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Por narrador

O ambiente na sede da fazenda estava agitado, com o movimento habitual de final de manhã, quando uma presença inesperada trouxe uma lufada de descontração aos corredores. O Sr. Tawan entrou no escritório de Engfa com a mesma naturalidade de quem entra na sala da própria casa, assobiando um tom baixo e segurando um chapéu de palha nas mãos.
Engfa, que estava concentrada em uma planilha, levantou o olhar e suavizou a expressão imediatamente ao reconhecer que a invasão se tratava do próprio pai. Por sua vez, Charlotte, que organizava alguns documentos na mesa lateral, hesitou. Ela reconheceu o homem pelas fotos que vira no escritório: o patriarca, o homem que, segundo Mhee, ao contrário da filha era capaz de transformar a administração da fazenda em um grande jogo de paciência.
— Papai, o que faz por aqui a essa hora?
Engfa perguntou! Embora houvesse um sorriso genuíno em seu rosto, ela estranhou a visita, considerando que o pai ia cada vez menos a própria empresa.
— Vim te buscar para desfrutarmos do silêncio da fazenda, minha filha. Lá fora está um sol maravilhoso e você aqui, presa entre esses números cansativos. — Tawan respondeu com uma gargalhada aberta, antes de seus olhos pousarem em Charlotte.
Ele não a encarou com a desconfiança que a filha costumava usar, nem com a formalidade rígida de um superior. Pelo contrário, ele abriu um sorriso largo e caminhou até ela com a mão unidas em um cumprimento formal e um sorriso largo no rosto, como se encontrasse uma velha conhecida.
— Ah, então esta é a famosa Charlotte? — Disse ele, num tom vibrante e acolhedor. — Finalmente nos conhecemos. Ouvi dizer que você é quem tem colocado ordem nessa mente brilhante, porém, às vezes, teimosa, da minha filha.
– Papai! – Engfa repreendeu o pai instantaneamente.
Charlotte, surpresa pela abordagem, retribuiu o cumprimento com certa timidez, mas sentiu a tensão de seus ombros relaxar diante daquela energia radiante. Esperta como era, Charlotte logo percebeu que ele era o oposto de Engfa: enquanto a empresária mantinha uma aura de controle e uma seriedade que impunha respeito, Tawan parecia carregar o mundo como se fosse uma brincadeira leve.
— É um prazer conhecê-lo, Sr. Tawan. — Ela respondeu, educada.
O mais velho riu, balançando a cabeça.
— Pode me chamar de tio Tawan, minha querida. O "Sr." me faz sentir cem anos mais velho do que realmente sou.
Ele deu uma volta pelo escritório da filha, observando a organização impecável e, com um brilho divertido nos olhos, virou-se novamente para Charlotte enquanto Engfa observava a interação com uma expressão serena, porém curiosa.
— Sabe… — Confessou o patriarca, baixando o tom de voz para um tom de confidência brincalhona. — Confesso que fiquei surpreso quando soube da sua contratação. Engfa sempre foi... bom, diremos que ela é bastante criteriosa. Ver minha filha trazendo uma "desconhecida" para o círculo privado dela, e ainda ser sua assistente pessoal, foi a notícia mais inesperada que recebi nesta fazenda em anos.
Charlotte sentiu o coração acelerar levemente, consciente do olhar de Engfa sobre si.
— Espero estar correspondendo à confiança dela, Sr. Tawan. — Charlotte respondeu, tentando manter a compostura.
— Oh, não tenho dúvidas! — Ele respondeu, piscando para ela. — Se você conseguiu sobreviver à primeira semana sob o olhar clínico da Engfa e ainda por cima se tornou vizinha da minha filha... bem, você deve ser uma pessoa que vale a pena. Ou muito corajosa.
Ele brincou com Charlotte ignorando completamente sua timidez e, sem esperar por uma resposta formal, virou-se para a filha que o olhou feio.
– Não seja exagerado, papai. Falando assim até parece que sou uma pessoa difícil de conviver. – Disse a empresária cruzando os braços enquanto olhava o pai com repreensão.
— Difícil? De forma alguma, minha princesa. – Ele riu com bom humor. – Mexam-se vocês duas, me acompanhem no campo. Hoje eu mesmo vou comandar a colheita.
– Não podemos, papai! Estou analisando a proposta que vamos mandar para aquela competição de contrato com a nova empresa da senhorita Jinda.
Sob o olhar observador de Charlotte, que apenas assistia a interação entre pai e filha, o mais velho revirou os olhos com impaciência.
– Não foi assim que te criei, menina. Lembrem-se: o sol não vai esperar a contabilidade ser finalizada. E o trabalho não pode ser um fardo. Tudo tem que acontecer na medida certa. Divirta-se enquanto trabalha, filha. Colocar a mão na terra vai te fazer bem. E Engfa, não seja tão rigorosa com a nossa nova funcionária, ou ela vai acabar fugindo para a minha equipe antes do que você possa imaginar.
– Mas eu não estou sendo rigorosa. – Disse Engfa sentindo-se afetada pela acusação feita por seu pai.
– Então mexa-se, menina. Vamos levar Charlotte para conhecer o melhor do nosso processo de produção. Aposto que ela também prefere pegar um pouco de vitamina D, do que ficar trancada sob o castigo desse ar condicionado.

…

A insistência do Sr. Tawan era uma força da natureza à qual era impossível resistir. Minutos depois, o trio atravessava a varanda em direção ao pátio de máquinas, onde a luz do sol já brilhava com intensidade sobre os campos. Ao chegarem ao ponto de suporte logístico, o patriarca apontou para uma bancada com equipamentos de proteção.
— Vamos, Engfa! Ajude a Charlotte a se equipar. Precisamos de segurança antes de qualquer coisa, e quero que vocês duas estejam prontas antes que o trator principal chegue à parcela quatro. — Ordenou ele, já se afastando para conferir o motor de um dos veículos.
Engfa, que até então mantinha uma postura defensiva, aproximou-se de Charlotte. O ar entre elas mudou. Ao estender a mão para pegar o capacete, o movimento de Engfa tornou-se hesitante. Seus dedos roçaram levemente os fios de cabelo de Charlotte ao posicionar o equipamento, e um rubor subiu pelas bochechas da empresária.
— Licença... — Murmurou Engfa, evitando contato visual prolongado enquanto ajustava a alça sob o queixo da assistente. Suas mãos, habitualmente firmes e decisivas, exibiam um tremor quase imperceptível. Charlotte sentiu o hálito quente de Engfa perto do rosto e, ela não compreendeu porque por um breve segundo o barulho dos tratores ao fundo pareceu desaparecer.
Assim que estavam prontas, Sr. Tawan voltou, inspecionando-as com um aceno satisfeito. Enquanto caminhavam em direção à área de colheita, ele iniciou a conversa com a naturalidade, sem deixar evidente que na verdade buscava saber um pouco mais sobre quem é a pessoa que agora caminha ao lado da filha.
— Então, Charlotte, me diga uma coisa: qual a sua formação técnica? O que a trouxe para este mundo de cálculos e plantações?
— Eu sou formada em Contabilidade, Sr. Tawan — Respondeu ela, ajustando o passo para acompanhar o ritmo do homem.
— Contabilidade! — Ele exclamou, dando um sorriso largo. — Excelente. Vou te dizer uma coisa… Eu sou péssimo com os números, por isso deixo para minha filha as partes burocráticas, mas ela não pode fazer tudo sozinha sempre. Estávamos mesmo precisamos de alguém que saiba onde cada centavo se esconde. Mas, veja bem, eu tenho uma filosofia sobre nossos negócios.
– Mesmo? E qual seria? – Disse Charlotte demonstrando interesse.
– Eu penso que aqui na fazenda, os números são apenas o reflexo do que a terra nos entrega. Por isso é muito bom que, sendo assistente da minha filha, você conheça cada etapa, da raiz ao grão. – Ele virou-se para a filha que até então observava a interação dos dois com atenção, porém em silêncio. – Você já ensinou algo a ela?
– Claro, papai. No primeiro dia em que Charlotte começou conosco, tratei de mostrar para ela não apenas nossos documentos, mas também etapas do nosso processo de produção. E recentemente já estivemos aqui também.
Satisfeito, o mais velho sorriu orgulhoso da filha. Ele então voltou a sustentar o olhar de Charlotte.
– Eu sempre ensinei a Engfa que quem entende o esforço, valoriza o resultado com muito mais clareza.
Ele parou próximo a um talhão onde o arroz, pesado e dourado, balançava com o vento. Seus olhos brilharam com um saudosismo genuíno ao contemplar a vastidão.
— Meu pai, o avô da Engfa, começou nesta mesma terra quando ela ainda era apenas um sonho de barro e muita teimosia. Lembro-me de quando eu era pequeno, acompanhando-o debaixo desse mesmo sol. Ele dizia que o arroz não é apenas uma mercadoria, é uma promessa que a terra faz para quem tem a paciência de esperar.
Tawan tocou uma das plantas com carinho, como se estivesse cumprimentando um velho amigo.
— Ele me ensinou que o solo tem memória, Charlotte. Se você o trata com respeito e dedicação, ele retribui em dobro. Aprendi a amar cada ciclo, cada ameaça de praga, cada dia de colheita como se fosse a primeira vez. Olhe para isso… — Ele gesticulou para a extensão de terra que se perdia no horizonte. — É vida pura. E é por isso que não quero que a Engfa se torne apenas uma gestora de papéis. Esta fazenda é a nossa alma, e o coração dela bate aqui, entre esses grãos, mas minha filha as vezes se mantém aprisionada e sendo submersa por uma burocracia irritante.
Engfa, ouvindo as palavras do pai com respeito, permaneceu em silêncio, mas seu olhar, agora direcionado a Charlotte, mostrava uma nova camada de compreensão. Era como se, através daquelas histórias, ela estivesse permitindo que Charlotte visse uma parte de si sendo refletida pelo solo sagrado onde as suas próprias raízes estavam fincadas.
Sr. Tawan caminhou até a colheitadeira, sua presença comandando a operação com uma facilidade que beirava a arte. Ele começou a explicar, com entusiasmo, como o mecanismo de debulha separava o grão da palha, destacando a importância da umidade correta para que o arroz não quebrasse durante o processo. Cada gesto seu era carregado de uma experiência que vinha das décadas sob aquele mesmo sol.
— Engfa, chega de ser apenas a supervisora! — Ele exclamou, lançando uma luva de couro para a filha. — Vá lá na seção de triagem e mostre à Charlotte como ajustamos o fluxo de saída para garantir a pureza do lote. Ensinar é a melhor forma de fixar o conhecimento.
Engfa, com um sorriso divertido, aceitou o desafio lançado pelo por seu pai. Ela se aproximou da esteira de triagem, onde o arroz recém-colhido passava em um fluxo constante.
— É simples, mas exige atenção. — Começou ela, aproximando-se de Charlotte para indicar uma alavanca de ajuste. — Como eu já te disse antes, o segredo é manter o fluxo constante para evitar o acúmulo...
Enquanto Engfa movia a alavanca e Charlotte tentava observar o ponto exato de regulagem, as duas se aproximaram demais. Em um movimento sincronizado para verificar a saída dos grãos, as mãos de ambas se encontraram sobre a borda metálica da máquina. O contato foi instantâneo, uma descarga elétrica que não tinha nada a ver com o maquinário.
Charlotte foi a primeira a recuar o braço como se tivesse sido queimada, e Engfa, com o rosto subitamente tingido por um tom escarlate, virou-se para o lado oposto com uma pressa desajeitada, fingindo verificar um parafuso que não precisava de ajuste. O silêncio que se formou entre as duas era denso, mas estava longe de ser algo hostil. Era carregado de uma timidez crua que fazia as mãos de Charlotte suarem.
De uma distância segura, Charlotte observou Sr. Tawan e Engfa trabalharem juntos nos ajustes finais da colheitadeira. O pai, com seu jeito expansivo, fazia uma piada sobre o desempenho da máquina, e a filha — a mesma mulher que, minutos antes, estava presa em planilhas e prazos impossíveis — soltou uma gargalhada genuína, descontraída. Ela empurrou o ombro do pai em resposta a uma provocação e, por um instante, a rigidez da empresária cedeu lugar a uma leveza que Charlotte nunca imaginou ser possível.
Ver Engfa ali, com sua camisa social e calça de brim sendo sujos de poeira de palha, rindo sob a luz do fim da tarde e agindo como uma filha comum, fez algo derreter dentro de Charlotte sem que ao menos ela se desse conta. Ela não pôde evitar; um sorriso sincero e suave se desenhou em seu rosto. Pela primeira vez, ela não viu a patroa exigente, mas sim uma mulher completa, cujo Charlotte observou ser dona de sorriso lindo. A assistente pensou que talvez aquele sorriso fosse o processo mais difícil, mas também o mais valioso de toda aquela fazenda.
O sol começou a baixar lentamente no horizonte, tingindo o céu de tons dourados e laranjas profundos que se estendiam por toda a extensão dos campos de arroz. A poeira fina levantada pelas máquinas parecia brilhar sob os últimos raios de luz, encerrando a jornada de trabalho com uma sensação de dever cumprido e harmonia inesperada.
Se. Tawan, enxugando o suor da testa com um lenço de pano e exibindo um sorriso largo de satisfação, deu duas batidas amigáveis no ombro da filha.
— Bom trabalho por hoje, minhas jovens! A terra sempre recompensa quem a trata com respeito. Agora eu vou indo na frente para preparar o terreno para amanhã. Não demorem muito, o crepúsculo aqui na fazenda não perdoa quem perde a hora.
Com um aceno rápido e uma gargalhada que se misturou ao som do vento, o patriarca caminhou de volta em direção à sede, deixando as duas sozinhas no limite do talhão.
O silêncio que se instalou foi diferente de todos os outros anteriores. Não havia a tensão da desconfiança ou do peso das cobranças profissionais, tão pouco havia naquele instante rastros da culpa pesando sob os ombros da assistente. Havia apenas a brisa fresca da tarde e o eco residual do que acabara de acontecer.
Engfa virou-se lentamente para encarar Charlotte. A luz dourada do crepúsculo contornava sua silhueta, suavizando a postura rígida de empresária e revelando um olhar curioso, quase vulnerável. Ela limpou as mãos na calça de brim, hesitando por um segundo antes de quebrar o silêncio.
— Sabe... — Engfa começou, a voz saindo um pouco mais baixa do que o habitual, quase abafada pelo farfalhar das folhas de arroz. — Meu pai tem razão sobre algumas coisas. Às vezes, a gente passa tanto tempo olhando para os documentos que esquecemos o motivo de tudo isso existir. Eu gosto de trabalhar diretamente com a terra, mas às vezes me falta tempo. Obrigada por ter nos acompanhado hoje, Charlotte.
Charlotte sentiu o coração dar um salto descompassado no peito. Ela olhou para Engfa, encontrando naqueles olhos escuros uma sinceridade que desarmava qualquer defesa.
— Obrigada você, chefe. — Respondeu Charlotte, deixando escapar um sorriso suave, sentindo a própria timidez se transformar em um calor aconchegante. — Por me deixar ver um pouco além do escritório.
Engfa assentiu com a cabeça, um meio sorriso surgindo no canto de seus lábios. Era o mesmo sorriso leve que fizera o peito de Charlotte se aquecer minutos antes.
O trajeto de volta à sede da fazenda aconteceu sob o manto suave do crepúsculo. À medida que o céu diurno dava lugar a um azul profundo pontilhado pelas primeiras estrelas da noite, a paisagem rural parecia se acalmar, como se também respirasse aliviada após o ritmo intenso da colheita.
Caminhando lado a lado pelo caminho de terra batida, Engfa e Charlotte mantinham um passo compassado. O silêncio que as acompanhava não tinha mais nada daquela rigidez profissional ou do peso da timidez que costumava marcar os primeiros dias de convivência; era um silêncio confortável, repleto de uma calmaria quase tangível, onde cada respiração parecia sintonizada com a da outra.
De vez em quando, com o balanço natural da caminhada, os ombros de ambas se tocavam de leve. Um esbarrão sutil, quase imperceptível, mas que provocava em Charlotte um arrepio súbito na espinha e fazia o olhar de Engfa desviar-se rapidamente para o lado, capturando o perfil delicado da assistente iluminado pela luz prateada da lua crescente.
Nenhum rótulo foi pronunciado, nenhuma grande confissão foi feita no meio do caminho, mas a verdade pairava no ar com a leveza do vento fresco que balançava as folhas ao redor. Era algo que se infiltrava pelas brechas da rotina: na forma como Engfa inconscientemente reduzia o passo para se alinhar ao ritmo de Charlotte; na maneira como Charlotte encontrava segurança na presença firme e protetora da empresária sem precisar pedir por isso; e no modo como um simples sorriso trocado sem motivo aparente era capaz de desestruturar qualquer tentativa de manter a compostura racional.
Elas não estavam percebendo que ali, sem pressa e sem imposição, os sentimentos que brotavam já não cabiam mais nas gavetas da formalidade ou nos limites de uma simples relação de trabalho. O afeto estava nascendo de forma orgânica, enraizando-se no solo fértil daquela convivência diária, forte o suficiente para resistir a qualquer tempestade futura. E, enquanto continuavam a caminhar em direção às luzes da sede que já começavam a piscar ao longe, ambas sabiam, no mais íntimo de seus corações, que aquela jornada compartilhada era apenas o primeiro e inevitável capítulo de uma história que mal podiam esperar para viver.

…

Assim que terminaram de organizar as últimas pendências na sede e fecharam as portas do escritório para encerrar o expediente, a noite já havia abraçado completamente a fazenda. O cansaço físico do dia de trabalho era evidente, mas ambiente em torno delas trazia uma eletricidade latente, resquício de todas as fagulhas trocadas ao longo daquele dia intenso que se misturava com o trabalhar do destino. Era como se o tempo tivesse decidido desacelerar apenas para dar espaço ao que vinha se construindo ali.
Paradas no pátio iluminado apenas pelas luzes amareladas da fachada, Engfa hesitou por um segundo antes de girar as chaves entre os dedos. Em conflito consigo mesma, ela olhou para a assistente, que já ajeitava a alça da bolsa nos ombros com pressa para fugir daquele perímetro, e deu um passo firme à frente, bloqueando o seu caminho.
— Charlotte… — Chamou Engfa, a voz saindo com uma seriedade quase desafiadora. — Entre no carro. Eu vou levar você para casa hoje.
Charlotte parou abruptamente, franzindo o cenho em um misto de surpresa e resistência imediata. Ela cruzou os braços contra o peito, erguendo o queixo com aquela teimosia que parecia brotar sempre que se sentia acuada pela presença magnética da chefe.
— Obrigada Chefe, mas eu prefiro ir sozinha. Caminhar faz bem para a saúde. — Retrucou Charlotte, a voz firme. —Além disso, são apenas alguns minutos até em casa. Não é necessário se incomodar.
O maxilar de Engfa tencionou. Ela não estava acostumada a ter suas iniciativas — muito menos as de cunho gentil — rechaçadas com tanta altivez. Um sorriso cético e desafiador cruzou os lábios da empresária, que reduziu ainda mais a distância entre elas.
— Não me venha com orgulho tolo, Charlotte. Está escuro, a estrada de terra virou um lamaçal com a chuva dos últimos dias, e os seus sapatos claramente não foram feitos para trilhas noturnas. — Disparou Engfa, sem muita paciência para a recusa. — Por que você é tão teimosa comigo, e com Mhee é tão diferente? Quer saber? Ou você entra por bem, ou eu mesma te carrego para dentro daquele banco do passageiro. Escolha.
Charlotte arregalou os olhos diante da audácia da mulher a sua frente. O sangue ferveu em suas veias, misturando indignação e uma vergonha desmedida por se ver sem saída diante de tanta imposição.
— Você é inacreditável! Acha que pode simplesmente mandar em tudo e em todos o tempo todo? — Charlotte sibilou, os olhos castanhos faiscando de indignação. — Eu não sou uma das suas planilhas para você decidir o destino que devo tomar!
— E você é teimosa a ponto de recusar algo simples por puro orgulho! — Engfa rebateu na mesma intensidade, abrindo a porta do carro com um movimento brusco e gesticulando para o interior do veículo. — Entre logo, Charlotte. Eu não vou discutir por muito tempo por causa de uma carona. O tempo está mudando, e se não formos embora loga, é capaz de pegarmos uma tempestade pelo o caminho.
Por um segundo, os olhos de ambas travaram um duelo silencioso. Havia frustração, mas havia também uma intensidade magnética pulsando ali, daquelas que queimavam a pele sem que nenhuma delas pudesse perceber.
Vendo que não venceria aquela queda de braço contra a decisão irredutível da empresária — e secretamente consciente de que caminhar naquela lama seria um suicídio para seus pés — Charlotte soltou um suspiro derrotado, murmurando algo inaudível antes de dar passos pesados até o carro e se acomodar no banco do passageiro, batendo a porta com um pouco mais de força do que o necessário.
Engfa deu a volta no veículo, entrou no lado do motorista e fechou a porta, respirando fundo para conter a pulsação acelerada. O motor roncou suavemente, cortando o silêncio pesado que se instalou na cabine enquanto o carro começava a deslizar pela estrada de terra.
Nos primeiros minutos, o silêncio reinou, mas não era o silêncio calmo de antes; era denso, carregado de resquícios do pequeno confronto. Contudo, à medida que a estrada avançava e a calmaria da noite envolvia o carro, a irritação de Charlotte foi minguando, substituída pelo cansaço. Ela virou o rosto para contemplar a paisagem escura do lado de fora, abraçando o próprio corpo ao sentir a temperatura cair bruscamente.
Ao notar o tremor sutil nos ombros da assistente, Engfa suavizou a expressão rígida. Em um movimento totalmente natural, a empresária esticou a mão e ajustou o sistema de ar-condicionado, redirecionando o fluxo para longe dela. Logo em seguida, pegou uma jaqueta de tecido macio que repousava no banco de trás e a estendeu em direção a Charlotte, quebrando o gelo com um tom de voz surpreendentemente brando:
— Coloque isto. A noite esfriou rápido, e a última coisa de que preciso é da minha assistente de cama com uma gripe forte que te faça faltar ao trabalho.
Charlotte piscou algumas vezes com o orgulho ferido, e olhou para a jaqueta estendida. Hesitante, ela a pegou, dessa vez sem teimar. O tecido ainda guardava o calor e o perfume amadeirado inconfundível de Engfa. Ao vesti-la, sentindo-se envolvida por aquela aura protetora, Charlotte sentiu o peito aquecer de um jeito perigoso. Ela olhou de soslaio para o perfil concentrado da empresária, iluminado fracamente pelas luzes do painel, e percebeu, com um aperto no coração, que a raiva havia sumido completamente, dando lugar a uma rendição silenciosa.
Minutos depois, o carro parou diante da pequena casa que agora era o lar de Charlotte. O motor foi desligado, e a penumbra dentro do veículo tornou o ambiente infinitamente mais íntimo.
Charlotte segurou a maçaneta da porta, mas hesitou em descer. Ela virou o rosto para Engfa, querendo dizer algo que justificasse o turbilhão de emoções que a habitava, mas as palavras sumiram.
Enquanto isso, sentada ao volante, Engfa mantinha as mãos firmemente apoiadas no aro, encarando o para-brisa escuro, mas com a mente em total e absoluto colapso. Por que ela fazia questão de se envolver tanto com a vida daquela mulher? Por que cada recusa de Charlotte a atingia como um desafio pessoal? E, acima de tudo, por que a simples proximidade daquela mulher bagunçava tanto o seu eixo?
Engfa vivia em um constante e exaustivo conflito com seus próprios sentimentos, lutando contra uma maré de impulsos que desafiava toda a lógica pragmática que ela usará para governar sua vida até ali. Ela não entendia — e temia admitir — que, para além da chefe rígida que tentava ser, havia uma mulher perigosamente fascinada, sentindo-se irremediavelmente atraída pelo caos doce que Charlotte trazia para o seu mundo.
A claridade fraca dos faróis iluminava a varanda de madeira, cortando a penumbra daquela noite fria. O motor do carro agora em silêncio dava espaço dentro da cabine para um diálogo. Mas o ambiente parecia ter encolhido, carregado por uma densidade que nenhuma das duas ousava quebrar com movimentos bruscos.
Charlotte permaneceu com a mão apoiada na maçaneta, mas o corpo virado ligeiramente na direção do banco do motorista. O calor da jaqueta de Engfa abraçava seus ombros, funcionando como um lembrete físico e embaraçoso de toda a resistência que ela acabara de perder.
— Obrigada pela carona, chefe... e pela jaqueta. Prometo que não vou devolvê-la assim que lavar. — Charlotte murmurou, tentando quebrar o silêncio com um sorriso tímido, embora os olhos castanhos brilhassem incertos sob a luz fraca do painel. – E me desculpe pelo o atrevimento de poucos minutos atrás.
Engfa soltou um suspiro curto, apoiando os cotovelos no volante enquanto a encarava. A irritação de minutos atrás havia evaporado, mas a inquietação em seu peito continuava latejando, teimosa.
— Tudo bem! Esqueça isso, Charlotte. — Respondeu Engfa, a voz saindo mais branda do que pretendia. Ela hesitou por um segundo antes de continuar, organizando os pensamentos para a rotina do dia seguinte. — A propósito... Sobre a nossa agenda de amanhã, teremos aquela reunião complicada com o principal fornecedor de insumos às dez horas. Quero que você dê uma olhada redobrada nos dados de importação.
Charlotte assentiu prontamente, a postura profissional assumindo o controle por um instante, ainda que o coração estivesse acelerado pela proximidade.
— Pode deixar. Vou revisar cada linha das planilhas de exportação e custos de frete antes de o sol nascer.
— Não precisa exagerar no horário, não quero minha assistente desmaiando de sono na frente de todos. O que vão pensar que estou te obrigando a fazer? — Engfa retrucou, com um canto da boca repuxando em um sorriso quase imperceptível.
Ela fitou Charlotte por alguns segundos, absorvendo a feição delicada da moça sob a luz difusa.
— Mas por favor, faça uma apresentação impecável dos nossos produtos. Quero que aquele fornecedor sinta confiança em nós. E sei que você tem o toque analítico perfeito para estruturar isso. Mostre a ele do que você é capaz.
O elogio sutil, misturado com aquela dose de confiança declarada, fez as bochechas de Charlotte esquentarem instantaneamente. Ela abaixou o olhar por um breve segundo, sentindo o estômago dar um nó aquecido.
— Farei o meu melhor, Chefe. Obrigada pela... confiança — disse Charlotte, a voz saindo um tom mais baixa, carregada de uma vulnerabilidade repentina.
— Bom descanso, Charlotte. Até amanhã cedo! — Despediu-se a empresária, assentindo levemente com a cabeça.
— Até amanhã.
Charlotte finalmente empurrou a porta, descendo para o ar úmido da noite. Ela caminhou a passos rápidos até a entrada da pequena casa, destrancou a porta e acendeu a luz da sala. Antes de fechar, olhou de relance para a frente. O carro de Engfa continuava parado ali, com os faróis acesos banhando a fachada em uma claridade suave.
Do lado de dentro do veículo, Engfa cruzou os braços sobre o volante, mantendo o olhar fixo na silhueta de Charlotte através da janela de vidro. Só quando viu a assistente girar a tranca por dentro, acenar timidamente em direção ao carro e se refugiar em segurança no interior da residência, foi que Engfa permitiu-se relaxar os ombros tensos.
Ela desligou os faróis, mergulhando na escuridão da fazenda, mas enquanto engatava a marcha para dar meia-volta, percebeu que a verdadeira tempestade daquela noite não estava prestes a cair lá fora, mas sim na bagunça inexplicável que aquela mulher havia instalado dentro de sua própria cabeça.

Fim do capítulo

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