Capítulo 13

Capítulo 13 - Elevador - Parte I

de Mais que benefícios, por Paloma Matias

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Victória


O relógio no canto inferior da tela marca 18h47 quando finalmente consigo fechar a última planilha. Fico alguns segundos olhando para o monitor, como se precisasse ter certeza de que realmente terminei.
O andar está silencioso, silencioso até demais. Não existe mais o barulho algum, das conversas soltas de quem vem me pedir algo, do telefone tocando ou dos passos apressados de quem tenta terminar alguma coisa antes de ir embora.
A maioria das luzes já foi apagada, e as poucas que permanecem acesas deixam o escritório com aquele aspecto estranho de lugar sem vida.
— Finalmente — suspiro e passo a mão pelo rosto para espantar um pouco do cansaço.
Salvo o arquivo mais uma vez, mesmo sabendo que já está salvo, desligo o computador e começo a juntar minhas coisas.
Meu corpo inteiro pede para ir embora. Quero tomar um banho, ver minha filha, descobrir se a febre baixou completamente e, principalmente, esquecer que passei o dia inteiro tentando fingir que não penso na minha chefe de uma maneira que definitivamente não deveria.
Desde o que aconteceu na sala dela pela manhã, não tivemos uma conversa de verdade. Não falamos sobre o beijo, nem sobre Lúcio, muito menos sobre o jeito como ela me defendeu. Apenas trabalhamos, trocamos informações e falamos sobre contratos. Como se não tivesse acontecido nada.
Talvez seja melhor assim, talvez seja exatamente isso que precisamos fazer: pegar o que aconteceu, colocar dentro de uma caixa imaginária e fechar com cadeado.
Estou guardando meu celular na bolsa quando escuto passos no corredor, o que me faz erguer os olhos imediatamente.
Marcela aparece na porta da sua sala. Ela está com a bolsa em uma das mãos e as chaves do carro na outra.
— Você ainda está aqui. — Se espanta ao me ver.
— Estava terminando algumas coisas. — Explico.
— Precisamos nos apressar. — Ela olha para o relógio em seu celular.
— Aconteceu alguma coisa? — Franzo o cenho.
— Está vindo uma tempestade forte. — Ela se aproxima. — Recebi alguns alertas. O trânsito já deve estar começando a ficar complicado.
Olho pela parede de vidro e me assusto com o que vejo. O céu do Rio está quase preto, indicando que realmente virá uma tempestade daquelas que acaba com tudo.
— Nossa! — Digo, voltando a atenção para ela.
— Eu vou te dar uma carona.
— Não precisa. — Pisco. Preparando-me para agradecer a intenção dela.
— Precisa sim. — Ela fala como se não houvesse discussão. — Assim eu já passo na sua casa e vejo como a Heloísa está.
— Marcela... — Meu coração erra uma batida sempre que ela se mostra preocupada com minha filha.
— Victoria, não começa. — Ela sorri de leve. — Eu quero saber como ela está.
Aquela frase me desarma, pois eu vejo tanta verdade nessa fala.
— Está bem. — Aceito.
— Então vamos.
— Só preciso desligar tudo.
— Já desliguei a sala de reuniões e o restante está sendo monitorado — Avisa.
Assinto e caminhamos lado a lado pelo corredor vazio, e é estranho. Não existe ninguém para nos observar: nenhuma câmera de celular, nenhum paparazzi, nenhuma necessidade de fingir. Mesmo assim, penso demais na proximidade dela. Sinto o perfume, ouço o som dos saltos, observo a mão segurando as chaves.
Chegamos ao elevador e Marcela aperta o botão. As portas se abrem, entramos e logo ela aperta o térreo. As portas se fecham. Por alguns segundos, nenhuma de nós fala.
O elevador começa a descer, e então... As luzes apagam. Tudo acontece tão rápido que nem tenho tempo de entender, o elevador dá um tranco. Meu corpo se inclina para frente.
— Meu Deus! — Solto sem pensar.
Seguro imediatamente na barra lateral. Marcela também se apoia, o elevador para. Em silêncio, eu olho para ela.
— Marcela? — Chamo.
Ela não responde, mas consigo ver que ela está olhando para o painel. Apenas a pequena placa de emergência continua acesa, lançando uma luz fraca e esverdeada sobre o espaço.
— Isso não é normal. — Ela aperta o botão do térreo, mas nada acontece.
— Marcela... — Tento mais uma vez.
— Espera. — Ela pega o celular e olha para a tela. — Sem sinal.
Tenta fazer uma ligação e nada acontece. Seu semblante muda para mais sério. Sua voz começa a ficar diferente, mais tensa. Ela tenta novamente, como se fosse fazer o celular funcionar a todo custo.
— Droga — aperta outro botão e depois outro — Não está funcionando.
— Talvez seja só uma queda rápida de energia. — Tento amenizar.
— O elevador não pararia assim se fosse uma queda rápida. — Ela passa a mão pelos cabelos.
— Deve ter um gerador. — Penso em qualquer coisa para deixá-la mais calma.
— Tem que ter. — Vejo seu peito subir e descer mais rápido.
— Marcela... — Chamo seu nome para trazê-la à realidade, porém ela continua à procura do botão certo.
— Tem um gerador de emergência para esse prédio. — Ela aperta o botão novamente. — Não está funcionando.
Fico em silêncio, não porque estou assustada. Eu até estou, mas existe alguma coisa na maneira como ela tenta assumir o controle que me faz querer acalmá-la. Ela pega o telefone novamente.
— Não consigo ligar para ninguém. — Ela está perdendo a paciência.
— Tenta o botão de emergência. — Dou a ideia.
Ela olha para o painel e aperta o botão. Depois de alguns segundos, uma voz abafada surge pelo alto-falante.
— Central de emergência.
— Sim, estamos presas no elevador. — Marcela responde imediatamente.
— Senhora, tivemos uma queda geral de energia na região. — Explica.
— E o gerador? — Questiona.
A voz do outro lado hesita e eu sei que isso não é uma boa coisa. Primeiro, porque indica alguma falha. Segundo, porque sei que Marcela vai surtar em poucos minutos.
— Estamos verificando. — Fala com receio.
— Não foi isso que perguntei — Marcela cruza os braços. — Eu quero saber por que o gerador de emergência não assumiu.
— Senhora, o sistema não entrou.
— Eu sei que não entrou, estou dentro de um elevador parado no escuro. — A voz permanece calma, mas eu conheço muito bem esse sarcasmo.
— Vocês estão seguras, nossa equipe está acompanhando a situação. Houve uma interrupção geral na região e ainda não temos previsão para o retorno da energia.
— E quanto tempo até o elevador voltar? — Respira fundo.
— Assim que a energia retornar, o sistema deverá ser reiniciado.
— "Deverá"? — Marcela fecha os olhos.
— Sim, senhora.
— Ótimo — ela aperta o botão novamente. — Mantenham contato.
— Claro.
A comunicação é encerrada e Marcela fica imóvel. Por algum momento, só ouvimos a nossa própria respiração, então ela passa as duas mãos pelo rosto.
— Isso é inacreditável — ela está indignada.
— O quê? — Me atrevo a questionar.
— O gerador — ela começa a andar de um lado para o outro, dentro daquele espaço minúsculo. — Eu tenho reuniões com fornecedores sobre manutenção, tenho relatórios de segurança e contratos de manutenção elétrica. Existe um procedimento específico para isso e esse elevador deveria ter energia de emergência.
— Mas estamos seguras.
— Eu sei que estamos seguras. — A voz dela suaviza. — Mas não deveria acontecer.
Fico observando, a luz de emergência ilumina apenas parte do rosto dela e, pela primeira vez, consigo vê-la sem a armadura habitual. Ela está brava. Muito brava. E, por algum motivo totalmente desconhecido, acho isso atraente.
Muito atraente.
Os cabelos estão um pouco bagunçados, a respiração ainda está acelerada, as sobrancelhas estão franzidas e aquele jeito de apertar a mandíbula quando está irritada...
Meu Deus.
Eu deveria estar preocupada, em vez disso, estou pensando que minha chefe fica bonita quando está furiosa. Desvio os olhos rapidamente porque sei que ela percebe meu olhar. Isso é ridículo.
— Está me olhando? — Sua voz esconde um sorrisinho.
— Não. — Quase engasgo e respondo rápido demais.
— Está sim. — Me desafia.
— Não estou. — Reviro os olhos mesmo sem saber se ela verá.
— Está sim — ela repete.
— Eu só estava... — Procuro uma desculpa — Observando.
— O quê? — pergunta com um ar de que sabe que eu estou mentindo.
— Você — não consigo mentir.
— Eu? — Ela ergue uma sobrancelha.
— É.
— Por quê?
— Porque você fica... — Sinto meu rosto esquentar.
— O quê? — Insiste.
— Diferente quando está brava. — Digo tudo em um fôlego só.
— Diferente como? — Pergunta confusa.
— Mais... — Não posso dizer bonita — Intensa.
— Intensa? — Ela solta uma gargalhada.
— Muito.
— Isso é um elogio?
— Talvez.
— Você gosta quando eu fico brava? — Ela fica me olhando e sinto a provocação em sua voz. Maldita.
— Não exatamente — finjo que não me importo.
— Então? — Insiste.
— Acho... — Respiro fundo. — Acho bonito ver você perder um pouco o controle.
— Isso é uma informação perigosa para você me dar. — Ela abre um sorriso enorme.
— Por quê?
— Porque agora eu sei que você gosta.
— Eu não disse isso.
— Disse quase.
— Você é insuportável, sabia? — Bufo
— E você me acha bonita quando estou brava. — Continua provocando.
— Não coloque palavras na minha boca.
Ela ri e, desde que o elevador parou, a tensão diminui. Nos sentamos no chão, não há muito espaço, então ficamos lado a lado, com as costas apoiadas na parede.
Nossos ombros se encostam e nenhuma de nós se afasta. Por um tempo falamos de coisas inúteis: da tempestade, do trânsito, de Rodolfo e de como Heloísa provavelmente ficaria feliz se descobrisse que estamos presas juntas.
— Ela provavelmente perguntaria se a gente se beijou — digo.
— Você acha? — Marcela olha para mim.
— Tenho certeza. — Admito.
— Crianças são curiosas. — Ela sorri.
— Heloísa é muito.
— Ela gosta de nós duas juntas.
Meu sorriso desaparece um pouco.
— Ela gosta de você. — Meu sorriso desaparece um pouco.
— Eu gosto dela também.
O silêncio volta e o clima pesa um pouquinho. Dessa vez é diferente, porque Marcela respira fundo antes de voltar a falar.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Pode. — Acho estranha a pergunta.
— A dívida.
— O quê? — Meu corpo enrijece.
— A dívida que fez você aceitar o contrato. — Sua voz sai cautelosa.
— Ah! — Baixo os olhos.
— Se não quiser falar... — Ela percebe de imediato meu desconforto.
— Não, tudo bem.
Fico alguns segundos em silêncio, tentando encontrar uma forma de contar sem transformar aquilo em algo ainda mais vergonhoso do que já é.
— Começou quando a Heloísa nasceu — minha voz sai baixa. — Foi um parto complicado. A mãe dela teve complicações e precisou passar por uma cirurgia, e a Heloísa nasceu antes do tempo, ela precisou ficar na UTI neonatal por algumas semanas.
Marcela não me interrompe, apenas me observa com atenção. Isso me desmonta, pois vejo que ela realmente quer me ouvir, como se tudo que eu falasse fosse extremamente importante.
— Eu não tinha dinheiro para tudo aquilo. Hospital, cirurgia, medicamentos, exames... Eu precisava resolver as coisas rápido e não tinha de onde tirar — engulo em seco. — Então eu pedi dinheiro emprestado.
— Para quem? — Ela franze a testa.
— Agiotas. — Sinto vergonha.
— Victoria! — A expressão dela muda imediatamente.
— Eu sei. — Tento sorrir, mas não consigo. — Eu sabia que era perigoso. Só que, naquele momento, eu não estava pensando no perigo, estava pensando na Heloísa. Eu precisava pagar o hospital, precisava comprar o que ela precisava, precisava cuidar da mãe dela.
Passo a mão pelo rosto, eu gostaria de apagar todas essas lembranças da minha mente, mas é simplesmente impossível.
— Eu só queria que minha filha saísse daquele hospital.
— Eles cobravam muito? — Ela não usa um tom acusativo, muito pelo contrário, ela só está... preocupada.
— No começo, eu conseguia pagar.
— Você pagava os juros?
— Sim — faço que sim com a cabeça — Sempre paguei alguma coisa. Às vezes conseguia quitar uma parte, às vezes precisava pegar dinheiro novamente para pagar o que já devia, e foi assim durante anos — minha voz começa a ficar mais baixa — só que a dívida foi crescendo.
— Muito?
— Muito. — Rio sem humor e olho para minhas mãos. — Os juros nunca paravam. Quando eu conseguia pagar uma parcela, ainda restava outra, depois outra e outra.
Respiro fundo. Sempre achei que seria mais fácil falar desse assunto quando o tempo fosse passando, mas parece que o peso dessa escolha nunca sumirá.
— Eu fui sobrevivendo.
— Eles continuaram cobrando você esse tempo todo? — Marcela aperta os lábios.
— Continuaram.
— E você nunca contou para ninguém?
— Não — balanço a cabeça.
— Por quê?
— Vergonha — a palavra sai quase como um sussurro — e medo também.
— Medo deles? — Ela se aproxima um pouco.
— No começo, não tanto — olho para ela e vejo que estamos próximas. — Eles ligavam, mandavam mensagens, apareciam de vez em quando para lembrar que eu ainda devia. Eu sabia que precisava pagar e tentava fazer o possível.
Faço uma pausa para controlar um pouco minha respiração, mas ela continua esperando eu terminar, como se estivesse esperando meu tempo. Sem pressão, apenas cuidado.
— Só que, nos últimos meses, a situação mudou.
— Como? — Marcela fica completamente imóvel.
— Eles começaram a me ameaçar. — O silêncio dentro do elevador parece ficar ainda mais pesado.
— Ameaçar você como? — Sua voz sai mais rígida.
— Dizendo que eu precisava arrumar o dinheiro de qualquer maneira, que eles estavam cansados de esperar — minha voz treme — Começaram a falar da Heloísa.
— Não é possível que ameaçaram sua filha! — Marcela muda completamente a expressão.
— Não diretamente — fecho os olhos por um instante — Mas deixaram claro que sabiam onde eu morava, onde ela estudava e que, se eu continuasse ignorando as cobranças, as coisas poderiam ficar muito piores.
— Meu Deus. — Marcela respira fundo.
— Foi aí que percebi que não dava mais para continuar — olho para ela. — Eu precisava de uma quantia grande o suficiente para conseguir respirar novamente, e foi quando apareceu a proposta do contrato.
— Então foi com eles que te ouvi aquele dia no telefone — associa as coisas. — Foi por isso que você aceitou o contrato.
— Eu aceitei porque precisava proteger minha filha — dou um sorriso triste.
Marcela olha para nossas mãos ainda próximas, depois volta os olhos para mim. Não precisamos disfarçar o quanto esse assunto gera uma intimidade maior entre nós.
— Você não deveria ter precisado enfrentar isso sozinha — volta a falar.
— Mas enfrentei. — Baixo meu olhar.
— Eu sei — sussurra. Ela toca minha mão novamente, dessa vez, com mais firmeza. — E agora?
— Agora eu só quero conseguir fingir que isso nunca aconteceu. Eu já paguei o que devia com o valor que você me pagou no início do contrato.
Ela aperta meus dedos.
— Você vai conseguir — ela aperta meus dedos.
— Como pode ter tanta certeza? — Olho para ela e ela sustenta meu olhar.
— Porque você chegou até aqui, como uma guerreira.
A frase me desmonta e, por muito tempo, não consigo dizer nada. Porque talvez ninguém nunca tenha olhado para tudo aquilo dessa maneira. Não como uma dívida ou como uma escolha ruim, mas como uma coisa da qual sobrevivi.
E, naquele momento, com a mão dela segurando a minha dentro daquele elevador parado, percebo que talvez seja justamente isso que esteja começando a me assustar. Eu estou começando a acreditar nela.
— E a mãe da Heloísa? — Muda de assunto.
Meu coração aperta, afinal essa é a pergunta que eu menos gosto. Sempre evitei esse assunto com todas as minhas forças.
— O que aconteceu com vocês?
Olho para frente, a luz de emergência continua lançando claridade pelo local, fazendo com que dê para vermos uma à outra.
— Ela foi o único amor que tive.
— O único? — Marcela fica imóvel.
— O único — Sorrio de maneira triste — Eu nunca tive outro relacionamento de verdade.
— Vocês se amavam? — A pergunta é quase um sussurro.
— Eu amava — faço uma nova pausa — muito.
— E ela?
Meu silêncio responde primeiro, mesmo assim, ela quer uma resposta verbal.
— Eu achei que ela me amava — minha voz treme — até a Heloísa nascer.
— O que aconteceu? — Marcela não desvia o olhar.
— Ela não queria ser mãe — respiro fundo, juntando coragem para contar tudo. — Quando Heloísa nasceu, ela ficou diferente. No começo eu achei que era o medo, o parto tinha sido complicado e ela estava se recuperando da cirurgia. Eu tentei entender, mas depois ela começou a dizer que tinha se arrependido.
— Se arrependido da filha? — Marcela pergunta, incrédula.
— E de mim — minha voz quase não sai — ela disse que eu não era o tipo de pessoa que ela estava procurando e disse que nunca imaginou que a vida dela terminaria daquela maneira.
Marcela respira fundo, vejo ela fechando os olhos com mais força, querendo manter o controle do que falar e de como falar.
— Como assim, você não era o que ela esperava? — Consegue formular a pergunta.
— Você sabe... — Deixo a frase inacabada.
— Não, eu não sei — sua voz sai mais séria.
— Ela não queria estar com alguém... que não fosse feminina.
— Isso só pode ser brincadeira — ela solta uma risada completamente sem humor.
— Eu gostaria muito que fosse — Admito — Mas ainda me dói lembrar de todas as coisas que ela listou que não eram suficientes em mim.
— E ela só percebeu isso quando ganhou a bebê? — Marcela está tão indignada quanto eu com a situação. — Eu nem conheço ela, mas já acho ela uma louca. E cega também, onde já se viu falar que você não era suficiente só porque não apresentava a feminilidade que ela queria.
— Já passou — tento fingir que está tudo bem.
— Não passou — ela enfatiza. — Olha a merda que essa mulher fez na sua vida. Não é porque você não usa vestidos ou saias que você deixou de ser uma mulher, ou que não tenha sua feminilidade exposta.
— Eu já me conformei que meu jeito de ser ou de me vestir possa gerar repulsa em algumas pessoas.
— Victória, você está se ouvindo? — Ela quase berra. — Você não tem que se conformar com nada disso, não há nada de errado com você.
Eu não respondo nada, apenas continuo encarando minhas mãos. Leva um tempo até que ela se acalme e volte a querer saber mais sobre a história.
— E então? — Volta a falar. — O que houve depois?
— Então ela foi embora.
— Quando?
— Pouco depois que recebeu alta — olho para o teto — Ela saiu do hospital e foi embora com um homem que trabalhava com ela.
— Ela deixou vocês duas? — A expressão de Marcela muda novamente.
— Sim.
— Assim?
— Assim — minha voz fica amarga — não houve uma despedida bonita ou uma conversa. Não houve "sinto muito" — dou uma risada pequena — Ela simplesmente escolheu outra vida.
— E você ficou — quase não ouço sua voz, mas consigo entender.
— Eu fiquei.
— Com a Heloísa.
— Com a Heloísa — olho para minhas mãos novamente — eu tinha medo, muito medo.
Minha voz finalmente quebra, sinto meus olhos arderem e não gosto dessa exposição. Isso me gera ainda mais raiva.
— Eu não sabia como ia fazer, tinha uma filha recém-nascida, uma dívida enorme, uma mulher que tinha acabado de me abandonar e nenhuma ideia do que fazer da minha vida.
Marcela aproxima discretamente a mão da minha, não toca ainda, apenas deixa perto.
— E mesmo assim você ficou — diz mais uma vez.
— Eu nunca conseguiria deixá-la.
— Eu sei.
Aquelas duas palavras me atingem e eu olho para ela.
Marcela está me olhando de um jeito diferente, sem pena, não há julgamento. É alguma coisa muito mais profunda.
— Você sabe? — Questiono, sem saber muito o que dizer.
— Sei.
Ela finalmente toca minha mão, apenas os dedos. Um contato pequeno, mas eu sinto como se tivesse levado um choque.
— Porque tudo o que você me contou sobre ela hoje... — Ela engole em seco. — Não parece que você perdeu apenas um relacionamento, parece que você perdeu a pessoa que achava que seria sua família.
Meus olhos se enchem de lágrimas, meu coração aperta e sinto minha garganta fechar. Faz muito tempo que não toco nesse assunto por ser justamente esse sentimento que sinto e Marcela o descreve tão bem.
— Foi isso.
— Sinto muito — ela aperta minha mão.
Dessa vez, não consigo esconder, uma lágrima escapa mesmo sem que eu permita. Passo rapidamente os dedos pelo rosto, mas sei que ela já viu.
— Eu odeio chorar — Confesso.
— Não precisa ter vergonha — tenta me deixar tranquila.
— Tenho.
— Por quê?
— Porque parece fraqueza.
— Não é — ela balança a cabeça.
— Você sempre parece saber o que fazer — Confesso.
— Não sei — agora é ela quem dá um sorriso triste.
— Parece.
— É só aparência.
— E você? — Olho para ela e sei que ela não entendeu a mudança de assunto.
— Eu? — Franze o cenho.
— Já amou alguém assim?
— Não — responde, depois de um longo silêncio.
Não sei por que sinto alívio. Talvez porque uma parte de mim queira acreditar que o que existe entre nós é diferente, mas imediatamente lembro que ela é minha chefe e eu estou sentada no chão de um elevador com ela. Minha mão ainda está na dela, quando percebo, nossos dedos estão entrelaçados.
Nenhuma das duas sabe exatamente quando isso aconteceu. Olho para nossas mãos, depois para ela, Marcela também olha. E, por fim, nossos olhos se encontram.
Ela não solta, eu também não.
— Victoria... — sua voz está baixa.
— Hum?
— Eu acho que entendo agora por que você não quer namorar novamente.
— Não é só por causa dela — tento sorrir.
— Mas é o principal motivo.
— É por causa de tudo — olho para frente. — Quando alguém vai embora assim, você começa a pensar que amar alguém significa dar a essa pessoa uma arma para te destruir.
Marcela aperta minha mão.
— Nem todo mundo vai embora. — Marcela aperta minha mão e eu a encaro novamente.
— Você não pode me prometer isso.
— Não posso — ela sustenta meu olhar — Mas posso prometer que não vou mentir para você.
— Mesmo quando a verdade for difícil? — Meu coração bate forte.
— Principalmente quando for difícil.
Ficamos em silêncio, o espaço parece menor, o ar parece mais quente. Ela está muito perto.
Consigo enxergar cada detalhe do rosto dela naquela iluminação fraca. Os olhos, a curva do nariz e, principalmente, a boca, que agora parece muito mais próxima do que deveria. E percebo que ela está fazendo a mesma coisa.
Marcela me olha com intensidade, como se estivesse tentando decidir alguma coisa dentro da própria cabeça. Seus olhos encontram os meus e permanecem ali por alguns segundos, intensos demais para que eu consiga fingir que não percebo. Meu coração começa a bater mais rápido, e eu odeio o quanto meu corpo parece reagir a tudo que diz respeito a ela.
O olhar dela desce lentamente dos meus olhos para a minha boca, meu coração dispara. Prendo a respiração e nenhuma de nós se mexe.
Por um instante, tudo o que consigo ouvir é a nossa respiração dentro daquele espaço apertado. A tempestade lá fora parece distante, o prédio inteiro poderia desaparecer e eu provavelmente não perceberia. Porque Marcela está olhando para a minha boca, e dessa vez não parece atuação, não parece que estamos tentando convencer alguém de que existe um relacionamento entre nós. Parece apenas... Ela e eu.
Meu corpo inteiro fica alerta quando ela se aproxima um pouco, é quase imperceptível, poucos centímetros, mas eu sinto o calor dela, o perfume, a proximidade.
E, por um segundo, esqueço completamente todas as razões pelas quais isso é uma péssima ideia, esqueço até que ela é minha chefe. Esqueço que prometi a mim mesma que nunca mais deixaria alguém chegar perto o suficiente para ter o poder de me machucar.
Porque, nesse momento, tudo o que consigo pensar é que talvez ela vá me beijar e eu desejo isso. Meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ela consegue ouvir.
Marcela inclina levemente o rosto, eu não me afasto. Na verdade, percebo que estou fazendo exatamente o contrário, estou me aproximando também.
Meus olhos descem para os lábios dela, a sua respiração toca meu rosto, fecho os olhos lentamente e espero. Só espero, sem saber que, naquele instante, a poucos centímetros da boca dela, estou prestes a descobrir que talvez o sentimento que mais tenho tentado negar seja justamente aquele que já não consigo controlar.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

4
M

marianaaleao

13/09/2026 às 23:46

Minha esperança é a parte II kkkk.
Foto de Paloma Matias

Paloma Matias 14/09/2026 às 19:16

eu poderia ser bem cruel né? kkkk
M

marianaaleao 14/09/2026 às 23:22

Definitivamente N.Ã.O!
Foto de Tai_arievilo

Tai_arievilo

13/09/2026 às 22:08

Ei, volta aqui...
Não tem dor maior do que ser magoada por quem amamos, espero que a Vic consiga superar e se permitir.
Foto de Paloma Matias

Paloma Matias 14/09/2026 às 19:16

vou voltar, prometo
E

Eva Bahia

12/09/2026 às 21:50

Aeeeee.. agora vai. Não é possível que esse elevador vai voltar a funcionar justamente na hora do beijo pra atrapalhar...

Não faça isso conosco viu dona autora... Raiai
Foto de Paloma Matias

Paloma Matias 14/09/2026 às 19:16

kkkkk volto logo logo
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