Marcela
Acordo antes mesmo do despertador tocar. Por alguns segundos, fico olhando para o teto, sem entender exatamente o que me tirou do sono. Então lembro: Victoria, a noite anterior, conversa no sofá.
O jeito como ela se sentou ao meu lado e, pouco a pouco, deixou de ser minha secretária e passou a ser apenas... Victoria. A mulher que anda de skate, que sonha em criar capas de livros, que gosta de ficar acordada até tarde conversando, que se preocupa com a filha mais do que com qualquer outra coisa no mundo.
E, principalmente, lembro de uma frase:
"Eu estou fora desse lance de relacionamento."
Abro os olhos completamente. É ridículo o quanto essas palavras continuam voltando para a minha cabeça. Ela falou de maneira tão natural, como se fosse uma decisão já tomada. Como se a possibilidade de se apaixonar novamente fosse algo que ela sequer quisesse considerar.
E eu deveria estar tranquila com isso. Na verdade, deveria estar aliviada, afinal, nosso relacionamento é falso.
Existe um contrato, uma data para começar e uma data para terminar. Eu não deveria estar imaginando como seria se fosse real, muito menos depois de descobrir que Victoria não pretende deixar ninguém entrar novamente na vida dela dessa maneira.
Viro para o lado e olho para o relógio, ainda é cedo, mas não consigo voltar a dormir. Minha cabeça continua insistindo naquela conversa:
"Eu já tenho meus próprios problemas, não quero mais nenhum."
Ela disse isso também, para ela, namorar seria ter problemas e, pela primeira vez, percebo que talvez eu seja exatamente o tipo de problema que ela está tentando evitar.
Solto uma risada sem humor. Ótimo, Marcela. Era exatamente disso que você precisava.
Você finalmente encontra alguém que consegue fazer você esquecer, por algumas horas, todas as regras que estabeleceu para a própria vida e descobre que essa pessoa não quer se apaixonar por ninguém.
Levanto-me antes que consiga transformar aquilo em algo ainda mais absurdo. Tomo meu banho e me preparo para descer.
Quando chego à sala, encontro Victoria já acordada. Ela está ajeitando a bolsa no sofá, enquanto Heloísa está sentada perto dela, ainda com aquela aparência sonolenta de quem acabou de acordar. Rodolfo está aos pés das duas.
— Bom dia. — Digo, chamando a atenção das duas.
Victoria olha para mim, por um instante, nossos olhos se encontram e eu sinto aquele mesmo aperto no peito da noite anterior.
— Bom dia. — Ela retribui.
Ela sorri, um sorriso pequeno, quase tímido, e isso é suficiente para fazer meu cérebro lembrar de tudo outra vez, e, ao mesmo tempo, ele grita: foco, Marcela. Você nunca foi essa pessoa de se importar tanto com a decisão de outras pessoas, se ela não quer um relacionamento, é problema dela e não seu.
— Dormiu bem? — pergunto.
— Muito.
— Má! — Heloisa se levanta.
— Bom dia, pequena. — O sorriso volta imediatamente para o meu roto.
Ela corre até mim e me abraça pela cintura. Passo a mão pelos cabelos dela e depois em sua testa, conferindo se ela ainda está muito quente.
— Como está se sentindo? — Encaro seus olhinhos.
— Melhor. — Sorri.
— Ela ainda está um pouco quente, mas está bem melhor. — Victória se aproxima e eu apenas assinto. — Mesmo assim, acho melhor ela ficar com a Dona Florinda hoje.
— Também acho — respondo.
— Não quero mandá-la para a escola ainda.
— Então vamos deixar a Dona Florinda cuidar dela.
Ela concorda e não demoramos muito para sair. O carro já está pronto. Durante o caminho até a casa de Victoria, Heloísa fica no banco de trás, distraída falando sobre o Rodolfo, enquanto eu e Victoria permanecemos em silêncio, quase sem nenhum tipo de contato.
Quase. Porque de vez em quando nossos olhos se encontram quando desvio o olhar da estrada por alguns segundos. E toda vez que isso acontece, ela desvia primeiro. Não sei por que reparo, mas reparo.
Quando chegamos à casa dela, Victoria entra rapidamente para trocar de roupa e para deixar Heloísa com Dona Florinda.
Eu permaneço dentro do carro. Poucos minutos depois, Victoria retorna usando uma roupa mais adequada para o escritório e eu reparo de novo nela. Percebo que ela tem usado as roupas que compramos também para o trabalho, e devo confessar que ficam ótimas nela.
— Desculpa a demora. — Diz ao abrir a porta e entrar.
— Não demorou. — A vejo se ajeitar no banco. — A Heloísa ficou bem?
— Ficou. Dona Florinda prometeu cuidar dela.
Emito apenas um som com a boca, concordando com ela, e dou a partida no carro e, por alguns minutos, tudo parece normal. Até chegarmos à editora.
O prédio surge diante de nós e reconheço imediatamente a movimentação na entrada. Estaciono em frente à porta principal. Como sempre, um funcionário vem se aproximando para pegar o carro e levá-lo até a garagem.
Estou prestes a abrir a porta quando sinto a mão de Victoria tocar meu braço.
— Espera. — Ela diz de repente.
— O quê? — Olho para a sua mão em meu braço e depois para ela.
Ela não responde imediatamente, primeiro ela olha pela janela e depois para mim.
— Não desce ainda. — Sussurra.
— Por quê? — Franzo a testa.
Ela se aproxima um pouco e eu continuo sem entender nada. Ela apoia o braço no meu banco, diminuindo ainda mais a distância. Essa mulher está querendo me deixar louca?
— Tem gente ali. — Sua voz ainda sai baixinho, como se alguém pudesse nos ouvir.
Olho para o outro lado da rua, no começo não vejo nada. Procuro mais um pouco e então percebo: duas pessoas com câmeras. Paparazzis.
Meu estômago revira, fazia tempo que eu não os tinha atrás de mim. Isso é tão chato.
— Como você viu? — Pergunto.
— Eles não são nada discretos.
— E o que fazemos? — Olho novamente, mas Victoria segura meu queixo e vira meu rosto em sua direção novamente.
Victoria me encara e, então, a expressão dela muda. Ela parece quase... determinada. Existe algo diferente em seu olhar.
— O que duas namoradas fariam. — Sua boca se curva em um sorriso malandro.
— Victoria... — Meu coração acelera.
— É uma boa oportunidade. — Ela fala baixo ainda. — Se eles conseguirem uma foto nossa chegando juntas, ajuda o contrato.
Claro! O contrato. É isso. Ela só está pensando no contrato. Assinto, mesmo que algo dentro de mim tenha se decepcionado, sei que ela está certa. Nosso foco precisa ser o contrato.
— Certo. — É o máximo que consigo dizer.
Mas, antes que eu consiga fazer qualquer coisa, ela aproxima a mão do meu rosto, meus músculos ficam tensos. Seus dedos tocam uma mecha do meu cabelo e ela a coloca atrás da minha orelha.
O gesto é delicado, tão natural, íntimo. O que faz meu coração disparar mais uma vez.
— Assim — ela murmura.
— Assim como? — digo, sem saber o que fazer.
— Mais convincente. — Diz, enquanto encara minha boca.
Meu Deus, ela está fazendo isso pelo contrato. Preciso me lembrar disso.
Ela passa os dedos pela minha bochecha e meu corpo inteiro reage. Não deveria, mas reage. Ela se aproxima ainda mais.
— Sorri. — Me diz o que fazer.
Eu sorrio, ou tento. Porque estou ocupada demais tentando lembrar como respirar. Victoria apoia a mão na minha cintura.
Aquele toque simples parece incendiar meu corpo. Ela olha para mim, eu olho para ela, por alguns segundos, esquecemos completamente as câmeras.
E então percebo o quanto estamos próximas. Perto demais, para ser sincera. O nariz dela toca o meu, minha respiração se mistura à dela e, involuntariamente, eu fecho os olhos, mas, quando ela se afasta um pouquinho, eu volto a abri-los.
Meus olhos descem involuntariamente para sua boca e, nesse instante, desejo beijá-la. Não por causa dos paparazzis ou por causa do contrato. Quero beijá-la porque quero.
A ideia me assusta, Victoria parece perceber alguma coisa em meu olhar. Ela sorri, um sorriso pequeno, quase provocador.
— Está nervosa? — Provoca.
— Não. — Minha voz sai baixa.
— Está. — Afirma.
— Não estou.
— Eu te deixo nervosa?
Ela aproxima o rosto mais um pouco, meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ela consegue ouvir. Mas ela não me beija, apenas encosta a testa na minha por um segundo. O gesto é ainda mais íntimo, mais perigoso. Ela passa o polegar pela minha bochecha.
— Assim eles acreditam. — Sua respiração toca meu rosto quando ela fala.
Eles: os paparazzis. Não eu.
Eu preciso me lembrar disso, mas não consigo. Porque tudo que consigo pensar é que eu gostaria que ela fizesse aquilo quando não houvesse ninguém olhando. Gostaria que a mão na minha cintura não tivesse motivo.
Que o carinho no meu rosto não fosse uma atuação e que esse olhar não fosse uma estratégia. Gostaria que ela me tocasse porque sentiu vontade.
E isso dói, porque sei que não é o caso. Victoria finalmente se afasta alguns centímetros, me dando espaço para voltar a respirar.
— Pronto — diz, afastando-se de vez.
— Pronto?
— Acho que foi suficiente — a fala dela me traz de volta — Eles tiraram várias fotos.
Assinto, porém não consigo responder imediatamente. Minha mão ainda sente o lugar onde a dela esteve, e isso me incomoda. Muito.
— Podemos descer agora. — Dá o próximo comando.
— Claro. — Falo ainda atordoada com o que acabou de acontecer.
Ela abre a porta, mas percebe que eu não faço o mesmo movimento. Então, antes de sair, ela olha para mim novamente.
— Você está bem? — Pergunta, parecendo um pouquinho preocupada.
— Estou. — Forço um sorriso.
Ela parece acreditar e sai do carro. Eu espero alguns segundos antes de fazer o mesmo.
Entrego a chave do carro para o manobrista e subimos até a editora.
Por fora, tudo parece normal, já por dentro, não. Porque agora tenho uma pergunta que não deveria estar fazendo: como seria Victoria como minha namorada?
Não como minha secretária, não como a mulher que assinou um contrato comigo ou como a mãe da Heloísa, mas sim como minha namorada.
Será que ela faria carinho no meu cabelo quando estivéssemos assistindo televisão? Que seguraria minha mão embaixo da mesa? Será que me abraçaria quando eu tivesse um dia ruim? Ou que acordaria ao meu lado e sorriria daquele jeito pequeno que sorriu hoje? Será que me beijaria sem precisar de uma câmera do outro lado da rua?
A pergunta seguinte é ainda pior: será que eu seria capaz de deixar alguém fazer tudo isso comigo?
A resposta deveria ser simples: não. Mas não é, porque, pela primeira vez em muito tempo, eu consigo imaginar alguém ocupando esse espaço.
E esse alguém é Victoria, então lembro da noite anterior.
"Eu estou fora desse lance de relacionamento."
Paro diante da porta da minha sala, aquilo deveria ser suficiente para me colocar no lugar. Ela não quer, ela não está procurando por isso.
Ela está apenas cumprindo um contrato, o carinho no carro foi atuação, o olhar foi atuação, a mão na minha cintura também foi. A proximidade foi atuação. Tudo foi atuação. Mesmo que meu corpo tenha acreditado por alguns segundos.
Entro na minha sala, pronta para esquecer tudo o que acabou de acontecer.
******
Estou na metade da leitura do contrato quando percebo que já passei pela mesma página três vezes.
Não porque o documento seja confuso. Muito pelo contrário. É exatamente o tipo de proposta que costuma prender minha atenção: um original que chegou à editora há algumas semanas, com potencial comercial enorme, uma autora desconhecida com uma voz narrativa surpreendentemente madura e uma história que, se for bem trabalhada, pode se transformar em um dos grandes lançamentos do próximo semestre.
Tenho anotações espalhadas pelas margens, algumas cláusulas marcadas, números de vendas projetados e uma lista mental de perguntas que pretendo fazer ao departamento editorial assim que terminar a análise.
É importante. Muito importante. Por isso, quando a porta da minha sala se abre sem que ninguém bata, minha primeira reação não é de curiosidade, é de irritação.
Levanto os olhos do documento e encontro Jorge entrando como se estivesse em casa, e atrás dele vem Lúcio.
Meu corpo inteiro endurece. Por alguns segundos, não digo nada, apenas olho para os dois, depois para a porta e novamente para eles.
A primeira coisa que penso é que minha secretária teria me avisado se algum deles tivesse marcado horário. A segunda é que Victoria estaria provavelmente sentada à mesa do lado de fora, pronta para impedir exatamente esse tipo de interrupção.
Meu olhar atravessa a parede de vidro, já que as persianas estão abertas. A mesa dela está vazia.
Respiro fundo. Claro! Justamente hoje que ela não está ali. Fecho lentamente a pasta sobre o documento, tomando cuidado para não amassar nenhuma das folhas.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Tento manter a calma.
— Também é bom te ver, maninha — Jorge abre um sorriso tão falso quanto ele.
— Eu perguntei o que vocês estão fazendo aqui. — Repito.
Ele olha ao redor da sala como se estivesse tentando encontrar alguma razão para minha irritação, ou pensando em uma forma de me irritar mais ainda.
— Vim conversar com você. — Diz na maior cara de pau.
— Sem horário marcado? — Levanto uma sobrancelha.
— É uma conversa entre irmãos. — Fala, sínico.
— E? — Uso meu desdém.
— E eu não preciso marcar horário para falar com minha própria irmã.
— Você precisa ser anunciado. — Minha mandíbula trava.
— Dentro da nossa própria empresa? — Ele dá uma risada curta.
— Nossa empresa, não. — O corto.
— Marcela — ele revira os olhos.
— A empresa não é sua, Jorge. — Minha voz permanece calma, talvez calma demais. — Ela pertence aos nossos pais. Nós dois crescemos aqui, nós dois temos participação, mas quem está no comando atualmente sou eu. E, enquanto eu estiver no comando, qualquer pessoa que entrar na minha sala precisa ser anunciada. Inclusive você.
O sorriso dele desaparece um pouco.
— Você está exagerando. — O sorriso dele desaparece por um momento.
— Não. — Aponto para a mesa diante de mim. — Estou trabalhando.
— É tão importante assim? — Jorge olha para o documento fechado.
— Sim.
— Então posso voltar outra hora. — Zomba.
— Pode. — O encaro friamente.
Ele não se mexe. Obviamente não veio apenas para ter uma conversa banal de irmãos, eu o conheço tão bem para saber que há uma grande armação por trás dessa visita.
— Qual é o verdadeiro motivo? — Cruzo os braços.
Jorge olha para Lúcio e eu imediatamente sei que vou odiar a resposta. Lúcio permanece encostado próximo à porta, com aquela expressão confiante que costumava carregar pelos anos que estávamos juntos. Hoje só me provoca cansaço.
— A festa anual da editora — Jorge finalmente diz.
— O que tem? — Pergunto, confusa.
— A festa anual. Daqui a dois meses. — Repete como se fosse óbvio.
— Eu sei. — Digo, perdendo a paciência.
— Vim lembrar você.
— Eu tenho uma agenda. — Sou sarcástica.
— Eu sei.
— E sei que existe uma festa daqui a dois meses. — Falo como se estivesse explicando algo para uma criança de cinco anos.
— Ótimo. Então você também sabe que precisa de um acompanhante. — Meu irmão sorri.
Olho para Lúcio, ele está sorrindo, igualzinho a um paspalho. Meu estômago revira, sei que o que vem a seguir me deixará a ponto de vomitar.
— Não — digo, já prevendo o que ele falará — nem pense nisso.
— O Lúcio está aqui porque se ofereceu para ir com você. — Ele ignora meu alerta.
— Ele se ofereceu? — Solto uma risada completamente sem humor.
— Jorge comentou que você provavelmente iria sozinha. — Lúcio finalmente se aproxima.
— Provavelmente? — Questiono, querendo saber onde essa palhaçada vai dar.
— E eu pensei que talvez fosse uma boa oportunidade para conversarmos.
— Não existe nada para conversarmos.
Ele coloca as mãos nos bolsos.
— Marcela, já faz bastante tempo. — Ele coloca as mãos nos bolsos e estufa o peito.
— Eu sei. — Continuo séria.
— Você não acha que está na hora de deixar o passado para trás? — Tenta mais uma vez
— Eu deixei.
— Então, por que está tão incomodada com a minha presença?
— Porque eu não pedi para você estar aqui.
O silêncio que segue é interrompido pelo som da porta. Meu coração dá um pequeno salto ao ver Victoria entrar.
Ela está segurando algumas pastas e parece distraída, provavelmente ainda pensando em alguma questão do trabalho.
E então acontece algo para o qual eu definitivamente não estou preparada. Victoria caminha até mim, coloca as pastas sobre minha mesa, segura meu rosto delicadamente e me dá um selinho.
Meu cérebro simplesmente para. É rápido, muito rápido. Mas é real o suficiente para fazer meu rosto esquentar imediatamente.
— Desculpa ter ficado alguns minutos fora — ela murmura, como se estivéssemos sozinhas. — Fui até o marketing resolver umas coisas que precisavam de mim.
Fico olhando para ela, completamente sem reação. Ela me encara e então percebo: ela está atuando. É claro, ela viu Lúcio e entendeu imediatamente a situação. Ela está fazendo exatamente o que fez mais cedo no carro. Mesmo assim, meu coração não recebeu o memorando, então, para ele, é como se fosse real.
— Tudo bem — consigo responder.
Minha voz sai mais baixa do que gostaria. Victoria se vira, finge somente naquele instante perceber que não estamos sozinhas.
— Ah. — Ela olha para Jorge. — Oi.
— Oi, Victoria. — Ele parece surpreso, mas sorri. — Não sabia que você estava aqui.
— Eu trabalho aqui. — Ela responde com uma naturalidade quase divertida.
Então seus olhos passam para Lúcio e o sorriso desaparece. É um olhar tão frio que quase sinto pena dele. Quase.
— E você... — Ela deixa a frase incompleta.
Lúcio tenta manter a postura.
— Lúcio. — Ele se apresenta.
— Eu sei quem você é — ela diz isso sem sorrir.
Depois olha para mim e eu percebo que ainda estou vermelha. Meu Deus, ela realmente me beijou.
Na frente deles e, por algum motivo, a sensação daquele toque continua na minha boca.
— Então — Jorge começa — como eu estava dizendo, o Lúcio se ofereceu para acompanhar você na festa.
Victoria olha para mim e não esconde sua confusão, mas não há tempo para explicar, porque, se eu não agir agora, essa palhaçada toda virará um circo no meio da minha sala.
— Não vou com ele. — Digo firme.
— Marcela... — Jorge suspira ao dizer meu nome.
— Eu já tenho acompanhante.
— Quem? — Lúcio me encara.
Olho para Victoria, ela parece surpresa por um segundo. Então entende que depois eu irei explicar tudo conforme necessário.
— Minha namorada.
A palavra sai da minha boca com uma facilidade assustadora: minha namorada.
Victoria baixa os olhos por um instante. Quando volta a me olhar, existe algo diferente ali. Talvez surpresa, ou orgulho. Talvez apenas mais uma atuação. Não sei e nem quero saber no momento.
— Então você já decidiu? — Lúcio pergunta.
— Sim.
— E vai levá-la? — Aponta para Victória como se ela fosse digna de pena.
— Sim.
— Marcela, você não precisa fazer isso — ele solta uma risada.
— Fazer o quê?
— Fingir.
Meu corpo inteiro fica rígido, e percebo que o de Victoria também. Respiro fundo mais uma vez, me preparando para mais um chilique de Lucio.
— Lúcio... — Meu irmão tenta conter o amigo.
— Não, Jorge. — Ele mantém os olhos em mim. — Eu conheço a Marcela. Sei quando ela está apaixonada e sei quando está apenas tentando provocar alguém.
— Acho que você está confundindo conhecer com achar que conhece. — Digo, sem desviar o olhar dele.
Victoria deixa escapar uma risada completamente sem humor, chamando a atenção de todos. Então Lúcio olha para ela.
— Você realmente acha que ela está apaixonada por você? — Solta seu veneno.
Minha respiração some ao ver Victoria dar um passo à frente, e eu sei que ela é completamente capaz de enfrentá-lo.
Mas falo antes que isso aconteça.
— Chega. — Minha voz faz os dois pararem, olho diretamente para Lúcio. — Você veio até a minha empresa sem ser convidado, entrou na minha sala sem autorização e agora está questionando minha vida pessoal na frente da minha funcionária.
— Eu só estou tentando conversar. — Ele tenta rir.
— Não — levanto-me. — Você está tentando ultrapassar um limite que deixei muito claro quando terminamos.
— Marcela — ele desfaz o sorrisinho que estava até agora estampando seu rosto.
— Eu não quero você aqui — todos ficam em silêncio — e não vou aceitar seu convite.
— Você está sendo injusta. — Tenta mais uma vez.
— Não estou, estou sendo realista.
— Eu só queria uma oportunidade. — Tenta partir para o drama.
— Você teve muitas — minha voz permanece firme — Todas acabaram.
— Você realmente vai trocar tudo o que tivemos por isso? — Ele aponta para Victória.
Meu sangue ferve. Victoria abaixa os olhos por um instante, mas eu vejo a tensão em seu rosto.
— Não fale com ela dessa maneira. — Aviso.
— Está defendendo sua namoradinha? — Lúcio ri.
— Estou defendendo uma pessoa que você está tentando humilhar dentro da minha empresa. — Sinto a raiva me consumir — e não se atreva a chamá-la novamente de “namoradinha”.
— Ela nem pertence ao seu mundo.
Ele cruza os braços mantendo a pose de macho alfa. A frase me faz perder o pouco de paciência que ainda tenho.
— Você não sabe absolutamente nada sobre o mundo dela — dou um passo na direção dele. — E não tem direito nenhum de julgá-la.
Ele fica em silêncio, mas isso não me faz parar. Ele consegue despertar uma Marcela que só existe na presença de idiotas, e foi essa pessoa que ele sempre conheceu, pois eu nunca tive paciência para essas criancices dele.
— Victoria trabalha aqui porque é competente. Porque é responsável. Porque conquistou o espaço que ocupa. E, se você acha que dinheiro, sobrenome ou posição profissional dão a alguém o direito de diminuir outra pessoa, então talvez você ainda não tenha entendido por que nosso relacionamento terminou.
— Eu não quis dizer isso — Lúcio desvia o olhar, envergonhado.
— Mas disse — minha voz endurece — e agora você vai sair.
Ele olha para Jorge, mas meu irmão permanece em silêncio. Os dois sabem que, quando atravessam o limite da minha paciência, é melhor ficar quieto e não me enfrentar.
— Marcela — Lucio fala quase em súplica.
— Se você não sair por vontade própria, eu chamo os seguranças.
— Você faria isso comigo? — Ele me encara.
— Faria — dou um sorriso frio — e não me desafie, Lúcio. Você sabe que eu sou capaz.
O silêncio fica pesado, finalmente ele caminha até a porta. Antes de sair, porém, olha uma última vez para mim.
— Você vai se arrepender — me ameaça.
— Não — respondo sem hesitar — Eu me arrependeria se deixasse você entrar novamente na minha vida.
Ele sai e a porta se fecha. Fico alguns segundos parada, só então percebo que estou tremendo levemente.
Jorge suspira.
— Você não precisava ser tão dura. — Jorge suspira.
— Precisava. — Viro-me para ele.
— Ele só queria ajudar.
— Não traga meu ex para minha sala sem me consultar novamente.
— Você está sendo radical demais.
— Estou falando sério. — Não me intimido, e ele me olha. — Você é meu irmão, eu aceito você aqui, mas isso não significa que você pode fazer o que quiser aqui dentro — aponto para a porta. — Se você trouxer o Lúcio novamente para esta empresa sem minha autorização, a presença dele será proibida. E, se você insistir em trazê-lo, a sua também.
— Você está me ameaçando? — Ele arregala os olhos.
— Estou estabelecendo um limite.
Jorge me encara por alguns segundos e depois assente, sabendo que não tem como medir forças comigo.
— Está bem.
Ele sai e a porta se fecha novamente. Finalmente fico sozinha com Victoria.
Agora ela está parada diante da minha mesa e eu percebo que ela está me olhando como se quisesse uma explicação.
— O quê? — pergunto.
Ela demora alguns segundos para responder.
— O que acabou de acontecer aqui? Em que o louco do seu ex queria ser seu acompanhante?
— Em dois meses tem a festa anual da editora, e ele achou que seria uma ótima ideia me acompanhar.
— Coitado — balança a cabeça como se não acreditasse no que está ouvindo — Obvio que serei eu que vou com você.
— Exatamente isso que deixei claro para ele.
— Ele que não resolva aparecer aqui com esse papo novamente, que eu arrebento aquela cara de paspalho que ele tem.
Por um momento me pergunto se isso tudo é apenas raiva de quem ele é ou se é um pouquinho de ciúmes, mas não crio expectativas, pois sei que vou me frustrar novamente.
Então sinto meu rosto esquentar novamente, lembro do selinho, do toque, da maneira como ela segurou meu rosto.
— Sobre aquilo... — Tento começar a falar sobre o assunto.
— O beijo? — Fala com naturalidade.
— Sim.
— Foi necessário. — Ela dá de ombros.
Claro! Necessário. Contrato. Atuação. Tudo racional.
— Eu sei. — Minha voz sai baixa.
Ela pega as pastas que trouxe do marketing. Antes de sair, porém, para na porta. Olha para mim com aquele olhar diferente novamente, aquele olhar que ainda não consigo decifrar.
— Você foi muito boa defendendo a gente. — Sorri mais uma vez.
Meu coração aperta.
— A gente? — Meu coração dispara pela milésima vez no dia.
— O nosso namoro.
Então ela sai, me deixando sozinha. Olho para a porta fechada, depois toco, sem perceber, os dedos na minha própria boca. O lugar onde ela me beijou ainda parece quente.
E, acho que está na hora de encarar a realidade, admitir para mim mesma aquilo que venho tentando evitar desde ontem. Talvez eu não esteja mais com medo de que esse namoro falso pareça verdadeiro. Eu estou começando a ter medo de que ele seja verdadeiro apenas para mim.
Acordo antes mesmo do despertador tocar. Por alguns segundos, fico olhando para o teto, sem entender exatamente o que me tirou do sono. Então lembro: Victoria, a noite anterior, conversa no sofá.
O jeito como ela se sentou ao meu lado e, pouco a pouco, deixou de ser minha secretária e passou a ser apenas... Victoria. A mulher que anda de skate, que sonha em criar capas de livros, que gosta de ficar acordada até tarde conversando, que se preocupa com a filha mais do que com qualquer outra coisa no mundo.
E, principalmente, lembro de uma frase:
"Eu estou fora desse lance de relacionamento."
Abro os olhos completamente. É ridículo o quanto essas palavras continuam voltando para a minha cabeça. Ela falou de maneira tão natural, como se fosse uma decisão já tomada. Como se a possibilidade de se apaixonar novamente fosse algo que ela sequer quisesse considerar.
E eu deveria estar tranquila com isso. Na verdade, deveria estar aliviada, afinal, nosso relacionamento é falso.
Existe um contrato, uma data para começar e uma data para terminar. Eu não deveria estar imaginando como seria se fosse real, muito menos depois de descobrir que Victoria não pretende deixar ninguém entrar novamente na vida dela dessa maneira.
Viro para o lado e olho para o relógio, ainda é cedo, mas não consigo voltar a dormir. Minha cabeça continua insistindo naquela conversa:
"Eu já tenho meus próprios problemas, não quero mais nenhum."
Ela disse isso também, para ela, namorar seria ter problemas e, pela primeira vez, percebo que talvez eu seja exatamente o tipo de problema que ela está tentando evitar.
Solto uma risada sem humor. Ótimo, Marcela. Era exatamente disso que você precisava.
Você finalmente encontra alguém que consegue fazer você esquecer, por algumas horas, todas as regras que estabeleceu para a própria vida e descobre que essa pessoa não quer se apaixonar por ninguém.
Levanto-me antes que consiga transformar aquilo em algo ainda mais absurdo. Tomo meu banho e me preparo para descer.
Quando chego à sala, encontro Victoria já acordada. Ela está ajeitando a bolsa no sofá, enquanto Heloísa está sentada perto dela, ainda com aquela aparência sonolenta de quem acabou de acordar. Rodolfo está aos pés das duas.
— Bom dia. — Digo, chamando a atenção das duas.
Victoria olha para mim, por um instante, nossos olhos se encontram e eu sinto aquele mesmo aperto no peito da noite anterior.
— Bom dia. — Ela retribui.
Ela sorri, um sorriso pequeno, quase tímido, e isso é suficiente para fazer meu cérebro lembrar de tudo outra vez, e, ao mesmo tempo, ele grita: foco, Marcela. Você nunca foi essa pessoa de se importar tanto com a decisão de outras pessoas, se ela não quer um relacionamento, é problema dela e não seu.
— Dormiu bem? — pergunto.
— Muito.
— Má! — Heloisa se levanta.
— Bom dia, pequena. — O sorriso volta imediatamente para o meu roto.
Ela corre até mim e me abraça pela cintura. Passo a mão pelos cabelos dela e depois em sua testa, conferindo se ela ainda está muito quente.
— Como está se sentindo? — Encaro seus olhinhos.
— Melhor. — Sorri.
— Ela ainda está um pouco quente, mas está bem melhor. — Victória se aproxima e eu apenas assinto. — Mesmo assim, acho melhor ela ficar com a Dona Florinda hoje.
— Também acho — respondo.
— Não quero mandá-la para a escola ainda.
— Então vamos deixar a Dona Florinda cuidar dela.
Ela concorda e não demoramos muito para sair. O carro já está pronto. Durante o caminho até a casa de Victoria, Heloísa fica no banco de trás, distraída falando sobre o Rodolfo, enquanto eu e Victoria permanecemos em silêncio, quase sem nenhum tipo de contato.
Quase. Porque de vez em quando nossos olhos se encontram quando desvio o olhar da estrada por alguns segundos. E toda vez que isso acontece, ela desvia primeiro. Não sei por que reparo, mas reparo.
Quando chegamos à casa dela, Victoria entra rapidamente para trocar de roupa e para deixar Heloísa com Dona Florinda.
Eu permaneço dentro do carro. Poucos minutos depois, Victoria retorna usando uma roupa mais adequada para o escritório e eu reparo de novo nela. Percebo que ela tem usado as roupas que compramos também para o trabalho, e devo confessar que ficam ótimas nela.
— Desculpa a demora. — Diz ao abrir a porta e entrar.
— Não demorou. — A vejo se ajeitar no banco. — A Heloísa ficou bem?
— Ficou. Dona Florinda prometeu cuidar dela.
Emito apenas um som com a boca, concordando com ela, e dou a partida no carro e, por alguns minutos, tudo parece normal. Até chegarmos à editora.
O prédio surge diante de nós e reconheço imediatamente a movimentação na entrada. Estaciono em frente à porta principal. Como sempre, um funcionário vem se aproximando para pegar o carro e levá-lo até a garagem.
Estou prestes a abrir a porta quando sinto a mão de Victoria tocar meu braço.
— Espera. — Ela diz de repente.
— O quê? — Olho para a sua mão em meu braço e depois para ela.
Ela não responde imediatamente, primeiro ela olha pela janela e depois para mim.
— Não desce ainda. — Sussurra.
— Por quê? — Franzo a testa.
Ela se aproxima um pouco e eu continuo sem entender nada. Ela apoia o braço no meu banco, diminuindo ainda mais a distância. Essa mulher está querendo me deixar louca?
— Tem gente ali. — Sua voz ainda sai baixinho, como se alguém pudesse nos ouvir.
Olho para o outro lado da rua, no começo não vejo nada. Procuro mais um pouco e então percebo: duas pessoas com câmeras. Paparazzis.
Meu estômago revira, fazia tempo que eu não os tinha atrás de mim. Isso é tão chato.
— Como você viu? — Pergunto.
— Eles não são nada discretos.
— E o que fazemos? — Olho novamente, mas Victoria segura meu queixo e vira meu rosto em sua direção novamente.
Victoria me encara e, então, a expressão dela muda. Ela parece quase... determinada. Existe algo diferente em seu olhar.
— O que duas namoradas fariam. — Sua boca se curva em um sorriso malandro.
— Victoria... — Meu coração acelera.
— É uma boa oportunidade. — Ela fala baixo ainda. — Se eles conseguirem uma foto nossa chegando juntas, ajuda o contrato.
Claro! O contrato. É isso. Ela só está pensando no contrato. Assinto, mesmo que algo dentro de mim tenha se decepcionado, sei que ela está certa. Nosso foco precisa ser o contrato.
— Certo. — É o máximo que consigo dizer.
Mas, antes que eu consiga fazer qualquer coisa, ela aproxima a mão do meu rosto, meus músculos ficam tensos. Seus dedos tocam uma mecha do meu cabelo e ela a coloca atrás da minha orelha.
O gesto é delicado, tão natural, íntimo. O que faz meu coração disparar mais uma vez.
— Assim — ela murmura.
— Assim como? — digo, sem saber o que fazer.
— Mais convincente. — Diz, enquanto encara minha boca.
Meu Deus, ela está fazendo isso pelo contrato. Preciso me lembrar disso.
Ela passa os dedos pela minha bochecha e meu corpo inteiro reage. Não deveria, mas reage. Ela se aproxima ainda mais.
— Sorri. — Me diz o que fazer.
Eu sorrio, ou tento. Porque estou ocupada demais tentando lembrar como respirar. Victoria apoia a mão na minha cintura.
Aquele toque simples parece incendiar meu corpo. Ela olha para mim, eu olho para ela, por alguns segundos, esquecemos completamente as câmeras.
E então percebo o quanto estamos próximas. Perto demais, para ser sincera. O nariz dela toca o meu, minha respiração se mistura à dela e, involuntariamente, eu fecho os olhos, mas, quando ela se afasta um pouquinho, eu volto a abri-los.
Meus olhos descem involuntariamente para sua boca e, nesse instante, desejo beijá-la. Não por causa dos paparazzis ou por causa do contrato. Quero beijá-la porque quero.
A ideia me assusta, Victoria parece perceber alguma coisa em meu olhar. Ela sorri, um sorriso pequeno, quase provocador.
— Está nervosa? — Provoca.
— Não. — Minha voz sai baixa.
— Está. — Afirma.
— Não estou.
— Eu te deixo nervosa?
Ela aproxima o rosto mais um pouco, meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ela consegue ouvir. Mas ela não me beija, apenas encosta a testa na minha por um segundo. O gesto é ainda mais íntimo, mais perigoso. Ela passa o polegar pela minha bochecha.
— Assim eles acreditam. — Sua respiração toca meu rosto quando ela fala.
Eles: os paparazzis. Não eu.
Eu preciso me lembrar disso, mas não consigo. Porque tudo que consigo pensar é que eu gostaria que ela fizesse aquilo quando não houvesse ninguém olhando. Gostaria que a mão na minha cintura não tivesse motivo.
Que o carinho no meu rosto não fosse uma atuação e que esse olhar não fosse uma estratégia. Gostaria que ela me tocasse porque sentiu vontade.
E isso dói, porque sei que não é o caso. Victoria finalmente se afasta alguns centímetros, me dando espaço para voltar a respirar.
— Pronto — diz, afastando-se de vez.
— Pronto?
— Acho que foi suficiente — a fala dela me traz de volta — Eles tiraram várias fotos.
Assinto, porém não consigo responder imediatamente. Minha mão ainda sente o lugar onde a dela esteve, e isso me incomoda. Muito.
— Podemos descer agora. — Dá o próximo comando.
— Claro. — Falo ainda atordoada com o que acabou de acontecer.
Ela abre a porta, mas percebe que eu não faço o mesmo movimento. Então, antes de sair, ela olha para mim novamente.
— Você está bem? — Pergunta, parecendo um pouquinho preocupada.
— Estou. — Forço um sorriso.
Ela parece acreditar e sai do carro. Eu espero alguns segundos antes de fazer o mesmo.
Entrego a chave do carro para o manobrista e subimos até a editora.
Por fora, tudo parece normal, já por dentro, não. Porque agora tenho uma pergunta que não deveria estar fazendo: como seria Victoria como minha namorada?
Não como minha secretária, não como a mulher que assinou um contrato comigo ou como a mãe da Heloísa, mas sim como minha namorada.
Será que ela faria carinho no meu cabelo quando estivéssemos assistindo televisão? Que seguraria minha mão embaixo da mesa? Será que me abraçaria quando eu tivesse um dia ruim? Ou que acordaria ao meu lado e sorriria daquele jeito pequeno que sorriu hoje? Será que me beijaria sem precisar de uma câmera do outro lado da rua?
A pergunta seguinte é ainda pior: será que eu seria capaz de deixar alguém fazer tudo isso comigo?
A resposta deveria ser simples: não. Mas não é, porque, pela primeira vez em muito tempo, eu consigo imaginar alguém ocupando esse espaço.
E esse alguém é Victoria, então lembro da noite anterior.
"Eu estou fora desse lance de relacionamento."
Paro diante da porta da minha sala, aquilo deveria ser suficiente para me colocar no lugar. Ela não quer, ela não está procurando por isso.
Ela está apenas cumprindo um contrato, o carinho no carro foi atuação, o olhar foi atuação, a mão na minha cintura também foi. A proximidade foi atuação. Tudo foi atuação. Mesmo que meu corpo tenha acreditado por alguns segundos.
Entro na minha sala, pronta para esquecer tudo o que acabou de acontecer.
******
Estou na metade da leitura do contrato quando percebo que já passei pela mesma página três vezes.
Não porque o documento seja confuso. Muito pelo contrário. É exatamente o tipo de proposta que costuma prender minha atenção: um original que chegou à editora há algumas semanas, com potencial comercial enorme, uma autora desconhecida com uma voz narrativa surpreendentemente madura e uma história que, se for bem trabalhada, pode se transformar em um dos grandes lançamentos do próximo semestre.
Tenho anotações espalhadas pelas margens, algumas cláusulas marcadas, números de vendas projetados e uma lista mental de perguntas que pretendo fazer ao departamento editorial assim que terminar a análise.
É importante. Muito importante. Por isso, quando a porta da minha sala se abre sem que ninguém bata, minha primeira reação não é de curiosidade, é de irritação.
Levanto os olhos do documento e encontro Jorge entrando como se estivesse em casa, e atrás dele vem Lúcio.
Meu corpo inteiro endurece. Por alguns segundos, não digo nada, apenas olho para os dois, depois para a porta e novamente para eles.
A primeira coisa que penso é que minha secretária teria me avisado se algum deles tivesse marcado horário. A segunda é que Victoria estaria provavelmente sentada à mesa do lado de fora, pronta para impedir exatamente esse tipo de interrupção.
Meu olhar atravessa a parede de vidro, já que as persianas estão abertas. A mesa dela está vazia.
Respiro fundo. Claro! Justamente hoje que ela não está ali. Fecho lentamente a pasta sobre o documento, tomando cuidado para não amassar nenhuma das folhas.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Tento manter a calma.
— Também é bom te ver, maninha — Jorge abre um sorriso tão falso quanto ele.
— Eu perguntei o que vocês estão fazendo aqui. — Repito.
Ele olha ao redor da sala como se estivesse tentando encontrar alguma razão para minha irritação, ou pensando em uma forma de me irritar mais ainda.
— Vim conversar com você. — Diz na maior cara de pau.
— Sem horário marcado? — Levanto uma sobrancelha.
— É uma conversa entre irmãos. — Fala, sínico.
— E? — Uso meu desdém.
— E eu não preciso marcar horário para falar com minha própria irmã.
— Você precisa ser anunciado. — Minha mandíbula trava.
— Dentro da nossa própria empresa? — Ele dá uma risada curta.
— Nossa empresa, não. — O corto.
— Marcela — ele revira os olhos.
— A empresa não é sua, Jorge. — Minha voz permanece calma, talvez calma demais. — Ela pertence aos nossos pais. Nós dois crescemos aqui, nós dois temos participação, mas quem está no comando atualmente sou eu. E, enquanto eu estiver no comando, qualquer pessoa que entrar na minha sala precisa ser anunciada. Inclusive você.
O sorriso dele desaparece um pouco.
— Você está exagerando. — O sorriso dele desaparece por um momento.
— Não. — Aponto para a mesa diante de mim. — Estou trabalhando.
— É tão importante assim? — Jorge olha para o documento fechado.
— Sim.
— Então posso voltar outra hora. — Zomba.
— Pode. — O encaro friamente.
Ele não se mexe. Obviamente não veio apenas para ter uma conversa banal de irmãos, eu o conheço tão bem para saber que há uma grande armação por trás dessa visita.
— Qual é o verdadeiro motivo? — Cruzo os braços.
Jorge olha para Lúcio e eu imediatamente sei que vou odiar a resposta. Lúcio permanece encostado próximo à porta, com aquela expressão confiante que costumava carregar pelos anos que estávamos juntos. Hoje só me provoca cansaço.
— A festa anual da editora — Jorge finalmente diz.
— O que tem? — Pergunto, confusa.
— A festa anual. Daqui a dois meses. — Repete como se fosse óbvio.
— Eu sei. — Digo, perdendo a paciência.
— Vim lembrar você.
— Eu tenho uma agenda. — Sou sarcástica.
— Eu sei.
— E sei que existe uma festa daqui a dois meses. — Falo como se estivesse explicando algo para uma criança de cinco anos.
— Ótimo. Então você também sabe que precisa de um acompanhante. — Meu irmão sorri.
Olho para Lúcio, ele está sorrindo, igualzinho a um paspalho. Meu estômago revira, sei que o que vem a seguir me deixará a ponto de vomitar.
— Não — digo, já prevendo o que ele falará — nem pense nisso.
— O Lúcio está aqui porque se ofereceu para ir com você. — Ele ignora meu alerta.
— Ele se ofereceu? — Solto uma risada completamente sem humor.
— Jorge comentou que você provavelmente iria sozinha. — Lúcio finalmente se aproxima.
— Provavelmente? — Questiono, querendo saber onde essa palhaçada vai dar.
— E eu pensei que talvez fosse uma boa oportunidade para conversarmos.
— Não existe nada para conversarmos.
Ele coloca as mãos nos bolsos.
— Marcela, já faz bastante tempo. — Ele coloca as mãos nos bolsos e estufa o peito.
— Eu sei. — Continuo séria.
— Você não acha que está na hora de deixar o passado para trás? — Tenta mais uma vez
— Eu deixei.
— Então, por que está tão incomodada com a minha presença?
— Porque eu não pedi para você estar aqui.
O silêncio que segue é interrompido pelo som da porta. Meu coração dá um pequeno salto ao ver Victoria entrar.
Ela está segurando algumas pastas e parece distraída, provavelmente ainda pensando em alguma questão do trabalho.
E então acontece algo para o qual eu definitivamente não estou preparada. Victoria caminha até mim, coloca as pastas sobre minha mesa, segura meu rosto delicadamente e me dá um selinho.
Meu cérebro simplesmente para. É rápido, muito rápido. Mas é real o suficiente para fazer meu rosto esquentar imediatamente.
— Desculpa ter ficado alguns minutos fora — ela murmura, como se estivéssemos sozinhas. — Fui até o marketing resolver umas coisas que precisavam de mim.
Fico olhando para ela, completamente sem reação. Ela me encara e então percebo: ela está atuando. É claro, ela viu Lúcio e entendeu imediatamente a situação. Ela está fazendo exatamente o que fez mais cedo no carro. Mesmo assim, meu coração não recebeu o memorando, então, para ele, é como se fosse real.
— Tudo bem — consigo responder.
Minha voz sai mais baixa do que gostaria. Victoria se vira, finge somente naquele instante perceber que não estamos sozinhas.
— Ah. — Ela olha para Jorge. — Oi.
— Oi, Victoria. — Ele parece surpreso, mas sorri. — Não sabia que você estava aqui.
— Eu trabalho aqui. — Ela responde com uma naturalidade quase divertida.
Então seus olhos passam para Lúcio e o sorriso desaparece. É um olhar tão frio que quase sinto pena dele. Quase.
— E você... — Ela deixa a frase incompleta.
Lúcio tenta manter a postura.
— Lúcio. — Ele se apresenta.
— Eu sei quem você é — ela diz isso sem sorrir.
Depois olha para mim e eu percebo que ainda estou vermelha. Meu Deus, ela realmente me beijou.
Na frente deles e, por algum motivo, a sensação daquele toque continua na minha boca.
— Então — Jorge começa — como eu estava dizendo, o Lúcio se ofereceu para acompanhar você na festa.
Victoria olha para mim e não esconde sua confusão, mas não há tempo para explicar, porque, se eu não agir agora, essa palhaçada toda virará um circo no meio da minha sala.
— Não vou com ele. — Digo firme.
— Marcela... — Jorge suspira ao dizer meu nome.
— Eu já tenho acompanhante.
— Quem? — Lúcio me encara.
Olho para Victoria, ela parece surpresa por um segundo. Então entende que depois eu irei explicar tudo conforme necessário.
— Minha namorada.
A palavra sai da minha boca com uma facilidade assustadora: minha namorada.
Victoria baixa os olhos por um instante. Quando volta a me olhar, existe algo diferente ali. Talvez surpresa, ou orgulho. Talvez apenas mais uma atuação. Não sei e nem quero saber no momento.
— Então você já decidiu? — Lúcio pergunta.
— Sim.
— E vai levá-la? — Aponta para Victória como se ela fosse digna de pena.
— Sim.
— Marcela, você não precisa fazer isso — ele solta uma risada.
— Fazer o quê?
— Fingir.
Meu corpo inteiro fica rígido, e percebo que o de Victoria também. Respiro fundo mais uma vez, me preparando para mais um chilique de Lucio.
— Lúcio... — Meu irmão tenta conter o amigo.
— Não, Jorge. — Ele mantém os olhos em mim. — Eu conheço a Marcela. Sei quando ela está apaixonada e sei quando está apenas tentando provocar alguém.
— Acho que você está confundindo conhecer com achar que conhece. — Digo, sem desviar o olhar dele.
Victoria deixa escapar uma risada completamente sem humor, chamando a atenção de todos. Então Lúcio olha para ela.
— Você realmente acha que ela está apaixonada por você? — Solta seu veneno.
Minha respiração some ao ver Victoria dar um passo à frente, e eu sei que ela é completamente capaz de enfrentá-lo.
Mas falo antes que isso aconteça.
— Chega. — Minha voz faz os dois pararem, olho diretamente para Lúcio. — Você veio até a minha empresa sem ser convidado, entrou na minha sala sem autorização e agora está questionando minha vida pessoal na frente da minha funcionária.
— Eu só estou tentando conversar. — Ele tenta rir.
— Não — levanto-me. — Você está tentando ultrapassar um limite que deixei muito claro quando terminamos.
— Marcela — ele desfaz o sorrisinho que estava até agora estampando seu rosto.
— Eu não quero você aqui — todos ficam em silêncio — e não vou aceitar seu convite.
— Você está sendo injusta. — Tenta mais uma vez.
— Não estou, estou sendo realista.
— Eu só queria uma oportunidade. — Tenta partir para o drama.
— Você teve muitas — minha voz permanece firme — Todas acabaram.
— Você realmente vai trocar tudo o que tivemos por isso? — Ele aponta para Victória.
Meu sangue ferve. Victoria abaixa os olhos por um instante, mas eu vejo a tensão em seu rosto.
— Não fale com ela dessa maneira. — Aviso.
— Está defendendo sua namoradinha? — Lúcio ri.
— Estou defendendo uma pessoa que você está tentando humilhar dentro da minha empresa. — Sinto a raiva me consumir — e não se atreva a chamá-la novamente de “namoradinha”.
— Ela nem pertence ao seu mundo.
Ele cruza os braços mantendo a pose de macho alfa. A frase me faz perder o pouco de paciência que ainda tenho.
— Você não sabe absolutamente nada sobre o mundo dela — dou um passo na direção dele. — E não tem direito nenhum de julgá-la.
Ele fica em silêncio, mas isso não me faz parar. Ele consegue despertar uma Marcela que só existe na presença de idiotas, e foi essa pessoa que ele sempre conheceu, pois eu nunca tive paciência para essas criancices dele.
— Victoria trabalha aqui porque é competente. Porque é responsável. Porque conquistou o espaço que ocupa. E, se você acha que dinheiro, sobrenome ou posição profissional dão a alguém o direito de diminuir outra pessoa, então talvez você ainda não tenha entendido por que nosso relacionamento terminou.
— Eu não quis dizer isso — Lúcio desvia o olhar, envergonhado.
— Mas disse — minha voz endurece — e agora você vai sair.
Ele olha para Jorge, mas meu irmão permanece em silêncio. Os dois sabem que, quando atravessam o limite da minha paciência, é melhor ficar quieto e não me enfrentar.
— Marcela — Lucio fala quase em súplica.
— Se você não sair por vontade própria, eu chamo os seguranças.
— Você faria isso comigo? — Ele me encara.
— Faria — dou um sorriso frio — e não me desafie, Lúcio. Você sabe que eu sou capaz.
O silêncio fica pesado, finalmente ele caminha até a porta. Antes de sair, porém, olha uma última vez para mim.
— Você vai se arrepender — me ameaça.
— Não — respondo sem hesitar — Eu me arrependeria se deixasse você entrar novamente na minha vida.
Ele sai e a porta se fecha. Fico alguns segundos parada, só então percebo que estou tremendo levemente.
Jorge suspira.
— Você não precisava ser tão dura. — Jorge suspira.
— Precisava. — Viro-me para ele.
— Ele só queria ajudar.
— Não traga meu ex para minha sala sem me consultar novamente.
— Você está sendo radical demais.
— Estou falando sério. — Não me intimido, e ele me olha. — Você é meu irmão, eu aceito você aqui, mas isso não significa que você pode fazer o que quiser aqui dentro — aponto para a porta. — Se você trouxer o Lúcio novamente para esta empresa sem minha autorização, a presença dele será proibida. E, se você insistir em trazê-lo, a sua também.
— Você está me ameaçando? — Ele arregala os olhos.
— Estou estabelecendo um limite.
Jorge me encara por alguns segundos e depois assente, sabendo que não tem como medir forças comigo.
— Está bem.
Ele sai e a porta se fecha novamente. Finalmente fico sozinha com Victoria.
Agora ela está parada diante da minha mesa e eu percebo que ela está me olhando como se quisesse uma explicação.
— O quê? — pergunto.
Ela demora alguns segundos para responder.
— O que acabou de acontecer aqui? Em que o louco do seu ex queria ser seu acompanhante?
— Em dois meses tem a festa anual da editora, e ele achou que seria uma ótima ideia me acompanhar.
— Coitado — balança a cabeça como se não acreditasse no que está ouvindo — Obvio que serei eu que vou com você.
— Exatamente isso que deixei claro para ele.
— Ele que não resolva aparecer aqui com esse papo novamente, que eu arrebento aquela cara de paspalho que ele tem.
Por um momento me pergunto se isso tudo é apenas raiva de quem ele é ou se é um pouquinho de ciúmes, mas não crio expectativas, pois sei que vou me frustrar novamente.
Então sinto meu rosto esquentar novamente, lembro do selinho, do toque, da maneira como ela segurou meu rosto.
— Sobre aquilo... — Tento começar a falar sobre o assunto.
— O beijo? — Fala com naturalidade.
— Sim.
— Foi necessário. — Ela dá de ombros.
Claro! Necessário. Contrato. Atuação. Tudo racional.
— Eu sei. — Minha voz sai baixa.
Ela pega as pastas que trouxe do marketing. Antes de sair, porém, para na porta. Olha para mim com aquele olhar diferente novamente, aquele olhar que ainda não consigo decifrar.
— Você foi muito boa defendendo a gente. — Sorri mais uma vez.
Meu coração aperta.
— A gente? — Meu coração dispara pela milésima vez no dia.
— O nosso namoro.
Então ela sai, me deixando sozinha. Olho para a porta fechada, depois toco, sem perceber, os dedos na minha própria boca. O lugar onde ela me beijou ainda parece quente.
E, acho que está na hora de encarar a realidade, admitir para mim mesma aquilo que venho tentando evitar desde ontem. Talvez eu não esteja mais com medo de que esse namoro falso pareça verdadeiro. Eu estou começando a ter medo de que ele seja verdadeiro apenas para mim.
Fim do capítulo

Tai_arievilo
13/09/2026 às 16:29
Paloma Matias 14/09/2026 às 19:14
Eva Bahia
12/09/2026 às 21:51
Paloma Matias 14/09/2026 às 19:15