Por Alicia:
Eu acordei às cinco e quinze.
Minha reunião era apenas às nove e o escritório ficava a vinte minutos do condomínio. Mas havia algo que eu tinha aprendido, ao longo dos anos, sobre chegar na frente. Não na frente dos outros necessariamente. Na frente do dia.
Meu apartamento era amplo, no décimo segundo andar de um condomínio fechado no bairro Mirante, a quinze minutos do centro de Ventura. Três quartos, dois banheiros, varanda com vista parcial para o mar. Parcial porque entre mim e o oceano havia outros prédios, outras varandas, outras vidas empilhadas numa cidade que crescia mais rápido do que planejava. Eu tinha comprado o apartamento anos atrás pela localização e pela planta. A vista era bônus.
A decoração dele era o que algumas pessoas chamariam de minimalista e o que eu chamaria de prática. Superfícies limpas, poucos móveis e objetos com função. Minha mãe tinha visitado uma vez e ficado andando pelos cômodos com aquela expressão confusa, tentando encontrar evidências de vida afetiva. Não encontrou muito.
— Alicia, você mora aqui ou trabalha aqui?
— As duas coisas, com muita eficiência — eu tinha respondido.
Ela suspirou. Eu sorri.
Peguei minha xícara de café, abri o notebook na bancada da cozinha e fui direto para os e-mails enquanto a cidade ainda estava escura lá fora.
***
Fisicamente, os anos tinham sido razoavelmente gentis ou eu tinha sido razoavelmente disciplinada, o que dava no mesmo resultado. Ainda alta, ainda com os cabelos pretos em um corte impecável, que agora eu mantinha mais curto. Os olhos castanhos haviam ganhado aquela qualidade específica que o cansaço dá. Não o cansaço de quem não dorme, mas o de quem pensa demais durante o dia e não desliga de verdade à noite.
Meu noivado com Rafael tinha começado da forma mais lógica possível. Ele era irmão da Fernanda, o que significava que eu o conhecia há anos sem nunca ter prestado atenção nele de verdade. E então, numa virada de circunstância que eu ainda não entendia completamente, comecei a prestar. Rafael era bonito, estável e inteligente. Trabalhava com direito empresarial, entendia o ritmo da minha vida sem exigir explicações sentimentais. Eu tinha quase trinta e seis anos, então casar tinha que ser meu próximo check na lista da vida.
Tudo fazia sentido.
Antes de me estabilizar neste relacionamento, minha vida afetiva era um terreno bem mais dinâmico. Tive minha cota de encontros casuais e intensos tanto com homens quanto com mulheres. Nunca fui de me privar de corpos e mentes que despertavam meu interesse. Gostava do jogo, da tensão, do domínio sutil que envolve a sedução. Quando eu e o Rafael decidimos ficar noivos, fechamos o relacionamento. Para mim, foi uma escolha consciente e tranquila. Ainda assim, seria mentira dizer que, às vezes, no meio de um dia corrido ou ao girar o anel no meu dedo esquerdo, eu não sentia falta daquela eletricidade. Falta do flerte sem compromisso, da empolgação do ato da conquista, daquele momento exato em que você percebe que tem o controle total sobre o desejo do outro.
De modo geral, a minha vida só rodava nos trilhos que eu mesma projetava.
E, quanto à antiga turma... digamos que as circunstâncias acabaram se ajustando convenientemente aos meus interesses.
A Fernanda eu via pouco. Nos últimos anos, as ocasiões tinham se resumido a jantares de família e a datas que o calendário tornava inevitáveis, como aniversários, o Natal ou algum evento que Rafael precisava que eu comparecesse. Ela continuava sendo a Fernanda de sempre: expansiva e espirituosa. Eu tinha aprendido, com o tempo, que admirava isso de longe com muito mais facilidade do que de perto.
Nos vermos pouco, era um alívio que eu não verbalizava, mas também não fingia não sentir.
Da Bruna eu não tinha notícias há anos. Soube que tinha se mudado para outro país, casado com alguém de lá, e a distância tinha feito o que a distância faz quando a amizade era mais de circunstância do que de escolha.
A Camila era diferente. Com a Camila sempre foi diferente.
Nos víamos com mais frequência. A nossa vida tinha tomado direções que não convergiam, mas nós sempre dávamos um jeito. Uma corrida aqui, um café ali… e quando isso acontecia, o assunto sempre fluía. Ela tinha aquele jeito de ouvir de verdade, sem estar já formulando a resposta enquanto você ainda falava, o que eu percebi, com os anos, ser mais raro do que deveria.
Terminei o café, fechei o notebook e me levantei.
O dia estava esperando.
***
Saí de casa às oito e dez com a pasta no ombro e os passos já no ritmo do dia.
Ventura acordava com barulho. Era o tipo de capital que não guardava silêncio nem de manhã cedo. Obras, trânsito, o ritmo constante de uma cidade que se recusava a pausar. Eu tinha aprendido a gostar disso.
O escritório da Sá Noronha Hotéis ficava em um edifício corporativo no centro financeiro. Meu setor ficava no décimo oitavo andar, fachada envidraçada, recepção com o logo da empresa em letras de aço escovado que meu pai tinha escolhido pessoalmente. Minha sala tinha vista para a cidade e uma mesa que eu mantinha tão limpa quanto o apartamento.
Cumprimentei Vera, minha assistente, peguei o café que ela já tinha deixado na minha mesa e abri os documentos da reunião.
Projeto Poente.
O nome tinha sido escolhido pelo meu pai, que tinha esse hábito de batizar os projetos com algo poético antes que qualquer pedra fosse assentada. A Ilha do Sino ficava a três quilômetros da costa, vizinha à Ilha de Itamaré. Menor, isolada e sem população permanente. A família Noronha tinha adquirido a titularidade há seis anos, numa negociação que meu pai conduziu pessoalmente e que ele descrevia, sempre que tinha platéia, como o “negócio da vida”.
Um resort de luxo em uma ilha privativa. Acesso com lancha ou helicóptero. Capacidade reduzida. Quinze bangalôs dispostos em um paraíso. O tipo de empreendimento que não competia por volume, mas por exclusividade absoluta.
Era o sonho da família.
E estava embargado há dois meses.
***
Na sala de reuniões havia seis pessoas quando entrei. Rodrigo Maia, da equipe jurídica, que já estava de pé ao lado do painel com os documentos projetados. Patrícia Salles, gerente de projetos, com aquela expressão de quem não dormiu bem. Os outros quatro eram da equipe técnica e de licenciamento.
Sentei na cabeceira. Não precisei pedir silêncio.
— Bom dia a todos! Rodrigo — disse apenas.
Ele acenou com a cabeça e começou.
— O embargo do Ministério Público se baseia em três pontos, Alicia — disse, mostrando o painel. — Primeiro, ausência de estudo atualizado sobre impacto da circulação de meios de transportes nas correntes marítimas e reflexo na atividade pesqueira das ilhas do entorno. Segundo, questionamento sobre a faixa de Área de Preservação Permanente (APP) na face norte da ilha, que o MP alega ter sido subdimensionada no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) original. Terceiro, e esse é o mais delicado. Ausência de consulta formal às comunidades pesqueiras tradicionais de Itamaré, que o MP classifica como diretamente afetadas pela alteração do fluxo de embarcações.
Abri meu tablet, fiz uma anotação e consultei os dados que eu já tinha.
— Mas o Estudo de Impacto Ambiental original foi aprovado pelo órgão estadual — eu disse.
— Foi. Mas o Ministério Público argumenta que a aprovação estadual não supre a exigência federal em casos que envolvem comunidades tradicionais. E eles têm jurisprudência razoável pra isso.
— E qual o prazo para a resposta?
— Sessenta dias a partir da notificação. Estamos no vigésimo oitavo.
Fechei os olhos por um segundo. Trinta e dois dias.
— Precisamos embasar bem a resposta — disse Rodrigo, com aquele tom sério. — E precisamos de pessoas qualificadas para reformular o Estudo de Impacto Ambiental.
— A empresa que prestava serviço está fora — eu disse, antes que alguém perguntasse. — Cancelei o contrato na semana passada. Era uma dor de cabeça atrás da outra, documentação inconsistente, prazo que não se cumpria. — Pausei. — E agora isso. Um projeto quase finalizado, embargado. Não vou continuar com quem não entregou. Então quero alternativas. Agora.
Um silêncio breve se instalou.
Patrícia abriu a pasta.
— Nesse sentido — ela disse —, fechamos parceria com a Universidade de Ventura. O Departamento de Engenharia Ambiental pode conduzir a avaliação técnica do impacto costeiro. Isso tem peso perante o Ministério Público. É avaliação acadêmica, metodologia auditável, sem vínculo direto com a empresa.
Olhei pra ela.
— Universidade — repeti, devagar.
— Sim.
— Isso significa que nossos dados, nossos estudos preliminares, nosso projeto técnico vão circular dentro de uma instituição acadêmica.
— A parceria prevê cláusula de confidencialidade — explicou Patrícia.
— Cláusula de confidencialidade não impede que um pesquisador discuta o projeto com seus orientandos numa sala de aula, Patrícia — eu disse, sem elevar a voz. — Não quero o projeto master desta empresa em slides numa apresentação com um grupo de universitários dando pitaco antes que tenhamos qualquer resultado consolidado.
Patrícia não desviou o olhar.
— Entendo a preocupação. Mas não sei ao certo de que maneira será conduzido internamente e podemos tentar negociar com eles. Quem chefia o departamento de Engenharia Ambiental é o professor Flávio Drummond. Foi com ele que tratei.
— E quem conduzirá o novo estudo e assinará o laudo vai ser ele?
— Não, é a coordenadora do programa de avaliação de impacto. Ainda tem pormenores que precisamos esclarecer com o chefe de departamento.
— Esses pormenores precisam ser resolvidos antes de qualquer avanço, Patrícia. — Apoiei as mãos na mesa. — Não depois. Nada pode sair errado nessa fase. O Ministério Público está com lupa em cima de tudo, e um laudo mal conduzido ou tecnicamente frágil não nos ajuda… nos afunda. Essa coordenadora é alguém da nossa confiança ou vai embaçar o processo antes de começar?
Patrícia trocou um olhar rápido com Rodrigo antes de responder.
— A coordenadora do programa é pesquisadora sênior, referência na área de impacto costeiro. Tem doutorado, publicações, histórico técnico. — Uma pausa. — E pela verba que destinamos ao departamento, seria pouco razoável imaginar que o laudo seria contrário ou prejudicial ao nosso projeto.
— Pouco razoável não é a mesma coisa que garantido, Patrícia.
— Não — ela admitiu. — Não é.
— Então vamos tratar como não garantido até que seja. — Virei para o Rodrigo. — Quero que me envie os três pontos do embargo.
— Entendido — Rodrigo respondeu com seriedade — E quanto à nova consulta às comunidades de Itamaré — disse, redirecionando —, a situação também não está bem resolvida.
Olhei para a equipe técnica.
Um dos homens, Eduardo, trocou um olhar rápido com o colega ao lado antes de falar.
— Houve tentativa de aproximação — ele disse. — Fizemos duas visitas à comunidade. A recepção foi... difícil. Os pescadores não quiseram conversar. Na segunda vez, fomos orientados a sair.
— Orientados — repeti.
— Com veemência — ele completou, levemente constrangido.
Fiz uma anotação.
— Praticamente expulsos — disse o colega ao lado, com uma honestidade que eu apreciei.
Patrícia inclinou a cabeça levemente.
— A coordenadora responsável pelo programa também realizará visitas de campo durante o levantamento. Faz parte da metodologia deles, a escuta local e contato direto com a comunidade.
— Ótimo — disse, sem sorrir de verdade. — Então deixa. Deixa a responsável por esse programa ir lá pessoalmente falar com esses pescadores e levar uma peixada na cabeça.
Rodrigo pressionou os lábios pra não rir.
Até a Patrícia, que raramente reagia a qualquer coisa, soltou uma expiração levemente divertida.
— Quero o nome da responsável — eu disse, voltando ao tom de antes. — Hoje. E quero uma reunião com ela antes que ela comece a analisar qualquer documentação ou dado já levantado. Preciso entender como ela trabalha. — Olhei para a Patrícia. — Preciso ter certeza se essa parceria é vantajosa para a empresa.
— Entendido. Vou confirmar com Drummond.
— Hoje, Patrícia.
— Sim, Alicia — ela confirmou.
***
O nome chegou por e-mail às quatro e dezoito da tarde, enquanto eu revisava o contrato de outro projeto na minha mesa.
Uma linha. Sem contexto, sem currículo anexo. Patrícia conhecia minha preferência por objetividade.
Profa. Dra. Nalú de Almeida Bonfim — Coordenadora do Programa de Avaliação de Impacto Costeiro Integrado (PAICI), Departamento de Engenharia Ambiental, Universidade de Ventura.
Fiquei olhando para o nome por alguns segundos.
Nalú.
Não conhecia.
Não havia razão pra conhecer. Era uma pesquisadora acadêmica, uma entre vários especialistas que circulavam pelos processos de licenciamento da empresa ao longo dos anos. Um nome em um documento. Uma assinatura em um laudo.
Nalú de Almeida Bonfim.
Havia algo na sonoridade do nome. Nalú.
Fechei o e-mail.
Abri de novo.
Nalú de Almeida Bonfim.
Me perguntei se aquela mulher seria a solução que o projeto precisava.
Ou mais um problema.
Fim do capítulo

Comentários