Capítulo 7

Capítulo 7: O limite da linha

de Nada Desvia o Destino, por MalluBlues

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Por Nalú:

A aula de Avaliação de Impacto Ambiental para a turma do segundo ano estava nos últimos quinze minutos quando o Lucas, que ficava sempre na segunda fileira e que eu já tinha aprendido a reconhecer como o tipo de aluno que não pergunta por performance mas por necessidade real, levantou a mão.

— Professora, uma coisa que ficou da aula passada. — Ele abriu o caderno, mas não olhou pra ele. — A gente fala muito sobre como preparar as comunidades pra entender o processo de licenciamento, como traduzir o técnico pro acessível. Mas às vezes eu fico pensando... a dificuldade não é a comunidade entender. É a empresa entender. É a construtora entender que o que está ali não é obstáculo, é história. Aí também é nosso trabalho tentar fazer com que eles entendam, não é?

Alguns alunos assentiram. Outros esperaram.

Eu ouvi tudo. Anotei, sem pressa, uma palavra no canto do caderno: história. Porque era exatamente dali que eu ia puxar o fio na semana seguinte. E foi nesse intervalo de calma, no meio segundo entre ouvir e responder, que ela voltou sem que eu tivesse autorizado. 

A sala de reuniões, a luz fria, a mesa de vidro, o logo da Sá Noronha projetado em letras prateadas. E aquela voz rouca dizendo a fala de direitos humanos é muito bem-vinda na sala de aula com um tom afiado.

Sexta-feira foi um desastre. Não o tipo de desastre que explode e clareia. O tipo que deixa resíduo.

— Professora Nalú?

Pisquei.

Lucas me olhava com uma expressão levemente confusa. A turma também.

— Desculpa. — Endireitei a postura e apoiei as mãos na mesa. — Você tem razão, Lucas. E é uma observação muito pertinente.

Ele esperou.

— Assessorar comunidades é parte do trabalho. Mas assessorar empresas, construtoras, empreendedores sobre o que significa atuar em território de comunidade tradicional, isso também é papel nosso. E posso dizer que o mercado de trabalho nessa área é mais promissor do que vocês imaginam, justamente porque ainda tem muita gente do outro lado que não entendeu o que você acabou de articular.

Ele assentiu, satisfeito. 

— Semana que vem continuamos com o estudo de caso. Tragam o material que eu enviei preenchido.

A turma começou a se dispersar com aquele barulho familiar de cadeiras e conversas paralelas. Eu comecei a guardar os materiais devagar, ainda com o eco da reunião de sexta na cabeça.

Talvez essa parceria seja um erro.

Eu tinha dito isso. Ela tinha dito antes, e eu tinha devolvido. 

Fechei o notebook, peguei minha pasta e saí da sala.

E como se meus pensamentos tivessem peso suficiente para atravessar a parede, lá estava ela. A alguns metros da porta. 

Os cabelos pretos e curtos, o mesmo corte preciso. Hoje usava uma calça de alfaiataria cinza e uma blusa de seda off-white com mangas longas dobradas até o cotovelo. Sem blazer. Havia algo nessa ausência que tornava a presença dela diferente, levemente mais desconcertante, o que de alguma forma tornava mais difícil, não mais fácil, saber onde olhar.

Os olhos castanhos me encontraram antes de eu terminar de processar o resto.

Senti um frio na barriga que não pedi e que ignorei na mesma velocidade em que apareceu.

— Acredito que temos negócios inacabados — ela disse. — Podemos conversar?

***

— Claro. Pode vir comigo — disse.

Caminhamos pelo corredor em silêncio. Eu na frente, ela um passo atrás. E eu que cresci aprendendo a ler o mar pelo som, percebi que estava lendo os passos dela com uma atenção que não tinha razão de ser. 

Na recepção, Júlia estava com a bolsa no ombro, claramente prestes a sair. Levantou os olhos quando a porta abriu, viu a mim, viu Alicia, e fez aquela pausa discreta de quem está calculando se precisa ficar.

— Precisa de algo, professora Nalú?

— Não, Júlia. Obrigada. Terei uma reunião agora com a senhora Alicia. Pode ir.

Júlia assentiu com um sorriso neutro, lançou um último olhar brevíssimo na direção de Alicia, e saiu.

Alicia esperou a porta fechar.

— Acho que sua assistente não se sentiu muito confortável te deixando a sós comigo.

Olhei para ela.

— Júlia é apenas bastante observadora e como nunca tinha te visto por aqui antes, estranhou. 

— Ela deve ter pensado que vim trazer problema no final do seu expediente.

— E ela está certa?

Alicia não respondeu de imediato. Só me olhou, e havia ali uma pergunta que não era bem a que tinha feito em voz alta.

— Isso depende de quanto trabalho você me der — ela disse, por fim.

— E se eu disser que pretendo dar bastante?

O canto da boca dela se curvou em um sorriso.

— Você não se assusta fácil, professora Nalú.

— Não é questão de susto. — Comecei a andar de volta em direção à minha mesa, sem pressa, sabendo que ela ia me seguir. — É questão de paciência. E eu tenho de sobra.

***

Minha sala tinha aquela desordem organizada que só faz sentido pra quem trabalha nela. Pilhas de relatórios em lugares específicos, post-its numa sequência que eu não precisava decifrar porque já sabia de cor, o atlas velho aberto na página do litoral sul que eu tinha consultado na semana passada e que ainda não tinha tido coragem de fechar. A janela dava pra amendoeira, que nessa hora da tarde filtrava o sol de um jeito que deixava a luz dourada e levemente embaçada.

Percebi o olhar de Alicia percorrendo o espaço com atenção. Os quadros na parede, quatro ao todo, todos do mar. Uma fotografia em preto e branco da praia de Itamaré que eu tinha emoldurado anos atrás, uma gravura de casco de barco de pesca, duas aquarelas de horizonte que eu tinha comprado numa feira sem saber ao certo por quê e que ficaram na parede porque faziam o espaço parecer menos fechado. O atlas sobre a mesa, antigo, com a capa de couro gasto. Um presente da Jana, anos atrás, numa época em que presentes ainda faziam sentido entre nós.

— O professor Flávio não está mais no departamento nesse horário — eu disse, largando a pasta na mesa. — Se a senhora preferir remarcar com ele presente...

— Prefiro não remarcar. — A voz era mais baixa do que na sexta-feira. Não mais suave necessariamente. — Sei que não avisei que viria, mas se não se importar, prefiro tratar diretamente com você.

Fiz um gesto em direção à cadeira do outro lado da mesa.

— Pode sentar.

Ela sentou. Cruzou as mãos sobre o colo e ficou me encarando sem dizer nada, o que me deixou nervosa.

— Chá? — ofereci, virando para uma prateleira estreita atrás da mesa.

Ali ficavam os seis potes de vidro com etiquetas escritas à mão. A avó Conceição tinha me ensinado que chá não era só bebida, era intenção. Cada erva servia para uma coisa, e a escolha dizia algo sobre o momento.

— Tenho camomila, melissa, hortelã, erva-doce, hibisco e gengibre com limão — disse, passando os olhos pelos potes. Mais silêncio. — A camomila e a melissa são pra desacelerar. O gengibre com limão é pra quando a cabeça está rápida demais e o corpo não acompanha.

Fiz uma pausa.

— A erva-doce era a favorita da minha avó. Eu tenho por hábito e por memória.

Por que estou falando tanto? E por que estou falando disso, com ela, especificamente?

A pergunta passou rápida e sem resposta, como passa a maioria das perguntas que a gente não quer analisar de perto.

Alicia ficou olhando os potes por um segundo.

— Melissa — disse. — Se não for incômodo.

— Não é.

Enquanto aquecia a água na chaleira elétrica, ouvi o silêncio da sala se acomodar entre nós novamente. 

Depois de pronto, coloquei as duas xícaras sobre a mesa. Sentei.

Alicia olhou para a xícara por um segundo antes de olhar para mim.

— Sexta-feira — ela começou, e então pausou, como se estivesse escolhendo a entrada certa para uma conversa que tinha ensaiado e descartado mais de uma vez.

— Sexta-feira foi um desastre — eu disse, antes que ela terminasse.

Ela me olhou.

— Dos dois lados — Alicia completou.

Um silêncio breve.

— Fui direta de um jeito que não foi produtivo — ela continuou. — O comentário sobre direitos humanos foi desnecessário. E eu sabia que era desnecessário enquanto dizia.

— E eu sei que pressionei mais do que a situação pedia naquele momento — respondi. — Você tinha acabado de entrar numa reunião vindo de uma ligação que eu presumo ter sido difícil. Está com um prazo apertado e um problema real. Eu podia ter considerado melhor tudo isso.

Ela ergueu levemente as sobrancelhas, como se não esperasse isso.

— Você notou a ligação.

— Você entrou com metade da cabeça nela. Não é uma crítica. É apenas observação.

Alicia olhou para a xícara, passou o dedo pela borda sem beber, num gesto que parecia mais reflexo do que intenção.

— O problema técnico é real — ela disse. — O laudo anterior foi mal feito. Eu sabia disso antes de você listar os pontos, mas ouvir de alguém que leu o processo inteiro e tem base para argumentar foi diferente.

— O problema com a comunidade também é real, Senhora Alicia — respondi, com cuidado. — E não vai se resolver com pressão de prazo. Isso eu precisava dizer, mesmo que a hora não fosse a melhor.

— Eu sei. 

Os olhos castanhos dela estavam fixos nos meus.

Havia algo naquele momento que era diferente de sexta-feira. Não porque a tensão tivesse desaparecido, mas porque ela tinha mudado de natureza. Não era mais embate. Era, talvez, o começo de uma negociação honesta entre duas pessoas que sabiam o que queriam e ainda não sabiam se conseguiam querer a mesma coisa.

— Então o que a senhora propõe? — perguntei.

Alicia ergueu o olhar.

— Que a gente recomece — disse. — Do ponto certo. — Uma pausa. — Seria de grande valia poder contar com o programa. Com você à frente. O nome do PAICI carrega peso e a metodologia que vocês aplicam é exatamente o que o novo laudo precisa.

— E é o meu trabalho, algo que eu estou habituada a fazer.

O canto da boca dela se moveu. Quase um sorriso. 

— Eu gostaria de acompanhar o processo de perto, professora Nalú — ela continuou. — Não para interferir na condução técnica. Mas preciso entender o que está sendo levantado em tempo real para tentar articular mudanças. Não posso esperar um laudo final para descobrir que o caminho tomado não resolve o embargo. — Ela me olhou diretamente. — Se você concordar com isso, claro.

Pensei naquilo por um momento.

Era um pedido razoável, formulado de um jeito que reconhecia o limite sem precisar que eu apontasse. Ela sabia onde estava a linha. Estava me perguntando se eu topava trabalhar com ela pisando perto dela, sem cruzar.

— Posso concordar com isso — disse, devagar. — Com uma condição.

Ela esperou.

— O que o levantamento encontrar, você recebe. Sem filtro, sem seleção prévia, sem dado escolhido porque é conveniente. Se o campo mostrar que o impacto é inaceitável, você lê isso antes de qualquer outra pessoa. E não me pede para reescrever.

Alicia ficou quieta por um segundo.

— Entendido — ela disse.

— E a comunidade de Itamaré — continuei, porque precisava dizer — não vai ser abordada do mesmo jeito que foi nas duas primeiras visitas. A metodologia do PAICI prevê escuta real, não reunião com questionário. Isso leva tempo e não tem atalho.

Ela não respondeu imediatamente. Eu vi o cálculo nos olhos dela, aquela breve tensão entre o prazo que ela carregava e a lógica do que eu estava descrevendo.

— Quanto tempo? — perguntou, por fim.

— Depende do quanto a comunidade decidir confiar. Não é uma variável que eu controlo. E, além do trabalho de campo, esse laudo vai correr junto com todas as outras atribuições do departamento. Tenho aulas, orientações, bancas, projetos... Ele vai seguir o fluxo normal de trabalho.

Alicia permaneceu em silêncio por alguns segundos pensando.

— Eu posso conversar com o professor Flávio, o responsável pelo departamento — disse. — Não para interferir em nada do conteúdo, nem para pedir qualquer tipo de exceção metodológica. Mas talvez exista margem para reorganizar a fila interna e dar prioridade a esse laudo, ao menos enquanto ele estiver em andamento. A empresa já vai chegar atrasada na resposta ao Ministério Público e, muito provavelmente, teremos que pedir uma prorrogação de prazo. Se houver alguma possibilidade administrativa de acelerar essa etapa sem tocar no seu trabalho, isso ajudaria bastante.

Balancei a cabeça antes mesmo que ela terminasse.

— Não acho certo que a empresa seja favorecida.

— Não estou pedindo favorecimento, professora Nalú — ela respondeu, sem alterar o tom da voz. — Estou pedindo uma solução que preserve o processo e evite com que o atraso recaia sobre todos os envolvidos. Se o laudo for conduzido exatamente como deve ser, mas puder entrar na frente de outras demandas por uma questão de organização interna, isso não altera o resultado. Só reduz o risco do processo travar por burocracia.

— Ainda assim, seria um favorecimento.

Ela comprimiu os lábios e respirou fundo, como quem escolhe as palavras com precisão.

— Professora Nalú, eu entendo a sua preocupação. E, sinceramente, acho que ela é legítima. Mas acordos institucionais existem justamente para equilibrar interesses sem comprometer a independência de ninguém. Eu não estou pedindo que você antecipe conclusão, nem que mude critério, nem que flexibilize método. A condução continua sendo sua e do programa. O que eu estou perguntando é se, do ponto de vista administrativo, há alguma forma do departamento tratar esse laudo como prioritário até a entrega. Se houver, eu gostaria que isso fosse considerado.

Cruzei os braços.

— Essa decisão não depende de mim. 

— Eu sei — Alicia disse, sem insistir no ponto.

— Mas já aviso que se houver qualquer conversa nesse sentido, quero tudo registrado. Reuniões formais, e-mails, telefonemas, conversas informais... qualquer acordo que seja feito. Não vou trabalhar em um processo como esse sem que tudo esteja documentado.

Alicia sustentou meu olhar por alguns instantes.

— Não tenho problema nenhum com isso. Na verdade, acho até melhor. Quanto mais transparente for o caminho, menos espaço existe pra dúvida depois.

O silêncio voltou a ocupar a sala.

Ela olhou para a janela por um segundo. 

— Então... nos seus termos — disse, voltando a me encarar.

— Nos termos do programa — corrigi.

Um canto discreto de sorriso surgiu no rosto dela.

— Justo.

Peguei minha xícara.

Ela pegou a dela.

Bebemos em silêncio por um momento. E havia algo naquele silêncio que era diferente de todos os outros que tinham existido entre nós desde sexta-feira. Não era acordo completo. Não era confiança. Mas era o começo de uma possibilidade, e às vezes é disso que as coisas precisam pra começar a se mover.

Alicia se levantou com um movimento organizado, ajustou a bolsa no ombro e olhou para mim.

— Achei que foi bastante produtivo — ela disse.

— Concordo — disse, levantando-me também. 

Ela abriu a bolsa com um gesto preciso e retirou um cartão. Pequeno, branco, tipografia discreta. Colocou sobre a mesa na minha direção, mas não tirou os dedos imediatamente. Um segundo. Dois.

Depois retirou a mão.

— É meu contato pessoal. — A voz tinha aquela qualidade de quem formula um pedido mas está acostumada a fazer afirmações. — Se não for pedir muito, peço que me adicione. Para combinarmos os próximos passos.

Olhei pro cartão antes de pegá-lo.

Alicia Sá Noronha. E abaixo, num corpo de letra menor, um número de celular. Sem e-mail corporativo, sem ramal. Só o número.

— Tudo bem — disse.

Quando levantei os olhos do cartão, ela ainda estava me olhando. Havia algo no rosto dela que me fez querer dizer mais alguma coisa, embora eu não soubesse o quê. Não disse nada. 

Depois ela assentiu uma vez, como quem confirma algo que já estava decidido, e virou.

Eu fiquei com o cartão na mão e acompanhei cada passo dela até a porta.

Ela não olhou para trás.

Mas parou por meio segundo com a mão na maçaneta, num gesto tão breve que eu não teria certeza de ter visto se não estivesse olhando tão diretamente.

E saiu.

Fim do capítulo

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