Capítulo 8

Capítulo 8: O que não estava no plano

de Nada Desvia o Destino, por MalluBlues

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Por Alicia:

Fazia anos que alguém não me oferecia chá.

Café, sim. Água com gás, sempre. Em reuniões mais longas, às vezes um suco que ninguém bebia. Mas chá… chá com potes de vidro etiquetados à mão e uma explicação sobre cada erva, isso eu não lembrava quando tinha acontecido pela última vez. Nem pela primeira, na verdade.

Fiquei pensando nisso no carro, no caminho de volta.

Não no chá em si. No modo como ela ofereceu. Aquela sequência toda. Os nomes, as funções, a história da avó embutida no meio como se fosse natural, como se eu fosse uma aluna que precisava entender o que estava prestes a beber antes de beber. Era espírito docente, eu disse pra mim mesma. Era simplesmente o jeito que ela funcionava, explicando o mundo em camadas antes de deixar qualquer coisa acontecer. 

Tinha algo magnético nisso, algo que me paralisava. 

***

A mensagem chegou na manhã seguinte, às oito e doze.

Eu estava na bancada da cozinha com o notebook aberto quando meu celular vibrou. Um número que eu não tinha salvo ainda, mas que reconheci antes de ler o nome.

Bom dia. Este é meu contato. Nalú Bonfim.

Simples. Direta. Sem ponto de exclamação, sem emoji, sem nenhuma das amenidades que as pessoas costumam adicionar para suavizar uma primeira mensagem. Era exatamente o tipo de mensagem que eu esperaria dela.

Salvei o contato.

Selecionei a foto de perfil.

Olhos verdes. Pele levemente bronzeada, aquele tom que o sol constrói com anos e não com uma semana de praia. Um sorriso contido. Ela era, sem dúvida, uma mulher muito bonita. 

Havia algo naquela imagem que soou familiar de novo. Como quando você ouve uma música sem lembrar onde a ouviu antes.

Passei o polegar pela tela uma vez, sem intenção clara.

Depois respondi.

Bom dia. Agradeço pelo contato.

Ela respondeu em menos de dois minutos.

Enviarei por e-mail ainda hoje o plano de ação para elaboração do novo laudo. Se puder me passar o melhor endereço para envio.

Digitei o e-mail corporativo e enviei.

Perfeito. Até mais tarde então.

Fechei a conversa.

Fui buscar café.

E então, sem que eu tivesse pedido, veio uma vontade súbita e completamente ilógica de tomar chá.

Fiquei parada na frente da cafeteira por um segundo, sentindo o calor subir pelo meu pescoço. Soltei uma risada. Baixinho, na minha cozinha impecável, às oito e vinte da manhã. Eu estava rindo da minha própria cara, sentindo um tesão matinal completamente fora de roteiro por causa de uma professora teimosa. Apertei o botão. Fiz o maldito café. 

***

No meio da tarde, o e-mail pingou na minha caixa com um assunto que parecia o título de uma tese de mestrado. Dezenove páginas em anexo. Imprimi na hora. 

A professora Nalú não estava para brincadeira. O plano era minucioso, dividido em quatro fases. Li cada linha. A Fase 1 era o feijão com arroz: revisão, legislação, apontar os nossos erros. O esperado. 

Mas a Fase 2... aí a brincadeira ficava interessante. Sete a dez dias enfiados em Itamaré. Ela listou o arsenal da universidade, mas foi transparente sobre os equipamentos caros que faltavam: correntômetros acústicos, sonar de varredura lateral, drones multiespectrais. Embarcações maiores. 

E então, no rodapé, a cereja do bolo. Uma notinha arrogante e deliciosa: Os custos de locação serão cobertos pelo orçamento do programa, salvo acordo diferente entre as partes. Li duas vezes. Sorri. 

Risquei a linha com a caneta vermelha. 

Isso não era sobre dinheiro. Era uma demarcação de território. Ela estava mostrando os dentes, me dizendo que o programa dela se bancava, que não precisava do meu talão de cheques. Era uma parceria técnica. 

Eu entendi perfeitamente o recado. 

E decidi que o responderia na quinta-feira, olhando bem fundo naqueles olhos verdes, com uma contraproposta. 

Sublinhei a parte do drone e do engajamento comunitário. Três páginas inteiras dedicadas aos pescadores, com um aviso claro: Não haverá compressão de prazo. Ou seja: Não me apresse, dondoca. 

No total: quarenta e cinco a sessenta dias. 

Era tempo para caralho. Era dinheiro escorrendo pelo ralo. Teríamos que rebolar na frente do Ministério Público para conseguir essa prorrogação. 

Mas era também um plano que, pela primeira vez desde o embargo, parecia ter estrutura real. Não era um documento construído para contornar o problema. Era um documento construído para olhar o problema de frente e ver o que havia lá.

Havia uma diferença. E eu reconhecia a diferença.

Respondi ao e-mail com uma mensagem no celular dela.

Recebi e analisei. Plano bem estruturado. Podemos conversar sobre cronograma e logística quando for conveniente para você.

A resposta dela veio em menos de uma hora.

Pode ser na quinta-feira, às dez, se o horário for viável.

Confirmado.

Bloqueei a tela e coloquei o celular na mesa, sentindo uma adrenalina gostosa.

***

Na manhã seguinte, chamei a Patrícia na minha sala.

Ela entrou com aquela pasta que eu já reconhecia: grossa, organizada por abas coloridas, o tipo de material que ela preparava quando queria mostrar que tinha feito o trabalho.

— As alternativas que você pediu — ela disse, colocando sobre a mesa. — Três opções de consultoria técnica. Mapeei viabilidade jurídica, prazo estimado e custo de cada uma.

Eu olhei para a pasta sem abrir.

— Não vai ser necessário.

Patrícia ficou quieta por um segundo.

— Fechamos com a universidade. — Empurrei a pasta de volta com gentileza. — O plano de ação que a professora Nalú enviou ontem é sólido. Metodologia clara, fases bem definidas, equipe qualificada. E o nome do PAICI junto ao laudo vai pesar com o MP de um jeito que nenhuma consultoria privada conseguiria.

Patrícia assentiu devagar, com aquela expressão de quem estava processando mais do que o que eu tinha dito.

— Patrícia — eu disse, e ela ergueu os olhos. — Quero agradecer. A indicação da universidade foi sua. E foi a decisão certa.

Ela abriu levemente a boca, como se não soubesse ao certo como receber isso.

— Meu pai também está de acordo — continuei. — O que, como você sabe, não é pouca coisa.

O canto da boca dela se moveu.

— Fico feliz que tenha funcionado.

— Eu também. — Pausei. — Vou precisar me ausentar daqui alguns dias. Estarei diretamente envolvida na elaboração do novo laudo. Acompanhando o trabalho de campo.

Patrícia arregalou levemente os olhos. 

— Entendo a preocupação — disse, antes que ela precisasse formular. — Mas já acertei os termos com a professora Bonfim. Ela concordou com minha participação desde que eu não interfira nos resultados. Não vou conduzir nada. Vou acompanhar pra poder articular soluções viáveis caso levantem problemas que precisem de resposta imediata da empresa.

Patrícia assentiu uma vez, mais convicta agora.

— Faz sentido.

— E enquanto estiver fora — continuei, cruzando os braços sobre a mesa —, preciso que você assuma a diretoria. Com autonomia real, não como interina de fachada. Decisões do dia a dia são suas. O que for estratégico ou envolver o projeto Poente, você me mantém a par antes de fechar.

Patrícia me olhou.

— Vou ajustar sua remuneração para refletir isso. A proposta chega por e-mail ainda hoje.

Houve um silêncio que era de surpresa genuína, o tipo que Patrícia raramente deixava aparecer.

— Obrigada, Alicia.

— Você merecia antes. — Me levantei. — Alguma dúvida sobre o que conversamos?

— Nenhuma.

— Então é isso. Peço também que confira se o Rodrigo já enviou resposta ao MP solicitando prorrogação do prazo. Se ele não enviou ainda, peça para ele fazer o documento mencionando a parceria com a Universidade Ventura e com o programa da professora Nalú.

Patrícia fez um aceno com a cabeça confirmando e saiu com a pasta colorida debaixo do braço e um passo levemente diferente do que tinha entrado.

***

Na quarta, a Camila me esperava na entrada do parque com as duas garrafinhas de água e aquela expressão de quem já estava animada antes de começar.

Corríamos juntas pelo menos duas vezes por mês. Era uma das poucas coisas na minha vida que eu não abria mão de fazer. 

Demos as primeiras voltas em silêncio, aquecendo o passo. O parque estava cheio naquela hora: famílias, cachorros, ciclistas. 

Na terceira volta, Camila quebrou o silêncio.

— Então me conta — ela disse, sem perder o ritmo, virando o rosto na minha direção com um brilho curioso nos olhos. — A semana foi boa?

— Produtiva.

— Produtiva é o seu jeito de dizer boa sem admitir que foi boa. — O canto da boca dela se ergueu num sorriso provocador.

Dei uma risada curta.

— Acho que em breve vou conseguir resolver o problema do embargo. O laudo vai ser refeito pela universidade.

— Uau. — Ela me olhou de lado, genuinamente impressionada, arqueando as sobrancelhas. — E o que desbloqueou esse milagre? Porque na semana passada você estava a um passo de mandar o Ministério Público para o inferno. 

Pausei meio segundo. O calor subiu no pescoço antes da resposta.

— Um chá.

Silêncio.

Depois a Camila parou completamente de correr e começou a rir.

— Espera. — Ela ficou de mãos na cintura no meio da pista, tentando recuperar o fôlego entre uma gargalhada e outra. — Volta aqui. Um chá?

— Camila, você está no meio da ciclovia.

— Estou processando. — Ela retomou o passo ainda balançando a cabeça, como se aquilo desafiasse tudo o que sabia sobre mim. — Alicia Sá Noronha. Que uma vez conduziu uma negociação de três horas com dor de cabeça e salto alto sem piscar. Foi convencida por um chá.

— Não expliquei direito. Não fui convencida pelo chá.

— Então pelo quê? — perguntou, acelerando alguns passos para voltar a correr ao meu lado.

— Pela conversa que acompanhou o chá.

— Que é diferente.

— Completamente diferente.

— Ah, o contexto. Claro. — Ela lançou um olhar debochado para o céu. — E quem é a barista sensacional que te serviu esse chá milagroso?

— A coordenadora do programa. Da universidade.

— Como ela é? — A pergunta saiu casual, mas o olhar atento denunciava que ela já estava investigando alguma coisa.

— Competente. Direta. Muito convicta do que pensa.

— Isso é currículo, Ali. Quero mais. — Ela soltou uma risada curta.

— Tem aquela coisa de militantizinha, sabe? Meio irritante. Não deixa passar nada. Me incomodou na primeira reunião e me desarmou na segunda sem parecer que estava tentando fazer nenhuma das duas coisas.

— E mesmo assim você tomou o chá dela. — Camila me encarou de rabo de olho, o sorriso se alargando. 

— Eu tomei o chá porque ela ofereceu e seria uma descortesia recusar.

— Ah, foi por isso então. — Ela assentiu lentamente, fingindo aceitar a explicação.

— Foi.

— E me diz uma coisa... O Rafael sabe que você voltou a tomar cházinhos por aí? 

Senti meu corpo travar levemente.

— O Rafael sabe que fechei uma parceria com a universidade, sim.

A Camila parou de olhar para a pista. Ela se virou para mim em pleno movimento, varrendo meu rosto com os olhos, os lábios se contorcendo num sorriso carregado de malícia.

— Espera aí... — ela soltou, baixinho, diminuindo o passo só para me encarar. — Essa faísca no seu olho. Essa postura. Eu conheço essa energia, Alicia.

— Que energia, Camila? Não começa.

— Essa postura ereta, esse queixo erguido... Fazia quanto tempo que eu não te via assim? — Ela deu uma risadinha gostosa, balançando a cabeça. — Você ligou o radar de novo. Tá exalando aquele perigo de antigamente. O modo caçadora tá ativado!

— Ficou louca? Do que você tá falando?

Senti minhas bochechas queimarem. Abri a boca para continuar rebatendo:

— Primeiro que eu não estou caçando ninguém. Segundo…

Fiquei em silêncio por um tempo, sem saber como continuar. A imagem da Nalú e do pescoço bronzeado dela piscou na minha mente com uma clareza indecente. 

— Não tem segundo? — O sorriso dela aumentou imediatamente.

— Não tem segundo.

— Óbvio que não tem. — Ela piscou, o olhar brilhando de pura diversão. — Você tá no veneno e nem percebeu. 

Fiquei quieta por uma volta inteira. O silêncio batendo no mesmo ritmo dos meus passos, enquanto meu cérebro tentava em vão apagar a provocação dela. 

— Mas e você? — tentei virar o jogo. — Tá bem animadinha hoje, né? Cheia de palpites… 

— Quando der certo, eu conto — Camila disse, fazendo um bico.

— Você sempre faz isso, Camila. Sempre — Bufei, mais entretida do que irritada.

— Mas voltando ao projeto... e agora o que vem? — ela voltou ao assunto por outra beirada, mas dessa vez a provocação deu lugar a uma curiosidade mais sincera.

— Acompanharei tudo de perto e provavelmente vou a campo também.

— Então você vai pra Itamaré? — ela perguntou, erguendo levemente as sobrancelhas.

— Me obrigo, né. — Respirei fundo, sentindo o ar entalar um pouco no peito. — Esse é o sonho do meu pai. Esse resort tem que sair e eu vou fazer de tudo pra que dê certo.

— Aham. — Uma pausa calculada, acompanhada por um sorriso que eu já conhecia bem demais. — Tomando muitos chás no processo.

A risada me pegou antes que eu pudesse segurar.

— Você é impossível.

— Sou consistente. É diferente. — Ela me deu um trombinho de leve com o ombro, sem perder o passo. — E estava com saudade de você, sabia? Quando você some assim, só aparecem notícias de embargo e reunião. Nunca aparece uma história de chá.

— Não é uma história de chá. — Senti o calor subir antes mesmo de terminar a frase.

— Ainda não. — Ela sorriu, daquele jeito que sempre sabia demais. — Corre, caçadora. Vai precisar de fôlego!

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
M

marianaaleao

03/09/2026 às 02:07

Meninaaaa. O negócio começou a esquentar.

M

MalluBlues 11/09/2026 às 18:42

Olha... tá lentinho, mas um hora chega lá, Marina.
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