Tamanho do texto
6.857 palavras81 leituras0 comentários
Por narrador

No fim de semana

Não era surpresa para ninguém no vilarejo que a família de Engfa se aproveitava até mesmo dos momentos mais simples para oferecer uma grande festa. Alegres e bem sociável com todos, aquela família gostava de aproveitar a companhia dos amigos e esbanjar felicidade. Por isso, o aniversário do irmão Arthit estava sendo um verdadeiro acontecimento não apenas para ele que festejava um novo ciclo da sua vida, mas para todos gostava dele e o admirava.
A fazenda estava irreconhecível, transformada em um cenário de festa tradicional tailandesa, repleta de lanternas coloridas balançando ao vento, mesas fartas de pratos típicos e o som de risadas misturando-se à música alegre que ecoava por todo o pátio central. Familiares, amigos do vilarejo e funcionários riam e celebravam o aniversário do Sr. Arthit com uma energia contagiante.
Em um canto mais reservado, mas perto o suficiente para aproveitar o movimento, Lingling, Lena e Miu conversavam animadamente, logo acompanhadas pela chegada espalhafatosa de Lookmhee. Lingling, com seu habitual olhar curioso e travesso cruzou os braços e olhou em volta, franzindo o cenho antes de focar na prima mais nova.
— Ei, Mhee... Onde está a tal Charlotte? — Lingling questionou, erguendo uma sobrancelha. — De tanto ouvir a Lena falar da sua protegida nos últimos dias, fiquei morrendo de curiosidade para conhecer essa tal moça. Ela é o principal assunto da família agora.
Lena, que ajeitava o colar no pescoço, franziu a testa, parecendo tão confusa quanto a irmã.
— Espera aí. Eu tinha certeza de que ela viria com você, Mhee. Não vai me dizer que você não a trouxe apenas para escondê-la de nós? Desse jeito vou achar que tem algo de errado com essa moça.
Lena disse descontraída, porém Mhee sabia que existia um pouco de verdade nas palavras da prima. Se ela continuasse evitando que Charlotte andasse pelo o vilarejo, era exatamente isso que iria se passar na cabeça de Lena.
Sob o olhar curioso das primas e de Miu, sem demonstrar preocupação com a ameaça feita por Lena, Mhee soltou uma risada debochada, balançando a cabeça com bom humor.
— Ah, por favor! Vocês acham que eu seria doida de ir contra uma ordem expressa da Engfa?
Lena e Lingling se entreolharam imediatamente, piscando em sincronia, totalmente sem entender a lógica por trás daquilo.
— O que a Engfa tem a ver com isso? Eu perdi alguma parte dessa história? — Lingling perguntou, inclinando a cabeça, com a curiosidade atiçada. — A Engfa odeia ter o controle logístico de quem vai ou deixa de ir para qualquer lugar. Aliás, ela odeia se responsabilizar por alguém. Por que ela se importaria com quem iria trazer a Charlotte?
Mhee suspirou dramaticamente, fazendo uma careta estranha enquanto apoiava as mãos na cintura.
— Pois é! Perguntei a mesma coisa para mim mesma. Eu também não entendi bulhufa nenhuma. Mas a verdade é que, vocês falam de mim, mas desde que a Charlotte começou a trabalhar diretamente com a nossa querida prima mais velha, a Engfa tem adotado uma postura absurdamente possessiva sobre a moça. Só que ela ainda não se deu conta disso. Em resumo, ela fez questão de determinar que seria ela mesma a trazer a Charlotte para essa festa.
Miu, que ouvia tudo com atenção enquanto segurava uma taça de vinho, arregalou os olhos levemente, chocada com a revelação. Até mesmo ela que era recente na família, já conhecia a personalidade de cada uma ali, e sabia que aquela atitude de Engfa era no mínimo estranha, considerando que se tratava de uma desconhecida.
— Espera um minuto. A Engfa? A mesma Engfa que foge de qualquer envolvimento emocional e trata todo mundo com aquela base estritamente séria? Por que ela faria uma coisa dessas, sendo que você é a pessoa mais próxima da Charlotte?
— Exatamente o que eu estou dizendo! — Mhee exclamou, gesticulando com os braços. — Ela não larga a mão da garota nem por um segundo. A cada dia que passa, essa dinâmica entre as duas fica mais esquisita... e, modéstia à parte, muito interessante de se fofocar. Ling, ainda bem que você está aqui. Adoro fofocar esse tipo de coisa com você.
Enquanto Lingling e Miu absorviam a fofoca com puro entusiasmo e olhos arregalados, Lena manteve a expressão contida, limitando-se a tomar um gole vagaroso de sua bebida. Ao contrário da irmã e da namorada, ela não demonstrou nenhum choque monumental diante da revelação de Mhee.
Para Lena, embora a cena de Engfa escolhendo pessoalmente ser a responsável por Charlotte naquela noite fosse, no mínimo, intrigante de se observar, havia uma camada muito mais pragmática e calculista por trás daquela decisão. Ela conhecia a prima mais velha o suficiente para saber que a mente de Engfa raramente funcionava movida apenas por impulsos afetivos. A empresária gostava de se sentir no controle das situações que a cercava, e se ela estava agindo naquela maneira, provavelmente acreditava que estando próxima a Charlotte, acabaria descobrindo o que ela achava que a moça estava escondendo.
— Não sei por que vocês estão surpresas a esse ponto. — Lena comentou em voz baixa, cruzando os braços e fitando o horizonte da festa onde os convidados dançavam. — Vocês não conhecem a prima que tem? É claro que a Engfa não fez isso só por um súbito lapso de carisma ou porque quis disputar força com Mhee. Deve ter alguma explicação mais lógica por trás da decisão dela.
Mhee piscou, pensativa com o tom analítico da prima.
— O que você quer dizer com isso, Lena?
Após analisar a reaça da mais nova, Lena resolveu responder calmamente.
— A Charlotte não está morando na fazenda? Ouvi tio Tawan comentando com papai que Engfa preparou um alojamento quase vizinho a casa dela. Pois então… Ela só deve ter pensado que ficaria mais contra mão para você, Mhee. Por que o susto? — Lena respondeu, franzindo o cenho levemente.
– Eu não me assustei. – A mais nova apressou em se defender. – Eu apenas quis entender, senhora sabe tudo.
Lena riu de canto. Ela sabia reconhecer quando Mhee ficava desconfortável.
Lingling, que estava alheia a boa parte do drama que existia por trás da chegada de Charlotte ao vilarejo, apenas inclinou a cabeça e deu de ombros acreditando que sua prima e sua irmã estavam apenas entrando em uma discussão boba sem fundamentos.
As palavras de Mhee pairaram no ar por alguns instantes, e antes que Lingling pudesse formular alguma teoria ainda mais absurda ou fazer mais perguntas, um movimento na entrada principal fez com que os olhares do grupinho de mulheres bonitas da família se desviassem instantaneamente.
O burburinho ao redor diminuiu por uma fração de segundo. Alguns curiosos, outros animados… o fato é que Engfa cruzou o limiar da festa acompanhada por Charlotte que se mantinha tímida ao seu lado, porém era inegável que a moça era dona de uma presença marcante.
A empresária vestia uma blusa de corte impecável que realçava sua postura elegante, mas o que realmente chamou a atenção de Lingling, Lena e Miu, não foi o traje, e sim o detalhe sutil: a proximidade entre as duas. Engfa mantinha uma mão levemente erguida, guiando Charlotte pelo cotovelo com um cuidado protetor que ela jamais destinara a qualquer outra pessoa naquele lugar que não fosse suas primas, e agora Miu, a quem ela considerava como cunhada por ser namorada de Lena.
Charlotte parecia um pouco intimidada pelo mar de gente, vestindo um traje simples, porém elegante, mas o pânico em seus olhos era contido pela presença firme de Engfa ao seu lado. A empresária sussurrou algo próximo ao seu ouvido, provocando um sorriso tímido, porém genuíno e grato, nos lábios da assistente.
Do outro lado do salão, Mhee arregalou os olhos, apontando discretamente com o queixo na direção das duas.
— Eu não disse? Que coisa mais esquisita. — Mhee sibilou, cutucando Lingling no braço com força suficiente para fazer a irmã quase derramar a bebida. — Olhem para isso! A "rocha" da família oficialmente a adotou. Mas o que isso significa afinal? Será que ela percebe o papel que está fazendo? E por que quando sou eu tentando cuidar da Charlotte, vocês falam. Mas com ela ninguém diz nada?
Lingling abriu um sorriso largo, os olhos brilhando com um misto de diversão e perspicácia que naquele momento parecia faltar a mais nova.
— Por que você é louca. Enfiou na sua casa alguém que nunca ouvimos falar. Mas ela é a nossa P’Fa. Ela jamais agiria por impulso. E caramba… olhem só pra elas duas e vejam o que eu vejo.
Interessadas, Mhee e Lena forçaram o olhar em direção das duas, como se buscasse enxergar o mesmo que Lingling.
– O que tem elas? – Mhee perguntou como se não enxergasse nada. – Não vejo nada.
– Mas é uma tonta mesmo. – Ling implicou com a mais nova que fez cara feia. – Eu vejo que elas combinam muito. Fariam um casal perfeito.
– Não começa com sua mania de cupido casamenteira, Ling. – Lena cruzou os braços, observando a cena com um olhar analítico.
– E qual o problema se acontecesse?
– Engfa e Charlotte? – Mhee gargalhou. – Isso é impossível.
Após garantir, Mhee percebeu que um silêncio instalou-se. Estava claro que para as primas aquilo talvez não fosse tão impossível quanto Mhee dizia ser.
A mais nova as olhou e então questionou mais para si mesma do que para as demais.
– Não é?
A mais nova pensava que se Charlotte ouvisse aquilo, provavelmente entraria em colapso, mas ao lembrar de como ambas vinham se comportando quando estavam lado a lado, Mhee pensou por algum tempo… tempo suficiente para preocupar-se em silêncio. Ninguém podia sair machucada daquela história.
– Não acho que seja impossível. Além disso, eu concordo com a Ling. Formariam um casal muito bonito. – Miu disse com aquela calma invejável.
Ao ouvir a afirmação da namorada, Lena se desfez em um meio sorriso compreensivo. Ela sabia muito bem o que era tentar erguer muralhas e ver alguém derrubá-las sem fazer o menor esforço, e ficaria feliz no dia que isso também acontecesse com Engfa, que acreditava no amor verdadeiro.
— Deixem a Engfa em paz. — Miu interveio, rindo baixinho, embora estivesse tão curiosa quanto as outras. — Não vamos nos ocupar em criar teorias. As coisas acontecem como tem de acontecer. No fim, vamos ver até onde isso vai.
Enquanto isso, ao perceber a aproximação do Sr. Tawan, que acenava efusivamente com um copo de bebida na mão, Engfa guiou Charlotte diretamente para o pai. A tensão inicial que Charlotte sentira parecia evaporar-se no ar festivo, substituída pela certeza silenciosa de que, naquele momento, sob os olhares atentos de toda a família, ela já não era mais alguém perdida.

Por Charlotte

Meu coração ainda parecia descompassado toda vez que eu me lembrava daquele exato momento em que abri a porta da minha nova casa e encontrei Engfa parada ali, esperando por mim para irmos à festa de aniversário do seu tio Arthit.
Como sempre ela estava deslumbrante de um jeito totalmente despretensioso. A luz da noite daquele parecia contornar cada traço do seu rosto, destacando a elegância natural de sua postura e o brilho intenso daquele olhar que sempre parecia ver através de mim. Fiquei paralisada por alguns segundos, notando como a elegância da roupa que ela vestia apenas acentuava a presença magnética que ela carregava. Havia uma beleza naquela mulher que tenho certeza que não era capaz de somente me intimidar, mas certamente a qualquer outra pessoa.
Quando chegamos à fazenda do tio Arthit e o carro parou diante do pátio repleto de lanternas coloridas e convidados, senti uma onda gelada de pânico percorrer minha espinha. Minhas mãos suavam frias no colo. Conhecer a família dela, e toda aquela multidão de convidados do vilarejo, parecia uma montanha intransponível para alguém que passou os últimos tempos tentando se esconder nas sombras.
– Você parece nervosa. – A voz de Engfa soou me tirando dos pensamentos de fuga.
– É só que… Eu tenho vergonha. Não conheço ninguém.
– Isso não é verdade. Você conhece Mhee e eu.
– Estou me referindo especialmente aos demais familiares de vocês.
– Bem, então temos outra inverdade. – Seu olhar suavizou para um brilho divertido. – Você já conhece tio Arthit. E também já conheceu o papai.
A olhei de relance me perguntando porque ela tinha que ser daquele jeito. Não era fácil vencer qualquer discursão com Engfa Waraha, considerando que ela sempre tinha um argumento que usava como uma espécie de contra-ataque.
Percebendo que havia conseguido me deixar levemente irritada por não conseguir argumentar com ela, um sorriso presunçoso surgiu em seu rosto. Será que ela tinha noção que aquele era um tipo de sorriso matador?
Antes que eu pudesse inventar qualquer desculpa esfarrapada para fugir, Engfa já havia dado a volta no carro. Ela abriu a porta para mim, estendendo a mão com uma educação e gentileza silenciosa que parecia absorver todo o meu medo. Quando nossos olhos se cruzaram, ela suavizou a expressão e sussurrou…
– Vamos lá! Vai ser divertido. Acredite, depois que Tio Arthit, tio Jett e papai ficam bêbados, essas festas sempre garantem pérolas no final que nos fazem rir e sentir vergonha alheia.
Eu tinha que admitir que naquele momento informal, longe das paredes da empresa e dos documentos acumulados sob sua mesa, Engfa se mostrava mais leve do que acreditei que ela poderia ser.
Assim que pusemos os pés no salão principal, o silêncio se espalhou como uma onda invisível, e todas as atenções daquele mar de gente se viraram imediatamente para nós duas.
Senti o rosto queimar, o peso de dezenas de olhares curiosos caindo sobre meus ombros. Por um instante, tive vontade de sumir. No entanto, o toque sutil de Engfa guiando-me pelo cotovelo me manteve firme. Estar ali, caminhando lado a lado com ela sob o escrutínio de toda sua família, era assustador, mas, olhando de relance para o perfil seguro de Engfa ao meu lado, percebi que talvez eu não precisasse me esconder.
A tensão de ser o centro das atenções durou apenas até o momento em que fomos interceptadas por uma onda de energia calorosa. Sr. Tawan foi o primeiro a nos alcançar, abrindo um sorriso largo e me cumprimentando com tanto entusiasmo que metade do peso nos meus ombros evaporou instantaneamente. Mas ele logo abriu espaço para que o restante da família se aproximasse.
— Tudo bem, Tudo bem, deixem a moça respirar. — Disse um homem de olhar gentil.
Engfa, sabendo que eu não tinha noção de quem se tratava, logo antecipou-se.
– Charlotte, esse é meu tio Jett e sua esposa, tia Malee. Pessoal, essa é a Charlotte. A amiga de Mhee, e agora minha assistente pessoal.
A apresentação foi feita por Engfa de forma prática e objetiva, não deixando espaço para muitos questionamentos.
Logo me dei conta que existia algo incomum entre todos e aquela família… Eles eram extremamente receptivos. Tio Jett, mantinha um sorriso singelo no rosto, enquanto sua esposa, Malee, era sem dúvidas uma mulher de postura impecável e dona de um sorriso acolhedor.
Em seguida, Engfa guiou meu olhar para uma mulher que trazia na postura e no olhar exatamente a mesma elegância silenciosa que Engfa possuía.
— Mãe, esta é Charlotte, minha assistente. — Engfa disse, a voz ganhando um tom suave e respeitoso. — Charlotte, essa é minha mãe Ploy. Ela estava viajando, mas retornou a poucos dias. Por isso vocês ainda não tinham se encontrado.
A Sra. Ploy me fitou com um interesse polido, mas caloroso. Ela inclinou a cabeça em um cumprimento refinado, demonstrando de imediato que a serenidade e a classe de Engfa era algo que vinham de berço.
A matriarca então deu um passo à frente com uma serenidade invejável, seus olhos brilhando com uma gentileza genuína enquanto me fitava.
— É um prazer enorme conhecê-la, querida. — Disse a senhora, com a mesma voz suave e elegante da filha. — Sabia de você através dos comentários, mas é muito bom vê-la pessoalmente. Toda a nossa família está extremamente feliz por tê-la entre nós hoje.
Logo ao lado, Malee acompanhou o gesto com um sorriso aberto e acolhedor, reforçando a hospitalidade.
— Sim, Charlotte! Estamos todas encantadas e muito satisfeitas por vê-la aqui conosco. — Acrescentou Sra. Malee, fazendo-me relaxar um pouco mais os ombros.
– Obrigada! – Eu disse juntando as mãos em uma saudação em demonstração de respeito e gratidão. – Eu que me sinto feliz e grata por ser recebida por vocês.
– Não precisa de formalidades conosco. Se você é acolhida por nossas sobrinhas, também será por nós. – Malee garantiu.
A formalidade durou pouco tempo. O Sr. Jett, que ao lado do Sr. Tawan observava a cena com um brilho travesso nos olhos, cruzou os braços e abriu um sorriso largo típico de quem estava pronto para provocar.
— Bem, eu acho fascinante. — Começou Sr. Jett, erguendo a voz o suficiente para chamar a atenção de quem estava por perto. — É muito interessante ver como minhas sobrinhas, Mhee e minha querida Engfa, parecem estar unidas na missão de cercar a Charlotte de tanto afeto e proteção. Sabe, Ploy, em todos esses anos, eu jamais vi a Engfa fazer questão de trazer alguém pessoalmente a uma festa da nossa família. Isso é inédito!
Ouvi o exato momento em que Engfa travou ao meu lado. Senti o corpo dela ficar tenso, e quando a olhei de relance, vi um rubor sutil, mas inconfundível, subir pelas bochechas da empresária, que tentava manter a compostura diante das piadas do tio.
— Tio Jett, por favor, pare de falar besteiras. — Engfa resmungou entredentes, pigarreando em seguida na tentativa de recuperar a pose intocável de sempre, o que fez seu tio e seu pai rirem. – Charlotte, o ignore e te garanto que você não será uma presa fácil do meu tio. Pode confiar no que digo!
Não consegui me conter. Ver a mulher mais implacável e controlada que eu conhecia ficar completamente sem graça por causa de uma provocação familiar me arrancou uma risada sincera e espontânea. Pela primeira vez, ficou cristalino para mim que aquela armadura de empresária severa e fria desmoronava com facilidade diante da família. E, por mais vermelha de vergonha que Engfa estivesse, vê-la assim — humana, vulnerável e ligeiramente corada pelas piadas dos tios — fez com que o meu próprio nervosismo desaparecesse por completo.
Tenho certeza que seu tio iria voltar provocá-la, mas teve sua intenção impedida pela chegada do aniversariante que se aproximava com certa timidez. Engfa balançou a cabeça, dispensando a formalidade, mas mantendo o respeito.
— Bem, quanto ao tio Arthit, acho que formalidades não são necessárias. Vocês já se conhecem desde os tempos em que você estava hospedada com a Lookmhee, não é mesmo?
Sr. Arthit abriu um sorriso amarelo, levemente envergonhado ao lembrar de como nossa "apresentação" anterior tinha acontecido na casa da filha dele. Naquele momento eu não sei bem o que se passou em sua cabeça, mas lembro-me que ele ficou por trinta minutos trancado com a filha enquanto pedia explicações sobre minha presença ali.
Com as bochechas tingidas de rubor, ele riu sem jeito.
Sentindo o meu próprio rosto queimar, juntei as mãos na altura do peito e o cumprimentei, inclinando a cabeça com toda a timidez que tentava me dominar.
— É uma honra estar aqui, Sr. Arthit. Muito obrigada pelo convite. — Disse, a voz saindo um pouco trêmula, mas sincera.
O pai de Mhee gesticulou rapidamente com as mãos, tentando afastar a cerimônia.
— Ora, por favor, nada de "senhor", minha querida! Sinta-se em casa. Acho que todos já disseram isso, mas quero reforçar… Toda a nossa família está genuinamente feliz por recebê-la aqui hoje.
Eu balancei a cabeça em sinal de agradecimento, mas não pude deixar de notar o brilho astuto nos olhos de Tio Arthit. Era evidente as dúvidas silenciosas que ele ainda carregava na cabeça.
Engfa, com sua percepção implacável, pareceu captar o desconforto exato do tio no mesmo segundo. Ela estreitou levemente os olhos, como se compreendesse ali algo que eu seria incapaz de entender.
— Bem, se nos dão licença... — Engfa interveio com firmeza elegante, colocando a mão de leve nas minhas costas, um toque sutil que me ancorou. — Vou levá-la para conhecer minhas primas e Miu. Elas estão doidas para interrogá-la, já que Mhee não as apresentou antes.
Antes de se virar, Engfa lançou um olhar firme e calmo para Tio Arthit. Era um olhar estratégico, quase mudo, que parecia dizer: "Está tudo sob controle, não pense besteira, homem".
Enquanto Engfa me guiava por entre as mesas em direção aonde Mhee estava acompanhada de outras três mulheres. Pude identificar que nossa chegada era aguardada por olhares cheios de expectativa, o que me fez respirar fundo.
Pela primeira vez desde que eu havia chegado àquele vilarejo, eu estava diante de todas as primas de Lookmhee reunidas como se fossem um bando de mulheres bem sucedidas. E a visão era quase desmedida de tão imponente.
Ao encarar as expressões curiosas e os sorrisos contidos do quarteto a sua frente, Engfa estreitou os olhos, cruzando os braços com uma leve irritação divertida.
— Por que vocês estão olhando para mim assim? — Questionou Engfa, arqueando uma sobrancelha. — Parecem até que estão vendo um ser de outro mundo.
Antes que Lookmhee e uma delas, que eu ainda não sabia quem era, pudessem abrir a boca para disparar alguma provocação daquelas que viriam carregadas de segundas intenções, alguém tomou a frente. Com um sorriso suave e gentil, a moça balançou a cabeça.
— Não leve a mal, Engfa, ignore essas duas. — Disse ela, rindo baixinho.
O olhar da mulher desviou-se de Engfa e caiu diretamente sobre mim, analisando-me com uma gentileza curiosa. Nesse instante, notei que todas elas pareciam praticamente vibrar de ansiedade, esperando pacientemente — ou nem tanto — para serem devidamente apresentadas.
Engfa seguiu a direção do olhar de Miu e suspirou, dando uma olhada rápida para aquela que tinha o cabelo tão escuro quanto o de Mhee. Ela praticamente se inclinava para a frente, quase caindo sobre mim de tanto que me fitava com os olhos brilhando. Diante daquela cena, Engfa revirou os olhos com uma impaciência teatral, embora houvesse um lampejo de carinho mal disfarçado em sua expressão.
— Céus, Lingling, endireite-se antes que você caia de cara no chão. — Resmungou Engfa, balançando a cabeça antes de respirar fundo e assumir a postura oficial.
Decidida a cortar o mal pela raiz antes que a situação virasse um circo completo, Engfa pigarreou levemente e começou as apresentações formais, apontando para cada uma com a precisão de quem liderava uma reunião de alto padrão, mas com a suavidade de quem protegia algo precioso.
– Essa é a Lingling. Você logo vai perceber que ela consegue ser tão irritante quanto Lookmhee. Juntas, elas conseguem me tirar do sério com facilidade.
– Eu também te amo, prima querida. – Sem cerimônia, Lingling agarrou-se ao pescoço de Engfa e a beijou no rosto.
– Eca! Para com isso. Você vai amassar minha roupa. – Reclamou minha chefe, o que divertiu a prima.
Sem parecer se importar nenhum pouco com a reclamação da prima, Lingling logo virou-se para mim.
– Olá, Charlotte. Pode me chamar de apenas Ling, ok? – Ela segurou em minhas mãos como se tivéssemos intimidade. – Finalmente nos conhecemos. Lena disse que Mhee estava de mantendo em cárcere privado. Se quiser denunciá-la posso servir de testemunha.
Arregalei os olhos, mas relaxei quando vi Mhee levar a provocação na esportiva.
– Eu acho que não será necessário. Já fui libertada! – Ousei entrar na brincadeira
– Ei, você. Não dê palco para ela, caso contrário será um caminho sem volta. Eu sempre te disse que ninguém me respeita nessa família. – Mhee se fez de sentida, o que me fez rir
– Tão exagerada, meu Deus. – Engfa revirou os olhos. Em seguida ela virou-se e disse… – Essa é a minha prima, Lena. Ela é irmã da Ling, mas acredite, é mais ajuizada. – Sussurrou.
– Ei, eu vou isso. – Ling protestou, mas foi prontamente ignorada pela a empresária que seguiu com a tarefa de me fazer ser conhecida.
– E essa é a Miu Natasha. Ela é a namorada da Lena. Assim como você, chegou aqui a pouco tempo.
– Tempo suficiente para tomar minha prima pra si. Ainda estou decidindo se gosto dela.
Claramente Lookmhee estava implicando com a moça. Lena a olhou feio e em seguida me encarou.
– Fico feliz em te conhecer, Charlotte. Isso já teria acontecido se essa pestinha tivesse atendido meu apelo de te levar na confeitaria.
Diferente da irmã, Lena não cruzou a linha da diplomacia. Seu cumprimento foi formal, o que me fez lembrar de quando Lookmhee me disse que Lena era a prima mais parecida com Engfa.
– Seja bem vinda ao vilarejo, Charlotte. – Miu disse com um sorriso doce. – Espero que agora que nos conhecemos, você possa visitar a confeitaria em breve.
– Obrigada, meninas. Pode ter certeza que vou assim que possível. – Respondi para a confeiteira.
– Isso se você encontrar tempo. Engfa está te explorando enquanto praticamente te torna uma propriedade privada. – Mhee implicou com a mais velha e em seguida sorriu para Ling, dizendo… – Eu pedi para que ela disponibilizasse uma vaga na contabilidade da empresa. E vejam só onde estamos.
Lingling cruzou os braços, abriu um sorriso travesso que denunciava exatamente a mesma essência caótica de Mhee, e disparou, sem o menor filtro:
— Bem, quanto a isso não é muito estranho. Estranho mesmo foi ver que a P’Fa apresentou a moça aos mais velhos. Olhando a maneira como os tios estavam as recebendo ali atrás, com toda aquela cerimônia, eu juro que por um segundo achei que ela estivesse, finalmente, apresentando uma namorada oficial para a família.
Engfa, que acabara de aceitar uma taça de vinho oferecida por Miu, engoliu em seco e quase engasgou com o líquido, tossindo baixinho enquanto o rubor em suas bochechas voltava com força total.
Quanto a mim? Senti o sangue fugir do meu rosto e os meus olhos arregalarem-se do tamanho de pratos. Eu não sabia se olhava para o chão, se fingia um desmaio ou se enterrava ali mesmo. Minhas bochechas queimavam tanto que podiam fritar um ovo.
Antes mesmo que Engfa conseguisse recuperar o fôlego ou formular uma resposta à altura para a audácia da prima, Lena deu um passo à frente, estreitando os olhos na direção de Lingling com uma seriedade que eu poderia jurar ser fingida.
— Dá para calar a boca, Lingling? Olha o estado da moça! Você vai acabar constrangindo a Charlotte com essas suas bobagens sem noção. — Repreendeu Lena, balançando a cabeça em sinal de reprovação, antes de virar o rosto para mim com uma expressão incrivelmente doce e acolhedor. — Não dê ouvidos a ela, Charlotte. Por favor, ignore completamente essa peste. Ela compartilha o mesmo neurônio da Mhee. Acho que você já está familiarizada, não é mesmo?,
Lena suspirou, lançando um olhar cúmplice para Engfa, que ainda tentava ajeitar a postura.
— A verdade é que a Lingling e a Mhee parecem ter absorvido e monopolizado toda a falta de noção que deveria ser distribuída entre também a mim e a Engfa, mas que graças a Deus, nos livramos de tal mal. Alguém precisava manter a compostura nesta família. – A escritora completou em um tom provocativo.
Aquele foi o sinal para o caos se instaurar. No segundo seguinte, Lookmhee se meteu na conversa defendendo aquilo que ela descreveu ser sua honra, Lingling rebateu acusando Lena de ser muito certinha assim como Engfa, e logo as quatro primas engataram em uma discussão boba, cruzando acusações e risadas no meio do salão.
Enquanto o quarteto debatia sobre quem era a mais sem noção, Miu deu um passo discreto para o lado, aproximando-se de mim com uma serenidade invejável. Ela segurava uma taça, observando a algazarra com um sorriso divertido nos lábios.
Eu virei o rosto para Miu, ainda processando o alvoroço, e perguntei em um sussurro, incapaz de conter a curiosidade:
— Elas... elas são sempre assim?
Miu sorriu abertamente, os olhos brilhando com um divertimento afetuoso, e deu de ombros.
— Ah, costumam ser sim. — Respondeu ela, num tom cúmplice. — E quer um conselho? Elas ficam ainda piores depois da terceira taça de vinho. É melhor ir se acostumando.

…

Por narrador

Pouco depois do alvoroço causado pelas provocações de Lingling, o som de um brinde leve ecoou pelo salão. O tio Arthit pigarreou suavemente, erguendo a sua taça para chamar a atenção de todos os convidados. Com um sorriso caloroso no rosto e uma simplicidade cativante, o aniversariante fez um breve discurso de gratidão, agradecendo a presença da família, o apoio dos irmãos e a energia contagiante das sobrinhas que enchiam aquela fazenda de vida.
Assim que o discurso foi encerrado e as felicitações afetuosas ecoou pelo ambiente, o jantar foi oficialmente servido. Mesas fartas, repletas de pratos tradicionais e frutos do mar frescos, ocuparam o centro do salão, e os convidados começaram a se acomodar ao redor.
Na mesa onde o grupo de primas, Miu e Charlotte estavam reunidas, a atmosfera era de pura descontração. Todas faziam questão de interagir com Charlotte, com a intenção clara não apenas de conhecê-la melhor, afinal de contas, a mulher misteriosa que Mhee trouxera para o vilarejo despertava a curiosidade de qualquer um, mas também de garantir que ela se sentisse totalmente acolhida e à vontade naquele meio familiar tão barulhento.
No entanto, em meio aos sorrisos e às conversas cruzadas sobre histórias vividas pelas quatro primas naquele vilarejo, um detalhe específico começou a capturar a atenção silenciosa das primas de Engfa.
Era impossível não notar a mudança sutil, porém drástica, na postura da empresária.
Engfa, que costumava ser a personificação da seriedade e da formalidade rigorosa, transformara-se naquela noite em uma anfitriã extremamente atenta. Sem que Charlotte precisasse pedir ou sequer perceber, Engfa se antecipava a cada movimento. Ninguém ali sabia dizer se Engfa estava se dando conta do seu comportamento, mas os olhos atentos das mulheres ao redor assistiam cada detalhe com interesse e surpresa.
Elas viram a mais velha puxar a cadeira com delicadeza para que a assistente se sentasse ao seu lado, viram ela ajustar o guardanapo ao alcance de suas mãos e, quando os pratos principais foram servidos, tomou a iniciativa de servir os melhores cortes de carne de porco e os acompanhamentos no prato de Charlotte.
O ápice dessa onda de cuidados inéditos aconteceu quando uma travessa de camarões grelhados foi colocada no centro da mesa. Sem hesitar um segundo sequer, Engfa pegou um dos camarões, pegou os talheres adequados e começou a descascá-lo com uma paciência e um cuidado cirúrgico. Ela colocou o alimento já limpo no canto do prato de Charlotte, murmurando algo em tom baixo que apenas a assistente pôde ouvir, acompanhado de um sorriso terno.
A cena inteira parou o radar de Lena, Lingling e Lookmhee. Até mesmo Miu, que costumava ser discreta, ficou em choque com aquilo que viu.
Lingling, que mastigava distraidamente, parou no meio do movimento, com os olhos arregalados fixos na cena. Lena, que estava logo ao lado, estreitou os olhos com uma curiosidade analítica, absorvendo cada detalhe daquele gesto que desafiava todas as leis conhecidas do comportamento de Engfa, porém ela era a menos surpresa.
– Mas o que é isso que eu estou vendo? – Lookmhee murmurou tentando afastar a confusão que estava sua cabeça.
– Ela deve estar bêbada. Nem para nós ela descasca camarões. – Ling retruncou com um misto de choque e ciúmes.
– Por que vocês estão tão surpresas assim? P’Fa sempre foi uma mulher de ações e não de palavras. – Lena, embora intrigada, amenizou a situação com o que ela considerava ser uma explicação óbvia.
Assim que percebeu a oportunidade perfeita para disparar mais uma de suas piadas irônicas e arrancar gargalhadas da mesa, Lingling abriu a boca e inclinou o tronco para a frente, pronta para verbalizar a primeira provocação sobre a "nova e exclusiva funcionária particular da prima", mas antes que qualquer som pudesse sair de seus lábios, Lena foi mais rápida. Com uma precisão implacável, Lena esticou a mão por baixo da mesa e deu um pisão firme no pé da irmã, acompanhado de um olhar mortal e cortante que a fez fechar a boca instantaneamente, engolindo a piada a seco.
Enquanto Lingling resmungava baixinho esfregando o pé e Lena voltava a fingir naturalidade, Lookmhee permaneceu em silêncio. Diferente das irmãs, agora a expressão de Mhee não exibia o divertimento travesso ou a ânsia pela próxima brincadeira. Olhando fixamente para a forma como Engfa olhava para Charlotte — com uma suavidade e uma entrega que a empresária jamais havia demonstrado por ninguém — um aperto silencioso e uma preocupação genuína apertaram o coração da prima mais nova. Mhee sabia o peso que aquilo poderia gerar para todas a envolvidas, e ver Engfa se entregar daquele jeito, desarmada e vulnerável, acendeu um sinal de alerta em sua mente. Não porque seria de todo errado, mas por receio de que as coisas não estivessem acontecendo da maneira mais correta. Por fim, ela apenas respirou fundo, rezando mentalmente para que o destino fosse gentil com as duas. Caso contrário, ela se sentiria culpada por muito tempo.


Pouco tempo depois

Por Engfa

A festa de aniversário do pai da Mhee estava barulhenta e animada na medida certa, com luzes coloridas refletindo por todo o salão e minhas primas rindo alto de alguma piada no centro da rodinha. Mas, por mais festivo que o ambiente estivesse, bastou uma olhada rápida ao redor para perceber que faltava alguém. Charlotte.
Ela havia se afastado sutilmente do grupo há alguns minutos, e o meu instinto — que ultimamente parecia calibrado exclusivamente para rastrear cada passo dela — não me deixou sossegar. Deixei a taça de vinho sobre uma mesa de apoio e decidi sair daquele abafamento.
Segui os passos pela área externa da fazenda, guiada pelo som distante da música e pelo brilho prateado da luz da lua banhando os campos. Não demorou muito para encontrá-la. Charlotte estava sentada em um balanço de madeira preso à estrutura de uma árvore frondosa, balançando de leve os pés enquanto contemplava a imensidão calma da paisagem ao redor.
Confesso que aquela cena transmitiu beleza aos meus olhos observadores.
Aproximei-me com passos suaves na grama para não assustá-la, parando a poucos passos de distância.
— Licença... — Chamei baixinho, sustentando um meio sorriso quando ela se virou, sobressaltada. — Posso me sentar ao seu lado?
Charlotte piscou, surpresa, mas logo abriu espaço no assento de madeira, assentindo com a cabeça. Assim que me acomodei ao lado dela, balancei levemente o copo com suco fresco que havia trazido da mesa de bebidas e estendi em sua direção.
— Eu notei que você passou a noite inteira com as mãos vazias, sem beber absolutamente nada. — Comentei, oferecendo o copo com cuidado.
– Como você sabe disso?
– Eu te observei a noite toda. – Respondi com sinceridade.
Os olhos de Charlotte se arregalaram levemente. surpresos por eu ter reparado nisso em meio a tanta gente. Ela aceitou o copo com um sorriso tímido.
— Obrigada, Chefe. É que...
– Ah não! – A interrompi. – Não estamos no trabalho, Charlotte. Pelo menos aqui você tem que atender ao meu pedido e me chamar pelo o nome.
A repreensão a deixou tímida, mas um sorriso bonito foi desenhado por seus lábios.
– Tem razão! Bem, como eu ia dizendo… Eu não costumo beber nada com álcool. — Explicou ela, dando um gole pequeno no suco.
Arqueei uma sobrancelha, curiosa.
— Sério? Nunca? – Ela acenou em negação. – E tem algum motivo que explique isso, ou é apenas uma escolha?
— Bom, eu já bebi, sim, no passado. — Respondeu Charlotte, desviando o olhar por um segundo para a imensidão escura da plantação, a voz carregando um tom distante. — Mas já tem bastante tempo que não coloco uma gota de álcool na boca. Prefiro manter a mente clara. É apenas uma escolha. Além disso, gosto de cuidar bem da saúde e do meu corpo.
Balancei a cabeça em sinal de compreensão, absorvendo a resposta. Dei uma olhada rápida ao redor, apreciando a brisa fresca da noite que bagunçava levemente os nossos cabelos, antes de voltar minha atenção para ela.
— Eu posso te fazer uma pergunta?
– Claro! A vontade!
– Por que não está lá dentro com as outras? — Perguntei, franzindo o cenho de leve, com uma ponta de preocupação genuína. Eu me peguei pensando que não queria que ela se sentisse desconfortável na nossa presença. — Alguém te chateou com alguma gracinha? Alguma das minhas primas passou dos limites?
Charlotte balançou a cabeça rapidamente, abrindo um sorriso sincero que iluminou o seu rosto sob a luz da lua.
— Não, de jeito nenhum, Engfa. Suas primas são adoráveis e me recepcionaram muito bem. — Garantiu ela, rindo baixinho. — Não aconteceu nada de mal. Eu só queria um pouco de ar fresco.
Ela suspirou profundamente, fechando os olhos por um instante enquanto o vento balançava seus fios. Quando voltou a me encarar, havia uma serenidade linda em seu olhar e eu só conseguia pensar em como meu nome soou diferente sendo pronunciado por ela naquele instante.
— Sabe... eu realmente gosto da sensação de paz que este lugar transmite. É como se aqui fora o mundo parasse por um instante.
Suas palavras pairaram no ar de um jeito suave, dissipando qualquer resquício de preocupação que eu pudesse ter sobre sua presença no vilarejo, ou melhor, ao lado da minha prima. O silêncio que se seguiu não foi pesado ou constrangedor; pelo contrário, carregava uma calmaria que parecia nos isolar do resto do mundo, como se existíssemos apenas nós duas e aquele balanço que balançando ritmadamente sob a luz da lua.
Acomodei-me melhor na madeira do balanço, sentindo o ombro de Charlotte roçar de leve no meu a cada pequeno movimento. Pela primeira vez desde que nossos caminhos haviam se cruzado, não havia um clima denso que nos escondesse sob o peso de dúvidas ou constrangimentos por estarmos na presença uma da outra.
— Sabe... é irônico. — Comecei, quebrando o silêncio com um tom de confissão, enquanto olhava para as minhas próprias mãos apoiadas em meu colo. — Por muito tempo, eu achei que paz era sinônimo de silêncio absoluto no topo da minha sala. Acreditava que quanto mais controle eu tivesse sobre tudo ao meu redor, mais segura eu estaria. Mas, ouvindo você falar agora, percebo que nunca parei para apreciar o silêncio de verdade, muito menos a beleza da paisagem que temos o privilégio de ter em nossa volta. Eu acho que sou diferente das minhas primas, especialmente Lena. Ela costuma ver beleza em coisas que passam despercebidas por meus olhos.
– Talvez por isso ela seja escritora.
– Como assim?
Fiquei curiosa para compreender suas perspectivas.
– Escritores costumam ser mais idealistas, sensíveis e românticos.
– Ei, você está me dizendo que não posso ser romântica? – Fingi uma falsa indignação. No fundo eu sabia que ela tinha razão. Lena era exatamente aquele tipo de pessoa.
Charlotte virou o rosto para me encarar, os olhos brilhando com uma curiosidade genuína sob a penumbra.
— Eu acredito que você pode ser tudo. Basta você querer. – Aquele tom de voz parecia um desafio. – O controle é um escudo muito confortável, Engfa. — Ela disse, com uma sabedoria mansa que me desarmou por completo. — Mas ele cansa. Custa caro manter tudo milimetricamente nos eixos o tempo todo. Talvez você devesse experimentar libertar uma versão de si mesma que talvez vá te impressionar.
Fiquei em silêncio por um instante, absorvendo o peso daquelas palavras e o quanto elas se aplicavam à minha vida. Sem fazer muito esforço, Charlotte arrancou de mim um sorriso involuntário e torto que escapou dos meus lábios antes mesmo que eu pudesse contê-lo.
— Você tem um talento assustador para me desarmar com poucas palavras, sabia? — Brinquei, balançando levemente os pés para acompanhar o ritmo dela.
Charlotte riu baixinho, um som melodioso que se misturou ao cricri dos grilos na plantação.
– Ora, ora… posso me sentir honrada?
Nosso olhar se encontrou sob as estrelas que brilhavam no céu.
– É… Você pode. – Respondi quase em um murmuro.
Aquela simples constatação abriu as comportas para uma conversa que fluiu de um jeito que eu jamais poderia prever. Descobrimos, quase sem querer, que tínhamos muito mais em comum do que nossa convivência formal permitia imaginar. Conversamos sobre nossas manias mais bobas, como por exemplo, o meu hábito irritante de organizar canetas por ordem de cor e a mania dela de colecionar livros que terminava de ler em uma única madrugada, sobre gostos musicais que nos surpreendiam mutuamente e sobre a forma como ambas carregávamos um peso invisível de expectativas que os outros depositavam sobre nós.
Descobri naquela noite que a vida de Charlotte não foi fácil, embora ela tenha mudado de assunto rapidamente quando tentei aquela abordagem. Ela estava aberta para nos conhecermos, mas parecia existir um limite estabelecido em silêncio. Um limite que eu pretendia ultrapassar pouco a pouco.
Cada risada abafada, cada troca de olhares cúmplices e cada revelação despretensiosa ia construindo uma ponte invisível bem ali, no meio daquela noite calorosa. Eu podia sentir um laço se formando, forte e irreversível, costurando com um fio vermelho nossas histórias de um jeito que nenhuma das duas ousaria questionar.
Olhando para ela, com o rosto banhado pelo brilho prateado da lua e um sorriso tranquilo nos lábios, percebi que aquele balanço na fazenda do pai da Mhee havia se transformado em um dos meus lugares favoritos do mundo. E, pela primeira vez em anos, eu não queria controlar o que viria a seguir; eu só queria continuar ali, descobrindo cada pedacinho da mulher sentada ao meu lado.

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

0
Este capítulo ainda não recebeu comentários.
Informar violação das regras