Victoria
Uma semana.
Foi esse o tempo que conseguimos passar sem aparecer juntas em público. Uma semana inteira de reuniões, prazos, contratos, telefonemas, eventos que uma precisava comparecer enquanto a outra estava presa em alguma reunião, e uma quantidade absurda de trabalho que fez parecer perfeitamente natural que duas mulheres que supostamente estavam namorando não tivessem sido vistas juntas.
Só que, aparentemente, para os jornais, natural não significa interessante. Na quarta-feira, apareceu a primeira matéria. Na quinta, vieram outras duas. Na sexta-feira, já existiam teorias suficientes para criar uma novela mexicana inteira.
“Marcela Albuquerque e Victoria estariam enfrentando uma crise?”
“Casal queridinho dos tabloides passa dias sem ser visto junto.”
“Relacionamento de fachada?”
Essa última manchete me fez quase derrubar o café. Eu sabia que era essa pergunta um dia sairia, sabia que alguém, em algum momento, começaria a desconfiar.
Mas não esperava que fosse tão rápido e, muito menos que isso fosse me incomodar tanto. O problema é que não era só a imprensa, os paparazzis estão novamente rondando a casa de Marcela. Não de maneira descarada, mas escondidos em carros estacionados a algumas casas de distância, atrás de árvores, perto da esquina. Sempre havia alguém.
Era justamente por isso que, naquela manhã, Marcela me mandou uma mensagem simples:
Precisamos aparecer juntas.
Eu fiquei olhando para a tela durante alguns segundos.
Depois veio outra, logo em seguida:
E talvez seja uma boa desculpa para passarmos o fim de semana juntas.
A segunda frase foi a que me deixou inquieta, porque passar um fim de semana com Marcela não deveria parecer uma ideia tão boa. Mas pensar nessa hipótese, me fez tremer como uma adolescente.
E talvez esse fosse o verdadeiro problema, sentir esse sentimento de que estou vivendo como uma adolescente vivendo o seu primeiro amor. Porém, eu devo me lembrar que não sou nenhuma adolescente e nem estou vivendo um amor.
Agora, sábado à tarde, estou parada diante do espelho do quarto de hóspedes da casa dela, tentando decidir se a roupa que escolhi parece casual o suficiente para um passeio no shopping ou arrumada demais para alguém que supostamente só vai passar algumas horas fazendo compras com a namorada.
A palavra ainda me causa uma reação estranha: Namorada.
— Mamãe! — A voz de Heloísa vem do corredor.
— Já estou indo — Eu termino de arrumar o cabelo e saio do quarto.
Assim que entro no corredor, encontro minha filha saltando praticamente de um lado para o outro. Ela está usando um pijama colorido e uma mochila pequena, embora eu tenha explicado umas quatro vezes que ela não precisava colocar o pijama antes de chegar à casa da amiga.
— Helô — Chamo seu nome mais uma vez.
— O quê? — Responde ainda muito animada.
— Por que você está vestida assim? — Tento não rir.
— É minha festa do pijama. — Ela olha para si mesma.
— Mas você vai colocar o pijama à noite. — A lembro.
— Eu sei. — Me responde como se fosse óbvio.
— Então por que está com ele agora?
— Porque eu estou preparada. — Ela fala enquanto tira sua mochila das costas e a abre — Eu vou levar minha escova de dentes, meu pijama, minha boneca, o livro, o carregador, minha escova de cabelo...
— Muito bem — Digo quando ela para um pouco para respirar.
— E o presente para a Sofia — Ela lembra.
— Ótimo.
— E o meu chinelo.
— Perfeito.
— E você anotou o número da mãe dela? — Me encara com os olhinhos arregalados.
— Anotei.
— E o endereço?
— Também.
— E se eu quiser voltar para casa? — Faz um pequeno bico com os lábios.
— Você me liga. — Tento passar segurança a ela.
— E se eu estiver com saudade?
— Você me liga.
— E se...
— Helô.
— Estou brincando — Ela ri.
— Você já me perguntou três vezes se eu confirmei com a mãe da Sofia o horário que você pode chegar.
— E você confirmou? — Quarta vez.
— Três vezes.
— Então está tudo bem — Ela abre um sorriso enorme. — Eu nunca dormi fora de casa.
— Eu sei — Meu coração aperta um pouquinho, minha pequena está crescendo.
— Estou muito animada — Volta a dar seus conhecidos pulinhos.
— Eu também estou, pulguinha.
Ela me abraça pela cintura e eu aperto minha filha contra mim. Às vezes sinto vontade de mantê-la perto de mim para sempre, debaixo dos meus olhos, para que nada e nem ninguém faça mal a ela.
— Mas escuta uma coisa — Digo e ela se afasta e me olha — Segurança primeiro.
— Eu sei, mamãe — Ela revira os olhos.
— Se comporte na casa da sua amiguinha e vá dormir no horário que a mãe dela disser que já está na hora.
— Eu sei.
— Não saia de casa sem a mãe da Sofia.
— Eu sei.
— Se alguma coisa te deixar desconfortável, você me liga imediatamente.
— Eu sei.
— E não aceite comida ou qualquer coisa de uma pessoa que você não conhece.
— Eu sei, mamãe.
— E se...
— Mamãe — Ela coloca as mãos na cintura — Você já falou tudo isso três vezes.
— Porque eu quero ter certeza — Reforço.
— Eu vou ficar bem.
— Ela vai — A voz de Marcela surge de algum lugar.
Olho para trás e ela está parada no início do corredor. Meu cérebro esquece por alguns segundos o que eu estava falando. Marcela está usando uma calça jeans escura, uma blusa clara de mangas dobradas e os cabelos soltos. Nada extravagante.
Mesmo assim, parece impossível que alguém consiga ficar tão bonita usando roupas tão simples. Mas ela consegue e ela percebe meu olhar.
— O quê? — Pergunta e logo olha para a própria roupa.
— Nada.
— Você estava me encarando, há algo de errado? — Ela sabe que não tem nada de errado.
— Não estava — Tento fugir do assunto.
— Estava sim — Heloísa olha para nós duas.
— Obrigada pela ajuda, filha. — Encaro a pequena.
— De nada.
Marcela ri e eu desvio o olhar. Está começando a ficar difícil disfarçar o quanto essa mulher mexe com a minha cabeça. Não me julguem, ela é uma grande gostosa e somente um cego não veria o quanto ela fica linda em qualquer roupa. Até se ela se vestisse com um saco de batata.
— Está pronta? — Pergunto para minha filha.
— Estou.
— Então vamos deixar nossa pequena aventureira na casa da Sofia.
— Festa do pijama! — Heloísa começa a pular novamente.
— Primeiro a festa do pijama — digo. — Depois shopping.
— Vocês vão comprar alguma coisa para mim? — A pequena pergunta descaradamente.
— Talvez — A provoco.
— Muito?
— Não abusa.
Ela ri. Pouco tempo depois, estamos no carro. O trajeto até a casa da amiga de Heloísa é tranquilo, embora minha filha consiga transformar quinze minutos de caminho em uma palestra inteira sobre como será sua noite.
Quando finalmente chegamos, confiro o endereço mais uma vez. Desço com ela, converso com a mãe da menina, faço perguntas, confirmo horários, explico que Heloísa nunca dormiu fora de casa e peço que me ligue se houver qualquer problema.
Ela é extremamente simpática e garante que ficará tudo bem. Eu acredito ou mais ou menos. Depois de abraçar minha filha, fico segurando sua mão.
— Se precisar de qualquer coisa...
— Eu ligo — Completa.
— E se...
— Mamãe — Me interrompe. Essa menina está muito atrevida.
— Tá. — Beijo sua testa — Divirta-se.
Ela corre para dentro e eu fico olhando até vê-la desaparecer. Quando volto para o carro, Marcela está sorrindo.
— Você estava prestes a pedir o CPF da mãe da Sofia. — Solta uma gargalhada.
— Eu só queria ter certeza.
— Você ligou três vezes antes de sairmos.
— Quatro.
— Quatro — Ri mais uma vez
— Você acha engraçado.
— Um pouco — Admite.
— Quando for sua filha...
— Eu provavelmente farei pior.
— Provavelmente.
Ela liga o carro e seguimos.
******
O shopping está lotado. É sábado e, aparentemente, metade do Rio teve a mesma ideia que nós. Assim que entramos, percebo os primeiros olhares.
Algumas pessoas reconhecem Marcela, outras olham duas vezes, algumas cochicham. Uma garota até pega o celular e não demora muito para eu entender que, se estamos tentando evitar rumores sobre uma crise, provavelmente não deveríamos caminhar lado a lado com cinco metros de distância.
Olho para Marcela, ela não entende o que quero fazer, e não há como eu explicar. Então, apenas estendo a mão. Ela olha para meus dedos, depois para mim. Por um instante, parece surpresa, mas segura minha mão.
E acontece uma coisa completamente inesperada, nossas mãos se encaixam. PERFEITAMENTE. Não existe aquele desconforto de tentar encontrar uma posição. Os dedos dela deslizam naturalmente entre os meus e meu coração dá uma pequena acelerada.
É ridículo. É só uma mão, só um gesto, só parte do contrato. Mas continuo caminhando e não solto.
Marcela olha para nossas mãos, depois para mim.
— Está tudo bem? — Questiona.
— Está. — Minha voz sai estranha.
— Tem certeza?
— Temos um público.
— Claro. — Ela sorri.
Continuamos andando e as pessoas realmente olham.
E talvez seja justamente isso que me faça esquecer, por alguns minutos, que estamos fingindo. Porque a sensação da mão dela na minha é boa. Boa demais.
Quando passamos por uma vitrine, vejo nosso reflexo, duas mulheres caminhando de mãos dadas. Marcela está falando alguma coisa e eu estou sorrindo.
Parece real.
Muito real.
Entramos em algumas lojas, Marcela compra um livro e eu compro algumas coisas para Heloísa, depois passamos por uma loja de roupas. Marcela para de repente.
— Espera. — Me puxa,
— O quê?
— Aquele vestido — Ela aponta para a vitrine.
Olho, é um vestido bonito, elegante, mas simples.
— Gostou? — Pergunto.
— Muito — Seus olhos brilham.
— Então entra.
— Você vai esperar? — Ela me olha.
— Claro.
— Não precisa — Fala sem jeito.
— Eu quero ver você experimentar.
Ela sorri e entramos. E, assim que passamos pela porta, nossas mãos se soltam. Não sei por que sinto falta do contato imediatamente.
Uma vendedora aparece quase no mesmo instante.
— Boa tarde! Posso ajudar vocês?
— Boa tarde — Marcela responde.
— Está procurando alguma coisa específica? — A mulher olha diretamente para ela.
— Aquele vestido da vitrine — Marcela aponta.
— Ah, sim! Ficaria maravilhoso em você.
Sinto alguma coisa estranha no estômago. A vendedora sorri. Demais. Ela não precisa sorrir tanto assim.
— Seu tamanho? — Questiona.
Marcela responde, e a mulher nos deixa apenas por alguns instantes para pegar o vestido, mas logo está de volta.
— Venha comigo. Vou mostrar outras opções também.
Ela praticamente ignora minha existência. Eu cruzo os braços. Tudo bem, é uma vendedora, está trabalhando, é normal.
Então por que ela precisa tocar no braço de Marcela para mostrar onde fica o provador?
— Se quiser, posso separar algumas peças para você experimentar. — Volta a sorrir.
— Não precisa — digo.
— Ela prefere experimentar sozinha? — A mulher olha para mim.
Ela. Como se eu nem estivesse ali.
— Ela prefere — respondo.
Marcela olha para mim, existe um pequeno brilho divertido nos olhos dela e eu tenho vontade de enfiá-la dentro do provador o mais rápido possível para tirá-la da presença dessa mulher.
— Victoria — Tenta me repreender.
— O quê? — Minha voz sai mais grossa que o esperado.
— Nada.
— Se precisar de qualquer coisa, é só me chamar. — A vendedora volta a falar com Marcela e me ignorar.
— Obrigada.
Ela entra no provador, enquanto eu fico esperando.
Dois minutos.
Cinco.
Dez.
Quando Marcela sai usando o vestido, eu esqueço completamente minha irritação por alguns segundos. Ela está linda, o vestido cai perfeitamente sobre o corpo.
— E então? — pergunta.
— Está bonito.
— Só bonito? — Ela arqueia uma sobrancelha.
— Muito bonito.
— Eu sabia que ficaria perfeito. — A vendedora se aproxima e percebo que ela olha Marcela de cima a baixo — Se quiser, posso trazer alguns acessórios para combinar.
— Não precisa — digo novamente.
— Acho que vou experimentar mais algumas coisas — Marcela olha para mim.
— Mais? — Eu arregalo os olhos.
— Gostei das opções.
— Claro.
Ela sorri e entra novamente. Eu fico parada, a vendedora passa por mim.
— Sua amiga é muito exigente.
— É — Eu preciso me controlar.
— Mas vale a pena, ela tem um corpo ótimo para esse tipo de roupa.
— Imagino — Olho para ela.
— Você também pode experimentar alguma coisa.
— Não, obrigada.
— Se quiser, eu posso te ajudar.
— Não precisa.
Ela parece entender a mensagem, ou deveria. Quando Marcela sai novamente, está usando outro vestido.
Depois outro.
Depois uma blusa.
Depois uma calça.
Em algum momento, começo a suspeitar que ela está fazendo aquilo de propósito.
— Marcela — A chamo quando ela me mostra a milésima prova de roupa.
— O quê?
— Você precisava mesmo experimentar tudo isso? — Reviro os olhos.
— Estou escolhendo — Se faz de desentendida.
— Você já escolheu.
— Ainda não.
— Ela está certa, essa última ficou maravilhosa. — A vendedora volta a sorrir igual uma hiena.
— Ficou mesmo — Marcela se olha no espelho.
— Muito — A mulher se aproxima — Você tem Instagram?
Meu cérebro trava, Marcela parece não entender a pergunta e eu pareço ter entendido bem demais. Minha vontade é perguntar se essa mulherzinha não tem mais o que fazer ao invés de ficar dando em cima da minha namorada.
— Tenho — Marcela responde sem dar muita importância.
— Posso te seguir? — A vendedora se anima.
— Ah...
— Para você ver as novidades da loja.
— Ela não precisa — A resposta sai antes que eu consiga pensar.
A vendedora olha para mim e Marcela também. Eu não me intimido com o olhar de nenhuma das duas, eu que não vou ficar aqui vendo essa palhaçada de camarote.
— Victoria — Marcela me chama entredentes, enquanto olha para a vendedora.
— O quê? — Digo, sem paciência.
— Nada.
— Então vou deixar meu cartão com vocês — A vendedora volta a expor o sorriso feio dela — Caso precise de alguma coisa.
— Obrigada. — Marcela diz apenas isso.
Finalmente escolhe duas peças e vamos em direção ao caixa. Enquanto a atendente passa as roupas, a vendedora fica conversando com Marcela.
Pergunta onde ela mora, pergunta se ela costuma frequentar o shopping, se trabalha perto. Eu fico cada vez mais irritada e tento não demonstrar.
Falho miseravelmente.
Quando a compra termina, a vendedora entrega uma sacola para Marcela e, então pega um cartão. Mas antes, escreve alguma coisa atrás.
— Aqui — Entrega. — Se precisar trocar alguma coisa, ou quiser alguma informação sobre novas peças, pode me mandar mensagem.
— Obrigada. — Minha chefe pega o cartão.
Olho para o cartão, depois para a mulher, não consigo ficar calada ao ver o que está escrito.
— Ela não precisa do seu contato.
— Como? — A vendedora pisca.
— O contato — Aponto para o cartão. — Minha namorada não precisa.
Marcela me olha e a vendedora parece sem graça. Eu não me importo com os olhares de nenhuma das duas.
— Ah! — Exclama.
— E, provavelmente, ela nunca mais vai voltar nessa loja — Completo.
Silêncio, Marcela abaixa o rosto, tentando esconder um sorriso.
— Victoria — Me chama mais uma vez.
— O quê? — Não tiro os olhos da vendedora.
— Vamos.
Ela segura meu braço e logo saímos da loja. Assim que atravessamos a porta, ela começa a rir. Eu a encaro ainda brava e ela ri ainda mais.
— Não tem graça — Digo, indignada.
— Eu não disse que tinha — Mas não para de rir — Você está com ciúmes.
— Não estou — Reviro os olhos.
— Está.
— Não.
— Eu ainda acho que está — Provoca.
— Ela estava flertando com você — Acuso.
— Ela estava trabalhando — Diz como se não fosse nada demais.
— Trabalhando? — Não acredito no que ouço.
— Sim.
— Ela escreveu o número dela no cartão — Paro onde estou e coloco a mão na cintura.
— Talvez seja prática da loja — Ela me encara, ainda com um sorrisinho debochado no rosto.
— Marcela, ela perguntou seu Instagram.
— Também pode ser prática da loja.
— Perguntou onde você mora.
— Você decorou tudo? —Ela segura o riso.
— Não — Reviro os olhos e respiro fundo.
— Decorou.
— Não interessa.
Ela volta a andar e eu acompanho. Eu não acredito que ela vai ter a audácia de defender aquela mulherzinha oferecida. Prática da loja? Fode-se qualquer prática que inclua dar em cima das clientes.
— Você está com ciúmes — Volta a falar.
— Não estou — Repito.
— Está muito.
— Não estou.
— Então por que você disse que eu nunca mais voltaria naquela loja? — Tenta me pregar uma peça, mas eu não vou cair.
— Porque você não vai — Respondo, simples.
— E por que não? — Arqueia a sobrancelha.
— Porque eu não gostei da vendedora.
— Isso é ciúme — Volta a insistir.
— É bom senso. — Explico.
— Claro — Ela ri.
— Para de rir — digo, ainda mais brava.
— Não consigo — É sincera.
— Marcela — Passo a mão pelo rosto tentando me acalmar.
— Você ficou muito brava.
— Eu só não gostei da maneira como ela estava falando com você.
— Ela estava sendo simpática.
— Simpática demais — Falo sem pensar.
Marcela para de andar e eu paro também. Ela me olha, inicialmente apenas analisando minha expressão, aquele olhar clínico, certeiro, que só ela tem.
— E isso te incomodou? — Sua voz sai controlada.
— Não. — Tento disfarçar.
— Victoria.
— O quê? — Se ela chamar mais uma vez o meu nome, eu não respondo por mim.
— Você está vermelha — Aponta para minhas bochechas.
— Está calor.
— Estamos no ar-condicionado — Debocha.
— Eu estou com raiva — Confesso.
— De mim? — Me encara.
— Não. — Sou sincera.
— Dela? — Tenta descobrir.
— Talvez — Mais uma vez sou sincera.
— Você é muito transparente — Ela sorri.
— E você é muito irritante.
— Eu sei.
Ela segura minha mão novamente, meu corpo reage antes da minha cabeça. Olho para nossos dedos entrelaçados e sinto que nossas mãos foram feitas uma para a outra.
— Vamos continuar.
— Vamos.
E continuamos. Mas a verdade é que minha irritação não passa.
Voltamos para casa no começo da noite. Assim que entramos, deixo as sacolas sobre o sofá, Marcela coloca as dela ao lado. A casa está silenciosa sem a Helô por aqui.
— Quer alguma coisa para comer? — Me pergunta.
— Não — Minha voz sai seca mesmo sem eu querer.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela me olha, me analisa mais uma vez, tira seus saltos e joga em qualquer canto da sala.
— Você ainda está brava — Não é uma pergunta.
— Não estou.
— Então vamos conversar — Ela continua me encarando.
— Não tem nada para conversar — Reviro os olhos.
— Tem sim — Ela cruza os braços. — Você ficou com ciúmes.
— Eu não fiquei com ciúmes, já te falei isso.
— Você não precisa fingir que não ficou — Sua voz é mansa.
— Eu só achei desnecessário — Confesso.
— O quê? — Me olha, confusa.
— Tudo aquilo.
— O quê exatamente? — Insiste.
— Ela.
Marcela quase sorri, mas vejo que ela tenta manter o controle, pois sabe que se ela rir mais uma vez é capaz de eu a jogar pela janela.
— "Ela" não é exatamente uma explicação.
— Você sabe o que eu quero dizer — Bufo.
— Quero ouvir você dizer — Confessa.
— Ela estava dando em cima de você — Respiro fundo.
— E? — Tenta prolongar o assunto.
— E você deixou.
— Eu deixei? — Ela franze a testa.
— Sim.
— Como? — Vejo sua expressão mudar.
— Você ficou conversando com ela.
— Porque ela estava me atendendo.
— Ela perguntou seu Instagram.
— E eu nem dei.
— Mas você respondeu.
— O que eu deveria fazer? Ignorar?
— Talvez.
— Por quê?
— Porque...
Paro. Porque o quê? Porque somos namoradas. Mas não somos.
Porque eu não gosto que outra mulher olhe para ela daquele jeito.
Porque aquele cartão me incomodou.
Porque eu não gostei de imaginar Marcela recebendo uma mensagem daquela mulher.
Porque...
Não.
Não vou dizer.
— Porque, se as pessoas acham que nós somos realmente namoradas, você não deveria dar abertura para ninguém. — Digo a primeira merda que me vem em mente.
— Eu não dei abertura — ela me encara, perdendo a paciência.
— Deu sim — Insisto.
— Não dei.
— Você estava sorrindo para ela — Acuso.
— Eu sorrio para as pessoas.
— Não daquele jeito.
— Que jeito, Victoria? — Ela cruza os braços.
— Você sabe — Nem eu sei do que estou falando.
— Não sei.
— Marcela...
— Victoria.
Ficamos frente a frente, meu coração começa a bater rápido. Só de pensar que nesse exato momento, ela poderia estar pensando em mandar mensagem para aquele contato, me tira ainda mais a paz.
— Você realmente acha que dei abertura para aquela mulher? — Sua voz parece chateada.
— Eu acho que você poderia ter percebido as intenções dela — Puxo o ar com mais força.
— Eu não percebi.
— Esse é o problema — Jogo as mãos para o ar.
— Então o problema é que eu não sou boa em interpretar flerte? — Mantem o peso do corpo em um lado só enquanto cruza os braços.
— O problema é que você é ingênua. — A acuso.
— Eu? — Sorri com um sorriso completamente sem humor.
— Sim.
— Eu não sou ingênua.
— Foi o que pareceu.
— E você é especialista?
— Não.
— Então por que está tão incomodada?
Silêncio. Não há uma explicação plausível para minha atitude. Eu sei que foi ciúmes, eu sei que fiquei incomodada com aquela mulher, mas não é algo que eu esteja a fim de admitir. Nossos olhares travam uma batalha.
— Eu não estou incomodada. — Tento mais uma vez.
— Então olha para mim e diz isso — Me desafia.
— O quê? — Meu corpo congela.
— Diz que você não ficou com ciúmes.
Eu abro a boca, mas nada sai. Marcela espera, e eu tento mais algumas vezes e, por mais que eu queira, não há como eu mentir olhando nos olhos dela.
— Victoria.
— Eu...
— Diz — ela se aproxima um passo.
— Eu não... — Meu coração está disparado.
Mais um passo, agora estamos perto demais. Olho seu rosto e vejo em seus olhos a determinação em me fazer admitir.
— Não ficou? — Insiste mais uma vez.
— Não. — A resposta sai quase num sussurro.
— Então por que está tão vermelha? — Ela sorri de leve.
— Porque você está próxima — minha voz continua baixa.
— E isso te incomoda? — Olha para a minha boca e eu faço o mesmo.
— Talvez. — Droga, estou perdendo a batalha.
— Vic...
— O quê?
Ela está tão perto que consigo sentir sua respiração, seu perfume entra pelas minhas narinas, me lembrando o quanto o seu cheiro é bom, maravilhosamente bom.
— Você sabe que eu não dei abertura para aquela mulher. — Estamos quase sussurrando.
— Sei. — Assinto.
— E sabe que eu não estava interessada nela.
— Sei.
— Então por que está brava?
— Porque... — Engulo em seco.
Paro, não há o que falar. Ela espera, mas eu não consigo dizer. Então faço a única coisa que consigo pensar: seguro a gola da blusa dela e puxo.
Beijo Marcela antes mesmo que ela possa ter tempo para reagir. É um beijo rápido no começo, quase impulsivo. Mas ela imediatamente corresponde e, quando sinto as mãos dela encontrarem minha cintura, o beijo deixa de ser uma resposta para uma discussão e se transforma em algo completamente diferente.
Meu corpo relaxa, minha mão sobe até o rosto dela, ela me puxa um pouco mais para perto, até que o beijo fica lento, familiar e, ao mesmo tempo, perigoso.
Porque não deveria ser tão fácil, não deveria ser tão bom e nem deveria fazer meu coração bater desse jeito.
Quando nos afastamos por um instante, nossas testas permanecem encostadas.
— Isso também é contrato? — ela pergunta baixinho.
— Não começa — fecho os olhos.
— Só estou perguntando.
— Eu sei, mas já conversamos que isso não mudará nada entre a gente, então pare de pensar no contrato.
— Então estamos quites? — Ela sorri.
— Não.
— Não? — Questiona, confusa.
— Não.
— Por quê?
— Porque você ainda não entendeu. — Abro os olhos.
— O quê?
— Eu não quero que você dê abertura para outras mulheres.
— Mesmo que eu não seja sua namorada de verdade? — A pergunta me atravessa.
— Mesmo que você não seja minha namorada de verdade.
— Entendi. — Sua resposta é mais simples do que eu imaginava que seria.
— Entendeu? — reforço.
— Entendi.
— Ótimo.
— Então posso te fazer uma pergunta? — Seu sorriso volta a ficar provocante.
— Pode.
— Você vai ficar com ciúmes toda vez que alguém olhar para mim?
— Não. — Reviro os olhos mais uma vez.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Porque hoje foi bastante convincente.
— Cala a boca.
— Você fica linda com ciúmes — ela ri.
— Eu não estou com ciúmes — digo pela milésima vez, e nem eu acredito mais nessa fala.
— Claro — ela aproxima o rosto novamente. — Claro que não.
E me beija, dessa vez, não existe discussão, não existe explicação. Apenas o beijo.
Apenas fecho os olhos e correspondo e, enquanto ela segura meu rosto e eu mantenho os braços ao redor da cintura dela, uma pequena parte de mim percebe aquilo que venho tentando evitar há semanas. Eu desejo essa mulher, e ela será minha.
Uma semana.
Foi esse o tempo que conseguimos passar sem aparecer juntas em público. Uma semana inteira de reuniões, prazos, contratos, telefonemas, eventos que uma precisava comparecer enquanto a outra estava presa em alguma reunião, e uma quantidade absurda de trabalho que fez parecer perfeitamente natural que duas mulheres que supostamente estavam namorando não tivessem sido vistas juntas.
Só que, aparentemente, para os jornais, natural não significa interessante. Na quarta-feira, apareceu a primeira matéria. Na quinta, vieram outras duas. Na sexta-feira, já existiam teorias suficientes para criar uma novela mexicana inteira.
“Marcela Albuquerque e Victoria estariam enfrentando uma crise?”
“Casal queridinho dos tabloides passa dias sem ser visto junto.”
“Relacionamento de fachada?”
Essa última manchete me fez quase derrubar o café. Eu sabia que era essa pergunta um dia sairia, sabia que alguém, em algum momento, começaria a desconfiar.
Mas não esperava que fosse tão rápido e, muito menos que isso fosse me incomodar tanto. O problema é que não era só a imprensa, os paparazzis estão novamente rondando a casa de Marcela. Não de maneira descarada, mas escondidos em carros estacionados a algumas casas de distância, atrás de árvores, perto da esquina. Sempre havia alguém.
Era justamente por isso que, naquela manhã, Marcela me mandou uma mensagem simples:
Precisamos aparecer juntas.
Eu fiquei olhando para a tela durante alguns segundos.
Depois veio outra, logo em seguida:
E talvez seja uma boa desculpa para passarmos o fim de semana juntas.
A segunda frase foi a que me deixou inquieta, porque passar um fim de semana com Marcela não deveria parecer uma ideia tão boa. Mas pensar nessa hipótese, me fez tremer como uma adolescente.
E talvez esse fosse o verdadeiro problema, sentir esse sentimento de que estou vivendo como uma adolescente vivendo o seu primeiro amor. Porém, eu devo me lembrar que não sou nenhuma adolescente e nem estou vivendo um amor.
Agora, sábado à tarde, estou parada diante do espelho do quarto de hóspedes da casa dela, tentando decidir se a roupa que escolhi parece casual o suficiente para um passeio no shopping ou arrumada demais para alguém que supostamente só vai passar algumas horas fazendo compras com a namorada.
A palavra ainda me causa uma reação estranha: Namorada.
— Mamãe! — A voz de Heloísa vem do corredor.
— Já estou indo — Eu termino de arrumar o cabelo e saio do quarto.
Assim que entro no corredor, encontro minha filha saltando praticamente de um lado para o outro. Ela está usando um pijama colorido e uma mochila pequena, embora eu tenha explicado umas quatro vezes que ela não precisava colocar o pijama antes de chegar à casa da amiga.
— Helô — Chamo seu nome mais uma vez.
— O quê? — Responde ainda muito animada.
— Por que você está vestida assim? — Tento não rir.
— É minha festa do pijama. — Ela olha para si mesma.
— Mas você vai colocar o pijama à noite. — A lembro.
— Eu sei. — Me responde como se fosse óbvio.
— Então por que está com ele agora?
— Porque eu estou preparada. — Ela fala enquanto tira sua mochila das costas e a abre — Eu vou levar minha escova de dentes, meu pijama, minha boneca, o livro, o carregador, minha escova de cabelo...
— Muito bem — Digo quando ela para um pouco para respirar.
— E o presente para a Sofia — Ela lembra.
— Ótimo.
— E o meu chinelo.
— Perfeito.
— E você anotou o número da mãe dela? — Me encara com os olhinhos arregalados.
— Anotei.
— E o endereço?
— Também.
— E se eu quiser voltar para casa? — Faz um pequeno bico com os lábios.
— Você me liga. — Tento passar segurança a ela.
— E se eu estiver com saudade?
— Você me liga.
— E se...
— Helô.
— Estou brincando — Ela ri.
— Você já me perguntou três vezes se eu confirmei com a mãe da Sofia o horário que você pode chegar.
— E você confirmou? — Quarta vez.
— Três vezes.
— Então está tudo bem — Ela abre um sorriso enorme. — Eu nunca dormi fora de casa.
— Eu sei — Meu coração aperta um pouquinho, minha pequena está crescendo.
— Estou muito animada — Volta a dar seus conhecidos pulinhos.
— Eu também estou, pulguinha.
Ela me abraça pela cintura e eu aperto minha filha contra mim. Às vezes sinto vontade de mantê-la perto de mim para sempre, debaixo dos meus olhos, para que nada e nem ninguém faça mal a ela.
— Mas escuta uma coisa — Digo e ela se afasta e me olha — Segurança primeiro.
— Eu sei, mamãe — Ela revira os olhos.
— Se comporte na casa da sua amiguinha e vá dormir no horário que a mãe dela disser que já está na hora.
— Eu sei.
— Não saia de casa sem a mãe da Sofia.
— Eu sei.
— Se alguma coisa te deixar desconfortável, você me liga imediatamente.
— Eu sei.
— E não aceite comida ou qualquer coisa de uma pessoa que você não conhece.
— Eu sei, mamãe.
— E se...
— Mamãe — Ela coloca as mãos na cintura — Você já falou tudo isso três vezes.
— Porque eu quero ter certeza — Reforço.
— Eu vou ficar bem.
— Ela vai — A voz de Marcela surge de algum lugar.
Olho para trás e ela está parada no início do corredor. Meu cérebro esquece por alguns segundos o que eu estava falando. Marcela está usando uma calça jeans escura, uma blusa clara de mangas dobradas e os cabelos soltos. Nada extravagante.
Mesmo assim, parece impossível que alguém consiga ficar tão bonita usando roupas tão simples. Mas ela consegue e ela percebe meu olhar.
— O quê? — Pergunta e logo olha para a própria roupa.
— Nada.
— Você estava me encarando, há algo de errado? — Ela sabe que não tem nada de errado.
— Não estava — Tento fugir do assunto.
— Estava sim — Heloísa olha para nós duas.
— Obrigada pela ajuda, filha. — Encaro a pequena.
— De nada.
Marcela ri e eu desvio o olhar. Está começando a ficar difícil disfarçar o quanto essa mulher mexe com a minha cabeça. Não me julguem, ela é uma grande gostosa e somente um cego não veria o quanto ela fica linda em qualquer roupa. Até se ela se vestisse com um saco de batata.
— Está pronta? — Pergunto para minha filha.
— Estou.
— Então vamos deixar nossa pequena aventureira na casa da Sofia.
— Festa do pijama! — Heloísa começa a pular novamente.
— Primeiro a festa do pijama — digo. — Depois shopping.
— Vocês vão comprar alguma coisa para mim? — A pequena pergunta descaradamente.
— Talvez — A provoco.
— Muito?
— Não abusa.
Ela ri. Pouco tempo depois, estamos no carro. O trajeto até a casa da amiga de Heloísa é tranquilo, embora minha filha consiga transformar quinze minutos de caminho em uma palestra inteira sobre como será sua noite.
Quando finalmente chegamos, confiro o endereço mais uma vez. Desço com ela, converso com a mãe da menina, faço perguntas, confirmo horários, explico que Heloísa nunca dormiu fora de casa e peço que me ligue se houver qualquer problema.
Ela é extremamente simpática e garante que ficará tudo bem. Eu acredito ou mais ou menos. Depois de abraçar minha filha, fico segurando sua mão.
— Se precisar de qualquer coisa...
— Eu ligo — Completa.
— E se...
— Mamãe — Me interrompe. Essa menina está muito atrevida.
— Tá. — Beijo sua testa — Divirta-se.
Ela corre para dentro e eu fico olhando até vê-la desaparecer. Quando volto para o carro, Marcela está sorrindo.
— Você estava prestes a pedir o CPF da mãe da Sofia. — Solta uma gargalhada.
— Eu só queria ter certeza.
— Você ligou três vezes antes de sairmos.
— Quatro.
— Quatro — Ri mais uma vez
— Você acha engraçado.
— Um pouco — Admite.
— Quando for sua filha...
— Eu provavelmente farei pior.
— Provavelmente.
Ela liga o carro e seguimos.
******
O shopping está lotado. É sábado e, aparentemente, metade do Rio teve a mesma ideia que nós. Assim que entramos, percebo os primeiros olhares.
Algumas pessoas reconhecem Marcela, outras olham duas vezes, algumas cochicham. Uma garota até pega o celular e não demora muito para eu entender que, se estamos tentando evitar rumores sobre uma crise, provavelmente não deveríamos caminhar lado a lado com cinco metros de distância.
Olho para Marcela, ela não entende o que quero fazer, e não há como eu explicar. Então, apenas estendo a mão. Ela olha para meus dedos, depois para mim. Por um instante, parece surpresa, mas segura minha mão.
E acontece uma coisa completamente inesperada, nossas mãos se encaixam. PERFEITAMENTE. Não existe aquele desconforto de tentar encontrar uma posição. Os dedos dela deslizam naturalmente entre os meus e meu coração dá uma pequena acelerada.
É ridículo. É só uma mão, só um gesto, só parte do contrato. Mas continuo caminhando e não solto.
Marcela olha para nossas mãos, depois para mim.
— Está tudo bem? — Questiona.
— Está. — Minha voz sai estranha.
— Tem certeza?
— Temos um público.
— Claro. — Ela sorri.
Continuamos andando e as pessoas realmente olham.
E talvez seja justamente isso que me faça esquecer, por alguns minutos, que estamos fingindo. Porque a sensação da mão dela na minha é boa. Boa demais.
Quando passamos por uma vitrine, vejo nosso reflexo, duas mulheres caminhando de mãos dadas. Marcela está falando alguma coisa e eu estou sorrindo.
Parece real.
Muito real.
Entramos em algumas lojas, Marcela compra um livro e eu compro algumas coisas para Heloísa, depois passamos por uma loja de roupas. Marcela para de repente.
— Espera. — Me puxa,
— O quê?
— Aquele vestido — Ela aponta para a vitrine.
Olho, é um vestido bonito, elegante, mas simples.
— Gostou? — Pergunto.
— Muito — Seus olhos brilham.
— Então entra.
— Você vai esperar? — Ela me olha.
— Claro.
— Não precisa — Fala sem jeito.
— Eu quero ver você experimentar.
Ela sorri e entramos. E, assim que passamos pela porta, nossas mãos se soltam. Não sei por que sinto falta do contato imediatamente.
Uma vendedora aparece quase no mesmo instante.
— Boa tarde! Posso ajudar vocês?
— Boa tarde — Marcela responde.
— Está procurando alguma coisa específica? — A mulher olha diretamente para ela.
— Aquele vestido da vitrine — Marcela aponta.
— Ah, sim! Ficaria maravilhoso em você.
Sinto alguma coisa estranha no estômago. A vendedora sorri. Demais. Ela não precisa sorrir tanto assim.
— Seu tamanho? — Questiona.
Marcela responde, e a mulher nos deixa apenas por alguns instantes para pegar o vestido, mas logo está de volta.
— Venha comigo. Vou mostrar outras opções também.
Ela praticamente ignora minha existência. Eu cruzo os braços. Tudo bem, é uma vendedora, está trabalhando, é normal.
Então por que ela precisa tocar no braço de Marcela para mostrar onde fica o provador?
— Se quiser, posso separar algumas peças para você experimentar. — Volta a sorrir.
— Não precisa — digo.
— Ela prefere experimentar sozinha? — A mulher olha para mim.
Ela. Como se eu nem estivesse ali.
— Ela prefere — respondo.
Marcela olha para mim, existe um pequeno brilho divertido nos olhos dela e eu tenho vontade de enfiá-la dentro do provador o mais rápido possível para tirá-la da presença dessa mulher.
— Victoria — Tenta me repreender.
— O quê? — Minha voz sai mais grossa que o esperado.
— Nada.
— Se precisar de qualquer coisa, é só me chamar. — A vendedora volta a falar com Marcela e me ignorar.
— Obrigada.
Ela entra no provador, enquanto eu fico esperando.
Dois minutos.
Cinco.
Dez.
Quando Marcela sai usando o vestido, eu esqueço completamente minha irritação por alguns segundos. Ela está linda, o vestido cai perfeitamente sobre o corpo.
— E então? — pergunta.
— Está bonito.
— Só bonito? — Ela arqueia uma sobrancelha.
— Muito bonito.
— Eu sabia que ficaria perfeito. — A vendedora se aproxima e percebo que ela olha Marcela de cima a baixo — Se quiser, posso trazer alguns acessórios para combinar.
— Não precisa — digo novamente.
— Acho que vou experimentar mais algumas coisas — Marcela olha para mim.
— Mais? — Eu arregalo os olhos.
— Gostei das opções.
— Claro.
Ela sorri e entra novamente. Eu fico parada, a vendedora passa por mim.
— Sua amiga é muito exigente.
— É — Eu preciso me controlar.
— Mas vale a pena, ela tem um corpo ótimo para esse tipo de roupa.
— Imagino — Olho para ela.
— Você também pode experimentar alguma coisa.
— Não, obrigada.
— Se quiser, eu posso te ajudar.
— Não precisa.
Ela parece entender a mensagem, ou deveria. Quando Marcela sai novamente, está usando outro vestido.
Depois outro.
Depois uma blusa.
Depois uma calça.
Em algum momento, começo a suspeitar que ela está fazendo aquilo de propósito.
— Marcela — A chamo quando ela me mostra a milésima prova de roupa.
— O quê?
— Você precisava mesmo experimentar tudo isso? — Reviro os olhos.
— Estou escolhendo — Se faz de desentendida.
— Você já escolheu.
— Ainda não.
— Ela está certa, essa última ficou maravilhosa. — A vendedora volta a sorrir igual uma hiena.
— Ficou mesmo — Marcela se olha no espelho.
— Muito — A mulher se aproxima — Você tem Instagram?
Meu cérebro trava, Marcela parece não entender a pergunta e eu pareço ter entendido bem demais. Minha vontade é perguntar se essa mulherzinha não tem mais o que fazer ao invés de ficar dando em cima da minha namorada.
— Tenho — Marcela responde sem dar muita importância.
— Posso te seguir? — A vendedora se anima.
— Ah...
— Para você ver as novidades da loja.
— Ela não precisa — A resposta sai antes que eu consiga pensar.
A vendedora olha para mim e Marcela também. Eu não me intimido com o olhar de nenhuma das duas, eu que não vou ficar aqui vendo essa palhaçada de camarote.
— Victoria — Marcela me chama entredentes, enquanto olha para a vendedora.
— O quê? — Digo, sem paciência.
— Nada.
— Então vou deixar meu cartão com vocês — A vendedora volta a expor o sorriso feio dela — Caso precise de alguma coisa.
— Obrigada. — Marcela diz apenas isso.
Finalmente escolhe duas peças e vamos em direção ao caixa. Enquanto a atendente passa as roupas, a vendedora fica conversando com Marcela.
Pergunta onde ela mora, pergunta se ela costuma frequentar o shopping, se trabalha perto. Eu fico cada vez mais irritada e tento não demonstrar.
Falho miseravelmente.
Quando a compra termina, a vendedora entrega uma sacola para Marcela e, então pega um cartão. Mas antes, escreve alguma coisa atrás.
— Aqui — Entrega. — Se precisar trocar alguma coisa, ou quiser alguma informação sobre novas peças, pode me mandar mensagem.
— Obrigada. — Minha chefe pega o cartão.
Olho para o cartão, depois para a mulher, não consigo ficar calada ao ver o que está escrito.
— Ela não precisa do seu contato.
— Como? — A vendedora pisca.
— O contato — Aponto para o cartão. — Minha namorada não precisa.
Marcela me olha e a vendedora parece sem graça. Eu não me importo com os olhares de nenhuma das duas.
— Ah! — Exclama.
— E, provavelmente, ela nunca mais vai voltar nessa loja — Completo.
Silêncio, Marcela abaixa o rosto, tentando esconder um sorriso.
— Victoria — Me chama mais uma vez.
— O quê? — Não tiro os olhos da vendedora.
— Vamos.
Ela segura meu braço e logo saímos da loja. Assim que atravessamos a porta, ela começa a rir. Eu a encaro ainda brava e ela ri ainda mais.
— Não tem graça — Digo, indignada.
— Eu não disse que tinha — Mas não para de rir — Você está com ciúmes.
— Não estou — Reviro os olhos.
— Está.
— Não.
— Eu ainda acho que está — Provoca.
— Ela estava flertando com você — Acuso.
— Ela estava trabalhando — Diz como se não fosse nada demais.
— Trabalhando? — Não acredito no que ouço.
— Sim.
— Ela escreveu o número dela no cartão — Paro onde estou e coloco a mão na cintura.
— Talvez seja prática da loja — Ela me encara, ainda com um sorrisinho debochado no rosto.
— Marcela, ela perguntou seu Instagram.
— Também pode ser prática da loja.
— Perguntou onde você mora.
— Você decorou tudo? —Ela segura o riso.
— Não — Reviro os olhos e respiro fundo.
— Decorou.
— Não interessa.
Ela volta a andar e eu acompanho. Eu não acredito que ela vai ter a audácia de defender aquela mulherzinha oferecida. Prática da loja? Fode-se qualquer prática que inclua dar em cima das clientes.
— Você está com ciúmes — Volta a falar.
— Não estou — Repito.
— Está muito.
— Não estou.
— Então por que você disse que eu nunca mais voltaria naquela loja? — Tenta me pregar uma peça, mas eu não vou cair.
— Porque você não vai — Respondo, simples.
— E por que não? — Arqueia a sobrancelha.
— Porque eu não gostei da vendedora.
— Isso é ciúme — Volta a insistir.
— É bom senso. — Explico.
— Claro — Ela ri.
— Para de rir — digo, ainda mais brava.
— Não consigo — É sincera.
— Marcela — Passo a mão pelo rosto tentando me acalmar.
— Você ficou muito brava.
— Eu só não gostei da maneira como ela estava falando com você.
— Ela estava sendo simpática.
— Simpática demais — Falo sem pensar.
Marcela para de andar e eu paro também. Ela me olha, inicialmente apenas analisando minha expressão, aquele olhar clínico, certeiro, que só ela tem.
— E isso te incomodou? — Sua voz sai controlada.
— Não. — Tento disfarçar.
— Victoria.
— O quê? — Se ela chamar mais uma vez o meu nome, eu não respondo por mim.
— Você está vermelha — Aponta para minhas bochechas.
— Está calor.
— Estamos no ar-condicionado — Debocha.
— Eu estou com raiva — Confesso.
— De mim? — Me encara.
— Não. — Sou sincera.
— Dela? — Tenta descobrir.
— Talvez — Mais uma vez sou sincera.
— Você é muito transparente — Ela sorri.
— E você é muito irritante.
— Eu sei.
Ela segura minha mão novamente, meu corpo reage antes da minha cabeça. Olho para nossos dedos entrelaçados e sinto que nossas mãos foram feitas uma para a outra.
— Vamos continuar.
— Vamos.
E continuamos. Mas a verdade é que minha irritação não passa.
Voltamos para casa no começo da noite. Assim que entramos, deixo as sacolas sobre o sofá, Marcela coloca as dela ao lado. A casa está silenciosa sem a Helô por aqui.
— Quer alguma coisa para comer? — Me pergunta.
— Não — Minha voz sai seca mesmo sem eu querer.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela me olha, me analisa mais uma vez, tira seus saltos e joga em qualquer canto da sala.
— Você ainda está brava — Não é uma pergunta.
— Não estou.
— Então vamos conversar — Ela continua me encarando.
— Não tem nada para conversar — Reviro os olhos.
— Tem sim — Ela cruza os braços. — Você ficou com ciúmes.
— Eu não fiquei com ciúmes, já te falei isso.
— Você não precisa fingir que não ficou — Sua voz é mansa.
— Eu só achei desnecessário — Confesso.
— O quê? — Me olha, confusa.
— Tudo aquilo.
— O quê exatamente? — Insiste.
— Ela.
Marcela quase sorri, mas vejo que ela tenta manter o controle, pois sabe que se ela rir mais uma vez é capaz de eu a jogar pela janela.
— "Ela" não é exatamente uma explicação.
— Você sabe o que eu quero dizer — Bufo.
— Quero ouvir você dizer — Confessa.
— Ela estava dando em cima de você — Respiro fundo.
— E? — Tenta prolongar o assunto.
— E você deixou.
— Eu deixei? — Ela franze a testa.
— Sim.
— Como? — Vejo sua expressão mudar.
— Você ficou conversando com ela.
— Porque ela estava me atendendo.
— Ela perguntou seu Instagram.
— E eu nem dei.
— Mas você respondeu.
— O que eu deveria fazer? Ignorar?
— Talvez.
— Por quê?
— Porque...
Paro. Porque o quê? Porque somos namoradas. Mas não somos.
Porque eu não gosto que outra mulher olhe para ela daquele jeito.
Porque aquele cartão me incomodou.
Porque eu não gostei de imaginar Marcela recebendo uma mensagem daquela mulher.
Porque...
Não.
Não vou dizer.
— Porque, se as pessoas acham que nós somos realmente namoradas, você não deveria dar abertura para ninguém. — Digo a primeira merda que me vem em mente.
— Eu não dei abertura — ela me encara, perdendo a paciência.
— Deu sim — Insisto.
— Não dei.
— Você estava sorrindo para ela — Acuso.
— Eu sorrio para as pessoas.
— Não daquele jeito.
— Que jeito, Victoria? — Ela cruza os braços.
— Você sabe — Nem eu sei do que estou falando.
— Não sei.
— Marcela...
— Victoria.
Ficamos frente a frente, meu coração começa a bater rápido. Só de pensar que nesse exato momento, ela poderia estar pensando em mandar mensagem para aquele contato, me tira ainda mais a paz.
— Você realmente acha que dei abertura para aquela mulher? — Sua voz parece chateada.
— Eu acho que você poderia ter percebido as intenções dela — Puxo o ar com mais força.
— Eu não percebi.
— Esse é o problema — Jogo as mãos para o ar.
— Então o problema é que eu não sou boa em interpretar flerte? — Mantem o peso do corpo em um lado só enquanto cruza os braços.
— O problema é que você é ingênua. — A acuso.
— Eu? — Sorri com um sorriso completamente sem humor.
— Sim.
— Eu não sou ingênua.
— Foi o que pareceu.
— E você é especialista?
— Não.
— Então por que está tão incomodada?
Silêncio. Não há uma explicação plausível para minha atitude. Eu sei que foi ciúmes, eu sei que fiquei incomodada com aquela mulher, mas não é algo que eu esteja a fim de admitir. Nossos olhares travam uma batalha.
— Eu não estou incomodada. — Tento mais uma vez.
— Então olha para mim e diz isso — Me desafia.
— O quê? — Meu corpo congela.
— Diz que você não ficou com ciúmes.
Eu abro a boca, mas nada sai. Marcela espera, e eu tento mais algumas vezes e, por mais que eu queira, não há como eu mentir olhando nos olhos dela.
— Victoria.
— Eu...
— Diz — ela se aproxima um passo.
— Eu não... — Meu coração está disparado.
Mais um passo, agora estamos perto demais. Olho seu rosto e vejo em seus olhos a determinação em me fazer admitir.
— Não ficou? — Insiste mais uma vez.
— Não. — A resposta sai quase num sussurro.
— Então por que está tão vermelha? — Ela sorri de leve.
— Porque você está próxima — minha voz continua baixa.
— E isso te incomoda? — Olha para a minha boca e eu faço o mesmo.
— Talvez. — Droga, estou perdendo a batalha.
— Vic...
— O quê?
Ela está tão perto que consigo sentir sua respiração, seu perfume entra pelas minhas narinas, me lembrando o quanto o seu cheiro é bom, maravilhosamente bom.
— Você sabe que eu não dei abertura para aquela mulher. — Estamos quase sussurrando.
— Sei. — Assinto.
— E sabe que eu não estava interessada nela.
— Sei.
— Então por que está brava?
— Porque... — Engulo em seco.
Paro, não há o que falar. Ela espera, mas eu não consigo dizer. Então faço a única coisa que consigo pensar: seguro a gola da blusa dela e puxo.
Beijo Marcela antes mesmo que ela possa ter tempo para reagir. É um beijo rápido no começo, quase impulsivo. Mas ela imediatamente corresponde e, quando sinto as mãos dela encontrarem minha cintura, o beijo deixa de ser uma resposta para uma discussão e se transforma em algo completamente diferente.
Meu corpo relaxa, minha mão sobe até o rosto dela, ela me puxa um pouco mais para perto, até que o beijo fica lento, familiar e, ao mesmo tempo, perigoso.
Porque não deveria ser tão fácil, não deveria ser tão bom e nem deveria fazer meu coração bater desse jeito.
Quando nos afastamos por um instante, nossas testas permanecem encostadas.
— Isso também é contrato? — ela pergunta baixinho.
— Não começa — fecho os olhos.
— Só estou perguntando.
— Eu sei, mas já conversamos que isso não mudará nada entre a gente, então pare de pensar no contrato.
— Então estamos quites? — Ela sorri.
— Não.
— Não? — Questiona, confusa.
— Não.
— Por quê?
— Porque você ainda não entendeu. — Abro os olhos.
— O quê?
— Eu não quero que você dê abertura para outras mulheres.
— Mesmo que eu não seja sua namorada de verdade? — A pergunta me atravessa.
— Mesmo que você não seja minha namorada de verdade.
— Entendi. — Sua resposta é mais simples do que eu imaginava que seria.
— Entendeu? — reforço.
— Entendi.
— Ótimo.
— Então posso te fazer uma pergunta? — Seu sorriso volta a ficar provocante.
— Pode.
— Você vai ficar com ciúmes toda vez que alguém olhar para mim?
— Não. — Reviro os olhos mais uma vez.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Porque hoje foi bastante convincente.
— Cala a boca.
— Você fica linda com ciúmes — ela ri.
— Eu não estou com ciúmes — digo pela milésima vez, e nem eu acredito mais nessa fala.
— Claro — ela aproxima o rosto novamente. — Claro que não.
E me beija, dessa vez, não existe discussão, não existe explicação. Apenas o beijo.
Apenas fecho os olhos e correspondo e, enquanto ela segura meu rosto e eu mantenho os braços ao redor da cintura dela, uma pequena parte de mim percebe aquilo que venho tentando evitar há semanas. Eu desejo essa mulher, e ela será minha.
Fim do capítulo

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