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Por Charlotte

Meu rosto ainda ardia. A lembrança das mãos firmes de Engfa na minha cintura parecia ter deixado uma marca invisível que me fazia sentir estranhamente agitada. Enquanto caminhávamos de volta para o escritório, eu tentava — inutilmente — controlar a respiração. Como eu podia ser tão desastrada? Justo no meu primeiro dia de trabalho, e pior, diante da mulher que eu mais temia por parecer ser a própria personificação de perfeição.
Assim que entramos novamente na sala da minha chefe, o ambiente mudou. O ar ali dentro parecia ter uma temperatura diferente, mais contida, mais profissional. Engfa caminhou até sua mesa e, em questão de segundos, aquela faísca de proximidade que havíamos compartilhado no setor operacional foi guardada atrás de uma fachada de seriedade absoluta.
Ela começou a me explicar a logística dos relatórios trimestrais. Eu observava cada movimento seu. Ela não apenas falava; ela regia o fluxo de informações que passava. Tudo tinha um lugar: os documentos eram empilhados com uma precisão milimétrica, as canetas estavam alinhadas ao lado do bloco de notas, e cada pasta parecia estar organizada por uma ordem lógica que só ela dominava.
— Esta aba do sistema é onde você vai concentrar as entradas de pedidos dos distribuidores. — Ela dizia, os olhos fixos na tela, a voz firme e desprovida de qualquer hesitação. — Se um único centavo de diferença aparecer no fechamento diário, quero que me reporte imediatamente. Não gosto de surpresas ao final da semana.
Eu anotava tudo freneticamente no bloco de notas tablet que ela havia me passado, enquanto tentava acompanhar a velocidade do seu pensamento. A cada minuto que passava, minha admiração profissional crescia, mas também o meu espanto. Ela não deixava passar um detalhe sequer. Se um papel estava um milímetro fora de lugar, ela o ajeitava com um movimento automático. Comecei a me perguntar internamente: será que ela tem TOC ou é apenas um nível de organização sobre-humano?
Durante a viagem para o vilarejo p, Mhee já havia me falado detalhes sobre sua família, em especial sobre cada uma das suas primas por quem ela parecia ser uma verdadeira paixão e profundo respeito. Então aquelas características de Engfa, não eram exatamente uma surpresa para mim, embora, fossem ainda pior do que consegui visualizar enquanto recebia as informações dias atrás.

…

O dia passou como um borrão. Engfa não parou um minuto, e eu descobri, para minha surpresa, que acompanhá-la era um desafio que me motivava. Ela era exigente, sim, mas não era gratuita em suas críticas. Ela ensinava. A cada processo que ela me apresentava, ela explicava o "porquê" por trás de cada regra.
— Charlotte, preste atenção neste fluxo. — Ela disse, girando a cadeira para me encarar. — A organização não é sobre estética. É sobre antecipação. Se eu sei exatamente onde cada dado está, eu tenho tempo para resolver o que ainda não aconteceu. É isso que diferencia uma empresa que apenas sobrevive de uma que lidera.
Eu a observei por um momento longo demais. Havia algo de quase solitário na forma como ela conduzia tudo, uma necessidade de ter o controle total para não se permitir falhar. Eu, que vivi tanto tempo tentando apenas sobreviver ao caos dos meus dias, sentia-me estranhamente protegida naquela redoma de ordem.
À medida que a chuva deixou de castigar o vilarejo naquele dia, e foi cedendo lugar a um inesperado e pouco brilho solar, percebemos já era o entardecer, e que o céu estava sendo tingido de um tom alaranjado que mal conseguíamos ver por trás das nuvens carregadas da chuva. Percebi então que estava exausta, mas de uma maneira que eu não sentia há muito tempo: eu me sentia útil.
— Por hoje é só. — Ela disse, fechando o laptop olhando para mim. O olhar de predadora que eu tanto temia havia suavizado, dando lugar a uma expressão de cansaço genuíno. — Você foi bem, Charlotte. Amanhã teremos uma carga de trabalho maior, então descanse bem.
— Obrigada, Chefe. — Respondi, contendo um sorriso pequeno. — Até amanhã.
Saí da sala, sentindo que o chão sob meus pés era um pouco mais firme do que era na noite anterior. Eu tinha entrado naquele escritório como uma estranha, mas, após horas sob o comando rigoroso e meticuloso de Engfa Waraha, eu sentia que talvez Mhee tivesse razão quando me fez acreditar, havia um lugar ali para mim.
A chuva havia dado uma trégua, transformando o vilarejo em um cenário úmido e brilhante sob a luz dos postes. Mesmo me sentindo constrangida por tal liberdade, abrir a porta da casa de Mhee, e logo o calor humano do ambiente me envolveu imediatamente. Mhee já estava lá, jogada no sofá com um livro nas mãos e uma caneca fumegante sobre a mesa de centro. Ela mal me ouviu chegar, mas quando levantou o olhar e viu que eu estava parada ali, na entrada, seu rosto se iluminou naquela energia elétrica que só ela possuía.
— Olá, Mhee! — Exclamei, sentindo o peso do dia finalmente abandonar meus ombros.
— Char! Você chegou! — Ela jogou o livro de lado, saltando do sofá com a agilidade de sempre. Ela correu até mim, analisando meu rosto com uma curiosidade quase cômica. — E então? Sobreviveu ao primeiro dia sob o regime da minha prima? Ela te fez trabalhar até a exaustão ou já te transformou em uma máquina?
Ri, um som genuíno que me surpreendeu pela leveza. Olho para Mhee, e sinto um aperto quente no peito, uma gratidão tão imensa que mal consigo nomear. Olhando para trás, para aquele momento em que eu era apenas uma sombra perdida, sem rumo e sem esperanças, percebo que ela foi a única luz que não hesitou em me acolher sem duvidar de quem sou de verdade. Mhee não apenas me deu um teto, ela acreditou em mim, segurou minha mão e me devolveu a cor aos meus dias, demonstrando uma fé que eu mesma já tinha abandonado há muito tempo; quando eu não confiava em mim, ela me olhou e viu algo que eu ainda não era capaz de enxergar. Os dias de convivência vinha nos tornando amigas, e isso não significava apenas que eu tinha sua companhia, mas me fazia ter a sensação que eu tinha um porto seguro. Nossa relação estava se tornando sólida, e a prova viva de que, às vezes, o destino sabe exatamente o que faz quando coloca pessoas dispostas a salvar o nosso mundo.
Caminhei até a cozinha, servindo-me de um copo de água, enquanto Mhee me seguia, tagarelando e perguntando sobre cada detalhe.
— Mhee... não me faça falar mal da minha chefe. Ela não é tão difícil de lidar assim. Ela só é um pouco…
– Viciada em trabalho e extremamente perfeccionista. É, eu sei. – Mhee disse com divertimento. – Mas acredite, Engfa consegue ser uma das melhores pessoas que eu conheço.
– Eu não desacredito disso. — Respondi, sentando-me à mesa.
Mhee puxou uma cadeira e sentou-se à minha frente, apoiando o queixo nas mãos, pronta para o relatório.
— Conte tudo. A Engfa é... bom, você viu como ela é. Às vezes, ela pode ser um iceberg de terno e gravata. Ela te intimidou muito?
Pensei um pouco antes de responder. A imagem de Engfa, com sua precisão milimétrica, o olhar analítico e aquele momento quase íntimo na fábrica, quando ela me segurou pela cintura, veio à minha mente, fazendo meu coração dar um pequeno solavanco.
— Ela é intensa. — Comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — Tem me dado bastante tarefas para realizar, mas estou conseguindo me sair bem. Para ser honesta, sua prima consegue ser assustadora, no começo. Ela organiza tudo, cada papel, cada pensamento. Eu cheguei a me perguntar se ela era real ou apenas uma engrenagem perfeitamente lubrificada de uma máquina. Mas...
— Mas...? — Mhee insistiu, com um sorriso divertido.
— Mas ela é também muito protetora, Mhee. De uma forma que eu não esperava. E parece ter boas intenções em me dar essa oportunidade. Ela me explicou todo o funcionamento da empresa, não apenas como uma chefe dando ordens, mas como alguém que entende o valor de cada etapa do processo. Ela me tratou com um respeito que eu... eu nunca recebi antes.
Mhee soltou um suspiro de alívio e deu um tapinha na minha mão, em cima da mesa.
— Eu sabia! A P’Fa pode ter essa casca grossa, mas ela é a nossa rocha. Se ela te deu essa oportunidade, é porque viu algo em você que poucos conseguiria enxergar. Ela é meio "carrasca" com o trabalho, eu sei, mas ela também sabe reconhecer o valor das pessoas.
— Ela é, sim. — Concordei, olhando para as minhas próprias mãos. — Mas senti que, pela primeira vez, não estava apenas "trabalhando para sobreviver". Senti que estou construindo algo. O cansaço que eu sinto agora não é ruim. É um cansaço incrivelmente bom.
Mhee sorriu, um sorriso cúmplice.
— Fico tão feliz por você, Char. De verdade. Você merece esse recomeço. E olha, se ela começar a exigir demais, pode deixar que eu vou lá e digo que a minha amiga precisa de folga, viu?
Balancei a cabeça, rindo.
— Não se atreva, Mhee. Ela ia adorar ter um motivo para te dar uma bronca. Mas... obrigada. Por tudo. Se não fosse você, eu ainda estaria perdida em algum lugar desse mundo.
O clima ficou um pouco tenso, e nós duas sabíamos o motivo. Aquilo era algo que Mhee me forçava não mencionar, mas não era como se fosse possível esquecer. Por mais que eu tentasse esquecer enquanto me forçava acreditar que seria possível refazer minha vida, sempre existiria um fantasma para me assombrar.
— Esquece isso agora. — Ela disse, levantando-se rapidamente. — Você agora é minha protegida. Aliás, minha e da minha prima.
– Acho que você esqueceu de dizer isso a ela. – Ergui a sobrancelha. A razão me chamando de volta a realidade. – Mhee, embora tenha parecido verdadeira quanto a me ensinar o trabalho, eu devo dizer que sua prima me parece mais inteligente do que você havia me dito.
– O que você quer dizer com isso exatamente? – Ela levantou os olhos, percebendo imediatamente a mudança na minha postura.
Abracei meus próprios braços.
— Enquanto explicava o trabalho, ela fez algumas perguntas sobre... sobre o minha vida. Para ser mais exata, ela me perguntou sobre como nos conhecemos, já que temos profissões tão distintas. Eu senti que ela está desconfiada, Mhee. Ela tem esse jeito de ver através das pessoas, e eu tenho quase certeza de que ela sente que há mais do que a versão que contamos até agora.
Mhee suspirou dedicando-me total atenção.
— Eu não te enganei sobre isso. Eu te avisei que de todas, ela é um detetive nato. Acho que se juntar ela e Lena, podemos ter problemas. — Mhee comentou com um sorriso amargo, embora seus olhos estivessem sérios.
— Não seria melhor contarmos tudo? — Perguntei, sentindo um frio na barriga só de imaginar a reação de Engfa. — Aquele dia... tudo o que aconteceu antes de você me convencer a vir com você. Sinto que carregar esse segredo torna tudo mais pesado. Engfa é uma pessoa honesta, e trabalhar para ela escondendo uma parte tão importante da minha história me faz sentir que estou mentindo para ela todos os dias.
Mhee levantou-se e veio sentar ao meu lado, segurando minhas mãos com aquela firmeza que sempre me acalmava.
— Nós vamos contar, Char. Eu prometo. Mas não pode ser agora. Precisamos esperar o momento certo.
— O momento certo? — Indaguei, sentindo uma pontada de ansiedade. — Por que esperar? Se ela descobrir por conta própria, será muito pior, não acha? Eu não quero que você tenha problemas com sua família por minha culpa, Lookmhee.
Mhee negou com a cabeça, um brilho de sabedoria nos olhos que eu raramente via nela.
— Acredite, eu odeio esconder algo das minhas primas. Mas eu conheço todas elas, e sei o que estou fazendo. Engfa é movida pela lógica, mas ela só se abre para o emocional quando se sente segura. Conheço minha prima melhor do que ninguém. Ela precisa se desarmar primeiro. Agora, ela ainda está te analisando, te medindo como uma funcionária. Se contarmos tudo antes que ela te conheça de verdade, antes que ela entenda quem é a Charlotte Austin que eu conheço, ela vai ver apenas os problemas, e não a pessoa. Ela precisa ver o seu valor, a sua competência e a sua essência. Quando ela estiver conectada a você, quando você for a "Charlotte" e não apenas "a moça que eu trouxe", aí sim, ela terá a empatia necessária para ouvir a verdade sem julgar.
– E se ela nos odiar por estarmos mentindo?
– Mas nós não estamos mentindo. Falamos toda a verdade sobre sua vida, sobre como nos conhecemos… Nós só estamos omitindo momentaneamente uma pequena parte da história.
O sorriso nervoso de Mhee denunciava que nem ela acreditava que sairíamos daquela história completamente ilesas. Com sorte, se ela estivesse mesmo certa sobre a prima, Engfa até poderia compreender, mas ficaria muito brava quando descobrisse o detalhe que ainda estava oculto.
Fiquei em silêncio, processando suas palavras. Ela tinha razão. Engfa não era uma mulher que aceitava meias verdades, mas também não era uma mulher que aceitava qualquer pessoa em seu círculo de confiança.
— Você acha que ela vai me aceitar? Quero dizer… depois que souber? — Perguntei, em sussurro culposo.
Mhee apertou minhas mãos, reafirmando sua promessa.
— Ela vai ficar brava. Na verdade, ela vai ficar muito brava e provavelmente vai querer arrancar fora minha cabeça no primeiro momento. Mas eu tenho certeza de que quando se acalmar, ela não vai ver o seu passado como um peso. Ela vai me entender e ver a situação como um motivo pelo qual ela também vai querer estar ao seu lado. Confie no meu tempo, Char. Vai dar tudo certo.
Assenti, tentando confiar na visão de Mhee. Eu queria acreditar que aquele olhar de Engfa, que às vezes me fazia tremer, um dia poderia ser de total compreensão, e não apenas de desconfiança. Mas, por enquanto, o segredo continuaria guardado pesando em minhas costas.
– Agora, vamos jantar, porque eu aposto que você não comeu nada decente o dia todo.
Enquanto Mhee começava a preparar algo na cozinha, eu fiquei ali, observando o reflexo da luz na janela. Por um momento, o futuro — que antes parecia um abismo escuro — agora parecia ter uma direção clara. E, estranhamente, essa direção apontava diretamente de Engfa Waraha.

Fim do capítulo

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