Por Charlotte
Empilhei a última caixa de papelão no canto do quarto e soltei um suspiro longo, sentindo o peso dos braços. O sol da tarde entrava pela janela, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Não era uma casa grande, mas, para mim, ela representava muito mais do que qualquer pessoa pudesse imaginar. Era o meu espaço, a minha pequena redoma de segurança, o lugar onde eu deixaria de ser apenas uma sombra na vida da Mhee para me tornar alguém com um endereço próprio.
Mhee, que fez questão de me ajudar com a mudança, começou a rir alto de algo que tinha acabado de tirar de uma das poucas caixas, já que eu não tinha muito para carregar comigo.
— Char, sério? Você guarda esse urso de pelúcia com um olho só? — Ela perguntou, erguendo o bicho de pelúcia velho e balançando-o como se fosse uma marionete. — E eu achando que você fosse uma mulher cheia de atitude.
Eu ri, sentindo minhas bochechas esquentarem, mas sem o desconforto que sentia no início quando começamos a conviver.
— Não seja rude! Ele tem valor sentimental. Ele me acompanhou em muita coisa ruim, Mhee. Foi o primeiro presente que ganhei no orfanato.
— Tá bom, tá bom, dona sentimental! Vamos deixar esse assunto de lado, ok? — Ela brincou, colocando o urso sobre a cama arrumada. — Mas olha, se a Engfa entrar aqui e ver um urso caolho te encarando, ela vai achar que você sofre de algum transtorno de personalidade ou que é uma bruxa que guarda fetiches.
— Não seja tonta! O que sua prima iria vir fazer aqui? Ela mal deve ter tempo para respirar.
Respondi, tentando manter a voz casual, embora uma pontada de ansiedade inexplicável surgisse ao pensar em qualquer proximidade empresária. Aliás, aquilo era algo curioso, considerando que desde a primeira vez que meus olhos encontraram com os da prima de Mhee, me senti daquela maneira.
— Você ainda não entendeu a personalidade da minha prima, não é mesmo? Engfa sempre se importa com tudo e todos que estão a sua volta. Então a pergunta certa seria… Por que ela não apareceria aqui?
– Por que ela se importaria comigo? – Confrontei.
Senti o peso das minhas próprias palavras pairando no ar. Mhee suspirou, abandonando o travesseiro sobre a cama e cruzando os braços, sua expressão perdendo um pouco daquela frivolidade brincalhona que ela exibia momentos antes.
— Você é muito teimosa. — Ela disse, aproximando-se com uma lentidão deliberada. — Você olha para a Engfa e só enxerga a barreira, o escudo que ela usa. Sim, ela desconfia de nós, e eu estou completamente ciente disso. Na verdade, eu nunca acreditei que podia realmente enganá-la em qualquer coisa durante toda minha vida. Ela sempre teve aquele faro detetivesco irritante. Mas você realmente acha que, se ela não se importasse, ela teria movido mundos e fundos para te dar uma oportunidade? Ela teria passado horas te ensinando sobre o funcionamento da empresa, ou sobre o plantio de arroz, como fez ontem? Ela pode desconfiar de algo, mas ela também gostou de você.
Mhee gesticulou o mundo lá fora.
— A Engfa é uma mulher de lógica, Charlotte. Se ela acreditasse que você é apenas uma ameaça ou uma mera funcionária que ela despreza, ela te manteria o mais longe possível, ou sequer teria te contratado. Ela não perde tempo com o que não tem qualquer significado para ela.
Engoli em seco, lembrando do olhar de Engfa quando segurou o copo que eu quase derrubei, da maneira como ela insistia para que eu tivesse cuidado com os próprios passos. Aquilo não era algo de alguém que realmente só desconfiava de mim. Havia uma urgência ali que eu não sabia nomear.
— Mas por que, Mhee? Por que ela se importaria? Eu sou uma desconhecida… alguém que apareceu do nada e que, como você mesma admitiu, está escondendo algo. Isso deveria ser motivo para ela me odiar, não para me acolher.
Mhee tocou levemente no meu ombro, o olhar carregado de uma honestidade que me obrigou a encará-la.
— Porque ela está te vendo da mesma maneira que eu vi naquele dia. — Ela respondeu simplesmente. — Ela não viu apenas "a desconhecida que a prima trouxe", não viu o currículo ou a fachada de eficiência. Por alguma razão, naquela mente analítica e fria, ela encontrou algo em você que a desarmou. A desconfiança é um detalhe. Se eu bem conheço minha prima, eu diria que ela quer ter certeza de que pode confiar em você, porque pensar do contrário a incomoda. — Mhee concluiu, dando um tapinha carinhoso na minha mão. — Não a subestime, Charlotte. E, principalmente, não subestime o impacto que você pode causar em qualquer pessoa. Você pode até achar que é apenas uma intrusa, alguém sem valor, sem importância, mas essa não é uma verdade absoluta e você vai descobrir isso quando passar a confiar em si mesma. A propósito, você vai ver! Agora que você é vizinha de muro, Engfa vai aparecer aqui com aquela desculpa de "precisamos alinhar os relatórios" em horários absurdos só para se certificar se tudo estar bem. A P’Fa é uma workaholic incurável, você sabe disso. Prepare o café, porque ela vai te transformar em uma extensão do escritório dela.
Eu me sentei na beira da cama, observando Mhee organizar alguns livros na estante improvisada. A energia dela era contagiante. Ela conseguia transformar uma mudança, que para mim era um marco aterrorizante, em uma brincadeira de crianças.
— Mhee... — Chamei, fazendo ela parar de mexer nos livros e me olhar. — Obrigada. Por não me deixar ter medo de dar esse passo. Obrigada, por tudo. Você me faz enxergar uma Charlotte de uma maneira que ninguém jamais enxergou antes. – Eu disse forçando esconder a emoção, porém deixando claro a gratidão que sentia.
Ela suavizou o sorriso, perdendo um pouco daquela mania de fazer piada com tudo.
— Você não precisa ter medo, Charlotte. Você é forte. Você só precisava de um empurrão para se encontrar. E agora, aqui, você tem a sua própria história para escrever. Sem dívidas a serem cobradas, sem crueldades por quem deveria te oferecer apoio, sem sombras, sem culpas… apenas você!
— É estranho. — Confessei. — Sentir que estou livre.
— É maravilhoso! — Ela corrigiu, piscando para mim. — E se a Engfa começar a ser chata demais, você pode simplesmente trancar a porta e dizer que está ocupada fazendo... sei lá, terapia com o seu urso de um olho só.
Nós duas caímos na gargalhada, um som que preencheu as paredes vazias e as fez parecer muito mais acolhedoras.
A mudança era definitiva, mas, enquanto Mhee contava uma história hilária sobre um encontro desastroso que teve na semana passada, eu percebi que a independência não era um abismo solitário. Era uma liberdade que eu finalmente estava pronta para abraçar. Amanhã, quando eu abrisse a porta e caminhasse em direção à cede da empresa, eu não estaria indo como uma fugitiva, mas como alguém que tinha um lugar para chamar de seu.
Estávamos entretidas naquele assunto quando um movimento sutil na moldura da porta travou minha respiração.
Engfa estava parada ali nos olhando de um jeito que fez meu coração gelar. Não sei dizer por quanto tempo a empresária estava ali. Talvez fosse segundos, mas no pior dos cenários poderia ter sido tempo suficiente para ter captado algo da nossa conversa.
A claridade do corredor projetava uma sombra longa sobre o chão, e sua postura, embora relaxada, era imponente. Ela mantinha os braços cruzados, observando-nos com uma expressão indecifrável que fez meu sangue parar de percorrer por minhas veias.
Mhee, que costumava ser a pessoa mais falante que eu conhecia, ficou subitamente muda. Eu senti um frio percorrer minha espinha, aquele pânico visceral de quem é pego no meio de uma verdade que deveria ser um segredo.
— Engfa? — Chamei, a voz saindo um pouco mais estrangulada do que eu desejava.
Mhee deu um passo à frente, cobrindo levemente a minha visão, a habitual descontração dando lugar a uma vigilância tensa.
— Há quanto tempo você está aí? — Mhee perguntou, tentando soar casual, mas o desespero em sua voz era evidente.
Engfa permaneceu em silêncio por um breve instante, seus olhos percorrendo a tensão estampada em nossos rostos. Ela pareceu perceber o estado de alerta em que nos encontrávamos, e, para minha surpresa, aquela aura de superioridade que ela costumava carregar suavizou-se instantaneamente. O olhar severo deu lugar a uma expressão de desculpas, quase gentil.
— Acabei de chegar. — Ela afirmou, o tom calmo e uniforme, desarmando imediatamente o clima pesado. — Desculpe-me, Charlotte. Não tive a intenção de invadir seu espaço. Chamei da entrada algumas vezes, mas com a confusão da mudança, imagino que não tenham me ouvido. Resolvi entrar e verificar se precisavam de algo, ou se alguma coisa tinha acontecido.
Ela deu um passo para dentro do quarto, seus olhos percorrendo o ambiente, passando pelo meu urso caolho na cama, pelas caixas empilhadas e pela estante que Mhee tinha acabado de organizar. Parecia uma inspeção, mas não havia julgamento nela, apenas uma curiosidade genuína.
— Está tudo bem? — Ela perguntou, desta vez direcionando o olhar diretamente para mim, como se buscasse confirmar se o susto tinha passado. — A casa parece um pouco pequena, mas espero que esteja confortável para você. Há algo em que eu possa ajudar? Algo que você queira acrescentar aqui?
Olhei para Mhee, que ainda mantinha uma postura cautelosa, e depois voltei a observar Engfa. Ela não parecia ter ouvido nada; sua postura era de alguém que genuinamente queria ser prestativa. Ou eu a estaria subestimando? De qualquer maneira o alívio me atingiu com tal força diante da ausência de questionamentos.
— Está tudo bem! — Respondi, tentando forçar um sorriso natural. — Estamos apenas... organizando os últimos detalhes. Você não precisa se preocupar, esta tudo perfeito.
Engfa sustentou meu olhar por um momento, um sorriso sutil brincando no canto de seus lábios, como se ela pudesse ver através da minha tentativa de manter a compostura.
— Ótimo! — Ela disse, mantendo um tom encorajador. — Não quero atrapalhar o processo da sua adaptação. Só queria garantir que estivesse confortável. Fiquem à vontade!
Ela girou nos calcanhares e começou a se retirar, mas, antes de sair totalmente do quarto, parou por um segundo, olhando de volta para nós.
– Você já fez o convite a ela? – Engfa questionou a prima após algum tempo a observando.
– Convite? Que convite?
– Tio Arthit me disse que deixou você encarregada de levá-la ao aniversário dele. Toda família está curiosa para conhecer a Charlotte, especialmente nossas primas.
– Lingling está para chegar, e não é como se você fosse continuar conseguindo procrastinar esse encontro por muito tempo.
O tom de Engfa não era apenas informativo; era um alerta, como se de forma sútil deixasse claro para a prima que não havia nada que ela pudesse ocultar da família por muito tempo. Senti meu estômago dar um nó. Eu mal tinha terminado de desempacotar minhas roupas e já estava sendo colocada no centro de uma expectativa familiar que eu nem sabia que existia.
— O aniversário do papai! — Mhee exclamou, a mão indo parar na testa em um gesto de autodepreciação. — Meu Deus, eu tinha esquecido completamente! Com essa mudança, o prazo da festa saiu da minha cabeça. Já estamos chegando ao fim do mês.
Fiquei estática, processando a informação. Conhecer toda aquela família? De uma vez só? Engfa parecia não se importar com a minha perplexidade, ou talvez estivesse apenas decidida a não deixar mais espaço para o isolamento que Mhee vinha promovendo em torno de mim. Ela deu um passo à frente, focando toda a sua atenção em mim.
— Charlotte, já que a Mhee parece ter deixado a memória em algum lugar entre suas caixas de mudança. — Ela disse com um sorriso breve e pouco convivente. — Eu tomo a frente. Você está oficialmente convidada para a festa de aniversário do Tio Arthit. Eu mesma posso levá-la, considerando que agora você mora mais próximo da minha casa do que da Mhee.
Engfa cruzou os braços, mantendo uma postura que não aceitava recusas.
— Minhas primas, e a Miu, namorada da Lena, estão ansiosas para conhecê-la. Você tem sido o assunto principal das nossas conversas nos últimos dias, sabia disso? O Tio Arthit faz questão de recebê-la entre nós. Não se preocupe com o traje ou com o protocolo, apenas esteja presente.
Engfa não perguntou, ela apenas decidiu sem deixar espaço para qualquer recusa. Eu olhei para Mhee, buscando algum sinal, alguma saída para fugir, mas ela apenas me deu um sorriso encorajador, como se aquele convite fosse, na verdade, uma prova que eu precisava passar.
— Eu... eu não sei o que dizer. — Murmurei, sentindo o rosto esquentar. — É muita gente para conhecer de uma vez.
— É a nossa família, Charlotte. — Engfa respondeu, com uma suavidade repentina que me pegou de surpresa. — Eles não mordem. Na verdade, são pessoas bastante acolhedoras. E, para ser sincera, depois de todas essas semanas, acho que já passou da hora de você sair um pouco da bolha do escritório e ver como a nossa vida funciona. Conhecer o vilarejo, as pessoas… tenho certeza que você vai gostar!
Ela me lançou um olhar firme, mas carregado de uma expectativa que eu, pela primeira vez, não quis desapontar.
— No dia, esteja pronta. Eu te busco! — Concluiu Engfa, antes de finalmente se virar e sair pelo corredor, nos deixando para trás dividindo um silêncio perplexo.
Assim que a porta se fechou atrás de Engfa, o ambiente pareceu, enfim, perder aquela carga elétrica de tensão. Mhee soltou um suspiro longo, jogando-se sentada em uma das caixas que ainda não tinham sido abertas, e soltou uma risada nervosa.
– Ela é sempre assim, tão autoritária? – Olhei para Mhee.
– A Engfa? – Ela deixou um sorriso nervoso escapar. – Engfa é a personificação da maturidade, da proteção e da liderança silenciosa entre nós. Lidar com ela não é para amadores.
– Você é tão animadora, Lookmhee. Sua motivação realmente me encanta.
— Bom, pelo menos agora você já sabe que não vai ter escapatória. — Ela disse, dando de ombros. — Mas pense pelo o lado bom, se a Engfa já colocou o selo de aprovação dela, então, na festa você certamente vai ser o centro das atenções da minha família, e dificilmente alguém vai te desaprovar. Relaxa!
Sentei-me ao lado dela, ainda tentando absorver a lista de expectativas. Eu mal sabia como reagir àquela ideia.
— Mhee, eu mal sei lidar com a Engfa no dia a dia, imagina com o resto da sua família inteira reunida de uma só vez. Como eu vou saber quem é quem? Me dá um norte, por favor. Eu não quero ser a pessoa estranha que sequer sabe o que esperar.
Mhee deu um sorriso conspiratório, aquele que ela usava sempre que queria analisar as pessoas como se fossem personagens de um livro.
— Tudo bem, vamos lá. A segunda aula de genealogia da minha família começa agora. Naquele dia te falei um pouco sobre nós, mas agora vamos a mais detalhes.
Ela começou a gesticular, como se estivesse desenhando um organograma no ar.
— Bom, você já conhece a Engfa. Desde que éramos crianças, ela é como nossa líder, a rocha. Ela é a personificação da maturidade. Sabe aquele olhar que faz você se sentir vista e julgada ao mesmo tempo? É ela. Ela é pragmática, superprotetora e tem esse jeito de "tabuleiro de xadrez" de ver o mundo. Mas não se engane, por trás dessa fachada de empresária inabalável, ela tem uma sensibilidade que ela tenta esconder a todo custo. Você viu ela determinando que quem vai te levar é ela? é porque ela já te validou. — Mhee me cutucou com o cotovelo. — E acredite, a Engfa não perde tempo com ninguém que ela não ache no mínimo interessante.
Ela fez uma pausa, os olhos brilhando.
— Aí tem a Lena. Ela é uma escritora famosa, mas a vida dela deu um giro de 360 graus e de repente muita coisa mudou. Você deveria usá-la como inspiração. Hoje ela trabalha seus livros e eventos de forma independente. Ela desistiu de tudo para poder viver o amor que encontrou aqui no vilarejo. Às vezes ela ajuda a Miu na confeitaria, mas isso é mais como um hobby. — Mhee suspirou, com um carinho genuíno. — Ela é mais coração do que emoção. É complexa, resiliente, alguém que durante muito tempo se fechou atrás de obrigações e perfeccionismo para não ter que enfrentar as próprias dores. Ela era a imagem da seriedade, mas, desde que a Miu apareceu, eu tenho visto a casca dela trincar. Ela é tímida, e é também a pessoa mais humana que você vai conhecer quando finalmente baixa a guarda e permite-se rir um pouco. Ela está em um processo lindo de cura, Charlotte. Se você conversar com ela, vai aprender muita coisa, e quem sabe isso não seja bom para seu coração? Às vezes ela pode ser meio fechada em uma concha de seriedade tão irritante quanto a de Engfa. Ela exige muito de si mesma, entende? Isso você não precisa pegar como inspiração.
Mhee suspirou, parecendo quase orgulhosa ao falar da próxima prima.
— E, por fim, a Lingling, nossa atriz prodígio. Ela é irmã da Lena, de também de quem sou muito próxima. Ela é o nosso pilar de leveza. — continuou Mhee, agora com um sorriso largo. — Ela é uma boa observadora. Tem um faro incrível para sentimentos; ela percebe o que está acontecendo antes mesmo de nós mesmas sabermos. É a nossa cupido astuta, a que faz as brincadeiras certas para quebrar o gelo e empurrar as pessoas na direção da felicidade. Ela é madura, mas não abre mão da travessura. Se a Engfa é a razão e a Lena é a emoção, a Ling é a alegria que mantém essa engrenagem funcionando.
Eu fiquei em silêncio por um tempo, tentando visualizar aquelas figuras. Se Lookmhee era a personificação da energia, da espontaneidade e do alívio cômico, equilibrando as personalidades das outras três com uma vivacidade contagiante, Engfa, apresentava-se como a rocha; Lena, a alma resiliente; e Lingling, a luz. Parecia uma família imensa, barulhenta e profundamente conectada entre si.
— E quanto a mim… — Ela riu, levantando-se e fazendo uma reverência exagerada. — Eu sou um caos adorável, Charlotte. A pestinha que as outras não sabem viver sem, o elo perdido que mantém todo mundo rindo quando a situação aperta. Eu sou a pessoa que vai garantir que ninguém nunca passe vergonha sozinha.
Deitei a cabeça no encosto do sofá improvisado, sentindo uma mistura de medo e, surpreendentemente, algo que se aproximava da animação. Eu estava deixando de ser uma sombra perdida para entrar em um mundo onde, aparentemente, eu não seria apenas observada. Eu tinha tudo para ser bem-vinda, e gostaria de fazer as coisas certas por ali.
Empilhei a última caixa de papelão no canto do quarto e soltei um suspiro longo, sentindo o peso dos braços. O sol da tarde entrava pela janela, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Não era uma casa grande, mas, para mim, ela representava muito mais do que qualquer pessoa pudesse imaginar. Era o meu espaço, a minha pequena redoma de segurança, o lugar onde eu deixaria de ser apenas uma sombra na vida da Mhee para me tornar alguém com um endereço próprio.
Mhee, que fez questão de me ajudar com a mudança, começou a rir alto de algo que tinha acabado de tirar de uma das poucas caixas, já que eu não tinha muito para carregar comigo.
— Char, sério? Você guarda esse urso de pelúcia com um olho só? — Ela perguntou, erguendo o bicho de pelúcia velho e balançando-o como se fosse uma marionete. — E eu achando que você fosse uma mulher cheia de atitude.
Eu ri, sentindo minhas bochechas esquentarem, mas sem o desconforto que sentia no início quando começamos a conviver.
— Não seja rude! Ele tem valor sentimental. Ele me acompanhou em muita coisa ruim, Mhee. Foi o primeiro presente que ganhei no orfanato.
— Tá bom, tá bom, dona sentimental! Vamos deixar esse assunto de lado, ok? — Ela brincou, colocando o urso sobre a cama arrumada. — Mas olha, se a Engfa entrar aqui e ver um urso caolho te encarando, ela vai achar que você sofre de algum transtorno de personalidade ou que é uma bruxa que guarda fetiches.
— Não seja tonta! O que sua prima iria vir fazer aqui? Ela mal deve ter tempo para respirar.
Respondi, tentando manter a voz casual, embora uma pontada de ansiedade inexplicável surgisse ao pensar em qualquer proximidade empresária. Aliás, aquilo era algo curioso, considerando que desde a primeira vez que meus olhos encontraram com os da prima de Mhee, me senti daquela maneira.
— Você ainda não entendeu a personalidade da minha prima, não é mesmo? Engfa sempre se importa com tudo e todos que estão a sua volta. Então a pergunta certa seria… Por que ela não apareceria aqui?
– Por que ela se importaria comigo? – Confrontei.
Senti o peso das minhas próprias palavras pairando no ar. Mhee suspirou, abandonando o travesseiro sobre a cama e cruzando os braços, sua expressão perdendo um pouco daquela frivolidade brincalhona que ela exibia momentos antes.
— Você é muito teimosa. — Ela disse, aproximando-se com uma lentidão deliberada. — Você olha para a Engfa e só enxerga a barreira, o escudo que ela usa. Sim, ela desconfia de nós, e eu estou completamente ciente disso. Na verdade, eu nunca acreditei que podia realmente enganá-la em qualquer coisa durante toda minha vida. Ela sempre teve aquele faro detetivesco irritante. Mas você realmente acha que, se ela não se importasse, ela teria movido mundos e fundos para te dar uma oportunidade? Ela teria passado horas te ensinando sobre o funcionamento da empresa, ou sobre o plantio de arroz, como fez ontem? Ela pode desconfiar de algo, mas ela também gostou de você.
Mhee gesticulou o mundo lá fora.
— A Engfa é uma mulher de lógica, Charlotte. Se ela acreditasse que você é apenas uma ameaça ou uma mera funcionária que ela despreza, ela te manteria o mais longe possível, ou sequer teria te contratado. Ela não perde tempo com o que não tem qualquer significado para ela.
Engoli em seco, lembrando do olhar de Engfa quando segurou o copo que eu quase derrubei, da maneira como ela insistia para que eu tivesse cuidado com os próprios passos. Aquilo não era algo de alguém que realmente só desconfiava de mim. Havia uma urgência ali que eu não sabia nomear.
— Mas por que, Mhee? Por que ela se importaria? Eu sou uma desconhecida… alguém que apareceu do nada e que, como você mesma admitiu, está escondendo algo. Isso deveria ser motivo para ela me odiar, não para me acolher.
Mhee tocou levemente no meu ombro, o olhar carregado de uma honestidade que me obrigou a encará-la.
— Porque ela está te vendo da mesma maneira que eu vi naquele dia. — Ela respondeu simplesmente. — Ela não viu apenas "a desconhecida que a prima trouxe", não viu o currículo ou a fachada de eficiência. Por alguma razão, naquela mente analítica e fria, ela encontrou algo em você que a desarmou. A desconfiança é um detalhe. Se eu bem conheço minha prima, eu diria que ela quer ter certeza de que pode confiar em você, porque pensar do contrário a incomoda. — Mhee concluiu, dando um tapinha carinhoso na minha mão. — Não a subestime, Charlotte. E, principalmente, não subestime o impacto que você pode causar em qualquer pessoa. Você pode até achar que é apenas uma intrusa, alguém sem valor, sem importância, mas essa não é uma verdade absoluta e você vai descobrir isso quando passar a confiar em si mesma. A propósito, você vai ver! Agora que você é vizinha de muro, Engfa vai aparecer aqui com aquela desculpa de "precisamos alinhar os relatórios" em horários absurdos só para se certificar se tudo estar bem. A P’Fa é uma workaholic incurável, você sabe disso. Prepare o café, porque ela vai te transformar em uma extensão do escritório dela.
Eu me sentei na beira da cama, observando Mhee organizar alguns livros na estante improvisada. A energia dela era contagiante. Ela conseguia transformar uma mudança, que para mim era um marco aterrorizante, em uma brincadeira de crianças.
— Mhee... — Chamei, fazendo ela parar de mexer nos livros e me olhar. — Obrigada. Por não me deixar ter medo de dar esse passo. Obrigada, por tudo. Você me faz enxergar uma Charlotte de uma maneira que ninguém jamais enxergou antes. – Eu disse forçando esconder a emoção, porém deixando claro a gratidão que sentia.
Ela suavizou o sorriso, perdendo um pouco daquela mania de fazer piada com tudo.
— Você não precisa ter medo, Charlotte. Você é forte. Você só precisava de um empurrão para se encontrar. E agora, aqui, você tem a sua própria história para escrever. Sem dívidas a serem cobradas, sem crueldades por quem deveria te oferecer apoio, sem sombras, sem culpas… apenas você!
— É estranho. — Confessei. — Sentir que estou livre.
— É maravilhoso! — Ela corrigiu, piscando para mim. — E se a Engfa começar a ser chata demais, você pode simplesmente trancar a porta e dizer que está ocupada fazendo... sei lá, terapia com o seu urso de um olho só.
Nós duas caímos na gargalhada, um som que preencheu as paredes vazias e as fez parecer muito mais acolhedoras.
A mudança era definitiva, mas, enquanto Mhee contava uma história hilária sobre um encontro desastroso que teve na semana passada, eu percebi que a independência não era um abismo solitário. Era uma liberdade que eu finalmente estava pronta para abraçar. Amanhã, quando eu abrisse a porta e caminhasse em direção à cede da empresa, eu não estaria indo como uma fugitiva, mas como alguém que tinha um lugar para chamar de seu.
Estávamos entretidas naquele assunto quando um movimento sutil na moldura da porta travou minha respiração.
Engfa estava parada ali nos olhando de um jeito que fez meu coração gelar. Não sei dizer por quanto tempo a empresária estava ali. Talvez fosse segundos, mas no pior dos cenários poderia ter sido tempo suficiente para ter captado algo da nossa conversa.
A claridade do corredor projetava uma sombra longa sobre o chão, e sua postura, embora relaxada, era imponente. Ela mantinha os braços cruzados, observando-nos com uma expressão indecifrável que fez meu sangue parar de percorrer por minhas veias.
Mhee, que costumava ser a pessoa mais falante que eu conhecia, ficou subitamente muda. Eu senti um frio percorrer minha espinha, aquele pânico visceral de quem é pego no meio de uma verdade que deveria ser um segredo.
— Engfa? — Chamei, a voz saindo um pouco mais estrangulada do que eu desejava.
Mhee deu um passo à frente, cobrindo levemente a minha visão, a habitual descontração dando lugar a uma vigilância tensa.
— Há quanto tempo você está aí? — Mhee perguntou, tentando soar casual, mas o desespero em sua voz era evidente.
Engfa permaneceu em silêncio por um breve instante, seus olhos percorrendo a tensão estampada em nossos rostos. Ela pareceu perceber o estado de alerta em que nos encontrávamos, e, para minha surpresa, aquela aura de superioridade que ela costumava carregar suavizou-se instantaneamente. O olhar severo deu lugar a uma expressão de desculpas, quase gentil.
— Acabei de chegar. — Ela afirmou, o tom calmo e uniforme, desarmando imediatamente o clima pesado. — Desculpe-me, Charlotte. Não tive a intenção de invadir seu espaço. Chamei da entrada algumas vezes, mas com a confusão da mudança, imagino que não tenham me ouvido. Resolvi entrar e verificar se precisavam de algo, ou se alguma coisa tinha acontecido.
Ela deu um passo para dentro do quarto, seus olhos percorrendo o ambiente, passando pelo meu urso caolho na cama, pelas caixas empilhadas e pela estante que Mhee tinha acabado de organizar. Parecia uma inspeção, mas não havia julgamento nela, apenas uma curiosidade genuína.
— Está tudo bem? — Ela perguntou, desta vez direcionando o olhar diretamente para mim, como se buscasse confirmar se o susto tinha passado. — A casa parece um pouco pequena, mas espero que esteja confortável para você. Há algo em que eu possa ajudar? Algo que você queira acrescentar aqui?
Olhei para Mhee, que ainda mantinha uma postura cautelosa, e depois voltei a observar Engfa. Ela não parecia ter ouvido nada; sua postura era de alguém que genuinamente queria ser prestativa. Ou eu a estaria subestimando? De qualquer maneira o alívio me atingiu com tal força diante da ausência de questionamentos.
— Está tudo bem! — Respondi, tentando forçar um sorriso natural. — Estamos apenas... organizando os últimos detalhes. Você não precisa se preocupar, esta tudo perfeito.
Engfa sustentou meu olhar por um momento, um sorriso sutil brincando no canto de seus lábios, como se ela pudesse ver através da minha tentativa de manter a compostura.
— Ótimo! — Ela disse, mantendo um tom encorajador. — Não quero atrapalhar o processo da sua adaptação. Só queria garantir que estivesse confortável. Fiquem à vontade!
Ela girou nos calcanhares e começou a se retirar, mas, antes de sair totalmente do quarto, parou por um segundo, olhando de volta para nós.
– Você já fez o convite a ela? – Engfa questionou a prima após algum tempo a observando.
– Convite? Que convite?
– Tio Arthit me disse que deixou você encarregada de levá-la ao aniversário dele. Toda família está curiosa para conhecer a Charlotte, especialmente nossas primas.
– Lingling está para chegar, e não é como se você fosse continuar conseguindo procrastinar esse encontro por muito tempo.
O tom de Engfa não era apenas informativo; era um alerta, como se de forma sútil deixasse claro para a prima que não havia nada que ela pudesse ocultar da família por muito tempo. Senti meu estômago dar um nó. Eu mal tinha terminado de desempacotar minhas roupas e já estava sendo colocada no centro de uma expectativa familiar que eu nem sabia que existia.
— O aniversário do papai! — Mhee exclamou, a mão indo parar na testa em um gesto de autodepreciação. — Meu Deus, eu tinha esquecido completamente! Com essa mudança, o prazo da festa saiu da minha cabeça. Já estamos chegando ao fim do mês.
Fiquei estática, processando a informação. Conhecer toda aquela família? De uma vez só? Engfa parecia não se importar com a minha perplexidade, ou talvez estivesse apenas decidida a não deixar mais espaço para o isolamento que Mhee vinha promovendo em torno de mim. Ela deu um passo à frente, focando toda a sua atenção em mim.
— Charlotte, já que a Mhee parece ter deixado a memória em algum lugar entre suas caixas de mudança. — Ela disse com um sorriso breve e pouco convivente. — Eu tomo a frente. Você está oficialmente convidada para a festa de aniversário do Tio Arthit. Eu mesma posso levá-la, considerando que agora você mora mais próximo da minha casa do que da Mhee.
Engfa cruzou os braços, mantendo uma postura que não aceitava recusas.
— Minhas primas, e a Miu, namorada da Lena, estão ansiosas para conhecê-la. Você tem sido o assunto principal das nossas conversas nos últimos dias, sabia disso? O Tio Arthit faz questão de recebê-la entre nós. Não se preocupe com o traje ou com o protocolo, apenas esteja presente.
Engfa não perguntou, ela apenas decidiu sem deixar espaço para qualquer recusa. Eu olhei para Mhee, buscando algum sinal, alguma saída para fugir, mas ela apenas me deu um sorriso encorajador, como se aquele convite fosse, na verdade, uma prova que eu precisava passar.
— Eu... eu não sei o que dizer. — Murmurei, sentindo o rosto esquentar. — É muita gente para conhecer de uma vez.
— É a nossa família, Charlotte. — Engfa respondeu, com uma suavidade repentina que me pegou de surpresa. — Eles não mordem. Na verdade, são pessoas bastante acolhedoras. E, para ser sincera, depois de todas essas semanas, acho que já passou da hora de você sair um pouco da bolha do escritório e ver como a nossa vida funciona. Conhecer o vilarejo, as pessoas… tenho certeza que você vai gostar!
Ela me lançou um olhar firme, mas carregado de uma expectativa que eu, pela primeira vez, não quis desapontar.
— No dia, esteja pronta. Eu te busco! — Concluiu Engfa, antes de finalmente se virar e sair pelo corredor, nos deixando para trás dividindo um silêncio perplexo.
Assim que a porta se fechou atrás de Engfa, o ambiente pareceu, enfim, perder aquela carga elétrica de tensão. Mhee soltou um suspiro longo, jogando-se sentada em uma das caixas que ainda não tinham sido abertas, e soltou uma risada nervosa.
– Ela é sempre assim, tão autoritária? – Olhei para Mhee.
– A Engfa? – Ela deixou um sorriso nervoso escapar. – Engfa é a personificação da maturidade, da proteção e da liderança silenciosa entre nós. Lidar com ela não é para amadores.
– Você é tão animadora, Lookmhee. Sua motivação realmente me encanta.
— Bom, pelo menos agora você já sabe que não vai ter escapatória. — Ela disse, dando de ombros. — Mas pense pelo o lado bom, se a Engfa já colocou o selo de aprovação dela, então, na festa você certamente vai ser o centro das atenções da minha família, e dificilmente alguém vai te desaprovar. Relaxa!
Sentei-me ao lado dela, ainda tentando absorver a lista de expectativas. Eu mal sabia como reagir àquela ideia.
— Mhee, eu mal sei lidar com a Engfa no dia a dia, imagina com o resto da sua família inteira reunida de uma só vez. Como eu vou saber quem é quem? Me dá um norte, por favor. Eu não quero ser a pessoa estranha que sequer sabe o que esperar.
Mhee deu um sorriso conspiratório, aquele que ela usava sempre que queria analisar as pessoas como se fossem personagens de um livro.
— Tudo bem, vamos lá. A segunda aula de genealogia da minha família começa agora. Naquele dia te falei um pouco sobre nós, mas agora vamos a mais detalhes.
Ela começou a gesticular, como se estivesse desenhando um organograma no ar.
— Bom, você já conhece a Engfa. Desde que éramos crianças, ela é como nossa líder, a rocha. Ela é a personificação da maturidade. Sabe aquele olhar que faz você se sentir vista e julgada ao mesmo tempo? É ela. Ela é pragmática, superprotetora e tem esse jeito de "tabuleiro de xadrez" de ver o mundo. Mas não se engane, por trás dessa fachada de empresária inabalável, ela tem uma sensibilidade que ela tenta esconder a todo custo. Você viu ela determinando que quem vai te levar é ela? é porque ela já te validou. — Mhee me cutucou com o cotovelo. — E acredite, a Engfa não perde tempo com ninguém que ela não ache no mínimo interessante.
Ela fez uma pausa, os olhos brilhando.
— Aí tem a Lena. Ela é uma escritora famosa, mas a vida dela deu um giro de 360 graus e de repente muita coisa mudou. Você deveria usá-la como inspiração. Hoje ela trabalha seus livros e eventos de forma independente. Ela desistiu de tudo para poder viver o amor que encontrou aqui no vilarejo. Às vezes ela ajuda a Miu na confeitaria, mas isso é mais como um hobby. — Mhee suspirou, com um carinho genuíno. — Ela é mais coração do que emoção. É complexa, resiliente, alguém que durante muito tempo se fechou atrás de obrigações e perfeccionismo para não ter que enfrentar as próprias dores. Ela era a imagem da seriedade, mas, desde que a Miu apareceu, eu tenho visto a casca dela trincar. Ela é tímida, e é também a pessoa mais humana que você vai conhecer quando finalmente baixa a guarda e permite-se rir um pouco. Ela está em um processo lindo de cura, Charlotte. Se você conversar com ela, vai aprender muita coisa, e quem sabe isso não seja bom para seu coração? Às vezes ela pode ser meio fechada em uma concha de seriedade tão irritante quanto a de Engfa. Ela exige muito de si mesma, entende? Isso você não precisa pegar como inspiração.
Mhee suspirou, parecendo quase orgulhosa ao falar da próxima prima.
— E, por fim, a Lingling, nossa atriz prodígio. Ela é irmã da Lena, de também de quem sou muito próxima. Ela é o nosso pilar de leveza. — continuou Mhee, agora com um sorriso largo. — Ela é uma boa observadora. Tem um faro incrível para sentimentos; ela percebe o que está acontecendo antes mesmo de nós mesmas sabermos. É a nossa cupido astuta, a que faz as brincadeiras certas para quebrar o gelo e empurrar as pessoas na direção da felicidade. Ela é madura, mas não abre mão da travessura. Se a Engfa é a razão e a Lena é a emoção, a Ling é a alegria que mantém essa engrenagem funcionando.
Eu fiquei em silêncio por um tempo, tentando visualizar aquelas figuras. Se Lookmhee era a personificação da energia, da espontaneidade e do alívio cômico, equilibrando as personalidades das outras três com uma vivacidade contagiante, Engfa, apresentava-se como a rocha; Lena, a alma resiliente; e Lingling, a luz. Parecia uma família imensa, barulhenta e profundamente conectada entre si.
— E quanto a mim… — Ela riu, levantando-se e fazendo uma reverência exagerada. — Eu sou um caos adorável, Charlotte. A pestinha que as outras não sabem viver sem, o elo perdido que mantém todo mundo rindo quando a situação aperta. Eu sou a pessoa que vai garantir que ninguém nunca passe vergonha sozinha.
Deitei a cabeça no encosto do sofá improvisado, sentindo uma mistura de medo e, surpreendentemente, algo que se aproximava da animação. Eu estava deixando de ser uma sombra perdida para entrar em um mundo onde, aparentemente, eu não seria apenas observada. Eu tinha tudo para ser bem-vinda, e gostaria de fazer as coisas certas por ali.
Fim do capítulo

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