Capítulo 7

Capítulo 7- Bumba Meu Boi

de Sob Nova Direção, por Mary_b94

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O jantar com Alex transcorreu de um jeito estranhamente distraído, Mavie respondendo por monossílabos entre uma garfada e outra, a mente ainda presa na porta entreaberta, na camisa vermelha e preta, no sorriso que Marcela dera antes de se despedirem.

— Você está longe hoje — Alex comentou, em determinado momento, sem nenhuma acusação na voz, apenas uma observação gentil.

— Foi um dia longo.

Mavie assentiu, aliviada por ele não ter percebido nada além da superfície daquele comentário casual, e voltou a atenção para o próprio prato, incapaz de parar de pensar em quando teria uma desculpa razoável para se afastar.

Enquanto isso, no pequeno apartamento que dividia com Isabela, Marcela estava sentada na cama, os joelhos dobrados contra o peito, o rosto ainda meio incrédulo com o próprio dia.

— Fala tudo — Isabela disse, aparecendo na porta do quarto com dois copos de suco, entregando um para a amiga antes de se sentar ao lado dela na cama.

— Isa, eu tô ferrada.

— Por quê? O que aconteceu?

Marcela suspirou, encarando o próprio copo por um instante antes de finalmente soltar.

— Hoje eu finalmente saí com a Lívia pra um passeio nas dunas. E ela me beijou.

Isabela arregalou os olhos, o copo quase escorregando da mão.

— Ela o quê?! Ai, amiga, finalmente sua lésbica inútil acordou!

— Eu não senti nada com o beijo.

— Nada, nada? — Isabela perguntou, incrédula.

— Nada mesmo. — Marcela pegou o travesseiro e cobriu o próprio rosto com ele. — E, pra piorar, a Mavie viu o beijo, veio falar comigo depois e soltou um discurso sobre eu precisar manter o respeito no ambiente de trabalho e sei lá mais o quê. Fiquei tão puta com ela, Isa.

— E aí?

— Depois ela apareceu na nossa porta pra pedir desculpas. — A voz de Marcela saiu abafada por baixo do travesseiro. — E o pior foi a vergonha que eu passei. Eu achei que fosse você batendo, abri a porta de calcinha e blusa, e não era você. Era ela.

Isabela ficou paralisada por um segundo, e então começou a gargalhar, um riso alto o suficiente para ecoar pelo apartamento inteiro.

— Eu tô passada. Chocada. — Ela mal conseguia falar de tanto rir. — Meu Deus, como assim isso aconteceu com você. E aí, o que rolou depois?

— Ela pediu desculpas de verdade e foi embora.

Isabela se recompôs devagar, ainda com um sorriso enorme no rosto, e observou a amiga com atenção antes de perguntar, mais séria:

— Amiga... você gosta dela, né?

Marcela mordeu o lábio, pensativa.

— Sim. E isso é o pior de tudo, Isa. Porque, quanto mais eu conheço ela, menos consigo lembrar por que deveria manter distância.

— Lésbicas se conhecem num dia e no outro já estão procurando casa juntas — Isabela provocou, rindo alto.

Marcela jogou o travesseiro nela, sem nenhuma força real por trás.

Marcela fechou os olhos, a confissão pesando mais depois de finalmente ouvida em voz alta por outra pessoa.

— E é completamente ridículo, porque ela é noiva, Isa. Vai se casar com um homem gentil, bonito, que claramente an ama, e que provavelmente nunca vai imaginar que existe qualquer coisa entre nós além de uma recepcionista simpática cuidando bem dos hóspedes importantes.

— Isso não muda o que você sente.

— Não muda. Mas devia. — Marcela deitou a cabeça no ombro da amiga, cansada. — Eu não posso ficar apaixonada por uma mulher que vai voltar pra Irlanda em poucos dias e se casar com outra pessoa. Isso não tem futuro nenhum, Isa. Só vai me machucar.

Isabela passou o braço ao redor dela, sem oferecer nenhuma solução fácil, apenas o conforto silencioso de quem sabia que algumas dores precisavam simplesmente ser sentidas até o fim.

— Talvez não tenha futuro — disse, finalmente. — Mas isso não significa que não valha nada enquanto durar.

Segunda-feira chegou, e o resort inteiro se transformou.

Bandeirolas coloridas foram penduradas entre as árvores do jardim principal, formando um teto improvisado de vermelho, azul e amarelo que balançava suavemente com a brisa noturna. Um palco simples fora montado próximo à piscina principal, decorado com desenhos que representavam a figura central daquela celebração — um boi enfeitado com fitas e espelhos, cercado por personagens coloridos que Marcela conhecia de cor desde a infância.

— Bumba Meu Boi — Carolina anunciou, satisfeita, supervisionando os últimos preparativos ao lado de Eduardo. — Achamos importante que os hóspedes conheçam de verdade a cultura daqui, não só as dunas e as lagoas.

Marcela sorriu ao ver a decoração, uma saudade repentina e boa da própria infância a atravessando por completo — as festas de junho em São Luís, o cheiro de milho assado, o som dos tambores ecoando pelas ruas até tarde da noite, a família inteira reunida assistindo aos grupos de boi desfilarem com aquela energia que parecia contagiar até quem nunca tinha visto aquilo antes.

— Você vai participar? — Isabela perguntou, ajustando um colar de miçangas coloridas que combinava com o tema da noite.

— Claro que vou. Nunca perco um Bumba Meu Boi, nem quando ele decide aparecer no meio de um resort de luxo pros gringos.

Isabela riu, e as duas seguiram se arrumando juntas, o clima de festa já contagiando tudo ao redor.

Marcela escolheu um vestido leve, de um tecido fino que dançava com qualquer movimento do vento, estampado com cores que lembravam as próprias bandeirolas penduradas pelo jardim — vermelho, azul, um toque de amarelo nas bordas. Deixou os cabelos soltos, apenas presos de leve na frente com uma fita colorida, e desceu para o evento já sentindo o batuque distante dos tambores vibrando no próprio peito.

Mavie a viu chegar antes de Marcela perceber que estava sendo observada.

Parou de conversar com Alex no meio de uma frase qualquer, os olhos completamente presos naquela visão — Marcela atravessando o jardim iluminado por luzes coloridas, o vestido esvoaçando ao redor das pernas a cada passo, os cabelos soltos brilhando sob as luzes penduradas entre as árvores, um sorriso genuíno no rosto ao cumprimentar alguns funcionários pelo caminho.

— Mavie?

A voz de Alex a trouxe de volta.

— Desculpa, o quê?

— Perguntei se você quer provar essa comida aqui. — Ele apontou para uma travessa cheia de pratos regionais que um garçom oferecia. — Parece incrível.

— Claro. — Mavie forçou a atenção de volta para o marido, mas os olhos insistiam em desviar, de vez em quando, para onde Marcela agora conversava animadamente com um grupo de outros funcionários, rindo de alguma coisa que Mavie não conseguia ouvir de tão longe.

O evento ganhou vida própria conforme a noite avançava — os tambores começaram a tocar de verdade, um ritmo hipnotizante que parecia atravessar o corpo inteiro de quem ouvia, e o boi decorado apareceu no centro do jardim, cercado por dançarinos vestidos com trajes coloridos, contando através de música e movimento uma história antiga que a maioria dos hóspedes estrangeiros mal compreendia, mas que todos pareciam sentir de alguma forma instintiva.

Alex assistiu com genuíno interesse por quase uma hora, fazendo perguntas curiosas para qualquer funcionário disposto a explicar as tradições, mas, conforme a noite avançava e o cansaço da viagem finalmente cobrava seu preço, começou a bocejar discretamente atrás da própria mão.

— Acho que vou me recolher — disse, por fim, já se levantando da mesa onde estavam sentados. — Esse fuso horário ainda não me deixou em paz completamente.

— Tudo bem — Mavie respondeu, talvez rápido demais, uma pontada de culpa atravessando o próprio alívio evidente.

— Você fica? A festa parece ótima.

— Fico mais um pouco. Não quero perder tudo isso.

Alex sorriu, beijando sua testa antes de se afastar.

— Aproveita, então. Te vejo de manhã.

Mavie observou-o se afastar em direção à suíte, e assim que ele desapareceu de vista, sentiu o próprio corpo relaxar de um jeito que não conseguia explicar completamente.

— Ele foi dormir? — Marcela perguntou, aparecendo ao lado dela poucos minutos depois, dois copos pequenos na mão.

— Fuso horário — Mavie respondeu, tentando parecer casual. — O que é isso?

— Cachaça. — Marcela estendeu um dos copos, um líquido âmbar dentro dele, e algo que Mavie só conseguiu identificar, horrorizada, como pequenos animais flutuando no fundo do vidro de onde viera a bebida.

— Isso tem... bichos dentro?

Marcela riu, genuinamente divertida com a expressão de puro pavor no rosto de Mavie.

— Cachaça de bicho. É tradicional aqui. Colocam insetos, cobrinhas pequenas, até escorpião às vezes, deixam curtindo na bebida. Dizem que dá força.

— Isso não parece nem um pouco higiênico.

— Não é sobre higiene, é sobre coragem. — Marcela ergueu o próprio copo, um brilho travesso nos olhos. — Vamos, CEO. Só um golinho. Prometo que você não vai morrer.

— Como você sabe que eu sou CEO?

Marcela sorriu, levando o próprio copo aos lábios sem responder de imediato.

— Segredo.

Mavie encarou o líquido por um longo momento, depois encarou Marcela, o desafio brincalhão estampado naquele rosto sendo, de alguma forma, impossível de recusar.

— Se eu morrer, a culpa é sua.

— Aceito a responsabilidade.

Bebeu.

O gosto era forte, ardente, quase medicinal, e Mavie fez uma careta tão dramática que Marcela caiu na risada, quase derrubando o próprio copo.

— Isso é horrível — Mavie conseguiu dizer, entre tosses.

— É um gosto adquirido.

— Duvido muito que eu adquira algum dia.

Ainda assim, riu também, o ardor da bebida descendo pela garganta e se espalhando num calor agradável que suavizava, aos poucos, qualquer resquício de tensão que ainda carregasse dos últimos dias.

A música mudou de ritmo pouco depois, os tambores ganhando uma cadência mais rápida, mais contagiante, e Marcela, sem nenhum aviso, pegou a mão de Mavie.

— Vem dançar.

— Eu não sei dançar isso.

— Ninguém sabe na primeira vez. — Marcela já puxava ela gentilmente na direção do improvisado espaço aberto onde outros hóspedes e funcionários se movimentavam ao ritmo dos tambores. — Só sente a música.

Mavie tentou protestar, mas a determinação alegre de Marcela era irresistível demais para vencer, e logo se viu no meio da roda, os movimentos desajeitados e completamente fora do ritmo, tropeçando nos próprios pés mais de uma vez.

— Você é péssima nisso — Marcela gritou, por cima da música, rindo sem nenhuma maldade.

— Eu avisei!

— Não parece nem um pouco constrangida.

— A cachaça de bicho ajudou.

Marcela riu ainda mais, guiando os movimentos dela com as próprias mãos, tentando ensinar um passo básico que Mavie insistia em executar errado, mas que, de alguma forma, não importava completamente — porque o que realmente importava era o riso solto entre elas, os corpos se movendo próximos demais para ser só dança, os olhos se encontrando repetidas vezes em meio ao caos colorido ao redor.

Foi Marcela quem sugeriu, já tarde da noite, quando a festa começava a se acalmar e boa parte dos hóspedes já tinha se recolhido, que saíssem dali.

— Vem. Quero te mostrar uma coisa.

Guiou Mavie para fora dos limites iluminados do resort, até uma pequena elevação de areia a poucos minutos de caminhada, longe o suficiente das luzes artificiais para que o céu se revelasse por completo — um manto negro salpicado de estrelas tão numerosas e tão brilhantes que Mavie precisou parar completamente, a boca entreaberta de puro assombro.

— Uau.

— Eu sei. — Marcela sentou-se na areia ainda morna, puxando Mavie gentilmente para sentar ao lado dela. — Em Dublin vocês nem devem ver metade disso, com toda aquela poluição luminosa.

— Quase nada, na verdade. — Mavie deitou-se de costas na areia, os olhos fixos naquele céu impossível. — Isso é incrível.

Ficaram ali por um longo tempo, o som distante dos tambores ainda ecoando fraco, o vento morno da noite carregando o cheiro salgado do mar próximo, nenhuma das duas com pressa de que aquele momento acabasse.

— Obrigada por essa noite — Mavie disse, finalmente, virando a cabeça para encarar Marcela. — Por tudo. A dança, a cachaça horrível, isso aqui.

— Obrigada por ter vindo.

Ficaram se olhando por um tempo longo demais para que qualquer uma das duas ainda pudesse fingir que aquilo era inocente.

O espaço entre elas havia diminuído sem que nenhuma soubesse dizer exatamente quando. Talvez tivesse sido aos poucos, em pequenos movimentos quase imperceptíveis. Um corpo inclinando-se na direção do outro. Um olhar que demorava um segundo a mais. O silêncio que, em vez de afastá-las, parecia convidá-las a chegar ainda mais perto.

Mavie sentia o próprio coração bater forte demais.

O cheiro adocicado da cachaça ainda pairava entre as duas, misturado ao perfume de Marcela e ao cheiro úmido da noite. Ao longe, os tambores continuavam marcando o ritmo da festa, mas pareciam cada vez mais distantes. Ali, naquele pequeno espaço de areia, tudo o que Mavie conseguia ouvir era a própria respiração.
Marcela se aproximou mais um pouco.

Devagar.

Como se desse a Mavie todo o tempo do mundo para recuar.

Ela não recuou.

Os olhos de Marcela desceram por um instante até os lábios dela. Foi um movimento breve, quase tímido, mas Mavie percebeu. E, quando os olhos das duas voltaram a se encontrar, alguma coisa mudou.

Mavie sentiu a garganta secar.

Estavam perto demais agora. Perto o suficiente para que ela percebesse a respiração de Marcela tocando de leve sua pele. Perto o suficiente para que bastasse um pequeno movimento — mínimo, quase involuntário — para que a distância desaparecesse completamente.

Por um segundo, Mavie esqueceu do resort.

Esqueceu da festa.

Esqueceu do noivo.

Esqueceu até de si mesma.

Só existia Marcela diante dela, os olhos azuis presos aos seus, a expressão carregada de uma pergunta que nenhuma das duas ousava fazer em voz alta.

Marcela se inclinou um pouco mais.

Mavie também.

E foi exatamente naquele instante, quando já não havia quase espaço entre elas, que a realidade voltou com uma violência que fez seu peito apertar.

O noivo.

A culpa.

Tudo aquilo que ela vinha tentando não pensar durante a noite inteira. Mavie se afastou de repente, quase tropeçando no próprio movimento.

— Eu... — A voz saiu baixa e falha. Ela precisou respirar antes de conseguir continuar. — Eu tenho noivo, Marcela.

As palavras ficaram entre as duas.

Pesadas.

Definitivas.

Marcela permaneceu imóvel por alguns segundos. O brilho que havia surgido em seus olhos desapareceu aos poucos, substituído por uma expressão mais contida. Ela desviou o olhar, respirou fundo e assentiu.

— Eu sei.

A voz saiu tão baixa que quase se perdeu no som distante dos tambores. Marcela voltou a encará-la.

— Eu sei que você tem noivo, Mavie.

Havia algo naquela resposta que doeu mais do que uma cobrança teria doído. Mavie engoliu em seco.

— Eu não devia ter...

Ela não conseguiu terminar.

Levantou-se depressa, como se ficar ali mais alguns segundos fosse perigoso demais. Sacudiu a areia da roupa, embora quase não houvesse areia para tirar. Era apenas uma desculpa para ocupar as mãos, para fazer qualquer coisa que não fosse olhar novamente para Marcela.

— Isso não devia quase ter acontecido.

Marcela ficou sentada, olhando para ela.

— Mas quase aconteceu.

Mavie parou.

Fechou os olhos por um instante.

Porque era verdade.

E talvez fosse justamente isso que mais a assustava.

Quando tornou a olhar para Marcela, havia confusão em seu rosto, mas também alguma coisa que nenhuma das duas conseguiu fingir que não estava ali.

— Eu sei — murmurou. — E eu sinto muito.

A voz dela suavizou.

— Eu realmente sinto.

Marcela assentiu, sem insistir.

— Eu também.

Mavie respirou fundo, tentando recuperar algum controle sobre o próprio corpo.

— Eu preciso ir.

Marcela não tentou segurá-la.

Não perguntou para onde.

Não pediu que ficasse.

Apenas permaneceu ali, sentada na areia, enquanto Mavie se afastava em direção às luzes do resort.

Os passos de Mavie eram rápidos demais para parecerem tranquilos.

Ela não olhou para trás.

Mas levou consigo a sensação da proximidade de Marcela, o calor daquela respiração tão perto da sua e a lembrança daquele instante em que, por alguns segundos, havia esquecido completamente que não podia querer aquilo.
Atrás dela, Marcela continuou olhando até que Mavie desaparecesse entre as luzes.

E nenhuma das duas teve coragem de admitir, naquela noite, que o que mais assustava não era o quase-beijo.

Era o fato de nenhuma delas ter querido se afastar antes que fosse tarde demais.

Sozinha na praia, o céu estrelado agora parecendo, de alguma forma, mais frio do que antes, Marcela abraçou os próprios joelhos e permitiu-se, finalmente, sentir toda a tristeza que vinha tentando manter afastada a noite inteira.
Porque Isabela tinha razão.

Aquilo não tinha futuro nenhum.

Mas, de alguma forma, doía exatamente como se tivesse.

Fim do capítulo

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