Capítulo 6

Capítulo 6: Chegar antes

de Nada Desvia o Destino, por MalluBlues

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Por Alicia:

O celular estava no viva-voz em cima da minha mesa quando meu pai disse pela terceira vez que não sabia se a parceria com a universidade era uma boa ideia.

— Pai…

— Estou falando sério, Alicia. Você sabe o que eu penso sobre esse tipo de coisa. Acadêmico não tem prazo. Acadêmico não tem prejuízo. Acadêmico tem tese.

— Patrícia pesquisou e esse programa tem consolidação técnica e o currículo da coordenadora é impecável.

Houve uma pausa do outro lado da linha. O tipo de pausa pesada que ele costuma usar para intimidar executivos mais fracos. Comigo, era apenas o tempo que ele levava para aceitar que eu já tinha traçado o mapa. 

— E o que te parece então?

— Parece a única alternativa inteligente no momento — respondi, sem alterar o tom da minha voz. 

Ouvi meu pai respirar pelo nariz, o que significava que ele estava processando.

— E o embargo?

— Continua. Por enquanto.

— Por enquanto não é uma resposta de diretora, Alicia.

— Eu sei, pai. Estou trabalhando nisso.

— Trabalhar nisso é diferente de resolver. Você sabe a diferença.

Sim, eu sei. Soube aos oito anos, quando ele me ensinou a diferença entre estudar para a prova e estudar para saber. Soube aos dezesseis, quando ele me explicou que administrar uma empresa da família não era herança, era responsabilidade. Tinha entendido tantas vezes que a frase já não tinha mais borda.

— Eu sei a diferença — repeti.

— Então me diga quando vai estar resolvido.

— Em breve. Eu sei exatamente o que estou fazendo — disse, suave e categórica. — A reunião de hoje é o primeiro passo para alinhar tudo. 

Outro silêncio.

— Está bem. — A voz dele afrouxou um pouco. — Você vem almoçar no domingo?

— Vou.

— O Rafael também?

— Também.

— Bom. Sua mãe vai ficar feliz.

Desliguei e fiquei olhando o celular por um segundo antes de colocá-lo na bolsa.

***

A reunião com a equipe acadêmica, no entanto, não seguiu o meu roteiro. E eu detesto quando desviam do meu roteiro. 

Não pelo resultado em si, pois resultados eu administro. Mas pela sensação, ao final, de que eu não tinha conduzido a sala do jeito que costumo conduzir. Rodrigo fez a apresentação, Flávio ficou desconfortável o tempo todo, e a professora Bonfim foi direta.

Quando eu entrei na sala... não era a imagem que eu esperava. E certamente não era a voz que eu esperava.

Assim que cruzei a porta e meus olhos bateram nela, uma fagulha incômoda de familiaridade estalou na minha mente. Aquele porte, a expressão quase insolente do olhar verde... Eu conhecia aquilo. Fiz uma varredura mental rápida, vasculhando rostos, jantares e reuniões passadas para tentar capturar de onde diabos vinha aquela sensação perturbadora déjà vu. A memória me escapou por entre os dedos, deixando apenas um rastro quente de inquietação na minha nuca.

Ela tinha uma beleza afrontosa, sem esforço, do tipo que rouba a atenção do ambiente simplesmente por existir. Era exatamente o meu tipo. O tipo de beleza magnética, ousada e cheia de presença que costuma atiçar meus piores instintos e desarmar meu controle. 

E a voz… Não era a voz de quem quer impressionar nem a de quem quer intimidar. Era uma voz que escolhia onde pousar cada palavra, que pausava antes da informação mais importante. Era quase hipnotizante ouvi-lá. Ela listou os problemas do laudo anterior sem drama. Cada item tinha uma fonte. Cada fonte tinha um número de página.

Isso me irritou. Não vou fingir que não.

O que me incomodou não foi o conteúdo. Foi a forma como ela não pareceu se importar se me incomodaria ou não. Havia algo nessa indiferença que eu não soube definir na hora, e que continuava sem classificação quando Flávio sugeriu remarcar e eu disse, em voz alta, que a parceria poderia ter sido um erro.

Não deveria ter dito isso. Não ali. Não daquele jeito.

Assim que eles foram embora, chamei Rodrigo e Patrícia à minha sala.

Eles entraram com aquela expressão cuidadosa de quem não sabe ao certo qual versão da chefe vai encontrar. Era uma expressão que eu conhecia, e que nunca tinha me incomodado até hoje. Hoje ela me pareceu, por um segundo, um desperdício de energia dos dois.

— Segunda-feira — disse, sem preâmbulo. — Primeiro cantar do galo. Quero outras soluções na mesa. Não uma. Várias. Com viabilidade jurídica e técnica mapeadas. Essa parceria pode ter sido um erro, mas antes de fecharmos a porta precisamos ter outra escancarada.

Patrícia anotou sem olhar pra mim. Rodrigo assentiu com seriedade.

— A professora — disse Rodrigo, com cuidado — tem razão em alguns pontos técnicos. O laudo anterior tem problemas reais.

— Eu sei.

— Então talvez valha a…

— Segunda-feira, Rodrigo.

Ele fechou a boca.

Eles saíram em silêncio. Fiquei sozinha, girando a caneta entre os dedos. A Doutora Bonfim era um tipo raro de problema: imune à pressão financeira e cega para o meu sobrenome. Um perigo fascinante. 

Guardei a pasta, fechei meu notebook e saí.

***

O domingo chegou com aquele céu de verão que não decide se vai chover ou não.

Rafael estacionou o carro, abriu a minha porta antes que eu abrisse, e colocou a mão na parte baixa das minhas costas enquanto caminhávamos até a entrada da casa dos meus pais. Era um gesto que ele fazia há quatro anos, sempre no mesmo lugar, com a mesma pressão. Eu não me incomodava com isso. Rafael era uma pessoa boa, inteligente, previsível nas melhores acepções da palavra. Quando ele me pediu em noivado, eu disse sim sem precisar pensar porque já tinha pensado antes, com calma, e a resposta tinha sido sim.

Minha mãe abriu a porta dois segundos depois da gente tocar a campainha.

— Vocês estão atrasados quase vinte minutos — disse, puxando Rafael pelo braço com o afeto que ela reservava para ele desde o começo. — Entrem, entrem. Seu pai está no escritório, Alicia. Vai lá chamá-lo.

O corredor do escritório tinha cheiro de madeira e uma lâmpada estava com a luz oscilando, ameaçando queimar. Quando entrei, meu pai estava de pé olhando pela janela com uma xícara na mão, o que significava que não estava trabalhando, estava pensando.

— Pai.

Ele se virou.

— Alicia. — Colocou a xícara sobre a mesa e me olhou com aquela atenção direta que ele nunca perdeu com a idade. — Você está bem?

— Estou. E então… vamos almoçar?

— Um segundo. — Ele fez um gesto sutil em direção à porta, que eu entendi: fechei sem precisar que ele pedisse.

— Falei com o Sérgio essa semana.

O Sérgio era promotor e um dos amigos mais antigos do meu pai. Eu ouvi sem dizer nada.

— Falei com ele sobre o embargo, de forma geral. Não dei detalhes, só o contexto. E sabe o que ele me disse? Que uma parceria com a universidade é uma ótima alternativa com o MP. Que demonstra boa-fé. — Meu pai pausou, rodando levemente a xícara sobre a mesa. — E aí ele mencionou, por iniciativa própria, um programa específico. Disse que tem um trabalho sólido na área costeira, que a metodologia é respeitada. O PAICI, Alicia. O mesmo programa da reunião de vocês.

Fiquei quieta.

— Ah… e a coordenadora, ele disse o nome. Uma tal de Doutora Nalú. — Ele me olhou. — Disse que se ela assinar o laudo, o MP vai olhar com outros olhos. Que o nome dela carrega peso nessa área.

Senti alguma coisa se reorganizar dentro de mim de um jeito que preferi não examinar ali.

— Então o conselho do Sérgio é esperar pelo laudo que a universidade propõe?

— Sim, e verificar a viabilidade, claro. Ver se o que eles propõem resolve de fato, não só no papel. — Ele pausou. — Como foi a reunião com a universidade?

Considerei a pergunta.

— Foi ótima. Fui direta com eles. 

Pensei naquele par de olhos verdes e engoli em seco depois que disse isso. 

Meu pai fez aquele som baixo que não era concordância nem discordância.

— Às vezes duro e direto chegam no mesmo lugar, Alicia.

— Às vezes são a mesma coisa, pai.

Ele me olhou por um segundo, e então o canto da boca dele subiu levemente em um sorriso.

— Quero que saiba que eu me equivoquei na ligação de sexta e que estou orgulhoso das decisões que você está tomando frente a diretoria. — Pegou a xícara. —Agora vamos almoçar antes que sua mãe mande o Rafael nos buscar.

***

Na mesa, o Rafael contou uma história sobre um cliente e todo mundo riu no momento certo. Minha mãe perguntou sobre as férias que a gente estava planejando desde o ano passado e que ainda não tinham saído do papel. Rafael e eu nos olhamos e eu respondi que ainda estávamos avaliando a possibilidade.

Na volta para casa, Rafael dirigia com uma das mãos no volante e colocou a outra sobre a minha coxa, em um carinho tranquilo.

— O que acha de um fim de semana só nosso da próxima vez? — ele sugeriu, com um sorriso de canto. — A gente pede comida, abre um vinho bom e não sai da cama. Férias particulares. 

— É uma ideia tentadora, Rafa — respondi, olhando a paisagem passar pela janela. Olhei para a mão dele sobre a minha pele e me deixei levar por uma curiosidade súbita. — Você nunca sente falta de fins de semana mais... movimentados?

Ele deu uma risada curta, ponderando a pergunta por um instante antes de responder.

— Às vezes sinto, não vou mentir. Mas entendo que agora a gente está numa fase diferente. É a hora de erguer bases, alavancar carreira, construir patrimônio... — Ele diminuiu a velocidade e se virou para mim, me analisando com um brilho curioso e divertido nos olhos. 

— Por quê? Está pensando em deixar a nossa relação mais… fluída de novo?

Um sorriso lento, impecavelmente trabalhado e absolutamente indecifrável se desenhou nos meus lábios. Ajustei o anel de noivado na mão esquerda com o polegar.

— Não não... essa fase já passou.

Ele pareceu satisfeito com a resposta e voltou a atenção para o trânsito. Acomodei-me no banco de couro, sentindo um gosto amargo e provocante no fundo da garganta. A verdade é que a fase do desejo não tinha passado.

Olhei pra ele.

— Sobre a sua ideia… este é um daqueles fins de semana — disse. — Tenho muita coisa pra fechar antes da segunda.

Ele assentiu. Sem pressão e sem mágoa visível. Rafael entendia esse tipo de resposta porque ele mesmo às vezes dava esse tipo de resposta.

— Semana que vem — eu disse.

— Semana que vem então — ele repetiu, e sorriu.

***

No apartamento, tirei o salto ainda no corredor e fui até a janela com uma taça de água. 

O nome dela tinha voltado por conta própria, sem que eu chamasse.

Era isso que me incomodava. Não o nome em si, mas o fato de que ele já estava lá antes do meu pai falar. Já estava lá desde sexta-feira, quieto em um canto.

Ela tinha razão em alguns pontos. Eu sabia disso antes do Rodrigo me dizer. E ela era uma profissional de renome. Eu sabia antes do Sérgio mencionar o nome dela para o meu pai, e sabia quando fechei a pasta naquela sala e disse que a parceria podia ter sido um erro.

Coloquei a taça sobre o balcão e peguei meu celular. Abri o site da universidade e vasculhei o departamento de engenharia ambiental, até encontrar o PAICI. Naveguei até o corpo docente. A foto era pequena, institucional, o tipo de foto que ninguém escolhe de bom grado.

Mas os olhos verdes eram os mesmos.

Fechei o site.

Precisava de uma estratégia. Não de uma reação.

Na segunda-feira, eu ia chegar antes. 

***

O final da tarde de segunda-feira estava úmido, daquele jeito que a cidade fica quando o calor do dia não encontrou por onde sair. Deixei meu carro no estacionamento do departamento e fiquei dentro do prédio por um tempo que não controlei direito.

Não era o tipo de coisa que eu fazia. Eu não esperava. Eu chegava, entrava e conduzia. Era a sequência que eu conhecia.

Mas ali era estratégia. Era só isso.

As luzes do corredor interno estavam acesas. Alguns professores tinham saído nos últimos vinte minutos, sozinhos ou em pares. Eu os via sem realmente olhar. Então a porta em que eu mantinha minha atenção principal se abriu.

Ela saiu com a pasta a tiracolo e o cabelo preso em um coque quase solto demais. Estava vestida de um jeito mais casual do que na sexta-feira. Mas continuava linda. Um tipo de beleza magnética que fazia meu sangue rodar mais rápido nas veias. 

Ela levantou os olhos da pasta e então me viu.

Parou.

Não recuou um passo. Não avançou. Ficou exatamente onde estava e me olhou com uma expressão que eu não soube ler completamente, o que era, por si só, uma informação.

— Professora Bonfim — disse, dando alguns passos na sua direção.

O ar estava quente e parado entre nós. O silêncio durou um segundo a mais do que eu planejei. 

— Diretora Alicia — ela respondeu, mantendo-se parada no mesmo lugar de antes.

Havia dois metros entre nós, mas distâncias nem sempre se medem em passos, às vezes medem-se em coisas não ditas. Ela avaliava alguma coisa em mim. E eu, nela. 

— Acredito que temos negócios inacabados — disse, sustentando o olhar verde. — Podemos conversar?

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
J

Joanna

27/08/2026 às 11:21

Duas mulheres e muitas arestas, possíveis conflitos, diferenças difíceis de equilibrar.

E como amar sem querer moldar o outro? Esse é o mistério das relações.

Bj

M

MalluBlues 03/09/2026 às 09:08

Sua colocação foi TUDO, Joanna.
Como deixar nossas expectativas de lado pelo outro e amá-lo por quem ele realmente é? Penso que isso é maturidade.
E saber que escolher uma vida a duas também significa, muitas vezes, abrir mão daquilo que a gente quer em nome do outro, da relação, do que está sendo construído junto. Mas, ao mesmo tempo, existem questões que são inegociáveis. E acho que é justamente aí que está o equilíbrio. Entender quando é preciso ceder e quando abrir mão de si mesma deixa de ser amor
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