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Por Charlotte

A luz da manhã seguinte entrava de fininho pelas persianas do escritório, mas o barulho da porta se abrindo já anunciava que o dia não seria comum. Engfa entrou arrastando os pés, vestindo roupas um pouco amassadas e usando um par de óculos escuros que parecia tentar esconder o próprio juízo. Com o corpo mole e a postura completamente derrotada, ela despencou na cadeira da mesa principal e soltou um gemido abafado, nem de longe parecendo ser a mesma dona da personalidade que beirava a personificação da perfeição.
— Bom dia, Charlotte... — Murmurou ela com a voz incrivelmente arrastada e sofrida, enquanto apoiava a testa na superfície fria da madeira.
Era impossível conter o sorriso. Com o óculos escuro e aquele corpo completamente entregue à fadiga, era óbvio que a minha chefe estava sofrendo de uma ressaca monumental. Mas, pensando bem, como poderia ser diferente?
Minha mente viajou de imediato para o flashback da noite anterior. Não foi só o momento descontraído de conversa com Engfa que marcou a noite, mas também a interação caótica entre ela e suas primas.
Lá pelo final da festa, quando o clima já estava completamente solto. As quatro primas — Lingling, Lookmhee, Lena e Engfa — tinham puxado um jogo de perguntas e respostas ao redor da nossa mesa, onde a regra era simples e cruel: quem errasse a resposta, virava uma dose de bebida em menos de cinco segundos.
O que se seguiu desafiou todas as leis da probabilidade. Surpreendentemente, Engfa e Lena, as duas pessoas mais sensatas, sérias e improváveis daquele grupo, tinham sido simplesmente as que mais beberam na noite inteira. Até agora, eu tentava entender como aquilo aconteceu. Miu havia me cochichado para mim, com um sorriso conspiratório, que tinha absoluta certeza de que Lingling e Lookmhee estavam trapaceando descaradamente, embora nem ela nem eu tivéssemos conseguido identificar a falcatrua no meio daquela bagunça.
Apesar do caos etílico, fechar os olhos e lembrar daquela cena me fez soltar uma risada suave. Eu jamais havia vivido um momento tão leve, tão caótico e genuinamente divertido em toda a minha vida. Estar ali, compartilhando risadas ao lado daquelas mulheres, parecia pertencer a uma realidade leve que eu só conhecia em sonhos.
O final da noite, aliás, coroou o espetáculo. Como Engfa estava em condições completamente impróprias para segurar um volante, coube a mim a missão de dirigir o carro dela até em casa, garantindo que chegássemos inteiras. Lembrei-me, com um calor estranho no peito, de como Engfa ficava surpreendentemente boba e descontraída quando estava bêbada. Ela passou o caminho inteiro fazendo piadas sem sentido e, ao chegarmos, inventou mil e uma desculpas bobas para não sair do carro, até que eu finalmente usasse toda a minha paciência — e um bocado de charme — para convencê-la a entrar em casa e ir direto para a cama.
Embora eu tenha ficado insegura com a decisão que tomei, ainda assim conclui que não podia deixá-la sozinha naquele estado. Se alguma coisa acontecesse com ela, eu não conseguiria me perdoar, por isso, quando finalmente consegui arrastá-la para dentro, a missão de cuidar dela começou de verdade.
Apesar dos protestos dengosos e das frases desconexas que ela murmurava pelo caminho, consegui guiá-la até o quarto. Decidi que trocar a roupa dela inteira seria uma tarefa impossível, e realmente invasiva, que ultrapassaria todos os limites da nossa convivência, mas não podia deixá-la dormir sentindo-se desconfortável com os resquícios da festa. Então, com todo o cuidado do mundo, assim como no dia em que ela estava doente, peguei bacia com água, procurei por uma toalha e a deixei úmida… Passei suavemente por seus braços, pelo pescoço, pelo rosto… Aquela era uma tarefa única… Tentar aliviar o calor daquela ressaca antecipada.
Foi ali, no quarto iluminado apenas pela Luz fraca da luminária próxima a cama, que meus olhos se perderam nos traços do rosto de Engfa. Sem a armadura de seriedade e o controle implacável que ela exibia no escritório, sua expressão era de uma suavidade desarmante. A pele macia, os cílios longos repousados sobre as bochechas ainda coradas pelo álcool e a linha delicada dos lábios levemente grossos desenhavam uma beleza que me tirou o fôlego por um instante. Toquei com extrema leveza uma mecha de cabelo que teimava em cair em sua testa, sentindo o coração acelerar de um jeito que não tinha nada a ver com a correria da noite. Aliás, de um jeito que jamais conheci antes.
Aquilo me assustou, então rapidamente deixei de lado a toalha e a bacia com água, e depois de ajeitá-la confortavelmente sob os cobertores e garantir que ela repousava em paz, apaguei as luzes da casa e fechei a porta devagar, carregando comigo a certeza silenciosa de que cuidar daquela mulher feroz e vulnerável ao mesmo tempo havia se tornado um tormento.
Confesso que fiquei preocupada em deixá-la sozinha, mas também não quis ultrapassar os limites da nossa convivência. Embora aquele fosse um momento informal, eu não podia jamais esquecer que ela ainda era minha chefe. Também não podia esquecer de quem eu era. Ou melhor, do que eu fiz. Eu jamais podia arrastar Engfa para o caos que eu podia representar.
Balanço a cabeça ao olhar para a minha chefe ali na mesa, lutando contra o próprio cérebro. Pelo jeito eu não errei quando conclui, antes mesmo do meu horário de expediente, que a mulher mais implacável dos negócios precisaria de muito café para sobreviver àquela manhã.
– O que é isso? – Ela apontou para o copo de café sob sua mesa.
– Café! – Respondi com naturalidade.
Ela ergueu a sobrancelha em sinal claro de desafio.
– Jura? Se você não fala, eu não poderia imaginar. – Ela disse claramente com a intenção de implicar, mas por fim a dor de cabeça pareceu ser ainda mais forte, A vi respirar profundamente tentando recompor do seu repentino mal humor. – Eu estava me referindo a como isso veio parar em minha mesa.
– Eu trouxe, chefe! Café não saia andando por aí, ora essa. – Respondi como se fosse óbvio.
Não era bem a intenção, mas talvez a resposta tenha sido um pouco mais mal criada do que desejei. Notando sua expressão, logo tratei de explicar.
– Fui tomar café da manhã na confeitaria da Miu e da Lena. Miu disse que sua prima tinha acordado com ressaca, e logo deduzimos que você não seria diferente. Ela disse que você gostava de café assim, e bem… eu trouxe.
Engfa permaneceu em silêncio por alguns segundos, os óculos escuros ainda escondendo seus olhos, embora eu pudesse deduzir o olhar analítico e ligeiramente curioso que ela devia estar direcionando a mim por trás daquela lente escura. Ela respirou fundo mais uma vez, como se a própria tentativa de focar no mundo real exigisse um esforço hercúleo de sua parte.
— A Miu foi previsível, então. — Murmurou ela com a voz ainda rouca e arrastada, estendendo a mão trêmula para envolver os dedos ao redor do copo quente. Ela deu um pequeno gole, fechou os olhos por um instante e soltou um suspiro longo que parecia carregar o peso do universo. — Pelo menos alguém nesta família tem compaixão pela minha alma. Obrigada pelo o cuidado, Charlotte.
O tom dela, apesar de ainda carregar aquele resquício de mau humor matinal típico de alguém que cultivava uma ressaca braba, veio acompanhado de uma suavidade genuína que fez o meu peito se aquecer, o que rapidamente repreendi internamente.
Era impressionante como, mesmo com a pior ressaca do mundo e parecendo uma versão completamente desmoronada da empresária implacável de sempre, ela ainda conseguia ter momentos de uma sinceridade desconcertante.
— Não há de quê, Chefe. — Respondi, tentando manter a voz firme para disfarçar o quanto o batimento do coração. Afastei-me um passo da mesa, erguendo o iPad com a programação do dia. — Se preferir, posso adiar os compromissos mais pesados da parte da manhã para que você consiga se recompor. Há apenas alguns relatórios pendentes e...
— Não! — Engfa interrompeu-me de imediato, balançando a cabeça devagar, como se se arrependesse no mesmo segundo por causa da tontura. Ela tirou os óculos escuros, revelando os olhos levemente vermelhos e cansados, e fitou-me com uma determinação teimosa. — Nada de adiamentos. Tenho uma reputação a zelar e reuniões para tocar. Só... me dê dez minutos e mais um pouco desse milagre líquido que você chamou de café.
Assenti com um meio sorriso, incapaz de segurar a ponta de diversão que ameaçava escapar.
— Certo! Vou deixar você respirar em paz, Chefe.
Enquanto eu me virava para caminhar em direção à saída, fui chamada de volta.
– Engfa…
A olhei sem entender o que aquilo significava.
– Desculpe… O que disse, chefe?
– Engfa, Charlotte. Apenas Engfa!
– Mas…
– Nada de me contradizer, por favor. Me chame apenas de a Engfa. Não foi tão difícil ontem à noite, foi? – Assenti sem saber ao certo como iria conseguir fazer aquilo fingindo naturalidade. – A propósito, obrigada por ontem.
– Eu não deixaria você dirigir naquele estado.
– Não estou me referindo a isso. Quer dizer… Não só a isso. – Seu olhar penetrou o meu como se fosse possível ela ler minha alma. – Obrigada pelo o cuidado. Já é a segunda vez que você faz algo assim. Ninguém jamais fez algo parecido por mim antes.
Logo entendi que ela estava se referindo a toalha úmida que passei por ser corpo, e tenho certeza que corei violentamente. Considerando seu estado nada sóbrio, eu creditei que ela sequer sabia dizer o próprio nome, quanto mais que lembraria dos detalhes da noite anterior.
No mesmo instante seu celular tocou sob a mesa. Eu não quis parecer invasiva, mas meus olhos curiosos me traíram e não pude impedir de ver o nome que era revelado no visor. Quem seria Jinda?
Não fiquei ali para descobrir de quem se tratava. Deixei espaço para que minha chefe pudesse se sentir a vontade para atender a pessoa que insistia em ligar pela segunda vez.

Por Engfa

Definitivamente o som do meu celular vibrando sobre a mesa de madeira escura era irritante e quase me fez querer jogar o aparelho contra a parede. Com a cabeça latejando por conta da ressaca monumental da noite anterior, apertei os olhos e encarei a tela. O nome de Jinda brilhava ali, insistente. Se ela não tivesse ligado naquela manhã, teria sido mais um dia em que certamente eu tinha esquecido completamente da sua existência. Nas últimas semanas eu estava tão focada em manter minha concentração em Charlotte, não apenas em tentar descobrir se ela e minha prima estavam mesmo escondendo algo, mas também em ensiná-la o máximo possível sobre as atividades da empresa, que nem mesmo a irritação com Jinda teria sido capaz de me fazer lembrar da empresária com quem eu saia de vez em quando.
Soltei um suspiro pesado, ajeitei a postura na cadeira e toquei no botão para atender, empurrando o telefone contra o ouvido com uma frieza calculada.
— Oi, Jinda. — Eu disse, a voz seca, desprovida de qualquer traço de cordialidade ou educação.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha antes de Jinda suspirar, parecendo notar instantaneamente o meu tom cortante.
— Nossa, Engfa... Que mal humor! Aconteceu alguma coisa? Por que você está falando comigo desse jeito, tão distante? — questionou ela, com aquela ponta de falsa inocência que eu já conhecia bem demais.
Respondi no mesmo tom gélido, sem paciência para rodeios.
— Impressão sua! Não é nada de importante.
Jinda hesitou por um segundo, adotando uma postura defensiva.
— Você está chateada comigo? Olha, me desculpe por não ter atendido suas ligações anteriores, mas você sabe como tem sido o meu ritmo... O excesso de trabalho tem me consumido totalmente ultimamente. Mas tenho certeza que você é capaz de entender isso, afinal de contas, somos parecidas quando o assunto é trabalho.
Um sorriso irônico e amargo escapou dos meus lábios, inevitável. Balancei a cabeça sozinha no escritório vazio.
— Sério, Jinda? — Retruquei, deixando o sarcasmo pingar em cada palavra. — Em duas semanas inteiras, você não teve tempo de retornar minhas malditas ligações nem sequer uma única vez. Acho que nisso não somos parecidas.
Antes que ela pudesse inventar mais alguma desculpa esfarrapada, cortei-a seco, sem dar espaço para justificativas.
— Mas de qualquer maneira, isso não é grande coisa, tão pouco um problema. Afinal de contas, nós duas sabemos muito bem que não existe nenhum relacionamento sério entre a gente. — Despejei as palavras com uma franqueza cortante, sentindo um alívio estranho ao colocá-las para fora. — Eu estava ligando apenas porque precisava falar sobre o processo de licitação que pretendemos participar para assinarmos aquele novo contrato do projeto que te falei. Era só isso.
Do outro lado da linha, o tom de Jinda mudou na mesma hora, trocando a mansidão por uma irritação defensiva e debochada.
— Desde quando você se tornou tão carente, Engfa? Está cobrando atenção assim por quê? Você nunca foi disso.
Aquelas palavras bateram no meu peito como um fósforo aceso em um paiol. Um aborrecimento genuíno e feroz tomou conta de mim, fazendo meu sangue ferver e espantando qualquer vestígio de ressaca.
— Não se trata de carência, Jinda! — Esbravejei, perdendo o resquício de paciência que ainda me restava, a voz subindo de tom no escritório. — É uma questão básica de consideração profissional e respeito, coisas que aparentemente passaram longe do seu dicionário!
— Ah, por favor, não comece com esse seu drama de empresária perfeccionista. — Jinda rebateu, elevando a voz também.
Não esperei ela terminar a frase. Um nó de raiva travou minha garganta e, sem sequer pensar duas vezes, afastei o aparelho do ouvido e toquei no botão vermelho da tela, desligando a chamada na cara dela.
Joguei o celular sobre a mesa com força, sentindo o peito arfar enquanto o eco do meu próprio estresse preenchia a sala silenciosa. Fechei os olhos por um segundo, massageando as têmporas latejantes.

…

As horas seguintes se arrastaram como se o relógio tivesse decidido conspirar contra a minha sanidade. O tempo passou, demorado e cinzento, e o trabalho simplesmente não rendeu. Olhei fixamente para a mesma linha de um relatório financeiro por pelo menos vinte minutos, sem conseguir absorver uma única palavra.
Não era apenas a ressaca monumental que insistia em latejar na minha cabeça; a irritação deixada pela ligação com Jinda havia criado uma nuvem preta sobre o meu humor que já não estava dos melhores, tornando-me completamente improdutiva. E, claro, aquela apatia irritante não passou despercebida por Charlotte.
Minha assistente estava em pé perto da mesa, segurando uma pilha de pastas, me observando com aquela mistura de cautela e perspicácia que parecia ser a sua marca registrada, o que me deixava curiosa. Era como se Charlotte possuísse diversas camadas que aos poucos iam se revelando e me deixando ainda mais intrigada.
Ela respirou fundo, como quem reunia coragem para lidar com um animal selvagem em dia de fúria, e soltou:
— Sabe... Talvez fosse bom para você dar uma pausa e ir lá fora ver como está a colheita de hoje. — Sugeriu Charlotte, com a voz suave, apontando discretamente para os papéis espalhados. — Claramente esses documentos não vão render qualquer resultado enquanto você continuar com essa cara.
Ergui a sobrancelha e a encarei disposta a confrontá-la, não com brutalidade ou coisa assim, mas para ver até onde ia sua capacidade de falar o que pensava. Era realmente interessante descobrir um pouco mais da personalidade da mulher que contratei como minha assistente. Ela claramente não se resumia na timidez exagerada que a dominava na maior parte do tempo.
– Me perdoe pela sinceridade, mas você está azeda. É melhor respirar um pouco de ar puro. – Charlotte disse com sinceridade.
Pela primeira vez naquele dia, quis sorrir. Era curioso vê-la se permitir falar o que pensava sem se preocupar com isso. Mas por fim cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha para ela, prestes a rebater com alguma resposta “azeda”. Mas, antes que eu pudesse abrir a boca, parei para pensar na proposta. Olhei pela janela do escritório, onde o sol começava a suavizar a tarde, banhando os campos da fazenda com uma luz dourada e lembrei do que vovô dizia quando eu era criança: “Não há nada melhor do que mexer com a terra, afastar-se da papelada e espairecer para exorcizar o mau humor que nos consume.”
Olhando por aquela perspectiva, ela tinha razão. A ideia de pisar na grama e sentir o cheiro da terra molhada talvez fosse exatamente o remédio que eu precisava.
Dei um suspiro derrotado, um meio sorriso involuntário escapando dos meus lábios ao reconhecer a sensatez da mulher a minha frente.
— Parece que você aprendeu algo com o papai. – Murmurei. – Ok, você venceu. A colheita parece infinitamente mais atraente do que essa pilha de relatórios. — Admiti, levantando-me da cadeira e ajeitando a camisa.
Antes que Charlotte desse meio passo para trás para me dar espaço, apontei o indicador para ela, já ditando as minhas regras:
— Mas quer saber de uma coisa? Você vai comigo.
– Eu? Mas eu tenho trabalho a fazer.
– E daí? Eu também tenho e eles vão estar exatamente no mesmo lugar quando voltarmos. Além disso, não vou caminhar sozinha por aqueles campos tendo que aturar os meus próprios pensamentos. Vamos lá!
Deixar a papelada para trás e caminhar em direção aos campos de arroz foi a melhor decisão que tomei no dia. A terra batida sob os sapatos e o cheiro fresco da vegetação pareciam lavar a minha mente, apagando aos poucos o ranço daquela ligação irritante com Jinda. Ao meu lado, Charlotte caminhava de forma um pouco hesitante, mas a determinação em seus olhos era evidente.
Quando chegamos à área de cultivo onde os trabalhadores operavam, arregacei as mangas da camisa e abaixei-me para tocar a terra, sentindo a textura úmida e familiar entre os dedos. Olhei para Charlotte, que me observava com atenção, e decidi que era hora de trazê-la para o meu mundo real.
— Quando eu vim aqui pela primeira vez, eu era apenas uma garotinha assustada tentando alcançar as ferramentas do meu avô — Comecei, abrindo um sorriso nostálgico enquanto pegava um punhado de grãos para inspecionar. — Ele me ensinou tudo o que sei sobre esta terra. Sabe qual era a primeira lição dele? Que o arroz não aceita pressa; ele exige respeito. Deixe-me te mostrar como ele fazia.
Aproximei-me de Charlotte, e a olhei nos olhos…
– Com licença? – Pedi e segurei em suas mãos.
Guiei suas mãos com cuidado para a posição correta, exatamente como meu avô fizera comigo décadas atrás. A princípio, ela ficou tensa com nossa proximidade, mas logo relaxou, prestando atenção em cada movimento.
O que começou como uma simples instrução técnica rapidamente se transformou em uma sessão de bagunça. Entre risadas abafadas, grãos escapando e a poeira da colheita voando para todos os lados, nós nos entregamos àquele momento de leveza. Minutos depois, olhei para as minhas mãos e para a barra da calça, percebendo que estávamos completamente sujas de terra. Olhei para Charlotte e soltei uma gargalhada ao ver que ela trazia um borrão de lama na bochecha e os cabelos desalinhados pelo vento.
— Sabe, enquanto a gente está aqui sujando as mãos e fingindo que entende de agricultura, fiquei pensando... — Comecei, erguendo os olhos para encará-la com um meio sorriso amigável. — Sempre falamos muito sobre mim, mas você nunca fala muito sobre o seu passado, Charlotte. Eu gostei muito da conversa que tivemos ontem, e acho que gostaria de que isso se repetisse por mais vezes. Me conte… Como era a sua infância? Aposto que você era daquelas crianças quietas que passavam o dia inteiro lendo embaixo de alguma árvore.
Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi o exato momento em que o corpo de Charlotte travou. A leveza que iluminava o seu rosto segundos antes evaporou num piscar de olhos. Os ombros encolheram-se, seus dedos pararam de mexer na terra e o olhar dela desviou-se abruptamente para o horizonte, como se o chão sob seus pés tivesse de repente se tornado perigoso.
O peso daquela reação me atingiu na mesma hora. Claramente eu havia pisado em um terreno minado.
Por um instante, considerei recuar, mudar de assunto e fingir que nada tinha acontecido. Mas ver a vulnerabilidade estampada naqueles olhos marejados de repente ativou um instinto protetor feroz dentro de mim. Eu não queria ser uma figura intimidadora na vida dela.
Lentamente, limpei as mãos sujas no tecido da calça, me aproximei um pouco mais e estendi o braço, tocando de leve o dorso da mão dela com toda a cautela do mundo, garantindo que ela pudesse se afastar se quisesse.
— Ei... Desculpe se fui invasiva. — Falei, reduzindo o tom de voz para algo suave e seguro. Sustentei olhos dela, buscando transmitir toda a abertura e a confiança que eu raramente dava ao luxo de oferecer a alguém. — Você não precisa falar sobre nada que a deixe desconfortável, Charlotte. Mas saiba que, aqui comigo, você pode falar sobre qualquer coisa. Não há julgamentos.
Charlotte permaneceu em absoluto silêncio por longos segundos, respirando fundo enquanto processava minhas palavras. Vi a barreira de proteção que ela sempre parecia disposta a ativar vacilar, rachando aos pouquinhos diante da promessa de segurança que eu tentava lhe dar.
Quando ela finalmente voltou a me olhar, havia uma vulnerabilidade crua ali que quase me tirou o fôlego. Os lábios dela tremeram levemente antes de ela abrir a boca, soltando a frase num sussurro quase imperceptível:
— Eu não tive uma infância em uma casa comum, Engfa... Eu cresci em um orfanato.
A palavra "orfanato" ecoou baixinho entre nós, pairando sobre o campo de arroz como se o vento tivesse de repente perdido a força.
Fiquei estática por um segundo, não porque eu não sabia daquele detalhe da sua história, mas porque olhei para o rosto de Charlotte, para a forma como ela comprimia os lábios e tentava manter a postura firme, como se esperasse que a qualquer momento, eu mudasse de expressão, recuasse ou olhasse para ela com julgamento ou pena. Mas tudo o que senti foi uma onda avassaladora de empatia e um aperto doloroso bem no centro do meu peito por ela achar que tudo o que alguém podia sentir por ela, era pena.
De repente um pensamento estralou… A imagem daquela mulher tão reservada, forte e, ao mesmo tempo, dona de uma fragilidade tão bonita, encaixou-se em todas as suas atitudes silenciosas e cautelosas. Talvez eu tenha julgado errado quando imaginei que existia uma necessidade de Lookmhee protegê-la. Por toda sua vida ela havia aprendido a se proteger sozinha muito antes de cruzar o caminho da minha família.
Lentamente, soltei o fôlego que nem tinha percebido estar prendendo e dei mais um passo à frente, fechando o espaço que nos separava. Estendi a mão e, com o polegar, limpei com todo o cuidado o restinho de terra que ainda sujava a bochecha dela, fazendo o gesto mais gentil e desarmado que eu já havia tido com alguém em anos.
— Você não precisa me dar detalhes sobre sua vida se não quiser, Charlotte. — Sussurrei, mantendo meus olhos fixos nos dela, garantindo que ela visse a sinceridade absoluta no meu olhar. — Mas quero que saiba que a sua história, seja ela qual for, não muda absolutamente nada sobre quem você é de verdade. E quem você é... é alguém extraordinária.
– Você não precisa sentir pena de mim.
– E quem disse que estou sentindo pena de você? Pensei que você já me conhecesse pelo menos um pouco e soubesse que eu não sou de sentir pena de ninguém. Além disso, eu já sabia sobre o orfanato, mas não acho que isso seja algo digno de pena. Quando mencionei sua infância, é porque acredito que se você chegou até aqui, é porque tem muito a contar sobre suas próprias conquistas. Deve ser uma história fascinante, Charlotte. E se um dia você estiver disposta a me contar, eu estou aqui para ouvir.
Charlotte piscou várias vezes, como se minhas palavras a tivesse pego de surpresa. Mas, pela primeira vez desde que a conheci, o sorriso que ela abriu em resposta não foi tímido ou acuado. Foi um sorriso pequeno, genuíno e profundamente aliviado.
— Obrigada, Engfa. — Ela murmurou, a voz embargada, mas firme.
Ela parou por um segundo, limpando a testa com o dorso da mão suja — o que só espalhou mais poeira —, e me encarou com um brilho de pura diversão nos olhos.
— Sabe de uma coisa, Engfa? — Disse Charlotte, com um sorriso largo e genuíno iluminando o rosto. — Você deveria vir para cá participar do processo de produção com mais frequência. Vendo você agora, fica óbvio que isso te faz muito mais feliz do que ficar trancada atrás daquela mesa de escritório.
A frase caiu entre nós com uma leveza desconcertante. Inclinei a cabeça, arqueando uma sobrancelha, meio surpresa com a ousadia, mas incapaz de me ofender.
— Foi isso que meu pai disse a você? — Perguntei, desconfiada, imaginando se meu pai andava fazendo fofoca sobre o meu estilo de vida. Aquilo seria bem a cara dele.
Charlotte balançou a cabeça negativamente, limpando as mãos no avental improvisado, o sorriso suavizando-se em algo muito mais sincero.
— Não! Não foi o seu pai. Foi o que eu reparei em você, Engfa. Eu acho que prefiro essa sua versão.
– Uma versão menos chata? – Arrisquei tentando sondá-la.
Naturalmente ela respondeu:
– Uma versão de si mais leve e feliz.
Aquelas palavras bateram em mim de um jeito estranho, ecoando no meu peito com uma força desproporcional. Senti o coração falhar uma batida e um calor repentino subir pelo meu pescoço, misturando-se à poeira da tarde. Era apenas uma constatação simples sobre a minha felicidade, mas a forma como Charlotte disse aquilo, com tanta atenção, com um olhar que parecia enxergar através de todas as minhas camadas, que mexeu comigo de um jeito profundo e inesperado. Eu não estava acostumada que alguém me notasse de uma maneira que fosse além da minha beleza, ou do meu sobrenome. Tão pouco estava acostumada que alguém se importasse.
Fiquei em silêncio por alguns instantes, olhando para ela, sem conseguir compreender exatamente o motivo de tamanha turbulência dentro de mim, mas certa que talvez eu não devesse apenas desconfiar de Charlotte ou do que a levou até ali. Eu deveria dar uma chance verdadeira a ela, me aproximar e conhecê-la além das suas camadas.

Pouco tempo mais tarde

A conversa que tivemos na plantação havia deixado o ar entre nós mais leve, quase palpável. Pela primeira vez Charlotte e eu estávamos tendo um momento que não limitava-se as formalidades do trabalho, ou incertezas do que a tinha levado até o vilarejo. Ao lado dela, consegui me divertir, me sentir mais leve, e até mesmo conversar naturalmente sem gerar expectativas ou desconfianças. Naquele pequeno momento em que me permiti conhecê-la um pouco mais, entendi porque Lookmhee se apegou tão facilmente a ela. Charlotte não era apenas uma mulher de bom coração, mas ela também era doce, inteligente, e muito carismática quando se permitia.
Assim que empurrei a porta do meu escritório, segurando na mão de Charlotte para ajudá-lá, já que ela estava escorregando devido os pés sujos de lama, fomos recebidas por um cenário que não podia parecer pior.
Lookmhee estava folgadamente sentada na minha cadeira mastigando algum lanche, enquanto Lingling exibia toda a sua audácia ao apoiar os pés relaxadamente bem em cima da minha mesa de mogno. As duas riam de alguma piada interna, mas o som cortou secou no mesmo segundo em que nos viram na entrada.
Os olhos de Mhee arregalaram-se de tal forma que ela travou de boca aberta, o lanche quase caindo da sua mão. Lingling congelou com os pés no ar, boquiaberta, alternando o olhar entre mim e Charlotte como se vissem fantasmas. E, para ser honesta, eu entendia o choque. Ali estavam elas, encarando a empresária sempre metódica, com a aparência impecável, sempre bem vestida e com roupa passada, e que jamais descia do salto, mas que agora estava com a roupa completamente coberta de terra, segurando os sapatos igualmente sujos, ao lado da sua assistente, que exibia exatamente o mesmo aspecto caótico. E pior, de mãos dadas.
Senti o sangue subir pelas minhas bochechas, o calor da vergonha misturando-se à irritação por ter sido flagrada naquele estado. Como eu explicaria aquela situação para aquelas duas? Elas claramente estavam choque, mas iriam querer explicações.
Antes que a situação pudesse virar motivo de chacota eterna, acionei o meu instinto de sobrevivência e tomei o controle da situação, erguendo a voz com toda a pose que restava.
— Lookmhee! O que significa isso? Saia imediatamente da minha cadeira! — Esbravejei, apontando o dedo para a minha prima antes de desviar o olhar furioso para a outra ponta da mesa. — E você, Lingling, tire esses pés imundos da minha mesa agora mesmo! O que diabos vocês duas pensam que estão fazendo invadindo a minha sala?
Mhee, completamente atordoada pela visão inusitada, piscou várias vezes, parecendo pela primeira vez na vida incapaz de formular uma frase coerente de imediato. Lingling, no entanto, engoliu em seco, retirou os pés da mesa num salto rápido e tentou disfarçar o próprio instinto. Ela não falaria nada na frente de Charlotte.
— P’Fa, amor da nossa vida todinha. Nós viemos convidar você para irmos à confeitaria encontrar com a Lena e a Miu. — Balbuciou Lingling, dando um sorriso amarelo mantendo o olhar para nossas mãos que continuavam unidas. – Olá, Charlotte. Tudo bem? – Lingling sorriu.
Segui o olhar da outra e tenho certeza que corei ainda mais. Rapidamente Charlotte e eu desfizemos o contato físico.
– Olá, meninas. Tudo bem! E-eu… eu preciso ir para casa tomar um banho. Com licença! – A assistente disse saindo praticamente correndo dali.
Mas que traíra. Como pode me deixar sozinha nesse campo minado? Pensei comigo mesma.
Eu quis gritar para que Charlotte não me deixar a sós com aquelas duas malucas. Não naquele momento. Mas já era tarde demais. Charlotte simplesmente sumiu das minhas vistas.
Os olhos espertos de Lingling correram rapidamente para a porta por onde Charlotte sumiu, e em seguida para mim, analisando-me sem nenhum constrangimento. Sua curiosidade era feroz.
— Onde vocês estavam? – Ling perguntou em um tom zombeteiro.
– E por que as duas estão nesse estado? — Mhee deu sequência ao interrogatório arqueando uma sobrancelha com um brilho malicioso no olhar.
Que situação constrangedora… Pensei comigo mesma.
Pigarreie e respondi com naturalidade:
— Estávamos no campo de colheita. Eu aproveitei para ensiná-la sobre o processo.
A resposta fez com que Lingling e Lookmhee trocassem olhares altamente cúmplices, daqueles que eu sabia que carregavam teorias maldosas e cheias de segundas intenções. Mhee, recuperando a fala e me fazendo preferir quando ela se mantém em silêncio, balançou a cabeça e abriu um sorriso intrigado.
— Puxa vida... Isso é bem curioso. — Comentou Mhee, estreitando os olhos na minha direção. — Desde quando a Engfa que conhecemos tem paciência para ensinar alguém a colher arroz? Você nunca quis ensinar isso para mais ninguém na vida. Aliás, você não tem paciência para ensinar nada.
Senti o meu rosto queimar ainda mais, e fechei a cara, cruzando os braços sujos de terra, sem saber se matava minhas primas ou se enterrava a cabeça em um buraco bem fundo.
– Eu não preciso dar explicações para vocês duas. – Respondi firme. – Eu vou para casa. Preciso de um banho.
– Nós vamos com você. – As duas disseram no mesmo instante.
– De jeito nenhum! – Respondi, cruzando os braços e tentando manter o pouco de autoridade que ainda me restava, embora estivesse coberta de lama da cabeça aos pés.
Mas eu conhecia bem as pestes que eu tinha como prima. como eu sabia que não me dariam ouvidos, preparei meu psicológico sabendo que aquela conversa ainda renderia.
Lookmhee e Lingling trocaram um sorriso cúmplice que era a definição exata de problema, e antes que eu pudesse dar mais um passo em direção à saída, as duas já estavam me cercando, prontas para transformar o meu trajeto até em casa em um verdadeiro interrogatório.
Respirei fundo, aceitando o meu destino. Pelo menos, com a mente mais leve após a conversa com Charlotte na plantação, eu sabia que aguentar a tagarelice delas seria apenas um pequeno preço a pagar.

Fim do capítulo

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