Capítulo 8

Capítulo 8 - Fuga Para a Frente

de Sob Nova Direção, por Mary_b94

Tamanho do texto
3.421 palavras132 leituras0 comentários
Mavie acordou antes do despertador.

De novo.

Mas, naquela manhã, não foi a disciplina que a tirou do sono.

Foi a vergonha.

Uma sensação quente subiu pelo rosto antes mesmo que abrisse completamente os olhos.

Ela permaneceu imóvel por alguns segundos, encarando o teto escuro da suíte.

Então a lembrança voltou.

A areia sob seus pés.

O céu coberto de estrelas.

Os olhos azuis de Marcela.

A proximidade entre as duas.

E aquele segundo em que Mavie percebeu que, se não tivesse recuado, teria beijado aquela mulher.

Eu quase beijei ela.

Fechou os olhos.

Poucos meses.

Era tudo o que a separava do casamento com Alex.

Poucos meses até uma vida que ela havia planejado cuidadosamente.

Uma vida segura.

Previsível.

Uma vida que deveria fazê-la feliz.

Alex dormia tranquilamente ao seu lado, completamente alheio à guerra que acontecia dentro dela.

Mavie saiu da cama com cuidado e caminhou até a janela.

Precisava colocar aquilo em algum lugar.

Organizar.

Controlar.

Era o que sempre fazia.

Quando alguma coisa ameaçava sair do eixo, ela trabalhava mais.

Pensava mais.

Planejava mais.

Encontrava uma solução.

E aquela também teria uma.

Trabalho.

Era simples.

Ou deveria ser.

Nos dias seguintes, Mavie praticamente se enterrou nas reuniões.

Passou horas revisando cláusulas que já havia lido inúmeras vezes. Pediu alterações em prazos, antecipou etapas, cobrou respostas de equipes que normalmente teria deixado trabalhar no próprio ritmo.

Tudo precisava acontecer mais rápido.

Quanto antes terminassem o contrato, mais cedo ela poderia voltar para Dublin.

— Você está com pressa de ir embora? — Carolina perguntou durante uma reunião.

Mavie ergueu os olhos dos documentos.

— Tenho responsabilidades me esperando em Dublin.

A resposta saiu automática.

Profissional.

Perfeita.

— Quanto antes finalizarmos tudo aqui, melhor para as duas empresas.

Não era mentira.

Só não era a verdade inteira.

A verdade era que Mavie não confiava mais em si mesma.

Não depois daquela noite.

Não depois de descobrir que uma mulher que conhecera havia tão pouco tempo conseguia desorganizar sentimentos que ela passara anos mantendo perfeitamente encaixados.

Por isso, evitou Marcela.

Deliberadamente.

Mudava de caminho quando a via nos corredores.

Marcava reuniões em horários diferentes.

Passava pela recepção sem olhar diretamente para o balcão.

Quando não havia como evitar um encontro, mantinha a conversa estritamente profissional.

Marcela percebeu.

Claro que percebeu.

Mas não insistiu.

Manteve a mesma postura educada.

O mesmo sorriso discreto.

A mesma distância.

E aquilo doía mais do que Mavie gostaria de admitir.

Porque era mais fácil lidar com alguém que insistia.

Mais fácil rejeitar alguém que perguntava.

Marcela simplesmente aceitava a distância.

Como se estivesse dizendo, sem precisar falar:

Tudo bem. Eu entendi.

Três dias depois do Bumba Meu Boi, Mavie estava tomando café da manhã com Alex quando viu Marcela atravessar o restaurante.

Ela carregava uma bandeja de talheres limpos.

O cabelo castanho estava preso de maneira simples, algumas mechas escapando ao redor do rosto.

Mavie desviou os olhos.

Tarde demais.

Seu corpo já havia reagido.

O coração acelerou.

E então veio aquele impulso.

Idiota.

Desesperado.

Quase infantil.

Mavie se inclinou na direção de Alex e o beijou.

Não foi um beijo casual.

Foi longo.

Deliberado.

Quase uma declaração para quem estivesse olhando.

Eu tenho um noivo.

Eu estou comprometida.

Não existe nada acontecendo.

Alex pareceu surpreso no primeiro instante.

Depois sorriu contra seus lábios.

Quando se afastaram, ele soltou uma pequena risada.

— Uau.

Mavie tentou sorrir.

— O quê?

— Isso foi inesperado.

Ele tocou de leve o rosto dela.

— Mas eu não vou reclamar.

Mavie acompanhou o sorriso dele.

Então procurou Marcela.

Encontrou-a alguns metros dali.

A bandeja ainda estava em suas mãos.

O rosto não demonstrava raiva.

Nem ciúme.

Nem mágoa.

Apenas uma quietude profunda.

Marcela desviou o olhar.

Terminou de colocar os talheres sobre uma mesa e saiu.

Mavie sentiu o estômago se contrair.

A vitória daquele gesto desapareceu imediatamente.

O que eu fiz?

Ela havia conseguido provar alguma coisa.

Só não sabia mais para quem.


Horas depois, Carolina enviou uma mensagem.

Após o almoço, antes de vocês irem embora, gostaria de oferecer um último passeio. Rio Preguiças e uma parada em Vassouras. Vou falar com Marcela para acompanhar vocês. Ela conhece a região melhor que ninguém.

Mavie leu duas vezes.

Alex, curioso, olhou por cima do ombro dela.

— Parece ótimo.

— Parece.

— Então vamos.

Mavie tomou fôlego.

Não podia recusar.

Não depois dos últimos dias.

Não depois daquele beijo em Alex.

— Tudo bem.


Vassouras estava movimentada.

Pequenas barracas de artesanato ocupavam os espaços próximos ao caminho, com redes coloridas, peças de madeira e lembranças dos Lençóis Maranhenses.

O cheiro de água de coco e comida típica misturava-se ao ar quente.

Alex parecia encantado.

— É lindo aqui.

Marcela sorriu.

Era diferente vê-la ali.

Mais leve.

Mais espontânea.

— Espera só até você ver os macacos.

Como se tivessem sido convocados pela própria fala dela, alguns macaquinhos começaram a aparecer entre as árvores e as barracas.

Um deles desceu rapidamente por um poste.

Outro correu pelo telhado de uma barraca.

Alex riu.

— Eles ficam soltos assim?

— Ficam — Marcela respondeu. — Já estão acostumados com os turistas.

— E não roubam comida?

Marcela fez uma expressão séria.

— Eles não roubam.

Fez uma pausa.

— Eles simplesmente pegam o que consideram deles.

Mavie riu.

— Você está defendendo os macacos?

— Sempre.

Pela primeira vez em dias, Mavie viu Marcela verdadeiramente feliz.

Ela ria sem pensar.

Apontava para os animais.

Fazia comentários bobos.

E Mavie percebeu que gostava daquela versão dela.

Talvez gostasse de todas.

— Agora é a sua vez — Marcela disse, olhando para Mavie.

— Minha vez de quê?

— De provar que é tão corajosa quanto parece.

Mavie ergueu o queixo.

— Eu sou tranquila com qualquer coisa.

O universo decidiu provar o contrário.

Um pequeno macaco desceu do telhado e pousou diretamente sobre o ombro de Mavie.

Ela gritou.

— AHH!

Alex começou a rir imediatamente.

— Não se mexe!

— TIRA ELE DE MIM!

O animal agarrou-se aos cabelos ruivos dela, completamente indiferente ao desespero.

Marcela estava quase dobrada de tanto rir.

— Fica parada!

— Marcela!

— Eu estou tentando!

— Você está rindo!

— Porque você está fazendo uma cara incrível!

Finalmente, o macaco saltou para o chão.

Mavie ficou parada, ofegante, os cabelos completamente bagunçados.

Alex ergueu o celular.

— Eu tenho a foto perfeita.

— Você não vai guardar isso.

— Vou.

— Alex.

Ele mostrou a tela.

Mavie olhou.

E, contra a própria vontade, começou a rir.

— Isso é humilhante.

— Isso é histórico — Marcela corrigiu.

Mavie tomou o celular da mão de Alex.

— Deixa eu ver.

Enquanto Alex e Marcela continuavam rindo, Mavie deslizou o dedo pela tela.

E então viu outra foto.

Marcela.

Sorrindo.

Distraída.

Com o vento mexendo em seus cabelos.

Mavie ficou olhando por um segundo a mais do que deveria.

Depois, sem que ninguém percebesse, enviou a foto para o próprio celular.

Guardou o aparelho.

Como se não tivesse feito nada.

Mas havia feito.

Guardara Marcela.


Foi Alex quem percebeu a trilha que levava até uma das dunas menores.

— Vamos subir?

Marcela olhou para a subida.

— Eu passo.

— Por quê?

— Já subi isso vezes demais. A corda dá mais trabalho do que ajuda.

Alex olhou para Mavie.

— E você?

Mavie olhou para Marcela.

— Acho que fico.

Alex deu de ombros.

— Então encontro vocês depois.

Ele começou a subir.

Quando desapareceu no caminho, o silêncio voltou.

Marcela inspirou fundo.

— Mavie...

— Marcela...

As duas falaram ao mesmo tempo.

Marcela baixou os olhos.

— Não. Me deixa falar.

Mavie ficou imóvel.

— Eu sei que você não queria me ver. Sei que me evitou esses últimos dias.

— Eu...

— Não precisa explicar.

Marcela engoliu em seco.

— O que está acontecendo entre a gente, seja lá o que for, não tem futuro.

Mavie sentiu o peito apertar.

— Você vai voltar para a Irlanda.

A voz de Marcela falhou levemente.

— E a sua vida vai continuar.

Ela encheu o peito de ar.

— Eu não queria ter me apai...

Parou.

Alex apareceu correndo pela trilha.

— Meninas!

As duas se afastaram imediatamente.

— Acabei de receber uma ligação!

Alex estava sorrindo.

— Mavie, pode comemorar. Deu tudo certo.

Ela franziu a testa.

— O quê?

— Vamos para Dublin amanhã.

Mavie sentiu o mundo parar por um instante.

Marcela não disse nada.

Alex continuou:

— Conseguiram resolver tudo. Podemos voltar amanhã.

Ele olhou para o relógio.

— Preciso voltar para o resort. Tenho algumas coisas para organizar.

Então olhou para as duas.

— Mas o dia está lindo. Continuem o passeio.

Ele sorriu para Mavie.

— Tchau, amor.

Beijou rapidamente o rosto dela e seguiu em direção ao cais.

Mavie ficou parada.

Pela primeira vez na vida, não sabia o que pensar.

Não sabia o que fazer.

Não sabia qual decisão tomar.

Só sabia que, quando começou a caminhar ao lado de Marcela, estava completamente no automático.


O céu daquela tarde não dava nenhum sinal do que estava por vir.

Pouco depois das quatro, as duas caminhavam lado a lado.

— É longe? — Mavie perguntou.

— Uns vinte minutos.

— Você traz muita gente aqui?

Marcela sorriu de lado.

— Quase ninguém.

— Por quê?

— É um lugar pessoal.

Mavie olhou para ela.

— E por que está me trazendo?

Marcela demorou a responder.

— Talvez porque você mereça conhecer algo que quase ninguém vê antes de ir embora.

A resposta ficou entre elas.

Até o vento mudar.

Marcela parou.

Mavie sentiu primeiro a friagem.

Depois veio o cheiro de chuva.

— Isso não é normal — Marcela murmurou.

Mavie olhou para o céu.

Nuvens escuras avançavam rapidamente.

— O que fazemos?

Marcela segurou a mão dela.

— Corremos.

A chuva caiu segundos depois.

Forte.

Repentina.

Violenta.

As duas correram pela areia até uma pequena cabana de madeira.

Entraram completamente encharcadas.

Por alguns segundos, só conseguiram rir.

— Isso definitivamente não estava no roteiro — Marcela disse.

Mavie riu.

Um riso verdadeiro.

Sem controle.

Sem máscaras.

— Definitivamente não.

O som da chuva contra o telhado de palha era ensurdecedor.

Marcela tremia.

Mavie percebeu.

— Você está com frio.

— Estou bem.

— Está tremendo.

Marcela tentou protestar.

Mavie abriu a mochila dela, encontrou uma toalha pequena e estendeu para ela.

— Vem.

Marcela hesitou.

Depois se aproximou.

As duas ficaram dividindo aquela pequena toalha, ombro contra ombro.

A proximidade fez o riso desaparecer.

O silêncio voltou.

Só que, daquela vez, era diferente.

— Posso te perguntar uma coisa? — Marcela murmurou.

— Pode.

— Naquela noite...

Mavie sentiu o coração acelerar.

— Você ia me beijar?

Não havia mais como fugir.

Mavie respirou fundo.

— Sim.

Marcela levantou os olhos.

— De verdade?

— De verdade.

Os olhos azuis permaneceram presos aos dela.

— E o que você sentiu?

Mavie demorou.

— Não sei explicar.

Sua voz saiu baixa.

— Desde que te vi atrás daquele balcão... alguma coisa em mim parou de funcionar como sempre funcionou.

Marcela suspirou, fundo.

— Isso é bom?

Mavie deu um pequeno passo na direção dela.

— Eu não sei mais diferenciar o que é bom do que é ruim.

O silêncio mudou.

Marcela olhou para os lábios dela.

Mavie percebeu.

Dessa vez, nenhuma das duas desviou.

Marcela aproximou-se devagar.

Como se ainda desse tempo para Mavie recuar.

Ela não recuou.

Os dedos de Marcela tocaram seu braço.

Um arrepio atravessou seu corpo.

— Mavie...

Não foi exatamente uma pergunta.

Mas Mavie respondeu.

Segurou delicadamente o rosto de Marcela e a beijou.

O beijo começou com hesitação.

Quase tímido.

Até que Marcela correspondeu.

Então toda a contenção desapareceu.

Mavie segurou sua cintura.

Marcela aproximou-se ainda mais.

O mundo pareceu desaparecer atrás do som da chuva.

Era intenso.

Novo.

Assustador.

E, ao mesmo tempo, estranhamente certo.

Quando se afastaram por alguns centímetros, ainda estavam respirando uma contra a outra.

Marcela sorriu.

— Uau.

Mavie soltou uma pequena risada.

— Essa foi sua reação?

— Eu estou tentando encontrar palavras.

Mavie não deixou.

Beijou-a novamente.

Mais uma vez.

Como se tivesse passado dias tentando negar exatamente aquilo e, enfim, tivesse cansado de lutar.

Marcela segurou seu rosto.

— Eu quero tanto você.

A frase atingiu Mavie de um jeito que nenhum contrato, nenhuma reunião ou decisão empresarial jamais havia conseguido.

Mavie não deixou que ela encontrasse palavras.

Beijou-a novamente.

Dessa vez, não havia hesitação alguma.

Marcela soltou um suspiro baixo contra seus lábios, e foi o suficiente para fazer alguma coisa dentro de Mavie se romper, de vez.

Durante dias, ela havia tentado controlar aquilo.

Tentado fugir.

Se esconder atrás do trabalho.

Atrás de reuniões.

Atrás de Alex.

Atrás da certeza de uma vida inteira planejada.

Mas, naquele instante, com Marcela entre seus braços e a chuva isolando as duas do resto do mundo, Mavie não queria pensar em nenhuma consequência.

Queria apenas sentir.

Suas mãos deslizaram pelos cabelos molhados de Marcela, puxando-a novamente para perto. O beijo se aprofundou imediatamente, quente e desesperado, como se ambas soubessem que haviam passado tempo demais tentando ignorar aquilo.

Marcela a segurou pela cintura.

Mavie perdeu o fôlego.

O corpo dela reagia a cada toque de uma maneira que a assustava.

E, ainda assim, ela não queria parar.

Marcela a conduziu lentamente até a parede de madeira da cabana.

As costas de Mavie tocaram a superfície fria.

O contraste fez seu corpo estremecer.

Marcela percebeu.

— Está com frio? — perguntou contra sua boca.

Mavie abriu os olhos.

— Não.

Marcela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Provocador.

— Tem certeza?

Mavie segurou o rosto dela e a beijou novamente antes que pudesse continuar.

Não queria conversar.

Não queria pensar.

Apenas queria aquela boca.

Aquela proximidade.

Aquelas mãos.

Marcela respondeu imediatamente, apertando sua cintura e trazendo seus corpos ainda mais para perto.

Mavie soltou um suspiro involuntário.

O som pareceu surpreendê-la tanto quanto a Marcela.

As duas se afastaram por um instante.

Os olhos azuis encontraram os dela.

Havia algo diferente ali agora.

Nada de dúvida.

Nada de curiosidade.

Desejo.

Marcela tocou delicadamente seu rosto.

Depois seu pescoço.

Depois deixou os dedos deslizarem lentamente pelo braço de Mavie.

A pele dela se arrepiou inteira.

— Você não faz ideia do quanto eu tentei não sentir isso — Mavie confessou, quase sem voz.

Marcela permaneceu olhando para ela.

— Eu também tentei.

— E?

Um sorriso triste apareceu nos lábios de Marcela.

— Claramente não funcionou.

Mavie riu baixo.

Mas o riso desapareceu quando Marcela voltou a beijá-la.

Dessa vez, mais devagar.

Como se quisesse sentir cada segundo.

Mavie deixou a cabeça encostar na parede enquanto os beijos de Marcela desciam lentamente pelo seu rosto, alcançando seu pescoço.

Fechou os olhos.

Uma das mãos encontrou a cintura de Marcela.

A outra se perdeu entre seus cabelos molhados.

O coração batia rápido demais.

Seu corpo inteiro parecia desperto.

Vivo.

Marcela se afastou apenas o suficiente para olhar para ela.

Mavie puxou-a novamente para si.

Dessa vez, foi ela quem tomou a iniciativa.

As mãos deslizaram pela lateral do corpo de Marcela, sentindo-a estremecer sob seu toque. Seus dedos encontraram a barra da blusa molhada.

Mavie hesitou.

Os olhos de Marcela se encontraram com os dela.

Marcela não se afastou.

Não disse nada.

Apenas segurou a mão de Mavie e a manteve ali.

A permissão silenciosa fez o coração de Mavie disparar.

Ela beijou Marcela outra vez.

E, entre beijos interrompidos pela respiração, risos nervosos e a chuva insistente do lado de fora, as duas se entregaram àquele momento sem pensar no que aconteceria depois.

Pela primeira vez em muito tempo, Mavie Smith não estava no controle.

E o mais assustador de tudo era perceber que não queria estar.

Por alguns minutos, permitiu-se esquecer quem era.

A mulher perfeita.

A empresária.

A noiva.

A mulher que sempre sabia exatamente qual decisão tomar.

Ali, era apenas Mavie.

E Marcela estava diante dela.

Real.

Quente.

Próxima demais.

Marcela tocou seu rosto novamente.

— Olha para mim.

Mavie abriu os olhos.

Os olhos azuis estavam completamente presos aos seus.

— Não foge agora.

A frase atingiu Mavie de um jeito inesperado.

Porque era exatamente o que ela vinha fazendo.

Fugindo.

Desde o primeiro momento.

Mavie beijou Marcela com uma intensidade que parecia uma resposta.

Como se pudesse dizer tudo aquilo sem precisar encontrar palavras.

Eu não quero fugir.

Eu quero você.

Eu estou aqui.

Mas a realidade sempre encontrava uma maneira de voltar.

E, no instante seguinte, ela voltou inteira.

Brutal.

Impossível de ignorar.

Alex.

O casamento.

A passagem marcada para Dublin.

A vida que a esperava.

Mavie se afastou.

Um passo.

Depois outro.

Marcela ficou imóvel.

— Mavie?

A respiração dela estava descompassada.

Os cabelos molhados grudavam no rosto.

Os lábios ainda vermelhos pelos beijos.

E, pela primeira vez desde que entraram naquela cabana, o medo voltou.

Mavie levou a mão à própria boca.

Como se pudesse apagar o que tinha acabado de acontecer.

— Isso não devia ter acontecido.

O silêncio que se seguiu foi devastador.

O sorriso de Marcela desapareceu.

— O quê?

— Eu tenho um noivo.

— Eu sei.

— Tenho uma vida inteira em Dublin.

— Eu sei.

— Uma empresa. Uma família. Um casamento marcado.

A voz de Mavie começou a falhar.

— Eu não posso fazer isso.

Marcela ficou em silêncio.

Mavie tomou coragem com o próprio fôlego.

— Foi um erro.

Os olhos azuis de Marcela perderam o brilho.

— Um erro?

— Eu não quis dizer...

— Não.

Marcela deu um passo para trás.

— Você quis dizer exatamente isso.

— Marcela...

— Eu entendo.

A voz dela estava controlada demais.

— Você tem uma vida em Dublin. Um noivo. Uma empresa.

Ela engoliu em seco.

— E eu sou só a recepcionista de um resort que você vai esquecer quando entrar naquele avião.

— Não é isso.

— Então o que é, Mavie?

Mavie abriu a boca.

Nada saiu.

Marcela assentiu lentamente.

Como se aquela ausência de resposta fosse suficiente.

— A chuva está passando.

Ela caminhou até a saída.

— É melhor voltarmos.

— Marcela...

— Vamos.

Saiu.

Mavie permaneceu alguns segundos dentro da cabana.

O som da chuva diminuía.

Mas, dentro dela, tudo parecia ainda mais barulhento.


Voltaram ao resort sem conversar.

Marcela tomou outro caminho.

Não olhou para trás.

Mavie chegou ao quarto ainda sentindo a chuva nos cabelos.

E o beijo nos lábios.

Alex estava sentado na cama.

— Você demorou.

— A chuva ficou forte.

Outra mentira.

Ele observou as roupas molhadas.

— Você está bem?

— Estou.

Alex se aproximou.

Mavie não pensou.

Segurou o rosto dele e o beijou.

Era uma tentativa.

Uma tentativa desesperada de voltar para o lugar conhecido.

Alex correspondeu.

As mãos dele tocaram sua cintura.

Mavie fechou os olhos.

É isso.

É assim que deveria ser.

Tentou se entregar.

Tentou esquecer.

Mas fechou os olhos e viu Marcela.

Os cabelos castanhos molhados.

Os olhos azuis.

A respiração próxima.

A boca.

Mavie abriu os olhos.

Alex estava ali.

Não Marcela.

O beijo terminou.

Ela se afastou.

— Mavie?

— Desculpa.

— O que aconteceu?

Mavie tocou os próprios lábios.

— Eu não consigo.

Alex franziu a testa.

— Não consegue o quê?

Ela não respondeu.

Porque a verdade era cruel.

Não conseguia beijá-lo sem pensar em outra pessoa.

Não conseguia tocar nele sem lembrar de Marcela.

Não conseguia simplesmente voltar.

— Estou cansada — disse rapidamente. — Eu só preciso de um tempo.

Alex ficou olhando para ela.

Depois respirou fundo.

— Ei.

A voz dele suavizou.

— Eu sei que você não queria vir.

Mavie abaixou os olhos.

— Mas você veio comigo.

Ele sorriu.

— E eu agradeço por isso.

Alex tocou o rosto dela.

— Prometo que amanhã vamos embora.

Mavie assentiu.

— Eu sei.

— Vai ficar tudo bem.

Ela queria acreditar.

— Vou tomar banho, tá bom?

— Claro.

Mavie entrou no banheiro e fechou a porta.

Encostou as costas nela.

Ficou ali por alguns segundos.

Então ergueu os olhos para o espelho.

Os cabelos ruivos ainda estavam úmidos.

Os lábios avermelhados.

O olhar perdido.

Ela parecia uma versão de si mesma que não reconhecia.

Abriu o chuveiro.

Precisava de água.

Precisava de silêncio.

Precisava apagar aquela tarde.

A água quente caiu sobre seus ombros.

Mavie fechou os olhos.

Por alguns segundos, funcionou.

Pensou em Dublin.

Nos contratos.

No casamento.

Em Alex.

Até que a imagem apareceu.

Marcela.

Novamente.

Os olhos azuis.

A chuva.

O cheiro de terra molhada.

A proximidade.

Mavie abriu os olhos.

— Droga.

Passou as mãos pelo rosto.

Quanto mais tentava afastar a lembrança, mais nítida ela ficava.

Lembrou-se do toque.

Do beijo.

Da maneira como Marcela havia dito que a queria.

Mavie encostou as mãos na parede do box.

Respirou fundo.

Não adiantava fugir.

Não adiantava trabalhar.

Não adiantava beijar Alex.

Não adiantava repetir para si mesma que aquilo tinha sido um erro.

Porque compreendia, enfim.

Aquilo não tinha sido curiosidade.

Não tinha sido apenas um momento de fraqueza.

Não tinha sido a chuva.

Não tinha sido a viagem.

Era Marcela.

Ela queria Marcela.

A constatação fez seu estômago se revirar.

Mavie desligou o chuveiro.

O silêncio tomou conta do banheiro.

Ela ficou alguns segundos imóvel.

Então olhou novamente para o espelho embaçado.

E percebeu, talvez pela primeira vez na vida, que havia encontrado alguma coisa que não conseguia controlar.

Marcela Alves tinha entrado na sua cabeça.

No seu coração.

Na sua vida.

E Mavie Smith não fazia a menor ideia de como tirá-la de lá.

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

0
Este capítulo ainda não recebeu comentários.
Informar violação das regras