Capítulo 5

Capítulo 5: Reunião de última hora

de Nada Desvia o Destino, por MalluBlues

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Por Nalú:

— Então o Flávio te puxou pra essa reunião de última hora justamente hoje? — Bruno perguntou, estreitando os olhos.

— Sim — respondi fechando os olhos, com a feição de quem acabou de ver o fim de semana encolher.

— E nossos planos de happy hour estão cancelados. De novo, Don...

— Dona não — eu disse antes que ele terminasse. — Por favor.

Ele riu.

— Tá bom, tá bom. Nalú. Mas hoje você ia de verdade, né?

— Hoje eu ia. Juro que ia. — Levantei um braço e apontei pra roupa com um gesto de quem apresenta uma evidência. — Olha o look.

Bruno recuou um passo, me avaliou de cima a baixo com uma seriedade teatral, e abriu os braços.

— Meu Deus. Ela veio vestida pra ocasião.

Eu tinha escolhido uma saia midi verde-oliva de tecido leve, uma blusa branca com mangas curtas estruturadas e decote sutil. Nos pés, sandálias de salto baixo em couro caramelo. O colar de cerâmica azul no lugar de sempre. E hoje, meus cabelos estavam soltos, com as ondas das pontas mais definidas do que o habitual.

— Você está belíssima — ele disse. — E o Flávio está empacando seu futuro amoroso.

— Bruno!

— Estou falando sério. Essa saia então. — Apontou. — Te deixou mais gostosa ainda. Se é que isso é possível.

Dei uma risada e sacudi a cabeça.

— Vai embora.

Ele me deu um abraço apertado antes de sair e eu fiquei olhando o corredor esvaziar.

De todos os professores do departamento, Bruno era o único com quem eu tinha conexão de verdade. A sexualidade que a gente não precisava explicar um pro outro, o humor ácido que usávamos como escudo, os avós que tinham nos feito quem éramos antes de qualquer universidade. A gente entendia isso sem precisar falar. Foi por meio dele que conheci a Janaína. Ficamos três anos. Terminei logo depois que perdi meus avós, porque não estava conseguindo me dar a ninguém além de mim mesma, e eu sabia que a Jana merecia mais.

— Tudo pronto. Vamos, Nalú?

A voz de Flávio me tirou dos meus devaneios.

— Sim — respondi, pegando a pasta da cadeira.

***

No carro, o trânsito de sexta-feira tinha aquele movimento denso de fim de dia. Flávio dirigia com uma atenção excessiva pro GPS.

— Você analisou o material? — ele perguntou, sem tirar os olhos da pista.

— Analisei. — Apoiei a pasta no colo e olhei pela janela. — Me pergunto onde esses engenheiros se formaram. O estudo é superficial em pontos que não podiam ser. Abre margem para vários questionamentos. Não me surpreende em nada o MP ter embargado.

— Pois é. — Ele trocou de pista. — Te confesso que não li o processo inteiro. Mas vi que é um calhamaço de notificações. E olha... estou preocupado com essa reunião.

Olhei para ele.

— Por quê?

— Falei por telefone com a Diretora de Expansão e Desenvolvimento. — Ele pausou, buscando as palavras certas. — Achei ela séria. Muito séria.

— Séria é um espectro amplo, Flávio. Se for comprometida com a solução, ótimo. Se for autoritária, muda tudo.

— Pode ter sido impressão minha. Mas já começa por esta reunião. Tentei agendar com prazo, dentro do expediente normal, mas ela não cedeu. Disse que teria que ser agora, nesse horário, e não abriu espaço para negociar o dia.

Fiquei com isso por um momento.

Uma pessoa que não negocia horário em uma primeira reunião pode ser alguém muito ocupado. Ou pode ser alguém que já está testando o terreno antes de sentar à mesa.

Eu preferia não presumir.

— Vai dar certo — eu disse, mais pra organizar meus próprios pensamentos do que para confortá-lo.

— Suas palavras me trazem certo alívio, professora — ele respondeu, com um sorriso pequeno, antes de fazer um ruído de desaprovação com a boca. — Em plena sexta-feira, terminar o dia assim... 

— Você está mesmo incomodado com a reunião ter sido marcada para hoje, não é mesmo?

Ele riu, levemente constrangido.

— Sim e muito. Sabe, Nalú... conheci uma pessoa. Teríamos um segundo encontro hoje. Tive que desmarcar. Espero que ela não interprete como desinteresse. — Uma pausa. — Acho que estou falando demais. Me desculpe.

— Não precisa. — Dei uma risada baixa. — Ela vai entender.

Achei genuinamente engraçado. Flávio sempre fora reservado quando o assunto era a própria vida, mas o nervosismo por ter desmarcado um segundo encontro conseguiu atravessar uma barreira que anos de convivência profissional jamais haviam sequer arranhado. 

— Chegamos — ele disse, estacionando.

Olhei o edifício pela janela do carro. Alto, envidraçado, com aquela fachada corporativa que não deixa ver nada de dentro. O tipo de lugar construído para impressionar antes de qualquer conversa começar.

Peguei a pasta.

Quando desci, o asfalto quente de fim de tarde estava sob os pés e eu pensei num reflexo antigo: descalça eu trabalho melhor.

Não estava descalça. Mas ia ter que trabalhar do mesmo jeito.

***

Ao chegarmos ao décimo segundo andar, uma recepcionista nos conduziu até a sala de reuniões. Vera, dizia a plaquinha discreta na beira da mesa dela. Tinha um aspecto de quem fica depois do horário por hábito, não por escolha. Os ombros levemente curvados, a organização excessiva da mesa. Pensei no comentário do Flávio no carro e reavaliei que talvez a preocupação dele com a diretora não fosse tão infundada assim.

A sala de reuniões era grande e fria, no sentido literal e no outro. Mesa de vidro temperado com capacidade para dez pessoas, cadeiras estofadas em couro preto, um painel de apresentação já ligado com o logo da Sá Noronha Hotéis projetado em letras prateadas. A única janela dava pra cidade lá embaixo, que a essa hora já começava a acender suas luzes.

Duas pessoas nos esperavam.

O homem se levantou primeiro.

— Rodrigo Maia, equipe jurídica. — Olhar firme, postura de quem está acostumado a ser o primeiro a falar. — Obrigado por virem.

— Flávio Drummond, coordenador do Departamento de Engenharia Ambiental. — Flávio acenou com a cabeça. — E essa é a professora Nalú Bonfim, coordenadora do PAICI.

A mulher do outro lado da mesa se levantou em seguida.

— Patrícia Salles, gerente de projetos. — Ela me olhou por um segundo a mais do que olhou pro Flávio, do tipo de olhar que avalia sem anunciar que está avaliando. — Podem se acomodar.

Nos sentamos.

— A Diretora logo se juntará a nós. Está finalizando uma ligação.

Flávio assentiu. Eu coloquei a pasta sobre a mesa e fiquei quieta.

Foi então que uma porta lateral se abriu.

Ela entrou sem anunciar, sem bater, com aquela naturalidade de quem não precisa pedir licença pra ocupar o espaço que é dela. Os cabelos pretos e curtos, num corte preciso que terminava na nuca e que não tinha um fio fora do lugar. Usava um blazer estruturado na cor vinho escuro, de ombros retos e lapela fina, sobre uma blusa preta de gola alta, e uma saia lápis de alfaiataria cinza chumbo que parava no joelho. Salto médio, bico fino. Imponente.

Tinha presença.

Era linda.

Ela passou os olhos pela sala com aquela varrida rápida e profissional de quem precisa de dois segundos para catalogar o ambiente. E então os olhos castanhos pousaram em mim. Desviaram. E voltaram a pousar.

Senti uma sensação incômoda. Foi breve e involuntária. Desviei o olhar antes de entender o que tinha acontecido. Como quando o vento muda de direção antes da tempestade e o corpo percebe antes da cabeça.

— Boa tarde — ela disse, contornando a mesa em direção à cadeira principal. — Ou quase boa noite, a essa altura. Sou Alicia Sá Noronha, Diretora de Expansão e Desenvolvimento.

A voz era levemente rouca. Ela se sentou com um movimento contido e organizado dos braços sobre a mesa. Por um segundo, algo no rosto dela pareceu distante, como se parte dela ainda estivesse na ligação anterior. Mas quando ela levantou o olhar para Rodrigo, isso tinha desaparecido.

— Rodrigo. Pode iniciar.

Rodrigo começou a apresentação resumindo os três pontos do embargo do Ministério Público. Falava com precisão, num ritmo cadenciado de quem ensaiou. Eu ouvi os primeiros dois minutos com atenção e então percebi que ele estava me contando o que eu já sabia. Cada ponto que ele listava estava nos documentos que eu tinha lido, relido e anotado na última semana.

Uma irritação começou a crescer, devagar e consistente, como maré enchendo.

Olhei para o Flávio. Ele também tinha aquela expressão levemente tensa de quem está incomodado com alguma coisa. Ele estava pensando no segundo encontro desmarcado. Eu estava pensando em quanto tempo íamos perder sendo introduzidos a um problema que eu já tinha estudado.

— ...e é com base nesses três pontos — Rodrigo concluiu, fechando a pasta — que nos encontramos nessa situação. O que esperamos, nesta parceria com a universidade, é uma reformulação do laudo técnico que tenha peso perante o Ministério Público. Um documento com metodologia auditável e assinatura acadêmica.

Fez uma pausa.

— Acreditamos que esse laudo terá um peso enorme no desfecho do processo.

O silêncio durou exatamente o tempo que eu precisei para decidir o que dizer.

— Obrigada pelo resumo, Rodrigo. — Disse com a voz séria, mas não o suficiente para parecer descortesia. — Eu analisei o material com antecedência. Então se for possível, pensei que poderíamos ir direto às questões técnicas que precisam ser resolvidas, em vez de revisitar o que já está documentado.

Rodrigo piscou uma vez.

Patrícia não reagiu, mas eu percebi o movimento mínimo dos dedos dela sobre a pasta.

E então, antes que qualquer um dos dois respondesse, a Diretora Alicia falou.

— Que questões técnicas especificamente, professora Nalú?

A voz rouca tinha um fio de algo que eu não soube classificar de imediato. Não era hostilidade. Era mais parecido com um teste. Uma pergunta que não era bem uma pergunta.

Olhei pra ela.

Os olhos castanhos me devolveram o olhar. De perto, com a mesa entre nós e a luz da janela incidindo de lado, havia algo no rosto dela que eu não soube nomear... não exatamente frieza, não exatamente atenção. Algo entre os dois. 

— Três — respondi, abrindo a pasta. — Os mesmos três que o MP levantou, mas com problemas que antecedem o embargo. O estudo de circulação de embarcações foi feito com janela temporal insuficiente. Uma semana de coleta de dados num sistema costeiro com variação sazonal significativa não é metodologia, é amadorismo. O dimensionamento da Área de Preservação Permanente na face norte foi calculado a partir de uma linha de base desatualizada. E a ausência de consulta à comunidade de Itamaré não é só uma exigência formal mal cumprida, é um dado que compromete qualquer análise de impacto real, porque sem escuta local você não tem contexto, e sem contexto você tem números que não explicam nada.

Flávio me olhou de lado. Eu sabia o que aquele olhar significava: devagar.

Ignorei.

— Então o laudo anterior é tecnicamente indefensável — Alicia disse, e não era uma pergunta.

— Em vários pontos, sim.

Um silêncio diferente se instalou.

Ela cruzou os braços sobre a mesa com um movimento controlado, suspirou e me olhou com aquela atenção demorada que eu estava começando a reconhecer como característica dela.

— E quanto tempo você estima para reformular o que precisa ser reformulado?

— Depende do acesso que terei aos dados originais, às áreas de campo e às comunidades. — Pausei. — E depende de qual é o objetivo real do novo laudo.

Alicia inclinou levemente a cabeça, me olhando.

— Como qual é o objetivo? O objetivo é óbvio. É resolver o embargo, professora — ela respondeu, deixando escapar um instante de impaciência no tom de voz, embora mantivesse a expressão sob controle. 

— O objetivo do embargo — corrigi, com cuidado — é proteger o impacto ambiental e as comunidades afetadas. Se o objetivo da reformulação do laudo desconsiderar isso, nada será solucionado.

O silêncio dessa vez foi mais longo.

Rodrigo olhou para Patrícia. Patrícia olhou para a mesa.

Alicia não olhou para ninguém além de mim.

Havia algo no modo como ela sustentava o olhar que me incomodava de um jeito que eu não conseguia atribuir só à tensão profissional. Era específico. Era direcionado. Como se ela estivesse me avaliando por inteira e procurando alguma coisa no meu rosto que eu ainda não entendia.

— Professora Bonfim — ela disse, e havia algo na forma como ela usou o sobrenome, medida, distante, como quem estabelece hierarquia antes de continuar. — Agradeço a clareza. Mas preciso que você entenda que esse projeto representa anos de trabalho e um investimento considerável. Não estou pedindo um laudo que ignore a realidade. Estou pedindo um conduzido com rigor suficiente pra nos livrar deste embargo. Na ilha, tudo já está construído. O prejuízo é real e cresce a cada dia. E esses pescadores não estão abertos a nenhum tipo de negociação. Já tentamos.

Ouvi com atenção e analisei por um segundo.

— Me questiono como tentaram — disse, devagar. — De que forma chegaram até eles?

Ela ergueu levemente uma das sobrancelhas e o canto da boca se levantou em um meio sorriso, mas não respondeu.

— Porque pescadores de comunidades tradicionais não são difíceis por natureza — continuei. — São pessoas simples, que estão ali há décadas, que construíram uma vida naquele lugar antes de qualquer projeto existir. Se a abordagem foi errada, a resistência deles não é o problema. É a resposta ao problema.

Patrícia se mexeu na cadeira.

— Houve duas visitas — Patrícia disse, com aquele tom neutro de quem reporta sem opinar. — Na segunda, a equipe foi… digamos, convidada a se retirar. Com alguma ênfase.

— O que reforça o que estou dizendo — retomei. — Uma comunidade que expulsa uma equipe técnica de abordagem é uma comunidade que não se sentiu ouvida.

Olhei para Flávio e abri minha boca para continuar, mas Alicia me interrompeu.

— Professora Bonfim, com todo o respeito — a voz tinha perdido a característica rouca e ganhado algo mais afiado — eu não preciso de teoria aqui. Preciso de solução. A fala de direitos humanos é muito bem-vinda na sala de aula, tenho certeza. Aqui, nessa mesa, o que está em jogo é um embargo que precisa ser solucionado.

Senti o calor subir antes de processar a frase inteira.

Não era raiva. Era pior que raiva. Era aquela sensação específica de quando alguém diminui o que você disse sem ter entendido o que você disse, e sorri enquanto faz isso.

— Direitos humanos não são teoria — respondi, e minha voz saiu mais baixa do que o normal, o que eu sabia, por experiência, era mais eficaz do que subir o tom. — E ignorar comunidades tradicionais em um estudo de impacto costeiro não é uma questão ideológica, é um erro técnico que o MP já identificou e que está documentado no embargo que esta mesa está tentando resolver.

Alicia me olhou.

Eu a olhei de volta.

— O programa da professora Nalú — disse Flávio, com aquele tom cuidadoso de quem entra numa conversa que já tem corrente — recebe parte de sua verba por meio de parcerias como esta. Só pra que esteja claro que existe um interesse mútuo no bom andamento de tudo.

Alicia tinha inclinado levemente o queixo quando Flávio mencionou a verba. Um movimento mínimo, mas eu vi. 

Flávio passou a mão pelo rosto e soltou uma expiração.

— Talvez — ele continuou, com aquele tom de quem está tentando ser diplomático e já sabe que não vai funcionar — fosse mais produtivo remarcarmos essa reunião.

— O senhor só pode estar brincando — Alicia disse, e pela primeira vez desde que entrou na sala havia algo próximo de nervosismo na voz dela. Os olhos castanhos varreram Flávio com uma brevidade que não era gentil, e então se voltaram para mim. — Está ficando cada vez mais claro que essa parceria pode ter sido um erro.

Ergueu levemente o queixo.

— Eu não vim até aqui pra ouvir teoria, receber lição sobre comunidades tradicionais ou gerenciar o temperamento de uma equipe acadêmica. Vim porque preciso de um laudo tecnicamente sólido que resolva um problema concreto. Se a professora não consegue separar militância de trabalho técnico, então talvez precisemos reconsiderar se essa é a parceria certa.

Fiquei quieta por um segundo.

Depois fechei a pasta sobre a mesa com um gesto calmo.

— Eu separo muito bem — disse. — É exatamente por isso que o laudo vai ser o que o laudo precisa ser. — Pausei. — Se isso é um problema, então a senhora tem razão. Talvez essa parceria seja um erro.

Rodrigo estava olhando para a mesa.

Patrícia estava olhando para Flávio.

Flávio estava me olhando com uma expressão que misturava admiração e pânico em proporções iguais.

E Alicia Sá Noronha estava me olhando com aqueles olhos castanhos que não revelavam nada além do que ela escolhia revelar.

Fim do capítulo

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