Marcela
Eu não sei exatamente o que estou fazendo. Essa é a primeira coisa que passa pela minha cabeça quando percebo que estou me aproximando dela. Ou talvez seja a segunda, pois a primeira é que eu quero beijá-la. Quero de um jeito que me deixa acessa.
Victoria está diante de mim, tão perto que consigo sentir sua respiração misturada à minha. A luz fraca da placa de emergência reflete metade do rosto dela, deixando seus olhos ainda mais intensos. Ela não se afasta, pelo contrário, quando avanço alguns centímetros, ela faz o mesmo.
É como se alguma coisa invisível tivesse puxado nós duas para o mesmo lugar. Minha mão ainda está sobre a dela, nossos dedos continuam entrelaçados e eu consigo sentir o pequeno tremor que tem em sua mão.
Não sei se é medo ou expectativa, talvez seja até os dois. Olho novamente para a boca dela e Victoria percebe. Seus lábios se entreabrem levemente e então eu paro de pensar.
Eu beijo Victoria.
O primeiro toque é leve, meus lábios encostam nos dela por poucos segundos antes de eu me afastar apenas o suficiente para respirar. Abro os olhos para ver sua reação e me espanto ao ver que ela continua ali, ela não se afastou.
Victoria me olha como se tivesse esquecido completamente onde estamos. E então ela se aproxima novamente, dessa vez, é ela quem diminui a distância e toma meus lábios.
O segundo beijo é diferente, ainda cuidadoso, mas menos hesitante. Minha mão sobe para seu rosto enquanto a outra encontra seu braço, e eu sinto seus dedos segurarem delicadamente meu pulso, como se precisasse de alguma coisa para se apoiar naquele momento.
O chão frio do elevador deixa tudo ainda mais estranho. Estamos sentadas lado a lado, com os joelhos dobrados e os corpos em uma posição completamente desconfortável para aquilo.
Tento me aproximar mais, mas o ângulo é péssimo. Victoria percebe minha tentativa falha de me aproximar mais e um pequeno sorriso aparece em seus lábios.
— Isso seria muito mais fácil se a gente não estivesse sentadas no chão — também sorrio contra sua boca.
— Você tem alguma sugestão? — Ela se afasta um pouquinho e olha ao redor.
— Não exatamente — Falo.
— Então...
E beijo-a outra vez, não quero mais perder tempo. Só que, depois de alguns segundos, percebo que realmente não consigo continuar daquele jeito.
— Espera. — Solto uma pequena risada e me afasto.
— O quê?
— Isso está ridículo — olho para a posição em que estamos.
— Está. — Seus ombros caem.
— Eu não consigo nem chegar direito em você.
— Culpa do elevador. — Victória começa a rir.
— Definitivamente, culpa do elevador.
Ela apoia as mãos no chão para se ajeitar. Eu olho para ela por um instante, avalio o que pode ser feito e então eu tomo uma decisão.
— Não se mexe — Peço.
— Por quê? — Me olha confusa.
— Só não se mexe.
Antes que ela consiga perguntar outra coisa, me ajeito e me sento no colo dela. Victoria arregala os olhos, mas suas mãos vão direto para a minha cintura.
— Marcela — meu nome sai de sua boca mais como um suspiro do que um chamado.
— O quê? — Sorrio discretamente ao perceber o quanto ela está afetada.
— Você... — A frase morre antes de terminar.
— Agora eu tenho um ângulo melhor.
— Você é muito prática — ela tenta esconder o sorriso.
— Sempre.
Ajusto-me cuidadosamente, sem pressa, apenas o suficiente para conseguir ficar de frente para ela. Estou praticamente ajoelhada, com uma perna de cada lado do seu corpo. Agora nossos rostos estão na mesma altura, muito mais próximos. Victoria passa a língua pelos lábios, nervosa, e meus olhos acompanham o movimento, fazendo meu coração disparar.
— Melhor? — ela pergunta.
— Muito.
Minha mão volta para o rosto dela e a beijo novamente. Agora, não existe a dificuldade do ângulo. Não existe o desconforto. Apenas o beijo e a minha vontade sedenta de prová-la.
Victoria deixa uma das mãos na minha cintura, como se ainda estivesse tentando entender se aquilo está realmente acontecendo. A outra sobe até a lateral do meu pescoço.
E então ela relaxa, eu posso sentir essa mudança pequena, quase imperceptível. O corpo dela deixa de ficar rígido, os dedos deixam de segurar meu pescoço com cautela e passam a me tocar com mais confiança.
Eu me aproximo um pouco mais e ela corresponde. O beijo fica mais intenso, mais íntimo. Não existe pressa, apenas duas mulheres tentando descobrir uma a outra.
A maneira como ela inclina o rosto, o momento em que prende a respiração, o jeito como seus dedos apertam minha cintura quando me mexo em seu colo. Tudo isso parece novo e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.
Quando nos afastamos por alguns centímetros, Victoria ainda mantém as mãos em mim. Nossos olhos se encontram e nossas respirações estão ofegantes.
— Marcela... — Sussurra meu nome mais uma vez.
— Hum?
Ela olha para minha boca, depois para meus olhos, e isso se repete algumas vezes. Eu espero com que ela conclua seu pensamento, pois é nítido que sua mente está trabalhando a todo vapor.
— Isso é... — Ela não termina.
— Eu sei.
— Você sabe o que eu ia dizer? — Ela sorri de leve e eu acho encantador.
— Não — confesso.
— Então, como sabe?
— Porque eu também não sei o que estou fazendo. — Solto uma gargalhada.
— Isso é tranquilizador. — Me acompanha — Essa noite está começando a ficar interessante.
— Então posso tentar melhorar — A provoco.
— Como?
— Assim — aproximo meu rosto novamente.
Volto a beijá-la, Victoria sorri contra meus lábios e eu sorrio também. É estranho como conseguimos rir no meio de algo que, minutos atrás, parecia impossível.
O beijo continua, e sinto meu corpo cada vez mais quente. Será que ela sente o mesmo? Interrompemos apenas para respirar.
— Você sempre beija assim? — ela pergunta baixinho.
— Assim como?
— Como se estivesse tentando provar alguma coisa.
— Não estou tentando provar nada.
— Parece.
— E você?
— Eu o quê?
— Está tentando provar alguma coisa?
Ela pensa por um segundo.
— Talvez — ela pensa por um segundo.
— O quê?
— Que eu não sou tão ruim nisso — Victoria sorri, como uma criança arteira.
— Você está se saindo muito bem — Confesso.
— Ainda bem.
— Por quê?
— Porque seria constrangedor descobrir que assinou um contrato com uma péssima beijadora.
Dou uma risada ainda perto de sua boca, sinto que não consigo manter a distância. Não agora que estou tão perto.
— Você realmente consegue transformar qualquer momento em uma piada. — A encaro.
— É um talento.
— É uma distração.
Ela me olha, por um instante, o sorriso desaparece e existe algo nos olhos dela que não consigo decifrar. Talvez seja exatamente por isso que volto a beijá-la.
Não quero perguntar, não agora. Quero apenas ficar naquele momento. Minha mão desliza do rosto dela até sua nuca e Victoria respira fundo.
E me beija de volta, mais uma vez, mais devagar. Como se agora nenhuma das duas estivesse tentando descobrir se aquilo é permitido, como se simplesmente tivesse acontecido. Quando me afasto novamente, nossos rostos continuam próximos.
— Marcela...
— Eu deveria cobrar por cada vez que você está perdendo tempo chamando meu nome, enquanto poderia estar usando sua boca para coisas melhores.
— A gente deveria...
Ela para, não termina novamente a frase. Eu espero, pois sei que a mente dela está um caos.
— Deveria o quê? — Incentivo.
— Nada. — Ela olha para mim por alguns segundos.
— Foi o que pensei.
— Você nem sabe o que eu ia falar — Retruca.
— Não importa — reviro os olhos.
— Por quê?
Aproximo meu rosto do dela, mais uma vez sentindo conexão em nossos olhares.
— Porque você estava prestes a pensar demais.
— Talvez — Confessa.
— Então não pensa.
— Você fala isso como se fosse fácil.
— Não é. — Minha voz sai mais baixa. — Mas podemos tentar.
Ela me olha e, por alguns segundos, não diz nada. Então toca meu rosto como se estivesse podendo tocar uma obra de arte.
— Está bem.
Eu sorrio e a beijo novamente. Finalmente, Victoria se entrega completamente ao momento. Não há perguntas, nem explicações. Não há necessidade de dar nome ao que está acontecendo.
Apenas um beijo. O primeiro beijo que não pertence ao contrato, que não precisa ser explicado e que, de alguma maneira, parece nosso.
Quando finalmente nos afastamos, ficamos alguns segundos apenas nos olhando. Ainda sentadas daquela maneira absurda no chão do elevador: eu no colo dela e ela com os braços ao redor da minha cintura. E nenhuma das duas parece ter pressa para mudar isso.
— Se alguém entrar agora — Victoria murmura.
— Não vai entrar e, se entrasse, não teria problema nenhum.
— Você não sabe — me desafia.
— Então teremos uma explicação muito boa para dar. — Apoio meus braços em seus ombros e me permito fazer carinho em seu nariz com o meu.
— "Ficamos presas no elevador e perdemos completamente o senso de profissionalismo." — Volta a gargalhar.
— Não é uma explicação ruim — Digo.
— É péssima.
— Todos acham que somos namoradas, não seria surpresa nenhuma saberem que namoradas aproveitaram o tempo no elevador da forma que acharam melhor.
— Você tem um ponto — ela arqueia uma sobrancelha.
— Eu sempre tenho. — Sorrio.
Mas, antes que ela possa dizer qualquer outra coisa, seguro delicadamente seu rosto e beijo-a mais uma vez. Porque, naquele momento, eu não quero pensar em desculpa nenhuma, não quero pensar no amanhã. Quero apenas sentir.
E, Victoria parece querer exatamente a mesma coisa. O problema é que, no instante em que nossos lábios se encontram novamente, eu já sei que isso deixou de ser simples. Porque eu não quero que termine, e essa constatação é muito mais assustadora do que qualquer queda de energia.
Ficamos assim por alguns segundos, talvez minutos. Perco completamente a noção do tempo. A única coisa que consigo perceber é a proximidade dela, o calor do corpo que tenho tão perto do meu e a maneira como cada novo beijo parece menos estranho do que o anterior.
Até que as luzes se acendem, fazendo nós duas piscarmos ao mesmo tempo. O elevador dá um tranco.
— Meu Deus! — Digo, assustada.
Victoria segura meu braço enquanto o motor volta a funcionar. O elevador começa a descer e nós nos afastamos rapidamente, como duas adolescentes pegas fazendo alguma coisa proibida.
Nós nos encaramos e começamos a rir. Uma risada nervosa, desajeitada, incapaz de esconder o que acabou de acontecer.
— A energia voltou — ela diz.
— Percebi — Falo sarcástica.
— Finalmente — diz sem nenhuma emoção.
— Você parece decepcionada.
— Apenas um pouquinho.
Agora consigo ver nitidamente sua expressão e percebo que seu cabelo está um pouco bagunçado. Confesso que amei fazer esse estrago nela.
O elevador chega ao térreo, as portas se abrem e o chefe da segurança está esperando. Ele parece aliviado ao nos ver.
— Senhora Marcela! Ainda bem, nós estávamos monitorando o...
— Amanhã — o interrompo enquanto saio do elevador.
— Senhora?
— Quero você na minha sala às oito da manhã.
— Claro — ele engole em seco.
— E quero o relatório completo dessa falha.
— Sim, senhora.
— Quero saber por que o gerador não funcionou, por que o sistema de emergência não assumiu e quais medidas serão tomadas para que isso não aconteça novamente.
— Nós tivemos uma queda geral.
— Eu sei que tivemos uma queda geral — minha voz fica firme. — O problema é que este prédio deveria ter um sistema preparado para exatamente isso.
— Entendido.
— Amanhã, oito horas.
— Sim, senhora.
— E traga também os relatórios de manutenção dos últimos seis meses.
— Claro.
— Pode ir.
Ele se afasta rapidamente. Fico parada por alguns segundos, então percebo que Victoria está me olhando. Não é exatamente o mesmo olhar de antes, existe um pequeno sorriso no canto de sua boca.
— O quê? — Questiono.
— Você fica muito bonita brava.
— Você já disse isso — arqueio uma sobrancelha.
— Continuo achando.
— Você realmente tem um problema — Concluo.
— Talvez — ela ajeita a bolsa transversal que sempre usa — Mas acho que estou começando a gostar desse problema.
Meu coração dá um salto, não sei se ela está falando da minha personalidade, da situação ou de mim. Talvez eu nem queira saber, porque ainda consigo sentir o gosto daquele primeiro beijo.
Ainda consigo lembrar da maneira como ela segurou minha cintura. E, principalmente, ainda consigo sentir a necessidade que sinto dela agora que estamos novamente em pé, separadas por alguns centímetros.
Caminhamos em direção à saída e nenhuma de nós fala. E, enquanto atravessamos juntas as portas da editora, uma certeza desconfortável se instala dentro de mim.
O contrato ainda existe, o namoro ainda é falso, mas aquele beijo não foi. E talvez esse seja o verdadeiro problema.
Victoria
O caminho até minha casa é silencioso. Silencioso demais. Me sento no banco do passageiro, com a bolsa apoiada sobre as pernas e os olhos presos na janela, fingindo prestar atenção nas ruas molhadas do Rio, enquanto, na verdade, estou pensando na mesma coisa desde que saímos da editora. O beijo. Arrisco a dizer que foi um dos melhores da minha vida.
Olho discretamente para ela. Marcela está dirigindo com as duas mãos no volante, os olhos fixos na estrada. A expressão é séria, concentrada, mas existe alguma coisa diferente nela também. Não sei dizer exatamente o quê.
Talvez seja o fato de que, vez ou outra, ela aperta os lábios como se estivesse lembrando do que aconteceu há pouco tempo.
Eu também estou, minha boca ainda parece lembrar da dela. E isso é um problema, um problema enorme. Então volto a olhar pela janela e não falamos absolutamente nada durante todo o trajeto.
E, estranhamente, acho que é melhor assim, porque não faço ideia do que diria se ela perguntasse o que aquele beijo significou para mim.
Quando o carro finalmente para diante da minha casa, sinto um alívio imediato. Não porque quero que ela vá embora, pois quero que ela fique.
— Chegamos — ela diz finalmente.
— É — solto o cinto.
Ela também, e saímos do carro quase ao mesmo tempo. Entramos em casa e, antes mesmo que eu consiga fechar a porta, escuto passos rápidos vindo do corredor.
— Mamãe!
Heloísa aparece correndo e pulando, como sempre. Meu coração imediatamente se aquece, mas minha alegria dura pouco quando vejo que ela passa direto por mim.
— Marcela!
Minha chefe mal tem tempo de reagir antes de Heloísa se jogar em seus braços. Marcela a segura no colo com um sorriso que muda completamente seu rosto. É impressionante, aquela mulher que poucas horas atrás estava quase explodindo com o chefe da segurança agora está com minha filha nos braços, rindo enquanto Heloísa aperta os braços ao redor do pescoço dela.
— Olha só quem está melhor! — Marcela diz.
— Eu não estou mais com febre — diz, animada.
— Tem certeza? — Marcela faz uma cara desconfiada.
— Tenho — Heloísa coloca a mão na própria testa — Está vendo?
— Realmente parece melhor — Marcela ri.
Fico parada, observando as duas, e isso causa uma sensação estranha no meu peito. Uma sensação que tento ignorar, minha filha gosta dela e Marcela parece gostar da minha filha também. Talvez até mais do que deveria para alguém que entrou na nossa vida há tão pouco tempo.
— Mamãe também ficou preocupada — Heloísa diz.
— Muito — respondo.
— Eu sei — ela finalmente se vira para mim.
— Como você sabe? — Questiono.
— Porque você me ligou umas três vezes — faz um bico com os lábios.
— Quatro — A corrijo.
— Quatro — revira os olhinhos.
— Sua mãe é preocupada — Marcela ri, deixando o clima mais ameno.
— Muito — minha filha retruca.
— Ei! — Digo.
Heloísa sorri, nesse momento, Dona Florinda aparece da cozinha.
— Graças a Deus vocês chegaram.
— Como ela ficou? — Vou imediatamente até ela.
— Bem melhor, brincou um pouco, depois descansou, comeu quase toda a sopa.
— Obrigada por ficar com ela.
— Não precisa agradecer.
— Precisa, sim.
Heloísa continua agarrada ao pescoço de Marcela. Dona Florinda olha para nós três e sorri. Um sorriso que me deixa imediatamente desconfiada.
— Bom... vou deixar vocês — ela pega a bolsa. — Qualquer coisa, me ligue.
— Pode deixar.
Depois que ela vai embora, ficamos nós três. Por alguns minutos, simplesmente aproveitamos Heloísa. Ela conta para Marcela tudo o que aconteceu durante o dia, como se estivesse relatando uma aventura gigantesca.
Conta que comeu sopa e que conseguiu convencer Dona Florinda a deixá-la assistir televisão. Marcela escuta tudo com atenção. Pergunta, comenta, ri, e eu fico olhando.
Não sei o porquê, mas, depois daquele beijo, tudo parece diferente. Não sei se ela está diferente ou se sou eu que estou enxergando diferente.
Em determinado momento, Heloísa para no meio de uma das histórias. Ela olha para mim, depois para Marcela, depois para mim novamente e franze a testa.
— O quê? — pergunto.
— Vocês estão estranhas.
— Estranhas? — Quase engasgo.
— É — ela aponta para nós duas — vocês estão se olhando diferente.
Meu coração para por um segundo e vejo Marcela ficar imóvel. Essa menina precisa aprender a parar de ser tão intrometida.
— Como assim? — ela pergunta.
— Diferente — Heloísa dá de ombros com a inocência de uma criança.
— Diferente como? — pergunto, tentando parecer natural.
— Não sei — ela pensa — tipo quando a mamãe está feliz.
— Eu estou feliz? — Meu estômago se contrai.
— Muito.
— Estou? — Pergunto mais uma vez.
— Está — Heloísa cruza os braços — Eu conheço você, mamãe.
Marcela abaixa o rosto para esconder um sorriso e eu tento não encará-la para não rir também.
— Ah, é? — Pergunto, indignada.
— É — Heloísa olha para mim com uma seriedade quase engraçada — você só fica assim quando alguma coisa muito boa acontece.
Sinto minhas bochechas esquentarem, olho para Marcela e ela está me olhando. Aquele olhar é suficiente para eu saber exatamente o que Heloísa está percebendo. Desvio os olhos.
— Aconteceu uma coisa boa no trabalho.
— O quê? — Helô pergunta, curiosa.
— Uma coisa boa.
— O quê?
— Não posso contar.
— Por quê?
— Porque é coisa de adulto.
— Eu já sou quase adulta — ela faz uma careta.
— Você ainda tem bastante tempo — Marcela solta uma gargalhada e nós a acompanhamos.
— Quanto? — Minha filha questiona.
— Muito.
— Vocês nunca me contam nada — a pequena suspira dramaticamente.
— Quando você crescer, eu conto — Digo.
— Promete?
— Prometo.
Ela parece satisfeita e depois boceja. Olho para ela me sentindo a pessoa mais abençoada do mundo.
— Acho que alguém está cansada — Falo.
— Não estou — tenta resistir, mas boceja novamente.
— Claro que não — Rio.
— Mamãe... — Sua voz sai arrastada.
— Banho.
— Mas...
— Banho.
Ela olha para Marcela como se esperasse apoio, minha chefe levanta imediatamente as mãos em sinal de rendição.
— Eu não vou me envolver nessa discussão.
— Traidora — Acusa.
— Sua mãe está certa — ela sorri de um jeito acolhedor.
Heloísa suspira.
— Está bom — Heloisa suspira e desce do sofá. — Vou tomar banho.
— Vai indo que eu já vou lá te ajudar.
Ela começa a andar pelo corredor, mas para e volta para onde estamos.
— Marcela vai ficar?
— Não, querida! Eu já vou para casa.
— Ah! — Heloísa parece genuinamente decepcionada. — Mas você pode voltar amanhã?
— Se sua mãe deixar — responde sem jeito.
— Deixa — Helô olha para mim com esperança.
— Vai tomar banho — Rio e concordo com a cabeça.
— Está bem.
Ela finalmente desaparece pelo corredor, fico olhando até ter certeza de que ela realmente foi. Quando me viro, encontro Marcela pegando a bolsa.
— Acho melhor eu ir.
— Sim — a palavra sai rápido demais.
— Você quer que eu vá? — Ela estreita os olhos.
— Não foi isso que eu quis dizer — digo, arrependida.
— Eu sei — ela sorri de leve — Mas está tarde.
— Está.
Ficamos em silêncio, agora estamos sozinhas e, de repente, o beijo volta inteiro para minha cabeça. O jeito como ela se sentou no meu colo, a mão no meu rosto e na minha nuca, a proximidade, a forma como eu simplesmente...
Não. Não vou pensar nisso, Marcela ajeita a bolsa no ombro.
— Sobre hoje... — Começa a falar.
— Sim? — Meu coração acelera.
— Acho que precisamos conversar — ela hesita.
— Sobre o beijo?
Ela confirma com um pequeno movimento de cabeça e eu respiro fundo. Eu tenho a mania de fugir de conversas difíceis, mas sei que essa eu precisarei ter, precisamos estabelecer algumas regrinhas.
— Eu não quero que isso mude nada — começo a dizer antes que ela tome a frente, e ela me olha.
— Nada? — Pergunta.
— Nada — minha voz sai mais firme do que me sinto — O contrato continua.
— Claro — Confirma.
— Nosso trabalho continua.
— Sim.
— E a nossa relação também.
— Você quer dizer nossa amizade? — Tenta ser mais específica.
— Também.
— Então estamos de acordo — ela sorri.
— Estamos.
Mas nenhuma das duas se mexe, o silêncio entre nós parece dizer exatamente o contrário. Eu sei que deveria deixá-la ir, sei que deveria apenas desejar boa noite e voltar para minha filha.
Mas fico olhando para ela e penso que talvez seja justamente por isso que preciso fazer alguma coisa. Para provar para mim mesma que não foi tão importante.
Que foi só um beijo, um momento. Nada mais. Então, dou um passo em direção a ela. Marcela me olha sem entender minha atitude.
— O quê?
— Nada — aproximo-me mais — Só quero...
Não termino, seguro delicadamente a gola do blazer dela e puxo seu rosto para perto e lhe dou um selinho. Rápido, leve, quase inocente. Quase.
Quando me afasto, ela continua me olhando. Ela pisca algumas vezes, tentando associar o que acabou de acontecer.
— Boa noite — digo.
Ela demora alguns segundos para responder, parece ainda um pouco atordoada com minha atitude, e eu confesso que amo causar esse efeito nela.
— Boa noite, Victoria.
E então ela vai embora. Fico parada no meio da sala, olhando para a porta depois que ela se fecha. E só quando tenho certeza de que ela já está longe é que levo os dedos aos meus próprios lábios.
O beijo deveria ter sido apenas uma confirmação, uma forma de dizer que está tudo bem, que nada mudou e que continuamos exatamente onde estávamos. Mas meu coração parece discordar.
Porque, enquanto caminho pelo corredor para ajudar minha filha no banho, percebo que não estou pensando no beijo que dei nela para fingir que nada mudou. Estou pensando no beijo que ela me deu antes e no quanto eu queria que tivesse durado mais.
Eu não sei exatamente o que estou fazendo. Essa é a primeira coisa que passa pela minha cabeça quando percebo que estou me aproximando dela. Ou talvez seja a segunda, pois a primeira é que eu quero beijá-la. Quero de um jeito que me deixa acessa.
Victoria está diante de mim, tão perto que consigo sentir sua respiração misturada à minha. A luz fraca da placa de emergência reflete metade do rosto dela, deixando seus olhos ainda mais intensos. Ela não se afasta, pelo contrário, quando avanço alguns centímetros, ela faz o mesmo.
É como se alguma coisa invisível tivesse puxado nós duas para o mesmo lugar. Minha mão ainda está sobre a dela, nossos dedos continuam entrelaçados e eu consigo sentir o pequeno tremor que tem em sua mão.
Não sei se é medo ou expectativa, talvez seja até os dois. Olho novamente para a boca dela e Victoria percebe. Seus lábios se entreabrem levemente e então eu paro de pensar.
Eu beijo Victoria.
O primeiro toque é leve, meus lábios encostam nos dela por poucos segundos antes de eu me afastar apenas o suficiente para respirar. Abro os olhos para ver sua reação e me espanto ao ver que ela continua ali, ela não se afastou.
Victoria me olha como se tivesse esquecido completamente onde estamos. E então ela se aproxima novamente, dessa vez, é ela quem diminui a distância e toma meus lábios.
O segundo beijo é diferente, ainda cuidadoso, mas menos hesitante. Minha mão sobe para seu rosto enquanto a outra encontra seu braço, e eu sinto seus dedos segurarem delicadamente meu pulso, como se precisasse de alguma coisa para se apoiar naquele momento.
O chão frio do elevador deixa tudo ainda mais estranho. Estamos sentadas lado a lado, com os joelhos dobrados e os corpos em uma posição completamente desconfortável para aquilo.
Tento me aproximar mais, mas o ângulo é péssimo. Victoria percebe minha tentativa falha de me aproximar mais e um pequeno sorriso aparece em seus lábios.
— Isso seria muito mais fácil se a gente não estivesse sentadas no chão — também sorrio contra sua boca.
— Você tem alguma sugestão? — Ela se afasta um pouquinho e olha ao redor.
— Não exatamente — Falo.
— Então...
E beijo-a outra vez, não quero mais perder tempo. Só que, depois de alguns segundos, percebo que realmente não consigo continuar daquele jeito.
— Espera. — Solto uma pequena risada e me afasto.
— O quê?
— Isso está ridículo — olho para a posição em que estamos.
— Está. — Seus ombros caem.
— Eu não consigo nem chegar direito em você.
— Culpa do elevador. — Victória começa a rir.
— Definitivamente, culpa do elevador.
Ela apoia as mãos no chão para se ajeitar. Eu olho para ela por um instante, avalio o que pode ser feito e então eu tomo uma decisão.
— Não se mexe — Peço.
— Por quê? — Me olha confusa.
— Só não se mexe.
Antes que ela consiga perguntar outra coisa, me ajeito e me sento no colo dela. Victoria arregala os olhos, mas suas mãos vão direto para a minha cintura.
— Marcela — meu nome sai de sua boca mais como um suspiro do que um chamado.
— O quê? — Sorrio discretamente ao perceber o quanto ela está afetada.
— Você... — A frase morre antes de terminar.
— Agora eu tenho um ângulo melhor.
— Você é muito prática — ela tenta esconder o sorriso.
— Sempre.
Ajusto-me cuidadosamente, sem pressa, apenas o suficiente para conseguir ficar de frente para ela. Estou praticamente ajoelhada, com uma perna de cada lado do seu corpo. Agora nossos rostos estão na mesma altura, muito mais próximos. Victoria passa a língua pelos lábios, nervosa, e meus olhos acompanham o movimento, fazendo meu coração disparar.
— Melhor? — ela pergunta.
— Muito.
Minha mão volta para o rosto dela e a beijo novamente. Agora, não existe a dificuldade do ângulo. Não existe o desconforto. Apenas o beijo e a minha vontade sedenta de prová-la.
Victoria deixa uma das mãos na minha cintura, como se ainda estivesse tentando entender se aquilo está realmente acontecendo. A outra sobe até a lateral do meu pescoço.
E então ela relaxa, eu posso sentir essa mudança pequena, quase imperceptível. O corpo dela deixa de ficar rígido, os dedos deixam de segurar meu pescoço com cautela e passam a me tocar com mais confiança.
Eu me aproximo um pouco mais e ela corresponde. O beijo fica mais intenso, mais íntimo. Não existe pressa, apenas duas mulheres tentando descobrir uma a outra.
A maneira como ela inclina o rosto, o momento em que prende a respiração, o jeito como seus dedos apertam minha cintura quando me mexo em seu colo. Tudo isso parece novo e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.
Quando nos afastamos por alguns centímetros, Victoria ainda mantém as mãos em mim. Nossos olhos se encontram e nossas respirações estão ofegantes.
— Marcela... — Sussurra meu nome mais uma vez.
— Hum?
Ela olha para minha boca, depois para meus olhos, e isso se repete algumas vezes. Eu espero com que ela conclua seu pensamento, pois é nítido que sua mente está trabalhando a todo vapor.
— Isso é... — Ela não termina.
— Eu sei.
— Você sabe o que eu ia dizer? — Ela sorri de leve e eu acho encantador.
— Não — confesso.
— Então, como sabe?
— Porque eu também não sei o que estou fazendo. — Solto uma gargalhada.
— Isso é tranquilizador. — Me acompanha — Essa noite está começando a ficar interessante.
— Então posso tentar melhorar — A provoco.
— Como?
— Assim — aproximo meu rosto novamente.
Volto a beijá-la, Victoria sorri contra meus lábios e eu sorrio também. É estranho como conseguimos rir no meio de algo que, minutos atrás, parecia impossível.
O beijo continua, e sinto meu corpo cada vez mais quente. Será que ela sente o mesmo? Interrompemos apenas para respirar.
— Você sempre beija assim? — ela pergunta baixinho.
— Assim como?
— Como se estivesse tentando provar alguma coisa.
— Não estou tentando provar nada.
— Parece.
— E você?
— Eu o quê?
— Está tentando provar alguma coisa?
Ela pensa por um segundo.
— Talvez — ela pensa por um segundo.
— O quê?
— Que eu não sou tão ruim nisso — Victoria sorri, como uma criança arteira.
— Você está se saindo muito bem — Confesso.
— Ainda bem.
— Por quê?
— Porque seria constrangedor descobrir que assinou um contrato com uma péssima beijadora.
Dou uma risada ainda perto de sua boca, sinto que não consigo manter a distância. Não agora que estou tão perto.
— Você realmente consegue transformar qualquer momento em uma piada. — A encaro.
— É um talento.
— É uma distração.
Ela me olha, por um instante, o sorriso desaparece e existe algo nos olhos dela que não consigo decifrar. Talvez seja exatamente por isso que volto a beijá-la.
Não quero perguntar, não agora. Quero apenas ficar naquele momento. Minha mão desliza do rosto dela até sua nuca e Victoria respira fundo.
E me beija de volta, mais uma vez, mais devagar. Como se agora nenhuma das duas estivesse tentando descobrir se aquilo é permitido, como se simplesmente tivesse acontecido. Quando me afasto novamente, nossos rostos continuam próximos.
— Marcela...
— Eu deveria cobrar por cada vez que você está perdendo tempo chamando meu nome, enquanto poderia estar usando sua boca para coisas melhores.
— A gente deveria...
Ela para, não termina novamente a frase. Eu espero, pois sei que a mente dela está um caos.
— Deveria o quê? — Incentivo.
— Nada. — Ela olha para mim por alguns segundos.
— Foi o que pensei.
— Você nem sabe o que eu ia falar — Retruca.
— Não importa — reviro os olhos.
— Por quê?
Aproximo meu rosto do dela, mais uma vez sentindo conexão em nossos olhares.
— Porque você estava prestes a pensar demais.
— Talvez — Confessa.
— Então não pensa.
— Você fala isso como se fosse fácil.
— Não é. — Minha voz sai mais baixa. — Mas podemos tentar.
Ela me olha e, por alguns segundos, não diz nada. Então toca meu rosto como se estivesse podendo tocar uma obra de arte.
— Está bem.
Eu sorrio e a beijo novamente. Finalmente, Victoria se entrega completamente ao momento. Não há perguntas, nem explicações. Não há necessidade de dar nome ao que está acontecendo.
Apenas um beijo. O primeiro beijo que não pertence ao contrato, que não precisa ser explicado e que, de alguma maneira, parece nosso.
Quando finalmente nos afastamos, ficamos alguns segundos apenas nos olhando. Ainda sentadas daquela maneira absurda no chão do elevador: eu no colo dela e ela com os braços ao redor da minha cintura. E nenhuma das duas parece ter pressa para mudar isso.
— Se alguém entrar agora — Victoria murmura.
— Não vai entrar e, se entrasse, não teria problema nenhum.
— Você não sabe — me desafia.
— Então teremos uma explicação muito boa para dar. — Apoio meus braços em seus ombros e me permito fazer carinho em seu nariz com o meu.
— "Ficamos presas no elevador e perdemos completamente o senso de profissionalismo." — Volta a gargalhar.
— Não é uma explicação ruim — Digo.
— É péssima.
— Todos acham que somos namoradas, não seria surpresa nenhuma saberem que namoradas aproveitaram o tempo no elevador da forma que acharam melhor.
— Você tem um ponto — ela arqueia uma sobrancelha.
— Eu sempre tenho. — Sorrio.
Mas, antes que ela possa dizer qualquer outra coisa, seguro delicadamente seu rosto e beijo-a mais uma vez. Porque, naquele momento, eu não quero pensar em desculpa nenhuma, não quero pensar no amanhã. Quero apenas sentir.
E, Victoria parece querer exatamente a mesma coisa. O problema é que, no instante em que nossos lábios se encontram novamente, eu já sei que isso deixou de ser simples. Porque eu não quero que termine, e essa constatação é muito mais assustadora do que qualquer queda de energia.
Ficamos assim por alguns segundos, talvez minutos. Perco completamente a noção do tempo. A única coisa que consigo perceber é a proximidade dela, o calor do corpo que tenho tão perto do meu e a maneira como cada novo beijo parece menos estranho do que o anterior.
Até que as luzes se acendem, fazendo nós duas piscarmos ao mesmo tempo. O elevador dá um tranco.
— Meu Deus! — Digo, assustada.
Victoria segura meu braço enquanto o motor volta a funcionar. O elevador começa a descer e nós nos afastamos rapidamente, como duas adolescentes pegas fazendo alguma coisa proibida.
Nós nos encaramos e começamos a rir. Uma risada nervosa, desajeitada, incapaz de esconder o que acabou de acontecer.
— A energia voltou — ela diz.
— Percebi — Falo sarcástica.
— Finalmente — diz sem nenhuma emoção.
— Você parece decepcionada.
— Apenas um pouquinho.
Agora consigo ver nitidamente sua expressão e percebo que seu cabelo está um pouco bagunçado. Confesso que amei fazer esse estrago nela.
O elevador chega ao térreo, as portas se abrem e o chefe da segurança está esperando. Ele parece aliviado ao nos ver.
— Senhora Marcela! Ainda bem, nós estávamos monitorando o...
— Amanhã — o interrompo enquanto saio do elevador.
— Senhora?
— Quero você na minha sala às oito da manhã.
— Claro — ele engole em seco.
— E quero o relatório completo dessa falha.
— Sim, senhora.
— Quero saber por que o gerador não funcionou, por que o sistema de emergência não assumiu e quais medidas serão tomadas para que isso não aconteça novamente.
— Nós tivemos uma queda geral.
— Eu sei que tivemos uma queda geral — minha voz fica firme. — O problema é que este prédio deveria ter um sistema preparado para exatamente isso.
— Entendido.
— Amanhã, oito horas.
— Sim, senhora.
— E traga também os relatórios de manutenção dos últimos seis meses.
— Claro.
— Pode ir.
Ele se afasta rapidamente. Fico parada por alguns segundos, então percebo que Victoria está me olhando. Não é exatamente o mesmo olhar de antes, existe um pequeno sorriso no canto de sua boca.
— O quê? — Questiono.
— Você fica muito bonita brava.
— Você já disse isso — arqueio uma sobrancelha.
— Continuo achando.
— Você realmente tem um problema — Concluo.
— Talvez — ela ajeita a bolsa transversal que sempre usa — Mas acho que estou começando a gostar desse problema.
Meu coração dá um salto, não sei se ela está falando da minha personalidade, da situação ou de mim. Talvez eu nem queira saber, porque ainda consigo sentir o gosto daquele primeiro beijo.
Ainda consigo lembrar da maneira como ela segurou minha cintura. E, principalmente, ainda consigo sentir a necessidade que sinto dela agora que estamos novamente em pé, separadas por alguns centímetros.
Caminhamos em direção à saída e nenhuma de nós fala. E, enquanto atravessamos juntas as portas da editora, uma certeza desconfortável se instala dentro de mim.
O contrato ainda existe, o namoro ainda é falso, mas aquele beijo não foi. E talvez esse seja o verdadeiro problema.
Victoria
O caminho até minha casa é silencioso. Silencioso demais. Me sento no banco do passageiro, com a bolsa apoiada sobre as pernas e os olhos presos na janela, fingindo prestar atenção nas ruas molhadas do Rio, enquanto, na verdade, estou pensando na mesma coisa desde que saímos da editora. O beijo. Arrisco a dizer que foi um dos melhores da minha vida.
Olho discretamente para ela. Marcela está dirigindo com as duas mãos no volante, os olhos fixos na estrada. A expressão é séria, concentrada, mas existe alguma coisa diferente nela também. Não sei dizer exatamente o quê.
Talvez seja o fato de que, vez ou outra, ela aperta os lábios como se estivesse lembrando do que aconteceu há pouco tempo.
Eu também estou, minha boca ainda parece lembrar da dela. E isso é um problema, um problema enorme. Então volto a olhar pela janela e não falamos absolutamente nada durante todo o trajeto.
E, estranhamente, acho que é melhor assim, porque não faço ideia do que diria se ela perguntasse o que aquele beijo significou para mim.
Quando o carro finalmente para diante da minha casa, sinto um alívio imediato. Não porque quero que ela vá embora, pois quero que ela fique.
— Chegamos — ela diz finalmente.
— É — solto o cinto.
Ela também, e saímos do carro quase ao mesmo tempo. Entramos em casa e, antes mesmo que eu consiga fechar a porta, escuto passos rápidos vindo do corredor.
— Mamãe!
Heloísa aparece correndo e pulando, como sempre. Meu coração imediatamente se aquece, mas minha alegria dura pouco quando vejo que ela passa direto por mim.
— Marcela!
Minha chefe mal tem tempo de reagir antes de Heloísa se jogar em seus braços. Marcela a segura no colo com um sorriso que muda completamente seu rosto. É impressionante, aquela mulher que poucas horas atrás estava quase explodindo com o chefe da segurança agora está com minha filha nos braços, rindo enquanto Heloísa aperta os braços ao redor do pescoço dela.
— Olha só quem está melhor! — Marcela diz.
— Eu não estou mais com febre — diz, animada.
— Tem certeza? — Marcela faz uma cara desconfiada.
— Tenho — Heloísa coloca a mão na própria testa — Está vendo?
— Realmente parece melhor — Marcela ri.
Fico parada, observando as duas, e isso causa uma sensação estranha no meu peito. Uma sensação que tento ignorar, minha filha gosta dela e Marcela parece gostar da minha filha também. Talvez até mais do que deveria para alguém que entrou na nossa vida há tão pouco tempo.
— Mamãe também ficou preocupada — Heloísa diz.
— Muito — respondo.
— Eu sei — ela finalmente se vira para mim.
— Como você sabe? — Questiono.
— Porque você me ligou umas três vezes — faz um bico com os lábios.
— Quatro — A corrijo.
— Quatro — revira os olhinhos.
— Sua mãe é preocupada — Marcela ri, deixando o clima mais ameno.
— Muito — minha filha retruca.
— Ei! — Digo.
Heloísa sorri, nesse momento, Dona Florinda aparece da cozinha.
— Graças a Deus vocês chegaram.
— Como ela ficou? — Vou imediatamente até ela.
— Bem melhor, brincou um pouco, depois descansou, comeu quase toda a sopa.
— Obrigada por ficar com ela.
— Não precisa agradecer.
— Precisa, sim.
Heloísa continua agarrada ao pescoço de Marcela. Dona Florinda olha para nós três e sorri. Um sorriso que me deixa imediatamente desconfiada.
— Bom... vou deixar vocês — ela pega a bolsa. — Qualquer coisa, me ligue.
— Pode deixar.
Depois que ela vai embora, ficamos nós três. Por alguns minutos, simplesmente aproveitamos Heloísa. Ela conta para Marcela tudo o que aconteceu durante o dia, como se estivesse relatando uma aventura gigantesca.
Conta que comeu sopa e que conseguiu convencer Dona Florinda a deixá-la assistir televisão. Marcela escuta tudo com atenção. Pergunta, comenta, ri, e eu fico olhando.
Não sei o porquê, mas, depois daquele beijo, tudo parece diferente. Não sei se ela está diferente ou se sou eu que estou enxergando diferente.
Em determinado momento, Heloísa para no meio de uma das histórias. Ela olha para mim, depois para Marcela, depois para mim novamente e franze a testa.
— O quê? — pergunto.
— Vocês estão estranhas.
— Estranhas? — Quase engasgo.
— É — ela aponta para nós duas — vocês estão se olhando diferente.
Meu coração para por um segundo e vejo Marcela ficar imóvel. Essa menina precisa aprender a parar de ser tão intrometida.
— Como assim? — ela pergunta.
— Diferente — Heloísa dá de ombros com a inocência de uma criança.
— Diferente como? — pergunto, tentando parecer natural.
— Não sei — ela pensa — tipo quando a mamãe está feliz.
— Eu estou feliz? — Meu estômago se contrai.
— Muito.
— Estou? — Pergunto mais uma vez.
— Está — Heloísa cruza os braços — Eu conheço você, mamãe.
Marcela abaixa o rosto para esconder um sorriso e eu tento não encará-la para não rir também.
— Ah, é? — Pergunto, indignada.
— É — Heloísa olha para mim com uma seriedade quase engraçada — você só fica assim quando alguma coisa muito boa acontece.
Sinto minhas bochechas esquentarem, olho para Marcela e ela está me olhando. Aquele olhar é suficiente para eu saber exatamente o que Heloísa está percebendo. Desvio os olhos.
— Aconteceu uma coisa boa no trabalho.
— O quê? — Helô pergunta, curiosa.
— Uma coisa boa.
— O quê?
— Não posso contar.
— Por quê?
— Porque é coisa de adulto.
— Eu já sou quase adulta — ela faz uma careta.
— Você ainda tem bastante tempo — Marcela solta uma gargalhada e nós a acompanhamos.
— Quanto? — Minha filha questiona.
— Muito.
— Vocês nunca me contam nada — a pequena suspira dramaticamente.
— Quando você crescer, eu conto — Digo.
— Promete?
— Prometo.
Ela parece satisfeita e depois boceja. Olho para ela me sentindo a pessoa mais abençoada do mundo.
— Acho que alguém está cansada — Falo.
— Não estou — tenta resistir, mas boceja novamente.
— Claro que não — Rio.
— Mamãe... — Sua voz sai arrastada.
— Banho.
— Mas...
— Banho.
Ela olha para Marcela como se esperasse apoio, minha chefe levanta imediatamente as mãos em sinal de rendição.
— Eu não vou me envolver nessa discussão.
— Traidora — Acusa.
— Sua mãe está certa — ela sorri de um jeito acolhedor.
Heloísa suspira.
— Está bom — Heloisa suspira e desce do sofá. — Vou tomar banho.
— Vai indo que eu já vou lá te ajudar.
Ela começa a andar pelo corredor, mas para e volta para onde estamos.
— Marcela vai ficar?
— Não, querida! Eu já vou para casa.
— Ah! — Heloísa parece genuinamente decepcionada. — Mas você pode voltar amanhã?
— Se sua mãe deixar — responde sem jeito.
— Deixa — Helô olha para mim com esperança.
— Vai tomar banho — Rio e concordo com a cabeça.
— Está bem.
Ela finalmente desaparece pelo corredor, fico olhando até ter certeza de que ela realmente foi. Quando me viro, encontro Marcela pegando a bolsa.
— Acho melhor eu ir.
— Sim — a palavra sai rápido demais.
— Você quer que eu vá? — Ela estreita os olhos.
— Não foi isso que eu quis dizer — digo, arrependida.
— Eu sei — ela sorri de leve — Mas está tarde.
— Está.
Ficamos em silêncio, agora estamos sozinhas e, de repente, o beijo volta inteiro para minha cabeça. O jeito como ela se sentou no meu colo, a mão no meu rosto e na minha nuca, a proximidade, a forma como eu simplesmente...
Não. Não vou pensar nisso, Marcela ajeita a bolsa no ombro.
— Sobre hoje... — Começa a falar.
— Sim? — Meu coração acelera.
— Acho que precisamos conversar — ela hesita.
— Sobre o beijo?
Ela confirma com um pequeno movimento de cabeça e eu respiro fundo. Eu tenho a mania de fugir de conversas difíceis, mas sei que essa eu precisarei ter, precisamos estabelecer algumas regrinhas.
— Eu não quero que isso mude nada — começo a dizer antes que ela tome a frente, e ela me olha.
— Nada? — Pergunta.
— Nada — minha voz sai mais firme do que me sinto — O contrato continua.
— Claro — Confirma.
— Nosso trabalho continua.
— Sim.
— E a nossa relação também.
— Você quer dizer nossa amizade? — Tenta ser mais específica.
— Também.
— Então estamos de acordo — ela sorri.
— Estamos.
Mas nenhuma das duas se mexe, o silêncio entre nós parece dizer exatamente o contrário. Eu sei que deveria deixá-la ir, sei que deveria apenas desejar boa noite e voltar para minha filha.
Mas fico olhando para ela e penso que talvez seja justamente por isso que preciso fazer alguma coisa. Para provar para mim mesma que não foi tão importante.
Que foi só um beijo, um momento. Nada mais. Então, dou um passo em direção a ela. Marcela me olha sem entender minha atitude.
— O quê?
— Nada — aproximo-me mais — Só quero...
Não termino, seguro delicadamente a gola do blazer dela e puxo seu rosto para perto e lhe dou um selinho. Rápido, leve, quase inocente. Quase.
Quando me afasto, ela continua me olhando. Ela pisca algumas vezes, tentando associar o que acabou de acontecer.
— Boa noite — digo.
Ela demora alguns segundos para responder, parece ainda um pouco atordoada com minha atitude, e eu confesso que amo causar esse efeito nela.
— Boa noite, Victoria.
E então ela vai embora. Fico parada no meio da sala, olhando para a porta depois que ela se fecha. E só quando tenho certeza de que ela já está longe é que levo os dedos aos meus próprios lábios.
O beijo deveria ter sido apenas uma confirmação, uma forma de dizer que está tudo bem, que nada mudou e que continuamos exatamente onde estávamos. Mas meu coração parece discordar.
Porque, enquanto caminho pelo corredor para ajudar minha filha no banho, percebo que não estou pensando no beijo que dei nela para fingir que nada mudou. Estou pensando no beijo que ela me deu antes e no quanto eu queria que tivesse durado mais.
Fim do capítulo

Duduka
16/09/2026 às 13:50
Paloma Matias 16/09/2026 às 17:29
marianaaleao
16/09/2026 às 11:56
Paloma Matias 16/09/2026 às 17:29
marianaaleao 16/09/2026 às 20:13
Tai_arievilo
15/09/2026 às 22:55
Posso dizer com sinceridade que esse romance é um dos melhores que já li, parabéns autora. Não demora, por favor.
Paloma Matias 16/09/2026 às 09:52