Por Engfa
Se eu tinha aceitado o convite para ir a confeitaria com Lingling e Lookmhee? Não! Se isso tinha significado alguma coisa para elas? Lógico que não! Minhas primas não costumavam saber o significado de um convite recusado. Especialmente quando isso despertava nelas algum interesse próprio.
Sem nenhuma opção viável, afinal, tentar expulsar Lookmhee e Lingling da minha própria casa exigiria uma quantidade de energia que minha ressaca e meu cérebro esgotado simplesmente não podiam fornecer, joguei a toalha, tomei um banho rápido para me livrar de toda a lama e troquei de roupa.
Quando cheguei à sala de estar, o cenário era exatamente o que eu temia. Elas não só haviam se instalado confortavelmente, como também tinham arrastado Lena para o meio daquela emboscada particular. Minhas primas estavam espalhadas pelo sofá, comendo dos meus petiscos e bebendo do meu vinho como se fossem donas da casa enquanto me esperavam com os olhos brilhando de pura expectativa.
Tentei manter a minha postura mais séria, cruzando os braços e erguendo o queixo com toda a imponência que consegui reunir para tentar salvar minha reputação.
— Se vocês acham que minha casa virou salão de festas só porque voltei mais cedo do trabalho, estão muito enganadas. — Comecei, com a voz firme. — Tratem de se comportar.
Minha tentativa de impor ordem falhou miseravelmente. Lena, Lingling e Lookmhee sequer piscaram diante do meu tom severo; pelo contrário, pareciam ainda mais animadas, ansiosas por cada detalhe da cena que as duas fofoqueiras haviam presenciado mais cedo no escritório.
— Ah, P’Fa, poupe-nos desse seu discursinho de patroa durona — Lookmhee cortou logo, dando uma risada debochada. — Nós sabemos muito bem que você não está em condições de dar ordem em ninguém depois do showzinho que presenciamos pouco tempo atrás.
— Exato! — Lingling concordou de imediato, inclinando-se para a frente e olhando diretamente para Lena com um sorriso conspiratório. — Você precisa ver, Lena! Não é exagero nenhum da nossa parte. Quando chegaram no escritório, a P’Fa estava simplesmente de mãos dadas com a Charlotte! De mãos dadas, você acredita?
Lena, que até então observava a discussão com uma expressão calma e contida, arregalou os olhos em genuína surpresa, virando-se rapidamente para mim.
— Espera... De mãos dadas? A Engfa? — Lena repetiu, como se processasse uma informação vinda de outra dimensão.
Senti o sangue correr para o meu rosto, e uma ponta de desespero ameaçou me dominar. Céus, por que minhas primas tinham que prestar tanto a atenção em cada detalhe idiota?
— Vocês estão criando teorias onde não existe absolutamente nada! — Rebati, franzindo a testa e tentando soar o mais indiferente possível, embora minhas bochechas estivessem traindo minhas palavras. — Nós estávamos voltando da colheita e assim como eu, ela estava com os sapatos sujos e escorregando na lama. Por isso ficamos descalças e nos apoiamos uma na outra. Qual o problema disso afinal?
– O QUÊ? Você literalmente desceu do salto? – Lena espantou-se ainda mais.
– Ela desceu! – Ling e Mhee responderam juntas me fazendo revirar os olhos.
– Salto alto não combina com terra. Qual o problema de vocês? Eu apenas a ajudei para que ela não caísse e quebrasse o pescoço. Só isso. É estranho, mas Charlotte demonstra uma habilidade impressionante para se acidentar fácil, eu só estava exercendo o mínimo de responsabilidade profissional.
A justificativa saiu rápida demais, o que obviamente só piorou as coisas. Lingling soltou um som de descrença, estreitando os olhos.
Foi então que Lena arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços com um sorriso analítico e perspicaz nos lábios.
— Ah, entendi... Então agora você virou voluntária de resgate e professora particular de agricultura? — Provocou Lena, inclinando a cabeça. — Me diga uma coisa, Engfa: desde quando você gosta de perder o seu precioso tempo ensinando funcionários sobre as atividades e os processos da empresa?
Fiquei completamente estática.
As palavras travaram na minha garganta. Abri a boca para tentar formular uma resposta à altura, mas percebi, com um frio na espinha, que eu simplesmente não tinha o que dizer. Todo mundo naquela sala — inclusive eu mesma — sabia muito bem que a minha paciência para didática e treinamentos corporativos era rigorosamente igual a zero, mas isso foi ignorado com Charlotte desde sua chegada.
Diante do meu silêncio repentino e da minha total falta de argumentos, as três abriram sorrisos idênticos, triunfantes e absolutamente insuportáveis.
No outro dia
Na manhã seguinte, antes mesmo de seguir a rota da minha rotina e pisar no escritório, uma ideia inesperada e um tanto quanto insana surgiu em minha cabeça. Muito disso tinha a ver com a necessidade urgente de atender ao pensamento persistente de que eu precisava fazer algo minimamente gentil, nem que fosse para compensar o constrangimento que fiz Charlotte passar no dia anterior.
Assim que empurrei a porta de vidro da confeitaria, o sininho soou suavemente, quebrando o silêncio matinal. Miu, que organizava o balcão principal, ergueu os olhos e travou no lugar. A mulher que agora eu tinha oficialmente como cunhada, me encarou por alguns segundos, claramente achando estranha a minha aparição em um horário em que eu deveria estar dando início ao trabalho do dia.
O estranhamento de Miu dobrou de tamanho quando percebeu a minha postura um tanto quanto... Ansiosa, talvez? Engoli em seco e desviei o olhar, sentindo uma timidez completamente atípica tomar conta de mim.
— Bom dia, Miu. — Murmurei, pigarreando levemente para disfarçar o nervosismo. — Eu... bem, gostaria das suas melhores opções para um café da manhã.
Por que eu estava agindo como se estivesse fazendo algo errado? Pensando nisso tentei agir o mais natural possível.
Miu piscou algumas vezes, processando a frase, mas, ao contrário das minhas primas, sendo a pessoa sensata que era, ela decidiu não fazer daquilo um grande acontecimento, tão pouco um interrogatório imediato. Com um sorriso cordial, ela foi até a vitrine e começou a separar alguns bolos frescos e croissants quentinhos que ela sabia perfeitamente que eram os meus favoritos.
No entanto, enquanto ela organizava os itens, percebeu que eu continuava parada ali, encarando os produtos com uma expressão de profunda indecisão, parecendo incerta se realmente aquelas seriam boas opções para o que eu tinha em mente.
Miu parou com uma pinça de metal na mão e me lançou um olhar curioso.
— Aconteceu alguma coisa, Engfa? Tem algum problema com os alimentos?
— Não, nenhum! — Respondi rápido demais, quase atropelando as palavras, sentindo as bochechas esquentarem.
— Então por que você está encarando os croissants parecendo que vai desenterrar um segredo de estado? — Questionou Miu, arqueando uma sobrancelha com diversão contida.
— Não é nada... — Resmunguei, desviando os olhos para a ponta do meu sapato. E, com uma ponta de timidez que eu nem sabia que era capaz de sentir, completei em um tom mais baixo: — Você pode... embalar tudo para viagem, por favor?
Miu paralisou. O olhar que ela me lançou foi de puro choque.
Todo mundo a minha volta sabia que a pragmática Engfa Waraha odiava embalagens de viagem para si mesma; se eu saísse para comer, sempre comia ali mesmo, no balcão ou nas mesinhas aconchegantes da confeitaria. Pedir comida para viagem era algo tão fora do meu padrão que para Miu devia parecer um evento histórico.
Embora estivesse visivelmente curiosa e morrendo de vontade de arrancar de mim o motivo daquela excentricidade matinal, Miu manteve a compostura. Ela não disse absolutamente nada; apenas assentiu lentamente, um sorriso enigmático surgindo no canto dos lábios, e preparou tudo com cuidado, colocando os itens em embalagens separadas e elegantes.
Peguei os pacotes rapidamente assim que ela terminou, deixando o dinheiro exato sobre o balcão com uma pressa que beirava o desespero.
— Obrigada, Miu. Tenho que ir agora!
Me despedi, virando os calcanhares e quase correndo para fora da confeitaria, sentindo o rosto completamente vermelho de vergonha, rezando para que ela não decidisse comentar aquilo com a Lena.
Por narrador
A manhã mal havia começado quando o som de batidas firmes na porta da frente tirou Charlotte de sua rotina matinal. Franzindo a testa, ela caminhou até a entrada, sem imaginar quem ousaria visitá-la a uma hora daquelas. Ao girar a maçaneta e abrir a porta, o ar faltou em seus pulmões.
Ali estava sua chefe. Sem a pose impecável de sempre, usando roupas casuais e carregando nas mãos elegantes embalagens de comida vindas diretamente da confeitaria de Miu.
— Engfa? O... O que você está fazendo aqui a essa hora da manhã? — Perguntou Charlotte, os olhos arregalados de pura perplexidade, piscando repetidas vezes para ter certeza de que não estava sonhando.
Com um sorriso determinado e um brilho animado nos olhos que pouquíssimas pessoas no mundo tinham o privilégio de presenciar, Engfa a encarou com entusiasmo que deixaria suas primas em choque se presenciasse.
— Vim garantir que você comece o dia direito. Hoje nós vamos tomar café da manhã juntas! — Anunciou ela, com uma segurança desconcertante. – Eu não quero ser acusada que estou sugando toda suas energias com trabalho.
E, antes mesmo de receber qualquer tipo de convite para entrar, a empresária simplesmente deu um passo à frente, cruzando o batente e invadindo o espaço de Charlotte. A assistente permaneceu paralisada antes de finalmente lembrar de fechar a porta.
Charlotte estava completamente atordoada com aquela aparição surpresa, sentindo o cérebro dar voltas enquanto tentava processar a cena. Vestindo apenas roupas confortáveis de casa e ainda absorvendo o choque, Charlotte olhou para si mesma, sentindo o rosto corar, e rapidamente pediu licença para ir trocar de roupa.
No segundo em que Charlotte se virou para caminhar em direção ao quarto, o olhar de Engfa inevitavelmente deslizou por seu corpo. Uma pontada quente e completamente diferente de tudo o que estava acostumada a sentir ecoou em seu peito, fazendo-a prender a respiração por um segundo. Percebendo o rumo dos próprios pensamentos, Engfa balançou a cabeça em sinal de repreensão interna e rapidamente desviou a visão, limpando a garganta.
Assim que Charlotte desapareceu corredor adentro, Engfa assumiu o controle da situação à sua maneira. Determinada a fazer aquilo dar certo, ela caminhou até a pequena cozinha, espalhou os pacotes sobre a mesa e empenhou-se com total dedicação na tarefa de organizar o café da manhã que pretendia degustar ao lado de sua assistente.
Poucos minutos depois, Charlotte retornou à sala. Vestindo roupas simples, mas com o cabelo levemente úmido e o semblante ainda tomado por uma confusão adorável. Ela parou a poucos passos da mesa. O cheiro dos croissants e dos bolos frescos preenchia o ambiente, mas a presença de Engfa ali era o verdadeiro enigma.
Cruzando os braços levemente, Charlotte fitou a chefe com uma franqueza que raramente demonstrava, sendo direta e objetiva do jeito exato que costumava chamar a atenção de Engfa.
— Tenho que confessar que estou bastante surpresa com a sua presença aqui, Engfa. — Disse Charlotte, a voz firme, embora os olhos denunciassem a hesitação. — Sem avisar, aparecendo na minha porta com café da manhã... Isso não me parece o tipo de coisa que você faz com frequência, tão pouco com qualquer pessoa. Por que você está aqui, afinal?
Charlotte achou ainda mais estranho quando seu questionamento não pareceu abalar a confiança da sua chefe, pelo contrário, a confiança da empresária era algo que fazia com que ela não soubesse lidar com a situação embaraçosa.
Engfa, que terminava de ajeitar uma xícara sobre a mesa, parou o movimento por um segundo. Ergueu o olhar para encará-la, decidida a não se esconder por trás de subterfúgios ou desculpas. Mantendo a mesma postura direta, ela deu um passo à frente e respondeu:
— Eu estive pensando… Depois de ontem… quero dizer, depois do momento que compartilhamos juntas na colheita, eu percebi que podemos ser amigas. Você é uma pessoa que quero conhecer melhor, Charlotte. — Engfa disse sem pestanejar, com uma sinceridade crua que fez o ar ao redor parecer menos denso e fez a assistente perder toda sua armadura. — Eu realmente quero conhecer você do mesmo jeito que a minha prima Mhee parece conhecer.
As palavras caíram no espaço entre elas com um peso silencioso, deixando claro que a barreira invisível entre a chefe e a assistente acabara de ruir de vez.
Charlotte permaneceu imóvel por um instante, como se estivesse processando cada sílaba que acabara de ouvir. Seus olhos se arregalaram levemente e a boca entreabriu-se em um surpresa genuína. A menção a Mhee parecia ter pego a assistente totalmente desprevenida, mas o que realmente a desarmava era a franqueza absoluta estampada no rosto de Engfa. Não havia joguinhos, nem vestígios de desconfianças; havia apenas uma mulher decidida a derrubar as muralhas que ainda as separavam.
Um rubor sutil coloriu as bochechas de Charlotte, mas, em vez de recuar ou erguer suas tradicionais barreiras de timidez, ela respirou fundo, permitindo que um sorriso pequeno e suave brotasse em seus lábios.
— A Mhee é um furacão difícil de ignorar, e você sabe disso melhor do que ninguém disso. — Respondeu Charlotte, a voz um pouco mais tranquila, enquanto se aproximava devagar da mesa. Ela puxou uma das cadeiras e sentou-se, cruzando as mãos sobre o colo. — Mas confesso que não esperava que você fosse exatamente igual.
– Eu não sei se devo achar isso um elogio. Você acabou de me comparar com a pestinha da minha prima.
Charlotte acabou rindo do jeito afetado com o qual Engfa falava.
– Quando eu conheci sua prima, ela não me fez muitas perguntas. Ela só se instalou na minha vida. Você está fazendo a mesma coisa, e mais uma vez eu não pareço ter escolha. Acha que isso é coisa de família. Sabe, essa coisa de determinar e controlar as situações.
Engfa puxou a cadeira em frente à dela, acomodando-se com a mesma intensidade que guiava todas as suas ações. Ela apoiou os cotovelos na madeira da mesa, sustentando o olhar fixo em Charlotte, com um brilho desafiador e ao mesmo tempo vulnerável nos olhos.
— A vida inteira eu fui treinada para controlar tudo ao meu redor, Charlotte. — Disse Engfa, com um tom de voz que perdeu qualquer resquício de incertezas, tornando-se surpreendentemente íntimo. — Eu achava que sempre precisava saber tudo. Mas, desde que você entrou naquele escritório, percebi que há um mundo inteiro bem na minha frente que eu não conheço. E eu odeio ficar sem saber das coisas. Principalmente quando se trata de você.
O silêncio que se seguiu não foi pesado; carregava uma eletricidade mútua, uma promessa silenciosa de que aquele café da manhã era apenas o primeiro passo para algo que nenhuma das duas sabia exatamente como definir, mas que nenhuma delas ousaria interromper.
O clima tenso que parecia pairar sobre a mesa se desfez aos poucos, cedendo espaço para uma atmosfera surpreendentemente leve e acolhedora. Com um pequeno suspiro de rendição, Charlotte puxou uma das embalagens de croissant que Engfa havia trazido, e um sorriso genuíno finalmente iluminou seu rosto.
— Bem, já que você decidiu invadir minha casa e me obrigar a comer em sua companhia, o mínimo que posso fazer é aceitar o suborno. — Brincou Charlotte, quebrando o gelo com uma leveza que fez Engfa soltar uma risada genuína e relaxada.
Engfa acabava de descobrir que assim como a lua, Charlotte podia ter várias fases. A timidez definitivamente não a resumia.
— Isso é interessante…
– O que exatamente? – Perguntou Charlotte sem compreender o que a outra queria dizer.
– Ao que parece, você me conhece o suficiente para saber que eu nunca aceito perder uma discussão. — Retrucou Engfa, puxando sua própria xícara de café e servindo-se com um contentamento que não sentia havia dias.
A manhã seguiu em um ritmo delicioso. Entre mordidas nos croissants fresquinhos da confeitaria de Miu, e goles de café quente, a conversa fluiu de maneira totalmente inesperada. Deixando de lado os cargos de chefe e assistente, ou desconfianças e segredos. Sem ao menos perceberem que a atmosfera acabará de mudar a dinâmica entre elas, elas passaram a falar sobre pequenas manias, gostos peculiares e histórias divertidas do dia a dia da fazenda.
Cada risada compartilhada e cada olhar cúmplice que cruzava a mesa parecia afastar ainda mais as barreiras que antes as separavam.
Sentada ali, observando os olhos brilhantes de Charlotte enquanto ela contava uma história boba, Engfa percebeu que aquele café da manhã despretensioso estava se tornando, sem dúvida, o melhor elemento surpresa de toda a sua semana.
– Eu tenho certeza que Mhee lhe disse que não tenho senso de humor. – Engfa disse em tom de desafio.
– As palavras que ela usou foram diferentes. – Charlotte abafou um sorriso que não passou despercebido por Engfa.
– Claro! Acredito que as palavras que ela usou para me definir tenham sido: Mal-humorada, impaciente, chata…
Dessa vez Charlotte não pode conter o riso. Aos poucos ela acabava se permitindo viver aquela interação e também permitindo que Engfa a enxergasse de verdade.
– E também inflexível, viciada em trabalho. – Sorriu Charlotte com divertimento, fazendo Engfa olha para ela com uma fingida indignação. – E que mesmo assim ela a ama.
A assistente viu o rosto da outra corar, o que a fez pensar que Engfa ficava ainda mais bonita quando adotava uma postura mais leve e tímida.
Os olhares duelaram. Os de Engfa brilhavam, fantásticos. Os de Charlotte brilhavam em puro mistério.
– Ela deve esquecer de mencionar essa parte quando se dedica em me irritar. – Engfa quebrou o silêncio. – Vamos… coma outro pedaço de bolo.
Sem que Charlotte pudesse esperar, Engfa a serviu. O gesto gentil beirava a uma naturalidade como se aquilo fosse algo comum entre elas, mas definitivamente aquela não era uma convivência habitual entre elas.
O silêncio confortável que se instalou após o gesto gentil de Engfa foi abruptamente quebrado por três batidas fortes e apressadas na porta da frente, seguidas por uma voz familiar que as duas logo reconheceram de quem se tratava.
— Charlotte? Abre aqui antes que minha pele brilhante rache nesse sol. – A voz de Lookmhee ecoou pelo lado de fora, abafada pela madeira, mas carregada de todo seu drama habitual.
As duas mulheres na mesa congelaram por um segundo. Charlotte arregalou os olhos, olhando da porta para Engfa, com uma mistura de pânico e incredulidade estampada no rosto. Engfa, por sua vez, soltou um suspiro longo, revirando os olhos com um misto de resignação e tranquilidade.
Antes que Charlotte pudesse se levantar para atender, a maçaneta girou com força, afinal, para o desespero de todos, Mhee sabia exatamente onde a assistente guardava a cópia extra da chave. A porta se abriu de supetão e Lookmhee invadiu a sala, já disparando uma reclamação.
— Que bela amiga eu fui arrumar. Eu não acredito que você não está me ignorando e… — Mhee travou no meio da frase, dando dois passos para trás como se tivesse visto um fantasma.
O olhar de Lookmhee correu da mesa perfeitamente arrumada, passou pelas embalagens da confeitaria de Miu e aterrissou diretamente em Engfa, que continuava sentada tranquilamente com sua xícara de café nas mãos, com a expressão mais natural do mundo enquanto encarava a prima mais nova.
Mhee piscou uma, duas, três vezes, abrindo e fechando a boca sem conseguir emitir nenhum som coerente. O cérebro dela parecia ter entrado em pane ao tentar processar a imagem da prima — a mesma mulher que fugia de interações sociais matinais como o diabo foge da cruz — tomando café da manhã na casa da assistente, de forma completamente caseira e relaxada.
— P-P’Fa? — Lookmhee finalmente conseguiu gaguejar, apontando o dedo indicador trêmulo na direção da mais velha. — O que... o que você está fazendo aqui? A essa hora? Na casa da Charlotte?
Engfa nem sequer piscou. Com a maior naturalidade do planeta, ela tomou um gole vagaroso de seu café, cruzou as pernas e ergueu uma sobrancelha para a prima chocada.
— Bom dia para você também, Lookmhee. Aprendeu a bater na porta com os pés agora? Essa não foi a educação que te dei. — Respondeu Engfa, a voz perfeitamente calma, ignorando completamente o escândalo óbvio que a presença dela ali representava.
Charlotte, sentindo o rosto queimar de um vermelho intenso, abaixou o olhar para o próprio prato, contendo um sorriso diante da audácia de Engfa em agir como se estivesse em sua própria casa, enquanto Lookmhee continuava estática na entrada, completamente sem palavras.
Após o choque inicial e alguns segundos de puro desnorteio em que tentou, sem sucesso, reiniciar o próprio raciocínio, Lookmhee finalmente fechou a boca. Ela balançou a cabeça como se quisesse espantar uma alucinação, mas a cena continuava exatamente a mesma: sua prima sentada à mesa da assistente, agindo como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Olha... eu devo ter batido a cabeça muito forte no caminho para cá, porque só assim para explicar o que os meus olhos estão vendo — Murmurou Mhee, ainda incrédula, dando um passo hesitante para dentro da sala.
Vendo a situação congelada, Charlotte pigarreou, sentindo o rosto ainda aquecido, e prontamente resolveu quebrar o gelo. Levantou-se da cadeira com um sorriso hospitaleiro, embora um tanto tenso.
— Bom dia, Mhee... Sabe, já que você acabou aparecendo por aqui, quer se juntar a nós? Temos bastante comida. — Convidou Charlotte, apontando gentilmente para os croissants e bolos espalhados sobre a mesa.
Mhee piscou, surpresa pelo convite, mas a curiosidade mórbida que gritava em sua mente foi mais forte do que qualquer bom senso.
— Quer saber? Eu aceito. Porque se eu for embora agora, ninguém vai acreditar em mim quando eu contar. — Murmurou Mhee, puxando uma cadeira e sentando-se de supetão, com os olhos fixos em Engfa como se tentasse decifrar um enigma perigoso.
Ainda assustada com a presença da mais velha ali, Mhee passou a observar cada detalhe da interação das duas. Ela conhecia Engfa melhor do que ninguém; sabia que a prima não dava ponto sem nó, que cada gesto milimétrico escondia uma intenção e que aquele comportamento absurdamente gentil e caseiro jamais acontecia por acaso. Havia definitivamente algo muito grande por trás daquela visita matinal a sua amiga, e a mente de Mhee trabalhava a todo vapor para tentar descobrir o que era.
Foi bem no meio dessa análise silenciosa que o ápice do absurdo aconteceu.
Engfa, com uma naturalidade assustadora, pegou a jarra de suco fresco que estava no centro da mesa, inclinou-se levemente sobre o móvel e encheu um copo, empurrando-o com todo o cuidado na direção de Charlotte.
— Beba um pouco mais. Você quase não tocou nisso. — Disse Engfa, num tom suave e atencioso que fez o estômago de Charlotte revirar em um calor gostoso.
— Obrigada, Engfa... — Murmurou Charlotte, abaixando o olhar com uma timidez adorável, as bochechas tingindo-se de um tom rosado enquanto aceitava o gesto.
Ao presenciar a cena, Lookmhee travou por completo. Ela quase teve uma síncope. Seus olhos saltaram das órbitas, as mãos congelaram em cima da mesa e ela abriu a boca, emitindo apenas um som estrangulado, incapaz de acreditar que a mesma Engfa Waraha que até pouco tempo a tratava com desconfiança acabava de servir suco para Charlotte com a delicadeza de quem parecia estar… apaixonada? Mhee quase saltou da cadeira com tal constatação. Ela estava alucinando. Essa era a única explicação plausível. Engfa não se apaixonaria por Charlotte, ou será que sim? E se aquilo fosse mesmo possível, ela já teria percebido?
Se eu tinha aceitado o convite para ir a confeitaria com Lingling e Lookmhee? Não! Se isso tinha significado alguma coisa para elas? Lógico que não! Minhas primas não costumavam saber o significado de um convite recusado. Especialmente quando isso despertava nelas algum interesse próprio.
Sem nenhuma opção viável, afinal, tentar expulsar Lookmhee e Lingling da minha própria casa exigiria uma quantidade de energia que minha ressaca e meu cérebro esgotado simplesmente não podiam fornecer, joguei a toalha, tomei um banho rápido para me livrar de toda a lama e troquei de roupa.
Quando cheguei à sala de estar, o cenário era exatamente o que eu temia. Elas não só haviam se instalado confortavelmente, como também tinham arrastado Lena para o meio daquela emboscada particular. Minhas primas estavam espalhadas pelo sofá, comendo dos meus petiscos e bebendo do meu vinho como se fossem donas da casa enquanto me esperavam com os olhos brilhando de pura expectativa.
Tentei manter a minha postura mais séria, cruzando os braços e erguendo o queixo com toda a imponência que consegui reunir para tentar salvar minha reputação.
— Se vocês acham que minha casa virou salão de festas só porque voltei mais cedo do trabalho, estão muito enganadas. — Comecei, com a voz firme. — Tratem de se comportar.
Minha tentativa de impor ordem falhou miseravelmente. Lena, Lingling e Lookmhee sequer piscaram diante do meu tom severo; pelo contrário, pareciam ainda mais animadas, ansiosas por cada detalhe da cena que as duas fofoqueiras haviam presenciado mais cedo no escritório.
— Ah, P’Fa, poupe-nos desse seu discursinho de patroa durona — Lookmhee cortou logo, dando uma risada debochada. — Nós sabemos muito bem que você não está em condições de dar ordem em ninguém depois do showzinho que presenciamos pouco tempo atrás.
— Exato! — Lingling concordou de imediato, inclinando-se para a frente e olhando diretamente para Lena com um sorriso conspiratório. — Você precisa ver, Lena! Não é exagero nenhum da nossa parte. Quando chegaram no escritório, a P’Fa estava simplesmente de mãos dadas com a Charlotte! De mãos dadas, você acredita?
Lena, que até então observava a discussão com uma expressão calma e contida, arregalou os olhos em genuína surpresa, virando-se rapidamente para mim.
— Espera... De mãos dadas? A Engfa? — Lena repetiu, como se processasse uma informação vinda de outra dimensão.
Senti o sangue correr para o meu rosto, e uma ponta de desespero ameaçou me dominar. Céus, por que minhas primas tinham que prestar tanto a atenção em cada detalhe idiota?
— Vocês estão criando teorias onde não existe absolutamente nada! — Rebati, franzindo a testa e tentando soar o mais indiferente possível, embora minhas bochechas estivessem traindo minhas palavras. — Nós estávamos voltando da colheita e assim como eu, ela estava com os sapatos sujos e escorregando na lama. Por isso ficamos descalças e nos apoiamos uma na outra. Qual o problema disso afinal?
– O QUÊ? Você literalmente desceu do salto? – Lena espantou-se ainda mais.
– Ela desceu! – Ling e Mhee responderam juntas me fazendo revirar os olhos.
– Salto alto não combina com terra. Qual o problema de vocês? Eu apenas a ajudei para que ela não caísse e quebrasse o pescoço. Só isso. É estranho, mas Charlotte demonstra uma habilidade impressionante para se acidentar fácil, eu só estava exercendo o mínimo de responsabilidade profissional.
A justificativa saiu rápida demais, o que obviamente só piorou as coisas. Lingling soltou um som de descrença, estreitando os olhos.
Foi então que Lena arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços com um sorriso analítico e perspicaz nos lábios.
— Ah, entendi... Então agora você virou voluntária de resgate e professora particular de agricultura? — Provocou Lena, inclinando a cabeça. — Me diga uma coisa, Engfa: desde quando você gosta de perder o seu precioso tempo ensinando funcionários sobre as atividades e os processos da empresa?
Fiquei completamente estática.
As palavras travaram na minha garganta. Abri a boca para tentar formular uma resposta à altura, mas percebi, com um frio na espinha, que eu simplesmente não tinha o que dizer. Todo mundo naquela sala — inclusive eu mesma — sabia muito bem que a minha paciência para didática e treinamentos corporativos era rigorosamente igual a zero, mas isso foi ignorado com Charlotte desde sua chegada.
Diante do meu silêncio repentino e da minha total falta de argumentos, as três abriram sorrisos idênticos, triunfantes e absolutamente insuportáveis.
No outro dia
Na manhã seguinte, antes mesmo de seguir a rota da minha rotina e pisar no escritório, uma ideia inesperada e um tanto quanto insana surgiu em minha cabeça. Muito disso tinha a ver com a necessidade urgente de atender ao pensamento persistente de que eu precisava fazer algo minimamente gentil, nem que fosse para compensar o constrangimento que fiz Charlotte passar no dia anterior.
Assim que empurrei a porta de vidro da confeitaria, o sininho soou suavemente, quebrando o silêncio matinal. Miu, que organizava o balcão principal, ergueu os olhos e travou no lugar. A mulher que agora eu tinha oficialmente como cunhada, me encarou por alguns segundos, claramente achando estranha a minha aparição em um horário em que eu deveria estar dando início ao trabalho do dia.
O estranhamento de Miu dobrou de tamanho quando percebeu a minha postura um tanto quanto... Ansiosa, talvez? Engoli em seco e desviei o olhar, sentindo uma timidez completamente atípica tomar conta de mim.
— Bom dia, Miu. — Murmurei, pigarreando levemente para disfarçar o nervosismo. — Eu... bem, gostaria das suas melhores opções para um café da manhã.
Por que eu estava agindo como se estivesse fazendo algo errado? Pensando nisso tentei agir o mais natural possível.
Miu piscou algumas vezes, processando a frase, mas, ao contrário das minhas primas, sendo a pessoa sensata que era, ela decidiu não fazer daquilo um grande acontecimento, tão pouco um interrogatório imediato. Com um sorriso cordial, ela foi até a vitrine e começou a separar alguns bolos frescos e croissants quentinhos que ela sabia perfeitamente que eram os meus favoritos.
No entanto, enquanto ela organizava os itens, percebeu que eu continuava parada ali, encarando os produtos com uma expressão de profunda indecisão, parecendo incerta se realmente aquelas seriam boas opções para o que eu tinha em mente.
Miu parou com uma pinça de metal na mão e me lançou um olhar curioso.
— Aconteceu alguma coisa, Engfa? Tem algum problema com os alimentos?
— Não, nenhum! — Respondi rápido demais, quase atropelando as palavras, sentindo as bochechas esquentarem.
— Então por que você está encarando os croissants parecendo que vai desenterrar um segredo de estado? — Questionou Miu, arqueando uma sobrancelha com diversão contida.
— Não é nada... — Resmunguei, desviando os olhos para a ponta do meu sapato. E, com uma ponta de timidez que eu nem sabia que era capaz de sentir, completei em um tom mais baixo: — Você pode... embalar tudo para viagem, por favor?
Miu paralisou. O olhar que ela me lançou foi de puro choque.
Todo mundo a minha volta sabia que a pragmática Engfa Waraha odiava embalagens de viagem para si mesma; se eu saísse para comer, sempre comia ali mesmo, no balcão ou nas mesinhas aconchegantes da confeitaria. Pedir comida para viagem era algo tão fora do meu padrão que para Miu devia parecer um evento histórico.
Embora estivesse visivelmente curiosa e morrendo de vontade de arrancar de mim o motivo daquela excentricidade matinal, Miu manteve a compostura. Ela não disse absolutamente nada; apenas assentiu lentamente, um sorriso enigmático surgindo no canto dos lábios, e preparou tudo com cuidado, colocando os itens em embalagens separadas e elegantes.
Peguei os pacotes rapidamente assim que ela terminou, deixando o dinheiro exato sobre o balcão com uma pressa que beirava o desespero.
— Obrigada, Miu. Tenho que ir agora!
Me despedi, virando os calcanhares e quase correndo para fora da confeitaria, sentindo o rosto completamente vermelho de vergonha, rezando para que ela não decidisse comentar aquilo com a Lena.
Por narrador
A manhã mal havia começado quando o som de batidas firmes na porta da frente tirou Charlotte de sua rotina matinal. Franzindo a testa, ela caminhou até a entrada, sem imaginar quem ousaria visitá-la a uma hora daquelas. Ao girar a maçaneta e abrir a porta, o ar faltou em seus pulmões.
Ali estava sua chefe. Sem a pose impecável de sempre, usando roupas casuais e carregando nas mãos elegantes embalagens de comida vindas diretamente da confeitaria de Miu.
— Engfa? O... O que você está fazendo aqui a essa hora da manhã? — Perguntou Charlotte, os olhos arregalados de pura perplexidade, piscando repetidas vezes para ter certeza de que não estava sonhando.
Com um sorriso determinado e um brilho animado nos olhos que pouquíssimas pessoas no mundo tinham o privilégio de presenciar, Engfa a encarou com entusiasmo que deixaria suas primas em choque se presenciasse.
— Vim garantir que você comece o dia direito. Hoje nós vamos tomar café da manhã juntas! — Anunciou ela, com uma segurança desconcertante. – Eu não quero ser acusada que estou sugando toda suas energias com trabalho.
E, antes mesmo de receber qualquer tipo de convite para entrar, a empresária simplesmente deu um passo à frente, cruzando o batente e invadindo o espaço de Charlotte. A assistente permaneceu paralisada antes de finalmente lembrar de fechar a porta.
Charlotte estava completamente atordoada com aquela aparição surpresa, sentindo o cérebro dar voltas enquanto tentava processar a cena. Vestindo apenas roupas confortáveis de casa e ainda absorvendo o choque, Charlotte olhou para si mesma, sentindo o rosto corar, e rapidamente pediu licença para ir trocar de roupa.
No segundo em que Charlotte se virou para caminhar em direção ao quarto, o olhar de Engfa inevitavelmente deslizou por seu corpo. Uma pontada quente e completamente diferente de tudo o que estava acostumada a sentir ecoou em seu peito, fazendo-a prender a respiração por um segundo. Percebendo o rumo dos próprios pensamentos, Engfa balançou a cabeça em sinal de repreensão interna e rapidamente desviou a visão, limpando a garganta.
Assim que Charlotte desapareceu corredor adentro, Engfa assumiu o controle da situação à sua maneira. Determinada a fazer aquilo dar certo, ela caminhou até a pequena cozinha, espalhou os pacotes sobre a mesa e empenhou-se com total dedicação na tarefa de organizar o café da manhã que pretendia degustar ao lado de sua assistente.
Poucos minutos depois, Charlotte retornou à sala. Vestindo roupas simples, mas com o cabelo levemente úmido e o semblante ainda tomado por uma confusão adorável. Ela parou a poucos passos da mesa. O cheiro dos croissants e dos bolos frescos preenchia o ambiente, mas a presença de Engfa ali era o verdadeiro enigma.
Cruzando os braços levemente, Charlotte fitou a chefe com uma franqueza que raramente demonstrava, sendo direta e objetiva do jeito exato que costumava chamar a atenção de Engfa.
— Tenho que confessar que estou bastante surpresa com a sua presença aqui, Engfa. — Disse Charlotte, a voz firme, embora os olhos denunciassem a hesitação. — Sem avisar, aparecendo na minha porta com café da manhã... Isso não me parece o tipo de coisa que você faz com frequência, tão pouco com qualquer pessoa. Por que você está aqui, afinal?
Charlotte achou ainda mais estranho quando seu questionamento não pareceu abalar a confiança da sua chefe, pelo contrário, a confiança da empresária era algo que fazia com que ela não soubesse lidar com a situação embaraçosa.
Engfa, que terminava de ajeitar uma xícara sobre a mesa, parou o movimento por um segundo. Ergueu o olhar para encará-la, decidida a não se esconder por trás de subterfúgios ou desculpas. Mantendo a mesma postura direta, ela deu um passo à frente e respondeu:
— Eu estive pensando… Depois de ontem… quero dizer, depois do momento que compartilhamos juntas na colheita, eu percebi que podemos ser amigas. Você é uma pessoa que quero conhecer melhor, Charlotte. — Engfa disse sem pestanejar, com uma sinceridade crua que fez o ar ao redor parecer menos denso e fez a assistente perder toda sua armadura. — Eu realmente quero conhecer você do mesmo jeito que a minha prima Mhee parece conhecer.
As palavras caíram no espaço entre elas com um peso silencioso, deixando claro que a barreira invisível entre a chefe e a assistente acabara de ruir de vez.
Charlotte permaneceu imóvel por um instante, como se estivesse processando cada sílaba que acabara de ouvir. Seus olhos se arregalaram levemente e a boca entreabriu-se em um surpresa genuína. A menção a Mhee parecia ter pego a assistente totalmente desprevenida, mas o que realmente a desarmava era a franqueza absoluta estampada no rosto de Engfa. Não havia joguinhos, nem vestígios de desconfianças; havia apenas uma mulher decidida a derrubar as muralhas que ainda as separavam.
Um rubor sutil coloriu as bochechas de Charlotte, mas, em vez de recuar ou erguer suas tradicionais barreiras de timidez, ela respirou fundo, permitindo que um sorriso pequeno e suave brotasse em seus lábios.
— A Mhee é um furacão difícil de ignorar, e você sabe disso melhor do que ninguém disso. — Respondeu Charlotte, a voz um pouco mais tranquila, enquanto se aproximava devagar da mesa. Ela puxou uma das cadeiras e sentou-se, cruzando as mãos sobre o colo. — Mas confesso que não esperava que você fosse exatamente igual.
– Eu não sei se devo achar isso um elogio. Você acabou de me comparar com a pestinha da minha prima.
Charlotte acabou rindo do jeito afetado com o qual Engfa falava.
– Quando eu conheci sua prima, ela não me fez muitas perguntas. Ela só se instalou na minha vida. Você está fazendo a mesma coisa, e mais uma vez eu não pareço ter escolha. Acha que isso é coisa de família. Sabe, essa coisa de determinar e controlar as situações.
Engfa puxou a cadeira em frente à dela, acomodando-se com a mesma intensidade que guiava todas as suas ações. Ela apoiou os cotovelos na madeira da mesa, sustentando o olhar fixo em Charlotte, com um brilho desafiador e ao mesmo tempo vulnerável nos olhos.
— A vida inteira eu fui treinada para controlar tudo ao meu redor, Charlotte. — Disse Engfa, com um tom de voz que perdeu qualquer resquício de incertezas, tornando-se surpreendentemente íntimo. — Eu achava que sempre precisava saber tudo. Mas, desde que você entrou naquele escritório, percebi que há um mundo inteiro bem na minha frente que eu não conheço. E eu odeio ficar sem saber das coisas. Principalmente quando se trata de você.
O silêncio que se seguiu não foi pesado; carregava uma eletricidade mútua, uma promessa silenciosa de que aquele café da manhã era apenas o primeiro passo para algo que nenhuma das duas sabia exatamente como definir, mas que nenhuma delas ousaria interromper.
O clima tenso que parecia pairar sobre a mesa se desfez aos poucos, cedendo espaço para uma atmosfera surpreendentemente leve e acolhedora. Com um pequeno suspiro de rendição, Charlotte puxou uma das embalagens de croissant que Engfa havia trazido, e um sorriso genuíno finalmente iluminou seu rosto.
— Bem, já que você decidiu invadir minha casa e me obrigar a comer em sua companhia, o mínimo que posso fazer é aceitar o suborno. — Brincou Charlotte, quebrando o gelo com uma leveza que fez Engfa soltar uma risada genuína e relaxada.
Engfa acabava de descobrir que assim como a lua, Charlotte podia ter várias fases. A timidez definitivamente não a resumia.
— Isso é interessante…
– O que exatamente? – Perguntou Charlotte sem compreender o que a outra queria dizer.
– Ao que parece, você me conhece o suficiente para saber que eu nunca aceito perder uma discussão. — Retrucou Engfa, puxando sua própria xícara de café e servindo-se com um contentamento que não sentia havia dias.
A manhã seguiu em um ritmo delicioso. Entre mordidas nos croissants fresquinhos da confeitaria de Miu, e goles de café quente, a conversa fluiu de maneira totalmente inesperada. Deixando de lado os cargos de chefe e assistente, ou desconfianças e segredos. Sem ao menos perceberem que a atmosfera acabará de mudar a dinâmica entre elas, elas passaram a falar sobre pequenas manias, gostos peculiares e histórias divertidas do dia a dia da fazenda.
Cada risada compartilhada e cada olhar cúmplice que cruzava a mesa parecia afastar ainda mais as barreiras que antes as separavam.
Sentada ali, observando os olhos brilhantes de Charlotte enquanto ela contava uma história boba, Engfa percebeu que aquele café da manhã despretensioso estava se tornando, sem dúvida, o melhor elemento surpresa de toda a sua semana.
– Eu tenho certeza que Mhee lhe disse que não tenho senso de humor. – Engfa disse em tom de desafio.
– As palavras que ela usou foram diferentes. – Charlotte abafou um sorriso que não passou despercebido por Engfa.
– Claro! Acredito que as palavras que ela usou para me definir tenham sido: Mal-humorada, impaciente, chata…
Dessa vez Charlotte não pode conter o riso. Aos poucos ela acabava se permitindo viver aquela interação e também permitindo que Engfa a enxergasse de verdade.
– E também inflexível, viciada em trabalho. – Sorriu Charlotte com divertimento, fazendo Engfa olha para ela com uma fingida indignação. – E que mesmo assim ela a ama.
A assistente viu o rosto da outra corar, o que a fez pensar que Engfa ficava ainda mais bonita quando adotava uma postura mais leve e tímida.
Os olhares duelaram. Os de Engfa brilhavam, fantásticos. Os de Charlotte brilhavam em puro mistério.
– Ela deve esquecer de mencionar essa parte quando se dedica em me irritar. – Engfa quebrou o silêncio. – Vamos… coma outro pedaço de bolo.
Sem que Charlotte pudesse esperar, Engfa a serviu. O gesto gentil beirava a uma naturalidade como se aquilo fosse algo comum entre elas, mas definitivamente aquela não era uma convivência habitual entre elas.
O silêncio confortável que se instalou após o gesto gentil de Engfa foi abruptamente quebrado por três batidas fortes e apressadas na porta da frente, seguidas por uma voz familiar que as duas logo reconheceram de quem se tratava.
— Charlotte? Abre aqui antes que minha pele brilhante rache nesse sol. – A voz de Lookmhee ecoou pelo lado de fora, abafada pela madeira, mas carregada de todo seu drama habitual.
As duas mulheres na mesa congelaram por um segundo. Charlotte arregalou os olhos, olhando da porta para Engfa, com uma mistura de pânico e incredulidade estampada no rosto. Engfa, por sua vez, soltou um suspiro longo, revirando os olhos com um misto de resignação e tranquilidade.
Antes que Charlotte pudesse se levantar para atender, a maçaneta girou com força, afinal, para o desespero de todos, Mhee sabia exatamente onde a assistente guardava a cópia extra da chave. A porta se abriu de supetão e Lookmhee invadiu a sala, já disparando uma reclamação.
— Que bela amiga eu fui arrumar. Eu não acredito que você não está me ignorando e… — Mhee travou no meio da frase, dando dois passos para trás como se tivesse visto um fantasma.
O olhar de Lookmhee correu da mesa perfeitamente arrumada, passou pelas embalagens da confeitaria de Miu e aterrissou diretamente em Engfa, que continuava sentada tranquilamente com sua xícara de café nas mãos, com a expressão mais natural do mundo enquanto encarava a prima mais nova.
Mhee piscou uma, duas, três vezes, abrindo e fechando a boca sem conseguir emitir nenhum som coerente. O cérebro dela parecia ter entrado em pane ao tentar processar a imagem da prima — a mesma mulher que fugia de interações sociais matinais como o diabo foge da cruz — tomando café da manhã na casa da assistente, de forma completamente caseira e relaxada.
— P-P’Fa? — Lookmhee finalmente conseguiu gaguejar, apontando o dedo indicador trêmulo na direção da mais velha. — O que... o que você está fazendo aqui? A essa hora? Na casa da Charlotte?
Engfa nem sequer piscou. Com a maior naturalidade do planeta, ela tomou um gole vagaroso de seu café, cruzou as pernas e ergueu uma sobrancelha para a prima chocada.
— Bom dia para você também, Lookmhee. Aprendeu a bater na porta com os pés agora? Essa não foi a educação que te dei. — Respondeu Engfa, a voz perfeitamente calma, ignorando completamente o escândalo óbvio que a presença dela ali representava.
Charlotte, sentindo o rosto queimar de um vermelho intenso, abaixou o olhar para o próprio prato, contendo um sorriso diante da audácia de Engfa em agir como se estivesse em sua própria casa, enquanto Lookmhee continuava estática na entrada, completamente sem palavras.
Após o choque inicial e alguns segundos de puro desnorteio em que tentou, sem sucesso, reiniciar o próprio raciocínio, Lookmhee finalmente fechou a boca. Ela balançou a cabeça como se quisesse espantar uma alucinação, mas a cena continuava exatamente a mesma: sua prima sentada à mesa da assistente, agindo como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Olha... eu devo ter batido a cabeça muito forte no caminho para cá, porque só assim para explicar o que os meus olhos estão vendo — Murmurou Mhee, ainda incrédula, dando um passo hesitante para dentro da sala.
Vendo a situação congelada, Charlotte pigarreou, sentindo o rosto ainda aquecido, e prontamente resolveu quebrar o gelo. Levantou-se da cadeira com um sorriso hospitaleiro, embora um tanto tenso.
— Bom dia, Mhee... Sabe, já que você acabou aparecendo por aqui, quer se juntar a nós? Temos bastante comida. — Convidou Charlotte, apontando gentilmente para os croissants e bolos espalhados sobre a mesa.
Mhee piscou, surpresa pelo convite, mas a curiosidade mórbida que gritava em sua mente foi mais forte do que qualquer bom senso.
— Quer saber? Eu aceito. Porque se eu for embora agora, ninguém vai acreditar em mim quando eu contar. — Murmurou Mhee, puxando uma cadeira e sentando-se de supetão, com os olhos fixos em Engfa como se tentasse decifrar um enigma perigoso.
Ainda assustada com a presença da mais velha ali, Mhee passou a observar cada detalhe da interação das duas. Ela conhecia Engfa melhor do que ninguém; sabia que a prima não dava ponto sem nó, que cada gesto milimétrico escondia uma intenção e que aquele comportamento absurdamente gentil e caseiro jamais acontecia por acaso. Havia definitivamente algo muito grande por trás daquela visita matinal a sua amiga, e a mente de Mhee trabalhava a todo vapor para tentar descobrir o que era.
Foi bem no meio dessa análise silenciosa que o ápice do absurdo aconteceu.
Engfa, com uma naturalidade assustadora, pegou a jarra de suco fresco que estava no centro da mesa, inclinou-se levemente sobre o móvel e encheu um copo, empurrando-o com todo o cuidado na direção de Charlotte.
— Beba um pouco mais. Você quase não tocou nisso. — Disse Engfa, num tom suave e atencioso que fez o estômago de Charlotte revirar em um calor gostoso.
— Obrigada, Engfa... — Murmurou Charlotte, abaixando o olhar com uma timidez adorável, as bochechas tingindo-se de um tom rosado enquanto aceitava o gesto.
Ao presenciar a cena, Lookmhee travou por completo. Ela quase teve uma síncope. Seus olhos saltaram das órbitas, as mãos congelaram em cima da mesa e ela abriu a boca, emitindo apenas um som estrangulado, incapaz de acreditar que a mesma Engfa Waraha que até pouco tempo a tratava com desconfiança acabava de servir suco para Charlotte com a delicadeza de quem parecia estar… apaixonada? Mhee quase saltou da cadeira com tal constatação. Ela estava alucinando. Essa era a única explicação plausível. Engfa não se apaixonaria por Charlotte, ou será que sim? E se aquilo fosse mesmo possível, ela já teria percebido?
Fim do capítulo

Comentários