Por Nalú:
O trabalho documental tinha um ritmo que eu gostava mais do que admitia em voz alta. Silencioso, metódico, com aquela satisfação pequena e quase física de quando se encontra exatamente o erro que já se suspeitava antes de abrir o arquivo.
E os erros estavam lá. Um atrás do outro, como se a empresa tivesse construído a defesa sobre a areia e chamado de fundação.
Passei dois dias mergulhada no material anterior. Laudos, plantas, memorandos, o EIA original e os adendos que tinham sido anexados depois.
Isabela e Marina trabalhavam na mesa ao lado, organizando as referências legais por data e instância. Tomás tinha ficado com o levantamento cartográfico, atualizando as bases com os dados mais recentes disponíveis. Pedro Alencar coordenava a parte técnica de equipamentos, verificando o que o programa já tinha e mapeando o que precisaria ser locado.
Era um grupo bom. Comprometido, sem precisar que eu pedisse duas vezes.
E, ainda assim, havia um nome que não estava naquela sala e que, de algum jeito irritante, eu sentia como se estivesse. Uma presença que eu vinha carregando comigo desde a última reunião.
Foi nesse meio da tarde que a Júlia bateu na porta. Duas batidas curtas, antes de abrir.
— Professora, desculpe interromper. — Ela segurava a porta entreaberta, sem entrar de fato. — O professor Flávio pediu que fosse até a sala dele. Disse que é urgente.
Alguma coisa na palavra "urgente", vinda da boca cuidadosa da Júlia, que raramente usava esse tipo de adjetivo sem necessidade, me apertou o estômago antes mesmo de eu entender por quê.
— Já vou.
Deixei o material aberto na mesa e desci o corredor com aquela sensação de quem está sendo chamada para uma reunião que não vai gostar de ter.
A porta da sala do Flávio estava fechada, o que também não era comum. Bati e entrei sem esperar resposta.
— Boa tarde, Nalú! Feche a porta, por favor.
Fechei a porta e me aproximei da mesa. Sentei-me na poltrona à sua frente, aguardando, em silêncio, o que viria a seguir.
— Recebi uma ligação do gabinete do reitor hoje de manhã. — Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo a ordem das palavras, pesando cada uma antes de soltar. — A diretora da Sá Noronha entrou em contato diretamente com ele. Ficou acordado que o laudo referente à empresa Sá Noronha vai ter prioridade absoluta a partir de agora.
Fiquei parada por um segundo, processando.
— Prioridade absoluta. — Repeti as palavras devagar, como se repeti-las fosse revelar algum erro de tradução. — Isso é completamente inadequado, Flávio.
— Eu sei como isso soa.
— Não é como soa. É o que é. — Cruzei os braços, sentindo o próprio pulso acelerar de um jeito que não era só raiva. — Fazemos parte de um estudo técnico independente que vai pesar sob um embargo do Ministério Público. A empresa embargada não pode simplesmente ligar para o reitor e conseguir prioridade institucional. Isso compromete a aparência de imparcialidade do trabalho todo, mesmo que o conteúdo não mude uma vírgula.
— Parece que ela não pediu isso apenas como parte interessada, Nalú. — Ele levantou uma mão, em um gesto de quem tenta abaixar a temperatura da sala. — Pediu como favor pessoal. Ligou para o reitor, que é amigo antigo da família, e explicou a urgência que a empresa está enfrentando com o embargo. Juros, contratos suspensos, funcionários parados. — Ele fez uma pausa, como se quisesse que o próximo ponto pesasse mais do que os anteriores. — O reitor pediu a lista completa dos trabalhos em andamento no PAICI e me pediu que eu averiguasse se algum dos outros estudos também tinha caráter de urgência. Nós dois checamos. Nenhum tinha. As diretrizes do programa não estabelecem fluxo de trabalho nem ordem de prioridade entre os processos. Não existe, tecnicamente, nada sendo furado.
— Tecnicamente. — Repeti a palavra, deixando um instante de silêncio antes de continuar. — Mas essas diretrizes foram escritas antes de eu entrar no programa, Flávio, e já deveriam ter sido atualizadas há tempos. A ausência de uma regra não é a mesma coisa que uma permissão. E um favor pessoal que resulta em prioridade absoluta dentro da universidade é pressão institucional. Só que travestida de gentileza.
Ele ficou em silêncio, e naquele silêncio eu podia ler o desconforto de quem sabia que eu tinha razão e não tinha como argumentar contra isso.
— Quero essa conversa registrada — eu disse. — Quero que você me mande isso por e-mail. O que o reitor decidiu, quando, e a partir de que solicitação.
Vi o rosto dele mudar, um receio pequeno atravessando a expressão antes que ele conseguisse disfarçar.
— Para quê? Você pretende colocar isso no laudo?
— Não. — Balancei a cabeça. — O laudo vai ser técnico, como sempre foi. Isso não entra nele.
— Então por quê?
— Porque existe uma diferença entre o que compõe o estudo e o que compõe a história ao redor dele — falei, mais devagar, tentando fazer ele entender sem soar como acusação. — Isso não diz respeito ao laudo. Mas, ao mesmo tempo, diz. Se um dia alguém questionar a lisura do processo, eu quero ter cada movimentação documentada. Inclusive essa.
Ele suspirou, e algo nos ombros dele relaxou, como se tivesse temido uma reação pior.
— Vou mandar o e-mail ainda hoje.
— Agradeço.
— Você precisa avisar o grupo sobre essa mudança — ele disse.
— Se o processo vai andar mais rápido agora, eles precisam saber.
— Vou avisar.
— Já tem alguma data prevista para início?
— A parte documental já iniciamos.
— E como estão?
— Terminando. — Apoiei a mão na lateral da mesa à minha frente. — Provavelmente até o fim desta semana teremos levantado tudo que precisa ser levantado. As inconsistências na delimitação, a defasagem da linha de base, os laudos anteriores. Tudo organizado.
— Então, considerando o pedido de urgência, o que entra em jogo é a parte in loco. A partir da semana que vem, vocês terão que se organizar para ir a campo. — Ele me olhou, direto. — O que pensou a respeito disso?
— Confesso que ainda não sei. Penso talvez em fazer bate e volta — respondi, já reorganizando mentalmente a logística enquanto falava. — Barco saindo de Ventura de manhã, voltando à tarde. Vamos nos organizar com os materiais para que cada saída já leve o que for necessário para o dia, sem depender de guardar nada na ilha entre uma saída e outra, pelo menos por enquanto.
Flávio assentiu.
— Mantenha-me informado.
— Mantenho.
Saí da sala com a sensação estranha de ter perdido alguma coisa. A certeza pequena e incômoda de que aquele estudo, que eu queria limpo do começo ao fim, já estava sendo tocado por mãos que não eram as minhas antes mesmo de a equipe pisar em Itamaré.
As mãos de Alicia.
Pensei nelas antes de pensar em qualquer outra coisa e me odiei um pouco por isso, pelo modo automático como o nome dela vinha primeiro.
Voltei para a sala onde Isabela e Marina continuavam debruçadas sobre os documentos.
— Professora — disse Isabela, sem tirar os olhos da tela. — Encontrei mais uma inconsistência na delimitação. A linha de base que eles utilizaram no documento é de dois mil e quatorze.
— Dois mil e quatorze — repeti, tentando focar novamente no trabalho. — Dez anos desatualizada.
— Onze — ela corrigiu, levantando os olhos.
— Onze — concordei.
— Isso invalida o dimensionamento inteiro da face norte?
— Depende do quanto a linha de costa se deslocou nesse período. — Apoiei os cotovelos na mesa. — E essa é exatamente a razão do drone.
Ela assentiu, satisfeita com a resposta, e voltou para a tela.
Eu fiquei olhando para o mapa aberto na minha frente. A linha de costa de Itamaré estava ali, desenhada em azul sobre o fundo branco.
Eu conhecia aquela costa de outro jeito, não de mapa. Conhecia pelo cheiro, pelo som, pela temperatura da areia em diferentes horas do dia. Conhecia os lugares onde a maré subia mais rápido e os lugares onde o fundo mudava de areia para pedra sem avisar.
Fechei o arquivo e fui buscar café, como quem foge de um pensamento fingindo que só está com sede.
***
Na quinta-feira, às nove e cinquenta, desci até a recepção.
Não precisava descer. Poderia ter mandado a Júlia buscar.
— Não se preocupe, Júlia. Eu mesma vou receber.
Ela me olhou por um segundo com aquela discrição que lhe era característica e não disse nada. Só assentiu.
Alicia entrou pelo corredor às dez em ponto.
Calça de alfaiataria preta, blusa de seda num tom de vinho escuro que parecia ter sido escolhido para roubar a luz da manhã só para si, o cabelo impecável como sempre. A bolsa no ombro e aquele passo que eu já reconhecia. Firme, sem pressa aparente, mas que chegava rápido, como se o espaço se dobrasse um pouco para ela.
Ela me viu e algo no rosto dela se moveu levemente, um meio sorriso. A primeira vitória tinha sido dela. E ela sabia disso.
— Professora Nalú — disse, e havia uma nota de intimidade escondida dentro da formalidade.
— Senhora Alicia. — Fiz um gesto em direção ao corredor. — Por aqui.
Caminhamos lado a lado dessa vez. O corredor era largo o suficiente para isso, e havia algo diferente em andar ao lado dela em vez de na frente. Uma simetria que registrei sem saber ao certo o que fazer com o registro. Os passos quase se encontrando no mesmo ritmo, o perfume dela chegando até mim em ondas, algo entre madeira e uma flor que eu não sabia nomear, e que eu ia reconhecer, depois, em qualquer sala em que ela estivesse.
— A reunião não será na sua sala? — ela perguntou.
— Na sala do professor Flávio hoje. Ele queria participar e faz sentido tê-lo presente nessa etapa.
— Claro. — Uma pausa de meio segundo. — Faz todo sentido.
Ela disse isso olhando para o corredor à frente, e eu olhei para ela de soslaio.
Havia algo no tom. Não era contrariedade, não era exatamente isso. Era mais parecido com um ajuste. O tipo que as pessoas fazem quando a realidade chegou diferente do que o pensamento tinha antecipado.
O que não fazia sentido nenhum.
E exatamente por não fazer sentido, ficou. Ficou comigo pelo resto do corredor, um fiapo de pergunta que eu não tinha coragem de puxar.
A sala do Flávio era maior que a minha, com uma mesa de reunião própria e janela para outro ângulo do campus. Ele estava de pé quando entramos, com aquele sorriso sincero que era característico dele nas ocasiões em que estava satisfeito com alguma coisa.
— Senhora Alicia. — Ele estendeu a mão. — Obrigado por vir até nós desta vez.
— Eu que agradeço por me receberem. — Ela apertou a mão dele com firmeza. — E, por favor — acrescentou —, pode me chamar só de Alicia. Os dois. Teremos um contato maior a partir de agora e não vejo sentido em formalidades.
Flávio sorriu.
Eu não disse nada. A ideia de que poderíamos ter mais proximidade despertava em mim emoções conflitantes que eu ainda não conseguia ou não queria definir. Um misto de alarme e algo mais quente, mais baixo no corpo, que eu preferia atribuir ao excesso de café pela manhã do que a qualquer outra coisa.
Nos sentamos. Flávio na cabeceira, eu de um lado, Alicia do outro, exatamente à minha frente, de modo que qualquer coisa que eu dissesse chegaria primeiro a ela do que a ele. A pasta dela já estava aberta antes mesmo de Flávio começar.
— Você agendou a reunião de hoje em alinhamento com a Nalú, então pode dar início — disse Flávio.
— Antes de começarmos — disse Alicia, fechando a pasta por um instante, as mãos pousadas sobre ela —, gostaria de agradecer formalmente a prioridade que o laudo passou a receber. Sei que isso muda o ritmo de tudo daqui em diante.
— Sim. Já sabemos de suas influências junto ao reitor. — A frase saiu de mim antes que eu decidisse se devia dizê-la, mais afiada do que qualquer coisa que eu tivesse dito a ela até então.
Um silêncio curto.
Flávio parou de mexer nos papéis.
Alicia não desviou o olhar. Um meio sorriso apareceu, lento, quase gentil, como se a farpa tivesse sido bem-vinda em vez de ofensiva.
— Vou considerar isso um elogio.
— Não foi.
— Eu sei. — Ela disse isso sem pressa nenhuma, o meio sorriso ainda ali, intacto. — Ainda assim, vou considerar.
Flávio pigarreou, ajeitando os papéis à sua frente como se isso fosse resolver um desconforto que só ele parecia sentir.
— Bem... — ele disse. — Talvez possamos seguir para os pontos técnicos?
— Claro. — Alicia reabriu a pasta, sem pressa, o meio sorriso ainda pairando no canto da boca. — Analisei o plano com atenção — ela disse, direto, e os olhos dela subiram até os meus. — É sólido e bem estruturado. Mas gostaria de falar sobre três pontos. O cronograma, a logística de campo e um item que está no Anexo II.
— Pode prosseguir — eu disse, e minha voz saiu mais firme do que eu me sentia por dentro.
— O cronograma é de quarenta e cinco a sessenta dias. — Ela olhou para mim de maneira intensa. — Entendo que a fase comunitária não tem prazo estimável. Mas preciso de uma âncora mínima para trabalhar com o jurídico. Não de um prazo que amarre o processo. Só uma referência.
— Vinte a vinte e cinco dias para tudo que não depende da comunidade — respondi, obrigando-me a olhar para os papéis e não para a boca dela quando falava. — Revisão documental, levantamento de campo técnico, análise laboratorial, modelagem e reescrita do novo laudo. Isso eu garanto.
— E a fase comunitária corre paralela ou sequencial?
— Paralela onde for possível. Sequencial onde a comunidade determinar.
Ela anotou, e o gesto, a caneta deslizando, o pulso fino, a atenção total, tinha algo de hipnótico que eu não devia estar notando numa reunião de trabalho. Forcei os olhos de volta para os meus próprios papéis, tentando reorganizar meus pensamentos.
— Ponto dois. Logística de campo. — Ela abriu uma página específica da pasta. — A equipe é composta por quantas pessoas?
— Cinco. Eu, um mestrando do programa e três alunos do último período — pausei, encarando-a de frente, decidida a não ser a primeira a desviar o olhar. — São alunos com experiência de campo. Não é a primeira saída deles.
— Entendi. — O olhar dela foi direto, sem pressa de sair do meu. — Estou pensando em logística. Vocês ficarão em Itamaré durante o levantamento ou farão o deslocamento diário?
— Bate e volta — respondi. — Tem barco saindo de Ventura todo dia de manhã e voltando à tarde. É o suficiente para cobrir o que precisamos.
Ela ficou quieta por um segundo, um silêncio que parecia calculado, deixado ali de propósito para que eu ouvisse minha própria frase de novo e começasse a duvidar dela.
— Duas horas de barco por dia, nos dois sentidos, mais o tempo de campo — ela disse, com aquele ritmo de quem apresenta um argumento que já organizou antes de falar. — São quatro horas de deslocamento desnecessárias. E se o mar fechar, vocês perdem o dia inteiro.
— O mar de Itamaré em março é estável.
— Em março, sim — ela concordou, com uma calma que não era concordância de verdade, mas sim o primeiro degrau de uma escada que ela já tinha subido inteira na cabeça. — Mas o campo pode se estender, como você mesma disse.
Não respondi imediatamente. Ela tinha razão no argumento e eu sabia disso antes de ela terminar a frase. E havia algo quase indecente em como isso me irritava e me atraía ao mesmo tempo.
— Há também a questão das aulas — disse Flávio, em um tom cuidadoso de quem escolhe o momento certo para entrar numa conversa. — Suas turmas e as aulas dos alunos do último período.
Olhei para ele.
— Será mais cômodo vocês ficarem em Itamaré e eu posso cobrir suas aulas enquanto você estiver em campo — ele continuou, com naturalidade. — Não é a primeira vez. E quanto aos alunos do programa, o trabalho de campo conta como carga horária supervisionada. Já fizemos isso antes em outras saídas do PAICI. Basta formalizar.
— Flávio, você já tem sua própria carga horária.
— Tenho. E consigo absorver a sua por algumas semanas sem comprometer nada. — Ele abriu levemente as mãos sobre a mesa, em um gesto simples.
Fiquei quieta.
Havia algo no jeito como ele disse isso que me deixou com menos chão para continuar resistindo.
Alicia, do outro lado da mesa, não disse nada.
Mas eu vi.
Vi o momento exato em que ela entendeu que o obstáculo tinha diminuído, e vi que ela teve o bom senso de não comentar. Os olhos dela pousaram nos meus por um instante, como se estivesse me dizendo, sem uma palavra: eu sei que você sabe que eu ganhei esse round, e não vou estragar isso comemorando na sua frente. Aquilo, de alguma forma, era pior do que se ela tivesse sorrido abertamente.
— O Recanto das Pedras Brancas tem capacidade disponível no período — ela disse então. — A família Sá Noronha oferece hospedagem para toda a equipe durante o trabalho de campo.
Um silêncio se instalou.
Flávio olhou para mim.
Eu olhei para Alicia.
— Não.
Ela não pareceu surpresa. Nem magoada. Apenas pronta.
— Ouça o meu argumento antes de recusar.
— Estou ouvindo. — Sentia meu coração bater mais rápido do que a frase deveria justificar, um ritmo que eu preferi atribuir à irritação.
— O problema não é onde vocês vão dormir.
Esperei.
— É onde vocês vão trabalhar — ela disse, abrindo uma página da pasta e girando o documento na minha direção sem tirar os olhos de mim, como se pudesse conduzir a reunião inteira só com aquele olhar e o resto fosse apenas formalidade.
Havia algo naquilo que me incomodava. A capacidade que ela tinha de fazer duas coisas ao mesmo tempo e não se perder em nenhuma delas era irritante. Irritante e, se eu fosse honesta comigo mesma por um segundo que eu não estava disposta a me dar, também era algo que eu achava perigosamente sexy e atraente.
— Todos os dias sua equipe vai voltar do campo com registros fotográficos, entrevistas, amostras de água, sedimento, medições e anotações. Acredito que isso precisa ser organizado, armazenado e processado diariamente.
— Precisa, mas se vamos ficar hospedados em Itamaré, podemos fazer isso na vila.
— Podem — ela respondeu, sem hesitar, o que me irritou mais do que se tivesse discordado. — Mas em condições improvisadas.
Alicia apoiou os antebraços na mesa, inclinando-se um pouco, e a distância entre nós pareceu, por um instante absurdo, menor do que a mesa deveria permitir. E aquele maldito perfume chegou com ainda mais força.
— Vocês vão precisar de internet estável, espaço para reuniões, armazenamento de equipamentos, área para triagem de material e um local onde cinco pessoas consigam trabalhar juntas por horas.
— Ainda prefiro a vila.
— Então considere os equipamentos — ela disse, e o olhar dela encontrou o meu e ficou, sem pressa, sem pressão, como quem sabe que não precisa forçar porque o tempo está do seu lado.
— GPS diferencial. Correntômetros. Notebooks de campo. Equipamentos de georreferenciamento. Amostras.
Ela enumerava os itens sem consultar nenhuma anotação, e havia algo desconcertante em ser tão perfeitamente preparada, em nunca hesitar, em nunca precisar de um segundo a mais para lembrar.
— Tudo isso precisa ser guardado em um único local, com segurança.
— Existem pousadas.
— Existem, mas conheço Itamaré — ela inclinou levemente a cabeça, um gesto quase de intimidade. — Elas não foram projetadas para funcionar como base operacional de uma equipe técnica.
Ela disse que conhecia Itamaré.
Não como eu conhecia, certamente. Não com a areia debaixo das unhas e o sal grudado na pele, não com anos de manhãs cedo e barcos de madeira. O canto da minha mandíbula se contraiu e ela percebeu.
— Basta um equipamento desaparecer ou ser danificado para atrasar dias de trabalho. Sem falar nas amostras.
Flávio permaneceu em silêncio.
O que, vindo dele, era quase uma tomada de posição.
— Ainda existe outro problema — Alicia disse, e desta vez havia algo diferente na voz, mais cuidadoso, como se estivesse escolhendo o ritmo com que entregava o próximo argumento.
— Qual?
— A comunidade — ela disse, e ficou quieta, deixando a palavra ocupar espaço antes de continuar.
Franzi a testa.
— O que tem a comunidade?
— Você mesma disse que a fase comunitária é a parte mais delicada do estudo.
Assenti, a contragosto.
— E eu concordo — ela sustentou meu olhar com firmeza, sem nenhum traço de ironia agora. — Itamaré é uma ilha pequena.
Eu sabia disso e já sabia para onde aquilo estava indo.
— Se a equipe ficar hospedada na vila, em poucos dias todo mundo vai saber onde vocês estão, com quem conversaram, quais famílias visitaram e quais perguntas fizeram.
— Isso acontece em qualquer comunidade pequena.
— Exatamente — a resposta veio imediatamente. — E quanto mais visível for a rotina da equipe, mais a própria presença de vocês começa a interferir nas respostas.
— Eu nasci e cresci em Itamaré. — Deixei a frase pousar antes de continuar, e vi algo vacilar, por uma fração de segundo, na compostura dela, como se aquele dado não estivesse na pasta que ela tinha estudado com tanto cuidado. — Conheço cada família da vila, cada beco, cada história que se repete há gerações antes de eu nascer. Se o que te preocupa de verdade é um fator externo interferindo na resposta da comunidade, talvez valha a pena considerar que eu também possa ser um.
O silêncio dela durou mais do que qualquer pausa calculada que eu já tinha visto vir dela até ali.
— Não tinha essa informação — ela disse, por fim. — Você não está no meu dossiê como natural da ilha.
— Eu não estou no seu dossiê, mas não é como se fosse um segredo eu ser de lá.
Ela me olhou de um jeito diferente então, o olhar mais intenso do que tinha sido a manhã inteira, como quem se reorganiza silenciosamente.
— Isso muda o meu argumento — ela admitiu. — Mas não o invalida por inteiro. Você é de lá. Eu não sou. Mas acredito que a presença que preocupa a comunidade não é a sua. É a minha.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Porque aquilo não era um argumento pessoal ou empresarial.
Era metodológico.
E nós duas sabíamos.
Vi quando Flávio desviou os olhos para a janela, provavelmente porque também tinha percebido, e por um momento a sala pareceu conter só as duas.
Alicia descruzou as mãos devagar, num gesto que parecia quase uma rendição, embora eu soubesse que ela não se rendia com facilidade.
— Não estou propondo que fiquem hospedados no resort porque é mais confortável — ela fez uma pausa, um brilho de ironia rápido atravessando os olhos. — Embora, sejamos sinceras, provavelmente será. — E então o tom mudou de novo, mais direto, e havia algo nele uma espécie de franqueza que me pegou desprevenida. — Estou propondo porque acredito que é a forma de proteger a qualidade do estudo.
Meu estômago apertou de um jeito inesperado, um nó quente e incômodo que eu não sabia se era raiva contida ou outra coisa, algo mais difícil de nomear em voz alta.
Porque eu tinha procurado a falha.
E não estava encontrando.
— A equipe ficaria em uma ala separada — ela continuou. — Com acesso independente, espaço de trabalho próprio e armazenamento exclusivo para o material técnico.
— A verba que o PAICI destina para diárias não cobre nem de longe o que o Recanto das Pedras Brancas deve custar por noite. É um impedimento orçamentário.
— Sei quanto o programa dispõe para hospedagem. — Ela disse isso com a mesma calma de sempre, como se já tivesse antecipado a objeção antes mesmo de eu formulá-la. — E sei também que o hotel mantém um programa de descontos para instituições de ensino e grupos de pesquisa. Não é incomum. Outras universidades da região já usaram.
— Não vou pedir favor à empresa que estamos avaliando.
— Não seria um favor. — Ela tirou um documento da pasta e o girou na minha direção, sem pressa, como já fizera antes. — Seria a aplicação de uma política existente, disponível a qualquer instituição que solicitasse, com ou sem este estudo em curso. Posso providenciar que o desconto conste como condição institucional padrão, não como concessão pontual. É só ajustar o contrato. Se isso resolver o desconforto.
Eu permaneci em silêncio, sentindo o peso do olhar dela como se fosse algo físico, uma mão pousada de leve sobre a pele.
O problema era que os argumentos dela faziam sentido.
E quanto mais sentido faziam, menos eu gostava da situação e menos ainda gostava de perceber que parte de mim não estava resistindo à proposta, e sim à proximidade que a proposta implicava.
— Uma condição — eu disse por fim, a voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Vi um brilho quase imperceptível atravessar os olhos dela.
Não era vitória.
Era alívio. Um alívio genuíno, desarmado, que durou menos de um segundo antes de ela reorganizar o rosto de volta à compostura de sempre.
Como se ela já soubesse qual seria minha resposta antes mesmo de eu terminar a frase e talvez soubesse mesmo.
— Se em qualquer momento eu avaliar que a proximidade com o resort está comprometendo a abertura com a comunidade, a equipe muda de base imediatamente. Sem negociação. — Fiz uma pausa.
Flávio me olhou e acenou com a cabeça em concordância.
Uma pausa, mais longa do que o necessário, os olhos dela nos meus, quentes de um jeito que não tinha nada a ver com o clima da sala.
— Concordo — ela disse, e a boca dela voltou a se curvar naquele mesmo meio sorriso. Meus olhos foram até lá antes que eu tivesse tempo de impedir, e assim que me dei conta do que estava fazendo, desviei.
Olhei para ela e vi certa diversão em seus olhos.
— Então está resolvido — Flávio disse, destravando os ombros de um jeito que deixou claro que tinha estado mais tenso do que aparentava.
— Ainda falta o ponto três — disse Alicia, virando uma página. — O Anexo II. Os custos de locação.
— Ah sim, já vi que você circulou — Flávio disse.
— Temos um contrato ativo com uma empresa técnica — ela disse, com a naturalidade de quem menciona um detalhe administrativo. — Fornecedora de equipamentos de levantamento costeiro. O contrato prevê a disponibilidade de equipamentos em campo. Se vocês não utilizarem, o contrato simplesmente não é aproveitado.
Olhei para ela.
— Está dizendo que os equipamentos que precisaríamos alugar já estão pagos?
— Estão — uma pausa de um segundo. — E seria um desperdício não usar.
Havia algo levemente irônico no modo como ela disse aquilo, como se soubesse que estava tirando meu principal argumento antes que eu o formulasse, e gostasse exatamente disso. Do jogo, de me ver sem saída.
Flávio fez aquele som baixo que era metade tosse, metade riso contido.
Eu olhei para ele.
— Está bem — disse por fim.
Fiquei olhando para ela. Havia algo naquela mulher que era irritante e, eu admiti para mim mesma num lugar que preferi não esmiuçar muito, algo além de irritante. Algo que se instalava embaixo da pele e ficava ali, latente, esperando a próxima oportunidade para se fazer sentir de novo.
— Então estamos alinhadas — ela disse.
— Estamos.
— E quando a equipe estará pronta para o campo? — Ela fechou a pasta.
— Provavelmente na semana que vem. Precisamos terminar a fase documental e preciso fazer um alinhamento completo com o grupo antes de sairmos.
— Semana que vem. — Ela anotou. — Como já combinamos anteriormente, estarei lá quando vocês chegarem. Preciso apenas que me informem o dia.
Flávio assentiu com aquela expressão de coordenador satisfeito.
Nos levantamos.
No corredor, caminhamos lado a lado até a recepção de novo. O mesmo corredor, a mesma simetria de antes. Só que agora eu estava mais ciente dela, do espaço que não existia entre nós e do espaço que existia, de como os braços quase se tocavam a cada passo, de como eu regulava o próprio ritmo sem perceber para acompanhar o dela.
Na recepção, ela parou e me olhou.
— Professora Bonfim, eu...
— Se quer dispensar formalidades, acho pertinente que também me chame apenas pelo meu nome. Só Nalú está bom. — interrompi sua fala.
— É justo. Achei bastante produtivo novamente. Até breve, Nalú.
Meu nome na boca dela tinha um som diferente do que tinha em qualquer outra boca. Mais devagar, como se ela estivesse prestando atenção em cada sílaba.
— Precisa que eu te acompanhe até a saída? — perguntei, só para dizer alguma coisa, porque ela continuava ali, me olhando.
— Não é necessário — ela disse, já ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Duas vezes aqui e já conheço o caminho.
— Então até breve, Alicia.
Ela estendeu a mão.
Eu a apertei.
A mão dela era fria e a minha estava morna. Senti o contraste antes de pensar nele, e durou mais do que um aperto de mão de despedida costuma durar. Um segundo, talvez dois, o suficiente para que eu sentisse o polegar dela roçar de leve os meus nós dos dedos antes de soltar, um gesto tão pequeno que poderia ter sido acidental, e que eu soube, com uma certeza incômoda, que não era.
Ainda com a mão presa na minha, ela inclinou a cabeça de leve.
— Meu batom está borrado?
A pergunta me pegou de surpresa o suficiente para que meus olhos fossem, mais uma vez, direto para a boca dela. Um reflexo que eu não tive tempo de conter antes que acontecesse. Engoli em seco.
— Não.
— É que notei você olhando a minha boca durante a reunião — ela disse, o meio sorriso de volta, lento, como se soubesse exatamente o efeito que tinha. — E pensei que poderia estar.
— Im... impressão sua.
— Obrigada. — Ela disse isso soltando minha mão por fim, sem o tom profissional de antes. Só isso, e saiu, deixando o perfume dela demorar um pouco mais no ar.
Eu fiquei parada na recepção por um momento, sentindo meu rosto corar.
Voltei para o corredor.
E enquanto subia as escadas de volta para minha sala, com a palma da mão ainda quente, percebi que estava pensando demais no trabalho e que Bruno estava certo. Eu precisava sair mais.
Só que, naquele momento, "sair mais" já não parecia ter nada a ver com Bruno, e tinha tudo a ver com uma ilha pequena, um hotel de pedras brancas e uma mulher que sabia exatamente onde pisar para me tirar do chão.
Parei por um instante no meio da escada e apoiei a mão no corrimão.
Fechei os olhos.
Aquilo era absurdo.
Alicia era a diretora da empresa que eu estava prestes a avaliar. Ela era um risco. Uma complicação.
Havia ali algo que o mapa não mostrava.
E era exatamente para lá que nós estávamos indo.
O trabalho documental tinha um ritmo que eu gostava mais do que admitia em voz alta. Silencioso, metódico, com aquela satisfação pequena e quase física de quando se encontra exatamente o erro que já se suspeitava antes de abrir o arquivo.
E os erros estavam lá. Um atrás do outro, como se a empresa tivesse construído a defesa sobre a areia e chamado de fundação.
Passei dois dias mergulhada no material anterior. Laudos, plantas, memorandos, o EIA original e os adendos que tinham sido anexados depois.
Isabela e Marina trabalhavam na mesa ao lado, organizando as referências legais por data e instância. Tomás tinha ficado com o levantamento cartográfico, atualizando as bases com os dados mais recentes disponíveis. Pedro Alencar coordenava a parte técnica de equipamentos, verificando o que o programa já tinha e mapeando o que precisaria ser locado.
Era um grupo bom. Comprometido, sem precisar que eu pedisse duas vezes.
E, ainda assim, havia um nome que não estava naquela sala e que, de algum jeito irritante, eu sentia como se estivesse. Uma presença que eu vinha carregando comigo desde a última reunião.
Foi nesse meio da tarde que a Júlia bateu na porta. Duas batidas curtas, antes de abrir.
— Professora, desculpe interromper. — Ela segurava a porta entreaberta, sem entrar de fato. — O professor Flávio pediu que fosse até a sala dele. Disse que é urgente.
Alguma coisa na palavra "urgente", vinda da boca cuidadosa da Júlia, que raramente usava esse tipo de adjetivo sem necessidade, me apertou o estômago antes mesmo de eu entender por quê.
— Já vou.
Deixei o material aberto na mesa e desci o corredor com aquela sensação de quem está sendo chamada para uma reunião que não vai gostar de ter.
A porta da sala do Flávio estava fechada, o que também não era comum. Bati e entrei sem esperar resposta.
— Boa tarde, Nalú! Feche a porta, por favor.
Fechei a porta e me aproximei da mesa. Sentei-me na poltrona à sua frente, aguardando, em silêncio, o que viria a seguir.
— Recebi uma ligação do gabinete do reitor hoje de manhã. — Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo a ordem das palavras, pesando cada uma antes de soltar. — A diretora da Sá Noronha entrou em contato diretamente com ele. Ficou acordado que o laudo referente à empresa Sá Noronha vai ter prioridade absoluta a partir de agora.
Fiquei parada por um segundo, processando.
— Prioridade absoluta. — Repeti as palavras devagar, como se repeti-las fosse revelar algum erro de tradução. — Isso é completamente inadequado, Flávio.
— Eu sei como isso soa.
— Não é como soa. É o que é. — Cruzei os braços, sentindo o próprio pulso acelerar de um jeito que não era só raiva. — Fazemos parte de um estudo técnico independente que vai pesar sob um embargo do Ministério Público. A empresa embargada não pode simplesmente ligar para o reitor e conseguir prioridade institucional. Isso compromete a aparência de imparcialidade do trabalho todo, mesmo que o conteúdo não mude uma vírgula.
— Parece que ela não pediu isso apenas como parte interessada, Nalú. — Ele levantou uma mão, em um gesto de quem tenta abaixar a temperatura da sala. — Pediu como favor pessoal. Ligou para o reitor, que é amigo antigo da família, e explicou a urgência que a empresa está enfrentando com o embargo. Juros, contratos suspensos, funcionários parados. — Ele fez uma pausa, como se quisesse que o próximo ponto pesasse mais do que os anteriores. — O reitor pediu a lista completa dos trabalhos em andamento no PAICI e me pediu que eu averiguasse se algum dos outros estudos também tinha caráter de urgência. Nós dois checamos. Nenhum tinha. As diretrizes do programa não estabelecem fluxo de trabalho nem ordem de prioridade entre os processos. Não existe, tecnicamente, nada sendo furado.
— Tecnicamente. — Repeti a palavra, deixando um instante de silêncio antes de continuar. — Mas essas diretrizes foram escritas antes de eu entrar no programa, Flávio, e já deveriam ter sido atualizadas há tempos. A ausência de uma regra não é a mesma coisa que uma permissão. E um favor pessoal que resulta em prioridade absoluta dentro da universidade é pressão institucional. Só que travestida de gentileza.
Ele ficou em silêncio, e naquele silêncio eu podia ler o desconforto de quem sabia que eu tinha razão e não tinha como argumentar contra isso.
— Quero essa conversa registrada — eu disse. — Quero que você me mande isso por e-mail. O que o reitor decidiu, quando, e a partir de que solicitação.
Vi o rosto dele mudar, um receio pequeno atravessando a expressão antes que ele conseguisse disfarçar.
— Para quê? Você pretende colocar isso no laudo?
— Não. — Balancei a cabeça. — O laudo vai ser técnico, como sempre foi. Isso não entra nele.
— Então por quê?
— Porque existe uma diferença entre o que compõe o estudo e o que compõe a história ao redor dele — falei, mais devagar, tentando fazer ele entender sem soar como acusação. — Isso não diz respeito ao laudo. Mas, ao mesmo tempo, diz. Se um dia alguém questionar a lisura do processo, eu quero ter cada movimentação documentada. Inclusive essa.
Ele suspirou, e algo nos ombros dele relaxou, como se tivesse temido uma reação pior.
— Vou mandar o e-mail ainda hoje.
— Agradeço.
— Você precisa avisar o grupo sobre essa mudança — ele disse.
— Se o processo vai andar mais rápido agora, eles precisam saber.
— Vou avisar.
— Já tem alguma data prevista para início?
— A parte documental já iniciamos.
— E como estão?
— Terminando. — Apoiei a mão na lateral da mesa à minha frente. — Provavelmente até o fim desta semana teremos levantado tudo que precisa ser levantado. As inconsistências na delimitação, a defasagem da linha de base, os laudos anteriores. Tudo organizado.
— Então, considerando o pedido de urgência, o que entra em jogo é a parte in loco. A partir da semana que vem, vocês terão que se organizar para ir a campo. — Ele me olhou, direto. — O que pensou a respeito disso?
— Confesso que ainda não sei. Penso talvez em fazer bate e volta — respondi, já reorganizando mentalmente a logística enquanto falava. — Barco saindo de Ventura de manhã, voltando à tarde. Vamos nos organizar com os materiais para que cada saída já leve o que for necessário para o dia, sem depender de guardar nada na ilha entre uma saída e outra, pelo menos por enquanto.
Flávio assentiu.
— Mantenha-me informado.
— Mantenho.
Saí da sala com a sensação estranha de ter perdido alguma coisa. A certeza pequena e incômoda de que aquele estudo, que eu queria limpo do começo ao fim, já estava sendo tocado por mãos que não eram as minhas antes mesmo de a equipe pisar em Itamaré.
As mãos de Alicia.
Pensei nelas antes de pensar em qualquer outra coisa e me odiei um pouco por isso, pelo modo automático como o nome dela vinha primeiro.
Voltei para a sala onde Isabela e Marina continuavam debruçadas sobre os documentos.
— Professora — disse Isabela, sem tirar os olhos da tela. — Encontrei mais uma inconsistência na delimitação. A linha de base que eles utilizaram no documento é de dois mil e quatorze.
— Dois mil e quatorze — repeti, tentando focar novamente no trabalho. — Dez anos desatualizada.
— Onze — ela corrigiu, levantando os olhos.
— Onze — concordei.
— Isso invalida o dimensionamento inteiro da face norte?
— Depende do quanto a linha de costa se deslocou nesse período. — Apoiei os cotovelos na mesa. — E essa é exatamente a razão do drone.
Ela assentiu, satisfeita com a resposta, e voltou para a tela.
Eu fiquei olhando para o mapa aberto na minha frente. A linha de costa de Itamaré estava ali, desenhada em azul sobre o fundo branco.
Eu conhecia aquela costa de outro jeito, não de mapa. Conhecia pelo cheiro, pelo som, pela temperatura da areia em diferentes horas do dia. Conhecia os lugares onde a maré subia mais rápido e os lugares onde o fundo mudava de areia para pedra sem avisar.
Fechei o arquivo e fui buscar café, como quem foge de um pensamento fingindo que só está com sede.
***
Na quinta-feira, às nove e cinquenta, desci até a recepção.
Não precisava descer. Poderia ter mandado a Júlia buscar.
— Não se preocupe, Júlia. Eu mesma vou receber.
Ela me olhou por um segundo com aquela discrição que lhe era característica e não disse nada. Só assentiu.
Alicia entrou pelo corredor às dez em ponto.
Calça de alfaiataria preta, blusa de seda num tom de vinho escuro que parecia ter sido escolhido para roubar a luz da manhã só para si, o cabelo impecável como sempre. A bolsa no ombro e aquele passo que eu já reconhecia. Firme, sem pressa aparente, mas que chegava rápido, como se o espaço se dobrasse um pouco para ela.
Ela me viu e algo no rosto dela se moveu levemente, um meio sorriso. A primeira vitória tinha sido dela. E ela sabia disso.
— Professora Nalú — disse, e havia uma nota de intimidade escondida dentro da formalidade.
— Senhora Alicia. — Fiz um gesto em direção ao corredor. — Por aqui.
Caminhamos lado a lado dessa vez. O corredor era largo o suficiente para isso, e havia algo diferente em andar ao lado dela em vez de na frente. Uma simetria que registrei sem saber ao certo o que fazer com o registro. Os passos quase se encontrando no mesmo ritmo, o perfume dela chegando até mim em ondas, algo entre madeira e uma flor que eu não sabia nomear, e que eu ia reconhecer, depois, em qualquer sala em que ela estivesse.
— A reunião não será na sua sala? — ela perguntou.
— Na sala do professor Flávio hoje. Ele queria participar e faz sentido tê-lo presente nessa etapa.
— Claro. — Uma pausa de meio segundo. — Faz todo sentido.
Ela disse isso olhando para o corredor à frente, e eu olhei para ela de soslaio.
Havia algo no tom. Não era contrariedade, não era exatamente isso. Era mais parecido com um ajuste. O tipo que as pessoas fazem quando a realidade chegou diferente do que o pensamento tinha antecipado.
O que não fazia sentido nenhum.
E exatamente por não fazer sentido, ficou. Ficou comigo pelo resto do corredor, um fiapo de pergunta que eu não tinha coragem de puxar.
A sala do Flávio era maior que a minha, com uma mesa de reunião própria e janela para outro ângulo do campus. Ele estava de pé quando entramos, com aquele sorriso sincero que era característico dele nas ocasiões em que estava satisfeito com alguma coisa.
— Senhora Alicia. — Ele estendeu a mão. — Obrigado por vir até nós desta vez.
— Eu que agradeço por me receberem. — Ela apertou a mão dele com firmeza. — E, por favor — acrescentou —, pode me chamar só de Alicia. Os dois. Teremos um contato maior a partir de agora e não vejo sentido em formalidades.
Flávio sorriu.
Eu não disse nada. A ideia de que poderíamos ter mais proximidade despertava em mim emoções conflitantes que eu ainda não conseguia ou não queria definir. Um misto de alarme e algo mais quente, mais baixo no corpo, que eu preferia atribuir ao excesso de café pela manhã do que a qualquer outra coisa.
Nos sentamos. Flávio na cabeceira, eu de um lado, Alicia do outro, exatamente à minha frente, de modo que qualquer coisa que eu dissesse chegaria primeiro a ela do que a ele. A pasta dela já estava aberta antes mesmo de Flávio começar.
— Você agendou a reunião de hoje em alinhamento com a Nalú, então pode dar início — disse Flávio.
— Antes de começarmos — disse Alicia, fechando a pasta por um instante, as mãos pousadas sobre ela —, gostaria de agradecer formalmente a prioridade que o laudo passou a receber. Sei que isso muda o ritmo de tudo daqui em diante.
— Sim. Já sabemos de suas influências junto ao reitor. — A frase saiu de mim antes que eu decidisse se devia dizê-la, mais afiada do que qualquer coisa que eu tivesse dito a ela até então.
Um silêncio curto.
Flávio parou de mexer nos papéis.
Alicia não desviou o olhar. Um meio sorriso apareceu, lento, quase gentil, como se a farpa tivesse sido bem-vinda em vez de ofensiva.
— Vou considerar isso um elogio.
— Não foi.
— Eu sei. — Ela disse isso sem pressa nenhuma, o meio sorriso ainda ali, intacto. — Ainda assim, vou considerar.
Flávio pigarreou, ajeitando os papéis à sua frente como se isso fosse resolver um desconforto que só ele parecia sentir.
— Bem... — ele disse. — Talvez possamos seguir para os pontos técnicos?
— Claro. — Alicia reabriu a pasta, sem pressa, o meio sorriso ainda pairando no canto da boca. — Analisei o plano com atenção — ela disse, direto, e os olhos dela subiram até os meus. — É sólido e bem estruturado. Mas gostaria de falar sobre três pontos. O cronograma, a logística de campo e um item que está no Anexo II.
— Pode prosseguir — eu disse, e minha voz saiu mais firme do que eu me sentia por dentro.
— O cronograma é de quarenta e cinco a sessenta dias. — Ela olhou para mim de maneira intensa. — Entendo que a fase comunitária não tem prazo estimável. Mas preciso de uma âncora mínima para trabalhar com o jurídico. Não de um prazo que amarre o processo. Só uma referência.
— Vinte a vinte e cinco dias para tudo que não depende da comunidade — respondi, obrigando-me a olhar para os papéis e não para a boca dela quando falava. — Revisão documental, levantamento de campo técnico, análise laboratorial, modelagem e reescrita do novo laudo. Isso eu garanto.
— E a fase comunitária corre paralela ou sequencial?
— Paralela onde for possível. Sequencial onde a comunidade determinar.
Ela anotou, e o gesto, a caneta deslizando, o pulso fino, a atenção total, tinha algo de hipnótico que eu não devia estar notando numa reunião de trabalho. Forcei os olhos de volta para os meus próprios papéis, tentando reorganizar meus pensamentos.
— Ponto dois. Logística de campo. — Ela abriu uma página específica da pasta. — A equipe é composta por quantas pessoas?
— Cinco. Eu, um mestrando do programa e três alunos do último período — pausei, encarando-a de frente, decidida a não ser a primeira a desviar o olhar. — São alunos com experiência de campo. Não é a primeira saída deles.
— Entendi. — O olhar dela foi direto, sem pressa de sair do meu. — Estou pensando em logística. Vocês ficarão em Itamaré durante o levantamento ou farão o deslocamento diário?
— Bate e volta — respondi. — Tem barco saindo de Ventura todo dia de manhã e voltando à tarde. É o suficiente para cobrir o que precisamos.
Ela ficou quieta por um segundo, um silêncio que parecia calculado, deixado ali de propósito para que eu ouvisse minha própria frase de novo e começasse a duvidar dela.
— Duas horas de barco por dia, nos dois sentidos, mais o tempo de campo — ela disse, com aquele ritmo de quem apresenta um argumento que já organizou antes de falar. — São quatro horas de deslocamento desnecessárias. E se o mar fechar, vocês perdem o dia inteiro.
— O mar de Itamaré em março é estável.
— Em março, sim — ela concordou, com uma calma que não era concordância de verdade, mas sim o primeiro degrau de uma escada que ela já tinha subido inteira na cabeça. — Mas o campo pode se estender, como você mesma disse.
Não respondi imediatamente. Ela tinha razão no argumento e eu sabia disso antes de ela terminar a frase. E havia algo quase indecente em como isso me irritava e me atraía ao mesmo tempo.
— Há também a questão das aulas — disse Flávio, em um tom cuidadoso de quem escolhe o momento certo para entrar numa conversa. — Suas turmas e as aulas dos alunos do último período.
Olhei para ele.
— Será mais cômodo vocês ficarem em Itamaré e eu posso cobrir suas aulas enquanto você estiver em campo — ele continuou, com naturalidade. — Não é a primeira vez. E quanto aos alunos do programa, o trabalho de campo conta como carga horária supervisionada. Já fizemos isso antes em outras saídas do PAICI. Basta formalizar.
— Flávio, você já tem sua própria carga horária.
— Tenho. E consigo absorver a sua por algumas semanas sem comprometer nada. — Ele abriu levemente as mãos sobre a mesa, em um gesto simples.
Fiquei quieta.
Havia algo no jeito como ele disse isso que me deixou com menos chão para continuar resistindo.
Alicia, do outro lado da mesa, não disse nada.
Mas eu vi.
Vi o momento exato em que ela entendeu que o obstáculo tinha diminuído, e vi que ela teve o bom senso de não comentar. Os olhos dela pousaram nos meus por um instante, como se estivesse me dizendo, sem uma palavra: eu sei que você sabe que eu ganhei esse round, e não vou estragar isso comemorando na sua frente. Aquilo, de alguma forma, era pior do que se ela tivesse sorrido abertamente.
— O Recanto das Pedras Brancas tem capacidade disponível no período — ela disse então. — A família Sá Noronha oferece hospedagem para toda a equipe durante o trabalho de campo.
Um silêncio se instalou.
Flávio olhou para mim.
Eu olhei para Alicia.
— Não.
Ela não pareceu surpresa. Nem magoada. Apenas pronta.
— Ouça o meu argumento antes de recusar.
— Estou ouvindo. — Sentia meu coração bater mais rápido do que a frase deveria justificar, um ritmo que eu preferi atribuir à irritação.
— O problema não é onde vocês vão dormir.
Esperei.
— É onde vocês vão trabalhar — ela disse, abrindo uma página da pasta e girando o documento na minha direção sem tirar os olhos de mim, como se pudesse conduzir a reunião inteira só com aquele olhar e o resto fosse apenas formalidade.
Havia algo naquilo que me incomodava. A capacidade que ela tinha de fazer duas coisas ao mesmo tempo e não se perder em nenhuma delas era irritante. Irritante e, se eu fosse honesta comigo mesma por um segundo que eu não estava disposta a me dar, também era algo que eu achava perigosamente sexy e atraente.
— Todos os dias sua equipe vai voltar do campo com registros fotográficos, entrevistas, amostras de água, sedimento, medições e anotações. Acredito que isso precisa ser organizado, armazenado e processado diariamente.
— Precisa, mas se vamos ficar hospedados em Itamaré, podemos fazer isso na vila.
— Podem — ela respondeu, sem hesitar, o que me irritou mais do que se tivesse discordado. — Mas em condições improvisadas.
Alicia apoiou os antebraços na mesa, inclinando-se um pouco, e a distância entre nós pareceu, por um instante absurdo, menor do que a mesa deveria permitir. E aquele maldito perfume chegou com ainda mais força.
— Vocês vão precisar de internet estável, espaço para reuniões, armazenamento de equipamentos, área para triagem de material e um local onde cinco pessoas consigam trabalhar juntas por horas.
— Ainda prefiro a vila.
— Então considere os equipamentos — ela disse, e o olhar dela encontrou o meu e ficou, sem pressa, sem pressão, como quem sabe que não precisa forçar porque o tempo está do seu lado.
— GPS diferencial. Correntômetros. Notebooks de campo. Equipamentos de georreferenciamento. Amostras.
Ela enumerava os itens sem consultar nenhuma anotação, e havia algo desconcertante em ser tão perfeitamente preparada, em nunca hesitar, em nunca precisar de um segundo a mais para lembrar.
— Tudo isso precisa ser guardado em um único local, com segurança.
— Existem pousadas.
— Existem, mas conheço Itamaré — ela inclinou levemente a cabeça, um gesto quase de intimidade. — Elas não foram projetadas para funcionar como base operacional de uma equipe técnica.
Ela disse que conhecia Itamaré.
Não como eu conhecia, certamente. Não com a areia debaixo das unhas e o sal grudado na pele, não com anos de manhãs cedo e barcos de madeira. O canto da minha mandíbula se contraiu e ela percebeu.
— Basta um equipamento desaparecer ou ser danificado para atrasar dias de trabalho. Sem falar nas amostras.
Flávio permaneceu em silêncio.
O que, vindo dele, era quase uma tomada de posição.
— Ainda existe outro problema — Alicia disse, e desta vez havia algo diferente na voz, mais cuidadoso, como se estivesse escolhendo o ritmo com que entregava o próximo argumento.
— Qual?
— A comunidade — ela disse, e ficou quieta, deixando a palavra ocupar espaço antes de continuar.
Franzi a testa.
— O que tem a comunidade?
— Você mesma disse que a fase comunitária é a parte mais delicada do estudo.
Assenti, a contragosto.
— E eu concordo — ela sustentou meu olhar com firmeza, sem nenhum traço de ironia agora. — Itamaré é uma ilha pequena.
Eu sabia disso e já sabia para onde aquilo estava indo.
— Se a equipe ficar hospedada na vila, em poucos dias todo mundo vai saber onde vocês estão, com quem conversaram, quais famílias visitaram e quais perguntas fizeram.
— Isso acontece em qualquer comunidade pequena.
— Exatamente — a resposta veio imediatamente. — E quanto mais visível for a rotina da equipe, mais a própria presença de vocês começa a interferir nas respostas.
— Eu nasci e cresci em Itamaré. — Deixei a frase pousar antes de continuar, e vi algo vacilar, por uma fração de segundo, na compostura dela, como se aquele dado não estivesse na pasta que ela tinha estudado com tanto cuidado. — Conheço cada família da vila, cada beco, cada história que se repete há gerações antes de eu nascer. Se o que te preocupa de verdade é um fator externo interferindo na resposta da comunidade, talvez valha a pena considerar que eu também possa ser um.
O silêncio dela durou mais do que qualquer pausa calculada que eu já tinha visto vir dela até ali.
— Não tinha essa informação — ela disse, por fim. — Você não está no meu dossiê como natural da ilha.
— Eu não estou no seu dossiê, mas não é como se fosse um segredo eu ser de lá.
Ela me olhou de um jeito diferente então, o olhar mais intenso do que tinha sido a manhã inteira, como quem se reorganiza silenciosamente.
— Isso muda o meu argumento — ela admitiu. — Mas não o invalida por inteiro. Você é de lá. Eu não sou. Mas acredito que a presença que preocupa a comunidade não é a sua. É a minha.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Porque aquilo não era um argumento pessoal ou empresarial.
Era metodológico.
E nós duas sabíamos.
Vi quando Flávio desviou os olhos para a janela, provavelmente porque também tinha percebido, e por um momento a sala pareceu conter só as duas.
Alicia descruzou as mãos devagar, num gesto que parecia quase uma rendição, embora eu soubesse que ela não se rendia com facilidade.
— Não estou propondo que fiquem hospedados no resort porque é mais confortável — ela fez uma pausa, um brilho de ironia rápido atravessando os olhos. — Embora, sejamos sinceras, provavelmente será. — E então o tom mudou de novo, mais direto, e havia algo nele uma espécie de franqueza que me pegou desprevenida. — Estou propondo porque acredito que é a forma de proteger a qualidade do estudo.
Meu estômago apertou de um jeito inesperado, um nó quente e incômodo que eu não sabia se era raiva contida ou outra coisa, algo mais difícil de nomear em voz alta.
Porque eu tinha procurado a falha.
E não estava encontrando.
— A equipe ficaria em uma ala separada — ela continuou. — Com acesso independente, espaço de trabalho próprio e armazenamento exclusivo para o material técnico.
— A verba que o PAICI destina para diárias não cobre nem de longe o que o Recanto das Pedras Brancas deve custar por noite. É um impedimento orçamentário.
— Sei quanto o programa dispõe para hospedagem. — Ela disse isso com a mesma calma de sempre, como se já tivesse antecipado a objeção antes mesmo de eu formulá-la. — E sei também que o hotel mantém um programa de descontos para instituições de ensino e grupos de pesquisa. Não é incomum. Outras universidades da região já usaram.
— Não vou pedir favor à empresa que estamos avaliando.
— Não seria um favor. — Ela tirou um documento da pasta e o girou na minha direção, sem pressa, como já fizera antes. — Seria a aplicação de uma política existente, disponível a qualquer instituição que solicitasse, com ou sem este estudo em curso. Posso providenciar que o desconto conste como condição institucional padrão, não como concessão pontual. É só ajustar o contrato. Se isso resolver o desconforto.
Eu permaneci em silêncio, sentindo o peso do olhar dela como se fosse algo físico, uma mão pousada de leve sobre a pele.
O problema era que os argumentos dela faziam sentido.
E quanto mais sentido faziam, menos eu gostava da situação e menos ainda gostava de perceber que parte de mim não estava resistindo à proposta, e sim à proximidade que a proposta implicava.
— Uma condição — eu disse por fim, a voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Vi um brilho quase imperceptível atravessar os olhos dela.
Não era vitória.
Era alívio. Um alívio genuíno, desarmado, que durou menos de um segundo antes de ela reorganizar o rosto de volta à compostura de sempre.
Como se ela já soubesse qual seria minha resposta antes mesmo de eu terminar a frase e talvez soubesse mesmo.
— Se em qualquer momento eu avaliar que a proximidade com o resort está comprometendo a abertura com a comunidade, a equipe muda de base imediatamente. Sem negociação. — Fiz uma pausa.
Flávio me olhou e acenou com a cabeça em concordância.
Uma pausa, mais longa do que o necessário, os olhos dela nos meus, quentes de um jeito que não tinha nada a ver com o clima da sala.
— Concordo — ela disse, e a boca dela voltou a se curvar naquele mesmo meio sorriso. Meus olhos foram até lá antes que eu tivesse tempo de impedir, e assim que me dei conta do que estava fazendo, desviei.
Olhei para ela e vi certa diversão em seus olhos.
— Então está resolvido — Flávio disse, destravando os ombros de um jeito que deixou claro que tinha estado mais tenso do que aparentava.
— Ainda falta o ponto três — disse Alicia, virando uma página. — O Anexo II. Os custos de locação.
— Ah sim, já vi que você circulou — Flávio disse.
— Temos um contrato ativo com uma empresa técnica — ela disse, com a naturalidade de quem menciona um detalhe administrativo. — Fornecedora de equipamentos de levantamento costeiro. O contrato prevê a disponibilidade de equipamentos em campo. Se vocês não utilizarem, o contrato simplesmente não é aproveitado.
Olhei para ela.
— Está dizendo que os equipamentos que precisaríamos alugar já estão pagos?
— Estão — uma pausa de um segundo. — E seria um desperdício não usar.
Havia algo levemente irônico no modo como ela disse aquilo, como se soubesse que estava tirando meu principal argumento antes que eu o formulasse, e gostasse exatamente disso. Do jogo, de me ver sem saída.
Flávio fez aquele som baixo que era metade tosse, metade riso contido.
Eu olhei para ele.
— Está bem — disse por fim.
Fiquei olhando para ela. Havia algo naquela mulher que era irritante e, eu admiti para mim mesma num lugar que preferi não esmiuçar muito, algo além de irritante. Algo que se instalava embaixo da pele e ficava ali, latente, esperando a próxima oportunidade para se fazer sentir de novo.
— Então estamos alinhadas — ela disse.
— Estamos.
— E quando a equipe estará pronta para o campo? — Ela fechou a pasta.
— Provavelmente na semana que vem. Precisamos terminar a fase documental e preciso fazer um alinhamento completo com o grupo antes de sairmos.
— Semana que vem. — Ela anotou. — Como já combinamos anteriormente, estarei lá quando vocês chegarem. Preciso apenas que me informem o dia.
Flávio assentiu com aquela expressão de coordenador satisfeito.
Nos levantamos.
No corredor, caminhamos lado a lado até a recepção de novo. O mesmo corredor, a mesma simetria de antes. Só que agora eu estava mais ciente dela, do espaço que não existia entre nós e do espaço que existia, de como os braços quase se tocavam a cada passo, de como eu regulava o próprio ritmo sem perceber para acompanhar o dela.
Na recepção, ela parou e me olhou.
— Professora Bonfim, eu...
— Se quer dispensar formalidades, acho pertinente que também me chame apenas pelo meu nome. Só Nalú está bom. — interrompi sua fala.
— É justo. Achei bastante produtivo novamente. Até breve, Nalú.
Meu nome na boca dela tinha um som diferente do que tinha em qualquer outra boca. Mais devagar, como se ela estivesse prestando atenção em cada sílaba.
— Precisa que eu te acompanhe até a saída? — perguntei, só para dizer alguma coisa, porque ela continuava ali, me olhando.
— Não é necessário — ela disse, já ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Duas vezes aqui e já conheço o caminho.
— Então até breve, Alicia.
Ela estendeu a mão.
Eu a apertei.
A mão dela era fria e a minha estava morna. Senti o contraste antes de pensar nele, e durou mais do que um aperto de mão de despedida costuma durar. Um segundo, talvez dois, o suficiente para que eu sentisse o polegar dela roçar de leve os meus nós dos dedos antes de soltar, um gesto tão pequeno que poderia ter sido acidental, e que eu soube, com uma certeza incômoda, que não era.
Ainda com a mão presa na minha, ela inclinou a cabeça de leve.
— Meu batom está borrado?
A pergunta me pegou de surpresa o suficiente para que meus olhos fossem, mais uma vez, direto para a boca dela. Um reflexo que eu não tive tempo de conter antes que acontecesse. Engoli em seco.
— Não.
— É que notei você olhando a minha boca durante a reunião — ela disse, o meio sorriso de volta, lento, como se soubesse exatamente o efeito que tinha. — E pensei que poderia estar.
— Im... impressão sua.
— Obrigada. — Ela disse isso soltando minha mão por fim, sem o tom profissional de antes. Só isso, e saiu, deixando o perfume dela demorar um pouco mais no ar.
Eu fiquei parada na recepção por um momento, sentindo meu rosto corar.
Voltei para o corredor.
E enquanto subia as escadas de volta para minha sala, com a palma da mão ainda quente, percebi que estava pensando demais no trabalho e que Bruno estava certo. Eu precisava sair mais.
Só que, naquele momento, "sair mais" já não parecia ter nada a ver com Bruno, e tinha tudo a ver com uma ilha pequena, um hotel de pedras brancas e uma mulher que sabia exatamente onde pisar para me tirar do chão.
Parei por um instante no meio da escada e apoiei a mão no corrimão.
Fechei os olhos.
Aquilo era absurdo.
Alicia era a diretora da empresa que eu estava prestes a avaliar. Ela era um risco. Uma complicação.
Havia ali algo que o mapa não mostrava.
E era exatamente para lá que nós estávamos indo.
Fim do capítulo

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