Por Nalú:
O sol já estava alto sobre Itamaré quando o avô Manoel me chamou da varanda.
— Nalú! Vem me ajudar com essa rede, menina!
Eu ouvi, mas não me apressei. Primeiro terminei de tomar o café que a avó Conceição tinha deixado na mesa. Café forte, com açúcar demais, do jeito que ela fazia desde sempre.
Sem pressa, deixei os chinelos na soleira da porta. Nunca gostei de trabalhar calçada. Sentir a areia quente nos pés era meu jeito de acordar de verdade.
A manhã estava bonita na Praia do Farol. Do jeito que só Itamaré sabia ser em março. Aquela luz dourada chegava de lado e o mar batia manso. A maré ainda estava baixa e a areia úmida da beira d'água tinha aquele cheiro de sal e alga que pra mim nunca foi cheiro de praia.
Era cheiro de casa.
Peguei meu cabelo e prendi num coque meio torto, desses que duram cinco minutos antes de começar a escorregar. Meu cabelo nunca cooperou muito. Liso na raiz, com umas ondulações preguiçosas nas pontas, e comprido o suficiente pra me incomodar no calor. A avó Conceição sempre dizia que eu devia usá-lo solto, que era bonito assim, mas ela dizia isso de tudo que eu fazia, então eu aprendi a filtrar.
Quando cheguei à varanda, meu avô já tinha espalhado a rede pelo chão.
Mesmo sentado, ainda parecia alto. Os ombros tinham cedido um pouco ao peso dos anos, mas havia nele uma firmeza que o tempo nunca conseguiu dobrar. A pele escura, marcada por décadas de sol, vento e água salgada, parecia contar uma história antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra. As mãos eram enormes, calejadas, e se moviam sobre a rede com uma delicadeza que sempre me impressionava. Eram mãos capazes de puxar um barco inteiro e, ao mesmo tempo, desfazer um nó sem romper um único fio.
O chapéu de palha desbotado continuava preso ao queixo pelo velho cordão.
Eu já tinha tentado jogar aquele chapéu fora pelo menos duas vezes.
Nas duas, ele apareceu usando exatamente o mesmo chapéu no dia seguinte.
— Demorou — ele disse, sem olhar para mim.
— Tomei café — respondi, sentando no chão do lado dele.
— Café não demora tanto assim.
— O meu demora.
Ele deu uma risada curta. Eu também.
A rede estava cheia de nós. Escolhi um deles e comecei a puxá-lo com mais força do que delicadeza.
O avô fez aquele ruído baixo de desaprovação que usava para quase tudo.
— Devagar, menina.
— Se for devagar a gente termina só amanhã, vô.
Ele não levantou os olhos da rede.
— Do meu jeito, amanhã a rede continua existindo. Do seu jeito, não continua.
Sorri sem responder.
Ele tinha razão.
Mas admitir isso em voz alta nunca me pareceu necessário.
Enquanto desfazia outro nó, levantei os olhos para o mar.
A luz dourada da manhã escorria sobre a água calma. Algumas gaivotas riscavam o céu ao longe e o vento fazia dançar as folhas das árvores espalhadas pela praia.
O avô Manoel falava pouco.
Sempre falou.
Aprendi cedo que havia gente que ensinava mais pelo silêncio do que pela fala.
Foi com ele que descobri que a força não vinha dos braços, mas do equilíbrio. Que havia marés que não aceitavam pressa. Que um peixe puxado antes da hora escapava. E que um trabalho bem feito não precisava de plateia.
Com o tempo, percebi que essas lições serviam para muito mais do que a pesca.
Trabalhamos em silêncio por mais alguns minutos.
Eu me sentia muito mais filha dele e da avó Conceição do que neta, se é que essa distinção ainda fazia algum sentido.
Meus pais morreram quando eu tinha quatro anos.
Numa tempestade que não deveria ter pego ninguém de surpresa, mas pegou.
O barco deles nunca voltou.
Quase não tenho lembranças deles de verdade. Tenho flashes, a sensação de um colo que já não consigo identificar e algumas roupas antigas de bebê guardadas numa caixa no armário da avó Conceição que cheiram a naftalina.
Os meus avós nunca falaram muito sobre aquela noite.
Não porque tivessem esquecido. Mas porque, às vezes, a dor estabelece seus próprios acordos.
Mesmo em silêncio, meus pais continuavam presentes em tudo.
No jeito que o avô olhava o mar quando pensava que ninguém estava vendo.
Na forma como a avó, vez ou outra, me chamava por outro nome e depois sorria, fingindo que tinha sido distração.
Eu aprendi a não perguntar.
E, com o tempo, descobri que não precisava.
Enquanto desfazia outro nó, meus olhos correram automaticamente para o alto do morro.
A Ilha de Itamaré era pequena e tinha uma ermida antiga no alto do morro, dedicada a São Benedito das Águas, santo protetor dos pescadores. Todo ano, em junho, tinha a procissão marítima. Os barcos enfeitados com bandeirinhas coloridas, as rezas no cais, o cheiro de incenso misturado com maresia. Era o dia mais bonito do ano, na minha opinião. O dia em que a ilha inteira virava uma coisa só. E que meus avós e eu rezávamos por nós e pelos meus pais.
Atrás do morro, a ilha virava outro mundo. Lá ficava o Recanto das Pedras Brancas.
Três anos antes, aquele pedaço do morro era só mata.
Agora havia piscinas infinitas, bangalôs voltados para o mar e um restaurante com cardápio em dois idiomas. O resort tinha chegado prometendo desenvolvimento e emprego, mas os moradores mais antigos ainda olhavam para ele com a mesma desconfiança de quem observa uma planta invasora crescer no quintal. Não porque fosse feio. Era bonito, até demais. Mas porque parecia não pertencer àquele lugar.
De vez em quando os hóspedes desciam de bugue até a Praia do Farol.
Alguns vinham caminhando pela areia.
Outros fotografavam o farol antigo, as redes estendidas e os barcos coloridos.
Havia também os que simplesmente paravam para nos observar trabalhar, com aquela expressão curiosa de quem tinha acabado de entrar num documentário sobre um mundo distante.
A ilha era grande o suficiente para todo mundo, e o mar nunca perguntou quanto dinheiro alguém tinha antes de decidir subir a maré.
A maré subia igual para todos.
***
Quando voltei para dentro de casa, a avó Conceição já estava na cozinha.
Eu podia ouvir o barulho da panela, o cheiro de alho refogando, e logo depois aquele aroma inconfundível de bolinho de peixe que começava a se misturar com o ar salgado da manhã. Ela fazia isso todo dia. Levantava antes de todo mundo, acendia o fogão e começava a produção que sustentava boa parte do que a gente tinha além do que o avô Manoel trazia do mar.
Ela também fazia casquinha de siri, que era o orgulho da vila. As pessoas vinham da rua de cima só pra comprar dela. Tinha dias que ela acordava às cinco da manhã pra dar conta do pedido, e mesmo assim ficava de bom humor, cantarolando baixinho enquanto mexia a panela, conversando com o gato do vizinho que ficava sentado na janela da cozinha esperando que ela se distraísse pra conseguir pegar algo.
Numa prateleira acima do fogão ficavam seus potes de chá. Ervas que ela colhia ou trocava com outras mulheres da ilha, cada uma com uma função que ela conhecia de cor. Ela me ensinava isso com a mesma naturalidade com que ensinava a limpar o peixe: chá não é só bebida, Nalú. É intenção.
A avó Conceição era uma mulher baixinha. Seus cabelos brancos ficavam sempre presos num coque firme no alto da cabeça. Tinha o rosto redondo, cheio de rugas finas ao redor dos olhos e da boca. Os olhos eram escuros, vivos. Era pequena sim, mas tinha uma presença que enchia o cômodo.
Entrei pela porta da cozinha e ela não precisou virar pra saber que era eu.
— Tá com fome de novo?
— Vim buscar água.
— A água fica no mesmo lugar de sempre, então pegue lá, menina — ela disse, sem tirar os olhos da panela.
Peguei o copo, bebi em pé encostada na pia, e fiquei olhando pra ela trabalhar. Havia alguma coisa hipnótica nisso.
— Você sabia que a professora Rute veio aqui na terça? — ela disse, sem virar, num tom casual.
— Vim buscar água, não fofoca, vó.
— Comprou uma dúzia de bolinhos. — Ela pausou, e eu já sabia que vinha coisa. — E ficou me contando das suas notas. Disse que você é inteligente, Nalú. Que não devia se prender à vila. Que tem capacidade pra ir mais longe.
Fiquei quieta. Bebi mais um gole d'água.
— A professora Rute tem razão — minha avó disse então, e dessa vez virou o corpo todo pra me encarar.
— Vó...
— Me deixa falar. — Ela limpou as mãos no avental, devagar. — Eu e seu vô, a gente construiu o que pode aqui. Essa casa, esse mar, essa vida. É o que temos, e não me arrependo de nada. Mas não quero que você fique presa aqui por nossa causa. Não quero que daqui a dez anos você olhe pra trás e pense que ficou por nós.
A voz dela era firme e seu olhar afetuoso.
— Não vou largar os estudos — eu disse. — Nunca pensei em largar.
— Eu sei que não pensa. Mas estudar aqui tem limite. Chega uma hora que a vila não tem mais o que te dar.
— Então eu vou pra Ventura. — Ventura era a capital, a duas horas de barco. Era onde ficava a universidade que eu já tinha pesquisado mais do que deixava qualquer um saber. — Já fiz as contas, vó. Tem barco que sai daqui todo dia de manhãzinha e volta todo dia de tarde. Eu posso ir, estudar, e voltar. Não preciso largar vocês.
A avó Conceição me olhou com uma expressão que era ternura, era preocupação, era orgulho, era tudo junto num rosto só.
— Nalú, você sabe quanto cansa isso? Ir e voltar todo dia? Duas horas pra lá, Duas horas pra cá, mais as aulas, mais os estudos...
Eu sorri. E aí eu senti aquele sorriso subir devagar, do jeito que sempre subia quando eu sabia que tinha uma boa resposta na ponta da língua.
— Cansa pra você, vó. Que levanta às cinco pra fazer bolinho e fica de pé o dia todo. — Dei um passo na direção dela, peguei sua mão e deixei entre as minhas. — Pra mim vai ser como desfazer os nós da rede do vô.
Ela me olhou por um segundo com os olhos arregalados.
Depois riu. Riu de verdade, daquele jeito gostoso que chacoalhava os ombros, e eu ri junto porque o riso dela sempre me pegava assim, sem aviso.
— Você é impossível — ela disse, ainda rindo.
— Aprendi com quem?
Ela sacudiu a cabeça, mas não largou minha mão. Me puxou um pouco pra perto, olhou pro meu rosto com aquela atenção demorada.
— Você é linda, sabia? — ela disse, baixinho. — E boa. Boa de um jeito que não se aprende, que já vem junto.
Eu quis dizer alguma coisa, mas não disse. Algumas coisas da avó Conceição eram pra receber em silêncio.
Ela soltou minha mão e voltou para o fogão.
— Agora vai fazer suas coisas, antes que seu vô te chame você de novo.
***
No domingo de manhã, meu avô entrou rápido em casa e bateu na porta da cozinha.
— Maré boa. — Só disse isso.
A avó Conceição colocou as mãos na cintura.
— E eu aqui achando que você ia me convidar pra dançar.
Ele deu um meio sorriso e pegou o chapéu de palha no gancho atrás da porta.
Eu já estava levantando da cadeira.
Enfiei o short jeans por cima do biquini. O de alças finas, listrado de azul e branco, que a avó resmungava ser pequeno demais mas que eu usava porque era bonito. Amarrei o cabelo numa trança apressada, calcei chinelo e saí atrás do meu avô.
A descida até aquela parte da praia era por uma ruela de pedra entre as casas. O Seu Dito já estava na beira d'água esperando, com a tarrafa dobrada no braço. Ele era um homem gordo e bem-humorado, que suava o ano inteiro e não reclamava nunca.
— Ô Naluzinha — ele me cumprimentou, com aquele sorriso que enchia o rosto todo. — Hoje o mar tá generoso. Sinto no joelho.
— O senhor sente tudo no joelho, Seu Dito.
— E nunca errei, menina.
Ri e fui ajudar a abrir a rede.
A Praia do Farol estava mais cheia do que o normal, mas o verão sempre trazia movimento. Guarda-sóis coloridos espalhados pela areia, crianças correndo na beira d'água, casais tirando foto com o farol velho ao fundo. O farol em si não funcionava mais havia anos, mas continuava de pé no canto da praia.
Eu gostava dessa praia. Tinha crescido aqui. Sabia onde a areia era mais firme, onde a corrente puxava mais forte, onde os peixes passavam no fim da tarde. Era um conhecimento de corpo, não de cabeça.
O avô Manoel e o Seu Dito lançaram a tarrafa com um arremesso certeiro, o movimento amplo e preciso de quem fez isso tantas vezes que o corpo já não precisa pensar. A rede abriu no ar como uma flor antes de tocar a água e afundar.
Esperamos o tempo certo.
O Seu Dito ficou olhando para o horizonte com aquela concentração de quem está vendo algo que mais ninguém vê. O avô Manoel ficou quieto do jeito dele e eu fiquei no meio dos dois, com os pés na areia úmida e o sol esquentando os ombros.
Então, no momento certo, começamos a puxar.
A rede estava pesada.
Plantei os pés na areia, dobrei levemente os joelhos e puxei com o peso do corpo inteiro, não só dos braços. Esse era um dos primeiros ensinamentos do avô: a força não vem do músculo, vem do equilíbrio.
Não ouvi imediatamente. Primeiro senti. Aquela pressão sutil na pele, como se a luz do sol tivesse mudado de densidade de repente. Levantei os olhos devagar, ajustando a força na rede de pesca.
Eram quatro mulheres nas espreguiçadeiras caras que o resort alugava para usar na praia pública. Elas olhavam na minha direção. Uma com uma taça na mão, outra ainda rindo da própria piada. Tinham aquele visual de quem veio para a praia mas não pretendia se molhar. Óculos de sol imensos, bolsas de palha de grife, protetor solar importado.
Ouvi mais risadas. Eu olhei para elas por um momento, acostumada com a arrogância dos turistas. Mas não foram as três barulhentas que prenderam a minha atenção. Foi a quarta.
Ela não estava rindo. Enquanto as amigas eram pura expansão e deboche barato, ela era contenção. Cabelos pretos e curtos num corte afiado que o vento da praia tentava bagunçar sem sucesso, e uma postura tão ereta que parecia não relaxar. Mas o que me fez travar os pés na areia foi o olhar dela.
Ela não me olhava de passagem. Me encarava com uma atenção densa, quase física. Os olhos dela percorriam a linha do meu corpo, o esforço nos meus braços, a água salgada na minha pele, com uma calma analítica que ela não fazia questão nenhuma de esconder.
Sustentei o olhar dela por um tempo, mas então, num movimento calculado demais para parecer casual, ela desviou o rosto, virando o ombro para a cena e levando a taça à boca.
Voltei a puxar a rede.
Não senti raiva. Nem vergonha. Senti uma coisa mais parecida com tédio. Aquela sensação de que algumas pessoas são exatamente o que parecem ser, e que não vale o esforço de se indignar. Eu tinha uma rede pra puxar. Eu tinha o avô Manoel e o Seu Dito do meu lado.
Quando terminamos de puxar, vários peixes estavam ali enroscados na malha, e dois furos não passaram despercebidos.
— Aqui ó, vô. Tem dois buracos do lado esquerdo.
Ele se abaixou pra olhar, assentiu com a cabeça.
— Você tem olho bom, menina.
— Tenho olho de quem cresceu olhando rede — respondi.
E voltei ao trabalho.
Mas alguma coisa ficou. O tipo de sensação que aparece antes das tempestades, quando o céu ainda está azul mas o vento já mudou de direção e o mar sabe antes de todo mundo que algo está por vir.
Meu avô sempre dizia que quem vive perto do mar aprende a ouvir o que ainda não aconteceu.
Eu devia ter prestado mais atenção naquele aviso.
Fim do capítulo

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