Capítulo 11

Capitulo 11 - Em casa

de Mais que benefícios, por Paloma Matias

Tamanho do texto
3.794 palavras538 leituras0 comentários

Victoria

 

 

O telefone vibra na minha mão pela terceira vez antes que eu finalmente consiga atender. Ele quase caiu antes que eu conseguisse colocar na orelha.

— Alô? — Digo enquanto confiro se peguei tudo.

— Oi — por alguns segundos, só consigo ouvir a respiração dela do outro lado.

— Já estou liberada, já estou saindo da editora.

Entro no elevador e aperto o botão do térreo. Quando as portas se fecham, sinto meu corpo inteiro relaxar. Eu nem tinha percebido o quanto estava tensa.

— E a Heloísa? — Me lembro que estou em ligação.

— Está dormindo. — A resposta vem tranquila, mas ainda consigo perceber aquele cuidado escondido na voz de Marcela.

— A febre baixou?

— Um pouco. Ela tomou banho, comeu sopa e conseguiu beber bastante água, depois dormiu.

— Graças a Deus. — Solto o ar devagar.

— Eu falei que cuidaria dela. — Sua voz sai baixa.

Meu coração aperta com aquela frase e não sei por quê. Talvez porque ela tenha realmente cuidado, ou talvez porque, durante as últimas horas, eu tenha imaginado mil coisas acontecendo enquanto estava longe da minha filha. E agora descubro que Marcela não apenas a buscou, como fez tudo o que eu faria. Ou tentou.

— Eu já estou aqui fora — digo.

— O James já está por perto, eu já tinha pedido para ele ir mais ou menos nesse horário.

— Você não precisava fazer isso. — Deixo escapar.

— Eu sei. — A resposta me pega desprevenida.

— Então, por que fez?

Do outro lado, ela demora alguns segundos, como se estivesse pensando no que responder. Eu não estou vendo ela, mas posso imaginar seu olhar encarando o nada, com o cenho franzido, imaginando qual a resposta correta. Ela sempre faz isso.

— Porque eu quis.

Meu coração bate um pouco mais forte. É uma frase simples, eu sei que é. Mas, dita por ela, parece ter um peso diferente. Marcela não demonstra preocupação por ninguém, e ela nunca irá admitir isso, porém o que ela fez hoje pela minha filha mostra que ela ainda é humana.

— Está bem — murmuro.

— Te espero.

A ligação termina com ela desligando na minha cara e eu fico olhando para a tela do celular por alguns segundos. Devo admitir que essa, sim, é a velha Marcela.

Te espero.

Não sei por que essas duas palavras ficam ecoando na minha cabeça. Pode ser apenas uma sensação nova, ou o fato de imaginar que alguém me espera seja menos assustador do que imaginei.

Quando o carro para em frente à casa de Marcela, desço quase imediatamente. A porta principal se abre antes mesmo que eu consiga tocar a campainha. Marcela está realmente me esperando.

E eu simplesmente paro e a admiro por alguns instantes, não consigo evitar. Ela está usando um vestido azul-claro, leve, que cai delicadamente sobre o corpo. Os cabelos estão soltos, completamente diferentes do penteado impecável que costuma usar no trabalho. Não há blazer, salto ou aquela expressão séria que parece fazer parte do rosto dela durante o expediente.

É só Marcela e, talvez, seja justamente isso que me deixa sem reação. Ela percebe meu olhar e me encara sem entender nada.

— O que foi? — Pergunta.

— Nada. — Pisco e vejo um sorriso pequeno aparecer no canto da boca dela.

— Você está olhando para mim com essa cara de babaca.

— Eu sei — fico sem jeito.

— Então não é nada? — Coloca a mão na cintura.

— É só que... você está diferente. — Sinto meu rosto esquentar.

Ela inclina levemente a cabeça, sem compreender o que eu quis dizer.

— Diferente como? — Franze a testa e olha para si mesma.

Não sei responder, nem como responder. Afinal, como eu responderia isso? Bonita. Muito bonita. Bonita de um jeito que me parece perigoso.

Não posso dizer isso, ela vai achar que estou interessada nela, e isso seria quebra de contrato.

— Mais... confortável — falo a primeira coisa que me vem à cabeça.

— É porque estou em casa — ela sorri, e o sorriso dela não deveria me chamar atenção como está chamando agora.

— Faz sentido.

— Entre. — Ela abre mais a porta.

Passo por ela e sinto o perfume que reconheço tão bem do escritório. É o mesmo, mas aqui parece diferente. Talvez porque estamos sozinhas ou porque não existe uma mesa entre nós, ou pelo simples fato de que, pela primeira vez, não preciso fingir que não reparo nela. A única coisa que preciso fingir é que reparar nela não me afeta.

Assim que entro, olho automaticamente para os lados.

— Cadê a Heloísa? — Pergunto.

— Ainda dormindo.

— Posso vê-la? — Meu coração aperta.

— Claro.

Subimos as escadas em silêncio. Quando chegamos ao quarto de hóspedes, Marcela abre a porta devagar e, então, eu vejo minha filha. Heloísa está dormindo profundamente, abraçada ao travesseiro. E tem um cachorrinho deitado ao lado dela.

Dou alguns passos para dentro e me aproximo da cama, toco a testa dela e vejo que não está tão quente, apenas morna. Sinto um alívio imediato.

— Quem é esse? — Aponto para a bola de pelo.

— É o Rodolfo.

— Ele ficou aí?

— Desde que ela dormiu. — Ela sorri novamente, e mais uma vez me chama atenção.

— Ela gostou dele?

— Muito.

— Se ela quiser um cachorro também, eu te mato.

Marcela tenta conter uma gargalhada, infelizmente ela consegue, mas eu torceria muito para conhecer a risada verdadeira dessa mulher.

— Eu adoraria presenteá-la com um cachorrinho.

 — Aí mesmo que eu te mato — volto a olhar para Heloisa — Ela está bem melhor.

— Está.

Olho para o cabelo dela, há duas tranças perfeitas. Meu olhar se demora um pouco ali e depois vai para Marcela, assim que entendo o que aconteceu.

— Você fez isso? — Questiono.

— Ela pediu — dá de ombros.

— Você fez tranças na minha filha. — Digo mais para mim do que para ela.

— Tentei. — Suas bochechas ficam vermelhas.

— Ficaram lindas. — Admito.

— Ela ficou uns cinco minutos se olhando no espelho.

— Ela ama penteados — encaro minha filha mais um pouco.

— Eu descobri.

Fico olhando para Heloísa por mais alguns segundos, depois me aproximo novamente e beijo sua testa. Ela não se mexe, porém Rodolfo abre um olho e olha para mim. Depois fecha novamente, como se ninguém pudesse atrapalhar seu sono da beleza.

— Acho que devemos deixá-los descansar mais um pouco. — Marcela quebra o silêncio.

Olho para ela e nossos olhos se encontram, por um segundo, nenhuma de nós fala. O sorriso dela diminui e o meu também. É estranho, porque é apenas um olhar, mas parece demorar mais do que deveria. Sou eu quem desvia primeiro.

— Eu queria levar ela para casa. — Confesso.

— Eu sei. — Sua voz sai quase em um sussurro.

— Mas ela está dormindo tão bem.

— Por isso não quero que você a acorde — fala baixinho. — Vem. Vamos conversar.

Saímos do quarto e Marcela fecha a porta com a maior delicadeza do mundo para não correr o risco de Heloisa despertar. Na cozinha, Marcela abre a geladeira, olha o que tem dentro e depois se vira para mim.

— Você comeu alguma coisa? — Sua testa está franzida novamente.

— Não — solto um sorriso sem jeito.

— Eu também não — admite e volta a olhar para as opções na geladeira.

— Então podemos pedir alguma coisa. — Dou a ideia.

— Não.

— Não? — Fico sem entender.

— Vou cozinhar.

Fico parada, ela anuncia isso como se fosse supernormal ver Marcela Tavares cozinhar.

— Você cozinha?

— Por que todo mundo fica tão surpreso quando eu digo isso? — Ela ri.

— Porque você não parece alguém que cozinha.

— E como eu pareço? — Tira algumas coisas da geladeira e deixa sobre a bancada.

— Alguém que manda alguém cozinhar. — Digo o óbvio.

— Isso é verdade. — Admite na maior cara de pau.

— Eu sabia.

— Mas eu gosto de cozinhar. — Volta a explicar.

— Você tem funcionários. — Não preciso perguntar.

— Tenho. 

— Muitos? 

— Alguns.

— E mesmo assim cozinha?

— À noite, eu dispenso todo mundo. — Ela fecha a geladeira e se apoia na bancada

— Todo mundo? — Me espanto.

— Todos.

— Por quê? — Me surpreendo.

— Porque gosto de ter a casa vazia. — Dá de ombros.

Fico olhando para ela, tentando entender o que isso representa, entretanto Marcela continua sendo uma caixinha de surpresa.

— Não deve ser meio... — Procuro a palavra. — Solitário?

O sorriso dela desaparece aos poucos, ela abaixa os olhos e abre um armário à procura de alguma coisa.

— Às vezes. — A resposta é tão sincera que me pega desprevenida.

— Eu achei que você gostasse. — Minha voz sai baixa.

— Eu gosto. — Ela pega alguns ingredientes. — É justamente por isso que eu faço. Durante o dia, eu pertenço a todo mundo. No trabalho, todo mundo precisa de alguma coisa de mim. Reuniões, decisões, contratos, problemas... Quando chega a noite, ninguém mais pode me pedir nada.

Ela começa a cortar alguns tomates e eu fico observando seus movimentos.

— E isso é bom. — Falo sem saber o que dizer.

— Muito — ela pausa — Só que silêncio demais também pode ser ruim.

Nossos olhos se encontram novamente. Dessa vez, ela não desvia.

— Às vezes é bom ter alguém para conversar. — Volta a falar.

Sinto alguma coisa se mexer dentro de mim, não sei explicar, é como se eu quisesse ser essa pessoa para ela e estar mais presente, fazer companhia, rir de coisas aleatórias. 

— Você poderia chamar alguém. — Lembrei que precisava falar algo.

— Poderia. — Diz simples.

— Suas amigas. — Dou a sugestão.

— Nem sempre quero conversar com elas. — Sua voz sai mais baixa.

— Então... — Penso em uma outra possibilidade.

— Talvez eu goste de conversar com você. — Ela solta essa pedrada do nada e meu coração falha uma batida.

— Talvez? — É o que consigo dizer.

— Talvez. — Um sorriso aparece em sua boca e já não é mais surpresa nenhuma para mim meus olhos seguirem para sua boca.

— Você é impossível. — Desvio o olhar.

— E você está vermelha — ela me provoca.

— Está quente aqui. — Seguro na gola da minha camiseta e balanço para provar que minha teoria está mais do que correta. Doce engano.

— Nem está calor aqui, Vic.

“Vic”, ela nunca me chama assim, e seria muito maluco da minha parte dizer que minha vontade é pedir para ela repetir?

— Eu estou com calor — dou de ombro e guardo minha vontade em algum lugar dentro de mim.

Ela ri e, após alguns segundos, eu também. Mas alguma coisa mudou, sabemos disso e eu sinto.

O jantar é simples, massa com molho de tomate, queijo e ervas. Nada sofisticado como eu imaginei que seria. Mas, quando provo, sorrio e aprecio o saber que se espalha por minha boca.

— Está realmente bom. — Digo assim que termino de engolir.

— Você parece surpresa.

— Estou. — A provoco, me vingando do momento anterior.

— Por quê? — Diz, indignada.

— Porque você cozinha bem. — Seguro a risada que quero dar.

— Isso é um elogio? — Pergunta confusa.

— É. — Confesso.

— Você precisa aprender a elogiar melhor, pareceu mais uma ofensa.

— Deixa de ser chata, mulher — por fim, solto uma gargalhada.

— Já me arrependi de ter cozinhado para você.

Apesar de sua fala, sei que ela não está sendo sincera. Sei disso porque o sorrisinho bobo não sai dos seus lábios.

Volto a me alimentar, ela me observa enquanto eu como, eu percebo. Levanto os olhos, mas logo ela desvia o olhar, porém não tão rápido ao ponto de nossos olhares não se encontrarem por leves segundos.

— O quê? — Pergunto.

— Nada. — Tenta desconversar.

— Você está olhando para mim. — Acuso.

— Eu sei. — Confessa.

— Por quê? 

Ela parece pensar, parece estar em dúvida se realmente fala ou se é o momento em que ela deixa de ser legal e volta a ser a Marcela de sempre.

— Porque gosto de ver quando alguém gosta de algo que fiz.

Meu coração acelera, é uma resposta tão simples, mas eu sinto que ela está dizendo outra coisa, ou talvez seja apenas minha cabeça.

Depois do jantar, ela nos serve duas xícaras com café e vamos para a sala, nos sentamos no sofá. Não tão longe uma da outra quanto costumamos ficar e, quando percebo, estamos falando. De verdade, não sobre o contrato, nem sobre o trabalho. Apenas uma conversa trivial, sobre nós.

— Eu gosto de ficar em casa — ela diz.

— Eu percebi. — Coloco uma perna dobrada sobre o sofá e apoio meu braço sobre o encosto para poder ficar de frente para ela, e a vejo fazer o mesmo.

— À noite, principalmente — continua.

— Por causa do silêncio? 

— Também — ela passa os dedos pela borda da xícara. — É o único momento em que consigo fazer alguma coisa sem sentir que estou sendo observada.

— E você se sente observada o tempo todo? — Prolongo o assunto.

— Às vezes — solta um sorriso completamente sem humor.

— Por mim também? — Brinco, mas acho que ela não leva na brincadeira.

— Principalmente por você. — Ela ergue os olhos.

— Por quê?

Ela demora a responder, volta a passar os dedos pela borda da xícara. Um suspiro sai por sua boca e, nesse instante, ela volta a me encarar.

— Porque você me olha diferente.

— Diferente como? — Engulo em seco e sustento seu olhar.

— Como se estivesse tentando descobrir quem eu sou.

Não consigo responder porque é exatamente isso. Ela percebe que acertou. Marcela deixou de ser a minha chefe megera há alguns dias e se tornou um grande ponto de interrogação para mim. Eu quero saber mais sobre ela, saber tudo sobre quem ela é.

— E está? — Pergunta quando percebe que eu não respondo.

— Talvez. — É o que consigo responder no momento.

— Descobriu alguma coisa? — Pergunta com uma travessa.

— Ainda não — Sorrio — Você é um grande mistério.

— Então continue tentando.

O silêncio que vem depois é longo, mas não desconfortável. Pelo contrário, é quase íntimo.

— E você? — pergunto. — Nunca tentou descobrir quem eu sou?

— Estou tentando. — Toma um gole de café.

— E o que descobriu? — A incentivo.

— Que você gosta de skate.

— Isso foi rápido. — Rio.

— Você contou. — Admite.

— E? — Levanto uma sobrancelha.

— Você também gosta de livros. — Continua.

— Sim.

— Gosta de música.

— Muito.

— E gosta de desenhar.

— Como sabe? — Essa me surpreende.

— Você vive rabiscando nos cantos das folhas.

Dou uma risada, mas fico sem jeito por ela reparar em algo tão banal. Eu jamais imaginaria que ela sabia tanta coisa sobre mim, enquanto eu sei tão pouco sobre ela.

— Eu gosto de design. — Confesso.

— Eu lembro que você me falou sobre isso na entrevista de emprego.

— Quero ser designer gráfico. — Relembro a informação.

— Você ainda quer? — Ela se vira um pouco mais para mim.

— Muito. — Minha voz sai baixa.

— Então, por que continua sendo minha secretária? —   Ela pergunta e me faz perder o sorriso.

— Porque preciso pagar as contas. — Sou sincera.

— Você poderia procurar alguma coisa melhor, uma vaga como designer paga mais e, infelizmente, não temos uma vaga em aberto na Editora Tavares.

— Meu salário é bom, se eu for começar em outro lugar, eu não iniciaria ganhando bem.

— Eu sei, seu salário não é dos piores.

— Mas não é suficiente para tudo — ela espera. — Escola, aluguel, comida, plano de saúde da Heloísa...

— Você deveria trocá-la de escola, pensar em uma escola particular, aquela não tem segurança nenhuma.

— Eu queria, mas...

— Mas? — Insiste.

— Meu salário cobre algumas coisas, não todas — respiro fundo. — Eu prefiro garantir que, se alguma coisa acontecer com ela, eu consiga levar minha filha ao médico sem precisar pensar no dinheiro.

Marcela assente lentamente, provavelmente ela pensa que eu deveria dar conta de tudo, que sou irresponsável com minha filha, mas infelizmente é a minha realidade e de boa parte dos brasileiros.

— Eu entendo — Depois de alguns segundos, acrescenta — e acho bonito.

— O quê? — Olho para ela, confusa.

— O quanto você se preocupa com ela.

— Ela é tudo para mim.

— Eu sei. — Ela sorri. — Dá para perceber.

A conversa muda novamente, conto que amo assistir filmes com minha filha, que todos os domingos passeamos juntas e que não tenho muitas amigas, apenas as que trabalham comigo.

Ela me conta que, além de cozinhar, gosta de passar o tempo livre lendo ou estudando algo novo. Mas minha cara de espanto surge quando ela diz que tem um pequeno estúdio de dança em casa.

— Você dança? — Não escondo a surpresa.

— Danço, é algo que me faz bem.

— O quê? — Fico curiosa.

Ela hesita, vejo suas bochechas ficarem ruborizadas. Marcela não parece ser o tipo de pessoa que fica tímida facilmente, mas agora a estou vendo com vergonha pela primeira vez.

— Ah! É só dança, nada demais — tenta fugir do assunto.

— Então você dança todos os ritmos? — Quero entender melhor.

— Não.

— Então você dança o quê? — Tento mais uma vez.

— Pole dance — fala, depois de ter puxado o ar e tomado coragem.

Arregalo os olhos, por essa eu não esperava, com toda certeza eu não esperava. Inevitavelmente, a cena dela dançando me surge na mente. Droga, Victória, para de imaginar uma coisa dessa. Ela começa a rir.

— Não ri. — Digo igual a uma criança emburrada.

— Eu não estou rindo de você! — Justifica.

— Está sim — acuso. — É só que...

— Você não imaginava — ela complementa.

— Nem um pouco. — Tenho que admitir — Você é cheia de surpresas.

— Você também. — Me encara.

— Eu?

— Sim.

— Quais?

— Ainda estou descobrindo. — Solta um leve sorriso. — Mas me conte, você não tem ninguém?

— Como assim? — Não entendo.

— A Heloisa é sua companhia, mas existem coisas que precisam ser feitas com adultos — sua voz fica maliciosa.

— Ah! Entendi — Ferrou, ela vai achar que eu sou uma solteirona — No momento estou sozinha. E você?

— Também — Admite — Depois que terminei com o Lúcio, minha cabeça focou apenas no trabalho.

— Também estou focada apenas nisso e na minha filha.

— Eu nunca vi você com alguém, nem nas festas da empresa que podia levar alguém.

— Esse negócio de namoro não é para mim — faço uma careta. — Eu estou fora desse lance de relacionamento.

— Por quê? — Me encara com olhos curiosos.

— Sempre termina em encrenca, e eu já tenho meus problemas para resolver, não quero mais nenhum.

— Entendi — responde, simples.

— E você? Nunca namorou alguém além do “almofadinha”? Ou nunca amou alguém de verdade?

— Não — respira fundo. — Sempre fui sozinha.

Meu sorriso desaparece devagar, porque o jeito como ela fala... Não parece brincadeira. Ela se remexe um pouco no sofá e isso a faz ficar mais próxima, mesmo sem ser sua intenção.

Eu sinto o perfume dela, o calor do corpo, o olhar. Tudo. E então nossos olhos se encontram, dessa vez, nenhuma de nós desvia. Meu coração começa a bater rápido. Muito rápido.

Eu sei que ela percebe, porque os olhos dela descem por um instante até minha boca e voltam. É rápido, quase imperceptível, mas eu vejo.

Meu corpo inteiro reage e, naquele momento, fica impossível continuar mentindo para mim mesma. Eu estou começando a me apaixonar, talvez já esteja apaixonada. E o pior é que não parece unilateral, porque Marcela também está me olhando como se tivesse acabado de descobrir alguma coisa que não sabe como explicar. Ela respira fundo.

— Já está tarde — minha voz sai quase num sussurro.

— Está. — Concorda, também quase sussurrando. — Você não vai conseguir ir embora sem acordar a Heloísa.

— Eu sei. — Olho para a escada.

— Então fique. — Diz, e eu volto a olhar para ela.

— Aqui?

— No quarto de hóspedes. — Ela fala com naturalidade, mas os olhos continuam presos nos meus. — Você dorme lá com ela.

— E você? — Solto sem pensar.

— Eu tenho meu quarto. — Arqueia uma sobrancelha.

— Claro que tem. — Reviro os olhos, porque isso é bem óbvio, né, Victória?

— Não será bom que você acorde a Heloísa e saia com ela no sereno, ela pode piorar.

Fico alguns segundos em silêncio, ela não me pressiona, apenas espera. E talvez seja justamente isso que me faz aceitar.

— Está bem. — Me rendo.

— Vou te levar até o quarto. No banheiro tem escova de dente nova na primeira gaveta, e na terceira tem pijama de dormir, você pode pegar um. — O sorriso que aparece no rosto dela é pequeno, mas é verdadeiro.

— Está bem.

Ela se levanta, eu também. Subimos as escadas e, antes de seguirmos pelo corredor, nossos braços se encostam. Um toque acidental, rápido, mas nenhuma de nós se afasta imediatamente.

Olho para ela, ela olha para mim e, por alguns segundos, o mundo parece parar. Então ela finalmente se afasta quando chegamos à porta do quarto.

— Boa noite, Vic.

— Boa noite, Marcela.

Ela começa a caminhar, eu fico parada por um instante, olhando para as costas dela e, penso que talvez o problema nunca tenha sido fingir que estamos apaixonadas, o problema é que estamos começando a não precisar mais fingir.

Quando ela chega à porta do seu quarto, se vira em minha direção e vê que ainda estou parada encarando-a. Então, mais uma vez ela me surpreende.

— Esqueci de falar — volta a dizer — sobre o amor? Eu nunca tive sorte, mas acho lindo.

E entra em seu quarto antes que eu tenha chance de dizer qualquer coisa.

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

0
Este capítulo ainda não recebeu comentários.
Informar violação das regras