Por Engfa
Uma semana depois
O aroma de grãos torrados e o doce sutil das especiarias da confeitaria sempre tinham um efeito calmante, mas naquela manhã, nem o café forte era capaz de silenciar a inquietação que eu carregava. Uma semana havia se passado desde que Charlotte Austin ocupara a mesa ao lado da minha, e, no entanto, eu parecia estar lendo o mesmo currículo pela terceira vez.
As folhas de papel, que eu já sabia decoradas estavam espalhadas sobre a mesa de madeira. Analisei novamente as datas, as qualificações, o currículo impecável... e o vazio absoluto sobre o que a trouxe para este vilarejo.
— Terceira vez, Engfa? — A voz de Lena interrompeu meu fluxo de pensamentos.
Levantei o olhar. Ela trazia um avental de cozinha e o sorriso sereno de quem, finalmente, encontrara o seu ritmo ao lado de Miu. Minha prima parou ao meu lado, limpando as mãos em um pano, seus olhos fixos na pasta que eu examinava.
— Já é muito suspeito você estar aqui a essa hora da manhã, e fico ainda mais preocupada em ver que você está analisando os documentos da moça de novo. — Lena observou, puxando uma cadeira e sentando-se com a naturalidade de quem conhece cada uma das minhas manias. — O que exatamente você está procurando que ainda não achou?
Fechei a pasta com um suspiro, olhando para a xícara de café.
— Nem eu sei explicar, Lena. Só sinto que algo não está cem por cento encaixado. O surgimento dela foi repentino demais, e com uma história pronta. Pessoas com o currículo e a capacidade intelectual que ela demonstrou ter nesta semana não acabam "por acaso" no banco de trás do carro da Lookmhee após uma demissão. Aliás, esse é o ponto… Mhee nunca fez algo assim, e do nada surge com uma desconhecida, e pior, parece disposta a protegê-la com a própria vida se for o caso. Mas aí que está… Por que a moça precisa de tanta proteção assim?
Lena franziu o cenho, parecendo assustada com tantos pontos de interrogação que joguei em seu colo. O tom de voz baixando para não atrair a atenção de Miu que estava pelo salão atendendo os clientes com a simpatia de sempre.
— Se você desconfia tanto, por que não senta com a Mhee e coloca a carta na mesa? Você sabe que ela não consegue manter um segredo por muito tempo se você pressionar.
Soltei uma risada nasalada, um misto de desdém e exaustão.
— Porque é justamente aí que está o problema, Lena. A Charlotte eu não conheço, então não posso julgá-la sem provas. Mas a Mhee... — Balancei a cabeça, frustrada. — A Mhee eu conheço o bastante para saber que ela está me escondendo algo, e dessa vez ela não vai falar assim com facilidade. Ela criou uma blindagem emocional em torno dessa moça que faria qualquer interrogatório parecer perda de tempo.
Lena me encarou por alguns segundos, processando a informação, até que seus olhos brilharam com uma conclusão repentina.
— Espera... — Ela sussurrou, com um meio sorriso divertido. — Então foi por isso que você contratou a moça com tanta facilidade? Céus, Engfa, você vai levá-la para dentro das suas terras, literalmente, para manter a “inimiga” — ou o mistério — perto o suficiente para observar?
Abri um sorriso fino, aquele que eu guardava apenas para os momentos em que o tabuleiro de xadrez começava a pender a meu favor.
— Quanto mais perto ela estiver, Lena, mais fácil será descobrir o que está por trás daquelas íris tristes que ela insiste em esconder e disfarçar em meio a própria timidez. Mas eu tenho observado a moça. Eu não acho que Charlotte seja uma ameaça, pelo contrário, ela… ela parece ser uma boa pessoa. Mas o silêncio dela e a lealdade cega da Mhee, são um quebra-cabeça que eu pretendo montar.
Lena balançou a cabeça, rindo baixinho da minha audácia.
— Você é impagável, Engfa. Mas e se for mesmo isso? Se for só um caso de uma mulher em busca de recomeço para a própria vida?
— Então, se for apenas isso… — Respondi, voltando a organizar os papéis com precisão. — O mérito dela como profissional se sustenta sozinho. Admitindo a verdade, Charlotte tem um currículo invejável. Se eu não descobrir nada, ao menos terei ganho uma assistente brilhante. Mas, no fundo, eu sei que há algo mais. E eu vou descobrir o que é.
– Agora vendo você falar assim, eu estou ainda mais curiosa para conhecê-la. – Lena disse com os olhos brilhando.
– Você ainda não a conhece? – Ergui a sobrancelha. – Como isso é possível?
– Bem, eu já pedi para Mhee trazer ela aqui para nos apresentar, mas a pestinha vive dando desculpas, e agora com a moça trabalhando com você, parece ainda mais difícil.
– Viu? É exatamente sobre isso que eu estou falando. — Retruquei, sentindo uma pontada de irritação. — Mhee está blindando a Charlotte de uma forma quase sistemática. Quando na vida você viu a Lookmhee se comportando assim? Ela geralmente faz questão de se exibir para o mundo inteiro.
Lena fez uma pausa, o sorriso diminuindo enquanto uma ideia parecia florescer em sua mente. Ela inclinou o corpo para frente, baixando o tom de voz sem esconder o espanto:
— Você acha que ela está apaixonada? — Lena arregalou os olhos.
Soltei uma risada curta, negando imediatamente com a cabeça.
— Não, Lena, descarte isso. É perceptível que o que existe entre a Mhee e a Charlotte é uma amizade genuína, carregada de uma gratidão quase sacrificial, mas não é romance. Se fosse, a Mhee não conseguiria segurar a língua por uma semana inteira, ela já teria escancarado tudo para nós.
Não consegui conter o riso que subiu pela minha garganta ao lembrar do drama que ocorrerá dias atrás.
— Se você soubesse pânico instalado… o coitado do Tio Arthit está em um estado de colapso nervoso absoluto. Outro dia ele passou a manhã inteira na minha sala, genuinamente convencido de que a Lookmhee desonrou a moça e a "roubou" de alguma família influente. Ele chegou a me perguntar se ela estava grávida! Ele está vivendo um pesadelo sem entender de onde a filha trouxe a moça, temendo que a qualquer momento apareça alguém armado na fazenda para exigir um "acerto de contas", ou pior, um casamento.
Dessa vez Lena soltou uma gargalhada tão alta que alguns clientes nas mesas próximas se viraram para olhar. Ela precisou colocar a mão sobre a boca para abafar o som, seus ombros sacudindo com a diversão.
— O Tio Arthit? Sério? — Ela zombou, entre espasmos de riso.
– Seríssimo! Você sabe que ele é um homem sério e que algumas tradições ainda são enraizadas naquela cabeça.
— De fato! Ele é um homem extremamente respeitável e centrado para os negócios, deve temer que de alguma forma a louca da filha o coloque em uma situação caótica. Meu Deus, ele é completamente desmiolado das ideias quando se trata da vida pessoal da Mhee. A forma como ele romantiza o caos que aquela menina cria é, no mínimo, hilária.
— Pois é! — Concordei, sentindo meu próprio humor melhorar. — Ele está agindo como o patriarca de um drama épico, enquanto a realidade é apenas a Mhee sendo a sua versão desastrada e caótica de sempre.
Lena limpou uma lágrima de riso no canto do olho e me deu um tapinha no ombro.
— Boa sorte, Engfa. Pai e filha te arrastaram para o centro do furacão. Porque, conhecendo a Mhee, se ela decidiu que você não deve saber de algo, você vai ter que suar muito para arrancar essa verdade dela. E conhece o tio Arthit, ele vai deixar que você desvende o que ele acha ser um problema.
— E eu não sei disso? Mas eu tenho todo o tempo do mundo, Lena. — Respondi, sorrindo de lado. — Eu sou uma pessoa paciente, e agora que a tenho sob a minha supervisão diária, o tempo está trabalhando totalmente a meu favor. Além disso, não é difícil conviver com a Charlotte.
– Hum… – Lena me observou minuciosamente. – Então você também gosta da moça?
– Muita calma nessa hora. Gostar é uma palavra forte. Mas eu não desgosto dela, e falando profissionalmente eu tenho aprendido admirá-la.
Interessada, Lena sustentou o queixo sob suas mãos enquanto me manteve sob a mira do seu olhar intrigando.
– Profissionalmente? O que isso quer dizer exatamente?
— Sabe, Lena, a ironia é que eu estava preparada para alguém que precisasse de um treinamento exaustivo. — Comecei, tamborilando os dedos na mesa enquanto observava o movimento da confeitaria. — Mas a Charlotte... ela é um enigma. Em apenas uma semana, ela não só absorveu o funcionamento da empresa, como já começou a otimizar processos que eu levava horas para conferir. Ela é inteligente, incrivelmente organizada, atende a todos os requisitos que eu prezo e, francamente, excede as minhas expectativas de produtividade.
Fiz uma pausa, lembrando-me da cena no armazém. O meio sorriso involuntário que surgiu no meu rosto foi algo que não consegui conter.
— Mas, como nada nessa vida pode ser perfeito, ela tem um defeito curioso: ela é desastrada. O nível de desatenção dela com o espaço ao redor é quase cômico. Ela vive esbarrando nos cantos das mesas, deixa cair canetas, tropeça em fios... é um festival de pequenos desastres constantes.
Lena soltou um risinho, arqueando a sobrancelha.
— E você, a mulher que detesta o menor sinal de desordem ou ineficiência, não está arrancando os cabelos com isso?
— Esse é o ponto que mais me surpreende. — Admiti, pensativa. — Normalmente, isso me irritaria a um nível profundo. Mas com ela, a reação é diferente. Não sinto raiva, sinto apenas um alerta. É uma preocupação genuína, quase instintiva. Toda vez que ela deixa algo cair ou quase torce o pé, meu primeiro impulso não é repreendê-la pela falta de jeito, mas sim garantir que ela não se machucou.
Suspirei, olhando para o vazio. A vulnerabilidade de Charlotte, somada àquela desatenção peculiar, ativava em mim um sensor de que eu não sabia que estava tão afiado.
— Eu vivo cobrando mais atenção dela, quase como um mantra. "Cuidado onde pisa", "olhe onde coloca as mãos", "atenção ao movimento". Às vezes acho que ela me acha uma chata, ou talvez excessivamente severa, mas a verdade é que o ambiente operacional da empresa pode ser perigoso para quem vive com a cabeça nas nuvens. Eu não quero ver aquela mulher se ferindo por uma distração boba. Existe algo na forma como ela tenta ser invisível que me faz querer mantê-la inteira e sob a minha supervisão.
Lena me observou por um longo momento, o sorriso em seus lábios ganhando um contorno mais enigmático.
— Engfa, você fala da superproteção que Mhee dar a essa moça, mas você não percebe que se continuar assim vocês duas vão disputar quem consegue o direito desse título? Você está falando como quem encontrou algo muito mais precioso do que uma simples assistente financeira.
A olhei quase fulminante.
– Está louca, Lena? Eu não sou tão emocionada assim.
– Eu? De jeito nenhum! Mas cuidado para não tropeçar nos seus próprios sentimentos enquanto tenta impedir que ela tropece nos móveis.
Apenas revirei os olhos, tomando o último gole de café ignorando completamente a zombaria da minha prima.
…
O sol da tarde filtrava-se pelas persianas do meu escritório, desenhando listras diagonais sobre a pilha de documentos que eu revisava. O ambiente estava imerso naquele silêncio produtivo que eu tanto prezava, interrompido apenas pelo som rítmico do teclado do iPad de Charlotte, que trabalhava em sua estação, um pouco mais afastada, mas ainda dentro do meu campo de visão.
Eu estava prestes a finalizar um relatório de exportação quando a voz dela rompeu a quietude.
— Chefe? Desculpe interromper. — Ela disse, e notei pelo seu tom que ela não tinha levantado os olhos da tela.
Girei a cadeira, apoiando o cotovelo no braço da poltrona, observando-a. Ela mantinha aquela postura contida de sempre, mas seus dedos haviam parado de digitar.
— Pode falar, Charlotte. O que houve?
Ela mordeu o lábio inferior, um gesto de hesitação que eu já aprendera a identificar. Ela virou-se um pouco e me estendeu um relatório impresso com uma expressão de quem havia encontrado algo intrigante.
— Eu estava cruzando os dados das notas fiscais dos últimos dois meses e encontrei uma inconsistência na taxação de um dos nossos lotes de arroz premium. Parece que houve um erro de digitação no sistema de entrada do armazém que está afetando o cálculo do lucro líquido.
Interrompi o que estava fazendo imediatamente. Minha atenção, que antes estava dispersa, convergiu totalmente para ela. Levantei-me e caminhei até sua mesa. Charlotte levantou-se também, o rosto levemente corado pela responsabilidade de apontar um erro, mas a firmeza em seu olhar era absoluta.
Ela apontou com a ponta de uma caneta para uma célula na planilha.
— Veja, se considerarmos que o código do lote deveria ter sido registrado como "A-12" e não "12-A", os impostos foram calculados com uma margem de erro de quase cinco por cento. Se não corrigirmos isso antes da auditoria do final do mês, a discrepância pode causar um problema desnecessário.
Aproximei-me, debruçando-me sobre a tela ao lado dela para conferir os dados. Enquanto ela explicava o raciocínio por trás daquela pequena falha, pude notar novamente a competência silenciosa que a movia. Ela não apenas trabalhava; ela vigiava a empresa como se cada centavo fosse uma extensão da sua própria responsabilidade.
— Você tem razão! — Reconheci, sentindo um raro orgulho. — Isso teria passado despercebido se você não tivesse checado a origem do código. Muito bem observado, Charlotte.
Ela recuou um passo, a timidez voltando a transparecer em um sorriso muito breve, quase tímido. Mas, antes que pudesse voltar a se sentar, ela fez um movimento brusco ao tentar guardar a caneta e, como se fosse um roteiro já ensaiado para o nosso dia a dia, sua mão resvalou na borda da mesa. O copo de água que ela mantinha ali, que eu nem tinha notado, começou a tombar.
— Cuidado! — Exclamei, já avançando um passo para impedir que a água atingisse o iPad.
Desta vez, não houve um esbarrão ou uma queda dramática; apenas um reflexo rápido. Eu segurei a base do copo antes que ele virasse totalmente, nossas mãos se encontrando por uma fração de segundo sobre o vidro frio. O contato foi rápido, mas a carga estática entre nós, naquele escritório silencioso, foi nítida.
Charlotte congelou, o rosto ganhando aquele tom de carmim que eu já conhecia bem.
— Eu sinto muito... mais uma vez. Eu sou tão desastrada. — Ela murmurou, recolhendo a mão como se tivesse se queimado.
— Esqueça o copo. — Respondi, voltando a me colocar em pé, mas mantendo o olhar fixo no dela por um segundo a mais do que o profissionalismo exigia. — Foque na inconsistência. Vamos corrigir isso agora mesmo.
Ela assentiu, voltando a atenção para a tela, mas eu podia ver, pelo tremor leve em seus ombros, que aquele pequeno incidente de rotina tinha deixado um rastro de eletricidade no ar.
— Hum! Bem, tem mais uma coisa. Eu organizei as planilhas que a senhorita solicitou ontem. — Ela começou, finalmente levantando os olhos. O contato visual foi rápido, um relance de íris profundas, carregadas de uma melancolia que parecia pedir silêncio. — Mas... eu tomei a liberdade de revisar os lançamentos do trimestre anterior. Encontrei três divergências nas margens de lucro que talvez precisem de uma correção antes que o relatório final seja enviado à diretoria.
Eu arqueei a sobrancelha, surpresa. O pragmatismo dela aflorou sob a timidez, e foi ali que eu entendi: ela era tão meticulosa quanto eu. Ela não estava ali para ser apenas uma sombra, ela estava ali para ser eficiente.
— Divergências? — Cruzei os dedos sobre a mesa, inclinando-me levemente em sua direção, sentindo meu interesse disparar. — Me mostre.
Charlotte levantou-se e deu a volta na mesa, parando ao meu lado. Ela mantinha uma distância respeitosa, mas podia sentir o leve perfume que ela exalava… Era algo como doce na medida certa e feminino de um jeito que beirava a sedução.
Enquanto ela apontava para os números na tela do iPad, sua mão tremeu apenas uma fração de milímetro antes de tocá-la para passar para o gráfico seguinte.
— Aqui, veja. Se considerarmos o custo de logística do mês anterior, esses valores aqui... — Ela explicou, a voz ganhando um pouco mais de firmeza, embora suas bochechas estivessem tingidas de um rubor suave.
Fiquei observando o modo como ela se concentrava, o cenho franzido com uma seriedade que eu raramente via em alguém tão jovem. Não era apenas competência; era cuidado. Ela não estava apenas calculando números; ela estava zelando por algo.
Pela primeira vez em muito tempo, o vazio que eu sentia no meu peito foi substituído por uma pulsação diferente. Não era desejo, não era interesse comercial. Era uma curiosidade avassaladora, a necessidade de entender quem era aquela mulher que, mesmo tentando ser invisível e se perdia em tanta timidez, brilhava com uma intensidade que eu não conseguia ignorar.
— Você tem um olhar atento, Charlotte. — Eu disse, minha voz saindo um pouco mais grave do que eu pretendia.
Ela recuou um passo, voltando para a frente da mesa, o rosto abaixado e as mãos cruzadas novamente em frente ao corpo.
— Eu apenas... eu só quero fazer um bom trabalho, senhorita. – A baixou a cabeça. – É o que me foi pedido.
Por um momento me sentindo desarmada, sorri, um sorriso contido no canto dos meus lábios que, eu sabia, não chegava aos olhos de forma tão reservada quanto eu costumava apresentar para o restante do mundo.
— Hum! E você está fazendo. Muito bem! Vamos começar com a minha agenda. Preciso que filtre meus compromissos da semana. E, Charlotte... — fiz uma pausa, vendo-a levantar os olhos, apreensiva. — Pode parar de me chamar de "senhorita". Meu nome é Engfa.
– É que acho mais prudente.
A olhei estudando suas reações. Estava claro que Charlotte não era apenas tímida, ela era também muito reservada e teimosa.
– Não me contradiga dessa maneira. Por favor, me chame pelo o nome.
– Faremos assim… A chamarei de chefe.
– Você é sempre tão teimosa assim? – A confrontei.
Ela assentiu, um pequeno movimento da cabeça, e um esboço de sorriso tímido curvou seus lábios. Eu não gostava de quem ia contra o que eu dizia, mas naquele momento foi como se o escritório, de repente, tivesse ficado menos frio.
Uma semana depois
O aroma de grãos torrados e o doce sutil das especiarias da confeitaria sempre tinham um efeito calmante, mas naquela manhã, nem o café forte era capaz de silenciar a inquietação que eu carregava. Uma semana havia se passado desde que Charlotte Austin ocupara a mesa ao lado da minha, e, no entanto, eu parecia estar lendo o mesmo currículo pela terceira vez.
As folhas de papel, que eu já sabia decoradas estavam espalhadas sobre a mesa de madeira. Analisei novamente as datas, as qualificações, o currículo impecável... e o vazio absoluto sobre o que a trouxe para este vilarejo.
— Terceira vez, Engfa? — A voz de Lena interrompeu meu fluxo de pensamentos.
Levantei o olhar. Ela trazia um avental de cozinha e o sorriso sereno de quem, finalmente, encontrara o seu ritmo ao lado de Miu. Minha prima parou ao meu lado, limpando as mãos em um pano, seus olhos fixos na pasta que eu examinava.
— Já é muito suspeito você estar aqui a essa hora da manhã, e fico ainda mais preocupada em ver que você está analisando os documentos da moça de novo. — Lena observou, puxando uma cadeira e sentando-se com a naturalidade de quem conhece cada uma das minhas manias. — O que exatamente você está procurando que ainda não achou?
Fechei a pasta com um suspiro, olhando para a xícara de café.
— Nem eu sei explicar, Lena. Só sinto que algo não está cem por cento encaixado. O surgimento dela foi repentino demais, e com uma história pronta. Pessoas com o currículo e a capacidade intelectual que ela demonstrou ter nesta semana não acabam "por acaso" no banco de trás do carro da Lookmhee após uma demissão. Aliás, esse é o ponto… Mhee nunca fez algo assim, e do nada surge com uma desconhecida, e pior, parece disposta a protegê-la com a própria vida se for o caso. Mas aí que está… Por que a moça precisa de tanta proteção assim?
Lena franziu o cenho, parecendo assustada com tantos pontos de interrogação que joguei em seu colo. O tom de voz baixando para não atrair a atenção de Miu que estava pelo salão atendendo os clientes com a simpatia de sempre.
— Se você desconfia tanto, por que não senta com a Mhee e coloca a carta na mesa? Você sabe que ela não consegue manter um segredo por muito tempo se você pressionar.
Soltei uma risada nasalada, um misto de desdém e exaustão.
— Porque é justamente aí que está o problema, Lena. A Charlotte eu não conheço, então não posso julgá-la sem provas. Mas a Mhee... — Balancei a cabeça, frustrada. — A Mhee eu conheço o bastante para saber que ela está me escondendo algo, e dessa vez ela não vai falar assim com facilidade. Ela criou uma blindagem emocional em torno dessa moça que faria qualquer interrogatório parecer perda de tempo.
Lena me encarou por alguns segundos, processando a informação, até que seus olhos brilharam com uma conclusão repentina.
— Espera... — Ela sussurrou, com um meio sorriso divertido. — Então foi por isso que você contratou a moça com tanta facilidade? Céus, Engfa, você vai levá-la para dentro das suas terras, literalmente, para manter a “inimiga” — ou o mistério — perto o suficiente para observar?
Abri um sorriso fino, aquele que eu guardava apenas para os momentos em que o tabuleiro de xadrez começava a pender a meu favor.
— Quanto mais perto ela estiver, Lena, mais fácil será descobrir o que está por trás daquelas íris tristes que ela insiste em esconder e disfarçar em meio a própria timidez. Mas eu tenho observado a moça. Eu não acho que Charlotte seja uma ameaça, pelo contrário, ela… ela parece ser uma boa pessoa. Mas o silêncio dela e a lealdade cega da Mhee, são um quebra-cabeça que eu pretendo montar.
Lena balançou a cabeça, rindo baixinho da minha audácia.
— Você é impagável, Engfa. Mas e se for mesmo isso? Se for só um caso de uma mulher em busca de recomeço para a própria vida?
— Então, se for apenas isso… — Respondi, voltando a organizar os papéis com precisão. — O mérito dela como profissional se sustenta sozinho. Admitindo a verdade, Charlotte tem um currículo invejável. Se eu não descobrir nada, ao menos terei ganho uma assistente brilhante. Mas, no fundo, eu sei que há algo mais. E eu vou descobrir o que é.
– Agora vendo você falar assim, eu estou ainda mais curiosa para conhecê-la. – Lena disse com os olhos brilhando.
– Você ainda não a conhece? – Ergui a sobrancelha. – Como isso é possível?
– Bem, eu já pedi para Mhee trazer ela aqui para nos apresentar, mas a pestinha vive dando desculpas, e agora com a moça trabalhando com você, parece ainda mais difícil.
– Viu? É exatamente sobre isso que eu estou falando. — Retruquei, sentindo uma pontada de irritação. — Mhee está blindando a Charlotte de uma forma quase sistemática. Quando na vida você viu a Lookmhee se comportando assim? Ela geralmente faz questão de se exibir para o mundo inteiro.
Lena fez uma pausa, o sorriso diminuindo enquanto uma ideia parecia florescer em sua mente. Ela inclinou o corpo para frente, baixando o tom de voz sem esconder o espanto:
— Você acha que ela está apaixonada? — Lena arregalou os olhos.
Soltei uma risada curta, negando imediatamente com a cabeça.
— Não, Lena, descarte isso. É perceptível que o que existe entre a Mhee e a Charlotte é uma amizade genuína, carregada de uma gratidão quase sacrificial, mas não é romance. Se fosse, a Mhee não conseguiria segurar a língua por uma semana inteira, ela já teria escancarado tudo para nós.
Não consegui conter o riso que subiu pela minha garganta ao lembrar do drama que ocorrerá dias atrás.
— Se você soubesse pânico instalado… o coitado do Tio Arthit está em um estado de colapso nervoso absoluto. Outro dia ele passou a manhã inteira na minha sala, genuinamente convencido de que a Lookmhee desonrou a moça e a "roubou" de alguma família influente. Ele chegou a me perguntar se ela estava grávida! Ele está vivendo um pesadelo sem entender de onde a filha trouxe a moça, temendo que a qualquer momento apareça alguém armado na fazenda para exigir um "acerto de contas", ou pior, um casamento.
Dessa vez Lena soltou uma gargalhada tão alta que alguns clientes nas mesas próximas se viraram para olhar. Ela precisou colocar a mão sobre a boca para abafar o som, seus ombros sacudindo com a diversão.
— O Tio Arthit? Sério? — Ela zombou, entre espasmos de riso.
– Seríssimo! Você sabe que ele é um homem sério e que algumas tradições ainda são enraizadas naquela cabeça.
— De fato! Ele é um homem extremamente respeitável e centrado para os negócios, deve temer que de alguma forma a louca da filha o coloque em uma situação caótica. Meu Deus, ele é completamente desmiolado das ideias quando se trata da vida pessoal da Mhee. A forma como ele romantiza o caos que aquela menina cria é, no mínimo, hilária.
— Pois é! — Concordei, sentindo meu próprio humor melhorar. — Ele está agindo como o patriarca de um drama épico, enquanto a realidade é apenas a Mhee sendo a sua versão desastrada e caótica de sempre.
Lena limpou uma lágrima de riso no canto do olho e me deu um tapinha no ombro.
— Boa sorte, Engfa. Pai e filha te arrastaram para o centro do furacão. Porque, conhecendo a Mhee, se ela decidiu que você não deve saber de algo, você vai ter que suar muito para arrancar essa verdade dela. E conhece o tio Arthit, ele vai deixar que você desvende o que ele acha ser um problema.
— E eu não sei disso? Mas eu tenho todo o tempo do mundo, Lena. — Respondi, sorrindo de lado. — Eu sou uma pessoa paciente, e agora que a tenho sob a minha supervisão diária, o tempo está trabalhando totalmente a meu favor. Além disso, não é difícil conviver com a Charlotte.
– Hum… – Lena me observou minuciosamente. – Então você também gosta da moça?
– Muita calma nessa hora. Gostar é uma palavra forte. Mas eu não desgosto dela, e falando profissionalmente eu tenho aprendido admirá-la.
Interessada, Lena sustentou o queixo sob suas mãos enquanto me manteve sob a mira do seu olhar intrigando.
– Profissionalmente? O que isso quer dizer exatamente?
— Sabe, Lena, a ironia é que eu estava preparada para alguém que precisasse de um treinamento exaustivo. — Comecei, tamborilando os dedos na mesa enquanto observava o movimento da confeitaria. — Mas a Charlotte... ela é um enigma. Em apenas uma semana, ela não só absorveu o funcionamento da empresa, como já começou a otimizar processos que eu levava horas para conferir. Ela é inteligente, incrivelmente organizada, atende a todos os requisitos que eu prezo e, francamente, excede as minhas expectativas de produtividade.
Fiz uma pausa, lembrando-me da cena no armazém. O meio sorriso involuntário que surgiu no meu rosto foi algo que não consegui conter.
— Mas, como nada nessa vida pode ser perfeito, ela tem um defeito curioso: ela é desastrada. O nível de desatenção dela com o espaço ao redor é quase cômico. Ela vive esbarrando nos cantos das mesas, deixa cair canetas, tropeça em fios... é um festival de pequenos desastres constantes.
Lena soltou um risinho, arqueando a sobrancelha.
— E você, a mulher que detesta o menor sinal de desordem ou ineficiência, não está arrancando os cabelos com isso?
— Esse é o ponto que mais me surpreende. — Admiti, pensativa. — Normalmente, isso me irritaria a um nível profundo. Mas com ela, a reação é diferente. Não sinto raiva, sinto apenas um alerta. É uma preocupação genuína, quase instintiva. Toda vez que ela deixa algo cair ou quase torce o pé, meu primeiro impulso não é repreendê-la pela falta de jeito, mas sim garantir que ela não se machucou.
Suspirei, olhando para o vazio. A vulnerabilidade de Charlotte, somada àquela desatenção peculiar, ativava em mim um sensor de que eu não sabia que estava tão afiado.
— Eu vivo cobrando mais atenção dela, quase como um mantra. "Cuidado onde pisa", "olhe onde coloca as mãos", "atenção ao movimento". Às vezes acho que ela me acha uma chata, ou talvez excessivamente severa, mas a verdade é que o ambiente operacional da empresa pode ser perigoso para quem vive com a cabeça nas nuvens. Eu não quero ver aquela mulher se ferindo por uma distração boba. Existe algo na forma como ela tenta ser invisível que me faz querer mantê-la inteira e sob a minha supervisão.
Lena me observou por um longo momento, o sorriso em seus lábios ganhando um contorno mais enigmático.
— Engfa, você fala da superproteção que Mhee dar a essa moça, mas você não percebe que se continuar assim vocês duas vão disputar quem consegue o direito desse título? Você está falando como quem encontrou algo muito mais precioso do que uma simples assistente financeira.
A olhei quase fulminante.
– Está louca, Lena? Eu não sou tão emocionada assim.
– Eu? De jeito nenhum! Mas cuidado para não tropeçar nos seus próprios sentimentos enquanto tenta impedir que ela tropece nos móveis.
Apenas revirei os olhos, tomando o último gole de café ignorando completamente a zombaria da minha prima.
…
O sol da tarde filtrava-se pelas persianas do meu escritório, desenhando listras diagonais sobre a pilha de documentos que eu revisava. O ambiente estava imerso naquele silêncio produtivo que eu tanto prezava, interrompido apenas pelo som rítmico do teclado do iPad de Charlotte, que trabalhava em sua estação, um pouco mais afastada, mas ainda dentro do meu campo de visão.
Eu estava prestes a finalizar um relatório de exportação quando a voz dela rompeu a quietude.
— Chefe? Desculpe interromper. — Ela disse, e notei pelo seu tom que ela não tinha levantado os olhos da tela.
Girei a cadeira, apoiando o cotovelo no braço da poltrona, observando-a. Ela mantinha aquela postura contida de sempre, mas seus dedos haviam parado de digitar.
— Pode falar, Charlotte. O que houve?
Ela mordeu o lábio inferior, um gesto de hesitação que eu já aprendera a identificar. Ela virou-se um pouco e me estendeu um relatório impresso com uma expressão de quem havia encontrado algo intrigante.
— Eu estava cruzando os dados das notas fiscais dos últimos dois meses e encontrei uma inconsistência na taxação de um dos nossos lotes de arroz premium. Parece que houve um erro de digitação no sistema de entrada do armazém que está afetando o cálculo do lucro líquido.
Interrompi o que estava fazendo imediatamente. Minha atenção, que antes estava dispersa, convergiu totalmente para ela. Levantei-me e caminhei até sua mesa. Charlotte levantou-se também, o rosto levemente corado pela responsabilidade de apontar um erro, mas a firmeza em seu olhar era absoluta.
Ela apontou com a ponta de uma caneta para uma célula na planilha.
— Veja, se considerarmos que o código do lote deveria ter sido registrado como "A-12" e não "12-A", os impostos foram calculados com uma margem de erro de quase cinco por cento. Se não corrigirmos isso antes da auditoria do final do mês, a discrepância pode causar um problema desnecessário.
Aproximei-me, debruçando-me sobre a tela ao lado dela para conferir os dados. Enquanto ela explicava o raciocínio por trás daquela pequena falha, pude notar novamente a competência silenciosa que a movia. Ela não apenas trabalhava; ela vigiava a empresa como se cada centavo fosse uma extensão da sua própria responsabilidade.
— Você tem razão! — Reconheci, sentindo um raro orgulho. — Isso teria passado despercebido se você não tivesse checado a origem do código. Muito bem observado, Charlotte.
Ela recuou um passo, a timidez voltando a transparecer em um sorriso muito breve, quase tímido. Mas, antes que pudesse voltar a se sentar, ela fez um movimento brusco ao tentar guardar a caneta e, como se fosse um roteiro já ensaiado para o nosso dia a dia, sua mão resvalou na borda da mesa. O copo de água que ela mantinha ali, que eu nem tinha notado, começou a tombar.
— Cuidado! — Exclamei, já avançando um passo para impedir que a água atingisse o iPad.
Desta vez, não houve um esbarrão ou uma queda dramática; apenas um reflexo rápido. Eu segurei a base do copo antes que ele virasse totalmente, nossas mãos se encontrando por uma fração de segundo sobre o vidro frio. O contato foi rápido, mas a carga estática entre nós, naquele escritório silencioso, foi nítida.
Charlotte congelou, o rosto ganhando aquele tom de carmim que eu já conhecia bem.
— Eu sinto muito... mais uma vez. Eu sou tão desastrada. — Ela murmurou, recolhendo a mão como se tivesse se queimado.
— Esqueça o copo. — Respondi, voltando a me colocar em pé, mas mantendo o olhar fixo no dela por um segundo a mais do que o profissionalismo exigia. — Foque na inconsistência. Vamos corrigir isso agora mesmo.
Ela assentiu, voltando a atenção para a tela, mas eu podia ver, pelo tremor leve em seus ombros, que aquele pequeno incidente de rotina tinha deixado um rastro de eletricidade no ar.
— Hum! Bem, tem mais uma coisa. Eu organizei as planilhas que a senhorita solicitou ontem. — Ela começou, finalmente levantando os olhos. O contato visual foi rápido, um relance de íris profundas, carregadas de uma melancolia que parecia pedir silêncio. — Mas... eu tomei a liberdade de revisar os lançamentos do trimestre anterior. Encontrei três divergências nas margens de lucro que talvez precisem de uma correção antes que o relatório final seja enviado à diretoria.
Eu arqueei a sobrancelha, surpresa. O pragmatismo dela aflorou sob a timidez, e foi ali que eu entendi: ela era tão meticulosa quanto eu. Ela não estava ali para ser apenas uma sombra, ela estava ali para ser eficiente.
— Divergências? — Cruzei os dedos sobre a mesa, inclinando-me levemente em sua direção, sentindo meu interesse disparar. — Me mostre.
Charlotte levantou-se e deu a volta na mesa, parando ao meu lado. Ela mantinha uma distância respeitosa, mas podia sentir o leve perfume que ela exalava… Era algo como doce na medida certa e feminino de um jeito que beirava a sedução.
Enquanto ela apontava para os números na tela do iPad, sua mão tremeu apenas uma fração de milímetro antes de tocá-la para passar para o gráfico seguinte.
— Aqui, veja. Se considerarmos o custo de logística do mês anterior, esses valores aqui... — Ela explicou, a voz ganhando um pouco mais de firmeza, embora suas bochechas estivessem tingidas de um rubor suave.
Fiquei observando o modo como ela se concentrava, o cenho franzido com uma seriedade que eu raramente via em alguém tão jovem. Não era apenas competência; era cuidado. Ela não estava apenas calculando números; ela estava zelando por algo.
Pela primeira vez em muito tempo, o vazio que eu sentia no meu peito foi substituído por uma pulsação diferente. Não era desejo, não era interesse comercial. Era uma curiosidade avassaladora, a necessidade de entender quem era aquela mulher que, mesmo tentando ser invisível e se perdia em tanta timidez, brilhava com uma intensidade que eu não conseguia ignorar.
— Você tem um olhar atento, Charlotte. — Eu disse, minha voz saindo um pouco mais grave do que eu pretendia.
Ela recuou um passo, voltando para a frente da mesa, o rosto abaixado e as mãos cruzadas novamente em frente ao corpo.
— Eu apenas... eu só quero fazer um bom trabalho, senhorita. – A baixou a cabeça. – É o que me foi pedido.
Por um momento me sentindo desarmada, sorri, um sorriso contido no canto dos meus lábios que, eu sabia, não chegava aos olhos de forma tão reservada quanto eu costumava apresentar para o restante do mundo.
— Hum! E você está fazendo. Muito bem! Vamos começar com a minha agenda. Preciso que filtre meus compromissos da semana. E, Charlotte... — fiz uma pausa, vendo-a levantar os olhos, apreensiva. — Pode parar de me chamar de "senhorita". Meu nome é Engfa.
– É que acho mais prudente.
A olhei estudando suas reações. Estava claro que Charlotte não era apenas tímida, ela era também muito reservada e teimosa.
– Não me contradiga dessa maneira. Por favor, me chame pelo o nome.
– Faremos assim… A chamarei de chefe.
– Você é sempre tão teimosa assim? – A confrontei.
Ela assentiu, um pequeno movimento da cabeça, e um esboço de sorriso tímido curvou seus lábios. Eu não gostava de quem ia contra o que eu dizia, mas naquele momento foi como se o escritório, de repente, tivesse ficado menos frio.
Fim do capítulo

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