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Por narrador

O escritório de Engfa estava envolto em um silêncio denso, interrompido apenas pelo tic-tac ritmado do relógio de parede, um som que, naquele momento, parecia amplificar a irritação crescente da empresária. Pela terceira vez em menos de uma hora, ela encarava a tela do celular, onde o nome "Jinda" brilhava com uma indiferença que começava a ser intolerável.
Ela discou novamente. O tom de chamada soou, monótono e longo, até mais uma vez ser engolido pela caixa postal.
Engfa bloqueou a tela com um movimento brusco e atirou o aparelho sobre a mesa de mogno. Ela não era, de forma alguma, o tipo de mulher que se perdia em carência ou que monitorava os passos de alguém. O relacionamento com Jinda sempre fora pautado por uma liberdade inegociável, uma via de mão única onde o desapego era a regra de ouro de ambas as partes. No entanto, o que antes parecia um arranjo prático e sofisticado, agora começava a exibir rachaduras que a incomodavam profundamente, porque tudo cansa, até mesmo a praticidade.
Não era apenas a falta de resposta; era a natureza daquele silêncio. A forma como a ausência de Jinda ocupava o espaço parecia um lembrete constante de que, para a outra, Engfa era apenas uma conveniência, uma parada estratégica entre um compromisso e outro.
Ela levantou-se, caminhando até a janela e observando o campo agrícola lá embaixo. Seus dedos tamborilaram nervosamente no parapeito. Aquela sensação de ser "secundária" era estranha para alguém que, em todas as esferas da vida, exigia e exercia o protagonismo. Ser o elo mais fraco de uma relação baseada em desinteresse mútuo sempre fora aceitável, mas, nos últimos tempos, a frieza de Jinda soava mais como um descaso deliberado do que como a autonomia que haviam pactuado.
O orgulho de Engfa a impedia de insistir uma quarta vez. Ela não era uma mulher de mendigar atenção, e a ideia de se tornar "pegajosa" era algo que ela desprezava profundamente. Ainda assim, a frustração queimava-lhe o peito, uma pontada de descontentamento que ia além do ego ferido. Ela percebia que o "acordo" de liberdade total, que um dia lhe parecera tão moderno, agora parecia apenas um vazio mal disfarçado.
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando retomar aquela fachada de controle que era sua marca registrada. Mas a verdade era que, pela primeira vez, a lógica fria de seus negócios não conseguia explicar a confusão que fervilhava em seus pensamentos. O jogo que ela e Jinda jogavam não parecia mais tão divertido, e, na solidão daquela sala, Engfa teve que admitir que estava cansada de ser a única a sentir o peso da distância.
O silêncio do escritório foi subitamente quebrado pelo toque estridente do celular de Engfa. Ao ver o nome do pai no visor, ela suspirou, tentando ajustar a postura e mascarar a frustração que ainda vibrava em seu peito.
— Oi, papai. — Ela atendeu, com a voz carregando aquele tom monótono de quem ainda não tinha saído do modo "executiva".
— Engfa? Está tudo bem, querida? Sua voz parece mais entediada do que o normal hoje. — O Sr. Tawan respondeu do outro lado, com um riso brando. — Você deveria seguir o meu exemplo e deixar esse trabalho de lado por algumas horas. Eu, por exemplo, estou aqui, tentando a sorte na pescaria.
Engfa afastou o aparelho do ouvido, encarando a tela com uma careta de estranhamento.
— Pescaria? Desde quando o senhor pesca, pai?
O Sr. Tawan deu uma risada sincera.
— Comecei hoje mesmo, minha filha.
Engfa não conseguiu conter uma risada curta. Ela bem sabia que, nos últimos tempos, seu pai inventava qualquer desculpa — da jardinagem à marcenaria — apenas para escapar das pilhas de documentos da fazenda.
— Entendi... — Ela disse, divertindo-se com a estratégia do mais velho.
— Mas liguei principalmente para avisar que a casa que você pediu para a senhorita Charlotte já está pronta. Ela pode se mudar quando quiser.
— Obrigada, pai. Agradeço muito por ter organizado isso. — Engfa respondeu, sentindo um alívio genuíno.
— Não foi nada demais, querida. Mas, sendo sincero... ainda não entendi por que você insistiu tanto em deixá-la naquela casa específica. As casas de alojamento ficam bem distantes da nossa residência principal, e normalmente só cedemos para funcionários com família formada. Aquela casa é praticamente sua vizinha. Por que tanta proximidade?
Engfa travou. O instinto de defesa foi instantâneo.
— Bem, papai... a Charlotte agora além de nossa contadora, também é minha assistente pessoal. Morando ali ao lado, ela pode atender às demandas da minha rotina com muito mais agilidade. Facilita o trabalho.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha, seguido por um tom de voz carregado de surpresa.
— Assistente pessoal? Engfa, quando você me avisou sobre a contratação, só falou sobre a contabilidade. – O mais velho enrugou a testa ao questionar: – Desde quando você gosta de ter uma assistente pessoal? Você sempre odiou qualquer pessoa interferindo no seu dia a dia ou invadindo sua privacidade. O que mudou?
A pergunta atingiu Engfa como um choque térmico. O que mudou? Ela mesma não tinha uma resposta pronta, ou pelo menos, não uma que pudesse explicar ao pai sem parecer que estava perdendo o controle da situação que sua prima havia provocado. Aliás, perder o controle era algo que ela odiava admitir.
Sentindo o suor frio do impasse, ela olhou para a porta do escritório, vendo a silhueta de Charlotte no corredor, e improvisou com pressa:
— Pai, surgiram algumas urgências aqui que eu não esperava. Preciso resolver agora mesmo, não posso continuar no telefone. Depois nos falamos com calma, certo? Um beijo!
Antes que Tawan pudesse retrucar, ela encerrou a chamada. Colocou o celular sobre a mesa com a mão trêmula, o coração batendo um pouco mais rápido do que o habitual, ainda tentando digerir a pergunta que o pai, com sua percepção aguçada, acabara de colocar na mesa.
Engfa saiu de sua sala, a intenção inicial era dar a Charlotte a notícia sobre sua casa estar pronta para que ela se mudasse. Seus passos eram silenciosos, um hábito adquirido pelos anos de gestão na fazenda, onde a cautela era sempre uma virtude. Ela contornou o corredor, mas antes de alcançar a estação de Charlotte, parou bruscamente.
Charlotte estava parada diante da janela que dava vista para o pátio da cede, o celular em mãos. A tela brilhava intensamente, refletindo a iluminação pálida do dia. No instante em que os olhos de Charlotte percorreram o conteúdo desconhecido por Engfa, seu corpo inteiro enrijeceu. A empresária viu a cor fugir de seu rosto, substituída por uma palidez que contrastava com a jaqueta escura. Seus lábios se abriram em um suspiro contido, e suas mãos, normalmente tão precisas, começaram a tremer.
Num reflexo rápido, ela bloqueou a tela e guardou o aparelho no bolso da calça com uma pressa desajeitada, quase frenética, como se tentasse esconder uma prova de um crime.
Engfa observou a cena, a percepção aguçada captando cada detalhe. O ar que rodeava Charlotte, antes sereno, agora parecia carregado de uma angústia palpável. Ela poderia ter perguntado diretamente, afinal de contas, era o seu estilo, direto e pragmático, mas algo na vulnerabilidade crua da moça a fez hesitar. Ela sabia que, para alguém como Charlotte, o confronto direto era uma muralha; ela precisava de uma ponte.
Engfa respirou fundo, endireitou a postura e deu o próximo passo, fazendo questão de que o som de seus sapatos no piso de madeira fosse ouvido.
— Charlotte? — A voz de Engfa soou calma, quase casual.
Charlotte sobressaltou-se, girando o corpo com um brilho de pânico nos olhos. Ela tentou forçar um sorriso, mas ele não passou de uma linha trêmula.
— Chefe... eu... estava apenas conferindo uma mensagem. — Ela gaguejou tentando se recompor rapidamente.
Engfa não questionou. Não perguntou quem era, nem o que dizia. Ela apenas se aproximou, parando a uma distância respeitável, mantendo a postura de quem não estava ali para cobrar trabalho, mas para oferecer presença. Ela não invadiu o espaço, mas não se retirou. O silêncio que se instalou foi diferente de todos os outros momentos que compartilharam; não era um silêncio profissional, era um silêncio de acolhimento.
— Às vezes… — Engfa começou, olhando pela mesma janela que antes Charlotte olhava, evitando forçar o contato visual com sua assistente. — O trabalho pode ser o melhor refúgio que temos. Mas, se o peso de tudo o que está fora daqui se tornar grande demais, saiba que não precisa carregar isso em silêncio. Minha prima já deve ter mencionado para você que normalmente temos uma característica incomum… – Os olhos das duas se encontraram e Charlotte pode sentir a imposição firme da presença de Engfa. – A de sermos boas ouvintes.
Charlotte, sustentando o olhar de Engfa, não pode deixar de se sentir surpresa com a ausência de cobrança. O pânico nos olhos da assistente diminuiu um pouco, dando lugar a uma expressão de confusão genuína misturada com um alívio quase doloroso. Ela baixou a guarda por um milésimo de segundo, e naquele breve lapso, o muro de desconfiança entre as duas diminuiu sem que ao menos elas percebessem.
— Obrigada, chefe. — Charlotte respondeu, a voz embargada, mas um pouco mais firme.
Engfa apenas assentiu, um gesto sutil. Ela não obteve a verdade, mas obteve algo mais valioso naquele momento: a percepção de Charlotte de que talvez Engfa fosse mais que uma empresária rigorosa.
– Venha comigo! Quero te mostrar uma coisa.

…

O céu sobre o vilarejo apresentava um cinza límpido, sem a ameaça das chuvas pesadas, o que proporcionou a oportunidade perfeita para o que Engfa planejara. Ela convidou Charlotte para uma caminhada técnica até as áreas de cultivo, onde as mudas de arroz, viçosas e de um verde intenso, ondulavam sob a brisa suave.
Engfa, com suas botas de campo e uma postura que emanava uma autoridade serena, caminhava entre os talhões de inundação. Ela parou diante de um canteiro e apontou para o sistema de irrigação com precisão.
— O segredo não está apenas na qualidade da semente, Charlotte. — Explicou Engfa, a voz ganhando um tom apaixonado que raramente surgia no escritório, o que acabou surpreendendo a assistente. — Está na gestão da água e na observação constante do solo. Veja a coloração desta folha; ela nos diz exatamente o nível de nitrogênio que precisamos aplicar. Se deixarmos o nível da água subir dez centímetros a mais, corremos o risco de asfixiar a raiz e perder toda a vigorosidade da planta.
Charlotte acompanhava cada movimento de Engfa com uma atenção quase devota, anotando mentalmente cada detalhe. Ela se agachou perto da borda de um dos canteiros, observando o reflexo das nuvens na lâmina d’água, maravilhada com a simbiose entre a natureza e a técnica que a empresária dominava.
— É fascinante! — Charlotte comentou, levantando-se e limpando as mãos no jeans. — Você fala sobre cada etapa com uma naturalidade que é... quase impressionante, eu diria. Eu sei que você é uma gestora nata, mas eu não imaginava que sabia tanto sobre o plantio. Como você aprendeu tudo isso?
Engfa sorriu, um sorriso genuíno que desfez a linha rígida de sua expressão habitual. Ela olhou para a vasta extensão de campos que se perdiam no horizonte, uma paisagem que carregava o nome da sua família há gerações.
— Acredite, não foi apenas em manuais. — Ela admitiu, caminhando devagar novamente. — Eu me formei em Agronomia, sim, precisei do diploma para modernizar os negócios e falar de igual para igual com os grandes investidores. Mas a verdade é que eu aprendi a conduzir a fazenda de verdade com o meu pai e o meu avô.
Ela parou diante de um mourão de cerca antiga, encostando a mão na madeira gasta pelo tempo.
— Eu ainda era criança quando meu avô me ensinou a ler o vento e a prever a chuva pelo cheiro da terra, isso antes mesmo que os sensores digitais existissem. Meu avô não confiava na tecnologia, para a ele a sabedoria divina era mais precisa. Por sua vez, meu pai me ensinou a persistência, a lutar contra cada praga como se fosse uma batalha pessoal. Eles não me ensinaram a gerir uma empresa; eles me ensinaram a honrar uma terra. O que você vê aqui é uma mistura da ciência moderna que estudei na universidade com a sabedoria silenciosa que eles me passaram, o conhecimento cultivado de geração após geração.
Charlotte ouvia em silêncio, processando a profundidade do legado que Engfa carregava. Ela percebeu que, por trás da empresária que exigia perfeição nos relatórios, existia uma mulher que tinha suas raízes profundamente fincadas no chão daquela fazenda. Aquele conhecimento não era apenas trabalho; era uma forma de amor, uma herança que Engfa, com toda a sua inteligência, estava decidida a proteger e elevar a um novo patamar.
O vento passou entre as duas, carregando o cheiro úmido de terra fértil e o sussurro suave das folhas de arroz se tocando. Charlotte permaneceu em silêncio por um longo momento, absorvendo as palavras de Engfa. O olhar de admiração que ela lançava à empresária não tinha mais nada da timidez excessiva dos primeiros dias; era, agora, uma curiosidade impregnada que estava se transformando em respeito.
— É uma responsabilidade imensa. — Charlotte murmurou, quase para si mesma, olhando para os campos que se estendiam até a linha da floresta. — Quero dizer, manter viva uma tradição enquanto se lida com a pressão do mercado atual. Acho que agora entendo por que você é tão rigorosa com os processos. Você não está apenas gerindo um negócio, está zelando pela história da sua família.
Engfa virou-se para encará-la. A luz suave da tarde ressaltava a seriedade em seus traços, mas havia um brilho diferente em seus olhos, um reconhecimento mútuo.
— Exatamente! — Confirmou Engfa. — Erros aqui têm um custo que vai além das planilhas. Quando você perde uma safra, você interrompe uma continuidade. Por isso, cada detalhe importa. Mas na vida também não é assim? Quero dizer, se erramos não temos que enfrentar consequências?
As duas mulheres sustentaram o olhar uma da outra, cada uma vivendo seu próprio dilema.
Charlotte deu um passo à frente, acompanhando o olhar de Engfa, e por um instante, a distância entre elas pareceu se dissolver no campo aberto.
– Você quer aprender mais sobre isso? Eu posso te ensinar. – Ofereceu Engfa, tentando mudar o clima que havia envolvido as duas.
– Uhum! Se você puder ensinar, e de alguma forma isso for ser útil no trabalho, então eu gostaria de aprender. — Charlotte admitiu, um brilho de determinação surgindo em seu rosto. — Não apenas sobre os números, que é onde me sinto confortável, mas sobre o que faz esse lugar funcionar de fato. Se você me permitir tentar, é claro.
Engfa sentiu uma pontada de satisfação percorrer seu peito. A proposta de Charlotte não era uma mera tentativa de agradar; era um pedido de integração naquilo que pra ela era seu universo.
— Acho que isso pode ser muito produtivo, Charlotte. — Respondeu a empresária, começando a caminhar de volta em direção à sede, com a assistente ao seu lado. — Conhecer o campo vai tornar seu trabalho no escritório muito mais eficiente. A teoria ganha vida quando você entende o peso do solo sob as botas. Além disso, embora já tenha um tempo que não faço isso, quando eu estou me sentindo muito sobrecarregada com as burocracias, costumo usar as atividades do plantio como uma zona de escape. Você pode tentar também.
Enquanto voltavam, o silêncio entre elas não era mais pesado ou carregado de desconfianças. Era um silêncio compartilhado, onde o ritmo dos passos de Charlotte, embora ainda um pouco desajeitado perto das passadas firmes de Engfa, começava a se sincronizar com a cadência da fazenda.
Engfa, apesar de seu foco habitual, notou que Charlotte, desta vez, não tropeçou uma única vez nas irregularidades do terreno. Era como se, ao entender o valor do que estava ao redor, a jovem tivesse encontrado uma nova frequência, ou talvez, apenas estivesse aprendendo a confiar no terreno que pisava, ao menos enquanto estivesse ao seu lado.
O caminho de volta à sede era acompanhado por um pôr do sol que tingia o horizonte em tons de âmbar e violeta, criando uma atmosfera serena que convidava à confidência. Elas caminhavam lado a lado, e a proximidade física, antes imposta pela rotina de escritório, agora parecia algo natural, quase ditada pelo ritmo daquela tarde, o que contradizia com a culpa que Charlotte carregava por ocultar algo importante daquela que vinha sendo tão boa com ela, e com as desconfianças que Engfa guardava em relação aquela eu a deixava intrigada.
Engfa, com as mãos enterradas nos bolsos de seu casaco utilitário, quebrou o silêncio com uma voz calma, despida de qualquer demonstração de desconfiança.
— A propósito… A casa que você vai ocupar já está pronta, Charlotte. — Anunciou, mantendo os olhos focados na trilha à frente. — Meu pai supervisionou os últimos detalhes hoje cedo. Você pode se mudar no momento em que se sentir preparada para isso.
Charlotte parou de caminhar por um instante, o que fez Engfa interromper seus passos logo à frente e virar-se para ela. A notícia pareceu colidir com uma mistura de surpresa e uma melancolia súbita na expressão da moça. Seria insegurança o que ela estava sentindo?
— Já? — Charlotte murmurou, os olhos percorrendo uma distância imaginária.
– Algum problema com isso?
A pergunta despretenciosa de Engfa, escondia seu verdadeiro questionamento. Charlotte preferia ignorar sua privacidade para se manter ao lado da sua prima?
— Problema nenhum! Na verdade, só pensei que demoraria mais tempo. De qualquer maneira, eu não sei como agradecer por tudo isso, Chefe. De verdade! Mhee tem sido incrível, mas eu sei que não posso ficar hospedada com ela para sempre.
— Não precisa agradecer por algo que é apenas uma questão de estrutura. — Engfa respondeu, com aquele tom pragmático que costumava esconder seus sentimentos mais profundos. — A mudança vai te dar a autonomia que você precisa. Não foi pra isso que você veio para cá? Para iniciar uma nova vida? – A empresária dessa vez estudou a reação da assistente sem se preocupar em ser pega. – Você e minha prima estão muito próximas e eu entendo que talvez você já estivesse acostumada com a companhia dela, mas não significa que não vão mais poder se verem. Além disso, sendo vizinha da sede, qualquer demanda que surgir, você estará acessível. É o fluxo de trabalho mais lógico para alguém que ainda não está acostumada com o vilarejo.
Charlotte assentiu, embora houvesse uma nota de hesitação em seus ombros. A ideia de se mudar representava um passo em direção a uma independência que ela não experimentava há muito tempo, mas também significava o rompimento do casulo que Mhee havia criado para ela. Além disso, ela não era inocente e sabia perfeitamente que Engfa por trás do “É o fluxo de trabalho mais lógico” estava uma outra verdade não dita… Engfa a queria por perto para poder vigiá-la, já que claramente a empresária embora gentil e disposta a ensiná-la sobre o trabalho, ainda assim não confiava nela para estar ao lado de Mhee.
— Eu vou contar a novidade para Mhee, e organizar minhas coisas o quanto antes. — Disse Charlotte, tentando imprimir um tom de eficiência em sua voz. — Se não houver problema, posso fazer a mudança durante o final de semana. Assim, na segunda-feira, eu já começo o dia a partir da casa nova.
Engfa deu um meio sorriso, um gesto que suavizou os traços severos de seu rosto.
— É um plano sensato. Terá o final de semana para se instalar e descansar. Se precisar de ajuda, não hesite em pedir,
Engfa voltou a caminhar, e Charlotte apressou-se para acompanhá-la. Enquanto o vulto da sede da empresa se tornava cada vez mais visível, Engfa sentiu um estranho conforto em saber que, em poucos dias, Charlotte estaria vivendo logo ali, a poucos metros de distância dos seus olhos. Ela não pretendia planejar nenhuma armadilha para a sua assistente, mas queria ter a situação – qualquer que fosse ela – sob seu controle. O mistério que a envolvia continuava lá, latente, mas a empresária estava confiante que em algum momento iria descobrir o que era ocultado por Charlotte e Lookmhee.

Fim do capítulo

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