Capítulo 6

Capítulo 6- O Que os Olhos Não Deveriam Ver

de Sob Nova Direção, por Mary_b94

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Mavie acordou com a cabeça latejando.

Abriu os olhos devagar, sem saber imediatamente onde estava.

Por alguns segundos, o teto branco acima dela pareceu familiar demais para ser real. Depois vieram as cortinas pesadas, a claridade filtrada pelas frestas, o ruído distante de alguma ave do lado de fora e, por fim, a lembrança do quarto.

Resort. Brasil. Domingo.

Ela fechou os olhos outra vez.

A dor pulsava atrás da testa, uma pressão insistente que parecia ter escolhido justamente aquele ponto para lembrá-la de que seu corpo não compartilhava da mesma facilidade que sua mente tinha para atravessar continentes.

Dublin estava horas à frente. O relógio interno ainda não havia entendido que ela já não estava lá.

Mavie levou dois dedos às têmporas e respirou fundo.

Perfeito. Até o próprio cérebro resolver trabalhar contra ela.
Virou o rosto para o criado-mudo. O relógio marcava pouco depois das oito da manhã. Em Dublin, já passava das onze.

Por um instante, pensou em voltar a dormir. Não conseguiu. Havia pensamentos demais esperando por ela. E, entre eles, um nome que Mavie preferia não encontrar tão cedo.
Marcela.

A lembrança surgiu com uma nitidez irritante: os olhos azuis, o sorriso fácil, a maneira como ela falava sem medir cada palavra antes de dizê-la.
Mavie abriu os olhos novamente.

Não. Não começaria o dia por ali.

Levantou-se. O corpo protestou, mas ela ignorou. Era uma habilidade antiga — ignorar o que incomodava. Fazia isso com sentimentos, com cansaço, com medo, com qualquer coisa que ameaçasse ultrapassar a fronteira cuidadosamente construída entre o que sentia e o que permitia que os outros vissem.

No banheiro, encarou o próprio reflexo. Parecia cansada. Aquilo a incomodou mais do que deveria. Lavou o rosto com água fria.

Quando saiu do quarto, já havia recuperado parte da expressão habitual. Controle. Sempre controle.

Quando chegou ao restaurante, Alex já estava sentado à mesa, o celular apoiado ao lado do prato enquanto terminava o café. Ele ergueu os olhos assim que a viu.

— Você está com uma cara péssima.

Mavie puxou a cadeira.

— Bom dia para você também.

— Eu quis dizer que parece cansada.

— Foi exatamente isso que você disse.

Alex sorriu.
— Dormiu mal?

— Estou com dor de cabeça.

— Jet lag?

— Provavelmente.

Ele tomou um gole de café e a observou por cima da xícara.

— Dublin está te perseguindo até aqui?

— Dublin sempre está me perseguindo.

— Você sabe que pode passar um domingo sem trabalhar, não sabe?

— Posso — Mavie lançou um olhar para ele.

— Mas não vai.

— Não.

Alex riu baixo.

— Sabia.

O garçom colocou o café diante dela. Mavie agradeceu com um movimento discreto da cabeça e ficou alguns segundos apenas olhando para a xícara. O café tinha um cheiro diferente. Mais forte. Mais quente. Ela bebeu mesmo assim.

— Como está o contrato? — Alex perguntou.

— A parte principal está resolvida.

— E a parte que você vai encontrar algum problema imaginário para revisar?

— Não é imaginário se eu encontrar.

— Você é impossível.

Mavie ignorou o comentário.

Depois do café, voltou para o quarto com o notebook. Não porque precisasse. Porque precisava sentir que ainda tinha alguma coisa sob controle.

A manhã passou entre planilhas, documentos e e-mails que Mavie insistia em revisar sozinha, aproveitando o horário comercial de Dublin, que já estava algumas horas à frente dali. Havia mensagens que poderiam esperar. Ela sabia disso. Mesmo assim, respondeu. Releu. Corrigiu. Apagou. Escreveu de novo.

O trabalho era previsível. As pessoas, não. E Mavie sempre preferira coisas previsíveis.
Só que, naquela manhã, nem as planilhas conseguiram mantê-la completamente concentrada. Em algum momento, percebeu que estava olhando para a mesma linha havia quase um minuto. Fechou os olhos. A imagem de Marcela apareceu novamente. Mavie abriu o documento. Leu a linha. Não entendeu uma palavra.

Suspirou, irritada consigo mesma.

— Ridículo.

O celular vibrou.

Alex: Duas horas. Não inventa desculpa.

Ela respondeu apenas:

Mavie: Eu sei.

Às duas horas, ela e Alex já estavam prontos, vestidos para o calor — ela numa saída de praia leve sobre o maiô, os cabelos presos num rabo alto para suportar o vento; ele numa camisa clara e um chapéu que parecia ter sido comprado especificamente para aquela viagem.

Na recepção, um jipe aberto os esperava, junto a outros dois casais e um guia local, um homem de meia-idade chamado Josué, com a pele curtida pelo sol e um sorriso fácil que parecia fazer parte do uniforme tanto quanto a camisa do resort.

— Bom dia! Ou melhor, boa tarde — ele disse, ajudando-os a subir no veículo. — Prontos para o passeio mais bonito da sua vida?

Alex riu.

— Essa é uma promessa e tanto.

— Eu cumpro.

Mavie não viu Marcela em lugar nenhum. Não soube dizer se sentiu alívio ou decepção com aquilo — talvez as duas coisas ao mesmo tempo, numa mistura que preferiu não examinar enquanto o jipe partia, os pneus levantando poeira fina na estrada de terra que logo deu lugar a um mar de areia branca.

Nada a preparara para aquilo.

Mavie já havia visto desertos — do avião, de fotografias, de reportagens sobre viagens que outras pessoas faziam. Mas nada se comparava a estar ali, no meio daquela imensidão branca, as dunas se estendendo em todas as direções como ondas congeladas no tempo exato antes de quebrar.

O jipe parou, e todos desceram. Josué começou a falar sobre a formação das dunas, sobre o vento que as esculpia todos os dias, refazendo a paisagem sem parar, mas Mavie mal conseguia prestar atenção às palavras. Estava ocupada demais absorvendo aquilo com os olhos, algo que raramente permitia a si mesma fazer — apenas olhar, sem calcular nada, sem planejar o próximo passo.

A areia era fina e clara sob seus pés descalços, ainda fresca por baixo apesar do sol forte na superfície. Caminhou alguns metros à frente do grupo, subindo uma duna que parecia mais alta do que realmente era, e quando chegou ao topo, precisou parar completamente.

As lagoas se espalhavam lá embaixo, um azul-esverdeado tão intenso que parecia pintado, cada uma cercada por dunas que se repetiam até o horizonte, ondulando como se o deserto e o oceano tivessem finalmente encontrado um jeito de coexistir.

— Impressionante, não é? — Alex parou ao lado dela, a voz baixa, quase reverente.

Mavie não respondeu de imediato. Estava tentando entender por que aquilo tocava nela de um jeito que nenhum prédio, nenhum contrato, nenhuma conquista jamais havia tocado.

— É — ela finalmente disse. — É mesmo.

Passaram a tarde entre as dunas, descendo até algumas das lagoas menores, a água morna e cristalina o suficiente para ver os próprios pés no fundo. Mavie, que normalmente preferia observar de longe qualquer coisa que envolvesse desconforto físico, encontrou-se entrando na água sem nem perceber que havia decidido fazer isso, o vestido de banho já molhado até a cintura antes que se desse conta.

Alex ria ao lado dela, tentando ensiná-la a flutuar na água doce e leve, e por um momento — só um momento — Mavie se permitiu esquecer tudo o resto. Esquecer Dublin. Esquecer a Smith Tecnologias. Esquecer até mesmo o nome que insistia em voltar sempre que ela baixava a guarda.

Foi bom, enquanto durou.

Foi já no fim da tarde, quando o grupo voltava em direção aos jipes estacionados na base das dunas, que Mavie avistou Marcela.

Ela estava um pouco afastada, perto de uma pequena barraca de apoio onde a equipe do resort guardava equipamentos, conversando com uma mulher que Mavie não reconheceu. Não fazia ideia de quem ela era — só notou a postura confiante da desconhecida, o jeito descontraído de Marcela ao lado dela, os gestos soltos de uma conversa que parecia íntima o suficiente para não precisar de plateia.

Não pretendia observar. Só que os olhos foram até lá antes que decidisse conscientemente não fazer isso.

Foi então que viu.

A mulher se inclinou e beijou Marcela.

Não foi um gesto hesitante — foi direto, decidido, o tipo de beijo que só acontece quando uma das duas pessoas já havia decidido, havia tempo, que aquilo precisava acontecer.

Mavie sentiu algo se fechar dentro do peito, rápido e desagradável, um aperto que ela não teve tempo de nomear antes que o próprio orgulho já estivesse trabalhando para escondê-lo. Desviou os olhos imediatamente, fixando-os em qualquer outra coisa — o jipe, a mala, o próprio celular —, incapaz de admitir, nem para si mesma, o que aquele aperto significava.
Não é da minha conta, pensou, a frase soando mais forçada do que qualquer verdade genuína.

— Vou ajudar o Josué com o equipamento — Alex disse, já se afastando na direção da barraca, completamente alheio a qualquer coisa que não fosse a própria conversa animada com o guia sobre o melhor caminho de volta.

Mavie ficou sozinha, o corpo tenso, os olhos ainda resistindo à vontade de olhar de novo na direção das duas mulheres.

Do outro lado, longe do alcance de audição de Mavie, Marcela se afastara um passo do beijo, o rosto surpreso.

— Lívia...

— Desculpa — Lívia disse, mas não parecia completamente arrependida, os olhos ainda fixos nela. — Eu só... precisava saber.

— Saber o quê?

— Se havia alguma chance. — Lívia respirou fundo, a confiança de sempre vacilando pela primeira vez. — Você sente alguma coisa por mim, Marcela? De verdade?

Marcela ficou em silêncio por um longo momento, escolhendo as palavras com o cuidado de quem não queria machucar, mas sabia que não havia como evitar completamente aquilo.

— Eu gosto muito de você, Lívia. Como amiga. Mas não... não desse jeito. Nunca senti isso.
O rosto de Lívia perdeu um pouco da cor, a dor genuína atravessando qualquer tentativa de manter a compostura.

— Nunca?

— Nunca — Marcela confirmou, gentil mas honesta. — Eu queria sentir. Você é incrível, e eu tentei, sinceramente tentei ver se existia alguma coisa aí. Mas não existe. E não seria justo continuar te deixando esperar por algo que eu sei que não vai acontecer.

Lívia assentiu devagar, os olhos já marejados, mas orgulhosa demais para deixar as lágrimas caírem ali mesmo.

— Tudo bem — disse, a voz um pouco embargada. — Obrigada por ser honesta, pelo menos.

— Lívia...

— Preciso ir.

Afastou-se rapidamente, quase correndo, deixando Marcela sozinha perto da barraca, o coração pesado com a certeza de ter feito a coisa certa e, ainda assim, ter machucado alguém que não merecia.

Mavie observou a mulher se afastar sozinha, o rosto visivelmente abalado, e viu Marcela permanecer ali, parada, os braços cruzados, olhando para o chão.

Não soube dizer exatamente por que decidiu se aproximar. Talvez fosse curiosidade. Talvez fosse alguma coisa mais complicada que preferia não examinar.

— Está tudo bem? — perguntou, ao chegar perto, o tom mais seco do que pretendia.

Marcela ergueu os olhos, surpresa.

— Estou.

Mavie hesitou por um instante, e então, sem realmente decidir fazer aquilo, deixou a própria língua andar mais rápido que o bom senso.

— Sabe, talvez fosse bom ter mais discrição. Isso é um ambiente de trabalho, tem crianças hospedadas aqui. Uma funcionária deveria dar o exemplo, não ficar se beijando com alguém bem no meio dos lençóis, na frente de qualquer hóspede que passasse.

Marcela ficou paralisada por um segundo, a incredulidade atravessando o rosto antes mesmo da raiva.

— Desculpa?

— Só estou dizendo que...

— Eu estava de folga — Marcela interrompeu, a voz subindo, indignada. — E eu não sabia que ela ia me beijar, Mavie. Isso não foi combinado, não foi planejado, simplesmente aconteceu, e eu nem tive tempo de reagir antes de você aparentemente já ter tirado suas próprias conclusões sobre mim.

— Eu não tirei conclusão nenhuma, só...

— Só o quê? Só decidiu que eu sou o tipo de pessoa que fica se exibindo no meio do trabalho?

— Marcela deu um passo à frente, a mágoa transbordando junto com a raiva. — Você nem sabe quem eu sou, Mavie. Nem um pouquinho.
Mavie sentiu as próprias palavras já soando erradas nos próprios ouvidos, mas o orgulho, teimoso como sempre, não deixou que ela recuasse imediatamente.

— Eu só acho que existe um padrão de comportamento esperado quando se representa o resort.

— E eu acho que você deveria ter certeza dos fatos antes de julgar alguém que mal conhece.
O silêncio que se seguiu foi pesado, ambas se encarando, nenhuma disposta a ceder primeiro.

— Com licença — Marcela disse, finalmente, a voz mais controlada, mas gelada. — Preciso voltar.

Afastou-se sem esperar resposta, deixando Mavie sozinha, o eco das próprias palavras já começando a pesar de um jeito que ela não esperava sentir tão rápido.

Passou o resto da tarde incomodada, a cena se repetindo na cabeça repetidas vezes — não o beijo, que já não parecia importar tanto, mas a própria voz dizendo aquelas palavras arrogantes, o rosto de Marcela se fechando de mágoa genuína.

Você nem sabe quem eu sou.

Era verdade. Mavie não sabia. E, de alguma forma, aquilo doía mais do que deveria.

De volta ao resort, já com o céu completamente escuro e as primeiras estrelas aparecendo por entre as nuvens finas, Mavie não conseguiu simplesmente deixar aquilo para trás.

Alex seguiu direto para o restaurante principal, avisando que reservaria uma mesa para o jantar, e Mavie aproveitou o momento sozinha para tentar encontrar Marcela. O problema era que não fazia a menor ideia de onde ficava a acomodação dos funcionários — nunca precisara saber, nunca tivera motivo antes.

Encontrou um rapaz do serviço de manutenção carregando um balde de ferramentas perto do jardim principal e, sentindo-se um pouco absurda com a própria pergunta, aproximou-se.

— Com licença. Você sabe onde ficam as acomodações dos funcionários? Estou procurando a Marcela.

O rapaz ergueu uma sobrancelha, talvez surpreso com uma hóspede perguntando aquilo, mas apontou o caminho sem questionar.

— É logo depois daquela fileira de coqueiros ali.

Terceira porta.

Mavie agradeceu e seguiu na direção indicada, o coração batendo mais rápido do que qualquer reunião de conselho jamais conseguira provocar, contando as portas mentalmente até parar diante da terceira.

Bateu.

A porta se abriu poucos segundos depois, e Mavie precisou de um segundo para processar o que estava vendo.

Os cabelos de Marcela estavam molhados e soltos. Ela vestia apenas uma blusa larga, que chegava pouco acima das coxas. E nada mais parecia existir entre o tecido e as pernas nuas.
Marcela percebeu exatamente onde os olhos de Mavie haviam parado. A mão desceu imediatamente para a barra da blusa.

— Meu Deus.

O rosto inteiro ficou vermelho.

— Desculpa. Eu achei que fosse a Isa. Ela mora comigo e sempre esquece alguma coisa e volta para buscar. Eu não olhei pelo olho mágico porque normalmente é ela e eu...

Marcela respirou. Tentou organizar as palavras. Falhou.

— A gente mora junto, mas não desse jeito, quer dizer, ela é praticamente minha irmã e eu não penso duas vezes antes de abrir a porta assim para ela, só que você é você e eu deveria ter...

— Marcela.

— ...pensado antes de abrir e agora eu estou aqui parecendo uma pessoa completamente sem noção e você provavelmente está pensando que eu...

— Marcela.

Ela parou. Ofegante.

Mavie sentiu os cantos da boca tremerem. Tentou segurar. Não conseguiu completamente.
Marcela estreitou os olhos.

— Você está rindo.

— Não.

— Está, sim.

— Só um pouco.

Marcela fechou os olhos.

— Ótimo.

— Desculpa.

— Não parece.

Mavie finalmente sorriu.

— Eu prometo que está tudo bem.

Marcela abriu os olhos.

— Você pode esperar um minuto?

— Claro.

— Eu preciso colocar uma roupa que não seja... isso.

Mavie mordeu discretamente o interior da bochecha.

— Sem pressa.

Marcela desapareceu para dentro do quarto. A porta ficou entreaberta. Mavie permaneceu no corredor.

E percebeu, com uma espécie de espanto silencioso, que estava sorrindo. Não um sorriso social. Não aquele que usava em reuniões. Um sorriso verdadeiro. Pequeno. Involuntário.
Quando Marcela voltou, vestia uma camisa de futebol vermelha e preta, larga demais para o corpo, e uma calça moletom. O tecido parecia antigo. Usado. Confortável.

— Pronto

O rosto ainda guardava um pouco do vermelho de antes.

Mavie olhou para a camisa.

— O que é isso?

Marcela olhou para o próprio peito.

— Isso?

— O símbolo.

Marcela pareceu genuinamente surpresa.

— Você não conhece?

— Não.

— É o Flamengo.

— Flamengo?

— Meu time.

Mavie ergueu uma sobrancelha.

— De futebol?

Marcela levou uma mão ao peito.

— Você não conhece o Flamengo?

— Eu não acompanho futebol.

— Nenhum?

— Nenhum.

Marcela ficou alguns segundos olhando para ela.

— Isso é quase um crime.

Mavie sorriu de leve.

— Vou tentar sobreviver.

Marcela balançou a cabeça.

— Era do meu pai.

O sorriso de Mavie diminuiu.

— Ah.

Marcela tocou distraidamente o tecido sobre o escudo.

— Ele usava muito. Depois ficou comigo.

Havia alguma coisa diferente na voz dela agora. Mais baixa. Mais íntima. Mavie percebeu.

— É bonita.

Marcela ergueu os olhos.

— A camisa?

— Sim.

Um pequeno sorriso apareceu.

— Obrigada.

Por alguns segundos, nenhuma das duas falou. Até Marcela cruzar os braços.

— Agora posso perguntar o que você está fazendo aqui?

Mavie respirou fundo.

— Eu vim pedir desculpas — Mavie disse, finalmente, a voz ganhando uma seriedade nova. — Pelo que aconteceu mais cedo, perto dos jipes.
Marcela ergueu uma sobrancelha, sem esconder completamente o ceticismo

— Pelo quê, exatamente?

— Por ter falado aquelas coisas sem saber o que realmente tinha acontecido. — Mavie escolheu as palavras com cuidado, a sinceridade custando mais do que qualquer negociação jamais custara.

— Eu vi o beijo, e simplesmente presumi. Não perguntei, não considerei que talvez você não tivesse escolhido aquilo. Fui arrogante, e fui injusta com você.

Marcela ficou em silêncio por um momento, avaliando aquilo.

— Foi a Lívia quem me beijou — disse, finalmente, a voz mais suave, mas ainda cautelosa. — Ela queria saber se eu sentia alguma coisa por ela. Eu não sinto, nunca senti, não daquele jeito. Eu disse isso a ela, e ela ficou magoada, e foi embora. E então você apareceu falando de exemplo, de comportamento, como se eu tivesse feito alguma coisa errada.

— Sinto muito.

— Você me fez sentir como se eu tivesse que me explicar por algo que nem foi escolha minha.

— Você não deve satisfação nenhuma sobre isso

— Mavie disse, a voz firme. — Nem pra mim, nem pra ninguém.

Marcela a observou por um longo momento, a raiva de mais cedo cedendo aos poucos espaço para algo mais complicado — ainda mágoa, mas também uma espécie de alívio cauteloso.

— Por que você se importou? — perguntou, finalmente, a pergunta saindo mais direta do que qualquer uma das duas esperava. — Com quem eu beijo?

Mavie sentiu a pergunta atingir um lugar que preferia manter fechado.

— Eu não sei — admitiu, a honestidade escapando antes que pudesse contê-la completamente.

— Não sabe mesmo? — Marcela deu um passo mais perto, os olhos azuis fixos nela com uma intensidade que não deixava espaço para respostas fáceis.

— Não sei explicar — Mavie falou, a voz mais baixa agora.

O silêncio que se instalou entre elas era diferente de todos os outros da noite — carregado, mas não mais hostil, algo elétrico pairando no pequeno espaço entre a porta e o corredor escuro.

— Isso é complicado — Marcela disse, finalmente, um meio sorriso cansado escapando apesar de tudo

— É — Mavie concordou. — Muito.

Ficaram ali por mais um instante, nenhuma das duas com pressa de encerrar aquilo, apesar de tudo que ainda pesava sem solução entre elas — o orgulho de ambas, a distância que a diferença entre seus mundos impunha, e algo mais, teimoso, que nenhuma parecia mais capaz de ignorar completamente.

— Boa noite, Mavie — Marcela disse, por fim, a voz suave.

— Boa noite, Marcela.

A porta se fechou devagar, e Mavie ficou parada no corredor por um momento a mais do que deveria, incapaz de nomear completamente o que sentia — só sabendo que, fosse lá o que fosse, não estava nem perto de desaparecer.

Fim do capítulo

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