Capítulo 5

Capítulo 5 - Olhos Verdes

de Sob Nova Direção, por Mary_b94

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O início da noite costumava ser um dos momentos mais movimentados do resort. Alguns hóspedes voltavam dos passeios, a pele ainda vermelha do sol. Outros chegavam para o jantar, vestidos com o cuidado de quem queria aproveitar cada detalhe da viagem. Marcela gostava daquele horário — era quando o resort parecia ganhar uma segunda vida, mais lenta, mais generosa, como se todo mundo ali tivesse finalmente parado de correr.

Ela estava atrás do balcão, conferindo algumas informações no computador, quando ouviu passos se aproximando — um som que já reconhecia, de tanto ouvir, como pertencente a hóspedes, nunca a funcionários.

— Boa noite — a voz masculina chamou sua atenção primeiro.

— Boa noite — respondeu automaticamente, levantando os olhos.

E esqueceu, por um instante, como continuava uma conversa normal.

A mulher ao lado do homem havia parado. Não completamente — apenas diminuído o passo por uma fração de segundo, quase imperceptível. Mas Marcela percebeu, porque naquele exato instante também tinha parado por dentro.

Ela era alta, muito mais alta do que Marcela esperava encontrar ali. Tinha cabelos ruivos longos, perfeitamente alinhados, e uma postura tão naturalmente ereta que parecia impossível imaginá-la ocupando um espaço sem dominá-lo de alguma forma. Mas foram os olhos que a prenderam por completo — verdes de verdade, claros, intensos, cercados por uma expressão séria que fazia parecer que aquela mulher raramente permitia que alguém chegasse perto demais.

Marcela conhecia aquele tipo de pessoa. Ou pelo menos achava que conhecia. Gente acostumada a controlar ambientes, a decidir coisas, a não demonstrar muito. Mas havia algo estranho: embora a mulher mantivesse a postura impecável, Marcela teve a impressão de que alguma coisa havia mudado no instante em que seus olhos se encontraram.

Foi rápido demais para ser certeza. Ainda assim, ela sentiu.

Durante a conversa sobre os passeios, Marcela precisou se esforçar para manter a atenção no que dizia — porque, sempre que voltava os olhos, era a mulher ruiva que procurava primeiro, e não o homem que fazia as perguntas. Percebeu o instante em que ela desviou o olhar para um folheto qualquer, fingindo interesse, e sentiu uma vontade inesperada de sorrir com aquilo. Percebeu, também, quando os olhos delas finalmente se encontraram de novo, diretos, sem pressa — e o silêncio que se seguiu, diferente de qualquer outro naquela recepção, mais denso, mais carregado.

Quando perguntou se ela gostaria do passeio, viu a mulher hesitar, gaguejar de leve antes de responder — um deslize pequeno, humano, inesperado, vindo de alguém que parecia ter cada gesto calculado. Marcela precisou controlar o próprio sorriso. Havia algo quase encantador em perceber que conseguia, por alguns segundos, atravessar aquela armadura invisível.

O homem — Alex, ela ouviria o nome pouco depois — continuava completamente alheio a tudo aquilo, concentrado nos panfletos sobre o balcão. Para ele, era só mais uma conversa sobre passeios turísticos.

Marcela aproveitou para deixar uma última frase no ar antes que os dois se afastassem:

— Não fiquem olhando o celular o tempo todo. Porque vale a pena ver tudo com os próprios olhos.

Disse isso olhando de propósito para a mulher ruiva — uma dica que dava a qualquer hóspede, mas que, naquele momento, não pareceu apenas isso.

Quando os dois se despediram e desapareceram pelo corredor, Marcela ficou parada, ainda olhando para o lugar onde a mulher havia sumido.

Respirou fundo. Ridículo. Ela nem sabia o nome dela.

— Marcela.

Ela se virou rapidamente. Isabela estava olhando para ela, uma sobrancelha erguida.

— O quê?

— Nada. Então por que está olhando daquele jeito? Como se tivesse acabado de ver alguma coisa interessante.

Marcela olhou novamente para o corredor vazio.

— Ela é bonita.

Isabela arregalou os olhos.

— Quem? A ruiva?

— É.

Isabela sorriu, um sorriso lento e cheio de segundas intenções.

— Ah.

— O quê?

— Nada.

— Isa.

— Eu não falei nada.

— Mas pensou.

— Pensei.

Marcela revirou os olhos, tentando voltar ao computador, mas sua concentração não estava completamente ali. Pensou nos olhos verdes, no cabelo ruivo, na maneira como ela havia olhado — não tinha sido um olhar comum. Ou talvez fosse só imaginação, dois minutos de conversa inflados num significado que não tinham.

— Esquece — murmurou.

— Você está pensando nela — Isabela disse.

— Eu nem sei quem ela é.

— Esse é o problema.

Alguns minutos depois, Lívia apareceu no balcão.

— Marcela? Quem chegou?

— Dois hóspedes.

— Importantes?

Marcela deu de ombros.

— Não sei.

Lívia se apoiou no balcão, observando-a com aquele jeito de quem sempre parecia decifrar alguma coisa por trás das palavras.

— Você parece distraída.

— Estou cansada.

— Você vai jantar comigo hoje?

— Lívia...

— Só estou perguntando.

— Hoje não.

— Amanhã?

— Talvez.

— Vou considerar isso um sim.

— Não considere.

Quando Lívia saiu, Marcela voltou a olhar para o corredor. Nada. Nenhum sinal da mulher ruiva. Balançou a cabeça. Não fazia sentido ficar procurando.

A Mesma Noite

Mais tarde, naquela mesma noite, Mavie descobriu que o sono não viria facilmente.

A suíte estava silenciosa. As luzes estavam apagadas, exceto pela iluminação fraca que vinha da varanda, um brilho âmbar filtrando-se por trás das cortinas semiabertas. Alex dormia ao seu lado, a respiração lenta e regular.

Mavie ficou alguns segundos olhando para o teto. Aquela deveria ser uma cena normal — eles eram noivos, dividiam a mesma cama havia anos, dividiam uma vida planejada com antecedência suficiente para preencher um caderno inteiro de decisões já tomadas.

Alex havia se aproximado dela mais cedo, como tantas outras vezes. Mavie não recusara — nunca havia existido dificuldade entre eles nesse sentido. Havia desejo. Havia química, do tipo confortável e conhecido. Havia corpos que se entendiam sem precisar de palavras.
Mas não havia amor.

E, naquela noite, depois que tudo terminou e Alex adormeceu tranquilamente ao seu lado, Mavie percebeu novamente aquela sensação familiar. Vazio. Não era culpa dele — talvez aquilo fosse o pior de tudo. Ele nunca exigia mais do que ela podia dar. Nunca fazia perguntas que a colocassem contra a parede. Nunca cobrava sentimentos que ela simplesmente não possuía. Alex era gentil. Disponível. Paciente até um ponto que parecia quase sobrenatural.

E Mavie sabia que deveria amá-lo.

Mas não amava.

Ela se levantou cuidadosamente da cama, o colchão mal afundando sob o peso do movimento. Vestiu uma calça leve e uma blusa, prendendo os cabelos ruivos num coque improvisado, sem nenhum cuidado especial. Antes de sair, olhou para Alex. Ele dormia profundamente, o rosto relaxado, em paz do jeito que só quem confia completamente consegue estar.

Mavie fechou a porta da suíte sem fazer barulho.

Precisava respirar.

O resort estava quase completamente silencioso àquela hora. A maior parte dos hóspedes já havia voltado para os quartos, as luzes dos bangalôs se apagando um a um como estrelas recolhendo-se. As luzes externas criavam sombras suaves sobre os caminhos de pedra.
Mavie caminhou sem uma direção específica, os pés descalços dentro de sandálias leves. Precisava apenas ficar longe das paredes da suíte. Longe da cama. Longe dos pensamentos que insistiam em voltar, teimosos, para um par de olhos azuis que não tinham nenhum direito de ocupar tanto espaço na sua cabeça.

Ela parou perto de uma área externa, apoiando as mãos na mureta ainda morna do calor do dia. Respirou profundamente. O ar quente da noite era completamente diferente do frio de Dublin — ali, tudo parecia mais vivo. Mais intenso. Como se o próprio ar carregasse alguma coisa que Dublin havia perdido há muito tempo.

Mavie fechou os olhos por alguns segundos.

Então ouviu vozes.

Abriu os olhos, o corpo alerta antes mesmo de entender por quê.

As vozes vinham de uma área próxima ao bar externo, já quase fechado àquela hora. Mavie caminhou alguns passos na direção do som e parou, ainda a uma certa distância, observando.

Marcela estava ali, ainda usando o uniforme do resort, uma prancheta apertada contra o peito. Um homem, hóspede a julgar pela pulseira colorida no pulso, estava parado à frente dela — não agarrando, não gritando, apenas ocupando espaço demais, o corpo levemente inclinado, bloqueando o caminho de saída que ela claramente procurava.

— De onde você é, mesmo? — o homem perguntou, a voz arrastada pelo álcool.

— Já te disse, daqui do Maranhão. — Marcela deu um passo para o lado, tentando contornar. — Com licença, preciso voltar ao trabalho.

Ele se moveu também, cortando a passagem dela com um passo displicente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Não precisa ter pressa. Só quero conversar um pouco. Você é casada? Namorando?

— Isso não é da sua conta — Marcela respondeu, o tom ainda educado, mas mais seco do que antes. — Com licença.

— Ah, qual é. Só uma pergunta.

— Já respondi que preciso voltar ao trabalho.

— Você trabalha demais. Devia relaxar um pouco.

— Não, obrigada.

Ele riu, sem se mexer do lugar.

— Você é sempre tão fechada assim com todo mundo, ou só comigo?

— Com licença — Marcela repetiu, pela terceira vez, tentando passar por outro lado.

Dessa vez ele esticou o braço, não para segurá-la, apenas para apoiar a mão na parede ao lado dela, fechando de vez a passagem.

— Relaxa. Só mais um minuto.

Mavie sentiu o próprio corpo tensionar, o instinto de intervir crescendo, mas ainda hesitou. Não conhecia aquela mulher. Havia segurança no resort, funcionários treinados para esse tipo de situação. Talvez fosse melhor não se meter.

Foi o gesto seguinte que a fez decidir.

O homem tocou o braço de Marcela — não com violência, mas com uma familiaridade que não lhe pertencia, os dedos se fechando de leve ao redor do antebraço dela.

— Solta — Marcela disse, a voz perdendo qualquer resquício de educação, a prancheta caindo ao chão.

Mavie já estava caminhando.

— Está tudo bem por aqui? — perguntou, parando ao lado dos dois, a voz calma, mas firme o suficiente para cortar o clima.

O homem olhou para ela, avaliando, sem soltar o braço de Marcela.

— Estamos só conversando.

— Ela pediu para você soltar — Mavie disse, sem alterar o tom, os olhos fixos na mão dele. — Isso não é da sua conta.

— Vou fazer ser.

O homem hesitou, talvez percebendo, pela primeira vez, que não estava mais lidando só com uma funcionária tentando ser educada. Soltou o braço de Marcela, mas não se afastou.

Foi nesse momento que Mavie avistou, por cima do ombro dele, um dos seguranças do resort fazendo a ronda perto da piscina.

— Com licença — disse, sem gritar, apenas erguendo a voz o suficiente. — Podemos ter uma ajuda aqui?

O segurança se aproximou rapidamente, o passo já mudando de ritmo ao perceber a situação.

— Boa noite. Algum problema?

— Ele está incomodando a funcionária — Mavie respondeu, simples, factual, sem nenhum drama na voz. — Ela já pediu pra ele se afastar mais de uma vez.

O segurança não precisou de mais explicação. Virou-se para o hóspede com a educação profissional de quem já havia feito aquilo antes.
— Senhor, vou pedir que volte para o seu quarto. Posso acompanhá-lo até lá.

O homem resmungou alguma coisa incompreensível, mas seguiu, sem muita escolha, o segurança que já se afastava com ele pelo caminho de pedra.

Mavie se abaixou, pegando a prancheta caída, e a entregou de volta para Marcela.

— Obrigada — Marcela disse, ainda um pouco ofegante, o susto ainda visível, mas já cedendo espaço para algo mais parecido com irritação do que medo.

— Ele machucou você? — Mavie perguntou, a voz recuperando o tom controlado de sempre.

— Estou bem.

— Qual é o seu nome?

— Marcela.

— Mavie.

Não houve mais nada além disso — nenhum sorriso trocado, nenhum comentário sobre a coincidência de finalmente se apresentarem depois de já terem se visto na recepção mais cedo. Apenas dois nomes, ditos e recebidos, como quem completa um formulário.
Mavie apontou discretamente para o braço dela, onde a pele ainda guardava uma marca avermelhada no formato dos dedos dele.

— Se começar a doer, coloque gelo.

Marcela olhou para o próprio braço, depois para Mavie, um princípio de sorriso surgindo apesar de tudo.

— Você sempre cuida de desconhecidas assim?

Mavie ficou em silêncio por um instante, os olhos avaliando a pergunta como se fosse mais complicada do que realmente era.

— Não.

Não acrescentou mais nada. Sem sorriso, sem explicação, sem nenhum daqueles minutos a mais que normalmente se gastam depois de um susto daqueles. Apenas se virou e começou a caminhar de volta na direção da suíte, os passos firmes, deixando Marcela parada ali, a prancheta contra o peito, observando aquela mulher se afastar tão depressa quanto havia aparecido.

Quando finalmente voltou para a suíte, Alex continuava dormindo, exatamente como ela o havia deixado. Mavie entrou silenciosamente, deitou-se ao lado dele, o colchão cedendo devagar sob seu peso.

Mas, daquela vez, o vazio que sentira antes de sair havia sido substituído por outra coisa. Algo muito mais perigoso.

Curiosidade.

Porque, pela primeira vez em muitos anos, Mavie Smith queria conhecer alguém. Não porque precisava. Não porque seria útil para algum negócio, algum contrato, alguma vantagem futura. Não por conveniência.

Ela simplesmente queria.

E isso era algo que Mavie não sabia controlar.

Fim do capítulo

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