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Por Engfa

O dia amanheceu anunciando que o inverso naquela temporada seria intenso. A chuva forte era convidativa para nos manter aprisionadas em casa e, como eu tinha ido dormir praticamente de madrugada, às sete da manhã e com aquele temporal lá fora, precisei de um esforço sobre humano para chegar até o chuveiro. Tomei um banho rápido, pois já estava atrasada para uma reunião importante que aconteceria por chamada de vídeo.
Quando abri a tela do notebook, e ativei a chamada, Jinda já olhava para o relógio com cara de poucos amigos.
– Você está muito atrasada, Engfa!
– Desculpe-me, Jinda! Acabei os relatórios muito tarde e...
Tentei argumentar, mas fui interrompida pela voz impaciente de Jinda.
– Você e sua falta de limites. É sempre assim! – Ela disse organizando uma pilha de papel. – Agora vamos ter que correr contra o tempo. Eu ainda tenho outra reunião importante hoje.
Sentei e inclinei-me para manter a postura.
– A propósito… Bom dia para você também, querida. – Eu disse com voz suave.
Jinda desenhou um leve sorriso, na boca pintada de vermelho.
– Você sabe mesmo como me ganhar. – Ela disse erguendo a sobrancelha e respondendo em seguida… – Bom dia, querida.
Seguimos com a reunião como era previsto. A empresa de Jinda era uma das nossas principais colaboradoras, por isso nosso contato não se restringia apenas a interesses pessoais, mas sim empresariais.
– Por favor, Engfa. Envie aquelas planilhas com as classificações dos produtos logo que for possível, sim? – Jinda me pediu, assim que terminei de apresentar para ela o relatório da próxima produção. – Preciso dar sequência a logística da exportação.
– Papai prometeu entregá-las na próxima semana. Assim que eu estiver com eles em mãos, enviarei.
– Prefiro que me passe por e-mail, meu bem! – Ela me interrompeu, profissional. – Quero que a diretoria tenha esses números em mãos o quanto antes. Quanto aquele projeto… Espero que já tenham uma decisão formada em nossa próxima reunião.
– Seria ótimo. – Respondi, simplesmente.
Olhei para os lados... Não sei por que, aquela manhã eu me sentia um tanto estranha. Eu e Jinda já estávamos “juntas” a algum tempo. A empresa da sua família era responsável por transportar e executar as exportações dos nosso produtos. No entanto, não havia amor ali. Era uma mistura de bom sexo, amizade e boa dose de interesses comerciais. Nós ramos apenas mulheres que de vez enquanto tínhamos nossos momentos.
No entanto, embora, Jinda fosse a única com quem eu vinha mantendo uma relação sexual “quase” ativa, já que isso só acontecia quando nos encontrávamos durante as viagens que eu fazia a negócios, ainda assim eu não via nenhuma perspectiva de que algo mais sério acontecesse entre nós, por isso nunca a apresentei nem mesmo as minhas primas. Mhee sempre soube da existência dela, e embora fosse curiosa para conhecê-la, ainda assim não dei nenhuma esperança que isso fosse possível. Ela até chegou mencionar a existência de Jinda, para as outras. Mas também não era o tipo do assunto que eu gostava de alimentar.
Nós tínhamos uma boa química, isso era verdade, mas era apenas isso. E eu sempre tive certeza que só entregaria meu coração para alguém que me proporcionasse mais que desejo. Eu sempre acreditei que para um relacionamento dar certo, é necessário existir uma entrega verdadeira em todos os aspectos da nossa vida.
Contudo, mesmo tendo a certeza que Jinda e eu em algum momento nos perderíamos, eu mantinha a cordialidade e gentileza com a moça. Além de ser uma mulher especial, ao longo desse tempo que nos conhecíamos, Jinda havia se tornado uma boa amiga também. Ela não merecia menos que meu respeito.
Até aquele presente momento, o que tínhamos estava sendo mais do que o suficiente para ambos os lados. Até o presente momento... Olhei para o rosto bonito de Jinda. Sim! Jinda era uma mulher muito bonita. Alta, magra, elegante, charmosa... Empresária de sucesso, Jinda chamava atenção por onde passava e, conhecedora desse fato, aproveitava sua influência para ajudar muitas e muitas ONGs e entidades beneficentes. Talvez esse fosse o lado que eu mais gostava nela.
Porém, naquela manhã, meu peito parecia vazio... Sem emoção, sem dor, sem nada.
– Jinda!? – Chamei-a, baixinho antes da chamada ser encerrada.
Ela me olhou e sorriu. Seu sorriso era bonito e... Vago! Estranho, eu diria.
– Diz, meu bem! – Ela respondeu mecanicamente.
– Sobre sua viagem para o exterior… Quando você vai?
– Amanhã cedo! Por isso estou correndo contra o tempo. Preciso deixar tudo organizado por aqui.
– Hum! Bem, aproveite bem a viagem. – Me peguei dizendo o contrário do que estava sentindo. – Sei que é uma viagem de negócios, mas tire algum tempo para descansar.
Ela suspirou e, mas sorriu com elegância.
– Estarei em Veneza, lembra? Não tem como não aproveitar. Mas seria interessante se eu tivesse sua companhia.
– Viajar é tudo o que não posso fazer agora. Com essas chuvas preciso estar aqui para ter certeza que os armazenamentos vão ocorrer como o esperado. Bem, eu preciso desligar agora. Cuide-se, Jinda!
– Cuide-se também, Engfa. Tire uma semana de folga. Você anda trabalhando demais.
– É... Talvez eu faça isso. – Hesitei, ainda me sentindo muito estranha. – Na verdade, estive pensando em convidá-la para passarmos uns dias longe, quando você voltar.– Claro, meu bem! Pensaremos nisso assim que eu voltar, sim?
Nos despedimos com formalidade e então aquela chamada de vídeo foi encerrada deixando para trás os mesmos vestígios de sempre, ou seja, de um vazio absoluto.
Ignorei a chuva que castigava o vilarejo e fui para o escritório. O vazio que eu sentia ao terminar uma conversa com Jinda, não era novo, mas naquela manhã, sob o cinza opressivo do temporal, ele parecia maior e incômodo. A formalidade entre nós era um abrigo seguro, mas, pela primeira vez, perguntei-me se não estávamos apenas nos escondendo atrás de rótulos profissionais e conveniências.
Balancei a cabeça, afastando pensamentos que não cabiam naquele momento. Eu precisava de foco. O trabalho era a minha âncora, a única certeza em um mundo que, às vezes, parecia girar rápido demais.
— Chefe? — A voz da secretária soou pelo interfone, suave. — A senhorita Charlotte Austin está aqui. Ela deseja falar com a senhorita.
Pousei a caneta sobre a mesa de mogno e endireitei a postura, assumindo a fachada profissional que me era tão natural.
— Pode pedir que entre.
A porta abriu-se com um rangido quase inaudível e então Charlotte entrou. A postura de Charlotte era algo que eu não conseguia negar que me intrigava. Ela estava ali, claramente vivendo um dilema consigo mesma. Era como se ela pedisse desculpas pelo próprio espaço que ocupava, no mesmo instante em que os ombros estavam ligeiramente mais erguidos que o comum. E o modo como seus olhos castanhos encontraram os meus trazia um brilho desafiador, misturado àquela cautela natural que parecia ser sua marca registrada. Ela trazia a pasta de documentos firmemente contra o peito, como um escudo elegante. Uma coisa era fato… enquanto o mundo lá fora era caótico e barulhento, a presença de Charlotte era como um ponto de quietude, um mistério que me convidava a observá-la.
Ela parou diante da mesa, a respiração contida. Ela não sustentou meu olhar de imediato, e o modo como seus dedos apertavam a alça da pasta denunciava uma timidez que não era apenas social, era algo enraizado.
— Bom dia, senhorita Engfa. — Ela murmurou, a voz baixa, mas firme o suficiente para cortar o som da chuva que batia na vidraça da minha janela.
— Bom dia, Charlotte. Por favor, sente-se. — Indiquei a cadeira à minha frente arqueando de leve uma sobrancelha ao notar a postura dela.– E pelo amor de Deus, nada de senhorita. Não sou muito adepta a formalidades desnecessárias por aqui.
– Desculpe-me, mas eu me sinto melhor com a formalidade, afinal de contas, não somos amigas. Vamos ter apenas uma vivência de trabalho, não é mesmo? – Ela retrucou quase de imediato, deixando claro que de fato ela não seria alguém que apenas iria balançar a cabeça para tudo o que eu dissesse.
O silêncio no meu escritório, que minutos antes parecia impregnado por meus pensamentos desordenados em relação a Jinda, ganhou uma nova densidade assim que a porta se abriu. Não era um vazio pesado, era uma expectativa.
Charlotte deu um meio-sorriso, rápido, quase imperceptível, antes de se ajeitar na cadeira. Ela seguia sem sustentar diretamente meu olhar, preferindo observar a ponta dos próprios sapatos, o que de certa maneira me incomodou. Era incomum encontrar alguém que não parecesse disposta me olhar nos olhos. Contudo, a forma como ela se encolhia, tentando ocupar o menor espaço possível, era fascinante. Em um mundo onde todos que entravam por aquela porta vinham com o peito estufado, arrogantes e prontos para reivindicar algo, Charlotte era o oposto absoluto. Ela era uma tela em branco, pura e cautelosa.
— Bem, eu acho que devo economizar palavras, assim economizaria o seu tempo também. Afinal, pelo que dizem, a chefe não gosta de rodeios.
Um canto da minha boca repuxou. Olha só... A garota tímida tinha dentes. Havia um atrevimento sutil ali, escondido sob a aparência frágil, o que me pegou totalmente de surpresa. E, por algum motivo inexplicável, despertou um interesse imediato na minha curiosidade. O contraste entre a maneira como ela parecia querer ocupar o menor espaço possível e a ousadia calculada de suas respostas era simplesmente fascinante. Ela era um enigma fofo e desafiador ao mesmo tempo.
Mantendo o tom profissional, mas suavizando o olhar para não demonstrar o quanto ela estava me intrigando, eu disse:
— Imagino que isso significa que você pensou na minha proposta, sim?
Ela assentiu, sustentando meu olhar sem vacilar desta vez.
— Eu pensei. E... eu aceito.
Ela assentiu, finalmente cruzando o meu olhar. Havia uma honestidade nua naqueles olhos profundos que me desarmou por um segundo.
— Vai ser um desafio, mas eu estou disposta. E eu sou grata pela oportunidade, senhorita. Mas não pense que vou dizer sim para tudo o que a senhorita me disser.
Ergui a sobrancelha! Ela não se importava mesmo com o que eu preferia? Soltei uma risada curta, incapaz de conter. A forma como ela tentava recuperar a compostura depois de ser atrevida era adorável.
– Mas isso não foi exatamente o que te pedi? – A confrontei. – Detesto pessoas que apenas balançam a cabeça concordando com tudo. Penso que esse é um péssimo hábito empresarial. — Respondi, cruzando os braços sobre a mesa e inclinando-me ligeiramente para a frente, estreitando os olhos para estudá-la melhor. — Já que aceitou o desafio, vamos começar agora mesmo. Minha rotina não é linear. Eu gerencio operações que vão desde a produção agrícola até a contabilidade estratégica. Minha agenda é dinâmica e caótica, eu confesso. Agora me diga… Você terá problemas em estender o expediente quando a demanda exigir?
Ela engoliu em seco, mas a firmeza com que respondeu foi imediata:
— Se o caos for apenas na agenda e não no seu humor matinal, acho que dou conta. Quanto ao expediente… Eu não tenho problemas com isso. Na verdade, prefiro terminar o que começo. Não é isso que você espera? Perfeição absoluta?
Embora o meio sorriso em seus lábios, existia aquele tom atrevido que servia como um contraste atrativo da sua personalidade.
Ela realmente estava testando os limites da própria coragem comigo. Senti um pingo de satisfação e um calor repentino no peito.
— Cuidado, Charlotte. Pessoas que ousem avaliar meu humor logo no primeiro dia costumam acumular funções extras. — retruquei com um sorriso de canto, provocativa.
Vi o rubor subir instantaneamente pelo pescoço dela, tingindo suas bochechas de um vermelho lindo, o que só acentuava o quanto ela era incrivelmente fofa quando encurralada pelas próprias palavras.
Para desviar o foco daquela troca de olhares intensa, pigarreei e puxei o currículo dela sobre a mesa.
— Vejo aqui que você passou por empresas de pequeno porte. Mas tem uma coisa que não entendi muito bem. Como você e Mhee se conheceram se aquela viagem que ela fez foi para realizar um curso educacional? Convenhamos que é uma área bastante diferente do que apresenta seu currículo.
Charlotte suspirou, e percebi a sombra de um passado rígido cruzar seu rosto. A curiosidade em mim aguçou-se ainda mais; eu queria desvendar cada camada daquela mulher.
— Embora minha formação seja contabilidade, eu sempre trabalhei para me sustentar. Não é como se eu pudesse escolher. Nos meus empregos anteriores, eu sentia que meu potencial era subestimado. Eu cuidava de tudo, não apenas dos números. No meu último emprego, fui responsável por toda a comunicação com clientes estrangeiros e negociações contratuais de uma empresa de cursos técnicos. Digamos que foi assim que cruzei o caminho da sua prima imprudente.
– Hum! Entendi! Você disse que se comunicava com clientes estrangeiros?
– Eu falo quatro idiomas, Engfa. Eu sempre precisei ir muito além de planilhas para garantir minhas oportunidades e reafirmar meu potencial.
Pousei a caneta, genuinamente surpresa. Inclinei-me mais sobre a mesa, totalmente cativada.
— Quatro idiomas? Isso é um ativo valioso que não estava explícito na primeira leitura. Por que escondeu um detalhe desses?
Ela corou ainda mais, baixando o olhar por um segundo antes de erguer o queixo com aquela ponta de petulância charmosa:
— Eu não escondi. Só acho que gabar-se antecipadamente é imprudente. Prefiro que o meu trabalho fale por si.
Aquela resposta me atingiu em cheio. Um sorriso genuíno, algo raro em minhas manhãs de segunda-feira cinzenta, abriu-se em meus lábios. Aquela conversa estava sendo mais interessante do que pensei ser possível.
— Bom, agora você tem a minha atenção plena, Charlotte Austin. Vamos sair da teoria. Venha comigo!
Levantei e ela me acompanhou, mantendo-se a poucos passos de distância. Abri a porta e educadamente dei espaço para que ela passasse primeiro.
– Por favor! – Gesticulei.
Pude notar que Charlotte pareceu surpresa com a gentileza, hesitando por um segundo antes de caminhar à minha frente. O perfume suave dela misturou-se ao ar do corredor, e eu precisei me forçar não prestar atenção aos detalhes.
— Eu adoraria lhe mostrar as instalações externas, especialmente a vista que temos dos campos, mas essa chuva hoje não está colaborando. — Comentei, caminhando ao lado dela pelo piso de mármore. — Fica para outro dia. Por hora, vamos nos concentrar no fluxo interno.
Caminhamos até a ala operacional. Ao abrirmos as portas duplas, o aroma característico da terra fértil e da moagem invadiu o ambiente. O barulho das máquinas de seleção era constante.
— Aqui é onde a mágica acontece. — Expliquei, apontando para as esteiras automatizadas. — O arroz é nosso carro-chefe. Veja a uniformidade. Aqui não buscamos apenas quantidade, Charlotte. Buscamos excelência.
A observei! Ela não estava apenas ouvindo; seus olhos perseguiam os grãos com uma curiosidade quase tátil. Ela parou diante de uma das máquinas de polimento, absorvendo tudo.
— É impressionante! — Ela murmurou, absorvida. — O vilarejo parece tão contido lá fora. Como uma produção dessa magnitude consegue se sustentar aqui dentro? É quase como se houvesse dois mundos diferentes no mesmo lugar.
Dei um sorriso discreto. Aquela era a reação que eu gostava de presenciar de todos que conheciam nossa empresa, mas o que veio a seguir me pegou desprevenida. Ela virou-se para mim, e pela primeira vez, vi uma admiração genuína em seu olhar, despida de qualquer medo, timidez ou provocação.
— E você... Tão jovem e já carrega com maestria o tamanho dessa responsabilidade. Como você consegue carregar o peso de gerir isso tudo sendo tão jovem? Não deve ser fácil comandar algo tão grande enquanto as pessoas provavelmente esperam que você seja apenas uma herdeira.
A pergunta pairou entre nós, acompanhada pelo zumbido das máquinas. Senti um leve aperto no peito, algo que raramente eu expunha a quem quer que fosse. Caminhamos devagar entre os silos enquanto eu respondia.
— Nem sempre foi assim, Charlotte. Longe disso, na verdade. Tudo isso aqui começou com meu avô, que idealizou uma atividade econômica apenas para alimentar a população desse vilarejo. Meu pai veio em seguida… Ele passou décadas lutando com as mãos vazias, enfrentando secas, pragas e o ceticismo de todos. Houve anos em que mal conseguíamos pagar as contas. O que você vê hoje — a modernização, as máquinas de precisão, a exportação — Só veio agora sob minha gestão. Isso tudo é o resultado de uma transição dolorosa, onde só foi possível graças aos trabalhadores que acreditaram no processo mesmo quando nem nós acreditávamos.
Parei por um momento, observando os funcionários trabalharem.
— Quando eu assumi a gestão, encontrei resistência. As tradições são importantes por aqui, mas, às vezes, elas nos prendem ao passado. Eu precisei ser firme, arriscar o capital que meu pai construiu, modernizar cada etapa, lutar contra o conservadorismo para levar o nosso arroz para fora dessas fronteiras. É uma responsabilidade que pesa, sim. Mas, ao mesmo tempo, é a única coisa que me faz sentir que estou realmente viva.
Charlotte ouvia com uma atenção quase reverente. Eu podia notar como ela absorvia cada palavra, não como uma funcionária ouvindo uma lição, mas como alguém que começava a compreender o motivo da minha dureza, da minha exigência e, talvez, de quem eu realmente era por trás da fachada de "empresária de sucesso".
Ela olhou para os grãos, depois para mim, e por um breve segundo, o medo que ela sentia de mim pareceu ter sido substituído por um profundo respeito.
— Você transformou a sobrevivência em legado. — Ela disse baixo, quase para si mesma.
Senti um calor estranho me percorrer. Não era o orgulho comum de quem recebe um elogio, era algo mais profundo e pouco compreensível. Charlotte demonstrava que tinha a capacidade de ver além dos números, ela enxergava o suor e o sangue que eu investi em cada etapa desde que assumi aquela empresa. Naquele momento, no meio daquela fábrica, entendi que ela não seria apenas uma assistente; ela seria a única pessoa que entenderia exatamente por que eu não me permitia falhar.
Enquanto eu descrevia a complexidade dos nossos silos de secagem, essenciais para manter a integridade dos grãos mesmo durante o rigoroso período chuvoso que enfrentávamos, Charlotte me acompanhava com uma dedicação quase absoluta. Ela assentia, seus olhos percorrendo os painéis de controle e a umidade controlada que mantínhamos nas áreas de armazenamento.
— A umidade é o nosso maior inimigo agora. Por isso ando ainda mais estressada que o normal. Precisamos garantir que tudo ocorra como planejado, caso contrário podemos perder meses de trabalho. — Expliquei, apontando para os sensores digitais. — Se não monitorarmos o ar que circula entre os grãos, o mofo pode comprometer uma safra inteira em poucas horas. É um equilíbrio constante entre tecnologia e vigilância.
Charlotte deu um passo à frente, debruçando-se levemente para observar uma das válvulas de pressão, fascinada pela explicação.
— É impressionante como vocês conseguem manter a estabilidade aqui, mesmo com o temporal lá fora. — Ela murmurou, a voz absorta.
Foi nesse momento de distração que o imprevisto aconteceu. Ao recuar para anotar algo mentalmente, Charlotte não percebeu um suporte metálico que sustentava uma das mangueiras de ventilação, posicionado um pouco fora do alinhamento habitual. Seu salto prendeu-se em uma pequena irregularidade no piso e, antes que ela pudesse equilibrar o próprio peso, seu corpo pendeu para trás com uma desajeitada perda de gravidade.
— Cuidado! — Exclamei, agindo por puro reflexo.
Em um movimento fluido, avancei e envolvi minha mão firme ao redor de sua cintura, puxando-a contra o meu corpo para impedir a queda. O impacto foi súbito. Charlotte colidiu de encontro ao meu peito, e a proximidade foi tão elétrica que o ar sumiu dos meus pulmões. O coração dela batia acelerado contra a minha palma.
Ela soltou um arquejo baixo, levando as mãos aos meus ombros para se apoiar. Nossos rostos ficaram a centímetros de distância. Os olhos dela, arregalados e brilhantes, fixaram-se nos meus em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo zumbido distante das máquinas e pela nossa respiração emaranhada.
— Parece que temos alguém descuidada por aqui. — Sussurrei, com a voz rouca, incapaz de me afastar na velocidade que a decência exigia. Meus dedos ainda queimavam ao contato com a cintura dela, sentindo a curvatura do seu corpo sob o tecido da roupa.
Charlotte engoliu em seco, as bochechas tingidas de um carmesim profundo, mas, para minha absoluta fascinação, ela não desviou o olhar. Havia uma vulnerabilidade crua ali, misturada a uma tensão palpável que fez o sangue pulsar forte nas minhas veias em um contraste contraditório as desconfianças que eu tinha sobre sua presença no vilarejo.
— Talvez... — Ela respondeu num fio de voz, os olhos descendo rapidamente para os meus lábios antes de voltarem a subir com timidez.
Pigarreei, forçando-me a soltar sua cintura devagar. Charlotte endireitou-se imediatamente, ajeitando a blusa com as mãos trêmulas e voltando a encarar o chão, o rosto completamente vermelho.
— Eu... obrigada. E desculpa, fui desastrada, mas vou me esforçar para não voltar acontecer. — Ela balbuciou, dando dois passos para trás para criar uma distância segura.
— Não se preocupe. Apenas tente olhar para onde anda. — Respondi, tentando disfarçar o tom trêmulo da minha própria voz e a bagunça que ela acabara de fazer com a minha sanidade.
Nós nos afastamos num silêncio carregado de eletricidade. O setor operacional já não parecia apenas uma fábrica de arroz; havia se tornado o território onde eu acabara de perceber que Charlotte Austin seria a ruína — ou a melhor surpresa — da minha rotina.
— Acho que... — Ela começou, tentando organizar os pensamentos enquanto ajeitava as roupas — Acho que entendi sobre o armazenamento. Podemos ir para a próxima etapa?
— Sim! — Respondi, com a voz um pouco mais rouca do que eu gostaria. — Vamos! A área de expedição é logo ali.
Comecei a andar, mantendo um passo à frente, mas sentindo cada movimento dela atrás de mim. Charlotte podia ser desatenta, mas, naquele breve instante, ela tinha conseguido desestabilizar o chão sólido que eu pensava ocupar.

Fim do capítulo

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