Eu entendo.
— Pretendo ir — ele disse. — Mas prefiro não confirmar ainda. Tenho várias pendências acumulando lá no escritório, e você sabe como é.
Assenti, aliviada por dentro de certa maneira.
— Me conta mais dessa reunião — ele pediu, esticando as pernas. — Como foi?
— Foi como eu esperava. — Guardei um par de sandálias na lateral da mala. — Só teve um detalhe que fugiu do que eu tinha planejado.
— Qual?
— A professora Nalú, a coordenadora do programa... é de Itamaré. Provavelmente conhece a comunidade pesqueira de lá, tem família por lá, sabe como as coisas funcionam por dentro.
O rosto de Rafael mudou de leve.
— Iiii, problema viu, amor.
— Por quê?
— Essa raça de professor é barraqueira. — Ele balançou a cabeça. — Toma cuidado pra não acabar caindo no papinho dela e dos pescadores. Se eles puderem, vão sempre pedir mais e mais. É assim que funciona.
Fiquei em silêncio por um momento, a camisa que eu segurava parada no ar. Havia alguma coisa naquele comentário que me incomodava, e não era só a generalização sobre "essa raça de professor".
— Ninguém vai me enganar — respondi, por fim, dobrando a camisa com cuidado. — Nem em Ventura, e muito menos em Itamaré.
Rafael sorriu, satisfeito com a resposta, e se levantou.
— Vou tomar banho — anunciou, já tirando a camisa a caminho do banheiro.
Fiquei sozinha no quarto por um instante, e foi nesse instante que Nalú voltou, sem pedir licença. Os olhos verdes dela, o jeito como pareciam mudar de tom conforme a luz. O perfume que vinha dela. Ela tinha cheiro de uma erva misturada com flor, algo difícil de explicar. Senti meu corpo reagir, agora de maneira mais lenta, mas insistente, subindo um calor pelo peito.
Sacudi a cabeça, física e deliberadamente, como quem tenta desligar um pensamento no corpo antes que ele chegue à consciência.
Aquilo era carência. Carência de corpo, de contato físico, de um casal que já não se tocava com a frequência que deveria. Só poderia ser isso.
Deixei a mala de lado, tirei minhas roupas e entrei no box atrás de Rafael, decidida a provar a mim mesma que a explicação fazia sentido.
O vapor já tinha tomado conta do banheiro quando ele me puxou pela cintura, e por um tempo funcionou. O calor da água, as mãos dele, a familiaridade e o encaixe de um corpo que eu já conhecia. Ficamos ali, os dois ofegantes, apoiados um no outro, e eu me permiti acreditar, por aqueles minutos, que tinha resolvido alguma coisa.
***
Na cama, Rafael já estava no décimo sono enquanto minha cabeça fervia em pensamentos.
Fiquei olhando o teto no escuro, tentando organizar o dia. O almoço, o comentário da minha mãe, o aviso de Rafael sobre Nalú… mas tudo desaguava no mesmo lugar, e em algum momento o cansaço venceu a resistência e eu adormeci.
No sonho, eu estava de volta a Itamaré, em um lugar que não existia de verdade. Uma mistura da sala de reuniões com uma trilha em meio à praia. Nalú estava ali, parada perto demais, com seus olhos verdes fixos nos meus.
— Minha boca está borrada de batom? — perguntei.
— Ainda não — ela respondeu, e havia um sorriso provocante no rosto dela e uma sensualidade em sua voz.
Foi ela quem diminuiu a distância.
A boca de Nalú encontrou a minha com uma fome que não pedia permissão, e o beijo era quente, insistente, as mãos dela deslizando por baixo das minhas roupas, tocando o meu corpo enquanto ela gemia baixo contra os meus lábios, a respiração cada vez mais ofegante. Senti-me erguida, colocada sobre uma mesa que não deveria estar ali, e Nalú se encaixou entre as minhas pernas.
As mãos dela desceram, encontraram meus seios, apertaram com uma urgência. Eu gemi. Queria mais.
Eu sabia que aquilo não estava acontecendo.
Sabia que era um sonho.
Mas não queria acordar.
Os olhos verdes de Nalú estavam quase negros agora, as pupilas dilatadas. Joguei o corpo em direção a ela, querendo mais, sentindo uma contração e mais calor.
O despertador tocou antes que o sonho aplacasse meu desejo.
Acordei suada, o coração ainda acelerado, um calor molhado entre as pernas. Olhei para o lado. Rafael continuava dormindo, alheio a tudo, a respiração pesada e regular.
Levantei em silêncio e fui para o banheiro, na esperança de que a água fria apagasse o que o sonho tinha acendido. Mesmo tentando evitar pensar nela durante o dia inteiro, Nalú tinha invadido meus sonhos sem pedir licença e me deixado molhada, ardendo, absolutamente incapaz de fingir, ao menos ali sozinha debaixo do chuveiro, que aquilo era só carência de corpo.
Aquilo não era carência.
Era vontade.
Vontade dela.
O domingo na casa dos meus pais tinha um ritmo que não mudava há anos. A mesa posta às treze horas em ponto, minha mãe controlando os detalhes com uma calma que escondia o quanto ela se importava com cada um deles e meu pai saindo do escritório com o jornal ainda debaixo do braço como se fosse 1995.
Rafael colocou a mão na parte baixa das minhas costas quando entramos, no mesmo lugar de sempre, com a mesma pressão de sempre. Eu não senti nada. Reparei nisso com uma clareza quase incômoda. A mão dele ali, o gesto repetido centenas de vezes, e nenhuma resposta do meu corpo além do hábito de aceitar o toque.
— Vocês estão atrasados — disse minha mãe, abrindo a porta. — De novo.
— Trânsito, Silvia — respondeu Rafael, com aquele sorriso que funcionava em qualquer situação.
Nos sentamos.
O almoço seguiu o roteiro habitual. A empregada servindo, meu pai perguntando sobre o trabalho de Rafael e minha mãe perguntando sobre absolutamente tudo.
Foi no prato principal que meu pai voltou ao assunto que eu sabia que ele estava guardando desde que sentamos.
— Falei com o financeiro essa semana — disse, cortando a carne com precisão. — Sobre os custos da parceria com a universidade.
— E?
— E não é um problema. — Ele ergueu os olhos. — Com o corte da consultoria anterior, os balanços que recebi mostram que estamos em vantagem orçamentária considerável.
— Que bom — eu disse.
— Mas o prazo, Alicia. — Ele apontou o garfo na minha direção, num gesto que eu reconhecia desde criança. — O prazo continua sendo o problema.
Senti certa impaciência, aquele reflexo automático de quem já sabe que vai precisar repetir um argumento que considerava encerrado.
— O prazo é o que precisa ser, pai. Prefiro um laudo correto em sessenta dias do que outro laudo malfeito em trinta que vai gerar um segundo embargo.
— Isso eu entendo. Mas o MP…
— O Rodrigo já comunicou o MP sobre a parceria com a universidade. — Cortei antes que ele completasse. — Protocolamos semana passada. Tecnicamente, isso já reduz a pressão imediata.
Ao dizer "universidade" pensei em Nalú, e o pensamento veio acompanhado de uma sensação física, quase um puxão baixo no estômago. Balancei a cabeça de leve, e voltei a atenção para o meu pai.
Meu pai abriu a boca para argumentar de novo.
Minha mãe foi mais rápida.
— Estamos à mesa e é domingo, Augusto. — Ela colocou o garfo no prato com um som que era suave mas definitivo. — Eu e o Rafael estamos olhando essa conversa entre vocês sem entender o motivo de estarmos falando disso em pleno almoço.
— Vou ter que concordar com a minha querida sogra — disse Rafael, levantando as mãos com fingida neutralidade.
Meu pai olhou para um, depois para o outro.
— Vocês venceram — disse, erguendo as mãos em rendição. — Assunto encerrado.
— Ainda não totalmente encerrado — minha mãe continuou.
Todos voltamos pra ela. Havia algo no tom que eu já conhecia e que sempre me deixava em alerta.
— Rafael, por que você não aproveita a ida da Alicia a Itamaré para tirarem um período de férias juntos por lá?
Senti meu corpo retrair. Não foi só desconforto. Foi algo mais concreto, quase territorial. Itamaré. Era onde eu ia encontrar Nalú de novo. A ideia de Rafael ali, dividindo aquele espaço comigo, me deu uma vontade de recuar na cadeira.
Sabia que minha mãe estava tentando fazer com que passássemos mais tempo juntos. Mas no fundo, eu não queria a presença do Rafael. Não sabia exatamente articular por quê, mas a recusa chegou antes de qualquer justificativa.
— Na verdade, sua linda filha não me convidou — Rafael disse, com bom humor.
Olhei pra ele.
Apenas olhei.
— Mas mesmo que tivesse convidado, seria inviável — ele continuou, sem se incomodar com o silêncio que eu tinha deixado no ar. — Tenho audiências marcadas nas próximas semanas.
— E quando você vai, Alicia? — meu pai perguntou.
— Vou na segunda-feira. O grupo chega na terça ou quarta, mas quero me certificar de que estará tudo pronto para recebê-los.
— Está certo. — Minha mãe assentiu, mas não soltou o assunto. — Entendo seus compromissos, Rafael. Mas o fim de semana vocês poderiam passar juntos, não poderiam? Ou as audiências também se estendem aos sábados e domingos?
— Não se estendem, não — disse Rafael, e havia algo no rosto dele que parecia entusiasmo. — E acho uma ideia maravilhosa.
— Rafael...
— O quê? — Ele sorriu para mim. — Estamos noivos, Alicia. E já passou da hora de passarmos mais tempo juntos sem uma agenda lotada no meio.
Minha mãe assentiu imediatamente.
Eu forcei um sorriso.
Talvez. Mas a palavra ficou presa na garganta.
Eu não disse nada. Fiquei olhando para o prato, sentindo o peso de uma decisão que tinha sido tomada por outras duas pessoas na mesa sem precisar da minha confirmação. E, por baixo disso, uma pergunta que eu não ousava fazer em voz alta: por que a ideia de ter Rafael em Itamaré me incomodava tanto?
***
Depois do almoço, em um momento a sós com minha mãe na varanda, finalmente perguntei.
— Mãe, por que essa insistência das minhas férias com o Rafael?
Ela me olhou com aquela paciência que eu nunca soube se admirava ou se temia.
— Minha filha, esse anel está virando lenda. — Ela apontou com o queixo pra minha mão. — Vocês precisam dar o próximo passo. Ou não.
— Ou não? — repeti, arqueando uma sobrancelha.
— Pelos céus, vocês almoçam aqui todo domingo, Alicia. E desconfio que se encontrem em algumas semanas apenas neste compromisso aqui.
Olhei pra ela e não confirmei.
Mas também não desmenti.
O que já era, por si só, uma resposta.
E, sem querer, pensei em Nalú. Não como pensamento, mais como sensação. A tensão estranha que se instalava sempre que ficávamos juntas, os olhares que demoravam mais do que deveriam, o calor que subia pelo meu pescoço sem aviso, e nenhuma das duas parecia disposta a ser a primeira a recuar. Havia alguma coisa ali, algo que eu sentia na pele.
Minha mãe continuou, interrompendo meus pensamentos, sem pressa, como quem já tinha decidido dizer tudo o que precisava dizer naquele momento e não ia parar.
— Quero que vocês passem um tempo juntos para avaliarem a convivência de verdade. Sou moderninha o suficiente pra aceitar que vocês morem juntos e ensaiem a vida de casal antes da oficialização legal. Mas não sou moderninha o suficiente pra aceitar esses casamentos vapt-vupt. Casa e descasa. Você precisa testar terreno pra saber se vai dar certo.
— Mãe... — tentei iniciar algo.
— Fica com isso e pensa no que eu digo. — Ela tocou minha mão de leve, com afeto. — E se não for suficiente, converse com uma amiga sobre isso.
— Está bem, Dona Silvia — eu disse, encerrando o assunto.
Ela sorriu e voltamos para dentro de casa.
***
Rafael tinha decidido, ainda na saída do almoço, que passaríamos o resto do domingo juntos. Não perguntou. Apenas anunciou, me lembrando do combinado da semana passada. Eu aceitei sem contestar. A ideia não me agradava, mas contestar exigiria uma explicação que eu não tinha pronta nem para mim mesma.
No meu apartamento, enquanto eu separava roupas sobre a cama e ia arrumando a mala aos poucos, adiantando o que dava pra adiantar, Rafael se jogou na poltrona do quarto com aquele ar de quem observa um espetáculo particular.
— Você está fazendo essa cara de general em operação — ele disse, rindo. — Relaxa, amor, é trabalho, não é guerra.
— É trabalho sabor férias — respondi, dobrando uma camisa. — O que é pior, porque eu não posso relaxar de verdade em nenhum dos dois modos.
Ele riu de novo, e por um segundo aquilo foi fácil entre nós, do jeito que costumava ser fácil.
— Se você estiver com muita pressão no trabalho semana que vem — falei, sem tirar os olhos da mala —, não precisa ir pra Itamaré no fim de semana. Sério. Eu entendo.
— Pretendo ir — ele disse. — Mas prefiro não confirmar ainda. Tenho várias pendências acumulando lá no escritório, e você sabe como é.
Assenti, aliviada por dentro de certa maneira.
— Me conta mais dessa reunião — ele pediu, esticando as pernas. — Como foi?
— Foi como eu esperava. — Guardei um par de sandálias na lateral da mala. — Só teve um detalhe que fugiu do que eu tinha planejado.
— Qual?
— A professora Nalú, a coordenadora do programa... é de Itamaré. Provavelmente conhece a comunidade pesqueira de lá, tem família por lá, sabe como as coisas funcionam por dentro.
O rosto de Rafael mudou de leve.
— Iiii, problema viu, amor.
— Por quê?
— Essa raça de professor é barraqueira. — Ele balançou a cabeça. — Toma cuidado pra não acabar caindo no papinho dela e dos pescadores. Se eles puderem, vão sempre pedir mais e mais. É assim que funciona.
Fiquei em silêncio por um momento, a camisa que eu segurava parada no ar. Havia alguma coisa naquele comentário que me incomodava, e não era só a generalização sobre "essa raça de professor".
— Ninguém vai me enganar — respondi, por fim, dobrando a camisa com cuidado. — Nem em Ventura, e muito menos em Itamaré.
Rafael sorriu, satisfeito com a resposta, e se levantou.
— Vou tomar banho — anunciou, já tirando a camisa a caminho do banheiro.
Fiquei sozinha no quarto por um instante, e foi nesse instante que Nalú voltou, sem pedir licença. Os olhos verdes dela, o jeito como pareciam mudar de tom conforme a luz. O perfume que vinha dela. Ela tinha cheiro de uma erva misturada com flor, algo difícil de explicar. Senti meu corpo reagir, agora de maneira mais lenta, mas insistente, subindo um calor pelo peito.
Sacudi a cabeça, física e deliberadamente, como quem tenta desligar um pensamento no corpo antes que ele chegue à consciência.
Aquilo era carência. Carência de corpo, de contato físico, de um casal que já não se tocava com a frequência que deveria. Só poderia ser isso.
Deixei a mala de lado, tirei minhas roupas e entrei no box atrás de Rafael, decidida a provar a mim mesma que a explicação fazia sentido.
O vapor já tinha tomado conta do banheiro quando ele me puxou pela cintura, e por um tempo funcionou. O calor da água, as mãos dele, a familiaridade e o encaixe de um corpo que eu já conhecia. Ficamos ali, os dois ofegantes, apoiados um no outro, e eu me permiti acreditar, por aqueles minutos, que tinha resolvido alguma coisa.
***
Na cama, Rafael já estava no décimo sono enquanto minha cabeça fervia em pensamentos.
Fiquei olhando o teto no escuro, tentando organizar o dia. O almoço, o comentário da minha mãe, o aviso de Rafael sobre Nalú… mas tudo desaguava no mesmo lugar, e em algum momento o cansaço venceu a resistência e eu adormeci.
No sonho, eu estava de volta a Itamaré, em um lugar que não existia de verdade. Uma mistura da sala de reuniões com uma trilha em meio à praia. Nalú estava ali, parada perto demais, com seus olhos verdes fixos nos meus.
— Minha boca está borrada de batom? — perguntei.
— Ainda não — ela respondeu, e havia um sorriso provocante no rosto dela e uma sensualidade em sua voz.
Foi ela quem diminuiu a distância.
A boca de Nalú encontrou a minha com uma fome que não pedia permissão, e o beijo era quente, insistente, as mãos dela deslizando por baixo das minhas roupas, tocando o meu corpo enquanto ela gemia baixo contra os meus lábios, a respiração cada vez mais ofegante. Senti-me erguida, colocada sobre uma mesa que não deveria estar ali, e Nalú se encaixou entre as minhas pernas.
As mãos dela desceram, encontraram meus seios, apertaram com uma urgência. Eu gemi. Queria mais.
Eu sabia que aquilo não estava acontecendo.
Sabia que era um sonho.
Mas não queria acordar.
Os olhos verdes de Nalú estavam quase negros agora, as pupilas dilatadas. Joguei o corpo em direção a ela, querendo mais, sentindo uma contração e mais calor.
O despertador tocou antes que o sonho aplacasse meu desejo.
Acordei suada, o coração ainda acelerado, um calor molhado entre as pernas. Olhei para o lado. Rafael continuava dormindo, alheio a tudo, a respiração pesada e regular.
Levantei em silêncio e fui para o banheiro, na esperança de que a água fria apagasse o que o sonho tinha acendido. Mesmo tentando evitar pensar nela durante o dia inteiro, Nalú tinha invadido meus sonhos sem pedir licença e me deixado molhada, ardendo, absolutamente incapaz de fingir, ao menos ali sozinha debaixo do chuveiro, que aquilo era só carência de corpo.
Aquilo não era carência.
Era vontade.
Vontade dela.
Fim do capítulo

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