Victoria
Existem dias em que o universo resolve testar a capacidade de uma pessoa de fazer cinco coisas ao mesmo tempo.
Hoje é um deles.
Mal consigo terminar meu primeiro café quando minha caixa de e-mail começa a lotar: um autor quer alterar uma cláusula de royalties, uma gráfica enviou uma versão desatualizada do contrato, o departamento jurídico devolveu três documentos com observações em vermelho, o telefone toca antes mesmo de eu conseguir organizar por onde começar. Respiro fundo e atendo.
— Bom dia, Editora Tavares.
Enquanto escuto um fornecedor reclamar de um atraso que nem sequer pertence ao meu setor, meus dedos já digitam um e-mail para o jurídico. Assim que desligo, o telefone toca de novo. E de novo. E de novo.
Quando finalmente consigo me levantar da cadeira para imprimir uma nova leva de contratos, vejo Chica vindo em minha direção, carregando uma pilha de pastas contra o peito.
— Eu sabia — ela anuncia antes mesmo de chegar perto. — A sua mesa já parece um cenário de guerra.
— Você veio rir da minha desgraça? — Dou uma risada completamente sem humor.
— Não, vim impedir que você morra soterrada por papel — ela deixa as pastas sobre minha mesa. — O financeiro terminou essas conferências. São contratos que só precisam da assinatura da Marcela.
Meus ombros relaxam um pouco. Eu precisaria ir até o setor para pegar essas pastas, e normalmente, quando isso acontece, os contratos nunca estão revisados.
— Você acabou de salvar umas duas horas do meu dia — sorrio para ela.
— Eu sei, pode agradecer comprando meu almoço ou uma roupa que vi ontem.
— Não abuse da minha bondade.
Ela puxa uma cadeira e se senta ao meu lado, como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo.
Essa é a Chica, a única pessoa dentro dessa empresa que conhece toda a verdade sobre o meu... namoro. Ou melhor: meu falso namoro.
Enquanto eu separo os contratos por prioridade, ela começa a conferir os anexos.
— Esse aqui precisa de reconhecimento de firma? — Questiona.
— Não — respondo, após ver do que se tratava.
— Esse?
— Também não.
— Esse?
Levanto os olhos. Não é possível que ela esteja me fazendo essas perguntas, sendo que ela sabe de cor e salteado o que precisa de reconhecimento de firma e o que não.
— Você está fazendo isso só para me irritar? — A interrogo.
— Um pouquinho — Ri.
Acabo rindo também, é impossível não rir perto dela. Por alguns minutos trabalhamos em silêncio, o único som é o das folhas sendo organizadas, grampeadores e o teclado do computador. Até que ela quebra o silêncio.
— Então... — Diz como quem não quer nada.
— Hum? — Nem olho para ela.
— Como anda o namoro de mentira? — Solta a bomba.
Fecho os olhos por um segundo, sabia que essa pergunta viria. Antes de responder, olho ao nosso redor para conferir se ninguém está vindo e pode ouvir a conversa.
— Continua sendo de mentira — solto um sorriso sem graça.
— Aham — ela fala daquele jeito debochado que me dá vontade de jogar o grampeador nela.
— Está tudo normal — respondo, simples.
— Normal? — Me olha confusa.
— Sim.
— Tipo... — Ela apoia o queixo na mão. — Sem acontecimentos interessantes?
— Não — tento encerrar o assunto.
Ela espera, eu continuo ignorando, ela espera mais um pouco, até que bate com a mão na mesa, me assustando.
— Victoria — sua voz sai indignada.
— O quê? — Ainda estou me recuperando do susto.
— Você está escondendo alguma coisa — me acusa.
— Não estou — desvio o olhar para os papéis, não consigo encará-la.
— Está — diz, mais convicta.
— Não.
— Eu conheço essa sua cara. — Ela realmente conhece.
— Não aconteceu nada. — Não quero dar muitos detalhes.
— Vitória — Insiste.
— Tá bom — reviro os olhos.
— Eu sabia — ela sorri imediatamente.
— No jantar — minha voz sai mais baixa que o esperado.
— O que tem? — Sua curiosidade está nítida.
— As amigas dela pediram para a gente se beijar.
A caneta de Chica para no ar, ela me encara e vejo seu queixo cair.
— Elas o quê? — Pergunta para ter certeza.
— Pediram um beijo — Repito.
— E?
— A gente deu — dou de ombros.
— Vocês o quê? — Ela fica completamente imóvel.
— Foi só um selinho — digo, como se não fosse nada demais.
— Victoria — ela continua olhando para mim.
— O quê? — Não sei quantas vezes ela já falou o meu nome desde que chegou aqui.
— Você beijou a Marcela — diz o óbvio.
— Porque precisávamos manter a mentira — começo a ficar nervosa.
— Mas beijou.
— Sim — separo mais um documento.
— E aí? — Ela sorri daquele jeito que me preocupa.
— E aí, o quê? — Me faço de desentendida.
— O que você sentiu?
Meu cérebro simplesmente trava. Por que a resposta demora tanto para aparecer? Engulo em seco, pensando em como responder.
— Nada — sinto o suor começar a se formar em minha testa.
— Nada? — Ela arqueia uma sobrancelha.
— Foi... — Procuro a palavra correta — Estranho.
— Estranho ruim? — Tenta me entender.
— Só estranho, não sei explicar.
— Tente me explicar — apoia os braços na mesa.
— Chica — solto seu nome quase como uma súplica.
— Você demorou muito para responder.
— Porque estou pensando — digo — e não quero mais falar disso.
— Quer sim, porque eu quero saber tudinho.
— Confere essa cláusula — aponto uma pasta para ela, tentando mudar de assunto.
— Não muda de assunto — ela nem olha.
— Estou trabalhando — tento mais uma vez.
— E fugindo da pergunta.
— Foi um beijo — Bufo, e continuo organizando documentos.
— Sim, mas me conte como foi — Insiste.
— Curto — Continuo.
— Continue — ela sorri.
— Sem significado — dou de ombros.
— Você está tentando me convencer ou convencer a si mesma? — Ela continua com um sorrisinho debochado nos lábios.
Paro por um instante e a encaro. Chica sempre soube que eu não procuro romance, sabe também que o amor não foi feito para mim, que o máximo que Marcela e eu teremos é esse namoro falso.
— Você assiste a romance demais — reviro os olhos.
— Eu?
— Sim — ela solta uma gargalhada — Vic, você sabe qual é o primeiro sintoma?
— De quê? — Pergunto, confusa.
— De gente se apaixonando pela chefe.
Quase deixo uma pasta cair, ou melhor, quase que eu mesma caio da cadeira. O que ela quer dizer com isso?
— Pelo amor de Deus, Chica — levo minhas mãos ao rosto — você sabe que eu não estou apaixonada.
— Primeiro vem a negação — levanta o dedo indicador, enumerando a sequência.
— Não estou em negação — respondo rápido — Estou apenas te contando a realidade.
— Depois vem o "foi só um beijo" — levanta um segundo dedo.
— Porque foi — digo o óbvio.
— Depois o "ela nem é tão bonita assim" — mais um dedo.
— Eu nunca falei isso — Elevo uma sobrancelha.
— Ahá!
Levo mais um susto e percebo a armadilha tarde demais. Ela sabe como me fazer falar o que eu não quero, sempre foi assim.
— Não significa nada — volto a me defender — só um cego não veria o quanto ela é bonita.
— Significa que você admite que ela é bonita.
— E o que tem demais nisso? Eu acho várias mulheres bonitas e não quer dizer que eu esteja apaixonada.
— Cuida da Heloísa — nem dá bola para o que falei.
— Elas se viram poucas vezes.
— Compra comida para vocês.
— Porque faz parte do contrato.
— Se preocupa com você.
— Não — tento cortar a sua empolgação.
— Nem terminei — diz, ofendida.
— E nem vai terminar.
— Você vai se apaixonar pela Marcela — diz com muita convicção.
— Eu? — Dou uma gargalhada sincera.
— Você — Enfatiza.
— Nunca.
— Tenho quase certeza — Insiste.
— Chica.
— O quê?
— Ela é minha chefe.
— E?
— Nosso relacionamento acaba em alguns meses.
— Uhum.
— Ela mora num apartamento que deve valer mais do que todos os imóveis do meu bairro — suspiro. — Nossos mundos são muito diferentes.
— Isso é verdade. — Isso faz ela me encarar, me ouvindo de verdade agora.
— Ela frequenta restaurantes onde um prato custa metade do meu salário — Continuo.
— Também é verdade.
— Nós somos completamente diferentes.
— Concordo.
— Então, pronto — volto a organizar as pastas.
Ela cruza os braços, me analisa mais um pouco e eu sei que ela não deixará o assunto morrer. Chica sempre foi teimosa, e o que mais me preocupa é que, quando ela fala algo, realmente acontece.
— Pessoas diferentes também se apaixonam — sua voz sai mais suave.
— Cláusula sete — Estendo um novo contrato em sua direção.
— Você é impossível — fala, pegando o documento.
— Obrigada.
Finalmente voltamos ao trabalho. Os minutos passam rápidos e, entre um contrato e outro, respondo e-mails, atendo ligações, organizo reuniões e envio documentos para três departamentos diferentes.
Quando olho o relógio, já passou das dez, ainda falta metade das assinaturas da Marcela. Estou imprimindo uma nova versão de um contrato quando escuto o som conhecido do elevador chegando ao nosso andar.
As portas metálicas se abrem e meu coração, por algum motivo completamente idiota, acelera um pouquinho.
Marcela sai primeiro, bem-vestida como sempre, cabelo preso e bolsa em um dos ombros. Ela conversa rapidamente com um dos diretores, despede-se dele com um aceno discreto e segue pelo corredor.
Nossa, ela realmente sabe chamar atenção sem fazer esforço nenhum. Chica percebe para onde estou olhando.
— Hummm — começa a me irritar.
Dou uma cotovelada nela antes que abra a boca, vejo Marcela se aproximar da minha mesa, tento manter o controle da situação e parecer completamente normal.
— Bom dia — nos cumprimenta com um leve sorriso.
— Bom dia — Chica e eu respondemos juntas.
Ela olha para a montanha de papéis, franze o cenho e tenta espiar o que é isso tudo.
— Dia complicado? — Fala sem nos encarar.
— Um pouco — Respondo.
Ela sorri de leve.
— Eu imaginei — estende a mão para os contratos e pega alguns — São os que preciso assinar?
— Parte deles — Explico.
— Pode levar para minha sala — Avisa.
— Claro.
Começo a juntar as pilhas de papéis que precisam da assinatura dela, mas, antes que eu consiga pegar a primeira pasta, meu telefone toca. Olho para a tela e vejo o nome em destaque: Escola Heloísa. Meu estômago aperta e atendo imediatamente, sem nem pedir autorização.
— Alô? — Digo, apressada. — Entendo... Ela está muito quente? Certo... Eu vou resolver isso.
Desligo devagar. Chica e Marcela franzem a testa, esperando que eu fale algo, mas não consigo falar de imediato.
— Aconteceu alguma coisa? — Chica quebra o silencio.
— É a escola da Heloísa — minha voz sai mais baixa — Ela está com febre.
O sorriso desaparece completamente do rosto dela, mas, dessa vez, quem se mostra preocupada é a minha chefe.
— Quanto?
— Disseram que passou de trinta e oito — Explico.
Meu coração aperta, ela está provavelmente assustada, sozinha, esperando alguém buscá-la. Já pego o celular para ligar para Dona Florinda. Uma chamada. Nada. Outra. Caixa postal. Mais uma. Nada.
Meu nervosismo aumenta, sinto minhas mãos soarem.
— Atende — digo mais para mim mesma do que para alguém.
Ligo outra vez, mas, como todas as outras vezes, a chamada vai para a caixa postal. Chica já percebe minha expressão.
— Ela não atende? — Questiona.
Balanço a cabeça, tentando achar alguma alternativa o mais rápido possível, mas quanto mais eu penso, mais desnorteada eu fico.
— Deve estar no mercado ou ocupada com qualquer coisa.
Marcela observa tudo em silêncio por alguns segundos, não consigo decifrar seu olhar. Então fala com calma.
— Vai buscar a Heloísa. — Sua voz sai tão compreensiva que até me surpreende.
— O quê? — Quase berro.
— Pode ir — confirma que não ouvi errado.
Olho automaticamente para a pilha enorme de contratos, penso por alguns segundos, olho para ela novamente.
— Eu não posso — meus ombros caem, desanimada.
— Claro que pode — ela franze a testa.
— Esses contratos precisam ficar prontos hoje — mostro as pastas — Tem revisão de planilhas, conferência de anexos, respostas dos autores — minha garganta aperta e a voz falha — O prazo vence ainda hoje.
— Eu faço — ela tenta mais uma vez.
— Marcela...
— Minha agenda está praticamente livre — Me interrompe.
— Não é tão simples — digo, e ela continua me olhando. — Cada contrato tem um histórico diferente — abro uma das pastas. — Esse aqui, por exemplo, mudou três vezes porque o autor queria alterar porcentagem de direitos digitais. Essa marca pediu cinco revisões na cláusula de publicidade.
Vou mostrando as pastas com tudo que estou explicando. Não teria como outra pessoa fazer.
— Você demoraria horas só para encontrar as informações. — Ela permanece em silêncio enquanto eu continuo. — Se eu sair agora, ainda consigo terminar tudo até o fim do expediente, mas se outra pessoa assumir agora, provavelmente vai levar o dobro do tempo.
O silêncio dura alguns segundos, Marcela cruza os braços, pensativa, e então fala com uma naturalidade que me pega completamente desprevenida.
— Então eu busco a Heloísa.
— Como? — Meu cérebro simplesmente para de funcionar.
— Eu vou buscá-la — Repete.
— Você? — Pisco algumas vezes.
— Sim.
Olho para Chica, ela também parece surpresa. Volto para Marcela, esperando que ela diga que é alguma brincadeira, mas ela apenas me encara.
— Não precisa — Digo.
— Precisa — ela retruca.
— Eu não quero incomodar. — Não quero dever favores a ela.
— Victoria — a voz dela é tranquila, porém firme — você não está me incomodando.
— Mas... — Não consigo terminar de falar.
— Sua filha está doente — ela enfatiza a palavra como se aquilo encerrasse qualquer discussão — O resto pode esperar.
Fico completamente sem reação, porque, na minha cabeça, existem duas versões da Marcela: a chefe exigente. E a mulher que, às vezes, faz coisas que não combinam nem um pouco com a imagem que tenta passar. Essa definitivamente pertence à segunda versão.
— Eu... — Tento falar mais uma vez.
— Me passa o endereço da escola — ela estende a mão em minha direção.
— Tem certeza? — Ainda hesito.
— Absoluta.
Olho novamente para a tela do computador, depois para os contratos, depois para ela. Não gosto da ideia de dar trabalho para ninguém. Muito menos para minha chefe, mas também consigo imaginar Heloísa sentada na enfermaria da escola, com febre, esperando alguém aparecer.
Fecho os olhos por um segundo. Derrotada.
— Ela estuda na Escola Primavera.
Anoto rapidamente o endereço em um papel, com meu telefone e o nome da professora responsável. Entrego a folha para Marcela.
— Se ela perguntar... — Minha voz sai baixinha. — Diz que eu não pude ir porque tenho muitas coisas para fazer. Se você puder trazê-la o mais rápido possível, eu te agradeço.
Marcela dobra o papel com cuidado e guarda no bolso do blazer.
— Eu não a trarei para cá. Ela deve estar com dor e precisa de cuidados. Levarei ela para minha casa e você me avisa quando estiver terminando que peço para James passar para te buscar.
Olho para ela como se tivesse nascido mais três cabeças. Ela vai mesmo cuidar da minha filha?
— Eu digo para ela te ligar do meu celular assim que chegarmos em casa, assim você pode conversar diretamente com ela.
— Isso seria perfeito.
Ela faz menção de sair, mas para por um instante e volta a olhar para mim.
— E Victoria — sua voz sai calma.
— Sim?
— Não se preocupe — ela sorri daquele jeito discreto que quase nunca aparece durante o expediente — Eu cuido dela. Te espero em casa.
Por algum motivo que não consigo explicar, essas palavras aquecem meu peito de um jeito completamente inesperado. E, pela primeira vez desde que o telefone tocou, sinto que consigo respirar outra vez.
Marcela
Chego à escola esperando enfrentar algum tipo de burocracia. Na verdade, conto com isso. Imagino que vão pedir meu documento, ligar para Victoria novamente, confirmar meu nome, talvez até exigir alguma autorização por escrito.
É o mínimo, afinal, estão entregando uma criança. Mas não é isso que acontece. Assim que digo que vim buscar Heloísa a pedido da mãe, a recepcionista apenas sorri, confere meu nome em uma anotação feita poucos minutos antes e chama uma funcionária para buscá-la na enfermaria.
Só isso.
Meu estômago revira. Sério? Cruzo os braços enquanto espero.
Não perguntam meu documento, não perguntam meu grau de parentesco, nem pedem nenhuma confirmação adicional. Cinco minutos depois, Heloísa aparece caminhando devagar pelo corredor, as bochechas estão coradas demais e os olhinhos denunciam o cansaço provocado pela febre. Assim que me vê, abre um sorriso pequeno.
— Má. — Ela diz, surpresa.
Meu coração dá um salto, ela continua me chamando assim. A funcionária apenas entrega a mochila em minhas mãos e passa algumas informações.
— Ela estava com trinta e oito vírgula três. Conseguimos baixar um pouquinho com compressas.
— Obrigada — não digo mais nada para não ser grossa pela falta de segurança dessa escola.
Ela deseja melhoras e vai embora. Só isso. Saio dali segurando a mão pequena de Heloísa, mas minha cabeça continua presa na facilidade absurda com que a escola simplesmente entregou a menina. Faço uma anotação mental imediata e vou conversar com Victoria. Não para assustá-la, mas porque isso não está certo. Hoje fui eu, mas amanhã poderia ser qualquer outra pessoa minimamente convincente.
Não gosto nem um pouco desse pensamento. Olho para Heloísa, ela caminha lentamente ao meu lado.
— Está muito cansada?
— Minha cabeça dói — ela diz enquanto balança a cabecinha em afirmação.
— Vamos cuidar disso.
Durante o caminho até minha casa, ela permanece quase todo o tempo em silêncio. Às vezes observa a rua pela janela, outras apenas encosta a cabeça no banco.
Quando estaciono na garagem, ela desperta um pouco. Assim que destranco a porta, quase sou atropelada por uma pequena bola branca de pelos.
— Rodolfo — o repreendo.
Meu havanês abana o rabo com tanta força que parece inteiro balançar junto. Ele corre primeiro para mim e depois percebe a presença da criança. Ele para, inclina a cabeça para o lado, cheira o ar e então aproxima-se lentamente de Heloísa.
— Esse é o cachorrinho que você falou que tinha aquele dia lá em casa?
— Sim.
— Posso fazer carinho? — Me pede com uma carinha que não teria como dizer não.
— Pode. Só deixa ele cheirar você primeiro.
Rodolfo encosta o focinho em sua mão por alguns segundos, depois começa a lamber seus dedos como se fossem velhos amigos. Heloísa dá uma risada gostosa.
— Ele me beijou! — diz feliz.
— Ele faz isso quando gosta de alguém.
Ela abraça o cachorrinho com delicadeza. Para minha completa surpresa, Rodolfo simplesmente aceita, apoia as patinhas nela e continua abanando o rabinho. Normalmente, ele gosta de crianças, mas precisa de um pouquinho de tempo para deixar que elas o toquem.
Depois disso, Rodolfo já decidiu que sua nova melhor amiga chegou. Segue Heloísa até a sala, até o sofá, até a cozinha. Ela parece um pouco mais animada, a febre ainda deixa seu rosto avermelhado, mas ao menos sorriu. Isso já é alguma coisa. Levo a mão até sua testa, ainda está quente.
— Vamos fazer uma coisa? — Digo, e ela me encara com olhos curiosos.
— Hum?
— Um banho morninho — Sugiro.
Ela concorda imediatamente. Subimos para o quarto de hóspedes, onde será melhor para ela se instalar.
Abro a porta do banheiro, até penso em encher a banheira, mas acabo optando pelo chuveiro. Confiro a temperatura da água e depois me viro para ela.
— Helo — ajoelho-me para ficar à altura dela.
— Oi?
— Você já sabe tomar banho sozinha? — Pergunto com delicadeza.
— A mamãe me ensinou — responde, orgulhosa.
— Então, perfeito — me levanto.
— Você não vai dar banho em mim? — Pergunta confusa.
— Não — balanço a cabeça.
— Por quê? — Ela franze a testa.
— Porque o seu corpo é seu — escolho as palavras certas — e ninguém precisa ver você sem roupa se você não quiser.
— Mas você não é qualquer pessoa. — Ela pensa por alguns instantes.
Meu peito aquece, é tão bom ver que ela confia em mim a tal ponto. Mesmo assim, prefiro não cruzar essa barreira. Ela precisa entender que eu ainda sou uma estranha e estranhos não devem ver o corpo dela.
— Não? — Pergunto, sorrindo igual a uma boba.
— Você namora a minha mãe — ela sorri.
Meu coração quase tropeça, ainda é estranho ouvir isso. Respiro discretamente para ela não perceber o quanto isso me afeta.
— Eu gosto muito da sua mãe — digo mais para mim do que para ela.
— Então — ela continua sorrindo.
— Mesmo assim, Helo — passo a mão delicadamente sobre seus cabelos.
— Hum?
— Eu e sua mãe estamos nos conhecendo há pouco tempo — ela escuta com toda a atenção do mundo — e eu quero respeitar sua intimidade. Se precisar de qualquer ajuda, eu fico aqui do lado da porta. É só me chamar.
— Tá bom — ela abre um sorriso enorme.
Fecho parcialmente a porta, deixando apenas uma fresta, o suficiente para que ela saiba que estou próxima. Assim que escuto a água cair, caminho até meu quarto. Percebo que ainda estou usando a roupa social desde cedo. Entro rapidamente no banheiro, mas meu banho dura poucos minutos.
Água fresca, banho devidamente tomado. Troco a roupa social por um vestido azul-claro de tecido leve, que costuma ser minha escolha para ficar em casa. Muito mais confortável. Quando retorno ao quarto, Heloísa já está terminando.
— Má? — Chama meu nome,
— Estou aqui.
Entrego uma toalha pela fresta, ela seca o corpo sem minha ajuda. Alguns instantes depois, abre a porta já enrolada na toalha.
— Espere só um segundo.
Volto para o meu quarto e pego um pequeno vestido rosa de algodão. Simples. Leve. Com pequenas margaridas bordadas perto da barra. Comprei dois dias atrás, sem motivo específico, ou melhor, com um motivo que preferi não admitir nem para mim mesma: achei que Heloísa ficaria bonita nele.
Estendo a peça, ela arregala os olhinhos.
— É meu? — Pergunta feliz.
— Comprei quando passei por uma loja infantil.
— Você comprou... para mim? — Ela segura o vestido como se fosse algo muito precioso.
— Comprei.
Ela sorri tão forte que quase esqueço completamente a preocupação da escola, ou o fato de ela estar com febre.
— É lindo — vejo que ela está emocionada.
— Vai ficar ainda mais bonito em você.
Ela volta ao banheiro e, poucos minutos depois, ela reaparece já vestida. O rosa combina perfeitamente com sua pele. Ela gira devagar.
— Gostou? — Me pergunta.
— Muito — sorrio sem perceber.
— Eu também — ela sorri orgulhosa.
Desço para a cozinha, enquanto ela se acomoda na cama com Rodolfo aos pés.
Começo a preparar uma sopa simples: caldo de legumes, batata, cenoura, frango desfiado, pouco sal. Nada pesado.
Enquanto mexo a panela, escuto Rodolfo latindo e depois a risada de Heloísa. É estranho, meu apartamento costuma ser silencioso, mas hoje parece... vivo.
Quando a sopa fica pronta, sirvo uma porção pequena em uma bandeja. Também coloco água, um remédio e um termômetro. Levo tudo para o quarto.
— Serviço de quarto — digo ao entrar.
— Igual hotel? — Ela ri.
— Exatamente.
Ela se senta devagar na cama, assopra uma colher antes de entregá-la. Ela experimenta e fecha os olhinhos degustando.
— Tá gostosa — Aprova.
— Ainda bem.
Durante alguns minutos, ela come em silêncio, depois começa a falar espontaneamente. Conta sobre a escola, sobre uma amiga que desenha muito bem, sobre um menino que vive perdendo o estojo, sobre uma professora que sempre canta para a turma. Escuto tudo, sem interromper. Ela gosta de conversar e, curiosamente, parece confiar em mim com uma facilidade desarmante.
— Má? — Me traz de volta à realidade quando me perco em pensamentos.
— Sim?
— Você sabe fazer penteado?
— Alguns — dou uma risadinha baixa.
— Sério? — Ela arregala os olhos.
— Minha mãe fazia muitos em mim quando eu era pequena.
— Eu amo penteados — Confessa.
Olho para seus cabelos ainda úmidos e penso no que posso fazer para tornar o dia dela melhor.
— Sua mãe faz?
— Ela tenta. — Ela faz uma careta engraçada.
— Tenta? — Não consigo conter o riso.
— É — ela parece pensar bastante antes de continuar. — Às vezes fica torto.
— Tadinha da sua mãe — tento soar o mais natural possível.
— Mas eu nunca reclamo.
— Não? — Meu sorriso diminui e eu presto ainda mais atenção.
— Porque eu vejo que ela tenta muito, ela até acorda mais cedo para fazer. Nem sempre dá certo — volta a sorrir — Mas ela faz com carinho.
Fecho os olhos por um instante, Victoria realmente está criando uma menina extraordinária.
Olho para uma escova apoiada sobre a cômoda e logo para ela, depois me vem uma ideia.
— Quer que eu faça duas tranças?
— Quero! — Ela praticamente salta da cama.
Busco a escova, me sento atrás dela, começo a desembaraçar cuidadosamente cada mecha. Ela permanece completamente quietinha, as vezes fecha os olhos, às vezes sorri. Divido o cabelo ao meio, faço duas tranças bem firmes, mas delicadas.
No final, amarro com pequenos elásticos rosados que encontro dentro da mochila dela.
— Pronto — entrego um espelho.
Ela leva alguns segundos apenas se olhando, depois sorri daquele jeito enorme que só crianças conseguem.
— Eu amei — Diz.
— Ficou bonita — Falo.
— Muito bonita.
Ela continua admirando o próprio reflexo por mais alguns segundos, então boceja. O remédio, o banho e a sopa começam finalmente a fazer efeito. Então eu guardo a escova e ajusto o travesseiro.
— Acho que alguém precisa descansar.
Ela concorda com um bocejo ainda maior. Assim que se deita, Rodolfo pula cuidadosamente sobre a cama. Olho para ele e o safado nem me dá confiança.
— Nem pense em bagunçar.
Ele ignora completamente minha autoridade, dá duas voltas sobre o colchão, depois se acomoda bem ao lado de Heloísa. Ela passa a mão em seus pelos macios.
— Ele pode dormir comigo? — Pergunta esperançosa.
— Pelo visto, ele já decidiu — digo, derrotada.
Ela ri baixinho e, cinco minutos depois, seus olhos começam a fechar. Antes de adormecer completamente, murmura quase sem voz:
— Obrigada, Má.
Sinto algo apertar dentro do peito, puxo o cobertor até seus ombros. Afasto uma mechinha de cabelo de sua testa.
— Durma bem, pequena.
Apago a luz principal, deixando apenas o abajur aceso. Já na porta do quarto, olho uma última vez. Heloísa dorme abraçada ao travesseiro e Rodolfo permanece deitado ao seu lado, atento, como se tivesse assumido a missão de protegê-la.
E, pela primeira vez em muito tempo, minha casa parece exatamente aquilo que nunca pensei desejar.
Um lar.
Fim do capítulo

marianaaleao
26/08/2026 às 05:41
Aí não tem mais volta kkk