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Por Engfa
– Você está me ouvindo?
Levantei os olhos do relatório financeiro, mas não me dei ao trabalho de encarar o homem à minha frente. Meus dedos deslizavam pela tela do celular, cruzando dados de uma planilha enviada há poucos minutos.
– Desculpe, tio. O que o Sr. estava dizendo? – Respondi, sem desviar a atenção do gráfico.
Lidar com o Tio Arthit estava se tornando um exercício de paciência mais desgastante do que administrar as excentricidades de Lookmhee. Desde que a caçula retornara a uma semana daquela viagem com aquela mulher a reboque, o pai dela parecia ter desenvolvido um pavor constante de escândalos. Ele não compreendia a lógica por trás daquela hospitalidade inesperada, e, para ser sincera, nem eu, embora fosse mais elegante chamar de "intuição" do que de falta de nexo. Até Lingling, cujas sinapses costumavam vibrar na mesma frequência caótica de Mhee, ficou cética quando descobriu o que a mais nova aprontou.
O coitado do Tio Arthit, porém, estava convencido de que Mhee havia "sequestrado" alguém e que, a qualquer momento, uma família furiosa apareceria na fazenda para cobrar o prejuízo.
— Perguntei se alguma vez Mhee mencionou o nome Charlotte a você. — Ele disse, num ímpeto de desespero, arrancando o celular das minhas mãos.
Sua ousadia me obrigou a encará-lo. O homem estava visivelmente abalado.
— Pelo amor de Deus, Engfa. Você sempre foi a mais sensata das quatro. Não posso acreditar que está acobertando uma loucura dessas. Existe um limite para seu instinto protetor a minha filha.
Suspirei, a irritação subindo pela espinha. Eu realmente ia matar Mhee. Não bastava a pressão diária por uma vaga para a protegida; agora eu precisava gerir o colapso nervoso do seu patriarca.
— Tio, as informações são escassas porque a vida da moça também é. Não podemos aceitar que ela busca um recomeço? Algo simples assim? Mhee garante que ela é órfã; portanto, não haverá invasões de famílias iradas para atacar sua filha.
— A Lookmhee é astuta, Engfa! Ela é capaz de inventar qualquer justificativa se tiver desonrado a moça.
Quis rir, mas me contive. Dos três irmãos, o pai de Mhee era o mais ligado às tradições, especialmente quando se tratava de manter os relacionamentos como aquilo que ele chamava de “modos respeitosos”. Se ele soubesse que a filha era uma atacante nata, talvez a "explicação lógica" para o desespero dele tivesse mesmo fundamentos.
— Se quer minha opinião sincera: Charlotte não parece interessada na Mhee da forma que o senhor teme. Não acho que há com que se preocupar.
— Como pode ter tanta certeza? Elas estão morando juntas, e estão inseparáveis! Quando fui até lá, senti que estava atrapalhando algo. — Ele cambaleou até a poltrona, arfando. — E se ela estiver grávida? Eu não estou pronto para ser avô!
Fechei os olhos por um segundo, contando até dez. A falta de noção biológica do meu tio, era um recorde pessoal. Ele tinha passado de todos os limites.
Olhei para o homem sem conseguir conter o misto de incredulidade e preocupação. Como era possível que ele pensasse algo assim? Se fosse outra pessoa, provavelmente eu não iria me conter em lembrar que duas mulheres não fazem filhos com a mesma facilidade que planta bananeira. Mas era o meu tio mais velho, e isso me obrigava a mesmo sem paciência, ainda assim respeitá-lo.
— Tio Arthit, Charlotte está lá apenas temporariamente. Já estou providenciando uma moradia independente. E sobre a contratação que Mhee me pediu, não será uma caridade. Miu veio para junto de nós praticamente nas mesmas condições e provou seu valor. A moça pode nos surpreender positivamente.
– É completamente diferente, Engfa. Seu pai sabia exatamente quem estava trazendo para cá. Mas essa moça… nós não sabemos de nada a respeito.
– Eu tive acesso a documentação dela. Sei o suficiente para dar um voto de confiança. Além disso, foi um pedido da Mhee.
Ele me encarou, o interesse superando o pânico.
— Você realmente vai contratá-la para trabalhar com você?
— Vou! Charlotte é formada e possui um currículo sólido. A contabilidade da empresa está um caos, e eu preciso de alguém ao meu lado para facilitar minha vida empresarial. Se ela tiver a competência que promete, será um ativo, não um custo. Eu já conversei com o papai. Vou oferecer uma das casas de funcionários como bônus. Problema resolvido para ela e para o senhor.
Respondi, depositando as folhas sobre a mesa e tirando os óculos que, a longa distância, me atrapalhava a visão. Levantei e caminhei até a janela de vidro que dava vista para o vasto arrozal da minha família. Aquele debate, para mim, estava encerrado.
— Agora tio, eu adoro suas visitas e nossas conversas, mas se me permite, tenho pilhas de relatórios que não se lerão sozinhos.
— Tudo bem, querida. Eu vou indo! Tenho negócios a resolver também. — Ele disse, levantando-se. Mas, na porta, hesitou. — Vá visitá-las no fim de semana. Verifique se essa amizade é apenas o que dizem ser. Mhee te ouve mais do que a mim que sou o pai dela.
Tive que suspirar e... concordar, se quisesse voltar aos meus relatórios a tempo de sair para o almoço. Mas anotei mentalmente que Mhee estaria me devendo por pelo menos uns dez anos, e eu cobraria com juros e correções aquele favor.
— Certo! Eu irei na sexta se isso te deixar mais tranquilo. — Concordei, sabendo que não teria outra opção. — Mas, aviso: o senhor terá que convidá-la para o seu aniversário que está se aproximando. Seria de uma deselegância imperdoável ignorar a presença de uma hóspede da sua própria filha.
— A festa... — Ele murmurou, pensativo. — Claro, Engfa. Sou um cavalheiro. Serei cordial com a moça.

Sexta-feira

Por Charlotte

O carro esportivo que eu tanto admirava Mhee dirigir, andava em alta velocidade quando o motor morreu inexplicavelmente. Um cheiro forte de gasolina encheu o ar antes de Mhee me encarar, praticamente, gritando: 
— Oh meu Deus, a Engfa vai me matar. Eu troquei a embreagem pra ela na semana passada, Charlotte! Eu te avisei para ir mais devagar com o câmbio.
Ergui o queixo, fingindo uma indignação que escondia o nervosismo. Mas, depois, cai na risada. 
— Fui delicada com o câmbio... 
— Não! Não foi! — Ela sacudiu a cabeça. — Ou a embreagem não teria quebrado de novo. 
Pousei a mão no volante, ainda rindo. 
— Aceite de uma vez, Mhee. Nunca vou aprender a dirigir um carro com esse tipo de marchas. Além disso, você não deveria ter me colocado para dirigir um carro que nem é seu.
Ela continuava balançando a cabeça, desgostoso e passava as mãos pelos cabelos revoltos. 
— Afinal, qual é o problema? — Perguntei-lhe. — Por que insiste tanto em querer me ensinar a pilotar uma máquina como esta? 
— Engfa adora carros como esse. Se ela te contratar, como creio que fará, ela pode precisar que você dirija pra ela em algum momento. Às vezes ela arruma umas viagens tarde da noite e a visão dela é péssima a noite. Além disso, algum dia você pode estar dentro da sua Ferrari conversível...
Interrompi-a com uma gargalhada, jogando minha cabeça para trás. Lookmhee só podia estar brincando. Uma Ferrari! Eu tinha tido muita sorte em ter conseguido juntar um dinheiro trabalhando no bar da faculdade para sobreviver até ali, e ela me vinha com essa.
Mhee me olhava parecendo assombrada com minha risada compulsiva. Coitada! 
Respirei fundo diversas vezes para conter minha gargalhada e, quando consegui, olhei para ela: 
— Olhe para mim, Mhee! — Pedi e, junto com o olhar dela, olhei para meu jeans desbotado e minha jaqueta surrada. — Uma Ferrari combinará comigo? E onde irei estacioná-la? Num buraco? Não me faça rir.
Mhee me observava frustrada enquanto massageava suas têmporas. Ela sempre tentava me empurrar para um mundo que eu não conhecia, uma fé em mim que eu mesma não possuía. Eu sabia que nossa constante discussão sobre assuntos como aquele, sempre lhe dava dor de cabeça.
– Não precisamos entrar nessa discussão novamente, Mhee. – Fechei meus olhos e suspirei, cansada daquela história.
– Você precisa ter um pouco mais de fé em si mesma. – Mhee me repreendeu como fazia desde que nos conhecemos.
— Eu preciso é te lembrar que não passo de uma estranha para você. — Disse-lhe, fraca. – Você não me conhece o suficiente para saber do que sou ou não sou capaz.
Assim como das outras vezes, Mhee revirou os olhos com impaciência, mas seu rosto adotava uma expressão compreensiva.
— Você deveria ficar feliz por eu acreditar em você desde o princípio. Olhe para nós agora. Somos melhores amigas.
Franzi o nariz, como eu fazia sempre. Era muito difícil ignorar a generosidade daquela mulher que durante esse pouco tempo aprendi a admirar tanto. Mhee não era apenas alguém bondosa, mas também alguém que era fácil de cativar qualquer coração. Embora eu não falasse com frequência, eu tinha uma enorme gratidão ao destino por ter colocado-a em meu caminho. Eu podia até não ter nada na vida, mas não morreria sem dizer que fiz uma boa amiga.
— Não me leve a mal, Mhee. Mas, não quero mais aprender a dirigir um carro como este. — Abri a porta do carro e pulei.
Mhee no entanto, nem se moveu do banco de passageiros. Sem me olhar, ela disse: 
— Posso negociar um outro tipo de carro com a Engfa, para você usar durante o dia... 
Emprestar alguma coisa de Engfa Waraha? Nem morta! pensei. O nome sozinho já carregava uma aura de autoridade que me fazia encolher.
Não é que eu tivesse antipatia pela prima mais velha de Mhee, longe disso na verdade. Só que desde o dia que fomos apresentadas, a mulher me causava certo receio de estar perto. Talvez fosse seu visível empoderamento que me intimidava, ou quem sabe era sua capacidade de me fazer estremecer ao ser observada por aqueles olhos de predadora. Quando eu me pegava sendo observada por aquela mulher, eu tinha a sensação que ela podia desvendar minha alma e descobrir todos meus segredos.
Apesar de não conversarmos muitos durante as poucas vezes em que estivemos juntas no mesmo ambiente, eu já ouvi muito a respeito da prima mais velha. Segundo os relatos dos funcionários da fazenda do pai de Mhee, Engfa era viciada em trabalho, e assim como as outras primas, tinha sua sexualidade assumida, no entanto, sua vida particular era sempre preservada o suficiente, ninguém sabia ao certo se ela tinha compromisso com alguma mulher, embora houvesse relatos que ela era a mais paquerada entre todas da família. Tinha quem dissesse que Engfa não dava atenção as tentativas de aproximação das moças do vilarejo. Era como se nenhuma disponível ali, fosse boa o suficiente para ela.
Não tive chances para responder os delírios de Mhee, pois, quando parei subitamente, percebi que não estávamos mais sozinhas. A alguns metros de distância, parada sob a luz do sol poente, estava a silhueta imponente da mulher que desde a primeira vez que me viu, parecia travar uma batalha consigo mesma. Engfa nos observava com os braços cruzados no peito, a expressão fria e ilegível.
A prima mais velha de Mhee, não disse nada imediatamente. Ela deixou o silêncio pesar, avançando alguns passos lentos até parar bem diante de nós. Seus olhos escuros analisaram primeiro o capô fumegante do carro e, em seguida, pousaram em mim com uma intensidade quase tátil. Era o tipo de olhar que parecia despir qualquer defesa, e o meu instinto imediato foi o de erguer um muro.
— Pelo visto, Mhee encontrou alguém tão teimosa quanto ela. Vocês duas parecem ter muito incomum, inclusive o talento para destruir para destruir meus carros. — Engfa quebrou o silêncio, a voz saindo em um tom aveludado, mas cortante como vidro lapidado.
Cruzei os braços na mesma hora, erguendo o queixo para não me encolher sob aquela autoridade toda.
— O carro já estava implorando por socorro bem antes de eu assumir o volante, Srta. Waraha. — Retruquei, a voz firme apesar do frio que desceu pela minha espinha. — A menos que a senhorita prefira culpar o câmbio pelas próprias falhas de manutenção.
Um canto da boca de Engfa se ergueu, desenhando um sorriso de canto cético e perigoso. Ela inclinou levemente a cabeça, me avaliando com um interesse repentino que fez meu estômago dar um nó. Havia um desafio silencioso ali; ela não parecia que estava acostumada a ser respondida à altura, e parecia curiosa — ou talvez divertidamente irritada — por eu não ter abaixado a cabeça. E eu? Bem, não sei o que me deu na cabeça para fazer aquilo.
— Resposta afiada para quem agora está em dúvidas comigo, Charlotte. — Engfa murmurou, dando mais um passo à frente, estreitando a distância entre nós a um limite quase desconfortável.
O perfume amadeirado dela misturou-se ao vento da tarde.
— Mas foi a Mhee que me mandou dirigir. – Retrunquei me perguntando internamente como pagaria o concerto naquela nave.
Antes que eu pudesse formular algo a mais, ela desviou o olhar para a prima, encerrando o duelo momentâneo com a mesma facilidade com que o havia começado.
– Sua pestinha! Você só me arruma confusão, Lookmhee. Venham… Temos muito o que conversar.
Embora soasse firme, não existia de fato uma raiva explícita em seu tom.

…

O silêncio na sala de Lookmhee era pontuado apenas pelo farfalhar suave das folhas de papel que Engfa virava com calma calculada sob o olhar de Lookmhee e eu.
Intrigada, eu não podia deixar de notar que ela exalava aquela aura de liderança silenciosa que fazia qualquer um no recinto endireitar a postura, o que explicava a maneira exagerada como Mhee costumava reagir quando se referia a sua prima mais velha.
Sentada no sofá do outro lado da sala, eu mantinha as mãos entrelaçadas em meu colo, os ombros levemente tensos, como se aguardasse a leitura de uma sentença. Ao meu lado, Lookmhee praticamente vibrava, a perna balançando em um ritmo ansioso que denunciava sua incapacidade de ficar quieta.
Engfa fechou a pasta de couro e ergueu os olhos. Sua expressão era pragmática, mas havia uma centelha de desafio deliberado no fundo de suas íris ao focar em mim. Ela não estava apenas me oferecendo um emprego; ela estava me testando.
— Como eu prometi a Mhee, eu analisei o seu currículo detalhadamente, Charlotte. — Engfa começou, a voz firme, cortando o ar da sala com precisão cirúrgica. — Suas referências são excelentes, mas sendo muito honesta com você… eu estava com receio de te contratar. É que eu não gosto da ideia de contratar pessoas que apenas balançam a cabeça concordando com tudo. Eu acho que isso pode soar muito falso, se é que me entende.
– Engfa… – Mhee tentou intervir, mas logo foi silenciada.
– Quieta, pequena encrenqueira. – O olhar de Engfa saltou de Mhee para mim. – Eu preciso de alguém que saiba discutir comigo quando eu estiver prestes a cometer um erro, e que tenha fibra para sustentar uma opinião que não leve ao erro. Mas bem, considerando o que vi agora a pouco, acho que posso deixar esse receio pelo o meio do caminho, não é mesmo? Quero dizer, pelo o visto você não tem medo de confrontar a minha autoridade.
Senti minhas bochechas esquentarem diante do seu olhar que parecia disposto a me queimar viva. Ela estava se referindo ao episódio do carro quebrado. O atrevimento que eu tivera minutos antes parecia agora um tiro no meu próprio pé.
— Eu não estava confrontando a srta. Me desculpe se foi isso que pareceu. — Respondi, estreitando levemente os olhos, incapaz de ficar totalmente acuada, embora minha voz tenha saído um tom mais baixa.
Lookmhee olhava de uma para a outra, alternando o foco com os olhos arregalados, parecendo finalmente perceber a eletricidade sutil que cortava o ambiente entre a prima e eu.
Engfa soltou uma risada curta, um som rouco e fascinante que fez meu coração falhar uma batida. Ela recostou-se no sofá, cruzando as pernas com uma elegância intimidadora, sem desviar o olhar do meu nem por um segundo.
— De qualquer maneira, é exatamente isso que espero de você no trabalho. Firmeza e determinação. — Engfa disse, deslizando o envelope branco sobre a mesa de centro, empurrando-o devagar com a ponta dos dedos na minha direção. — O cargo é de Assistente Executiva e Analista Financeira. O salário está na primeira página. E junto dele, a cláusula que te garante uma moradia em uma das casas que oferecemos aos nossos trabalhadores como oferta de bônus. Assim, você terá sua privacidade e não precisará mais aturar os delírios da minha prima.
Quando abri o envelope e li os números, o ar faltou nos meus pulmões. O valor era absurdo, desproporcional para alguém que ela conhecia há poucos dias. Ergui os olhos, encontrando os dela carregados de uma firmeza intransigível.
— Isso é... é demais, senhorita. Eu não posso aceitar algo dessa proporção. Aliás, por que você ofereceria algo assim para alguém que mal conhece? — Murmurei, sentindo a garganta apertada.
Engfa sustentou meu olhar, desfazendo a distância entre nossas realidades com uma frase que me desarmou por completo:
— Não fale como se eu estivesse te fazendo um favor, Charlotte. Eu estou investindo em um desafio que foi jogado em meu colo. – Seu olhar quase fuzilou a prima. – E se tem uma coisa que eu detesto na vida, é recusar desafios. Então, prove que eu não estou errada sobre você... Estou apostando muitas fichas na sua competência.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado do que parecia ser uma promessa silenciosa. Ela não estava me olhando como uma chefe olha uma funcionária; ela estava me olhando como quem observa um oponente digno de atenção no tabuleiro. E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia de aceitar esse desafio não me assustava nem um pouco. Pelo contrário: fez meu sangue correr mais rápido nas veias.
— Outra coisa… É preciso que você saiba que suas atribuições não vão ficar restritas apenas a contabilidade da minha empresa. Esse não é o meu único problema no momento.
Pisquei algumas vezes enquanto senti minha respiração ficar presa, tentando decifrar o que aquilo significava. Lookmhee, por sua vez, parou de balançar a perna, a testa franzida em confusão.
— O que você quer dizer com isso, Engfa? — Mhee disparou, já assumindo sua postura defensiva.
Engfa lançou um olhar divertido e levemente repreensivo para a prima, um aviso silencioso para que a mesma se acalmasse.
— Quero dizer, Mhee, que eu preciso de alguém de extrema confiança ao meu lado, e como você seria incapaz de me recomendar alguém que fosse menos que isso, então essa pessoa será Charlotte.
Engfa parecia se deliciar com as palavras que dizia a prima. Era como se ela estivesse lançando Mhee na roqueira que ela mesma havia colocado fogo. Em seguida a empresária voltou sua atenção para mim, apoiando as mãos nos próprios joelhos. Ela parecia estar se divertindo com aquele jogo.
— Minha vida empresarial e minha agenda pessoal estão um caos absoluto. Eu preciso de uma pessoa que não apenas organize os números da empresa, mas que também seja meu braço direito. Alguém que gerencie meus compromissos, filtre minhas demandas diárias e resolva os problemas antes mesmo que eles cheguem até mim. Você pode dar conta disso, não é mesmo?
O ambiente pareceu encolher com o peso daquela proposta. Era um cargo de extrema confiança, algo que me colocaria não apenas dentro da empresa daquela mulher, mas também no centro da vida de Engfa Waraha. Aquilo sem dúvidas parecia ter sido algo estrategicamente bem pensado. Caso eu aceitasse a proposta, uma coisa era certa… Engfa e eu passaríamos muito tempo juntas.
— Você... você quer que eu seja sua assistente pessoal além de contadora? — Gaguejei, a voz não passando de um fio. — Engfa, eu não tenho experiência com... com a sua rotina. Eu posso cometer erros.
— Me disseram que você é inteligente. Pessoas inteligentes aprendem com facilidade. — Engfa cortou, pragmática e segura. Ela não era do tipo que romantizava situações, tão pouco que parecia saber ouvir um não. — Acredite, isso não será um problema. Eu prefiro ensinar a dinâmica do meu trabalho a alguém leal e esforçada do que contratar um profissional arrogante que acha que sabe tudo. A única coisa que poderia ser um problema entre nós, é se existisse algo que eu devesse saber, mas que me foi ocultado. Mas também creio que esse não é o caso, não é mesmo?
O sorriso nos lábios da prima de Mhee, era algo que ia além de divertimento. Era um sorriso digno de quem sabia que estava com o controle do jogo sob suas mãos. Mhee e eu éramos apenas duas peças sendo conduzidas conforme seu desejo.
Naquele mesmo instante pensei em recusar a proposta, mas antes que eu pudesse dizer algo, vejo Mhee praticamente se jogando sob o colo da sua prima. A mais nova soltou um grito contido, jogando os braços ao redor do pescoço da amiga.
— É claro que ela aceita! — Ela respondeu por mim. – Eu sabia! Eu sabia que ela ia te adorar, Charlotte. — Comemorou, a alegria irradiando de cada poro do seu corpo, ou pelo menos fingindo. Em seguida, ela se inclinou sobre a prima, os olhos brilhando de gratidão, e segurou a mão da mais velha. — Muito obrigada, P'Fa. Você é a melhor do mundo. Eu prometo que vou pagar o concerto e a lavagem do seu carro por um mês!
Engfa sempre repreendia os exageros da prima mais nova, mas acabou cedendo e rindo, um som raro e genuíno que quebrou qualquer resquício de tensão no ar. Com naturalidade, ela deu um leve e afetuoso "tapa corretivo" na mão de Mhee.
— Deixe meu carro em paz, sua pestinha, ou você vai acabar riscando a pintura do meu bebê. — Ela pontuou, o tom brincalhão mascarando a profunda satisfação de ver a prima tão feliz.
Voltando seu olhar ancorado e seguro para mim, que ainda segurava o contrato como se fosse um bilhete premiado de loteria, Engfa finalizou:
— Leia com calma, Charlotte. Mas saiba que se você aceitar, a vaga é sua, e a moradia também. Você já começa na segunda-feira.
Naquele instante, enquanto Mhee continuava a tagarelar animadamente e eu tentava processar a reviravolta em seu destino, Engfa permaneceu ali, me observando como se estivesse diante do maior enigma da sua vida.

Fim do capítulo

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