Capítulo 2

Capitulo 2: Férias pra que te quero

de Nada Desvia o Destino, por MalluBlues

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Por Alicia: 

Eu não costumo desviar o olhar. Nunca vi sentido em recuar quando algo ou alguém chama a minha atenção. Se as meninas perceberam que eu estava encarando, o problema era puramente delas. A verdade é que eu olhei, gostei do que vi, e demorei o tempo que achei necessário para registrar cada detalhe.

Meu nome é Alicia Sá Noronha. Aos vinte e três anos, com um diploma em Administração Hoteleira recém-impresso, eu já compreendia o peso e o poder do meu sobrenome. A Sá Noronha Hotéis não era apenas um negócio que existia há quarenta e três anos, era o meu império por direito de sangue. Cresci ouvindo meu pai falar sobre índices de ocupação enquanto outras crianças ouviam contos de fadas. Ele adorava dizer que me moldava para assumir a Diretoria de Expansão, e eu deixava que ele cultivasse essa ilusão terna de controle, enquanto afiava minhas próprias garras. Eu nunca fui uma herdeira passiva. Eu sempre fui a dona do tabuleiro.

Fisicamente, eu herdei minha mãe quase inteira, para o bem e para o mal, dependendo do dia. Alta, com os cabelos pretos num corte chanel moderno que eu mantinha impecável mais por hábito do que por vaidade, e olhos castanhos que minha mãe chamava de “cor de mel” e meu pai chamava simplesmente de "olhos de Noronha", como se isso fosse uma categoria à parte. Minha postura não era fruto de aulas de etiqueta, era puro domínio territorial. Minha amiga Fernanda vivia reclamando que eu não sabia desligar. Ela confundia tensão com controle. 

— Você não sabe desligar, Ali. Nem de férias.

Em parte, ela tinha razão. Mas estar de férias na Ilha de Itamaré, hospedada no Recanto das Pedras Brancas, uma das unidades mais novas da rede da família, não era exatamente desligar. Era uma mistura de lazer e observação que eu fingia ser só lazer pra não estragar o clima com as meninas.

Estávamos na Praia do Farol. Protetor solar caro, óculos escuros importados e a segunda rodada de drinques que Fernanda pediu para todas nós, reinando absoluta sob o guarda-sol. Deixei que ela se divertisse com a própria plateia. Éramos quatro, mas a dinâmica era clara. Fernanda era o entretenimento em alto volume. Bruna, a claque que ria de tudo. Camila, a observadora silenciosa e a única do grupo com quem eu me dava ao trabalho de ter conversas reais. E eu... bem, eu era o centro gravitacional ao redor do qual elas orbitavam, mesmo quando eu não dizia uma palavra. 

— Férias, Ali — Fernanda tinha dito quando eu levantei uma sobrancelha. — F-é-r-i-a-s.

Eu não disse nada. Simplesmente peguei minha taça.

E acho que foi por isso que eu estava olhando para o mar quando os vi.

Girando a taça na mão com lentidão, meus olhos encontraram a cena na beira d'água.

A garota puxava a rede de pesca junto com dois homens mais velhos. Teria seus dezoito anos talvez, mas a forma como a pele bronzeada preenchia aquele biquíni listrado exigia atenção absoluta. Havia uma força crua e hipnótica na sincronia dos movimentos dela. Os músculos tensionados pelo esforço, os fios de cabelo grudados na nuca suada, os lábios volumosos cerrados em concentração. Ela ocupava a praia com uma presença tão densa que fazia o nosso luxo engarrafado parecer infantil. Meu olhar deslizou pelas coxas firmes fincadas na areia, subiu pela barriga contraída e ancorou ali. Deliciosa.

Não foi a Fernanda que percebeu primeiro. Foi a Bruna.

— Ali, o que você tá olhando?

Eu abri a boca para pronta pra responder nada, mas a Bruna já havia seguido meu olhar, e a Fernanda já tinha seguido o da Bruna, e a Camila já estava olhando também, e então era tarde.

— Ah — disse a Fernanda, com aquele sorriso que eu conhecia bem demais. — Olhando a pescadorazinha.

O grupo riu.

— Mas é forte, ein — disse Bruna, com um tom brincalhão.

— E linda — completou Camila.

Mais risadas.

O esperado era que eu encolhesse os ombros, virasse o rosto ou disfarçasse o interesse, como se precisasse da aprovação delas para desejar o que quer que fosse.

Não desta vez. Não comigo.

Sustentei o sorriso de Fernanda com um levantar de sobrancelhas e um gole demorado do meu drinque.

— Estou admirando a vista, Fer — respondi, a voz arrastada e macia. — E você deveria fazer o mesmo. Quem sabe aprende alguma coisa sobre tônus muscular.

O maxilar de Fernanda travou. Um silêncio divertido se instalou e eu, reinando sobre ele, simplesmente voltei a apreciar o mar.

Virei de lado.

Não de costas. Fiquei com o ombro voltado pra cena, o suficiente para não ver ou fingir que não via.

Não era a primeira vez que isso acontecia. Com a Fernanda, com esse grupo, com os drinques, o sol e aquela leveza de férias que às vezes descambava pra algo que eu preferia não classificar. Eu sempre encontrava uma justificativa. O calor, o cansaço, a liberdade irresponsável das férias. Desta vez foi o mesmo: eram quase duas taças, o sol estava forte, e a Fernanda era a Fernanda.

Mas eu sabia, num lugar onde preferia não olhar, que o álcool não inventa o que as pessoas são. Só remove o filtro.

Fiquei de lado até as risadas pararem, depois virei de costas.

Ficamos na praia por mais algum tempo. As conversas voltaram a ser sobre outras coisas: os planos pro jantar, a piscina do hotel, um comentário avaliador da Fernanda sobre o garçom que nos atendia… E em segundos o assunto migrou para onde sempre seguia. Cada uma de nós empurrando um tema novo antes que o anterior esfriasse, num jogo silencioso de quem se mantinha no centro das atenções por mais tempo.

Em algum momento, percebi que a jovem e os dois homens tinham ido embora.

Uma parte de mim sentiu alívio.

Não precisaria mais ouvir comentários. Não precisaria mais ficar de lado fingindo não ouvir. A praia voltaria a ser só a praia. Guarda-sóis, crianças, o barulho constante do mar e eu poderia tomar minha taça em paz.

Não me orgulhei desse alívio. Mas também não o ignorei.

***

Voltamos ao hotel por volta do meio-dia.

O Recanto das Pedras Brancas era, objetivamente, bonito. Eu conseguia reconhecer isso mesmo com o olhar profissional que insistia em catalogar tudo. A fachada toda em branco com detalhes em madeira de demolição, as áreas comuns abertas para o mar com aquela ventilação natural que dispensava ar-condicionado na maior parte do ano, os jardins com flores e arbustos nativos que o paisagista tinha integrado ao projeto com bom gosto. A piscina principal era infinita, com borda voltada pro oceano, criando aquela ilusão visual de que a água não terminava nunca. Os bangalôs tinham varanda privativa com rede e visão direta para o mar. O restaurante era comandado pelo Chef Renato Valls, que tinha passagem por duas casas com estrela Michelin e servia um cardápio que equilibrava frutos do mar com técnicas contemporâneas.

Era um excelente hotel. Eu tinha isso como informação, não como sentimento.

Almoçamos no restaurante com aquela moleza de quem não tem compromisso nenhum, o que era verdade pras outras três e quase verdade pra mim. A Fernanda pediu mais vinho do que era necessário. A Bruna experimentou três sobremesas. A Camila e eu ficamos conversando sobre os planos da tarde enquanto a mesa ao redor de nós ficava lentamente mais bagunçada e mais feliz.

— Vila central à tardezinha? — Camila sugeriu.

— Por favor — disse a Fernanda. — Quero ver como é essa tal de Itamaré de verdade. Não só a versão resort.

— Uma frase perigosíssima para alguém que reclama de cheiro de peixe — murmurei.

Ela me lançou um olhar.

— Você está ficando engraçadinha nas férias, Ali.

— Só não se acostuma. Às cinco, saímos do hotel.

***

A vila central de Itamaré era outro mundo.

Dez minutos a pé do hotel, mas poderia ser em outro país. As ruas eram de pedra irregular, estreitas, com as casas coloridas encostadas uma na outra. Azul desbotado do lado de amarelo mostarda do lado de rosa antigo, como se cada família tivesse escolhido uma cor sem combinar com o vizinho e o resultado tivesse dado certo por acidente. 

Tinha uma praça pequena no centro, com uma fonte que não funcionava mas que servia de ponto de encontro. Barracas de artesanato, um bar com mesas na calçada, uma igrejinha branca com a porta aberta. O cheiro era de fritura, de mar e de madeira velha, misturados de um modo que não era desagradável.

A Fernanda estava filmando tudo pelo celular com entusiasmo. A Bruna tinha parado numa barraca de artesanato e segurava um colar de conchas tentando decidir se era brega ou charmoso. E a Camila andava do meu lado, olhando as fachadas com atenção.

Foi então que o cheiro mudou.

— Gente — disse Bruna, o nariz franzido, sem largar o colar. — Que cheiro é esse?

— Bolinho de peixe — disse a Camila, olhando em volta.

— Parece mais fritura de posto de gasolina — a Fernanda completou, e a Bruna riu antes mesmo de virar.

— Toma cuidado — a Fernanda disse, num tom de fingida preocupação. — Parece meio insalubre.

As duas riram.

Eu segui o olhar delas e vi a senhora.

Ela não estava simplesmente passando. Tinha uma barraca pequena montada no canto da praça, e era uma das que concentrava mais gente. As pessoas paravam, compravam, algumas ficavam conversando. Ela se movia atrás do balcão. Cabelos brancos presos num coque firme com redinha em volta e avental. 

A Fernanda se aproximou antes que eu pudesse fazer alguma coisa.

O que, sendo honesta comigo mesma, eu provavelmente não teria feito de qualquer forma.

— Moça! Oi, moça!

A senhora virou com calma. Olhou para nós com atenção.

— Boa tarde — ela disse. — Pois não?

— O que a senhora tá vendendo? — perguntou a Fernanda, com um tom performático.

A senhora abriu a caixa térmica com um gesto simples, sem cerimônia.

— Bolinho de peixe e casquinha de siri. Fritos na hora. São famosos em toda a ilha.

— Imagino — disse Bruna, baixo, e a Fernanda comprimiu um sorriso.

— As moças querem? — a senhora disse, sem perder o sorriso.

Eu olhei pras minhas amigas por um segundo. Depois olhei pra senhora.

— Obrigada, mas agora não — eu disse. Minha voz saiu seca, e eu não soube dizer se era rejeição ao bolinho ou desconforto com a situação inteira.

Ajustei a alça da bolsa no ombro logo depois, sem necessidade.

A Camila, ao meu lado, pegou um que tinha acabado de ser frito, sem cerimônia. Mordeu devagar. A expressão dela mudou antes mesmo de terminar de mastigar.

— Meu Deus — ela disse, genuinamente surpresa. — Isso é muito bom.

A senhora sorriu um daqueles sorrisos que chegam pelos olhos antes de alcançar a boca.

— Obrigada, minha filha.

— Quanto é? — a Camila já perguntou, procurando a carteira.

Mas a senhora não estava olhando para Camila.

Estava me olhando.

— Percebi que a moça não quer comer agora — ela disse, com gentileza. — Mas talvez queira levar pra mais tarde. São bons frios também.

Havia algo no modo como ela disse isso que me deixou levemente desconfortável

Eu abri a boca pra responder, mas a Fernanda foi mais rápida. 

— Olha, dona... — ela pausou, esperando.

— Conceição — a senhora disse.

— Dona Conceição. — O sorriso da Fernanda era o de sempre, o que ela achava espirituoso. — A senhora não sabe onde a gente tá hospedada, né? No Recanto das Pedras Brancas. Chef internacional, passagem por restaurante com estrela Michelin. Acho que a gente tá bem servida.

A Dona Conceição não piscou.

Não se encolheu, não se apressou em responder, não fez nenhum daqueles gestos pequenos de quem acabou de ser diminuída. Ficou exatamente onde estava, com a mesma presença de antes, e abriu a boca.

Eu suspirei internamente. A cafonice da Fernanda me cansava. Eu estava prestes a intervir, mais para poupar meus próprios ouvidos do que por piedade, quando o ar ao nosso redor mudou. 

Eu ouvi os passos antes de me virar.

Ela veio pela lateral da rua.

Os cabelos estavam soltos agora. Usava um vestido branco com flores amarelas, simples, que o vento da tardinha movia levemente. Sandálias nos pés. Trazia uma sacola no braço e vinha em direção à senhora com aquela caminhada de quem conhece cada pedra irregular do chão. 

Ela parou quando nos viu.

Não foi susto.

Foi reconhecimento.

Os olhos verdes passaram por cada uma de nós, sem pressa, antes de pousarem na Dona Conceição.

— Vó, tá tudo bem?

— Tudo bem, meu bem — a Dona Conceição respondeu, com uma serenidade que deixava claro que sim, estava tudo bem.

E eu não estava preparada pra ela de perto.

De longe, na praia, com a distância e o movimento e a rede e os dois homens ao redor, ela era uma cena. De perto, com a luz da tardinha caindo de lado e aquele vestido branco e os olhos que eram de um verde que não parecia real, ela era outra coisa inteiramente. O corpo que eu tinha notado de longe era ainda mais presente agora. A pele bronzeada e os lábios que não precisavam de nada para ser o que eram. E de longe não tinha o cheiro. De perto, tinha. À medida que ela encurtava a distância, o cheiro rústico de mar e fritura simplesmente evaporou. No lugar, o ar ao meu redor se impregnou com um aroma denso e magnético de pele quente de sol misturada a um jasmim selvagem. 

Fiquei quieta.

Endireitei a postura sem perceber.

Como se aquilo fizesse alguma diferença.

A Fernanda inclinou a cabeça com aquele sorriso que eu conhecia e que sempre me preparava para o pior.

— Espera — ela disse. — Não é a pescadorazinha da praia?

— Os peixinhos que você tirou de manhã já viraram bolinho, então? — disse a Bruna, rindo, e a Fernanda acompanhando o riso junto.

Senti alguma coisa se contrair no meu peito.

A jovem olhou pras duas com uma expressão que não era raiva. Era pior que raiva. Os olhos percorreram a Fernanda, percorreram a Bruna, e então, com tranquilidade, ela respondeu.

— Os peixes que eu tirei de manhã alimentaram muita gente hoje, sim.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— E vocês, fizeram o que com o seu dia?

O sorriso da Fernanda hesitou por um segundo. Só um.

A Bruna abriu a boca e fechou.

E então os olhos verdes vieram pra mim.

Sustentei o olhar dela. Havia fogo ali, um desafio que fez uma corrente elétrica gostosa descer pela minha espinha. Eu não desviei os olhos por intimidação. Desviei porque percebi que meus lábios queriam se curvar em um sorriso predatório, e eu não pretendia fazer isso ali. 

Não sei o que ela esperava encontrar. Não sei o que encontrou. 

— Vamos embora — eu disse rapidamente, olhando para as minhas amigas.

— Já? — Fernanda perguntou e levantou uma sobrancelha.

— Já. Está ficando tarde.

— Espera só eu pagar e pegar mais um — Camila disse, retirando o dinheiro da bolsa.

— Mais um, Camila? — Fernanda fez uma careta. — Cruzes.

A jovem estreitou os olhos na direção da Fernanda de um jeito que me fez querer dar um passo pra trás.

— Esse é pra levar — disse a Camila, firme, entregando o dinheiro sem olhar para Fernanda.

A Dona Conceição pegou uma pequena embalagem de isopor do lado da cesta, colocou o bolinho com cuidado, fechou com uma fitinha adesiva e entregou para Camila com as duas mãos.

— Só não demore a comer, menina. Pode esperar esfriar, mas se demorar demais, estraga.

Camila assentiu com um sorriso e quando ela pegou a embalagem, me virei.

Andamos alguns passos antes da Camila se aproximar de mim, o passo combinando com o meu, a voz baixa o suficiente.

— Peguei pra você — ela disse. — Vi que você tava com vontade.

Eu ia negar, mas peguei a embalagem em silêncio e enfiei na bolsa.

Atrás de mim, ouvi a Bruna murmurar algo para Fernanda. Ouvi a Fernanda dar uma risadinha baixa.

Não me virei.

Não olhei pra trás.

Mas eu sabia que os olhos verdes estavam me acompanhando enquanto eu me afastava pela rua de pedra entre as casas coloridas de Itamaré.

***

No quarto do hotel, com o ar-condicionado zumbindo baixo, abri a embalagem.

O aroma era incrível. Quente, autêntico. Dei uma mordida lenta, fechando os olhos enquanto o sabor invadia o paladar. O rosto da garota do vestido florido desenhou-se na minha mente com uma nitidez perigosa. A pele, o cheiro, o deboche refinado nos olhos.

E vocês, fizeram o que com o seu dia?

Dei um sorriso baixo, solitário, olhando para o teto do quarto perfeitamente arrumado. Eu tinha passado o dia sustentando vaidades alheias e bebendo à beira da piscina. Não tinha feito absolutamente nada que importasse.

Terminei o bolinho saboreando cada pedaço, depois fechei a embalagem de isopor com cuidado e fiquei olhando para ela por um tempo antes de jogá-la fora.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
D

Dessinha

01/09/2026 às 09:29

Saudade de ler assim, com estrutura, com leveza. Que delícia de desfrutar... esse tem livro? 

M

MalluBlues 03/09/2026 às 09:10

Dessinha querida, fico muito feliz que está gostando da história. Este não tem livro. Estou escrevendo aos pouquinhos, então se tiverem sugestões e ideias, posso comprar e acrescentar no meio do processo. O livro vira nosso!
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