Marcela
Assim que atravesso as portas da editora, sinto que estou deixando o fim de semana para trás. E eu não quero.
Por um breve instante, continuo sentindo o cheiro do shampoo de Victoria, lembrando da manhã preguiçosa, do café que tomamos tarde demais, das risadas na cozinha e de todas as pequenas coisas que aconteceram quando finalmente tivemos uma casa inteira só para nós.
Foi um fim de semana simples e perfeito justamente por isso, e agora estou de volta ao meu mundo.
— Você está sorrindo — Victoria comenta ao meu lado.
— Estou? — olho para ela.
— Está.
— Algum problema?
— Nenhum — ela dá um sorrisinho. — Só estou tentando descobrir o que está passando nessa cabeça, já que você nunca chegou na empresa sorrindo.
— Você não vai descobrir — faço mistério.
— Por quê? — Insiste.
— Porque eu não vou contar. — Dou de ombros.
— Suspeito. — Ela estreita os olhos.
— Você está aprendendo rápido.
Ela ri e seguimos nosso caminho. Entramos no elevador e, quando as portas se fecham, somos apenas nós duas novamente. Olho para ela pelo reflexo das portas metálicas, ela está tão linda. Ainda parece transparecer um pouco do nosso fim de semana no rosto, ou talvez seja apenas impressão minha.
Quando o elevador chega ao nosso andar, as portas se abrem e o mundo volta. Funcionários passando de um lado para o outro, telefones tocando, gente carregando documentos, assistentes correndo com cafés. E, no meio de tudo isso, nós duas precisamos voltar a ser discretas.
Caminhamos até minha sala, assim que entro, deixo a bolsa sobre a mesa e me sento. Victoria vem logo atrás com sua agenda em mãos, pronta para iniciar o expediente.
— O que temos hoje? — Pergunto.
— Reunião com o financeiro às onze — abre a agenda e começa a ler. — Depois precisa revisar os contratos da próxima edição e temos aquela reunião sobre a campanha de lançamento.
— E os relatórios de vendas? — Lembro.
— Também — ela pega uma caneta para anotar alguma coisa. — E você ainda quer revisar os textos antes do almoço?
— Quero.
— Você dormiu alguma coisa nesse fim de semana? — Me olha — Para revisar os textos, você precisa estar bem descansada.
— O suficiente — Respondo.
— Isso não foi uma resposta.
— Foi a resposta que você vai receber — Sorrio.
— Certo, chefe. — Revira os olhos.
Passamos alguns minutos organizando a manhã, é estranho como tudo parece absolutamente normal, como se eu não tivesse acordado ontem com Victoria dormindo ao meu lado, com as costas cheias de arranhões. Como se eu não tivesse passado o domingo inteiro querendo que o tempo parasse.
Não consigo vê-la apenas como minha secretária, minha funcionária, eu a vejo como a mulher que conseguiu ocupar um espaço dentro de mim que eu nem sabia que estava vazio.
— Acho que é isso — Victoria fecha a agenda.
— Sim — Concordo.
Ela caminha até a porta, coloca a mão na maçaneta e então olha para mim. Aquele olhar, eu conheço aquele olhar agora.
— O quê? — pergunto.
— Nada — sorri de canto, e esse sorriso sempre acaba comigo.
Abre a porta e fecha a porta duas vezes, e eu sei que ela não quer sair, porém sei também que aqui dentro ela nunca tomaria a iniciativa de nada, ela me tem como chefe. Então, antes que ela consiga sair, levanto-me.
— Espera — digo e ela se vira, então caminho até ela.
— O que foi? — pergunta.
Não respondo, apenas seguro seu rosto e a beijo, e ela já esperava por isso, pois não perde tempo e retribui o beijo. Victoria segura minha cintura e me puxa de volta, e o beijo deixa de ser rápido, sinto o coração acelerar quando ela aprofunda o beijo. Minhas mãos encontram seus ombros e, por alguns segundos, esquecemos completamente onde estamos.
Até que... Toc, toc.
Nós duas congelamos, Victoria se afasta imediatamente. Eu fecho os olhos por um segundo.
— Não pode ser — Resmungo.
Toc, toc... Batem na porta novamente.
— Marcela? — A voz de Chica vem do outro lado da porta.
Olho para Victoria, ela está tentando arrumar o cabelo, onde eu estava com as mãos até segundos atrás.
— Entra — respondo.
A porta se abre, Chica coloca a cabeça para dentro e, quando nos vê, entra. Ela olha para mim, depois olha para Victoria e volta a olhar para mim.
— Eu interrompi alguma coisa? — Pergunta, ainda olhando de uma para a outra.
— Não — minha resposta sai rápido demais.
— Não? — Chica estreita os olhos.
— Não.
— Eu estava só terminando de passar as tarefas para ela — Victoria pega alguns documentos sobre minha mesa.
— Aham — ela finge que acredita.
— O quê? — pergunto, me fazendo de desentendida.
— Nada — ela fecha a porta e continua nos encarando. — Vocês duas estão estranhas.
— Não estamos — Victoria diz.
— Estão. — Insiste.
— Chica... — Reviro os olhos.
— Marcela — ela cruza os braços — Eu conheço você há tempo demais para acreditar nessa cara de paisagem.
Victoria tenta segurar o sorriso, eu percebo e fecho a cara. Ela deveria me ajudar e não ficar com essa cara de paspalha.
— Pode ir — digo a ela.
Ela olha para Chica, depois para mim, mas não se arrisca a ir contra minhas ordens.
— Claro. — Diz.
Antes de sair, seus olhos encontram os meus por um segundo, é algo rápido, mas Chica percebe. É claro que percebe.
A porta se fecha e só se ouve silêncio. Encaro minha amiga, eu sei que ela está louca para que eu fale algo, mas não terá informação nenhuma minha. Doce engano.
— Então... — Ela começa.
— Não. — Olho para ela.
— Eu nem perguntei nada — Se faz de desentendida.
— Mas eu conheço você também — digo enquanto vejo ela colocar o documento sobre minha mesa.
— Eu trouxe isso para você assinar. — Informa.
— Ótimo — pego a caneta. — E você vai fingir que não percebeu nada.
— Eu percebi, sim.
— Chica. — Assino a primeira página.
— Vocês estão ficando?
A caneta para, levanto os olhos lentamente pensando no que posso inventar, mas eu realmente a conheço, não desistirá até saber tudo.
— Não — minha voz não sai tão convincente.
— Marcela, você acha que nasci ontem?
— O quê? — Finalmente a encaro.
— Você acabou de beijar a sua funcionária atrás da porta.
— Você não viu. — Meu rosto esquenta.
— Eu tenho olhos, e a cara de vocês duas entregou o que estavam fazendo, sem contar essa sua boca inchada.
— Foi um... — Penso rapidamente. — Um beijo de despedida.
— Ah, claro — Chica começa a rir.
— Foi.
— Um beijo de despedida que durou mais de um minuto.
— Você estava contando? — Sinto meu queixo cair.
— Eu estava esperando entrar.
— Então você estava espionando — Acuso.
— Eu estava batendo na porta!
— Nós não estamos ficando — pego o segundo documento.
— Certo — ela me observa.
— Não estamos. — Repito.
— Tudo bem. — Seus olhos ainda estão em mim.
— Chica — Suspiro.
— Marcela — ela sorri. — Você está apaixonada.
Paro, meu estômago dá um nó, pois eu sei que, de certa forma, ela está certa. Eu falei para Victória que, quando o contrato acabar, nosso lance de amizade colorida também acaba, e falei que respeitaria a cláusula 10 do contrato. O difícil vai ser realmente respeitar.
— Não estou — tento soar convincente.
— Está.
— Eu não estou apaixonada — sou mais enfática.
— Então por que você está com essa cara? — Ela se aproxima da mesa.
— Que cara?
— A cara de alguém que passou o fim de semana inteiro beijando uma mulher e até arrisco a dizer que não foram só beijos.
Não respondo, mas sinto meu rosto pegar fogo. Sei que estou vermelha igual a um pimentão e que provavelmente isso está me entregando ainda mais.
— Meu Deus. — Chica sorri e leva as mãos à boca.
— Cala a boca.
— Vocês realmente estão ficando.
— Nós... — Me rendo. — Isso fica entre nós.
— Sério? — Ela se anima com a fofoca.
— Muito sério — Assinto.
— Desde quando? — Ela se senta na cadeira em frente à minha mesa.
— Sábado.
— Me conta tudo, porque eu sei que a Victória não vai contar nenhum detalhe.
— Algumas coisas aconteceram.
— Algumas?
— Muitas — sorrio ao lembrar.
— E? — Insiste.
— E eu não sei o que estamos fazendo. — Confesso.
— Mas está fazendo. — Bate palminhas, empolgada.
— Sim.
— Você está feliz?
A pergunta me pega desprevenida. Olho para os documentos, depois para minhas mãos, e todas as lembranças do fim de semana voltam para a minha mente.
— Estou — e essa é a única resposta que não preciso pensar para dar.
— Então talvez seja isso que importa.
Abro a boca para responder, mas sou interrompida quando a porta se abre e minha mãe entra.
— Chica, pode nos deixar — fala sem nem olhar para minha amiga.
— Bom dia para você também — digo, encarando minha mãe.
Ela nem responde, apenas me encara com o olhar de superioridade que usa sempre.
— Bom dia, Senhora Tavares. — Chica se levanta.
— Pode ir. — Minha mãe aponta a porta.
Chica olha para mim e eu faço um pequeno gesto com a cabeça, pedindo desculpas silenciosas pelo ocorrido. Ela sai e, no exato momento em que a porta se fecha, eu sinto o ambiente mudar.
— Precisamos conversar sobre a festa. — Minha mãe caminha até a mesa.
— Ainda faltam dois meses. — Reviro os olhos.
— Exatamente.
— Então temos tempo — volto a minha atenção aos papéis à minha frente.
— Você já decidiu com quem vai? — Ela ignora meu comentário.
— Sim. — Eu sinto meu corpo ficar rígido.
— Com quem?
Não respondo e ela me encara com o olhar que sempre me diminui, é sempre assim, desde criança.
— Com quem você vai? — Repete a pergunta.
— Victoria — respondo em um só fôlego.
O silêncio que segue é pesado, eu sei o que virá a seguir, eu já conheço o ciclo vicioso em que ela me coloca todas as vezes que discordo dela.
— Você está falando sério? — Minha mãe solta uma risada curta.
— Estou.
— Você pretende aparecer na festa anual da editora com ela? — Seu semblante muda completamente.
— Sim.
— Isso é um absurdo. — Sua voz é fria.
— Por quê? — Respiro fundo.
— Você realmente precisa perguntar?
— Preciso.
— Porque essa festa é importante para a família. Para a imagem da editora. — Ela coloca a bolsa sobre uma cadeira.
— Victoria não prejudica a imagem da editora. — Sinto meu maxilar ficar tenso.
— Não estou falando da editora. — Seu olhar é desafiador.
— Então está falando do quê?
— De você.
— O que tem eu? — Quero ver até onde essa conversa vai chegar.
— Você é a diretora da empresa, filha da família que construiu tudo isso. E vai aparecer diante de investidores, autores, jornalistas e pessoas importantes, acompanhada por... — Ela faz uma pausa. — Por ela.
— Ela tem nome — meu sangue ferve.
— Eu sei.
— Então use — minha voz sai mais alta do que o esperado.
— Marcela... — Ela revira os olhos.
— O nome dela é Victoria. — A interrompo.
— Você está fazendo uma tempestade por nada — minha mãe suspira.
— Você está diminuindo uma pessoa que não fez absolutamente nada para você.
— Ela não pertence a esse mundo.
— Que mundo? — A frase me atinge.
— O nosso — Enfatiza.
— Ah! — Dou uma risada sem humor.
— Você sabe exatamente do que estou falando — se apoia na mesa com as duas mãos.
— Não, quero que você diga. — A desafio.
— Ela é sua funcionária. — Fala como se fosse algo óbvio.
— E daí?
— E daí que existem pessoas que ocupam determinados lugares.
— Você está dizendo que ela não é boa o suficiente para ficar ao meu lado. — Nossos olhos travam uma batalha.
— Estou dizendo que você precisa ter bom senso.
— Bom senso?
— Você poderia ir com Lúcio.
— Não. — Meu estômago revira.
— Ele é conhecido pela família, tem uma posição compatível com a sua — começa a caminhar de um lado para o outro. — Será bom vocês serem vistos juntos novamente.
— Eu não vou com Lúcio.
— Vocês já estiveram juntos — Se anima ao relembrar.
— E acabou.
— As pessoas entenderiam.
— Eu não me importo com o que as pessoas entenderiam.
— Deveria — minha mãe se aproxima. — Você está colocando seus sentimentos acima da família.
— Pela primeira vez, talvez eu esteja. — Ergo o queixo ao falar isso.
— É exatamente esse tipo de comportamento que me preocupa. — Ela me olha com desprezo.
— Eu vou levar Victoria. — Não mudo de opinião.
— Você não vai.
— Vou.
— Enquanto essa empresa for minha, você não vai transformar uma festa familiar em espetáculo.
— A festa é da editora, não sua. — A enfrento.
— Cuidado. — O rosto dela muda.
— Eu estou cansada de ter que tomar cuidado dentro da minha própria sala.
— Sua sala? — Ela dá uma risada seca e olha ao redor. — Essa empresa ainda é minha.
— Eu sei. — Meu peito aperta.
— Então não se esqueça — ela aponta para mim. — Eu posso entrar aqui quando quiser, posso decidir o que quiser e posso falar com quem eu quiser.
— Você acabou de dispensar a Chica sem sequer me perguntar, isso é deselegante — tento atingir a pose de madame dela.
— Porque eu precisava falar com você.
— Isso não é respeito.
— Respeito? — Ela ri. — Você quer falar de respeito depois de decidir aparecer com aquela garota na festa?
— Não fale dela assim. — Sinto o sangue subir.
— Você está realmente fazendo isso? — Aumenta o tom de voz.
— Fazendo o quê?
— Jogando fora anos de educação, preparação e tudo que construímos para correr atrás de uma funcionária.
A palavra fica ecoando dentro de mim. Funcionária. Como se isso definisse Victoria, como se fosse tudo o que ela é, sendo que, Victória é uma mulher maravilhosa, responsável, trabalhadora e empenhada em criar bem a filha.
— Você não a conhece. — Minha voz sai baixa.
— Não preciso.
— Precisa, sim.
— Não — ela pega a bolsa. — E vou dizer uma coisa que talvez ninguém tenha coragem de dizer.
— O quê? — Sinto um aperto no peito.
— Você está se humilhando — ela me olha dos pés à cabeça.
— Mãe... — Meus olhos lagrimejam.
— Uma mulher como você poderia estar com qualquer pessoa — ela continua. — E escolhe justamente alguém que não tem nada para oferecer além de problemas.
Sinto os olhos arderem, mas não quero que ela perceba, não quero dar esse gosto a alguém tão arrogante.
— Já chega — minha voz ainda sai baixa.
— Não, ainda não — ela é cruel. — Você sempre teve tudo: educação, dinheiro, nome, uma posição e, mesmo assim, insiste em fazer escolhas que nos colocam em situações ridículas.
— Victoria não é ridícula.
— Ela é inadequada para você.
Fecho os olhos por um instante, quando abro, encaro minha mãe. Ela me conhece muito bem para saber que conseguiu me atingir como gostaria.
— Você terminou?
— Por enquanto — pega a bolsa. — Pense no que falei sobre Lúcio.
— Não vou pensar.
— A festa é daqui a dois meses. Espero que até lá você tenha recuperado o bom senso.
Ela vai embora. A porta se fecha e eu fico imóvel, ou melhor, completamente imóvel. Por alguns segundos, não consigo fazer nada, não consigo respirar direito. Olho para a mesa, para os documentos, até para a cadeira onde minha mãe estava.
E então sinto uma raiva tão grande que preciso levantar, caminho até a janela. A cidade continua como sempre lá embaixo. Normal, indiferente, como se nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu.
E, por alguns minutos, as palavras dela continuam repetindo dentro da minha cabeça.
“Você está se humilhando.”
“Ela não pertence a esse mundo.”
“Não tem nada para oferecer.”
Fecho os olhos e penso em Victoria, no sorriso, na maneira como ela cuida da filha, na forma como trabalha até estar exausta sem reclamar e na maneira como me olha quando acha que ninguém está vendo.
Penso no fim de semana, no beijo antes de entrarmos na editora, e uma coisa fica clara: eu não vou deixar que minha mãe estrague isso. Não hoje.
Pego meu celular e olho as horas. Eu preciso sair daqui, eu preciso respirar e, quando saio da minha sala, encontro Victoria voltando de algum outro setor.
Ela está com alguns documentos nas mãos, mas, assim que me vê, sorri. O sorriso dela quase acaba comigo.
— Está tudo bem? — Pergunta quando percebe minha aflição.
Paro diante dela e, por um breve momento, penso em mentir, mas não quero.
— Eu preciso sair — Admito.
— Agora? — Ela franze a testa.
— Agora.
— Aconteceu alguma coisa?
Olho ao redor, somente para não a encarar e desmoronar ali na frente dela, correndo o risco de que algum funcionário me veja assim.
— Eu preciso dar uma volta.
— Marcela... — Ela percebe imediatamente que alguma coisa aconteceu.
— Vou passar na escola da Heloísa.
— Na escola? — Ela arregala os olhos.
— Sim — digo, simples.
— Marcela, ainda nem são dez horas. — Parece um pouco desconfortável.
— Eu sei. — Não sei o que responder.
— Ela está em aula.
— Eu sei.
— Você vai tirá-la da escola?
— Vou.
— Ela vai perder aula — Victoriasuspira.
— Eu a ajudo depois — penso em uma solução.
— Mas...
— Eu só preciso sair daqui, Victoria — minha voz denuncia mais do que eu gostaria.
Ela me observa e entende. Não pergunta sobre minha mãe, apenas olha para mim por alguns segundos.
— Você quer que eu vá com você?
— Não. — Meu coração volta a apertar e ela parece decepcionada. — Eu preciso ficar sozinha um pouco, mas quero a Heloísa comigo.
— Você está bem?
Não consigo responder imediatamente, não quero mentir para a única pessoa que tem sido boa comigo, então sorrio.
— Vou ficar.
— Você não parece bem — continua me encarando.
— Eu sei.
— Então vai — ela segura minha mão discretamente, escondendo o gesto entre nós.
— Você não vai brigar comigo por tirar sua filha da escola, né? — Sinto meus olhos arderem novamente.
— Claro que não vou. — Ela sorri.
— Ótimo.
— Mas só porque você vai me obrigar a fazê-la estudar depois. — Confessa.
— Eu já pensei nisso. — Preciso pensar mesmo.
— Imagino.
Solto sua mão e, antes de me afastar, toco seu rosto rapidamente.
— Eu volto mais tarde. — Aviso.
— Tá — concorda. — Esperarei vocês.
Ela não precisa explicar, e eu sei pelo olhar dela que entendeu, e talvez seja exatamente isso que eu precise naquele momento. Não de alguém me dizendo o que fazer ou de alguém tentando me lembrar do que a minha família espera de mim.
Só de alguém que me olha e, mesmo sem saber tudo o que foi dito naquela sala, consegue enxergar que eu estou machucada.
Saio da editora, entro no carro e fico alguns segundos parada antes de ligar o motor. Minha mãe pode continuar acreditando que Victoria não pertence ao meu mundo.
Mas talvez esse seja justamente o problema, pois talvez eu esteja finalmente percebendo que nunca quis viver no mundo que ela construiu para mim.
Eu quero construir o meu e, nele, Victoria tem lugar.
******
Assim que estaciono em frente à escola, sinto aquela mesma sensação desagradável que sempre tenho quando venho aqui. Não gosto deste lugar.
Desligo o carro e olho para o prédio.
— Vamos lá — solto um suspiro.
Pego minha bolsa e entro, vou até a recepção e informo que vim buscar Heloísa. A funcionária confere alguma coisa no computador.
— Heloísa? — Arqueia a sobrancelha.
— Sim — passo o nome completo dela.
— Ela está autorizada a sair.
— Certo.
Agradeço e me afasto. Só isso, ninguém pede meu documento, ninguém confirma novamente quem eu sou ou sequer parece considerar a possibilidade de eu não ser quem digo que sou.
Mais uma vez, sinto a irritação crescer dentro de mim, mas guardo o comentário para mim, pois não é o momento.
Poucos minutos depois, vejo Heloísa surgir no corredor. Ela vem com a mochila nas costas e, assim que me vê, abre um sorriso enorme.
— Marcela! — O sorriso dela consegue mudar meu humor imediatamente.
— Oi, Pulguinha — a abraço assim que ela chega até mim. — Pronta para passar o dia comigo?
— Sim! — Dá alguns pulinhos.
— Então vamos.
Ela segura minha mão e começamos a caminhar até a saída. No caminho, pergunto sobre a aula, sobre o que ela fez naquela manhã e se aconteceu alguma coisa interessante.
Ela responde animada, até chegarmos perto do portão, pois é quando percebo que ela diminui o passo.
— O que foi? — Pergunto.
Ela não responde, mas seu olhar está fixo, olho para frente. Uma mulher está parada perto da saída, acompanhada de uma menina que reconheço vagamente como sendo da mesma turma de Heloísa.
Nunca vi aquela mulher antes, ela parece ter acabado de sair de uma reunião importante. Está impecavelmente vestida, com uma bolsa elegante, cabelo perfeitamente arrumado e joias discretas que, eu conheço muito bem as marcas.
Ela olha para nós, depois para Heloísa e, assim que seus olhos encontram a menina, Heloísa se aproxima mais de mim.
Estranho.
Muito estranho.
— Você é a Marcela? — A mulher se aproxima.
— Sim — Paro.
— Prazer. Sou Kátia — ela estende a mão — Mãe da Isabela.
Olho rapidamente para a menina ao lado dela, então é essa a criança de quem Heloisa me contou que já havia rido de seus penteados.
— Prazer — aperto a mão dela.
— Eu queria conhecê-la. — Ela fala animada — Isa comentou sobre você.
— Conhecer?
— Sim.
Ela olha para Heloísa, a menina abaixa imediatamente os olhos. Meu instinto protetor se acende.
— Em que sentido? — Arqueio a sobrancelha.
— Eu tenho reparado em algumas coisas. — Ela olha para o cabelo de Helô.
— Que coisas?
— Você é quem tem arrumado o cabelo dela para a escola?
— Algumas vezes. Por quê? — Olho para a pequena ao meu lado.
— Eu imaginei. — Kátia sorri — Desde que você começou a fazer, os penteados estão muito melhores.
— Melhores? — Não estou entendendo onde essa mulher quer chegar.
— Sim — ela olha novamente para Heloísa. — Antes eram horríveis.
— Como assim? — Minha expressão endurece.
— Ah, não me leve a mal — ela faz um gesto com a mão. — É só que...
— Continue — a encorajo, sentindo minha raiva ficar ainda mais forte.
— Aquela moça é... diferente.
— Diferente como? — Meu sangue começa a ferver.
— Você sabe.
— Não, eu não sei. — Ela parece desconfortável com minha resposta.
— Eu só quis dizer que ela não tem exatamente muito jeito para essas coisas. — Revira os olhos.
— Para pentear o cabelo da própria filha?
— Para ser mãe.
A frase me atinge como um raio, olho para Heloísa e ela se esconde um pouco atrás de mim. Meu coração aperta ao vê-la tão frágil assim.
— Entendi — solto uma risada sem humor. — Ainda bem que não estamos interessadas na sua opinião.
— Agora Heloísa vem para a escola apresentável, os cabelos estão arrumados, as roupas...
— Pare — digo, firme.
— Desculpe? — Ela pisca como se não tivesse entendido direito.
— Pare de falar da Victoria dessa maneira. — Respiro fundo.
— Eu não quis ofender. — O sorriso dela desaparece.
— Ofendeu — minha voz já não mostra calmaria.
— Marcela, eu só estou fazendo um comentário — tenta se defender.
— Não — olho para Heloísa — Você está julgando uma mãe que não conhece, quando está nítido que quem é uma péssima pessoa é você.
— Eu acho que você está exagerando, e...
— E eu acho que você deveria escolher melhor as palavras quando fala perto de uma criança — a interrompo.
— Eu acho que você está se envolvendo demais. — Estufa o peito.
— Talvez — olho diretamente em seus olhos — mas eu vou continuar me envolvendo quando for necessário.
— Afinal, você nem é mãe dela. — Ela solta uma risada curta.
— Não. — Minha voz sai calma. — Não sou, mas isso não significa que eu não possa protegê-la.
— Você está levando isso para um lado des...
— E, antes que você volte a falar do cabelo dela, vou deixar uma coisa clara — a interrompo novamente. — Victoria pode não pentear o cabelo da filha do jeito que você considera bonito, mas ela acorda todos os dias, cuida da filha, trabalha, se preocupa, corre atrás de tudo e ama essa menina mais do que qualquer penteado perfeito poderia demonstrar.
— Eu nunca disse que...
— Disse o suficiente — digo e ela fica calada. — E nunca mais chame a mãe dela de diferente como se fosse um insulto, pois eu vou fazer questão de te colocar no seu devido lugar.
— Eu não disse isso — o rosto de Kátia muda.
— Disse — Minha voz continua firme. — E não vou permitir que você fale assim dela perto da filha dela ou de mim novamente, e acho bom que sua filha pare de implicar com a minha.
Kátia olha ao redor, percebendo que algumas pessoas começaram a prestar atenção.
— Acho que essa conversa acabou — Digo.
— Concordo — ela fala apressadamente e sai.
Pego a mão de Heloísa e ela segura meus dedos imediatamente. Dou alguns passos, mas paro e olho para o prédio da escola. A irritação que eu já sentia antes voltou ainda mais forte.
Não apenas por causa daquela mulher, mas também pela escola. Pelo que está acontecendo com Heloísa e da maneira como ninguém parece estar percebendo. Olho para a menina ao meu lado.
— Pulguinha?
— Sim? — Ela levanta os olhos em minha direção.
— Você está bem?
— Estou — ela hesita.
— Vamos fazer uma coisa — aponto a escola — Vamos conversar com a coordenação.
— Eu fiz alguma coisa? — Os olhinhos dela se arregalam.
— Não, meu amor. — Abaixo-me imediatamente e seguro seu rosto com delicadeza. — Você não fez absolutamente nada.
— Então por que vamos à coordenação?
— Porque alguns adultos precisam fazer melhor o trabalho deles, e vamos resolver isso agora.
Levanto-me e seguro sua mão novamente, começo a caminhar em direção à coordenação.
Dessa vez, não vou embora sem resolver essa situação e, principalmente, não vou permitir que Heloísa saia daqui acreditando que existe alguma coisa errada nela ou na família que tem.
Porque talvez eu não seja a mãe dela, mas, nesse momento, isso não importa. Ela está segurando a minha mão e eu não vou soltar a dela.
Assim que atravesso as portas da editora, sinto que estou deixando o fim de semana para trás. E eu não quero.
Por um breve instante, continuo sentindo o cheiro do shampoo de Victoria, lembrando da manhã preguiçosa, do café que tomamos tarde demais, das risadas na cozinha e de todas as pequenas coisas que aconteceram quando finalmente tivemos uma casa inteira só para nós.
Foi um fim de semana simples e perfeito justamente por isso, e agora estou de volta ao meu mundo.
— Você está sorrindo — Victoria comenta ao meu lado.
— Estou? — olho para ela.
— Está.
— Algum problema?
— Nenhum — ela dá um sorrisinho. — Só estou tentando descobrir o que está passando nessa cabeça, já que você nunca chegou na empresa sorrindo.
— Você não vai descobrir — faço mistério.
— Por quê? — Insiste.
— Porque eu não vou contar. — Dou de ombros.
— Suspeito. — Ela estreita os olhos.
— Você está aprendendo rápido.
Ela ri e seguimos nosso caminho. Entramos no elevador e, quando as portas se fecham, somos apenas nós duas novamente. Olho para ela pelo reflexo das portas metálicas, ela está tão linda. Ainda parece transparecer um pouco do nosso fim de semana no rosto, ou talvez seja apenas impressão minha.
Quando o elevador chega ao nosso andar, as portas se abrem e o mundo volta. Funcionários passando de um lado para o outro, telefones tocando, gente carregando documentos, assistentes correndo com cafés. E, no meio de tudo isso, nós duas precisamos voltar a ser discretas.
Caminhamos até minha sala, assim que entro, deixo a bolsa sobre a mesa e me sento. Victoria vem logo atrás com sua agenda em mãos, pronta para iniciar o expediente.
— O que temos hoje? — Pergunto.
— Reunião com o financeiro às onze — abre a agenda e começa a ler. — Depois precisa revisar os contratos da próxima edição e temos aquela reunião sobre a campanha de lançamento.
— E os relatórios de vendas? — Lembro.
— Também — ela pega uma caneta para anotar alguma coisa. — E você ainda quer revisar os textos antes do almoço?
— Quero.
— Você dormiu alguma coisa nesse fim de semana? — Me olha — Para revisar os textos, você precisa estar bem descansada.
— O suficiente — Respondo.
— Isso não foi uma resposta.
— Foi a resposta que você vai receber — Sorrio.
— Certo, chefe. — Revira os olhos.
Passamos alguns minutos organizando a manhã, é estranho como tudo parece absolutamente normal, como se eu não tivesse acordado ontem com Victoria dormindo ao meu lado, com as costas cheias de arranhões. Como se eu não tivesse passado o domingo inteiro querendo que o tempo parasse.
Não consigo vê-la apenas como minha secretária, minha funcionária, eu a vejo como a mulher que conseguiu ocupar um espaço dentro de mim que eu nem sabia que estava vazio.
— Acho que é isso — Victoria fecha a agenda.
— Sim — Concordo.
Ela caminha até a porta, coloca a mão na maçaneta e então olha para mim. Aquele olhar, eu conheço aquele olhar agora.
— O quê? — pergunto.
— Nada — sorri de canto, e esse sorriso sempre acaba comigo.
Abre a porta e fecha a porta duas vezes, e eu sei que ela não quer sair, porém sei também que aqui dentro ela nunca tomaria a iniciativa de nada, ela me tem como chefe. Então, antes que ela consiga sair, levanto-me.
— Espera — digo e ela se vira, então caminho até ela.
— O que foi? — pergunta.
Não respondo, apenas seguro seu rosto e a beijo, e ela já esperava por isso, pois não perde tempo e retribui o beijo. Victoria segura minha cintura e me puxa de volta, e o beijo deixa de ser rápido, sinto o coração acelerar quando ela aprofunda o beijo. Minhas mãos encontram seus ombros e, por alguns segundos, esquecemos completamente onde estamos.
Até que... Toc, toc.
Nós duas congelamos, Victoria se afasta imediatamente. Eu fecho os olhos por um segundo.
— Não pode ser — Resmungo.
Toc, toc... Batem na porta novamente.
— Marcela? — A voz de Chica vem do outro lado da porta.
Olho para Victoria, ela está tentando arrumar o cabelo, onde eu estava com as mãos até segundos atrás.
— Entra — respondo.
A porta se abre, Chica coloca a cabeça para dentro e, quando nos vê, entra. Ela olha para mim, depois olha para Victoria e volta a olhar para mim.
— Eu interrompi alguma coisa? — Pergunta, ainda olhando de uma para a outra.
— Não — minha resposta sai rápido demais.
— Não? — Chica estreita os olhos.
— Não.
— Eu estava só terminando de passar as tarefas para ela — Victoria pega alguns documentos sobre minha mesa.
— Aham — ela finge que acredita.
— O quê? — pergunto, me fazendo de desentendida.
— Nada — ela fecha a porta e continua nos encarando. — Vocês duas estão estranhas.
— Não estamos — Victoria diz.
— Estão. — Insiste.
— Chica... — Reviro os olhos.
— Marcela — ela cruza os braços — Eu conheço você há tempo demais para acreditar nessa cara de paisagem.
Victoria tenta segurar o sorriso, eu percebo e fecho a cara. Ela deveria me ajudar e não ficar com essa cara de paspalha.
— Pode ir — digo a ela.
Ela olha para Chica, depois para mim, mas não se arrisca a ir contra minhas ordens.
— Claro. — Diz.
Antes de sair, seus olhos encontram os meus por um segundo, é algo rápido, mas Chica percebe. É claro que percebe.
A porta se fecha e só se ouve silêncio. Encaro minha amiga, eu sei que ela está louca para que eu fale algo, mas não terá informação nenhuma minha. Doce engano.
— Então... — Ela começa.
— Não. — Olho para ela.
— Eu nem perguntei nada — Se faz de desentendida.
— Mas eu conheço você também — digo enquanto vejo ela colocar o documento sobre minha mesa.
— Eu trouxe isso para você assinar. — Informa.
— Ótimo — pego a caneta. — E você vai fingir que não percebeu nada.
— Eu percebi, sim.
— Chica. — Assino a primeira página.
— Vocês estão ficando?
A caneta para, levanto os olhos lentamente pensando no que posso inventar, mas eu realmente a conheço, não desistirá até saber tudo.
— Não — minha voz não sai tão convincente.
— Marcela, você acha que nasci ontem?
— O quê? — Finalmente a encaro.
— Você acabou de beijar a sua funcionária atrás da porta.
— Você não viu. — Meu rosto esquenta.
— Eu tenho olhos, e a cara de vocês duas entregou o que estavam fazendo, sem contar essa sua boca inchada.
— Foi um... — Penso rapidamente. — Um beijo de despedida.
— Ah, claro — Chica começa a rir.
— Foi.
— Um beijo de despedida que durou mais de um minuto.
— Você estava contando? — Sinto meu queixo cair.
— Eu estava esperando entrar.
— Então você estava espionando — Acuso.
— Eu estava batendo na porta!
— Nós não estamos ficando — pego o segundo documento.
— Certo — ela me observa.
— Não estamos. — Repito.
— Tudo bem. — Seus olhos ainda estão em mim.
— Chica — Suspiro.
— Marcela — ela sorri. — Você está apaixonada.
Paro, meu estômago dá um nó, pois eu sei que, de certa forma, ela está certa. Eu falei para Victória que, quando o contrato acabar, nosso lance de amizade colorida também acaba, e falei que respeitaria a cláusula 10 do contrato. O difícil vai ser realmente respeitar.
— Não estou — tento soar convincente.
— Está.
— Eu não estou apaixonada — sou mais enfática.
— Então por que você está com essa cara? — Ela se aproxima da mesa.
— Que cara?
— A cara de alguém que passou o fim de semana inteiro beijando uma mulher e até arrisco a dizer que não foram só beijos.
Não respondo, mas sinto meu rosto pegar fogo. Sei que estou vermelha igual a um pimentão e que provavelmente isso está me entregando ainda mais.
— Meu Deus. — Chica sorri e leva as mãos à boca.
— Cala a boca.
— Vocês realmente estão ficando.
— Nós... — Me rendo. — Isso fica entre nós.
— Sério? — Ela se anima com a fofoca.
— Muito sério — Assinto.
— Desde quando? — Ela se senta na cadeira em frente à minha mesa.
— Sábado.
— Me conta tudo, porque eu sei que a Victória não vai contar nenhum detalhe.
— Algumas coisas aconteceram.
— Algumas?
— Muitas — sorrio ao lembrar.
— E? — Insiste.
— E eu não sei o que estamos fazendo. — Confesso.
— Mas está fazendo. — Bate palminhas, empolgada.
— Sim.
— Você está feliz?
A pergunta me pega desprevenida. Olho para os documentos, depois para minhas mãos, e todas as lembranças do fim de semana voltam para a minha mente.
— Estou — e essa é a única resposta que não preciso pensar para dar.
— Então talvez seja isso que importa.
Abro a boca para responder, mas sou interrompida quando a porta se abre e minha mãe entra.
— Chica, pode nos deixar — fala sem nem olhar para minha amiga.
— Bom dia para você também — digo, encarando minha mãe.
Ela nem responde, apenas me encara com o olhar de superioridade que usa sempre.
— Bom dia, Senhora Tavares. — Chica se levanta.
— Pode ir. — Minha mãe aponta a porta.
Chica olha para mim e eu faço um pequeno gesto com a cabeça, pedindo desculpas silenciosas pelo ocorrido. Ela sai e, no exato momento em que a porta se fecha, eu sinto o ambiente mudar.
— Precisamos conversar sobre a festa. — Minha mãe caminha até a mesa.
— Ainda faltam dois meses. — Reviro os olhos.
— Exatamente.
— Então temos tempo — volto a minha atenção aos papéis à minha frente.
— Você já decidiu com quem vai? — Ela ignora meu comentário.
— Sim. — Eu sinto meu corpo ficar rígido.
— Com quem?
Não respondo e ela me encara com o olhar que sempre me diminui, é sempre assim, desde criança.
— Com quem você vai? — Repete a pergunta.
— Victoria — respondo em um só fôlego.
O silêncio que segue é pesado, eu sei o que virá a seguir, eu já conheço o ciclo vicioso em que ela me coloca todas as vezes que discordo dela.
— Você está falando sério? — Minha mãe solta uma risada curta.
— Estou.
— Você pretende aparecer na festa anual da editora com ela? — Seu semblante muda completamente.
— Sim.
— Isso é um absurdo. — Sua voz é fria.
— Por quê? — Respiro fundo.
— Você realmente precisa perguntar?
— Preciso.
— Porque essa festa é importante para a família. Para a imagem da editora. — Ela coloca a bolsa sobre uma cadeira.
— Victoria não prejudica a imagem da editora. — Sinto meu maxilar ficar tenso.
— Não estou falando da editora. — Seu olhar é desafiador.
— Então está falando do quê?
— De você.
— O que tem eu? — Quero ver até onde essa conversa vai chegar.
— Você é a diretora da empresa, filha da família que construiu tudo isso. E vai aparecer diante de investidores, autores, jornalistas e pessoas importantes, acompanhada por... — Ela faz uma pausa. — Por ela.
— Ela tem nome — meu sangue ferve.
— Eu sei.
— Então use — minha voz sai mais alta do que o esperado.
— Marcela... — Ela revira os olhos.
— O nome dela é Victoria. — A interrompo.
— Você está fazendo uma tempestade por nada — minha mãe suspira.
— Você está diminuindo uma pessoa que não fez absolutamente nada para você.
— Ela não pertence a esse mundo.
— Que mundo? — A frase me atinge.
— O nosso — Enfatiza.
— Ah! — Dou uma risada sem humor.
— Você sabe exatamente do que estou falando — se apoia na mesa com as duas mãos.
— Não, quero que você diga. — A desafio.
— Ela é sua funcionária. — Fala como se fosse algo óbvio.
— E daí?
— E daí que existem pessoas que ocupam determinados lugares.
— Você está dizendo que ela não é boa o suficiente para ficar ao meu lado. — Nossos olhos travam uma batalha.
— Estou dizendo que você precisa ter bom senso.
— Bom senso?
— Você poderia ir com Lúcio.
— Não. — Meu estômago revira.
— Ele é conhecido pela família, tem uma posição compatível com a sua — começa a caminhar de um lado para o outro. — Será bom vocês serem vistos juntos novamente.
— Eu não vou com Lúcio.
— Vocês já estiveram juntos — Se anima ao relembrar.
— E acabou.
— As pessoas entenderiam.
— Eu não me importo com o que as pessoas entenderiam.
— Deveria — minha mãe se aproxima. — Você está colocando seus sentimentos acima da família.
— Pela primeira vez, talvez eu esteja. — Ergo o queixo ao falar isso.
— É exatamente esse tipo de comportamento que me preocupa. — Ela me olha com desprezo.
— Eu vou levar Victoria. — Não mudo de opinião.
— Você não vai.
— Vou.
— Enquanto essa empresa for minha, você não vai transformar uma festa familiar em espetáculo.
— A festa é da editora, não sua. — A enfrento.
— Cuidado. — O rosto dela muda.
— Eu estou cansada de ter que tomar cuidado dentro da minha própria sala.
— Sua sala? — Ela dá uma risada seca e olha ao redor. — Essa empresa ainda é minha.
— Eu sei. — Meu peito aperta.
— Então não se esqueça — ela aponta para mim. — Eu posso entrar aqui quando quiser, posso decidir o que quiser e posso falar com quem eu quiser.
— Você acabou de dispensar a Chica sem sequer me perguntar, isso é deselegante — tento atingir a pose de madame dela.
— Porque eu precisava falar com você.
— Isso não é respeito.
— Respeito? — Ela ri. — Você quer falar de respeito depois de decidir aparecer com aquela garota na festa?
— Não fale dela assim. — Sinto o sangue subir.
— Você está realmente fazendo isso? — Aumenta o tom de voz.
— Fazendo o quê?
— Jogando fora anos de educação, preparação e tudo que construímos para correr atrás de uma funcionária.
A palavra fica ecoando dentro de mim. Funcionária. Como se isso definisse Victoria, como se fosse tudo o que ela é, sendo que, Victória é uma mulher maravilhosa, responsável, trabalhadora e empenhada em criar bem a filha.
— Você não a conhece. — Minha voz sai baixa.
— Não preciso.
— Precisa, sim.
— Não — ela pega a bolsa. — E vou dizer uma coisa que talvez ninguém tenha coragem de dizer.
— O quê? — Sinto um aperto no peito.
— Você está se humilhando — ela me olha dos pés à cabeça.
— Mãe... — Meus olhos lagrimejam.
— Uma mulher como você poderia estar com qualquer pessoa — ela continua. — E escolhe justamente alguém que não tem nada para oferecer além de problemas.
Sinto os olhos arderem, mas não quero que ela perceba, não quero dar esse gosto a alguém tão arrogante.
— Já chega — minha voz ainda sai baixa.
— Não, ainda não — ela é cruel. — Você sempre teve tudo: educação, dinheiro, nome, uma posição e, mesmo assim, insiste em fazer escolhas que nos colocam em situações ridículas.
— Victoria não é ridícula.
— Ela é inadequada para você.
Fecho os olhos por um instante, quando abro, encaro minha mãe. Ela me conhece muito bem para saber que conseguiu me atingir como gostaria.
— Você terminou?
— Por enquanto — pega a bolsa. — Pense no que falei sobre Lúcio.
— Não vou pensar.
— A festa é daqui a dois meses. Espero que até lá você tenha recuperado o bom senso.
Ela vai embora. A porta se fecha e eu fico imóvel, ou melhor, completamente imóvel. Por alguns segundos, não consigo fazer nada, não consigo respirar direito. Olho para a mesa, para os documentos, até para a cadeira onde minha mãe estava.
E então sinto uma raiva tão grande que preciso levantar, caminho até a janela. A cidade continua como sempre lá embaixo. Normal, indiferente, como se nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu.
E, por alguns minutos, as palavras dela continuam repetindo dentro da minha cabeça.
“Você está se humilhando.”
“Ela não pertence a esse mundo.”
“Não tem nada para oferecer.”
Fecho os olhos e penso em Victoria, no sorriso, na maneira como ela cuida da filha, na forma como trabalha até estar exausta sem reclamar e na maneira como me olha quando acha que ninguém está vendo.
Penso no fim de semana, no beijo antes de entrarmos na editora, e uma coisa fica clara: eu não vou deixar que minha mãe estrague isso. Não hoje.
Pego meu celular e olho as horas. Eu preciso sair daqui, eu preciso respirar e, quando saio da minha sala, encontro Victoria voltando de algum outro setor.
Ela está com alguns documentos nas mãos, mas, assim que me vê, sorri. O sorriso dela quase acaba comigo.
— Está tudo bem? — Pergunta quando percebe minha aflição.
Paro diante dela e, por um breve momento, penso em mentir, mas não quero.
— Eu preciso sair — Admito.
— Agora? — Ela franze a testa.
— Agora.
— Aconteceu alguma coisa?
Olho ao redor, somente para não a encarar e desmoronar ali na frente dela, correndo o risco de que algum funcionário me veja assim.
— Eu preciso dar uma volta.
— Marcela... — Ela percebe imediatamente que alguma coisa aconteceu.
— Vou passar na escola da Heloísa.
— Na escola? — Ela arregala os olhos.
— Sim — digo, simples.
— Marcela, ainda nem são dez horas. — Parece um pouco desconfortável.
— Eu sei. — Não sei o que responder.
— Ela está em aula.
— Eu sei.
— Você vai tirá-la da escola?
— Vou.
— Ela vai perder aula — Victoriasuspira.
— Eu a ajudo depois — penso em uma solução.
— Mas...
— Eu só preciso sair daqui, Victoria — minha voz denuncia mais do que eu gostaria.
Ela me observa e entende. Não pergunta sobre minha mãe, apenas olha para mim por alguns segundos.
— Você quer que eu vá com você?
— Não. — Meu coração volta a apertar e ela parece decepcionada. — Eu preciso ficar sozinha um pouco, mas quero a Heloísa comigo.
— Você está bem?
Não consigo responder imediatamente, não quero mentir para a única pessoa que tem sido boa comigo, então sorrio.
— Vou ficar.
— Você não parece bem — continua me encarando.
— Eu sei.
— Então vai — ela segura minha mão discretamente, escondendo o gesto entre nós.
— Você não vai brigar comigo por tirar sua filha da escola, né? — Sinto meus olhos arderem novamente.
— Claro que não vou. — Ela sorri.
— Ótimo.
— Mas só porque você vai me obrigar a fazê-la estudar depois. — Confessa.
— Eu já pensei nisso. — Preciso pensar mesmo.
— Imagino.
Solto sua mão e, antes de me afastar, toco seu rosto rapidamente.
— Eu volto mais tarde. — Aviso.
— Tá — concorda. — Esperarei vocês.
Ela não precisa explicar, e eu sei pelo olhar dela que entendeu, e talvez seja exatamente isso que eu precise naquele momento. Não de alguém me dizendo o que fazer ou de alguém tentando me lembrar do que a minha família espera de mim.
Só de alguém que me olha e, mesmo sem saber tudo o que foi dito naquela sala, consegue enxergar que eu estou machucada.
Saio da editora, entro no carro e fico alguns segundos parada antes de ligar o motor. Minha mãe pode continuar acreditando que Victoria não pertence ao meu mundo.
Mas talvez esse seja justamente o problema, pois talvez eu esteja finalmente percebendo que nunca quis viver no mundo que ela construiu para mim.
Eu quero construir o meu e, nele, Victoria tem lugar.
******
Assim que estaciono em frente à escola, sinto aquela mesma sensação desagradável que sempre tenho quando venho aqui. Não gosto deste lugar.
Desligo o carro e olho para o prédio.
— Vamos lá — solto um suspiro.
Pego minha bolsa e entro, vou até a recepção e informo que vim buscar Heloísa. A funcionária confere alguma coisa no computador.
— Heloísa? — Arqueia a sobrancelha.
— Sim — passo o nome completo dela.
— Ela está autorizada a sair.
— Certo.
Agradeço e me afasto. Só isso, ninguém pede meu documento, ninguém confirma novamente quem eu sou ou sequer parece considerar a possibilidade de eu não ser quem digo que sou.
Mais uma vez, sinto a irritação crescer dentro de mim, mas guardo o comentário para mim, pois não é o momento.
Poucos minutos depois, vejo Heloísa surgir no corredor. Ela vem com a mochila nas costas e, assim que me vê, abre um sorriso enorme.
— Marcela! — O sorriso dela consegue mudar meu humor imediatamente.
— Oi, Pulguinha — a abraço assim que ela chega até mim. — Pronta para passar o dia comigo?
— Sim! — Dá alguns pulinhos.
— Então vamos.
Ela segura minha mão e começamos a caminhar até a saída. No caminho, pergunto sobre a aula, sobre o que ela fez naquela manhã e se aconteceu alguma coisa interessante.
Ela responde animada, até chegarmos perto do portão, pois é quando percebo que ela diminui o passo.
— O que foi? — Pergunto.
Ela não responde, mas seu olhar está fixo, olho para frente. Uma mulher está parada perto da saída, acompanhada de uma menina que reconheço vagamente como sendo da mesma turma de Heloísa.
Nunca vi aquela mulher antes, ela parece ter acabado de sair de uma reunião importante. Está impecavelmente vestida, com uma bolsa elegante, cabelo perfeitamente arrumado e joias discretas que, eu conheço muito bem as marcas.
Ela olha para nós, depois para Heloísa e, assim que seus olhos encontram a menina, Heloísa se aproxima mais de mim.
Estranho.
Muito estranho.
— Você é a Marcela? — A mulher se aproxima.
— Sim — Paro.
— Prazer. Sou Kátia — ela estende a mão — Mãe da Isabela.
Olho rapidamente para a menina ao lado dela, então é essa a criança de quem Heloisa me contou que já havia rido de seus penteados.
— Prazer — aperto a mão dela.
— Eu queria conhecê-la. — Ela fala animada — Isa comentou sobre você.
— Conhecer?
— Sim.
Ela olha para Heloísa, a menina abaixa imediatamente os olhos. Meu instinto protetor se acende.
— Em que sentido? — Arqueio a sobrancelha.
— Eu tenho reparado em algumas coisas. — Ela olha para o cabelo de Helô.
— Que coisas?
— Você é quem tem arrumado o cabelo dela para a escola?
— Algumas vezes. Por quê? — Olho para a pequena ao meu lado.
— Eu imaginei. — Kátia sorri — Desde que você começou a fazer, os penteados estão muito melhores.
— Melhores? — Não estou entendendo onde essa mulher quer chegar.
— Sim — ela olha novamente para Heloísa. — Antes eram horríveis.
— Como assim? — Minha expressão endurece.
— Ah, não me leve a mal — ela faz um gesto com a mão. — É só que...
— Continue — a encorajo, sentindo minha raiva ficar ainda mais forte.
— Aquela moça é... diferente.
— Diferente como? — Meu sangue começa a ferver.
— Você sabe.
— Não, eu não sei. — Ela parece desconfortável com minha resposta.
— Eu só quis dizer que ela não tem exatamente muito jeito para essas coisas. — Revira os olhos.
— Para pentear o cabelo da própria filha?
— Para ser mãe.
A frase me atinge como um raio, olho para Heloísa e ela se esconde um pouco atrás de mim. Meu coração aperta ao vê-la tão frágil assim.
— Entendi — solto uma risada sem humor. — Ainda bem que não estamos interessadas na sua opinião.
— Agora Heloísa vem para a escola apresentável, os cabelos estão arrumados, as roupas...
— Pare — digo, firme.
— Desculpe? — Ela pisca como se não tivesse entendido direito.
— Pare de falar da Victoria dessa maneira. — Respiro fundo.
— Eu não quis ofender. — O sorriso dela desaparece.
— Ofendeu — minha voz já não mostra calmaria.
— Marcela, eu só estou fazendo um comentário — tenta se defender.
— Não — olho para Heloísa — Você está julgando uma mãe que não conhece, quando está nítido que quem é uma péssima pessoa é você.
— Eu acho que você está exagerando, e...
— E eu acho que você deveria escolher melhor as palavras quando fala perto de uma criança — a interrompo.
— Eu acho que você está se envolvendo demais. — Estufa o peito.
— Talvez — olho diretamente em seus olhos — mas eu vou continuar me envolvendo quando for necessário.
— Afinal, você nem é mãe dela. — Ela solta uma risada curta.
— Não. — Minha voz sai calma. — Não sou, mas isso não significa que eu não possa protegê-la.
— Você está levando isso para um lado des...
— E, antes que você volte a falar do cabelo dela, vou deixar uma coisa clara — a interrompo novamente. — Victoria pode não pentear o cabelo da filha do jeito que você considera bonito, mas ela acorda todos os dias, cuida da filha, trabalha, se preocupa, corre atrás de tudo e ama essa menina mais do que qualquer penteado perfeito poderia demonstrar.
— Eu nunca disse que...
— Disse o suficiente — digo e ela fica calada. — E nunca mais chame a mãe dela de diferente como se fosse um insulto, pois eu vou fazer questão de te colocar no seu devido lugar.
— Eu não disse isso — o rosto de Kátia muda.
— Disse — Minha voz continua firme. — E não vou permitir que você fale assim dela perto da filha dela ou de mim novamente, e acho bom que sua filha pare de implicar com a minha.
Kátia olha ao redor, percebendo que algumas pessoas começaram a prestar atenção.
— Acho que essa conversa acabou — Digo.
— Concordo — ela fala apressadamente e sai.
Pego a mão de Heloísa e ela segura meus dedos imediatamente. Dou alguns passos, mas paro e olho para o prédio da escola. A irritação que eu já sentia antes voltou ainda mais forte.
Não apenas por causa daquela mulher, mas também pela escola. Pelo que está acontecendo com Heloísa e da maneira como ninguém parece estar percebendo. Olho para a menina ao meu lado.
— Pulguinha?
— Sim? — Ela levanta os olhos em minha direção.
— Você está bem?
— Estou — ela hesita.
— Vamos fazer uma coisa — aponto a escola — Vamos conversar com a coordenação.
— Eu fiz alguma coisa? — Os olhinhos dela se arregalam.
— Não, meu amor. — Abaixo-me imediatamente e seguro seu rosto com delicadeza. — Você não fez absolutamente nada.
— Então por que vamos à coordenação?
— Porque alguns adultos precisam fazer melhor o trabalho deles, e vamos resolver isso agora.
Levanto-me e seguro sua mão novamente, começo a caminhar em direção à coordenação.
Dessa vez, não vou embora sem resolver essa situação e, principalmente, não vou permitir que Heloísa saia daqui acreditando que existe alguma coisa errada nela ou na família que tem.
Porque talvez eu não seja a mãe dela, mas, nesse momento, isso não importa. Ela está segurando a minha mão e eu não vou soltar a dela.
Fim do capítulo

Duduka
02/10/2026 às 19:36