Por Nalú:
Treze anos tinham passado.
Não de uma vez só, como às vezes parecia quando eu tentava lembrar de Itamaré sem esforço. Tinham passado aos poucos. Nos dias repetidos, nas decisões pequenas, nas coisas que fui deixando pra trás sem perceber exatamente quando.
Ventura não tinha cheiro de mar.
Tinha dias em que o vento trazia alguma coisa salgada, muito leve, quase uma lembrança de cheiro, mas não era a mesma coisa. Não grudava na pele. Não entrava no corpo do jeito que eu conhecia.
Senti falta disso no começo.
Depois parei de sentir.
Ou aprendi a não prestar atenção. Que não é a mesma coisa, mas que com o tempo começa a parecer.
***
O despertador tocou às seis, como sempre.
Não porque eu precisasse acordar exatamente naquele horário, mas porque rotina era o tipo de coisa que eu não negociava mais. Levantei sem pensar muito, prendi o cabelo num coque firme e fui direto para o banheiro. Depois, para a cozinha.
Café sem açúcar.
Levei um tempo pra me acostumar. A avó Conceição teria reclamado. Diria que café bom era café doce, que eu estava me tornando uma pessoa sem gosto. E então teria me servido do jeito dela mesmo assim, com açúcar demais, e ela teria ficado me observando tomar sem dizer mais nada.
A minha cozinha era pequena, mas tinha tudo que eu precisava. O apartamento ficava a duas quadras da universidade, numa rua arborizada que era mais silenciosa do que o resto do centro. Então a escolha do lugar, além de prática, era certeira.
Eu não procurei nada que me lembrasse Itamaré quando vim morar aqui.
Não precisava. Itamaré vinha mesmo assim, quando menos eu esperava.
O apartamento foi comprado com parte do dinheiro da venda da casa.
A casa.
Fiquei com o copo de café na mão por um segundo, olhando para a janela.
Manter a casa na ilha significava pagar um imposto que meus avós tinham deixado acumular por anos. Não por descuido, mas por falta de escolha. E depois que eles se foram, sobrou para eu decidir o que ficava e o que não fazia mais sentido carregar.
Nostalgia e amor não pagam dívidas.
Então eu vendi.
Sem drama. Assinei os papéis numa tarde de terça-feira em que o sol estava forte demais e a caneta escorregou na minha mão suada, e tentei não pensar no cheiro de siri que ainda devia estar impregnado nas paredes daquela cozinha.
Durante meses depois disso, evitei qualquer rua que tivesse cheiro de fritura.
Terminei o café, enxaguei a xícara na pia e voltei para o quarto me arrumar.
Calça de linho bege. Uma blusa social azul. Sandália rasteira de couro e o colar, que peguei da cômoda. Sempre o mesmo. Um fragmento de cerâmica azul com fio de ouro, comprado de uma artesã de Itamaré anos atrás. A única coisa que eu usava todo dia sem questionar.
No espelho, passei o hidratante no rosto seguido pelo protetor com cor e nos lábios só um lip balm. Os lábios ficaram por conta própria, como sempre. A avó Conceição dizia que eu tinha nascido com boca de quem não precisa de batom.
A pele bronzeada pelo sol de anos, o cabelo loiro escuro, e os olhos que meus avós juravam que tinham vindo do mar, que o mar tinha me dado de presente antes de eu nascer.
Alguns fios de cabelo teimosos escapando do coque, como sempre.
Peguei a bolsa e saí.
***
Ventura acordava rápido. Trânsito, gente apressada, ônibus passando cheios com as portas quase fechando em alguém. O tipo de cidade que já está acontecendo antes de você chegar nela.
Na ilha, o dia começava devagar.
Isso tinha sido outra vida.
Aqui, eu andava no ritmo da cidade porque era mais fácil do que nadar contra.
A universidade ficava a dez minutos a pé. O prédio de Engenharia Ambiental era o primeiro bloco do campus. Concreto e vidro com áreas verdes que tentavam suavizar o impacto da própria construção. Funcionava mais ou menos. Eu sempre achei uma ironia que o prédio do departamento que estudava impacto ambiental fosse ele mesmo um impacto ambiental razoável, mas nunca disse isso em uma reunião do colegiado.
Cumprimentei algumas pessoas no caminho. Alunos, colegas, funcionários. Conhecia a maioria pelo rosto, alguns pelo nome, mas com poucos eu tinha alguma convivência de verdade. Meu trabalho sugava boa parte da minha vida.
***
Me formei em Engenharia Ambiental com ênfase em impacto costeiro aqui em Ventura. Fiquei. Fiz mestrado sobre dinâmica de ecossistemas de manguezal em áreas de pressão urbana. Depois doutorado, aprofundado em ocupação costeira e impacto em comunidades pesqueiras tradicionais.
No meio disso, trabalhei, pesquisei, viajei, iniciei e terminei um relacionamento.
Assumi a coordenação do Programa de Avaliação de Impacto Costeiro Integrado - o PAICI - três anos atrás. Precisei de um tempo dentro do projeto para entender que ninguém faria exatamente do jeito como eu faria.
O programa trabalhava com análise de impacto ambiental em comunidades pesqueiras, principalmente em regiões pressionadas por expansão industrial e hoteleira. Mapeamento costeiro, modelagem de correntes marítimas, dados de biodiversidade. E, mais importante que tudo: escuta local.
Tecnologia sem contexto não serve pra muita coisa.
E contexto sem pessoas não existe.
Eu repetia isso para os meus alunos toda vez que achava que eles estavam se apaixonando demais pelos próprios dados.
***
Minha sala ficava no segundo andar, no canto do corredor, com uma janela que dava pra uma amendoeira velha. Larguei a bolsa na cadeira, liguei o computador e comecei o dia como sempre.
E-mails.
Relatórios pendentes. Solicitações de parceria. Dados incompletos enviados por estagiários que claramente não tinham relido antes de mandar. Um convite pra um congresso que eu provavelmente não teria tempo de ir mas que ficaria na caixa de entrada por semanas antes de eu admitir isso.
Às nove, eu já estava na sala de aula.
A aula de Avaliação de impacto ambiental para a turma do segundo ano tinha aquela energia característica de quem ainda acredita que vai mudar o mundo mas ainda não sabe bem como. Eu gostava disso neles. Tentava não estragar antes da hora.
— Impacto ambiental não é só número — eu disse, apoiando as mãos na mesa enquanto percorria o rosto de cada um com o olhar. — Se vocês não conseguem explicar o que estão medindo pra quem mora no lugar que vocês estão estudando, então vocês não entenderam o que estão medindo. Entenderam os dados. Que não é a mesma coisa.
Alguns anotaram. Outros me olharam com aquela expressão de quem estava processando.
Maurício, um aluno no fundo levantou a mão, meio hesitante.
— Mas, professora… — ele começou, coçando a nuca — e quando a comunidade não entende mesmo? Tipo… quando não tem base técnica pra compreender o que estamos falando?
Eu sustentei o olhar nele.
— Então o problema não é a comunidade — respondi.
Um silêncio pequeno na sala.
— É a forma como você está tentando explicar, Maurício.
Alguns alunos trocaram olhares. Um ou dois anotaram com mais atenção.
— Se você precisa de termos técnicos pra sustentar o que está dizendo, talvez você ainda não tenha entendido o suficiente — continuei. — Porque quem entende de verdade consegue traduzir.
Caminhei devagar entre as fileiras.
— E mais do que isso — acrescentei, parando perto da janela —, quem mora lá já entende o lugar. De outro jeito. Se você não consegue conversar com isso, não é só um problema de linguagem. É de escuta.
Quando voltei pra frente da sala, percebi que estavam mais atentos.
Não todos.
Mas o suficiente.
Não me incomodava. Cada um chegava onde precisava no seu tempo.
O meu tempo tinha sido o mar de Itamaré, a rede do avô Manoel e anos de entender que o que eu queria estudar morava dentro de mim antes de qualquer livro.
***
Às onze e quarenta, Júlia bateu na porta com aquele jeito discreto que ela tinha de avisar algo.
— Professora Nalú, o professor Flávio pediu pra lembrar da reunião de meio-dia.
— Obrigada, Júlia.
Fechei o notebook, organizei os papéis numa pilha que só fazia sentido pra mim, e segui pelo corredor com aquela sensação de quem já sabe o que vai ouvir antes de sentar.
***
A sala do professor Flávio Drummond, Coordenador do Departamento de Engenharia Ambiental, ficava no último andar. Mais vidro, mais vista, mais silêncio. Ele estava de pé olhando pela janela quando entrei, com as mãos unidas atrás das costas.
— Professora Nalú — disse, virando com um sorriso sincero, o que tornava as coisas mais complicadas. — Obrigado por vir.
— Imagina — respondi, puxando a cadeira sem esperar convite.
Ele sentou do outro lado da mesa. Organizou os braços sobre ela com calma e iniciou.
— Vou ser direto, já que estamos no horário do almoço.
— Agradeço.
— Como você sabe, o departamento está expandindo parcerias estratégicas — ele começou. — Principalmente com empresas do setor de construção hoteleira. Ventura está crescendo, e a região costeira ao redor também. Há interesse considerável em novos empreendimentos. Resorts, complexos turísticos, esse tipo de coisa.
Cruzei as mãos sobre a mesa e não disse nada. Esperei.
Ele continuou.
— Uma dessas empresas já procurou a universidade. Querem consultoria, legitimidade técnica. E eles financiam parte dos programas que mantemos. — Uma pequena pausa calculada. — Inclusive o seu.
Olhei pra ele.
— Entendo.
Um silêncio se instalou entre nós.
— O PAICI é referência, Nalú — ele continuou. — O Reitor está me cercando e isso coloca você numa posição importante nesse processo.
— Importante pra quem?
O canto da boca dele se moveu, quase um sorriso.
— Para a universidade. Para a região. Para estas empresas. E, se conduzido corretamente, para as comunidades envolvidas.
Inclinei levemente a cabeça.
— Se conduzido corretamente costuma ser a parte mais frágil do processo, professor Flávio.
Ele respirou pelo nariz, controlado.
— É exatamente por isso que eu quero você à frente.
— Ou é por isso que precisam de alguém que sustente as decisões depois. — Não disse isso com agressividade. Era uma distinção técnica, e nós dois sabíamos disso.
Dessa vez ele sorriu de verdade.
— Você sempre foi direta.
— Economiza tempo.
Ele abriu uma pasta sobre a mesa e girou na minha direção. Mapas. Linhas de costa. Áreas demarcadas em cores. Fui passando os olhos sem tocar.
Reconheci o tipo de marcação. Reconheci um dos locais. Sabia o que aquelas cores significavam.
— Um projeto em análise preliminar — ele disse. — Expansão de rede hoteleira em área costeira com baixa regulamentação.
Ele virou um dos documentos.
O logotipo no canto inferior chamou minha atenção.
Sá Noronha.
Meus olhos pararam ali um segundo.
O nome não era estranho. Já tinha aparecido em artigos, relatórios, pedidos de licenciamento, menções atravessadas em reuniões técnicas. Sempre ligado a projetos grandes demais para não deixar rastro.
Minha mandíbula apertou de leve antes que eu percebesse.
— Comunidades tradicionais. — disse baixo.
— Em alguns casos.
— Em todos — corrigi, sem tirar os olhos dos mapas. — Sempre tem alguém antes deles. Nem que seja um pescador que não tem papel nenhum e mora ali há quarenta anos.
Ele não respondeu imediatamente.
— Nalú, isso vai acontecer com ou sem a universidade — disse então. — A diferença é que com a gente, existe a tentativa de algum controle técnico.
Levantei o olhar.
— Existe mesmo?
Mantive o olhar nele, mas meus dedos pressionaram levemente a lateral da pasta sobre a mesa.
Ele apoiou os cotovelos na mesa e me devolveu o olhar sem desviar.
— Não vou romantizar — ele disse. — Existe interesse econômico. Existe pressão na universidade. Mas também existe espaço pra mitigação, pra adaptação, pra compensação real se o processo for bem conduzido. E você consegue fazer isso com maestria, professora Nalú.
— E quem definirá o limite do aceitável?
— É exatamente essa discussão que eu quero que você conduza.
— Isso não responde a pergunta, Flávio — minha voz não subiu.
Passei a língua no lábio inferior, pensando.
— Eu não assino nada que não consiga defender, professor Flávio — disse, devagar, escolhendo cada palavra. — Nem tecnicamente. Nem eticamente. Se o estudo concluir que o impacto é inaceitável, se a empresa não der alternativas de compensação… o relatório vai dizer isso. Sem eufemismo, sem dado selecionado, sem conclusão que o financiador já escreveu antes de eu começar. Se a verba que eles destinam para o PAICI é grande ou não, não importa. Isso ficará fora da equação.
— Eu não espero menos de você.
Inclinei o corpo levemente pra frente.
— E como lidamos se a conclusão for contrária ao que eles esperam?
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos.
— Neste caso, eles terão um problema. E se cortarem a verba do PAICI em represália, nós também teremos.
Assenti devagar.
— Bom saber isso desde o começo.
— Então aceita?
Olhei mais uma vez para os mapas. Nas linhas de costa demarcadas, nas áreas coloridas, nos contornos que representavam lugares onde alguém morava, pescava, criava filho, enterrava parente. Fechei a pasta devagar e a empurrei de volta.
— Eu participo — disse. — Mas não garanto o resultado que eles querem.
— E eu garanto que vamos precisar lidar com o resultado de qualquer maneira — respondeu.
Nos encaramos por um momento.
— Quando começa?
Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca dele.
— Já começou, professora Nalú.
***
Saí da sala com aquela sensação que eu conhecia bem.
Não era exatamente desconforto.
Passei o resto da tarde entre aulas,, revisões de relatório e um café que esfriou na mesa antes de eu lembrar de beber. Às cinco, eu já estava com aquele cansaço em cada músculo do meu corpo.
Peguei a bolsa, passei rápido em casa, peguei o carro e saí.
***
Dirigi até a praia mais próxima.
Não era Itamaré. Não chegava nem perto. Era uma praia urbana, com calçadão, ciclovia, barzinhos com música alta no final do dia. Mas tinha mar, e às vezes isso era o suficiente.
Descalcei as sandálias e caminhei até onde a água terminava de encontrar a areia. A maré estava baixa.
Sempre achei mais fácil pensar com a maré baixa.
A água veio até meus pés e me puxou de volta para o presente.
Pensei nos mapas.
“Sempre tem alguém antes deles”.
Eu tinha dito isso pra Flávio como um argumento técnico.
Mas era também uma memória, já que o local do projeto era próximo de Itamaré.
O avô Manoel no banco de madeira da varanda, com o chapéu de palha e as mãos enormes e calejadas. A avó Conceição de avental de chita, fazendo bolinho antes do sol chegar. A procissão de junho com os barcos enfeitados e o cheiro de incenso misturado com maresia.
Tudo aquilo tinha existido antes de qualquer resort.
E tinha continuado existindo depois, por um tempo.
O vento mudou de direção pouco antes do sol começar a sumir totalmente.
Eu percebi antes de ver. E sorri de leve, quase sem querer.
O avô Manoel dizia que quem aprende a ouvir o mar não precisa esperar a tempestade para saber que ela vem.
Eu tinha aprendido.
E sabia que o que estava começando com Flávio, com os mapas e com as parcerias era também uma espécie de mudança de vento.
Ainda não tinha forma.
Mas já tinha peso.
E eu conhecia bem o tipo de coisa que começa assim.
Fiquei mais alguns minutos com os pés na água fria, deixando o mar fazer o que o mar faz.
Depois voltei para casa.
Sem pressa.
Fim do capítulo

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01/09/2026 às 11:52
que coisa maravilhosa. A gente também não precisa ver tudo pra saber que a estória é boa. Adoro essa leitura!
MalluBlues 03/09/2026 às 09:11