Por Engfa
O cheiro doce de baunilha e café recém-coado misturava-se ao vapor que subia da minha xícara, mas nem isso parecia capaz de aquecer aquela manhã preguiçosa. A confeitaria de Miu estava agradavelmente silenciosa naquele horário, o que deveria ser um convite para relaxar. No entanto, meus dedos tamborilavam na mesa de madeira escura em um ritmo frenético, denunciando a bagunça que estava instalada na minha cabeça.
Sentada à minha frente, Lena cruzou os braços e me observou por cima da borda da própria xícara. Ela me conhecia desde a época em que éramos crianças correndo pelos arrozais da fazenda; Era algo irritante, mas bastava um piscar de olhos ou um suspiro mais fundo para que ela lesse cada centímetro da minha alma.
— Você vai furar a mesa com esses dedos se continuar nesse ritmo, Engfa. — Lena comentou, a voz tranquila carregando aquele tom perspicaz de quem já sabe o que vai ouvir. — O que está acontecendo? Você parece a corda de um violão prestes a arrebentar. É algum problema com o trabalho?
Dei de ombros, forçando uma indiferença que eu claramente não estava sentindo, e levei a xícara aos lábios.
— Não é nada, Lena. É apenas impressão sua. Minha cabeça está ótima, e o trabalho na fazenda segue no ritmo de sempre. Obrigada pela preocupação!
Lena soltou uma risada curta, um som divertido que ecoou pelo canto aconchegante da confeitaria. Ela balançou a cabeça, negando veementemente.
— Impressão minha? Engfa, eu te conheço desde sempre. Você só fica mastigando os próprios pensamentos desse jeito quando algo ou alguém está tirando o seu sono de forma drástica. E aposto que dessa vez não tem nada a ver com as planilhas que você tanto ama.
Fiquei em silêncio por um instante, encarando o líquido escuro na xícara. Tentei manter a fachada de frieza, mas sabia que mentir para Lena era perda de tempo. Soltei um suspiro pesado, rendendo-me à inevitável pressão da minha prima.
— É aquela mulher... a Charlotte. A nova assistente que Mhee jogou no meu colo. — Comecei, passando a mão pelos cabelos em um gesto de frustração contida. — É um inferno diário. Ela tem uma mania irritante de me responder à altura, de me olhar com aquele ar desafiador como se não temesse a minha autoridade, o que é extremamente contraditório a sua timidez que a deixa tão fofa.
– Como é que é? – Lena abriu a boca espantada.
– O que eu quero dizer é que parece que nós vivemos em um constante duelo de egos. – Me recusei em repetir aquilo que eu sabia ter causado surpresa na prima. Fui descuidada e era tarde demais para voltar atrás. – Ontem mesmo, no final do expediente, ela conseguiu me tirar do sério recusando uma simples carona só por puro orgulho e teimosia. Dá para acreditar? Agora se fosse a Mhee, aposto que ela aceitaria sem causar problema.
Lena estreitou os olhos, prestando atenção em cada detalhe, com um sorriso de canto que começou a se desenhar no rosto.
— Ah, entendi. Você está com ciúmes. Só me resta saber se é da Mhee ou da Charlotte.
Foi minha vez de ficar chocada.
– Não fala besteira, Lena. Eu lá tenho ciúmes de ninguém. – Retrunquei irritada.
– Uhum! Sei! Então a "vítima" da história é você? Mas pelo brilho nos seus olhos enquanto reclama, me parece que você está é fascinada por ter encontrado alguém que não abaixa a cabeça para a patroa. — Provocou ela, arqueando uma sobrancelha.
Revirei os olhos, mas não consegui rebater.
— Não é fascinação, Lena. É exaustão! — Admiti, sentindo as bochechas esquentarem levemente ao lembrar da cena. — É injusto que mesmo eu tendo tanto cuidado com ela, somente Mhee seja validada. Poxa, eu dei um voto de confiança a essa mulher mesmo achando que algo não está certo. E mesmo assim, ela age dessa maneira? Ontem a estrada estava um lamaçal e ela insistiu em ir a pé, só para não ter que aceitar uma carona minha. Eu até emprestei minha jaqueta porque ela estava tremendo de frio e... para piorar, fiz questão de estacionar em frente à casa dela e só sair de lá depois de ver a luz da sala acesa e ter certeza de que ela trancou a porta e estava em segurança. Mas tudo isso pra quê? Ela é sempre tão resistente.
Eu mal consegui esconder a frustração que sentia por não conseguir compreender o enigma chamado Charlotte Austin.
Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi o peso delas. Lena arregalou os olhos, a xícara parou a centímetros da boca e ela me encarou com uma mistura de surpresa e diversão estampada no rosto.
— Espera aí... Você? A mulher mais independente e focada do universo da nossa família ficou bancando a sentinela na porta da casa de uma funcionária recém-chegada e que aparentemente você desconfia? — Lena disparou, rindo abertamente agora. — Engfa Waraha, você está completamente perdida e ainda tem a pachorra de chamar isso de implicância!
Cruzei os braços, tentando erguer o queixo para recuperar a dignidade.
— Eu só estava zelando pelo bem-estar de um membro da minha equipe para evitar qualquer tipo de problema trabalhista ou de saúde, Lena. Não é nada além disso!
— Se poupe, Engfa! — Lena cortou, inclinando-se sobre a mesa com um olhar cúmplice e perspicaz. — Sabe qual é o verdadeiro problema aqui? Toda essa sua irritação, esses pivôs de ciúmes descabido, esses pequenos confrontos e essa necessidade de controlar cada passo dela significam que vocês têm muito mais em comum do que ousam admitir. Você está se importando com Charlotte muito mais do que julga ser possível.
Ela deu uma pausa dramática, tomando um gole do seu café antes de desferir o golpe final:
— E o mais irônico de tudo isso é que você vive resmungando pelos cantos criticando e ignorando a superproteção exagerada que a Mhee tem com ela... mas, no fim das contas, você está agindo exatamente igual, se não pior. A única diferença é que a Mhee faz isso às claras, e você está inventando desculpas profissionais para esconder o fato de que já está completamente envolvida.
O silêncio despencou sobre a mesa. As palavras de Lena bateram com tanta precisão cirúrgica no meu peito que eu fiquei sem fôlego por alguns segundos. Tentei formular uma defesa, abrir a boca para dizer que ela estava louca, mas nenhuma frase lógica me ocorreu. Eu simplesmente fiquei ali, olhando para a minha xícara vazia, percebendo com um frio na barriga assustador que a minha prima acertara em cheio.
Horas mais tarde
A sala de reuniões parecia menor do que o habitual. O ar condicionado zumbia baixo, mas a tensão na mesa era palpável. À minha frente, sentado com uma postura rígida e braços cruzados, estava o Sr. Somchai, um dos fornecedores mais tradicionais e inflexíveis da nossa região, famoso por espremer margens de lucro e dificultar qualquer negociação.
Ao meu lado, Charlotte mantinha-se impecável. Vestia uma calça de alfaiataria discreta e uma blusa de gola alta que contrastava com a palidez de seu rosto, embora seus olhos estivessem firmes e focados na tela do notebook à sua frente. Eu havia pedido que ela preparasse a apresentação técnica, mas confesso que esperava apenas um suporte básico para que eu pudesse conduzir a maior parte do acordo. Eu certamente havia subestimado a eficiência dela.
Estávamos no meio de um impasse sobre os custos de importação e os reajustes de tabela que Somchai exigia, quando ele deu uma risada curta e desdenhosa, ajeitando a gravata.
— Srta. Waraha, com todo o respeito à tradição da sua família, o mercado está inflacionado. Meus concorrentes estão oferecendo o mesmo volume por um preço menor. Se não fecharmos este contrato nos meus termos, terei que repassar minha produção para outros compradores. É simples assim.
O peso da ameaça pairou no ar. Eu já respirava fundo, preparando a minha resposta mais cortante para colocar o fornecedor em seu devido lugar, quando um movimento sutil ao meu lado me deteve.
Charlotte levantou a mão esquerda, estendendo a palma de forma polida, mas com uma autoridade silenciosa que me pegou totalmente de surpresa.
— Com licença, chefe. Posso assumir a palavra por um momento? — Ela me olhou de soslaio, a voz baixa, mas perfeitamente audível na sala.
Pisquei, surpresa com a ousadia. Meus instintos protetores e gerenciais lutaram por um segundo, mas a curiosidade — e a centelha de desafio que eu conhecia tão bem naqueles olhos — falaram mais alto. Inclinei a cabeça levemente, assentindo em silêncio para dar-lhe espaço.
Charlotte virou o notebook para o centro da mesa, maximizando uma planilha de análise comparativa que eu sequer sabia que ela havia estruturado com tanta profundidade. Quando ela começou a falar, a garota tímida e encolhida parecia ter evaporado por completo.
— Sr. Somchai, compreendo sua preocupação com margens, mas o senhor está olhando apenas para o topo da planilha e ignorando a anatomia do próprio negócio. — Começou Charlotte, com uma firmeza magnética que fez o empresário endireitar a postura na cadeira, surpreso.
Com uma fluidez impressionante, ela deslizou pelos dados, apontando gráficos de perda por umidade, taxas de quebra no transporte e custos ocultos que os concorrentes de Somchai empurravam para os compradores.
— O senhor menciona que a concorrência oferece um valor menor por tonelada. No entanto, o índice de impureza e a falta de padronização térmica nos grãos deles geram uma perda de quase oito por cento no processamento final. Na prática, o que parece um desconto no preço de compra se transforma em um prejuízo operacional de dezenas de milhares de reais para quem importa — Explicou ela, gesticulando com elegância, segura de cada número que exibia. — Com os nossos padrões de triagem e o volume que a minha chefe assegura neste contrato, o senhor não está apenas garantindo o menor preço do mercado por quilo útil; o senhor está eliminando o seu próprio risco de rejeição de lote na alfândega. É uma vantagem de qualidade que nenhum concorrente na região consegue entregar.
Eu permaneci imóvel, recostada na cadeira, com os olhos fixos nela. O Sr. Somchai abriu a boca para argumentar, mas fechou em seguida, visivelmente sem palavras. Ele piscou para a tela, depois para Charlotte, percebendo que a minha assistente havia desmontado toda a sua estratégia de barganha com argumentos irrefutáveis e dados irretocáveis.
— Bem... — O homem pigarreou, a arrogância inicial substituída por um respeito cauteloso. — Analisando por esse prisma técnico... os números fazem sentido. Vamos manter os termos da nossa proposta original, Srta. Waraha. Tem minha assinatura.
A reunião foi encerrada poucos minutos depois com o contrato fechado exatamente nos termos que nos beneficiavam. Assim que a porta da sala de reuniões se fechou atrás do fornecedor, o silêncio desabou sobre nós.
Virei-me inteiramente para Charlotte. Meu peito batia em um ritmo acelerado, tomado por uma onda avassaladora de orgulho e pura admiração. Eu não apenas a respeitava profissionalmente agora; eu estava completamente fascinada.
— Pelos céus, Charlotte... Onde você estava escondida esse tempo todo? — Soltei, deixando escapar um sorriso largo que eu não fiz questão de conter.
Charlotte deu um passo para trás, sentindo as bochechas ruborizarem instantaneamente com o elogio direto. Ela baixou o olhar para os próprios sapatos, mexendo nervosamente na alça da pasta de documentos, visivelmente acanhada por ter tomado o protagonismo daquela forma.
— Eu... desculpe se passei do limite ao interromper, chefe. Achei que os dados precisavam ser expostos para salvarmos a negociação. — Murmurou ela, a voz voltando àquele tom tímido que eu já conhecia tão bem.
— Você não passou do limite, Charlotte. Você simplesmente atropelou todas as minhas expectativas da forma mais brilhante possível. — Interrompi, levantando-me da cadeira e contornando a mesa para parar bem perto dela. Inclinei levemente o tronco para garantir que ela me olhasse nos olhos. — Foi uma aula de estratégia impecável. Você foi formidável hoje.
O elogio franco fez o rosto de Charlotte corar ainda mais, tingindo sua pele de um carmesim intenso, mas os lábios dela se curvaram em um sorriso genuíno, iluminado por uma alegria profunda e aliviada por ter conseguido suprir e superar tudo o que eu esperava dela.
Enquanto a encarava ali, tão vulnerável e ao mesmo tempo tão brilhante, percebi que Lena estava absolutamente certa: eu já não conseguia mais fingir que ela era apenas uma funcionária comum. E o pior — ou melhor — de tudo era que eu não queria mais tentar esconder isso.
Por Charlotte
O relógio da parede marcava quase meio-dia quando a porta foi aberta sem o menor cerimônia. Lookmhee apareceu ali, sorridente, balançando as chaves do carro como se fosse uma campainha ambulante.
— Fim do expediente matinal para a melhor assistente que essa fazenda já viu! Vamos, Charlotte. Se você recusar meu convite para almoçar, eu choro aqui mesmo e faço um escândalo no meio dos relatórios da minha prima. — Mhee disparou, já puxando levemente o meu braço para me incentivar a levantar.
Dei uma risada fraca, desligando a tela do computador.
— Você não existe, Mhee. Eu já estava guardando as pastas.
Enquanto ajeitava minha bolsa, ouvi passos firmes vindos do corredor. Engfa apareceu na entrada da sala, vestindo sua habitual postura impecável, embora houvesse algo diferente em sua expressão. Seus olhos passaram de mim para Mhee, estreitando-se ligeiramente. Havia uma inquietação sutil, quase imperceptível para quem não a conhecia bem, mas que se manifestava na forma como ela cruzou os braços e tencionou o maxilar.
— Onde vocês pensam que vão? Você não pode surgir aqui sempre que bem quiser, e ainda por cima roubar minha assistente em horário de expediente, Mhee.
Mantendo sua postura extravagante e descontraída, Mhee envolveu o pescoço da prima e a beijou no rosto sem cerimônia.
– Eu adoro a maneira como você demonstra que está feliz em me ver, prima. A propósito, já não estamos mais no horário do expediente. Charlotte está em horário de almoço.
Mhee olhou para a prima, depois para mim, e um sorriso intrigado e cúmplice cruzou o rosto da caçula.
— Ora, P'Fa! Deixe a garota respirar um pouco. Ela tem te aturado por mais tempo do que achei ser possível. O mínimo que você pode fazer é ceder a sua assistente por uma hora, é um horário digno de almoço.— Mhee rebateu, divertida, arqueando uma sobrancelha. — Além do mais, prometo devolvê-la inteira e no horário de segundo turno de expediente.
Engfa soltou um suspiro curto, desviando o olhar para o lado por um segundo, parecendo lutar contra um incômodo interno que nem ela mesma parecia compreender inteiramente.
— Tudo bem. Apenas... não demorem demais. — Murmurou Engfa, dando meia-volta e sumindo pelo corredor, deixando para trás um rastro de tensão que eu absolutamente não consegui decifrar.
Fiquei parada por um instante, olhando para o corredor vazio, sentindo o peito apertar de um jeito estranho com aquela atitude dela. Mas Mhee me puxou pelo braço, rindo baixinho.
— Venha, vamos comer antes que ela mude de ideia e invente mais uma planilha para você resolver.
Dez minutos depois, já estamos acomodadas em uma mesa reservada em um restaurante aconchegante na saída do vilarejo. O cardápio estava aberto à nossa frente, mas o foco de Mhee não era a comida. Assim que o garçom se afastou, ela apoiou os cotovelos na mesa e me encarou com os olhos brilhando de curiosidade.
— E então? Me conte tudo. Como tem sido trabalhar diretamente com a minha prima mais exigente? — Mhee perguntou, balançando a perna embaixo da mesa em um ritmo ansioso. – Tenho certeza que essa pergunta todas minhas vão fazer quando te conhecer. É meio que uma curiosidade compartilhada por todas nós, quando alguém novo começa trabalhar com ela.
Um sorriso inevitável brotou no meu rosto. A lembrança da reunião daquele dia ainda aquecia meu peito.
— Tem sido intenso, Mhee. Mas incrível também. — Comecei, gesticulando com animação. — Hoje de manhã tivemos uma reunião difícil com o Sr. Somchai. Um fornecedor inflexível, mas importante para o andamento dos negócios. Eu acabei pedindo permissão para apresentar os dados que tinha estruturado, e... bem, conseguimos fechar o contrato nos nossos termos. Sua prima ficou impressionada. Foi a primeira vez que senti que meu trabalho realmente fez a diferença ali dentro.
Mhee abriu um sorriso enorme, batendo palmas baixinho.
— Eu sabia! Eu sabia que você ia tirar de letra! — Ela comemorou, radiante. — E deixe-me te dizer uma coisa, Charlotte: Engfa é extremamente criteriosa. Se ela ficou impressionada, é porque você foi brilhante. Ela adora pessoas proativas, que não esperam ordens, mas que resolvem os problemas antes mesmo que eles cheguem à mesa dela. Vocês têm muito mais em comum do que imaginam.
Franzi o nariz, negando com a cabeça.
— Não exagere, Mhee. No trabalho, sim, nós funcionamos bem. Mas fora dele? Não existe um "fora do trabalho" para nós. Nós somos estritamente chefe e assistente. Quer dizer... exceto ontem à noite, quando ela praticamente me obrigou a aceitar uma carona.
Mhee parou na mesma hora, os olhos arregalados de puro interesse. Ela inclinou o corpo para a frente, parecendo uma criança prestando atenção na melhor parte de uma fofoca.
— Espera aí. Ela te deu carona? Conte-me os detalhes agora mesmo! Minha prima não costuma dar carona para funcionária nenhuma, muito menos com ar de heroína protetora!
Respirei fundo, sentindo as bochechas esquentarem ao lembrar da cena e da gentileza da mais velha em me oferecer sua jaqueta que eu ainda guardava comigo para devolver em uma oportunidade próxima.
— Não foi nada demais... A estrada estava um lamaçal por causa da chuva, eu recusei ir de carro por orgulho, afinal, não queria incomodá-la ainda mais. Ela perdeu a paciência, e me obrigou a entrar, me emprestou a jaqueta dela porque eu estava com frio e... para coroar a noite, ficou parada na frente da minha casa até ter certeza de que eu havia trancado a porta e acendido a luz.
Contei os detalhes baixando o olhar para o guardanapo, tentando disfarçar o calor repentino no rosto.
Mhee soltou uma risada estridente, cobrindo a boca com as mãos para não chamar atenção das outras mesas. Seu lado fofoqueiro estava visivelmente radiante, com um sorriso de orelha a orelha.
— Ela fez o quê?! A P'Fa bancou a sentinela na sua porta? — Mhee quase gritou, rindo abertamente. — Oh, por Deus! Isso é tão típico dela quando está tentando esconder que estar se importando com alguém.
— Não seja exagerada! Por que ela se importaria comigo? Mhee, ela só estava sendo gentil. — Argumentei, embora minha voz soasse fraca até para mim mesma.
Mhee suspirou, balançando a cabeça com um sorriso divertido, antes de me encarar com uma seriedade repentina que me pegou desprevenida. Ela cruzou os braços sobre a mesa e perguntou, num tom casual, mas cortante:
— Sendo muito sincera, Charlotte... O que você acha da minha prima como mulher? Quero dizer, além de chefe.
Engasguei com a água que acabará de beber, tossindo levemente e levando a mão ao peito enquanto sentia meu rosto queimar de um vermelho intenso.
— Mhee! O que deu em você?! — Exclamei, repreendendo-a em um sussurro estridente, sentindo o coração disparar. — Eu não enxergo a Engfa dessa maneira! Ela é minha chefe, salvou minha vida me dando esse emprego e uma casa, e ponto final. Não existe nada além disso!
Mhee ergueu as mãos em rendição, embora o sorriso divertido continuasse dançando em seus lábios.
— Calma, respire! Eu só estou te fazendo uma pergunta, Charlotte. Você não precisa se defender com tantos argumentos. — Disse ela, suavizando o tom, mas mantendo o olhar firme em mim. — Mas preste atenção no que vou te dizer: Se por acaso — repito, se por acaso — algo começasse a surgir entre você e a P'Fa, você iria precisar ser totalmente honesta com ela sobre tudo. Eu me importo com seu bem-estar, e amo minha prima.
Pisquei, confusa com a guinada repentina na conversa.
Mhee recostou-se na cadeira, fitando-me com uma expressão de sincera preocupação misturada com cautela.
— Se as coisas simplesmente acontecessem e fugissem do seu controle, você já estaria preparada para contar a ela a verdade sobre as condições que te trouxeram para cá?
O silêncio desabou sobre a nossa mesa. As palavras de Mhee cortaram a alegria do almoço como uma lâmina fria, apagando o calor do momento e deixando um nó sufocante na minha garganta. Encarei meu copo, com a mente de repente inundada por todas as sombras que eu havia tentado deixar para trás, fazendo-me perceber que, por mais que eu quisesse fugir, o passado mais cedo ou mais tarde exigiria uma resposta.
Por Charlotte
Uma semana depois
O sol da manhã já alta iluminava os corredores da fazenda, mas a minha atenção estava completamente voltada para a mesa de Engfa. Naquela manhã, desde o momento em que cruzamos a porta do escritório, algo na postura dela havia me incomodado.
Engfa mantinha os olhos fixos na tela do computador, mas havia uma palidez incomum em seu rosto, e a respiração saía ligeiramente mais pesada do que o normal. Aproximando-me para entregar a pasta com os relatórios semanais, percebi o suor frio em sua testa e o leve tremor em suas mãos ao segurar a caneta.
— Chefe, você está bem? — Perguntei, franzindo a testa, sentindo uma súbita preocupação me dominar. — Sua pele está muito pálida e você parece febril.
Engfa ergueu o rosto, tentando esboçar um sorriso tranquilizador que não convenceria ninguém. Ela tossiu de leve, pigarreando para limpar a voz.
— Eu estou ótima, Charlotte. Apenas uma noite mal dormida, nada de mais. Temos aquela auditoria hoje e... — Ela tentou argumentar, mas foi interrompida por uma nova onda de tosse fraca que ela tentou disfarçar às pressas.
Cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha com toda a firmeza profissional que consegui reunir, embora por dentro eu estivesse desesperada.
— Você está claramente doente e insistindo em trabalhar nesse estado? — Falei, num tom que não abria margem para discussões. — Pare agora! A auditoria pode esperar. Você precisa é de repouso e medicação. Aguarde aqui, por favor chefe!
Antes que ela pudesse retrucar ou inventar mais alguma desculpa para continuar trabalhando, virei-me nos calcanhares e decidi agir por conta própria. Saí da fazenda apressada, rumo à pequena farmácia que ficava no centrinho do vilarejo a poucos minutos dali.
Enquanto caminhava pelas ruas tranquilas, tentando me lembrar de tudo o que seria necessário… antitérmico, analgésico e ingredientes para um bom chá calmante, uma voz conhecida chamou o meu nome.
— Charlotte? O que aconteceu? Por que essa pressa toda? Aliás, por que você não está no trabalho nessa hora? — Perguntou Lookmhee, surgindo na calçada oposta com umas pastas debaixo do braço e parando diante de mim com uma expressão curiosa.
Parei por um instante, respirando fundo para recuperar o fôlego.
— Mhee! Que bom te ver. Estou indo à farmácia e ao empório. – Expliquei, gesticulando levemente com as mãos. — Sua prima está doente, com febre alta e mal conseguindo parar em pé, mas teimosa do jeito que é, cismou em continuar trabalhando no escritório. Vou comprar medicamentos e itens para preparar um chá para ela.
A expressão de Lookmhee mudou instantaneamente, transformando-se em uma mistura de surpresa e genuína preocupação. Os olhos dela se arregalaram.
— A Engfa doente? Poxa vida... — Mhee balançou a cabeça, suspirando fundo. — Olha, Charlotte, sendo bem sincera com você? É bom ir preparando o espírito, porque ela com certeza vai recusar tomar qualquer remédio. Desde que éramos crianças, a Engfa tem uma birra homérica com medicamentos. Ela faz pirraça, esconde os comprimidos e diz que o gosto amargo é castigo divino!
Eu deixei escapar um meio sorriso, balançando a cabeça diante daquela revelação sobre a mulher tão imponente e durona nos negócios.
— Bem, ela vai ter que lidar comigo dessa vez, porque eu não vou sair do lado dela até ver que a febre baixe. — Garanti, determinada.
Lookmhee deu um sorriso terno, mas logo seu rosto voltou a se fechar em uma careta de frustração ao olhar para o relógio de pulso.
— Eu adoraria ir com você para te dar apoio moral nessa missão impossível e ver a cara dela cedendo, mas infelizmente não vou poder acompanhar você de volta — Lamentou Mhee, ajeitando a prancheta. — Tenho uma reunião agora e estou super atrasada. Mas boa sorte, Charlotte! Você vai precisar para convencer a minha prima teimosa! Me mande notícias dela.
Me despedi rapidamente de Mhee e acelerei o passo rumo à farmácia.
Já com os remédios e os ingredientes do chá seguros na bolsa, dei meia-volta e retornei correndo para a fazenda, pronta para travar o que prometia ser uma verdadeira batalha.
Assim que abri a porta do escritório, carregando a sacola da farmácia e os ingredientes para o chá, encontrei Engfa exatamente do jeito que a havia deixado: curvada sobre a mesa, tentando manter a postura inabalável enquanto o suor frio denunciava o seu estado deplorável.
— Você está realmente péssima. E nem ouse dizer que está tudo bem. — Disparei, aproximando-me com passos firmes e colocando a sacola sobre a madeira.
Engfa ergueu o rosto devagar, piscando com dificuldade. Os lábios estavam secos e os olhos, antes tão penetrantes, agora brilhavam com um cansaço transparente. Ela tentou esboçar um sorrisinho irônico, mas uma nova tosse fraca cortou sua tentativa.
— Charlotte... eu só preciso terminar... esses relatórios... — Murmurou ela, com a voz completamente fraca.
— Você não vai terminar absolutamente nada hoje. — Ordenei, abrindo a caixinha de remédios com pressa e tirando um copo de água fresca da garrafa térmica. Estendi o comprimido para ela, encarando-a com seriedade. — Tome! Agora!
Engfa recuou o corpo, fazendo uma careta infantil de total repulsa ao ver o comprimido na minha palma.
— Eu odeio remédios, Charlotte... Tem gosto de fim de mundo. Não preciso disso, juro que logo passa... — Reclamou ela, cruzando os braços com uma teimosia que beirava o cômico se a situação não fosse tão séria.
Lembrei-me imediatamente do aviso de Lookmhee, o que só fez minha determinação triplicar. Cruzei os braços e encarei a minha chefe com toda a autoridade que consegui invocar.
— Olha, srta Engfa Waraha, você pode ser uma executiva temida no mercado inteiro e mandar em metade do vilarejo, mas comigo essa birra não vai funcionar. Ou você toma esse remédio por bem, ou eu mesma coloco na sua boca e te obrigo a engolir. Escolha!
Ela arregalou os olhos levemente, surpresa com a minha audácia. Mas, ao ver que eu não cederia nem um milímetro, suspirou derrotada, aceitando o comprimido e engolindo-o com a água, fazendo uma careta que me arrancou um meio sorriso de vitória.
No entanto, o alívio durou pouco. Quando encostei de leve a ponta dos meus dedos em sua testa, o meu coração disparou de susto. Ela estava fervendo. A febre havia subido assustadoramente rápido.
— Meu Deus, chefe... Você está queimando! — Exclamei, sentindo o pânico me dominar. Sem esperar nova permissão, fechei o notebook dela, juntei suas coisas e a puxei com cuidado pela mão. — Levanta. Acabou o expediente. Vou te levar para a sua casa agora mesmo.
Ela não teve forças para argumentar. Deixou-se guiar até o seu carro que tomei a liberdade de dirigir. Assim que entramos e dei a partida, o cansaço cobrou o seu preço de vez. No curto trajeto até a residência dela, Engfa tombou a cabeça para o lado, adormecendo profundamente no banco do carona, com a respiração pesada e as bochechas coradas pela febre.
Ao chegarmos, o verdadeiro desafio começou. A ajudei descer do carro, apoiando o peso dela contra o meu corpo, e a conduzi até o interior da sua casa espaçosa e silenciosa.
Mesmo com toda a timidez apertando o meu peito por estar ali sem que tivéssemos qualquer intimidade, e fazendo minhas mãos tremerem levemente, consegui guiá-la até o quarto. Tirei seu terno pesado e, seguindo o roteiro clássico daquelas cenas delicadas e íntimas tão comuns nos dramas tailandeses que eu costumava assistir, ajudei-a a se deitar confortavelmente sob os cobertores macios da cama de casal.
Fui rapidamente ao banheiro, peguei uma bacia com água fresca e uma toalha de rosto limpa. Quando retornei ao quarto e me sentei na beirada da cama notando que Engfa estava acordada travando uma batalha desnecessária contra o sono. Ela não dizia uma palavra sequer; mantinha-se imóvel, com os olhos escuros fixos em cada movimento meu, observando-me em um silêncio absoluto e carregado de um significado incompreensível.
Com as mãos trêmulas de nervosismo, umedeci a toalha, torci o excesso de água e comecei a passá-la com todo o cuidado pela testa dela, descendo suavemente pelo contorno do rosto, passando pelo pescoço, pelos os braços e por suas mãos quentes.
O contraste da água fresca com a pele escaldante de Engfa, fazia um leve suspiro escapar de seus lábios. A cada toque da toalha, a tensão dentro do quarto parecia se adensar, transformando-se em algo palpável, sufocante e eletrizante.
O ar tornou-se rarefeito. Nossos olhares se cruzaram fixamente na penumbra do quarto iluminado apenas pela luz fraca da abajur, já que fechei a janela para a claridade do sol não incomodá-la. Havia uma confusão estranha e ensurdecedora no ar. Era um turbilhão de sentimentos onde a preocupação se misturava a um algo a mais avassalador.
— Você é atrevida, mas está cuidando bem de mim... — Murmurou Engfa, com a voz rouca, quase inaudível, sem desviar os olhos dos meus por nem um segundo sequer. – Obrigada!
Senti meu rosto corar intensamente, mas permaneci ali, paralisada pela intensidade daquele olhar, percebendo que, por mais que existissem algumas muralhas em nossa convivência, eu não poderia ser indiferente a preocupação que sentia com seu estado.
– Não é nada demais! Agora fica quieta e descansa. Quando você acordar vai se sentir bem melhor.
Um meio sorriso surgiu no canto dos lábios de Engfa enquanto seus olhos fecharam. Eu não compreendi o que significava aquele gesto, mas logo ela disse:
– Isso é realmente confuso.
– Desculpe… Não entendi. O que é confuso?
– Você é a única que parece não medir as palavras comigo. E também a única que exerce algum tipo de autoridade sem encontrar resistência.
Engfa disse aqui sem que seu olhar estivesse conectado com o meu. Eu não pude ver o brilho, a intensidade, tão pouco o significado por trás daquelas palavras. Mas uma coisa era certa… Meu coração bateu mais rápido.
Após me certificar que Engfa estava dormindo tranquilamente e que sua febre havia baixado, mandei mensagem para Lookmhee atualizando informações sobre o estado de saúde da sua prima e pedindo para que mais tarde ela a visitasse. Em seguida, tranquei tudo e a deixei enquanto ignorava o desejo do meu coração em ficar ali cuidando dela.
O cheiro doce de baunilha e café recém-coado misturava-se ao vapor que subia da minha xícara, mas nem isso parecia capaz de aquecer aquela manhã preguiçosa. A confeitaria de Miu estava agradavelmente silenciosa naquele horário, o que deveria ser um convite para relaxar. No entanto, meus dedos tamborilavam na mesa de madeira escura em um ritmo frenético, denunciando a bagunça que estava instalada na minha cabeça.
Sentada à minha frente, Lena cruzou os braços e me observou por cima da borda da própria xícara. Ela me conhecia desde a época em que éramos crianças correndo pelos arrozais da fazenda; Era algo irritante, mas bastava um piscar de olhos ou um suspiro mais fundo para que ela lesse cada centímetro da minha alma.
— Você vai furar a mesa com esses dedos se continuar nesse ritmo, Engfa. — Lena comentou, a voz tranquila carregando aquele tom perspicaz de quem já sabe o que vai ouvir. — O que está acontecendo? Você parece a corda de um violão prestes a arrebentar. É algum problema com o trabalho?
Dei de ombros, forçando uma indiferença que eu claramente não estava sentindo, e levei a xícara aos lábios.
— Não é nada, Lena. É apenas impressão sua. Minha cabeça está ótima, e o trabalho na fazenda segue no ritmo de sempre. Obrigada pela preocupação!
Lena soltou uma risada curta, um som divertido que ecoou pelo canto aconchegante da confeitaria. Ela balançou a cabeça, negando veementemente.
— Impressão minha? Engfa, eu te conheço desde sempre. Você só fica mastigando os próprios pensamentos desse jeito quando algo ou alguém está tirando o seu sono de forma drástica. E aposto que dessa vez não tem nada a ver com as planilhas que você tanto ama.
Fiquei em silêncio por um instante, encarando o líquido escuro na xícara. Tentei manter a fachada de frieza, mas sabia que mentir para Lena era perda de tempo. Soltei um suspiro pesado, rendendo-me à inevitável pressão da minha prima.
— É aquela mulher... a Charlotte. A nova assistente que Mhee jogou no meu colo. — Comecei, passando a mão pelos cabelos em um gesto de frustração contida. — É um inferno diário. Ela tem uma mania irritante de me responder à altura, de me olhar com aquele ar desafiador como se não temesse a minha autoridade, o que é extremamente contraditório a sua timidez que a deixa tão fofa.
– Como é que é? – Lena abriu a boca espantada.
– O que eu quero dizer é que parece que nós vivemos em um constante duelo de egos. – Me recusei em repetir aquilo que eu sabia ter causado surpresa na prima. Fui descuidada e era tarde demais para voltar atrás. – Ontem mesmo, no final do expediente, ela conseguiu me tirar do sério recusando uma simples carona só por puro orgulho e teimosia. Dá para acreditar? Agora se fosse a Mhee, aposto que ela aceitaria sem causar problema.
Lena estreitou os olhos, prestando atenção em cada detalhe, com um sorriso de canto que começou a se desenhar no rosto.
— Ah, entendi. Você está com ciúmes. Só me resta saber se é da Mhee ou da Charlotte.
Foi minha vez de ficar chocada.
– Não fala besteira, Lena. Eu lá tenho ciúmes de ninguém. – Retrunquei irritada.
– Uhum! Sei! Então a "vítima" da história é você? Mas pelo brilho nos seus olhos enquanto reclama, me parece que você está é fascinada por ter encontrado alguém que não abaixa a cabeça para a patroa. — Provocou ela, arqueando uma sobrancelha.
Revirei os olhos, mas não consegui rebater.
— Não é fascinação, Lena. É exaustão! — Admiti, sentindo as bochechas esquentarem levemente ao lembrar da cena. — É injusto que mesmo eu tendo tanto cuidado com ela, somente Mhee seja validada. Poxa, eu dei um voto de confiança a essa mulher mesmo achando que algo não está certo. E mesmo assim, ela age dessa maneira? Ontem a estrada estava um lamaçal e ela insistiu em ir a pé, só para não ter que aceitar uma carona minha. Eu até emprestei minha jaqueta porque ela estava tremendo de frio e... para piorar, fiz questão de estacionar em frente à casa dela e só sair de lá depois de ver a luz da sala acesa e ter certeza de que ela trancou a porta e estava em segurança. Mas tudo isso pra quê? Ela é sempre tão resistente.
Eu mal consegui esconder a frustração que sentia por não conseguir compreender o enigma chamado Charlotte Austin.
Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi o peso delas. Lena arregalou os olhos, a xícara parou a centímetros da boca e ela me encarou com uma mistura de surpresa e diversão estampada no rosto.
— Espera aí... Você? A mulher mais independente e focada do universo da nossa família ficou bancando a sentinela na porta da casa de uma funcionária recém-chegada e que aparentemente você desconfia? — Lena disparou, rindo abertamente agora. — Engfa Waraha, você está completamente perdida e ainda tem a pachorra de chamar isso de implicância!
Cruzei os braços, tentando erguer o queixo para recuperar a dignidade.
— Eu só estava zelando pelo bem-estar de um membro da minha equipe para evitar qualquer tipo de problema trabalhista ou de saúde, Lena. Não é nada além disso!
— Se poupe, Engfa! — Lena cortou, inclinando-se sobre a mesa com um olhar cúmplice e perspicaz. — Sabe qual é o verdadeiro problema aqui? Toda essa sua irritação, esses pivôs de ciúmes descabido, esses pequenos confrontos e essa necessidade de controlar cada passo dela significam que vocês têm muito mais em comum do que ousam admitir. Você está se importando com Charlotte muito mais do que julga ser possível.
Ela deu uma pausa dramática, tomando um gole do seu café antes de desferir o golpe final:
— E o mais irônico de tudo isso é que você vive resmungando pelos cantos criticando e ignorando a superproteção exagerada que a Mhee tem com ela... mas, no fim das contas, você está agindo exatamente igual, se não pior. A única diferença é que a Mhee faz isso às claras, e você está inventando desculpas profissionais para esconder o fato de que já está completamente envolvida.
O silêncio despencou sobre a mesa. As palavras de Lena bateram com tanta precisão cirúrgica no meu peito que eu fiquei sem fôlego por alguns segundos. Tentei formular uma defesa, abrir a boca para dizer que ela estava louca, mas nenhuma frase lógica me ocorreu. Eu simplesmente fiquei ali, olhando para a minha xícara vazia, percebendo com um frio na barriga assustador que a minha prima acertara em cheio.
Horas mais tarde
A sala de reuniões parecia menor do que o habitual. O ar condicionado zumbia baixo, mas a tensão na mesa era palpável. À minha frente, sentado com uma postura rígida e braços cruzados, estava o Sr. Somchai, um dos fornecedores mais tradicionais e inflexíveis da nossa região, famoso por espremer margens de lucro e dificultar qualquer negociação.
Ao meu lado, Charlotte mantinha-se impecável. Vestia uma calça de alfaiataria discreta e uma blusa de gola alta que contrastava com a palidez de seu rosto, embora seus olhos estivessem firmes e focados na tela do notebook à sua frente. Eu havia pedido que ela preparasse a apresentação técnica, mas confesso que esperava apenas um suporte básico para que eu pudesse conduzir a maior parte do acordo. Eu certamente havia subestimado a eficiência dela.
Estávamos no meio de um impasse sobre os custos de importação e os reajustes de tabela que Somchai exigia, quando ele deu uma risada curta e desdenhosa, ajeitando a gravata.
— Srta. Waraha, com todo o respeito à tradição da sua família, o mercado está inflacionado. Meus concorrentes estão oferecendo o mesmo volume por um preço menor. Se não fecharmos este contrato nos meus termos, terei que repassar minha produção para outros compradores. É simples assim.
O peso da ameaça pairou no ar. Eu já respirava fundo, preparando a minha resposta mais cortante para colocar o fornecedor em seu devido lugar, quando um movimento sutil ao meu lado me deteve.
Charlotte levantou a mão esquerda, estendendo a palma de forma polida, mas com uma autoridade silenciosa que me pegou totalmente de surpresa.
— Com licença, chefe. Posso assumir a palavra por um momento? — Ela me olhou de soslaio, a voz baixa, mas perfeitamente audível na sala.
Pisquei, surpresa com a ousadia. Meus instintos protetores e gerenciais lutaram por um segundo, mas a curiosidade — e a centelha de desafio que eu conhecia tão bem naqueles olhos — falaram mais alto. Inclinei a cabeça levemente, assentindo em silêncio para dar-lhe espaço.
Charlotte virou o notebook para o centro da mesa, maximizando uma planilha de análise comparativa que eu sequer sabia que ela havia estruturado com tanta profundidade. Quando ela começou a falar, a garota tímida e encolhida parecia ter evaporado por completo.
— Sr. Somchai, compreendo sua preocupação com margens, mas o senhor está olhando apenas para o topo da planilha e ignorando a anatomia do próprio negócio. — Começou Charlotte, com uma firmeza magnética que fez o empresário endireitar a postura na cadeira, surpreso.
Com uma fluidez impressionante, ela deslizou pelos dados, apontando gráficos de perda por umidade, taxas de quebra no transporte e custos ocultos que os concorrentes de Somchai empurravam para os compradores.
— O senhor menciona que a concorrência oferece um valor menor por tonelada. No entanto, o índice de impureza e a falta de padronização térmica nos grãos deles geram uma perda de quase oito por cento no processamento final. Na prática, o que parece um desconto no preço de compra se transforma em um prejuízo operacional de dezenas de milhares de reais para quem importa — Explicou ela, gesticulando com elegância, segura de cada número que exibia. — Com os nossos padrões de triagem e o volume que a minha chefe assegura neste contrato, o senhor não está apenas garantindo o menor preço do mercado por quilo útil; o senhor está eliminando o seu próprio risco de rejeição de lote na alfândega. É uma vantagem de qualidade que nenhum concorrente na região consegue entregar.
Eu permaneci imóvel, recostada na cadeira, com os olhos fixos nela. O Sr. Somchai abriu a boca para argumentar, mas fechou em seguida, visivelmente sem palavras. Ele piscou para a tela, depois para Charlotte, percebendo que a minha assistente havia desmontado toda a sua estratégia de barganha com argumentos irrefutáveis e dados irretocáveis.
— Bem... — O homem pigarreou, a arrogância inicial substituída por um respeito cauteloso. — Analisando por esse prisma técnico... os números fazem sentido. Vamos manter os termos da nossa proposta original, Srta. Waraha. Tem minha assinatura.
A reunião foi encerrada poucos minutos depois com o contrato fechado exatamente nos termos que nos beneficiavam. Assim que a porta da sala de reuniões se fechou atrás do fornecedor, o silêncio desabou sobre nós.
Virei-me inteiramente para Charlotte. Meu peito batia em um ritmo acelerado, tomado por uma onda avassaladora de orgulho e pura admiração. Eu não apenas a respeitava profissionalmente agora; eu estava completamente fascinada.
— Pelos céus, Charlotte... Onde você estava escondida esse tempo todo? — Soltei, deixando escapar um sorriso largo que eu não fiz questão de conter.
Charlotte deu um passo para trás, sentindo as bochechas ruborizarem instantaneamente com o elogio direto. Ela baixou o olhar para os próprios sapatos, mexendo nervosamente na alça da pasta de documentos, visivelmente acanhada por ter tomado o protagonismo daquela forma.
— Eu... desculpe se passei do limite ao interromper, chefe. Achei que os dados precisavam ser expostos para salvarmos a negociação. — Murmurou ela, a voz voltando àquele tom tímido que eu já conhecia tão bem.
— Você não passou do limite, Charlotte. Você simplesmente atropelou todas as minhas expectativas da forma mais brilhante possível. — Interrompi, levantando-me da cadeira e contornando a mesa para parar bem perto dela. Inclinei levemente o tronco para garantir que ela me olhasse nos olhos. — Foi uma aula de estratégia impecável. Você foi formidável hoje.
O elogio franco fez o rosto de Charlotte corar ainda mais, tingindo sua pele de um carmesim intenso, mas os lábios dela se curvaram em um sorriso genuíno, iluminado por uma alegria profunda e aliviada por ter conseguido suprir e superar tudo o que eu esperava dela.
Enquanto a encarava ali, tão vulnerável e ao mesmo tempo tão brilhante, percebi que Lena estava absolutamente certa: eu já não conseguia mais fingir que ela era apenas uma funcionária comum. E o pior — ou melhor — de tudo era que eu não queria mais tentar esconder isso.
Por Charlotte
O relógio da parede marcava quase meio-dia quando a porta foi aberta sem o menor cerimônia. Lookmhee apareceu ali, sorridente, balançando as chaves do carro como se fosse uma campainha ambulante.
— Fim do expediente matinal para a melhor assistente que essa fazenda já viu! Vamos, Charlotte. Se você recusar meu convite para almoçar, eu choro aqui mesmo e faço um escândalo no meio dos relatórios da minha prima. — Mhee disparou, já puxando levemente o meu braço para me incentivar a levantar.
Dei uma risada fraca, desligando a tela do computador.
— Você não existe, Mhee. Eu já estava guardando as pastas.
Enquanto ajeitava minha bolsa, ouvi passos firmes vindos do corredor. Engfa apareceu na entrada da sala, vestindo sua habitual postura impecável, embora houvesse algo diferente em sua expressão. Seus olhos passaram de mim para Mhee, estreitando-se ligeiramente. Havia uma inquietação sutil, quase imperceptível para quem não a conhecia bem, mas que se manifestava na forma como ela cruzou os braços e tencionou o maxilar.
— Onde vocês pensam que vão? Você não pode surgir aqui sempre que bem quiser, e ainda por cima roubar minha assistente em horário de expediente, Mhee.
Mantendo sua postura extravagante e descontraída, Mhee envolveu o pescoço da prima e a beijou no rosto sem cerimônia.
– Eu adoro a maneira como você demonstra que está feliz em me ver, prima. A propósito, já não estamos mais no horário do expediente. Charlotte está em horário de almoço.
Mhee olhou para a prima, depois para mim, e um sorriso intrigado e cúmplice cruzou o rosto da caçula.
— Ora, P'Fa! Deixe a garota respirar um pouco. Ela tem te aturado por mais tempo do que achei ser possível. O mínimo que você pode fazer é ceder a sua assistente por uma hora, é um horário digno de almoço.— Mhee rebateu, divertida, arqueando uma sobrancelha. — Além do mais, prometo devolvê-la inteira e no horário de segundo turno de expediente.
Engfa soltou um suspiro curto, desviando o olhar para o lado por um segundo, parecendo lutar contra um incômodo interno que nem ela mesma parecia compreender inteiramente.
— Tudo bem. Apenas... não demorem demais. — Murmurou Engfa, dando meia-volta e sumindo pelo corredor, deixando para trás um rastro de tensão que eu absolutamente não consegui decifrar.
Fiquei parada por um instante, olhando para o corredor vazio, sentindo o peito apertar de um jeito estranho com aquela atitude dela. Mas Mhee me puxou pelo braço, rindo baixinho.
— Venha, vamos comer antes que ela mude de ideia e invente mais uma planilha para você resolver.
Dez minutos depois, já estamos acomodadas em uma mesa reservada em um restaurante aconchegante na saída do vilarejo. O cardápio estava aberto à nossa frente, mas o foco de Mhee não era a comida. Assim que o garçom se afastou, ela apoiou os cotovelos na mesa e me encarou com os olhos brilhando de curiosidade.
— E então? Me conte tudo. Como tem sido trabalhar diretamente com a minha prima mais exigente? — Mhee perguntou, balançando a perna embaixo da mesa em um ritmo ansioso. – Tenho certeza que essa pergunta todas minhas vão fazer quando te conhecer. É meio que uma curiosidade compartilhada por todas nós, quando alguém novo começa trabalhar com ela.
Um sorriso inevitável brotou no meu rosto. A lembrança da reunião daquele dia ainda aquecia meu peito.
— Tem sido intenso, Mhee. Mas incrível também. — Comecei, gesticulando com animação. — Hoje de manhã tivemos uma reunião difícil com o Sr. Somchai. Um fornecedor inflexível, mas importante para o andamento dos negócios. Eu acabei pedindo permissão para apresentar os dados que tinha estruturado, e... bem, conseguimos fechar o contrato nos nossos termos. Sua prima ficou impressionada. Foi a primeira vez que senti que meu trabalho realmente fez a diferença ali dentro.
Mhee abriu um sorriso enorme, batendo palmas baixinho.
— Eu sabia! Eu sabia que você ia tirar de letra! — Ela comemorou, radiante. — E deixe-me te dizer uma coisa, Charlotte: Engfa é extremamente criteriosa. Se ela ficou impressionada, é porque você foi brilhante. Ela adora pessoas proativas, que não esperam ordens, mas que resolvem os problemas antes mesmo que eles cheguem à mesa dela. Vocês têm muito mais em comum do que imaginam.
Franzi o nariz, negando com a cabeça.
— Não exagere, Mhee. No trabalho, sim, nós funcionamos bem. Mas fora dele? Não existe um "fora do trabalho" para nós. Nós somos estritamente chefe e assistente. Quer dizer... exceto ontem à noite, quando ela praticamente me obrigou a aceitar uma carona.
Mhee parou na mesma hora, os olhos arregalados de puro interesse. Ela inclinou o corpo para a frente, parecendo uma criança prestando atenção na melhor parte de uma fofoca.
— Espera aí. Ela te deu carona? Conte-me os detalhes agora mesmo! Minha prima não costuma dar carona para funcionária nenhuma, muito menos com ar de heroína protetora!
Respirei fundo, sentindo as bochechas esquentarem ao lembrar da cena e da gentileza da mais velha em me oferecer sua jaqueta que eu ainda guardava comigo para devolver em uma oportunidade próxima.
— Não foi nada demais... A estrada estava um lamaçal por causa da chuva, eu recusei ir de carro por orgulho, afinal, não queria incomodá-la ainda mais. Ela perdeu a paciência, e me obrigou a entrar, me emprestou a jaqueta dela porque eu estava com frio e... para coroar a noite, ficou parada na frente da minha casa até ter certeza de que eu havia trancado a porta e acendido a luz.
Contei os detalhes baixando o olhar para o guardanapo, tentando disfarçar o calor repentino no rosto.
Mhee soltou uma risada estridente, cobrindo a boca com as mãos para não chamar atenção das outras mesas. Seu lado fofoqueiro estava visivelmente radiante, com um sorriso de orelha a orelha.
— Ela fez o quê?! A P'Fa bancou a sentinela na sua porta? — Mhee quase gritou, rindo abertamente. — Oh, por Deus! Isso é tão típico dela quando está tentando esconder que estar se importando com alguém.
— Não seja exagerada! Por que ela se importaria comigo? Mhee, ela só estava sendo gentil. — Argumentei, embora minha voz soasse fraca até para mim mesma.
Mhee suspirou, balançando a cabeça com um sorriso divertido, antes de me encarar com uma seriedade repentina que me pegou desprevenida. Ela cruzou os braços sobre a mesa e perguntou, num tom casual, mas cortante:
— Sendo muito sincera, Charlotte... O que você acha da minha prima como mulher? Quero dizer, além de chefe.
Engasguei com a água que acabará de beber, tossindo levemente e levando a mão ao peito enquanto sentia meu rosto queimar de um vermelho intenso.
— Mhee! O que deu em você?! — Exclamei, repreendendo-a em um sussurro estridente, sentindo o coração disparar. — Eu não enxergo a Engfa dessa maneira! Ela é minha chefe, salvou minha vida me dando esse emprego e uma casa, e ponto final. Não existe nada além disso!
Mhee ergueu as mãos em rendição, embora o sorriso divertido continuasse dançando em seus lábios.
— Calma, respire! Eu só estou te fazendo uma pergunta, Charlotte. Você não precisa se defender com tantos argumentos. — Disse ela, suavizando o tom, mas mantendo o olhar firme em mim. — Mas preste atenção no que vou te dizer: Se por acaso — repito, se por acaso — algo começasse a surgir entre você e a P'Fa, você iria precisar ser totalmente honesta com ela sobre tudo. Eu me importo com seu bem-estar, e amo minha prima.
Pisquei, confusa com a guinada repentina na conversa.
Mhee recostou-se na cadeira, fitando-me com uma expressão de sincera preocupação misturada com cautela.
— Se as coisas simplesmente acontecessem e fugissem do seu controle, você já estaria preparada para contar a ela a verdade sobre as condições que te trouxeram para cá?
O silêncio desabou sobre a nossa mesa. As palavras de Mhee cortaram a alegria do almoço como uma lâmina fria, apagando o calor do momento e deixando um nó sufocante na minha garganta. Encarei meu copo, com a mente de repente inundada por todas as sombras que eu havia tentado deixar para trás, fazendo-me perceber que, por mais que eu quisesse fugir, o passado mais cedo ou mais tarde exigiria uma resposta.
Por Charlotte
Uma semana depois
O sol da manhã já alta iluminava os corredores da fazenda, mas a minha atenção estava completamente voltada para a mesa de Engfa. Naquela manhã, desde o momento em que cruzamos a porta do escritório, algo na postura dela havia me incomodado.
Engfa mantinha os olhos fixos na tela do computador, mas havia uma palidez incomum em seu rosto, e a respiração saía ligeiramente mais pesada do que o normal. Aproximando-me para entregar a pasta com os relatórios semanais, percebi o suor frio em sua testa e o leve tremor em suas mãos ao segurar a caneta.
— Chefe, você está bem? — Perguntei, franzindo a testa, sentindo uma súbita preocupação me dominar. — Sua pele está muito pálida e você parece febril.
Engfa ergueu o rosto, tentando esboçar um sorriso tranquilizador que não convenceria ninguém. Ela tossiu de leve, pigarreando para limpar a voz.
— Eu estou ótima, Charlotte. Apenas uma noite mal dormida, nada de mais. Temos aquela auditoria hoje e... — Ela tentou argumentar, mas foi interrompida por uma nova onda de tosse fraca que ela tentou disfarçar às pressas.
Cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha com toda a firmeza profissional que consegui reunir, embora por dentro eu estivesse desesperada.
— Você está claramente doente e insistindo em trabalhar nesse estado? — Falei, num tom que não abria margem para discussões. — Pare agora! A auditoria pode esperar. Você precisa é de repouso e medicação. Aguarde aqui, por favor chefe!
Antes que ela pudesse retrucar ou inventar mais alguma desculpa para continuar trabalhando, virei-me nos calcanhares e decidi agir por conta própria. Saí da fazenda apressada, rumo à pequena farmácia que ficava no centrinho do vilarejo a poucos minutos dali.
Enquanto caminhava pelas ruas tranquilas, tentando me lembrar de tudo o que seria necessário… antitérmico, analgésico e ingredientes para um bom chá calmante, uma voz conhecida chamou o meu nome.
— Charlotte? O que aconteceu? Por que essa pressa toda? Aliás, por que você não está no trabalho nessa hora? — Perguntou Lookmhee, surgindo na calçada oposta com umas pastas debaixo do braço e parando diante de mim com uma expressão curiosa.
Parei por um instante, respirando fundo para recuperar o fôlego.
— Mhee! Que bom te ver. Estou indo à farmácia e ao empório. – Expliquei, gesticulando levemente com as mãos. — Sua prima está doente, com febre alta e mal conseguindo parar em pé, mas teimosa do jeito que é, cismou em continuar trabalhando no escritório. Vou comprar medicamentos e itens para preparar um chá para ela.
A expressão de Lookmhee mudou instantaneamente, transformando-se em uma mistura de surpresa e genuína preocupação. Os olhos dela se arregalaram.
— A Engfa doente? Poxa vida... — Mhee balançou a cabeça, suspirando fundo. — Olha, Charlotte, sendo bem sincera com você? É bom ir preparando o espírito, porque ela com certeza vai recusar tomar qualquer remédio. Desde que éramos crianças, a Engfa tem uma birra homérica com medicamentos. Ela faz pirraça, esconde os comprimidos e diz que o gosto amargo é castigo divino!
Eu deixei escapar um meio sorriso, balançando a cabeça diante daquela revelação sobre a mulher tão imponente e durona nos negócios.
— Bem, ela vai ter que lidar comigo dessa vez, porque eu não vou sair do lado dela até ver que a febre baixe. — Garanti, determinada.
Lookmhee deu um sorriso terno, mas logo seu rosto voltou a se fechar em uma careta de frustração ao olhar para o relógio de pulso.
— Eu adoraria ir com você para te dar apoio moral nessa missão impossível e ver a cara dela cedendo, mas infelizmente não vou poder acompanhar você de volta — Lamentou Mhee, ajeitando a prancheta. — Tenho uma reunião agora e estou super atrasada. Mas boa sorte, Charlotte! Você vai precisar para convencer a minha prima teimosa! Me mande notícias dela.
Me despedi rapidamente de Mhee e acelerei o passo rumo à farmácia.
Já com os remédios e os ingredientes do chá seguros na bolsa, dei meia-volta e retornei correndo para a fazenda, pronta para travar o que prometia ser uma verdadeira batalha.
Assim que abri a porta do escritório, carregando a sacola da farmácia e os ingredientes para o chá, encontrei Engfa exatamente do jeito que a havia deixado: curvada sobre a mesa, tentando manter a postura inabalável enquanto o suor frio denunciava o seu estado deplorável.
— Você está realmente péssima. E nem ouse dizer que está tudo bem. — Disparei, aproximando-me com passos firmes e colocando a sacola sobre a madeira.
Engfa ergueu o rosto devagar, piscando com dificuldade. Os lábios estavam secos e os olhos, antes tão penetrantes, agora brilhavam com um cansaço transparente. Ela tentou esboçar um sorrisinho irônico, mas uma nova tosse fraca cortou sua tentativa.
— Charlotte... eu só preciso terminar... esses relatórios... — Murmurou ela, com a voz completamente fraca.
— Você não vai terminar absolutamente nada hoje. — Ordenei, abrindo a caixinha de remédios com pressa e tirando um copo de água fresca da garrafa térmica. Estendi o comprimido para ela, encarando-a com seriedade. — Tome! Agora!
Engfa recuou o corpo, fazendo uma careta infantil de total repulsa ao ver o comprimido na minha palma.
— Eu odeio remédios, Charlotte... Tem gosto de fim de mundo. Não preciso disso, juro que logo passa... — Reclamou ela, cruzando os braços com uma teimosia que beirava o cômico se a situação não fosse tão séria.
Lembrei-me imediatamente do aviso de Lookmhee, o que só fez minha determinação triplicar. Cruzei os braços e encarei a minha chefe com toda a autoridade que consegui invocar.
— Olha, srta Engfa Waraha, você pode ser uma executiva temida no mercado inteiro e mandar em metade do vilarejo, mas comigo essa birra não vai funcionar. Ou você toma esse remédio por bem, ou eu mesma coloco na sua boca e te obrigo a engolir. Escolha!
Ela arregalou os olhos levemente, surpresa com a minha audácia. Mas, ao ver que eu não cederia nem um milímetro, suspirou derrotada, aceitando o comprimido e engolindo-o com a água, fazendo uma careta que me arrancou um meio sorriso de vitória.
No entanto, o alívio durou pouco. Quando encostei de leve a ponta dos meus dedos em sua testa, o meu coração disparou de susto. Ela estava fervendo. A febre havia subido assustadoramente rápido.
— Meu Deus, chefe... Você está queimando! — Exclamei, sentindo o pânico me dominar. Sem esperar nova permissão, fechei o notebook dela, juntei suas coisas e a puxei com cuidado pela mão. — Levanta. Acabou o expediente. Vou te levar para a sua casa agora mesmo.
Ela não teve forças para argumentar. Deixou-se guiar até o seu carro que tomei a liberdade de dirigir. Assim que entramos e dei a partida, o cansaço cobrou o seu preço de vez. No curto trajeto até a residência dela, Engfa tombou a cabeça para o lado, adormecendo profundamente no banco do carona, com a respiração pesada e as bochechas coradas pela febre.
Ao chegarmos, o verdadeiro desafio começou. A ajudei descer do carro, apoiando o peso dela contra o meu corpo, e a conduzi até o interior da sua casa espaçosa e silenciosa.
Mesmo com toda a timidez apertando o meu peito por estar ali sem que tivéssemos qualquer intimidade, e fazendo minhas mãos tremerem levemente, consegui guiá-la até o quarto. Tirei seu terno pesado e, seguindo o roteiro clássico daquelas cenas delicadas e íntimas tão comuns nos dramas tailandeses que eu costumava assistir, ajudei-a a se deitar confortavelmente sob os cobertores macios da cama de casal.
Fui rapidamente ao banheiro, peguei uma bacia com água fresca e uma toalha de rosto limpa. Quando retornei ao quarto e me sentei na beirada da cama notando que Engfa estava acordada travando uma batalha desnecessária contra o sono. Ela não dizia uma palavra sequer; mantinha-se imóvel, com os olhos escuros fixos em cada movimento meu, observando-me em um silêncio absoluto e carregado de um significado incompreensível.
Com as mãos trêmulas de nervosismo, umedeci a toalha, torci o excesso de água e comecei a passá-la com todo o cuidado pela testa dela, descendo suavemente pelo contorno do rosto, passando pelo pescoço, pelos os braços e por suas mãos quentes.
O contraste da água fresca com a pele escaldante de Engfa, fazia um leve suspiro escapar de seus lábios. A cada toque da toalha, a tensão dentro do quarto parecia se adensar, transformando-se em algo palpável, sufocante e eletrizante.
O ar tornou-se rarefeito. Nossos olhares se cruzaram fixamente na penumbra do quarto iluminado apenas pela luz fraca da abajur, já que fechei a janela para a claridade do sol não incomodá-la. Havia uma confusão estranha e ensurdecedora no ar. Era um turbilhão de sentimentos onde a preocupação se misturava a um algo a mais avassalador.
— Você é atrevida, mas está cuidando bem de mim... — Murmurou Engfa, com a voz rouca, quase inaudível, sem desviar os olhos dos meus por nem um segundo sequer. – Obrigada!
Senti meu rosto corar intensamente, mas permaneci ali, paralisada pela intensidade daquele olhar, percebendo que, por mais que existissem algumas muralhas em nossa convivência, eu não poderia ser indiferente a preocupação que sentia com seu estado.
– Não é nada demais! Agora fica quieta e descansa. Quando você acordar vai se sentir bem melhor.
Um meio sorriso surgiu no canto dos lábios de Engfa enquanto seus olhos fecharam. Eu não compreendi o que significava aquele gesto, mas logo ela disse:
– Isso é realmente confuso.
– Desculpe… Não entendi. O que é confuso?
– Você é a única que parece não medir as palavras comigo. E também a única que exerce algum tipo de autoridade sem encontrar resistência.
Engfa disse aqui sem que seu olhar estivesse conectado com o meu. Eu não pude ver o brilho, a intensidade, tão pouco o significado por trás daquelas palavras. Mas uma coisa era certa… Meu coração bateu mais rápido.
Após me certificar que Engfa estava dormindo tranquilamente e que sua febre havia baixado, mandei mensagem para Lookmhee atualizando informações sobre o estado de saúde da sua prima e pedindo para que mais tarde ela a visitasse. Em seguida, tranquei tudo e a deixei enquanto ignorava o desejo do meu coração em ficar ali cuidando dela.
Fim do capítulo

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