Por Alicia:
— Oi! Tudo bem, amor?
O rosto de Rafael apareceu na tela com aquele ângulo de sempre, meio de baixo pra cima, com a luz do escritório batendo direto na testa dele.
— Tudo. E com você?
— Comigo também. — Ele ajeitou a postura na cadeira, afastando alguns papéis da frente da câmera. — Olha, preciso te dar uma notícia.
Alguma coisa em mim torceu, por um segundo ridículo, para que fosse uma traição. Que ele tivesse alguma coisa para confessar, alguma coisa feia o suficiente para me deixar livre de qualquer sensação de culpa.
Seria tão mais fácil.
Quase justo.
— Pode falar.
— Não vou conseguir ir pra Itamaré. — Ele soltou o ar devagar. — A audiência do caso Bittencourt foi remarcada pra sexta, e ainda apareceu mais uma reunião, bem cedo na segunda. Vou ficar preso com estes papéis aqui o fim de semana inteiro.
— Tá tudo bem.
A sensação de alívio veio tão rápido.
— Você parece bem conformada pra quem tá com saudade — ele comentou, meio rindo.
— Não sou de fazer escândalo por compromisso de trabalho, Rafael. Você sabe bem disso.
Ele assentiu, aceitando a resposta sem questionar. E em um impulso de coragem, aproveitei a brecha.
— Aliás... Queria voltar em um assunto contigo.
— Qual?
— Lembra quando a gente falou em abrir o relacionamento de novo?
Ele levantou os olhos para a câmera.
— Lembro. Você tinha dito que não queria.
— Eu sei.
Passei o polegar pela lateral do celular, sem perceber.
— Mas pensei melhor.
O sorriso dele desapareceu.
— Tem algum homem aí, Alicia?
— Não.
— Algum cara te interessou?
— Não.
Tecnicamente, dessa vez eu não estava mentindo.
Ele se recostou na cadeira.
— Então eu não entendo.
— Não tem muito o que entender, Rafa. Eu pensei e acho que talvez seja bom pra gente.
— Bom pra gente? — A voz dele mudou, ficando mais baixa. — Você está falando sério?
— Estou.
Rafael ficou alguns segundos em silêncio.
— Alicia, da última vez que a gente abriu, você odiou.
— Não foi bem assim.
— Foi sim. Você odiou.
Desviei os olhos da tela.
— Mas mesmo assim funcionou por um tempo.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Você chama aquilo de funcionar?
— Chamo da gente ter descoberto algumas coisas.
— E pelo visto agora você quer descobrir de novo?
Silêncio.
Respirei fundo.
— A gente está noivo há dois anos, Rafael. A gente se vê uma vez por semana, quando consegue. Vive adiando conversa, adiando decisão... — Passei a mão pelo cabelo. — Talvez a gente precise de alguma coisa que tire a gente desse lugar.
— Pode ser isso ou talvez você só queira uma saída.
— Uma saída? — Perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— Pra não precisar decidir se quer casar comigo.
Senti uma leve irritação com o rumo que aquela conversa estava tomando.
— Não é isso.
— Então o que é?
Fiquei um instante sem responder.
— Talvez abrir o relacionamento ajude a gente a entender o que ainda existe aqui. — Toquei de leve a tela, como se pudesse diminuir a distância entre nós. — E, se não ajudar... talvez a gente precise admitir que dar um tempo seria melhor.
Ele baixou os olhos.
— Às vezes eu acho que você é viciada na adrenalina da conquista.
Franzi a testa.
— Como é?
— Você gosta da parte em que ainda não sabe se vai conseguir. Da novidade. Da tensão. — Ele deu de ombros. — Era assim antes, quando a gente abriu. Parecia um jogo entre a gente.
— E você nunca pareceu incomodado.
— Porque eu também estava jogando.
Sustentei o olhar dele através da tela.
— Então talvez eu só queira descobrir se ainda quero jogar.
— E se eu disser que não quero? Que não aceito? — O semblante dele se fechou.
— Me resta concordar.
Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.
— Tudo bem.
Esperei mais alguma coisa. Não veio.
— Tudo bem? — repeti.
— Podemos abrir.
A resposta deveria ter me aliviado.
Em vez disso, alguma coisa ficou estranhamente vazia dentro de mim.
— Certo.
— Certo.
Nenhum de nós soube o que fazer com o silêncio que veio.
Foi Rafael quem quebrou o momento incômodo.
— Só espero que você não descubra o que quer quando já for tarde demais.
Meu peito apertou, mas não deixei que ele percebesse. Mantive minha expressão neutra naquela tela de celular.
— Mudando de assunto... e como está o trabalho?
— Encaminhado. Estou bem positiva, pra falar a verdade.
— E a professora? A coordenadora?
— Nalú?
O nome parecia brincar na minha boca.
Rafael assentiu.
— Essa.
— Está indo muito bem. Hoje eles tiveram que alterar o cronograma e ficaram aqui no hotel pra levantar os dados.
— Toma cuidado com esses adiamentos, Alicia. — Rafael disse, com tom mais sério.
— Cuidado com o quê?
— Com essa professora.
— Por quê?
— Ela é daí, não é?
— É.
— Então deve conhecer metade das pessoas envolvidas. Talvez até tenha parente em Itamaré. — Ele apoiou o cotovelo na mesa. — Gente assim pode ter interesse pessoal no resultado e não tem a pressa de vocês pela solução.
Senti meu corpo ficar mais rígido.
— Ela é a responsável técnica e não posso interferir.
— Não estou dizendo que não seja, apenas estou pensando em quanto sua empresa está perdendo com tudo isso.
— Eu sei.
— E exatamente por isso você precisa tomar cuidado com quem está atrasando tudo ainda mais.
Mordi a parte interna da bochecha.
— Entendi.
— Você tem certeza que esta universidade foi a melhor escolha para o novo laudo?
A pergunta veio simples, mas mesmo assim me atingiu.
Eu não queria estar tendo aquela conversa.
— Rafa, vou desligar. Recebi uma mensagem e preciso resolver uma coisa aqui.
— Alicia...
— Depois a gente se fala, tá?
— Tá bem. Beijo.
Desliguei e fiquei alguns segundos olhando para a tela escura.
Meu pai foi o primeiro a aparecer nas notificações. Três mensagens seguidas. Cronograma. Alvará. Uma ligação que ele queria que eu fizesse para um conhecido no Ministério Público.
Apaguei a tela sem terminar de ler.
Joguei o celular sobre a cama e fiquei olhando para o teto.
A pressão vinha de todos os lados.
Meu pai cobrando prazo. O embargo parado. A história do peixe, que tinha virado um atrito entre mim e Nalú. O beijo, que eu não conseguia tirar da cabeça.
E a vontade.
Essa, principalmente.
Só aumentava toda vez que eu ficava sozinha com ela.
Fechei os olhos.
Abrir o relacionamento deixaria minha consciência tranquila com o Rafael se eu beijasse Nalú de novo.
Mas e com ela?
A pergunta ficou ali.
Voltei ao que Rafael tinha dito.
Ele estava sendo condescendente, controlador, do jeito dele de sempre. Mas não estava completamente errado sobre uma coisa. Eu precisava acompanhar o trabalho mais de perto.
Agora que a parte de marketing estava resolvida, eu podia dedicar atenção total ao andamento do laudo.
Por necessidade profissional.
Ou, pelo menos, foi isso que repeti para mim mesma antes de dormir.
***
No dia seguinte, encontrei Nalú e os estudantes no saguão, prontos para descer até o cais. Ela tinha trocado o jeans de sempre por um short cáqui e uma camiseta azul, justa o bastante para marcar seu corpo. O cabelo dela estava preso no alto e a bolsa com os equipamentos já no ombro.
Desci vestindo uma calça de linho creme e uma blusa de alças azul-petróleo. Me senti, pela primeira vez ali, como uma intrusa no meio deles.
— Bom dia — falei, me aproximando do grupo.
— Bom dia.
Nalú respondeu sem me olhar nos olhos, concentrada em conferir algo na bolsa de Pedro. O tom dela estava seco.
— Você ainda tá brava comigo — comentei, baixo, enquanto os estudantes entravam na van.
— Não estou brava. — Ela ajustou a alça no ombro. — Temos muito trabalho hoje.
— Você não tá nem olhando na minha cara.
Ela finalmente ergueu os olhos.
— Alicia, eu disse o que precisava dizer ontem. Você também. Não vamos dar importância demais a isso, tá bem?
Ela me encarou por um tempo e então desviou.
— Temos um laudo para terminar.
— E eu quero que terminem. Principalmente depois de vocês terem ficado aqui ontem. — As palavras saíram antes que eu pudesse escolher melhor.
— Não se preocupe. — Ela ajeitou a bolsa outra vez. — Logo este laudo estará finalizado.
Nalú entrou na van e sentou ao lado de Isabela e Marina. Fiquei por um segundo parada do lado de fora antes de entrar e me acomodar ao lado de Tomás.
O caminho até o cais foi em silêncio.
Um silêncio que ninguém tentou quebrar.
***
O cais já tinha movimento quando chegamos. Pescadores arrumavam redes, caixas iam e vinham, e uma van estava estacionada perto da rampa, com o logo de uma empresa de equipamentos náuticos pintado na lateral.
Uma mulher desceu do banco do carona assim que nos viu. Alta, cabelos escuros e cacheados, sorriso largo.
O sorriso se abriu ainda mais quando encontrou Nalú.
— Nalú!
— Jana.
O jeito como Nalú disse aquele nome me fez prestar atenção.
Janaína atravessou os poucos metros que as separavam e a abraçou. Nalú retribuiu sem hesitar, envolvendo-a pela cintura. O abraço demorou mais do que um cumprimento precisa durar. Quando se afastaram, Janaína manteve as mãos nos braços de Nalú por um instante, olhando para ela de cima a baixo.
— Você tá ótima.
Nalú sorriu.
— E então, como é que tá tudo?
As duas fizeram a pergunta ao mesmo tempo e caíram na risada. Uma risada fácil, íntima, que me deixou desconfortável e irritada.
Pigarreei e me aproximei.
— Com licença.
Passei entre as duas, obrigando-as a abrir espaço.
— Sou Alicia Sá Noronha, diretora da empresa com quem vocês têm contrato.
Janaína me olhou por um segundo antes de estender a mão.
— Muito prazer. Janaína Ferraz.
— O prazer é meu.
Apertei sua mão e soltei logo em seguida. Meu olhar voltou para Nalú.
Ela tinha parado de sorrir.
Havia uma pergunta na ponta da minha língua, mas não queria demonstrar o tamanho da minha curiosidade ali.
Fiquei onde estava, sustentando um sorriso educado.
Detestável.
Era a única palavra que me vinha à cabeça.
O piloto do ferry boat que tinha trazido Janaína era um homem magro, de boné surrado, apresentado como Rogério. Ele ficou por perto, ajudando a descarregar as caixas, enquanto Nalú se virava para o grupo e começava a organizar o trabalho do dia.
— Pedro, Tomás, vocês acompanham a Janaína nos registros de drone e na conferência dos sensores novos. Marina, Isabela, vocês vêm comigo.
Ela olhou rapidamente na minha direção.
— Alicia, você pode acompanhar o grupo que preferir.
— Vocês vão pra Ilha do Sino hoje? — Janaína perguntou, curiosa.
— Amanhã. Temos um barco reservado.
Rogério, que passava perto carregando uma caixa, parou.
— Acho que não vão, não.
— Como assim? — perguntei, antes de Nalú.
Ele apontou o queixo para o horizonte.
— A previsão mudou. Tem alerta de tempestade severa pra amanhã. Vento forte, mar virando e chance de temporal pesado. Ninguém vai arriscar entrar no mar amanhã, não.
— Isso é exagero. — Balancei a cabeça. — Previsão muda o tempo todo.
Nalú não respondeu, mas a expressão descontraída desapareceu, substituída por uma preocupação imediata.
Ela afastou-se alguns passos e tirou o celular do bolso.
Fiquei observando enquanto ela falava baixo com alguém. Cruzou os braços, depois os descruzou. Passou a mão pelos cabelos e olhou uma vez para o mar.
A ligação não durou muito.
Assim que desligou, fui até ela.
— E então?
Nalú guardou o celular.
— O piloto confirmou a informação do Rogério. Disse que ia mesmo me ligar avisando do cancelamento. Tem previsão de temporal amanhã, alerta laranja. Se piorar, pode subir para vermelho.
Ela respirou fundo antes de completar:
— Alicia, vamos ter que adiar a Ilha do Sino amanhã.
— De jeito nenhum.
Os olhos dela encontraram os meus.
— Alicia...
— Se não dá pra ir amanhã, a gente vai hoje, Nalú.
— Você não vai conseguir barco em cima da hora.
— Eu consigo o que eu quiser.
Um canto da boca dela se levantou e ela estreitou os olhos.
— Quer saber, Alicia? Boa sorte com isso então.
Retribuí com um sorriso enviesado.
Ela voltou para o grupo, e eu me afastei, puxando meu próprio celular do bolso.
Avistei Rogério e decidi tentar primeiro com ele.
— Já tenho compromisso pro dia todo — disse, sem sequer me olhar direito. — Não vou poder, dona Alicia.
Mais ao longe, Nalú percebeu a recusa dele e sorriu.
Estreitei os olhos na direção dela.
Ela me olhou por um instante, antes de voltar a atenção para os estudantes.
Aquilo só me deu mais vontade de conseguir.
Disquei o número de Patrícia.
— Patrícia, preciso de um favor urgente. — Falei depressa. — Preciso de um barco e de alguém de confiança para nos levar até a Ilha do Sino ainda esta manhã. Se eu não conseguir sair de Itamaré agora, o trabalho de campo vai atrasar, e isso compromete o cronograma inteiro do laudo.
— Deixa comigo, Alicia. — A voz dela, do outro lado, já soava ansiosa. — Tenho alguns contatos aqui. Vou ligar agora mesmo.
— Ótimo! — Desliguei e fiquei esperando.
O vento começava a soprar com mais força, levantando algumas mechas do meu cabelo.
Menos de cinco minutos depois, Patrícia retornou.
— Consegui. Barco e piloto confirmados. Saída em quarenta minutos do píer.
Desliguei sorrindo. Voltei na direção do grupo, já escolhendo as palavras para dizer a Nalú, mas ela nem olhou quando me aproximei. Só então percebi Marina.
Ela estava pálida, apoiada no ombro de Isabela, com uma das mãos pressionada contra o estômago.
— Marina?
Aproximei-me.
— Você está bem?
Ela levantou o rosto devagar.
— Acho que não. — A voz saiu fraca. — Tô meio enjoada.
Nalú percebeu e veio até nós.
Mesmo assim, antes que ela perguntasse qualquer coisa, não consegui segurar a notícia.
— Consegui o barco. Chega em quarenta minutos, Nalú.
Ela me lançou um olhar rápido e logo voltou a atenção para Marina.
— Você não está bem. Precisa descansar.
Nalú encostou o dorso dos dedos na testa dela e franziu a testa.
— Fica no hotel hoje.
Depois olhou para Isabela.
— Isabela, fica com ela. Se ela piorar, vocês vão ao médico e me avisem.
— Precisam de alguma coisa? — A voz de Janaína soou atrás de nós.
Ela se aproximou e parou ao lado de Nalú.
— Se você precisar de ajuda na Ilha do Sino, posso ir contigo. A gente remaneja o pessoal por aqui.
Janaína tocou de leve o antebraço de Nalú enquanto falava. Nalú olhou para a mão dela antes de levantar os olhos.
Meu estômago apertou.
— Não precisa — cortei, antes que Nalú respondesse. — Eu acompanho ela e você fica com os rapazes.
Nalú me encarou.
Janaína, por sua vez, tirou a mão do braço de Nalú devagar e me olhou com uma expressão que eu não soube interpretar.
Nalú foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Tudo bem. A gente só vai precisar passar no hotel pra pegar as bolsas e o material de coleta.
— A gente passa.
Já peguei o celular e comecei a digitar uma mensagem rápida para o gerente, pedindo um motorista com urgência.
No carro, me dei conta de que tinha acabado de encontrar um motivo para ficar sozinha com ela outra vez.
— Oi! Tudo bem, amor?
O rosto de Rafael apareceu na tela com aquele ângulo de sempre, meio de baixo pra cima, com a luz do escritório batendo direto na testa dele.
— Tudo. E com você?
— Comigo também. — Ele ajeitou a postura na cadeira, afastando alguns papéis da frente da câmera. — Olha, preciso te dar uma notícia.
Alguma coisa em mim torceu, por um segundo ridículo, para que fosse uma traição. Que ele tivesse alguma coisa para confessar, alguma coisa feia o suficiente para me deixar livre de qualquer sensação de culpa.
Seria tão mais fácil.
Quase justo.
— Pode falar.
— Não vou conseguir ir pra Itamaré. — Ele soltou o ar devagar. — A audiência do caso Bittencourt foi remarcada pra sexta, e ainda apareceu mais uma reunião, bem cedo na segunda. Vou ficar preso com estes papéis aqui o fim de semana inteiro.
— Tá tudo bem.
A sensação de alívio veio tão rápido.
— Você parece bem conformada pra quem tá com saudade — ele comentou, meio rindo.
— Não sou de fazer escândalo por compromisso de trabalho, Rafael. Você sabe bem disso.
Ele assentiu, aceitando a resposta sem questionar. E em um impulso de coragem, aproveitei a brecha.
— Aliás... Queria voltar em um assunto contigo.
— Qual?
— Lembra quando a gente falou em abrir o relacionamento de novo?
Ele levantou os olhos para a câmera.
— Lembro. Você tinha dito que não queria.
— Eu sei.
Passei o polegar pela lateral do celular, sem perceber.
— Mas pensei melhor.
O sorriso dele desapareceu.
— Tem algum homem aí, Alicia?
— Não.
— Algum cara te interessou?
— Não.
Tecnicamente, dessa vez eu não estava mentindo.
Ele se recostou na cadeira.
— Então eu não entendo.
— Não tem muito o que entender, Rafa. Eu pensei e acho que talvez seja bom pra gente.
— Bom pra gente? — A voz dele mudou, ficando mais baixa. — Você está falando sério?
— Estou.
Rafael ficou alguns segundos em silêncio.
— Alicia, da última vez que a gente abriu, você odiou.
— Não foi bem assim.
— Foi sim. Você odiou.
Desviei os olhos da tela.
— Mas mesmo assim funcionou por um tempo.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Você chama aquilo de funcionar?
— Chamo da gente ter descoberto algumas coisas.
— E pelo visto agora você quer descobrir de novo?
Silêncio.
Respirei fundo.
— A gente está noivo há dois anos, Rafael. A gente se vê uma vez por semana, quando consegue. Vive adiando conversa, adiando decisão... — Passei a mão pelo cabelo. — Talvez a gente precise de alguma coisa que tire a gente desse lugar.
— Pode ser isso ou talvez você só queira uma saída.
— Uma saída? — Perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— Pra não precisar decidir se quer casar comigo.
Senti uma leve irritação com o rumo que aquela conversa estava tomando.
— Não é isso.
— Então o que é?
Fiquei um instante sem responder.
— Talvez abrir o relacionamento ajude a gente a entender o que ainda existe aqui. — Toquei de leve a tela, como se pudesse diminuir a distância entre nós. — E, se não ajudar... talvez a gente precise admitir que dar um tempo seria melhor.
Ele baixou os olhos.
— Às vezes eu acho que você é viciada na adrenalina da conquista.
Franzi a testa.
— Como é?
— Você gosta da parte em que ainda não sabe se vai conseguir. Da novidade. Da tensão. — Ele deu de ombros. — Era assim antes, quando a gente abriu. Parecia um jogo entre a gente.
— E você nunca pareceu incomodado.
— Porque eu também estava jogando.
Sustentei o olhar dele através da tela.
— Então talvez eu só queira descobrir se ainda quero jogar.
— E se eu disser que não quero? Que não aceito? — O semblante dele se fechou.
— Me resta concordar.
Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.
— Tudo bem.
Esperei mais alguma coisa. Não veio.
— Tudo bem? — repeti.
— Podemos abrir.
A resposta deveria ter me aliviado.
Em vez disso, alguma coisa ficou estranhamente vazia dentro de mim.
— Certo.
— Certo.
Nenhum de nós soube o que fazer com o silêncio que veio.
Foi Rafael quem quebrou o momento incômodo.
— Só espero que você não descubra o que quer quando já for tarde demais.
Meu peito apertou, mas não deixei que ele percebesse. Mantive minha expressão neutra naquela tela de celular.
— Mudando de assunto... e como está o trabalho?
— Encaminhado. Estou bem positiva, pra falar a verdade.
— E a professora? A coordenadora?
— Nalú?
O nome parecia brincar na minha boca.
Rafael assentiu.
— Essa.
— Está indo muito bem. Hoje eles tiveram que alterar o cronograma e ficaram aqui no hotel pra levantar os dados.
— Toma cuidado com esses adiamentos, Alicia. — Rafael disse, com tom mais sério.
— Cuidado com o quê?
— Com essa professora.
— Por quê?
— Ela é daí, não é?
— É.
— Então deve conhecer metade das pessoas envolvidas. Talvez até tenha parente em Itamaré. — Ele apoiou o cotovelo na mesa. — Gente assim pode ter interesse pessoal no resultado e não tem a pressa de vocês pela solução.
Senti meu corpo ficar mais rígido.
— Ela é a responsável técnica e não posso interferir.
— Não estou dizendo que não seja, apenas estou pensando em quanto sua empresa está perdendo com tudo isso.
— Eu sei.
— E exatamente por isso você precisa tomar cuidado com quem está atrasando tudo ainda mais.
Mordi a parte interna da bochecha.
— Entendi.
— Você tem certeza que esta universidade foi a melhor escolha para o novo laudo?
A pergunta veio simples, mas mesmo assim me atingiu.
Eu não queria estar tendo aquela conversa.
— Rafa, vou desligar. Recebi uma mensagem e preciso resolver uma coisa aqui.
— Alicia...
— Depois a gente se fala, tá?
— Tá bem. Beijo.
Desliguei e fiquei alguns segundos olhando para a tela escura.
Meu pai foi o primeiro a aparecer nas notificações. Três mensagens seguidas. Cronograma. Alvará. Uma ligação que ele queria que eu fizesse para um conhecido no Ministério Público.
Apaguei a tela sem terminar de ler.
Joguei o celular sobre a cama e fiquei olhando para o teto.
A pressão vinha de todos os lados.
Meu pai cobrando prazo. O embargo parado. A história do peixe, que tinha virado um atrito entre mim e Nalú. O beijo, que eu não conseguia tirar da cabeça.
E a vontade.
Essa, principalmente.
Só aumentava toda vez que eu ficava sozinha com ela.
Fechei os olhos.
Abrir o relacionamento deixaria minha consciência tranquila com o Rafael se eu beijasse Nalú de novo.
Mas e com ela?
A pergunta ficou ali.
Voltei ao que Rafael tinha dito.
Ele estava sendo condescendente, controlador, do jeito dele de sempre. Mas não estava completamente errado sobre uma coisa. Eu precisava acompanhar o trabalho mais de perto.
Agora que a parte de marketing estava resolvida, eu podia dedicar atenção total ao andamento do laudo.
Por necessidade profissional.
Ou, pelo menos, foi isso que repeti para mim mesma antes de dormir.
***
No dia seguinte, encontrei Nalú e os estudantes no saguão, prontos para descer até o cais. Ela tinha trocado o jeans de sempre por um short cáqui e uma camiseta azul, justa o bastante para marcar seu corpo. O cabelo dela estava preso no alto e a bolsa com os equipamentos já no ombro.
Desci vestindo uma calça de linho creme e uma blusa de alças azul-petróleo. Me senti, pela primeira vez ali, como uma intrusa no meio deles.
— Bom dia — falei, me aproximando do grupo.
— Bom dia.
Nalú respondeu sem me olhar nos olhos, concentrada em conferir algo na bolsa de Pedro. O tom dela estava seco.
— Você ainda tá brava comigo — comentei, baixo, enquanto os estudantes entravam na van.
— Não estou brava. — Ela ajustou a alça no ombro. — Temos muito trabalho hoje.
— Você não tá nem olhando na minha cara.
Ela finalmente ergueu os olhos.
— Alicia, eu disse o que precisava dizer ontem. Você também. Não vamos dar importância demais a isso, tá bem?
Ela me encarou por um tempo e então desviou.
— Temos um laudo para terminar.
— E eu quero que terminem. Principalmente depois de vocês terem ficado aqui ontem. — As palavras saíram antes que eu pudesse escolher melhor.
— Não se preocupe. — Ela ajeitou a bolsa outra vez. — Logo este laudo estará finalizado.
Nalú entrou na van e sentou ao lado de Isabela e Marina. Fiquei por um segundo parada do lado de fora antes de entrar e me acomodar ao lado de Tomás.
O caminho até o cais foi em silêncio.
Um silêncio que ninguém tentou quebrar.
***
O cais já tinha movimento quando chegamos. Pescadores arrumavam redes, caixas iam e vinham, e uma van estava estacionada perto da rampa, com o logo de uma empresa de equipamentos náuticos pintado na lateral.
Uma mulher desceu do banco do carona assim que nos viu. Alta, cabelos escuros e cacheados, sorriso largo.
O sorriso se abriu ainda mais quando encontrou Nalú.
— Nalú!
— Jana.
O jeito como Nalú disse aquele nome me fez prestar atenção.
Janaína atravessou os poucos metros que as separavam e a abraçou. Nalú retribuiu sem hesitar, envolvendo-a pela cintura. O abraço demorou mais do que um cumprimento precisa durar. Quando se afastaram, Janaína manteve as mãos nos braços de Nalú por um instante, olhando para ela de cima a baixo.
— Você tá ótima.
Nalú sorriu.
— E então, como é que tá tudo?
As duas fizeram a pergunta ao mesmo tempo e caíram na risada. Uma risada fácil, íntima, que me deixou desconfortável e irritada.
Pigarreei e me aproximei.
— Com licença.
Passei entre as duas, obrigando-as a abrir espaço.
— Sou Alicia Sá Noronha, diretora da empresa com quem vocês têm contrato.
Janaína me olhou por um segundo antes de estender a mão.
— Muito prazer. Janaína Ferraz.
— O prazer é meu.
Apertei sua mão e soltei logo em seguida. Meu olhar voltou para Nalú.
Ela tinha parado de sorrir.
Havia uma pergunta na ponta da minha língua, mas não queria demonstrar o tamanho da minha curiosidade ali.
Fiquei onde estava, sustentando um sorriso educado.
Detestável.
Era a única palavra que me vinha à cabeça.
O piloto do ferry boat que tinha trazido Janaína era um homem magro, de boné surrado, apresentado como Rogério. Ele ficou por perto, ajudando a descarregar as caixas, enquanto Nalú se virava para o grupo e começava a organizar o trabalho do dia.
— Pedro, Tomás, vocês acompanham a Janaína nos registros de drone e na conferência dos sensores novos. Marina, Isabela, vocês vêm comigo.
Ela olhou rapidamente na minha direção.
— Alicia, você pode acompanhar o grupo que preferir.
— Vocês vão pra Ilha do Sino hoje? — Janaína perguntou, curiosa.
— Amanhã. Temos um barco reservado.
Rogério, que passava perto carregando uma caixa, parou.
— Acho que não vão, não.
— Como assim? — perguntei, antes de Nalú.
Ele apontou o queixo para o horizonte.
— A previsão mudou. Tem alerta de tempestade severa pra amanhã. Vento forte, mar virando e chance de temporal pesado. Ninguém vai arriscar entrar no mar amanhã, não.
— Isso é exagero. — Balancei a cabeça. — Previsão muda o tempo todo.
Nalú não respondeu, mas a expressão descontraída desapareceu, substituída por uma preocupação imediata.
Ela afastou-se alguns passos e tirou o celular do bolso.
Fiquei observando enquanto ela falava baixo com alguém. Cruzou os braços, depois os descruzou. Passou a mão pelos cabelos e olhou uma vez para o mar.
A ligação não durou muito.
Assim que desligou, fui até ela.
— E então?
Nalú guardou o celular.
— O piloto confirmou a informação do Rogério. Disse que ia mesmo me ligar avisando do cancelamento. Tem previsão de temporal amanhã, alerta laranja. Se piorar, pode subir para vermelho.
Ela respirou fundo antes de completar:
— Alicia, vamos ter que adiar a Ilha do Sino amanhã.
— De jeito nenhum.
Os olhos dela encontraram os meus.
— Alicia...
— Se não dá pra ir amanhã, a gente vai hoje, Nalú.
— Você não vai conseguir barco em cima da hora.
— Eu consigo o que eu quiser.
Um canto da boca dela se levantou e ela estreitou os olhos.
— Quer saber, Alicia? Boa sorte com isso então.
Retribuí com um sorriso enviesado.
Ela voltou para o grupo, e eu me afastei, puxando meu próprio celular do bolso.
Avistei Rogério e decidi tentar primeiro com ele.
— Já tenho compromisso pro dia todo — disse, sem sequer me olhar direito. — Não vou poder, dona Alicia.
Mais ao longe, Nalú percebeu a recusa dele e sorriu.
Estreitei os olhos na direção dela.
Ela me olhou por um instante, antes de voltar a atenção para os estudantes.
Aquilo só me deu mais vontade de conseguir.
Disquei o número de Patrícia.
— Patrícia, preciso de um favor urgente. — Falei depressa. — Preciso de um barco e de alguém de confiança para nos levar até a Ilha do Sino ainda esta manhã. Se eu não conseguir sair de Itamaré agora, o trabalho de campo vai atrasar, e isso compromete o cronograma inteiro do laudo.
— Deixa comigo, Alicia. — A voz dela, do outro lado, já soava ansiosa. — Tenho alguns contatos aqui. Vou ligar agora mesmo.
— Ótimo! — Desliguei e fiquei esperando.
O vento começava a soprar com mais força, levantando algumas mechas do meu cabelo.
Menos de cinco minutos depois, Patrícia retornou.
— Consegui. Barco e piloto confirmados. Saída em quarenta minutos do píer.
Desliguei sorrindo. Voltei na direção do grupo, já escolhendo as palavras para dizer a Nalú, mas ela nem olhou quando me aproximei. Só então percebi Marina.
Ela estava pálida, apoiada no ombro de Isabela, com uma das mãos pressionada contra o estômago.
— Marina?
Aproximei-me.
— Você está bem?
Ela levantou o rosto devagar.
— Acho que não. — A voz saiu fraca. — Tô meio enjoada.
Nalú percebeu e veio até nós.
Mesmo assim, antes que ela perguntasse qualquer coisa, não consegui segurar a notícia.
— Consegui o barco. Chega em quarenta minutos, Nalú.
Ela me lançou um olhar rápido e logo voltou a atenção para Marina.
— Você não está bem. Precisa descansar.
Nalú encostou o dorso dos dedos na testa dela e franziu a testa.
— Fica no hotel hoje.
Depois olhou para Isabela.
— Isabela, fica com ela. Se ela piorar, vocês vão ao médico e me avisem.
— Precisam de alguma coisa? — A voz de Janaína soou atrás de nós.
Ela se aproximou e parou ao lado de Nalú.
— Se você precisar de ajuda na Ilha do Sino, posso ir contigo. A gente remaneja o pessoal por aqui.
Janaína tocou de leve o antebraço de Nalú enquanto falava. Nalú olhou para a mão dela antes de levantar os olhos.
Meu estômago apertou.
— Não precisa — cortei, antes que Nalú respondesse. — Eu acompanho ela e você fica com os rapazes.
Nalú me encarou.
Janaína, por sua vez, tirou a mão do braço de Nalú devagar e me olhou com uma expressão que eu não soube interpretar.
Nalú foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Tudo bem. A gente só vai precisar passar no hotel pra pegar as bolsas e o material de coleta.
— A gente passa.
Já peguei o celular e comecei a digitar uma mensagem rápida para o gerente, pedindo um motorista com urgência.
No carro, me dei conta de que tinha acabado de encontrar um motivo para ficar sozinha com ela outra vez.
Fim do capítulo

Dessinha
15/10/2026 às 18:59