Capítulo 9

Capítulo 9 - Quem Você Quiser

de Sob Nova Direção, por Mary_b94

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O telefone do quarto tocou às sete da manhã.

Mavie já estava de pé, vestida, com a mala fechada ao lado da cama. Atendeu no segundo toque.

— Senhorita Smith, bom dia. Aqui é a recepção. Peço desculpas pelo transtorno, mas a chuva da madrugada alagou as estradas de acesso a São Luís. Não vai ser possível sair do resort hoje.

Ela fechou os olhos.

— O voo?

— A companhia aérea remarcou para amanhã, às duas e quinze da tarde. Se a estrada estiver liberada até lá, o transporte sai às oito.

— Entendi. Obrigada.

Desligou e ficou olhando para a mala.

Mais um dia.

Mais um dia naquele lugar, a poucos metros de uma mulher que ela havia decidido nunca mais olhar de frente.

Alex recebeu a notícia com a mesma calma de sempre.

— Bom, Eduardo e Carolina me enviaram uma mensagem convidando a gente para um jantar de despedida. Vai ser aqui mesmo, no restaurante principal.

— Eu não vou.

— Mavie...

— Estou cansada.

Ele a observou por um segundo, e ela soube que ele sabia que aquilo era mentira. Alex sempre sabia. E sempre escolhia não dizer.

— Tudo bem. Descansa.

Beijou a testa dela e saiu.

Mavie passou o dia trancada na suíte. Trabalhou. Ou tentou. Respondeu e-mails de Dublin, reescreveu duas vezes a mesma frase de um contrato, almoçou no quarto, olhou a chuva pela janela. Evitou a recepção, os corredores, o jardim. Evitou tudo o que pudesse ter uma camisa do resort e um par de olhos azuis.

Do outro lado do resort, Marcela estava de folga.

Tinha pedido o dia a Carolina na noite anterior, sem explicar o motivo, e Carolina, que não era boba, não perguntou. Passou a manhã dormindo, a tarde assistindo a aulas gravadas de que não absorveu uma palavra, e às sete da noite Isabela entrou no quarto, jogou a bolsa na cama e a olhou de cima a baixo.

— Levanta.

— Eu estou de folga.

— Exatamente. Hoje você sai.

— Isa...

— Você passou dois dias com cara de quem perdeu um parente. Hoje você vai tomar uma caipirinha, conversar com gente, rir de alguma coisa. Eu tenho o turno da noite, então não posso ir junto, mas vai.

Marcela pensou em argumentar.

Depois pensou na cabana, e no "foi um erro", e no quarto vazio.

— Tá bom.

O jantar de despedida terminou cedo.

Eduardo e Carolina levaram o grupo até o bar do resort para o último brinde, e Alex, que raramente bebia mais que uma taça, aceitou duas. Às nove e meia, ele se despediu com um beijo no rosto de Carolina e subiu para a suíte.

Encontrou Mavie na cama, com o notebook no colo.

— Ainda trabalhando?

— Estou verificando se amanhã o aeroporto vai abrir.

— A recepção disse que a estrada deve liberar até as cinco.

— Eu prefiro confirmar.

Alex tirou o paletó e se deitou ao lado dela, os olhos já meio fechados.

— Você é impossível.

— Eu sei.

Ele dormiu em menos de cinco minutos.

Mavie ficou olhando para a tela sem ler nada. Dez minutos depois, fechou o notebook, levantou-se sem fazer barulho e saiu do quarto.

Dizia para si mesma que ia até a recepção.

Era só isso. Só confirmar o horário. Cinco minutos.

A recepção estava vazia, exceto por um rapaz que Mavie não conhecia, que confirmou o transporte para as oito e a liberação da estrada. Ela agradeceu, deu meia-volta e já estava indo embora quando ouviu a risada.

Não precisou olhar para saber de quem era.

Aquela risada.

A risada que aparecia em todos os cantos da cabeça dela desde a primeira noite.

Mavie caminhou até a entrada do bar, a mão parada no batente, o corpo inteiro avisando que devia voltar.

Marcela estava sentada num banco alto, de costas para ela, de vestido preto simples e sandálias, os cabelos castanhos soltos caindo pelas costas. Ao lado dela, uma mulher loira, de uns trinta anos, com um sotaque que Mavie reconheceu como francês, inclinava-se para a frente, rindo de alguma coisa que Marcela havia dito.

— Você não está falando sério — a francesa dizia, em português carregado.

— Estou. Eu juro. O macaco subiu na cabeça dela e ela gritou mais alto que o macaco.

Mavie sentiu o rosto esquentar.

Estavam falando dela.

— E você a levou lá?

— Levei. Ela é uma péssima turista. Reclama de tudo.

— Mas você gosta dela.

Marcela ficou em silêncio por um segundo.

— Eu gosto de muita gente — respondeu, e levou o copo aos lábios.

A francesa sorriu e pousou a mão sobre o joelho dela.

Marcela não a tirou.

Mavie sentiu uma coisa fria e feroz subir pelo peito, uma sensação que não tinha nome no vocabulário organizado e racional da vida dela. Não era ciúme. Ciúme era uma palavra pequena, educada, de gente civilizada.

Aquilo era outra coisa.

Mavie entrou no bar.

— Marcela.

Marcela virou o rosto devagar.

Os olhos azuis encontraram os dela, e por uma fração de segundo houve uma mistura de surpresa e dor. Depois a expressão se fechou, polida.

— Boa noite, Mavie.

— Preciso falar com você.

— Estou de folga.

— É importante.

— Pode falar com a recepção.

A francesa olhou de uma para outra, a sobrancelha erguida.

— Está tudo bem?

— Está — Marcela respondeu, sem tirar os olhos de Mavie. — Ela já está de saída.

Mavie respirou fundo, um fôlego só, e fez o que nunca teria feito em nenhum outro lugar do mundo.

Segurou o pulso de Marcela.

— Vem comigo.

— Me solta.

— Agora.

— Mavie...

Mas Mavie já estava puxando, e Marcela, um pouco tonta de duas caipirinhas, escorregou do banco e foi atrás, tropeçando, enquanto a francesa dizia alguma coisa em francês que nenhuma das duas escutou.

O jardim estava vazio.

A chuva tinha dado uma trégua, e as luzes baixas desenhavam poças de claridade amarela sobre o caminho de pedra. Mavie arrastou Marcela até a sombra de uma árvore larga, longe das janelas, e só então soltou o pulso dela.

Marcela cambaleou um passo e se endireitou, os olhos faiscando.

— Você ficou maluca?

— Quem é ela?

— O quê?

— Aquela mulher. Quem é ela?

— Não é da sua conta.

— Marcela.

— Não é da sua conta, Mavie! — a voz subiu, rachada. — Você perdeu o direito de perguntar qualquer coisa no momento em que disse que me beijar foi um erro!

Mavie sentiu o golpe e não recuou.

— Ela estava com a mão em você.

— E daí?

— E daí que...

— E daí que você tem noivo, Mavie. Você tem um noivo lá em cima, dormindo na sua cama. Você tem uma vida, uma empresa, um casamento. Você tem tudo. E eu tenho o quê? — Marcela deu um passo à frente, o dedo apontado para o peito dela. — Eu tenho uma noite de folga e o direito de passá-la com quem eu quiser.

— Você não vai ficar com ela.

— Não vou?

— Não.

Marcela soltou uma risada curta, sem humor.

— Você está ouvindo o que está falando? Você me dispensa, você some, você me chama de erro, e agora vem aqui me dizer com quem eu posso ficar?

— Eu sei que é injusto.

— Injusto?

— Eu sei!

— Então para!

— Eu não consigo!

O grito de Mavie ecoou entre as árvores, e as duas ficaram paradas, ofegantes, a poucos centímetros uma da outra.

Marcela olhou para ela por um longo momento. E, quando falou, a voz saiu baixa, venenosa, cheia de uma mágoa que só queria machucar de volta.

— Quer saber? Você vai embora amanhã. Eu vou ficar aqui. E eu vou transar com quem eu quiser. Com ela, com qualquer pessoa. Com a primeira que aparecer.

Silêncio.

— Qualquer uma — Marcela repetiu, cada palavra uma faca. — Menos você.

Alguma coisa quebrou dentro de Mavie.

Não foi um estalo, nem um grito. Foi um silêncio, um silêncio denso e perigoso, a engrenagem de vinte e nove anos de controle simplesmente travando e saindo do eixo de uma vez.

— Repete.

— O quê?

— Repete o que você disse.

— Eu disse que...

Mavie a segurou pelo rosto e a beijou.

Não foi um beijo. Foi uma resposta, violenta e desesperada, a boca dela contra a de Marcela com a força de tudo o que havia segurado durante dias. Marcela soltou um som abafado de surpresa e cravou as unhas nos ombros dela, empurrando uma vez, duas, e na terceira vez já estava puxando de volta, as costas batendo contra o tronco da árvore, as mãos agarrando o tecido da blusa de Mavie como se fosse a única coisa que a mantivesse de pé.

Quando Mavie se afastou, as duas respiravam como se tivessem corrido quilômetros.

— Diz que eu posso parar — Mavie disse, a voz rouca, a testa encostada na dela. — Diz agora. Diz que você quer que eu vá embora, e eu vou.

Marcela fechou os olhos.

— Eu bebi duas caipirinhas, Mavie. Eu não perdi a cabeça.

— Marcela...

— Eu sei exatamente o que eu quero.

Os olhos azuis se abriram, brilhando no escuro.

— E é você. Droga. Sempre foi você.

Mavie sentiu o ar sair do peito.

— Então não me manda embora.

— Não estou mandando.

— Eu te quero tanto que está doendo.

— Então para de falar.

Mavie segurou a mão dela.

— Onde a Isa está?

— Turno da noite. Só volta de manhã.

— Vamos.

Não conseguiram chegar à porta sem se beijar três vezes.

Uma no caminho dos coqueiros, quando Marcela puxou Mavie pela blusa e a prendeu contra uma palmeira, rindo contra a boca dela. Outra na entrada do prédio, Mavie com as mãos na cintura dela, ainda tentando acreditar que estava mesmo fazendo aquilo. A terceira, a mais longa, diante da porta, Marcela com a chave na mão, incapaz de encaixá-la na fechadura enquanto a boca de Mavie descia pelo pescoço dela.

— Mavie... a chave.

— Abre.

— Eu estou tentando.

— Tenta mais.

Marcela riu, um riso trêmulo, e finalmente a porta cedeu.

Entraram aos tropeços, e a porta bateu atrás delas.

O apartamento estava escuro, só com a luz do poste entrando pela janela. Mavie encostou Marcela na parede, as duas mãos espalmadas ao lado do rosto dela, o corpo inteiro pressionado contra o seu.

— Eu nunca estive com uma mulher — disse, a voz mais baixa, a ferocidade cedendo um pouco à vulnerabilidade. — Nunca. Eu não sei se estou fazendo certo.

Marcela a olhou.

Em meio ao álcool, ao desejo e à raiva ainda quente, o olhar dela suavizou.

— Não existe jeito certo.

— Eu estou com medo.

— Eu também.

— Você?

— Você acha que eu faço isso todo dia?

Mavie riu, e foi a risada que desarmou o resto.

Marcela ergueu as mãos e segurou o rosto dela, o polegar passando pelo canto da boca.

— A gente pode ir devagar.

— Eu não quero ir devagar.

— Mavie...

— Eu passei a vida inteira indo devagar.

Marcela sorriu, aquele sorriso que Mavie vira pela primeira vez atrás de um balcão.

— Então vem.

A blusa de Mavie foi a primeira a ir ao chão.

Marcela a olhou, parada ali de sutiã, os cabelos ruivos bagunçados, os lábios inchados dos beijos, e alguma coisa no rosto dela mudou.

— Meu Deus.

— O quê?

— Você é linda.

— Para.

— Não vou parar.

— Marcela...

— Você é a mulher mais bonita que eu já vi.

O calor subiu pelo peito de Mavie, pelo pescoço, pelo rosto inteiro. Ela fez a única coisa que sabia fazer quando não tinha resposta: puxou Marcela para um beijo.

O vestido preto escorregou pelos ombros, desceu pela cintura e caiu no chão. As mãos de Mavie, que tinham passado a vida assinando contratos, tremeram ao tocar a pele nua dela, descendo pelas costelas, pelo ventre, pelo quadril.

Marcela estremeceu.

— Você está tremendo.

— Estou me controlando.

— Para de se controlar.

Foi o que bastou.

Mavie a ergueu pelas coxas, e Marcela, rindo e ofegante, cruzou as pernas ao redor da cintura dela. Atravessaram o quarto assim, aos tropeços, derrubando a cadeira, batendo o ombro no batente, até que as costas de Marcela encontraram o colchão e Mavie caiu por cima.

A cama era pequena. O lençol, azul desbotado. Sobre a cadeira caída, uma camisa de futebol vermelha e preta.

Mavie parou.

— A camisa do seu pai.

— Mavie.

— Eu só...

Marcela segurou a nuca dela e puxou.

— Depois você pergunta.

Mavie levou os dedos até o fecho do sutiã de Marcela e hesitou.

— Posso?

— Pode.

O tecido cedeu. Marcela ficou ali, exposta sob a luz fraca do poste, o peito subindo e descendo depressa, e Mavie olhou para ela como quem olha para uma coisa que nunca esperou ter permissão de tocar.

A boca desceu devagar.

Primeiro o pescoço, onde o pulso de Marcela batia forte contra seus lábios. Depois a clavícula, a pinta pequena logo abaixo, o vão entre os seios. Quando a língua de Mavie alcançou o mamilo dela, Marcela arqueou as costas inteiras e cravou os dedos nos cabelos ruivos.

— Ah... Mavie...

O som a incendiou.

Mavie repetiu o movimento, mais devagar, mais fundo, e sentiu o corpo inteiro de Marcela responder, o quadril se erguendo contra o dela, as pernas se apertando ao redor da sua cintura. Cada gemido era uma instrução. Cada tremor, uma confirmação. Ela aprendia o corpo daquela mulher como nunca aprendera nada na vida, com a boca, com as mãos, com a respiração, e descobria que gostava, que queria mais, que a fome só crescia.

— Mais forte — Marcela pediu, a voz arrastada.

— Assim?

— Isso. Assim.

Mavie mordeu de leve. Marcela soltou um grito baixo, entre o susto e o prazer, e puxou o cabelo dela com força.

— Meu Deus. De onde você tirou isso?

— Eu não sei.

— Você é muito perigosa.

— Você disse que não tinha jeito certo.

— E não tem — Marcela riu, sem ar. — Mas você está achando todos.

Os beijos desceram.

Pelo ventre, que se contraía a cada toque. Pela linha do quadril, onde a pele era mais macia. Pela parte interna das coxas, e Mavie sentiu o corpo de Marcela ficar completamente imóvel, à espera.

Ergueu os olhos.

Marcela a olhava lá de cima, o peito arfando, os olhos azuis escuros de desejo, os lábios entreabertos.

— Você não precisa...

— Eu quero.

— Mavie...

— Eu penso nisso desde a cabana.

A confissão arrancou de Marcela um som que não chegou a ser palavra.

Mavie baixou a boca.

O primeiro toque da língua fez o corpo inteiro de Marcela se arquear. As mãos dela agarraram o lençol, depois os cabelos de Mavie, depois o lençol de novo, sem saber onde se segurar. Mavie ficou ali, aprendendo o ritmo, o gosto, a pressão exata que arrancava um gemido mais fundo, mais quebrado, e quando acertou, Marcela soltou um grito tão alto que Mavie ergueu os olhos, assustada.

— Fiz algo errado?

— Não. Meu Deus, não. Continua.

— Continua?

— Por favor.

Mavie sorriu, e Marcela jamais tinha visto aquele sorriso nela. Predatório. Seguro.

— Pede de novo.

— Mavie...

— Pede.

— Por favor — a voz saiu partida, doce e desesperada. — Por favor, não para.

Ela não parou.

Havia alguma coisa quase vingativa na maneira como a tocava, como se quisesse apagar da memória de Marcela qualquer outra mão, qualquer outra boca, qualquer outra mulher que tivesse tentado alcançá-la naquela noite. Segurava os quadris dela com firmeza, a língua lenta e implacável, os dedos se juntando à boca até que Marcela perdeu a noção do quarto, da hora, do nome de qualquer coisa que não fosse o dela.

— Mavie... eu vou... eu...

— Eu estou aqui.

As palavras, ditas contra a pele dela, foram o fim.

O corpo todo de Marcela se contraiu, as coxas fechadas ao redor da cabeça de Mavie, as costas arqueadas, o grito abafado no travesseiro. Durou muito. Mavie não parou, prolongou cada onda até sentir o corpo dela amolecer, tremendo, e só então subiu devagar, beijando o caminho de volta.

Marcela a puxou para os braços, ainda ofegante, o rosto afundado no pescoço dela.

— Você me matou — murmurou, entre risos fracos.

— Eu fiz certo?

— Você é a pior mentirosa do mundo.

— Por quê?

— Você nunca fez isso antes?

— Nunca.

— Não acredito.

— Eu juro.

Marcela ergueu a cabeça e a olhou, os olhos brilhando na escuridão, cheios de uma coisa que não era só desejo.

— Agora é a minha vez.

— Sua vez?

Marcela rolou por cima dela.

— Você não achou que eu ia deixar você no comando a noite inteira, achou?

O segundo round foi mais lento. E muito mais cruel.

Marcela a prendeu contra o colchão, as mãos de Mavie contidas acima da cabeça, e a olhou por um longo momento, sem tocar, só olhando. Mavie sentiu cada centímetro da pele se arrepiar sob aquele olhar.

— O que você está fazendo?

— Olhando.

— Marcela.

— Você passou a semana inteira me olhando como se eu fosse uma coisa que você não podia ter — Marcela disse, a voz rouca, os lábios quase tocando os dela. — Agora eu quero olhar de volta.

— Isso é tortura.

— É só o começo.

Beijou o pescoço dela devagar, desceu pelo colo, passou pelo vão entre os seios sem tocar onde Mavie queria. Cada beijo parava um centímetro antes. Cada toque terminava um segundo antes de ser suficiente. Mavie arqueava, puxava as mãos presas, soltava respirações cada vez mais curtas.

— Marcela...

— Hum?

— Por favor.

— Por favor o quê?

— Me toca.

— Onde?

Mavie fechou os olhos, o rosto em chamas.

— Você sabe onde.

— Quero ouvir.

— Marcela.

— Pede, CEO.

A palavra, dita com aquele sorriso torto, quebrou o resto do orgulho dela.

— Me toca. Por favor. Em todo lugar.

Marcela sorriu, vitoriosa, e soltou as mãos dela.

— Boa menina.

O elogio fez algo se contrair no ventre de Mavie, algo que ela jamais soube que tinha.

A boca de Marcela finalmente alcançou o seio dela, e Mavie soltou um gemido que ecoou pelo quarto inteiro. Uma das mãos desceu pelo ventre, passou pela borda da calcinha e escorregou por baixo do tecido, e a respiração de Mavie parou por completo.

— Está molhada — Marcela murmurou, os dedos explorando devagar, a voz carregada de uma satisfação quase reverente. — Por minha causa.

— Cala a boca.

— Por minha causa, Mavie.

— Por sua causa.

— Diz de novo.

— Por sua causa. Só sua. Marcela, por favor...

Os dedos entraram nela devagar.

O mundo inteiro desapareceu.

Mavie ouviu a própria voz soltar o nome de Marcela, rouca, trêmula, sem nenhum vestígio do controle que a definira por vinte e nove anos. Marcela estabeleceu um ritmo lento, firme, profundo, os olhos presos nos dela o tempo todo, como se quisesse ver cada reação, cada tremor, cada segundo em que Mavie deixava de ser a mulher perfeita e virava apenas uma mulher.

— Olha pra mim — Marcela pediu.

— Eu estou olhando.

— Não fecha os olhos.

— Marcela...

— Quero ver você.

Mavie obedeceu, os olhos verdes úmidos, as unhas cravadas nas costas de Marcela, o corpo inteiro subindo ao encontro dos dedos que a tocavam. O polegar de Marcela se juntou ao movimento, e o prazer foi crescendo, se acumulando, tomando o ventre, as coxas, o peito, até que Mavie não conseguiu mais respirar.

— Eu vou...

— Pode ir.

— Marcela, eu...

— Eu estou aqui.

O orgasmo a atravessou como uma onda que rompe tudo no caminho. Mavie arqueou as costas, o rosto contraído, a boca aberta num grito sem som, e depois o nome de Marcela escapando em fragmentos, uma, duas, três vezes. As lágrimas escorreram pelos cantos dos olhos sem que ela soubesse bem por quê. Marcela a segurou durante cada tremor, sem parar, sem afrouxar, até que o corpo de Mavie desabou sobre o colchão, mole, trêmulo, vazio de qualquer coisa que não fosse ela.

Marcela deitou ao lado dela e a abraçou.

— Ei — sussurrou, beijando as lágrimas dela. — Você está bem?

— Eu não sei por que estou chorando.

— Tudo bem.

— Foi... — Mavie riu, o riso molhado. — Foi a coisa mais incrível que já me aconteceu.

Marcela escondeu o rosto no pescoço dela, sorrindo.

— Eu ainda nem terminei.

Fizeram amor uma terceira vez, já perto da madrugada.

Devagar. Em silêncio. As testas coladas, os olhos abertos, as pernas entrelaçadas, as mãos percorrendo o corpo uma da outra sem pressa nenhuma, como quem sabe que o tempo está acabando e tenta esticá-lo com cada toque. Não havia mais provocação, nem disputa, nem raiva. Só um desejo lento e fundo, que dizia tudo o que nenhuma das duas tinha coragem de pronunciar.

Quando as duas chegaram juntas, o corpo de uma tremendo contra o da outra, os nomes se misturando no escuro, Marcela encostou a testa na dela e murmurou, tão baixo que quase não se ouviu:

— Fica comigo.

Mavie fechou os olhos.

Não respondeu.

Beijou a boca dela, longa, lenta, desesperada, e a abraçou com tanta força que doeu, como se o abraço pudesse dizer o que a voz não dizia.

Saiu do apartamento sem fazer barulho, e o ar frio da madrugada bateu no rosto dela, cheirando a terra molhada e a mar. Atravessou os coqueiros com passos firmes de quem sabe exatamente o que está fazendo.

Só que, pela primeira vez na vida, Mavie Smith não fazia a menor ideia.

Marcela acordou com o sol.

Esticou o braço, ainda de olhos fechados, sorrindo, procurando o calor que tinha adormecido ao lado dela.

O lençol estava frio.

Abriu os olhos devagar.

O travesseiro ainda guardava a marca de uma cabeça. Nenhum bilhete, nenhum recado, nenhuma mensagem.

Marcela ficou olhando para aquela marca por muito tempo.

Do lado de fora, o resort acordava. Passos, vozes, o motor distante de um carro. Em algum lugar, um transporte já devia estar se preparando para sair rumo ao aeroporto.

Passou a mão sobre o travesseiro, devagar, como se fosse uma coisa frágil.

Pensou em tudo o que tinha dito no jardim. Qualquer uma. Menos você.

Pensou em tudo o que Mavie não tinha dito.

Eu disse que ia te esquecer, Mavie.

Mas você nunca chegou a falar que ficaria.

Abraçou os joelhos, sozinha na cama onde, algumas horas antes, tinha sido mais feliz do que jamais imaginou ser, e só então, quando ninguém podia ver, deixou as lágrimas caírem.

Fim do capítulo

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