A minha cunhada é casada, sempre foi extremamente recatada. É claro, casada por conta de uma união imposta a ela. Estávamos em 2023, porém algumas pessoas haviam parado no tempo e ainda tinham a vida planejada por outros.
Era o nosso caso.
Jamais pensei que Olívia gostasse de mulheres. Se bem que não entendo absolutamente nada sobre sexualidades divergentes da minha. Nunca parei para pensar sobre. A minha vida sempre foi ocupada por outras preocupações. Ainda me recordava do dia em que recebi a ligação do meu pai me mandando voltar ao Brasil, ele havia encontrado o noivo perfeito.
— Mas, papai, eu acabei de terminar a minha pós, eu...
— Não me interessa o que você quer, Bárbara. Já teve muitas regalias, tá na hora das suas obrigações. Já comprei a sua passagem, quero você no avião amanhã. Não pense em ir contra a minha ordem. Eu te tiro da minha família sem pensar duas vezes...
— Pai, é o meu futuro. Por favor...
— Cala-se e não ouse ir contra a minha autoridade, Bárbara.
— Eu sou tão patética. – Estalei os dedos das mãos sem pressa, hábito que me relaxava.
Olhei ao longe e vi uma mulher encostada em um dos coqueiros. Ela parecia estar passando mal, então decidi ir até ela.
— Tudo bem? – A mulher me encarou e o seu rosto me parecia familiar.
— Só estou um pouco enjoada. – Ela tentou sorrir. — Nossa, como você é bonita.
A menina fez uma careta e isso me divertiu.
— Ah, me desculpa. Eu sou inconveniente...
Sorri.
— Está tudo bem. Você não quer sentar um pouco?
— Nataly, até que enfim te encontrei... – Olhei para a mulher de voz forte e era a mesma que esteve na construtora. — Ah! Olá, só Bárbara.
— Vocês se conhecem. – A moça, que agora eu sabia que se chamava Nataly, concluiu.
— De vista. – Sorri outra vez. — Bem, preciso voltar.
— Obrigada por ter vindo até aqui e se preocupado.
— Tome algo para o seu enjoo. Espero que fique bem logo. Foi um prazer...
Me afastei, voltando para a festa.
Ao voltar para a mesa, vi que a minha cunhada já estava ali. A garota que estava aos amassos com ela no banheiro, não me encarou. Elas eram amigas de longa data e agora muitas coisas fazia sentindo.
— Olha quem está na mesa próximo ao prefeito. – Minha sogra destilou. — Pouca vergonha alguém assim em nossa sociedade.
Olhei rapidamente e senti o meu sangue ferver. Se tratava de um influencer e assumidamente gay. Ele vivia nas festas de caridade, sempre muito solicito. O vi em algumas propagandas na TV e principalmente na internet. Usava da sua imagem para promover o bem, diferente da maioria que estava sentada ao redor da nossa mesa.
— Ainda teve a ousadia de trazer o outro... – Aspirei o ar com calma.
— Eles não estão fazendo nada demais, sogra. Vamos focar aqui? Somente aproveitar a noite?
Olívia me encarava.
— Mas isso é um descaramento, Bárbara. Um ultraje!
— Com todo o respeito, vou me retirar. Orlando, vou para casa. – O olhar bestificado de todos foi um doce.
Eu não costumava agir assim, mas algo estava aflorado naquela noite.
— Mas como assim ir embora?
— Sogra, eu lhe adoro, porém não quero ficar partilhando de assunto que não me dizem respeito. Com licença...
Peguei a minha bolsa e as chaves do meu carro, deixando a mesa. Quando cheguei ao estacionamento, ouvi a voz de Orlando, porém continuei a caminhar.
— Bárbara? Por que falou daquele jeito com a minha mãe?
— Que jeito? Fui muito educada, não elevei o meu tom e menos ainda disse nada ofensivo.
— Mas ela tem razão.
— Ah, Orlando, por favor... – Abri a porta do carro.
— Vai mesmo me deixar falando sozinho?
— Só quero descansar, tá? Fique aí e se divirta. – Dei partida.
Eu não gostava de conflitos, então não queria prolongar aquilo. Deixei o local, passei em um supermercado 24 horas, comprei uma pizza congelada. Não iria seguir o script dessa vez. Era certo que Orlando contaria ao meu pai e ele viria tirar satisfações, mas naquele momento nada me interessava. Cheguei em casa, coloquei a pizza no forno e fiz suco de uma polpa que havia ganhado do porteiro naquela manhã. Ele e sua família eram do interior e sempre que podia, me trazia algumas iguarias.
Liguei a TV e me desliguei do mundo.
No dia seguinte, acordei cedo, tomei um banho longo, me troquei também sem pressa alguma. Ao chegar na cozinha, o meu pai estava lá, com o seu terno impecável, os fios brancos penteados para trás. Me preparei mentalmente para o que viria. Faria o mesmo de sempre: ouvir e apenas responder o que me for perguntado.
— Senta. – O fiz.
Ele bebia café.
— Orlando me disse que você o deixou sozinho na festa. – Quis rolar os olhos, mas me contive. — Ele será seu noivo e em breve o seu marido. Tudo o que ele disser será lei. Eu fui claro?
— Sim, papai.
— Eu deveria te dar uma surra, Bárbara, mas não sou um homem que agredi mulheres. Não quero mais reclames a seu respeito. Hal fahimt?
— Sim, papai.
— Era somente isso...
Ele deixou a cozinha e eu pude ouvir a porta sendo fechada.
— Sim, papai. Sim...
Eu precisava trocar a fechadura em breve.
Cheguei à construtora no horário de sempre e fui avisada por Roberta que as entrevistas começariam em breve. Tomei café, adiantei algumas coisas e na hora marcada, fui até a sala do RH. Dez minutos depois as candidatas começaram a chegar. Faltava alguns minutos para iniciarmos, tomei mais uma xicara de café.
E começamos.
Maçante, eu não gostava de entrevistas, mas o que podia fazer? Olhei para o relógio em meu pulso. Será que nenhuma candidata seria escolhida? Havia tanto a ser feito no financeiro.
— A última candidata irá entrar, senhorita Karam. – Roberta me entregou o currículo e eu fiquei levemente impressionada.
Não, eu fiquei muito impressionada. Por que uma pessoa com um currículo tão bom estaria ali? O que a levou a concorrer a uma vaga tão medíocre, que o salário mal chegava a mil e novecentos reais?
— Bom dia. – Tirei os olhos do papel em minhas mãos e olhei para a mulher na porta.
E por Deus...
Os cabelos loiros jogados para o lado, pareciam naturais, bem cuidados, macios. A blusa branca de mangas longas estava dobrada até o cotovelo, a saia preta descia até abaixo do joelho. Um salto discreto finalizava a sua vestimenta. O seu rosto era jovial, bonito, a mandíbula marcada. Ela sorria, parecia um sorriso genuíno, a sua presença era tão... leve. Ajeitei a minha postura, tentei relaxar a expressão em meu rosto.
— Bom dia. – Respondemos.
A sala parecia tão... viva.
— Sou a Roberta, Brenda. – Ela veio até nós, cumprimentou a Roberta com um aperto de mão. — Esta é a senhorita Bárbara Karam, responsável pelo financeiro e futura chefe de uma de vocês.
— É um grande prazer, futura chefa. – Ela brincou. Sua mão estendida logo foi apertada pela minha.
Que energia... singular.
— Bem-vinda, Brenda. – Minha voz saiu firme.
— Muito obrigada, senhorita Karam. – O sorriso totalmente direcionado a mim.
Eu fiquei totalmente desconcertada.
— Gostaria de um café?
— Oh, não. Muito obrigada.
— Parece tão relaxada. – Roberta comentou, eu apenas a olhava.
Ela sorriu, cruzou as pernas. Parecia estar em casa.
— Acho que se deve as inúmeras entrevistas que fiz ao longo da semana. Curou qualquer tipo de ansiedade.
Ela soltou uma risada, que foi acompanhada por Roberta. Simplesmente me segurei para não as acompanhar.
— Tantas assim?
— Não está fácil ser empregada neste país, mas seguimos. Quem sabe esse não é o meu número da sorte?
— Somo o número?
— Oito, vocês são o número oito. – Novamente, Roberta riu e dessa vez acabei sorrindo.
— Vi no seu currículo que estagiou em uma construtora muito conceituada. Posso lhe perguntar o motivo de sua saída?
Me interessei na resposta, permaneci calada e notei um leve desconforto em sua postura. Ela tentou disfarçar, mas eu percebi.
Ela sorriu.
— Tive um problema pessoal, infelizmente tive que optar pelo desligamento. Não foi fácil, mas há momentos na vida que somos postas diante de algumas escolhas.
— Qual...
— Você fala inglês fluente. – Resolvi intervir.
Não sei dizer ao certo o porquê. Os seus olhos finalmente focaram somente em mim e fiquei desconcertada em dobro.
Que loucura!
— Sim, apesar de nunca ter saído do Brasil, o meu último chefe era canadense e não falava português. Pratiquei bastante durante o tempo que trabalhei com ele.
Novamente, o porquê dessa mulher ter se candidatou a esta vaga tão simplória?
— Seu currículo é maravilhoso, Brenda. Você é formada em engenharia...
Nesse momento, a porta se abriu e o meu pai entrou, interrompendo a minha fala. Todo o clima leve se dispersou.
— Bom dia, queridas. – Respirei fundo discretamente.
— Bom dia, senhor Amal. – Respondemos.
Então ele olhou para a candidata e vi a sua postura mudar mais ainda. Eu conhecia perfeitamente a mudança.
— Você é a candidata a vaga de auxiliar da Bárbara? – Ele pegou o currículo de minhas mãos. – Nossa, que currículo esplendido. Você é formada em engenharia e já estagiou em uma concorrente. Há mais alguma candidata?
— Ela é a última, senhor Amal.
— Ótimo! Está contratada, Brenda.
Fiquei de pé, a minha presença já não era mais importante.
— Nossa! Obrigada!
— Será um prazer. Cuide da documentação dela e que possa começar o mais breve possível. Ah, que cabeça a minha. Me chamo Amal Karam.
— É um prazer, senhor Karam. Brenda Gomes...
Deixei a sala sem ser vista.
Vi a minha futura chefe deixar a sala, enquanto as duas pessoas que continuavam na sala falavam e confesso, não ouvi nada depois que ela saiu. Quando passei pela porta, os meus olhos foram atraídos para ela. É a mulher mais bela que já vi em toda a minha vida, sem exagero algum. Fiquei desconcertada, demorei a me concentrar no que era importante. Me senti muito fútil, nunca fui de ligar para a aparência, mas foi impossível não ficar deslumbrada com a beleza dessa mulher.
Mas ela seria a minha chefe.
— Vou te entregar a lista de documentação, amanhã mesmo você irá fazer os exames admissionais. Você agradou pai e filha, muito bem. – Não pude deixar de sorrir. — Bem, parabéns, Brenda. Bem-vinda a Karam.
— Obrigada. Estou muito feliz. – A abracei, a surpreendendo. — Perdão.
Deus, o que eu estava fazendo? Ela riu.
— Está tudo bem, Brenda. Provavelmente, você iniciará na segunda.
— Então boa sorte para mim. Até segunda, colega de trabalho.
Roberta riu.
— Até segunda, Brenda.
Deixei a sala do RH com uma sensação boa no peito, a minha intuição dizia que iria dar certo dessa vez. Assim que deixei a construtora, liguei para Nataly e dei a notícia. Ela gritou do outro lado da linha, me fazendo rir.
— Deus, como assim?
— Também fiquei besta. Do nada, o homem apareceu na minha entrevista, pegou o meu currículo e rasgou elogios. Até pensei ser uma pegadinha, Nat.
— Sua filha da mãe sortuda. Ah, Brenda, eu estou muito feliz que tenha dado certo.
— Vamos comemorar este fim de semana e eu não aceito um não como resposta.
— O que você quiser, minha amiga. O que você quiser! Vai logo pra casa e conta pra sua mãe.
— É exatamente o que farei agora. Beijos...
Encerrei a chamada, decidindo pedir um carro por aplicativo. Cheguei em casa meia hora depois, a minha mãe não estava. Resolvi preparar o almoço e caprichei. O armário chegou antes do previsto, eles montaram em imediato, então tive todo um trabalho antes que a minha mãe chegasse.
— Filha, tô em casa...
— Na cozinha, mamãe.
— Que cheiro delicioso. – Ela parou na porta. — Filha, tem alguma coisa diferente aqui.
Gargalhei.
— Que?
— Aí, mamãe. Não é à toa que falam tão mal do seu signo. – Ela franziu o cenho.
— Como assim falam mal do meu signo, menina?
Ri alto.
— Brenda, o que... – Então os seus olhos foram em direção ao armário. — Filha, mas você...
— Sem mais, mamãe. Sem pensar no depois, por favor. – Os olhos castanhos encheram-se de lágrimas. — Tenho uma novidade.
— Mais uma? – Ela sorriu.
— Eu consegui a vaga, vou trabalhar na Karam Construtora. – A minha mãe abriu a boca de leve.
— Brenda...
— Não é na minha área, mas eu posso sim chegar lá, mamãe.
— Filha. – Ela me abraçou forte e chorou.
Chorou como nunca vi.
Desde sempre é somente nós duas, eu não conheci o meu pai, ele abandonou a minha mãe assim que soube que ela estava gravida. Os meus avós se foram cedo, foi somente ela e a minha tia por longos anos.
— Você vai chegar aonde quer, minha menina. Eu acredito em você. Vou estar do seu lado até quando Deus permitir.
— Até estar velha e eu comece a lhe dar banho.
Ela me deu um leve tapa no ombro.
— Menina.
— É a nossa hora, mãe.
— Oh, Deus. Estou tão feliz, minha menina. Você merece tanto, é uma menina tão esforçada, trabalhadora.
A essas alturas os meus olhos estavam inundados. Eu acreditava que tudo valeria a pena e permaneceria a buscar por todos os meus sonhos. Eles me mantinham com a cabeça acima do mar.
Já tive a sensação de afogamento e não desejo isso a ninguém.
No dia seguinte, fiz os exames admissionais e os receberia no sábado pela manhã. Naquele dia fui a academia e contei a novidade aos meus amigos de treino, que inventaram uma comemoração e acabamos por fugir da dieta e comer pizza a umas quadras dali.
Sábado.
Acordei muito cedo, fui até a clínica particular e recebi os resultados. Roberta havia me pedido para entrega-los até as onze da manhã. Cheguei muito antes do horário, o segundo piso estava em um silencio total. Fui atendida imediatamente.
— Que bom que conseguiu fazer tudo a tempo. – Ela olhava a documentação. — Vamos falar sobre o salário e benefícios. Você tem alguma pergunta?
— Na verdade, tenho sim, mas não é sobre o salário. – Roberta franziu o cenho.
— Sobre a senhorita Karam?
— Exatamente. – Eu não queria começar errado com ela.
— A senhorita Karam é uma profissional excelente, muito focada, quase sempre é a primeira a chegar. Muito reservada e educada. – Isso me aliviou. — Você não terá problemas com ela.
Ela tinha os olhos tristes, belíssimos, mas tristes e saiu de fininho depois que o pai entrou. Eles teriam problemas?
— Isso é ótimo. E o dono?
As feições de Roberta mudaram.
— Com ele você terá que ser um pouco mais cautelosa. Tudo bem?
Acho que aquilo significava: não pergunte mais nada.
— Tudo bem...
— Sobre o salário, você ganhará...
Ela passou a listar tudo o que eu teria direito, não era o salário dos sonhos, entretanto, um começo.
Deixei a construtora e fui para casa, Nataly passaria para me pegar, pois iriamos a um barzinho. Fui mais cedo a academia e outra vez tive a sensação de estar sendo observada. Eu sabia que ela estava a me seguir.
— Não, não me deixe...
— Sem condições de te perdoar, Eliza. – Tirei sua mão do meu braço.
— Foi só um deslize, amor. Uma coisa sem a menor importância. Eu juro...
— Tanto faz o motivo, você fez e isso é imperdoável.
— Não vou te deixar sair daqui. Jamais sairá da minha vida, Brenda...
— Solta isso, Eliza! Solta!
— Brenda? Brenda? Me perdoa, amor...
Toquei a minha cicatriz.
Foi muito difícil depois da separação, foram quase três anos juntas, havia tantos planos, planejamos até mesmo morar fora do país. Foi a primeira vez que me apaixonei de verdade, fechei os olhos para algumas coisas. Eu deveria ter fugido no primeiro sinal.
— Brenda, a Nataly está no portão.
— Já estou indo, mãe. – Passei uma camada leve de batom.
Deixei o meu quarto, dei um beijo em minha mãe e sai.
— Linda e cheirosa. – Nataly deu partida.
— Minha amiga merece a minha melhor versão.
— Não joga charme, Brenda.
— Você quem começou.
Chegamos a um barzinho no centro de Belém, pegamos uma mesa do lado de fora, pedimos bebidas leves, chopp de vinho rose. Uma mulher cantava MPB, a sua voz era rouca, boa de se ouvir. Nataly não tirava os olhos do pequeno palco.
— Deveria voltar a tocar. – Ela sorriu, ainda mirava a cantora.
— Não tenho mais tempo, a realidade não me deixa espaço para sonhar. – Bebi um pouco da bebida rosa que era divina.
— Você tem uma voz incrível. Quando terei shows particulares outra vez? – Agora ela me olhou.
— Quando tiver churrasco da dona Lívia. Estava me recordando, no dia do jantar beneficente, conheci uma mulher. Brenda, é a mulher mais linda que já vi em toda a minha vida. Ela aparentava ser de outro país, tinha uns traços fortes do oriente médio. Os olhos pareciam duas piscinas...
— Está gostando de mulheres agora, é? – Nataly gargalhou.
— Não, mas ela era bonita. Não, era uma divindade. Bonita é pouco para descrever.
Recordei da minha chefe, do quanto fiquei embasbacada com a beleza de Bárbara.
— A minha futura chefe também é uma deusa. A mulher é um soco na autoestima de qualquer mulher. – Os olhos eram irreais.
— Você não pode ser apaixonar por sua chefe, Brenda. – Não segurei a risada.
— Eu estou ciente disso, então não se preocupe.
— Chega de mulher louca na sua vida. Ok?
— Ok.
— Um brinde a sua nova caminhada, amiga. – Aspirei o ar.
— Um brinde.
Uma nova jornada se iniciaria.
— Boa noite. – A voz masculina se fez presente.
— Boa noite. – Nataly respondeu.
Conhecia aquele cara de algum lugar.
— Quase não acreditei quando vi você. – Ele se dirigia a mim. — Você é a moça do shopping.
Ah.
— Meu nome é Pedro. – Nataly ergueu a sobrancelha.
— Me chamo Brenda, essa é a Nataly. Eu posso ajudar?
Ele sorriu e sem ser convidado, sentou conosco.
— Prazer, Nataly. – Não estava acreditando na ousadia. — Desculpa a ousadia, mas é que desde que te vi no shopping, não consigo parar de pensar em você e quando te vi aqui, tive que vir.
Ele era bonito, mas os meus instintos me alertavam.
— Desculpa te decepcionar, bonitão, mas eu não estou interessada.
— Oh, você tem namorado ou é casada?
— Não, eu não estou muito interessada mesmo. Além do mais, gosto de mulheres.
Vi em sua face o descontentamento.
— Não posso acreditar.
— Pois acredite.
— Bem, não posso te culpar. Mulheres são mulheres... – Ele sorriu.
Senti vontade de rolar os olhos.
— Então, perdão pela falta de tato, mas você poderia por favor sair? Minha amiga e eu queremos privacidade.
— Ah, entendi. – Ele ficou de pé. — Amiga, não é? Bem, o dia que quiser experimentar coisas novas, saiba que tenho interesse.
Ele piscou e se afastou.
— Por que eu nasci hétero, hein? – Nataly passou a mão sobre a testa.
— Má sorte, eu acho.
Não seguramos a risada. O bobalhão foi o nosso assunto da noite.
Segunda-feira.
Acordei cedo na segunda, pedi um carro por aplicativo para chegar no horário correto, pois os horários dos ônibus na minha cidade não eram confiáveis, pontualidade não é um ponto forte do brasileiro. Cheguei meia hora antes, apenas o segurança, que agora eu sabia que se chamava Leno, estava na entrada. Ele me cumprimentou e me desejou sorte no meu primeiro dia. Subi a escadaria, caminhei pelo corredor e assim que adentrei a sala que seria meu local de trabalho, me assustei com a pessoa de costas para mim.
— Senhorita Bárbara.
— Ah, bom dia, Brenda. – Ela olhou para o relógio em seu pulso. — Você chegou muito cedo, menina.
— Me desculpe, eu só queria me anteceder. – Que mulher linda.
— Não precisa se desculpar, Brenda. Fique à vontade. – Ela parecia cansada. — Tem café quente e pãezinhos. A sua mesa é essa aqui, pedi para comprar uma nova e uma cadeira mais confortável também, então decore da forma que desejar.
— Obrigada, senhorita Bárbara. Não deveria ter se dado ao trabalho.
— Não foi. Vamos passar muito tempo sentadas, nada mais justo que você tenha o mínimo de conforto.
Uau!
— Muito obrigada. – Deixei a minha bolsa sobre a mesa. — Que cheiro divino.
Tentei puxar assunto.
— Espero que goste. E está sem açúcar, então tome cuidado ao beber.
Me servi de um pouco de café puro, pouco adoçante.
— Estou pronta para trabalhar. Por onde posso começar?
Dona Bárbara me olhou por alguns segundos e depois desviou. Havia alguma coisa estranha. Apesar de toda a educação que estava usando comigo, dava para notar que ela estava incomodada com algo.
— Tenho uma pilha de documentos que precisam ser digitalizados e passados para o HD. Você poderia iniciar?
— Claro. Quais são?
Ela pegou uma pequena chave em sua gaveta, foi até o armário e tirou de lá uma pilha de documentos. Não parecia nada de mais, em pouco tempo conseguiria terminar.
— Esse é o primeiro volume. A copiadora é excelente, então acredito que não terá problemas.
Totalmente direta e reta. Senti uma necessidade de quebrar o gelo, mas me calei.
— Alguns volumes precisarão de uma capa nova. Você pode usar o mesmo modelo, mas se preferir, pode usar um novo. Só as informações e a logo da empresa precisam estar nas capas.
— Sem problemas. Alguma observação?
— Assim que eu recordar, te digo.
Diretíssima.
Estava na última pasta de documentos, havia se passado apenas duas horas. A minha chefe estava totalmente imersa em seu notebook. Uma vez ou outra, a olhava de canto de olho. É como eu disse a Nataly, aquela mulher era um soco na autoestima de qualquer ser humano.
— Amor, vir pegar o orçamento do... – Franzi o cenho, tirei a minha atenção das páginas e ao olhar para a pessoa na porta, não acreditei na minha falta de sorte. — Bom dia.
Não e não!
— Bom dia. – Merda!
— Orlando, por favor, bata na porta antes de entrar. – Orlando?
É claro.
— Desculpe. Preciso daquele orçamento. – Ele me olhou da cabeça aos pés.
Não podia ser, o cara chato do bar.
Era o nosso caso.
Jamais pensei que Olívia gostasse de mulheres. Se bem que não entendo absolutamente nada sobre sexualidades divergentes da minha. Nunca parei para pensar sobre. A minha vida sempre foi ocupada por outras preocupações. Ainda me recordava do dia em que recebi a ligação do meu pai me mandando voltar ao Brasil, ele havia encontrado o noivo perfeito.
— Mas, papai, eu acabei de terminar a minha pós, eu...
— Não me interessa o que você quer, Bárbara. Já teve muitas regalias, tá na hora das suas obrigações. Já comprei a sua passagem, quero você no avião amanhã. Não pense em ir contra a minha ordem. Eu te tiro da minha família sem pensar duas vezes...
— Pai, é o meu futuro. Por favor...
— Cala-se e não ouse ir contra a minha autoridade, Bárbara.
— Eu sou tão patética. – Estalei os dedos das mãos sem pressa, hábito que me relaxava.
Olhei ao longe e vi uma mulher encostada em um dos coqueiros. Ela parecia estar passando mal, então decidi ir até ela.
— Tudo bem? – A mulher me encarou e o seu rosto me parecia familiar.
— Só estou um pouco enjoada. – Ela tentou sorrir. — Nossa, como você é bonita.
A menina fez uma careta e isso me divertiu.
— Ah, me desculpa. Eu sou inconveniente...
Sorri.
— Está tudo bem. Você não quer sentar um pouco?
— Nataly, até que enfim te encontrei... – Olhei para a mulher de voz forte e era a mesma que esteve na construtora. — Ah! Olá, só Bárbara.
— Vocês se conhecem. – A moça, que agora eu sabia que se chamava Nataly, concluiu.
— De vista. – Sorri outra vez. — Bem, preciso voltar.
— Obrigada por ter vindo até aqui e se preocupado.
— Tome algo para o seu enjoo. Espero que fique bem logo. Foi um prazer...
Me afastei, voltando para a festa.
Ao voltar para a mesa, vi que a minha cunhada já estava ali. A garota que estava aos amassos com ela no banheiro, não me encarou. Elas eram amigas de longa data e agora muitas coisas fazia sentindo.
— Olha quem está na mesa próximo ao prefeito. – Minha sogra destilou. — Pouca vergonha alguém assim em nossa sociedade.
Olhei rapidamente e senti o meu sangue ferver. Se tratava de um influencer e assumidamente gay. Ele vivia nas festas de caridade, sempre muito solicito. O vi em algumas propagandas na TV e principalmente na internet. Usava da sua imagem para promover o bem, diferente da maioria que estava sentada ao redor da nossa mesa.
— Ainda teve a ousadia de trazer o outro... – Aspirei o ar com calma.
— Eles não estão fazendo nada demais, sogra. Vamos focar aqui? Somente aproveitar a noite?
Olívia me encarava.
— Mas isso é um descaramento, Bárbara. Um ultraje!
— Com todo o respeito, vou me retirar. Orlando, vou para casa. – O olhar bestificado de todos foi um doce.
Eu não costumava agir assim, mas algo estava aflorado naquela noite.
— Mas como assim ir embora?
— Sogra, eu lhe adoro, porém não quero ficar partilhando de assunto que não me dizem respeito. Com licença...
Peguei a minha bolsa e as chaves do meu carro, deixando a mesa. Quando cheguei ao estacionamento, ouvi a voz de Orlando, porém continuei a caminhar.
— Bárbara? Por que falou daquele jeito com a minha mãe?
— Que jeito? Fui muito educada, não elevei o meu tom e menos ainda disse nada ofensivo.
— Mas ela tem razão.
— Ah, Orlando, por favor... – Abri a porta do carro.
— Vai mesmo me deixar falando sozinho?
— Só quero descansar, tá? Fique aí e se divirta. – Dei partida.
Eu não gostava de conflitos, então não queria prolongar aquilo. Deixei o local, passei em um supermercado 24 horas, comprei uma pizza congelada. Não iria seguir o script dessa vez. Era certo que Orlando contaria ao meu pai e ele viria tirar satisfações, mas naquele momento nada me interessava. Cheguei em casa, coloquei a pizza no forno e fiz suco de uma polpa que havia ganhado do porteiro naquela manhã. Ele e sua família eram do interior e sempre que podia, me trazia algumas iguarias.
Liguei a TV e me desliguei do mundo.
No dia seguinte, acordei cedo, tomei um banho longo, me troquei também sem pressa alguma. Ao chegar na cozinha, o meu pai estava lá, com o seu terno impecável, os fios brancos penteados para trás. Me preparei mentalmente para o que viria. Faria o mesmo de sempre: ouvir e apenas responder o que me for perguntado.
— Senta. – O fiz.
Ele bebia café.
— Orlando me disse que você o deixou sozinho na festa. – Quis rolar os olhos, mas me contive. — Ele será seu noivo e em breve o seu marido. Tudo o que ele disser será lei. Eu fui claro?
— Sim, papai.
— Eu deveria te dar uma surra, Bárbara, mas não sou um homem que agredi mulheres. Não quero mais reclames a seu respeito. Hal fahimt?
— Sim, papai.
— Era somente isso...
Ele deixou a cozinha e eu pude ouvir a porta sendo fechada.
— Sim, papai. Sim...
Eu precisava trocar a fechadura em breve.
Cheguei à construtora no horário de sempre e fui avisada por Roberta que as entrevistas começariam em breve. Tomei café, adiantei algumas coisas e na hora marcada, fui até a sala do RH. Dez minutos depois as candidatas começaram a chegar. Faltava alguns minutos para iniciarmos, tomei mais uma xicara de café.
E começamos.
Maçante, eu não gostava de entrevistas, mas o que podia fazer? Olhei para o relógio em meu pulso. Será que nenhuma candidata seria escolhida? Havia tanto a ser feito no financeiro.
— A última candidata irá entrar, senhorita Karam. – Roberta me entregou o currículo e eu fiquei levemente impressionada.
Não, eu fiquei muito impressionada. Por que uma pessoa com um currículo tão bom estaria ali? O que a levou a concorrer a uma vaga tão medíocre, que o salário mal chegava a mil e novecentos reais?
— Bom dia. – Tirei os olhos do papel em minhas mãos e olhei para a mulher na porta.
E por Deus...
Os cabelos loiros jogados para o lado, pareciam naturais, bem cuidados, macios. A blusa branca de mangas longas estava dobrada até o cotovelo, a saia preta descia até abaixo do joelho. Um salto discreto finalizava a sua vestimenta. O seu rosto era jovial, bonito, a mandíbula marcada. Ela sorria, parecia um sorriso genuíno, a sua presença era tão... leve. Ajeitei a minha postura, tentei relaxar a expressão em meu rosto.
— Bom dia. – Respondemos.
A sala parecia tão... viva.
— Sou a Roberta, Brenda. – Ela veio até nós, cumprimentou a Roberta com um aperto de mão. — Esta é a senhorita Bárbara Karam, responsável pelo financeiro e futura chefe de uma de vocês.
— É um grande prazer, futura chefa. – Ela brincou. Sua mão estendida logo foi apertada pela minha.
Que energia... singular.
— Bem-vinda, Brenda. – Minha voz saiu firme.
— Muito obrigada, senhorita Karam. – O sorriso totalmente direcionado a mim.
Eu fiquei totalmente desconcertada.
— Gostaria de um café?
— Oh, não. Muito obrigada.
— Parece tão relaxada. – Roberta comentou, eu apenas a olhava.
Ela sorriu, cruzou as pernas. Parecia estar em casa.
— Acho que se deve as inúmeras entrevistas que fiz ao longo da semana. Curou qualquer tipo de ansiedade.
Ela soltou uma risada, que foi acompanhada por Roberta. Simplesmente me segurei para não as acompanhar.
— Tantas assim?
— Não está fácil ser empregada neste país, mas seguimos. Quem sabe esse não é o meu número da sorte?
— Somo o número?
— Oito, vocês são o número oito. – Novamente, Roberta riu e dessa vez acabei sorrindo.
— Vi no seu currículo que estagiou em uma construtora muito conceituada. Posso lhe perguntar o motivo de sua saída?
Me interessei na resposta, permaneci calada e notei um leve desconforto em sua postura. Ela tentou disfarçar, mas eu percebi.
Ela sorriu.
— Tive um problema pessoal, infelizmente tive que optar pelo desligamento. Não foi fácil, mas há momentos na vida que somos postas diante de algumas escolhas.
— Qual...
— Você fala inglês fluente. – Resolvi intervir.
Não sei dizer ao certo o porquê. Os seus olhos finalmente focaram somente em mim e fiquei desconcertada em dobro.
Que loucura!
— Sim, apesar de nunca ter saído do Brasil, o meu último chefe era canadense e não falava português. Pratiquei bastante durante o tempo que trabalhei com ele.
Novamente, o porquê dessa mulher ter se candidatou a esta vaga tão simplória?
— Seu currículo é maravilhoso, Brenda. Você é formada em engenharia...
Nesse momento, a porta se abriu e o meu pai entrou, interrompendo a minha fala. Todo o clima leve se dispersou.
— Bom dia, queridas. – Respirei fundo discretamente.
— Bom dia, senhor Amal. – Respondemos.
Então ele olhou para a candidata e vi a sua postura mudar mais ainda. Eu conhecia perfeitamente a mudança.
— Você é a candidata a vaga de auxiliar da Bárbara? – Ele pegou o currículo de minhas mãos. – Nossa, que currículo esplendido. Você é formada em engenharia e já estagiou em uma concorrente. Há mais alguma candidata?
— Ela é a última, senhor Amal.
— Ótimo! Está contratada, Brenda.
Fiquei de pé, a minha presença já não era mais importante.
— Nossa! Obrigada!
— Será um prazer. Cuide da documentação dela e que possa começar o mais breve possível. Ah, que cabeça a minha. Me chamo Amal Karam.
— É um prazer, senhor Karam. Brenda Gomes...
Deixei a sala sem ser vista.
Vi a minha futura chefe deixar a sala, enquanto as duas pessoas que continuavam na sala falavam e confesso, não ouvi nada depois que ela saiu. Quando passei pela porta, os meus olhos foram atraídos para ela. É a mulher mais bela que já vi em toda a minha vida, sem exagero algum. Fiquei desconcertada, demorei a me concentrar no que era importante. Me senti muito fútil, nunca fui de ligar para a aparência, mas foi impossível não ficar deslumbrada com a beleza dessa mulher.
Mas ela seria a minha chefe.
— Vou te entregar a lista de documentação, amanhã mesmo você irá fazer os exames admissionais. Você agradou pai e filha, muito bem. – Não pude deixar de sorrir. — Bem, parabéns, Brenda. Bem-vinda a Karam.
— Obrigada. Estou muito feliz. – A abracei, a surpreendendo. — Perdão.
Deus, o que eu estava fazendo? Ela riu.
— Está tudo bem, Brenda. Provavelmente, você iniciará na segunda.
— Então boa sorte para mim. Até segunda, colega de trabalho.
Roberta riu.
— Até segunda, Brenda.
Deixei a sala do RH com uma sensação boa no peito, a minha intuição dizia que iria dar certo dessa vez. Assim que deixei a construtora, liguei para Nataly e dei a notícia. Ela gritou do outro lado da linha, me fazendo rir.
— Deus, como assim?
— Também fiquei besta. Do nada, o homem apareceu na minha entrevista, pegou o meu currículo e rasgou elogios. Até pensei ser uma pegadinha, Nat.
— Sua filha da mãe sortuda. Ah, Brenda, eu estou muito feliz que tenha dado certo.
— Vamos comemorar este fim de semana e eu não aceito um não como resposta.
— O que você quiser, minha amiga. O que você quiser! Vai logo pra casa e conta pra sua mãe.
— É exatamente o que farei agora. Beijos...
Encerrei a chamada, decidindo pedir um carro por aplicativo. Cheguei em casa meia hora depois, a minha mãe não estava. Resolvi preparar o almoço e caprichei. O armário chegou antes do previsto, eles montaram em imediato, então tive todo um trabalho antes que a minha mãe chegasse.
— Filha, tô em casa...
— Na cozinha, mamãe.
— Que cheiro delicioso. – Ela parou na porta. — Filha, tem alguma coisa diferente aqui.
Gargalhei.
— Que?
— Aí, mamãe. Não é à toa que falam tão mal do seu signo. – Ela franziu o cenho.
— Como assim falam mal do meu signo, menina?
Ri alto.
— Brenda, o que... – Então os seus olhos foram em direção ao armário. — Filha, mas você...
— Sem mais, mamãe. Sem pensar no depois, por favor. – Os olhos castanhos encheram-se de lágrimas. — Tenho uma novidade.
— Mais uma? – Ela sorriu.
— Eu consegui a vaga, vou trabalhar na Karam Construtora. – A minha mãe abriu a boca de leve.
— Brenda...
— Não é na minha área, mas eu posso sim chegar lá, mamãe.
— Filha. – Ela me abraçou forte e chorou.
Chorou como nunca vi.
Desde sempre é somente nós duas, eu não conheci o meu pai, ele abandonou a minha mãe assim que soube que ela estava gravida. Os meus avós se foram cedo, foi somente ela e a minha tia por longos anos.
— Você vai chegar aonde quer, minha menina. Eu acredito em você. Vou estar do seu lado até quando Deus permitir.
— Até estar velha e eu comece a lhe dar banho.
Ela me deu um leve tapa no ombro.
— Menina.
— É a nossa hora, mãe.
— Oh, Deus. Estou tão feliz, minha menina. Você merece tanto, é uma menina tão esforçada, trabalhadora.
A essas alturas os meus olhos estavam inundados. Eu acreditava que tudo valeria a pena e permaneceria a buscar por todos os meus sonhos. Eles me mantinham com a cabeça acima do mar.
Já tive a sensação de afogamento e não desejo isso a ninguém.
No dia seguinte, fiz os exames admissionais e os receberia no sábado pela manhã. Naquele dia fui a academia e contei a novidade aos meus amigos de treino, que inventaram uma comemoração e acabamos por fugir da dieta e comer pizza a umas quadras dali.
Sábado.
Acordei muito cedo, fui até a clínica particular e recebi os resultados. Roberta havia me pedido para entrega-los até as onze da manhã. Cheguei muito antes do horário, o segundo piso estava em um silencio total. Fui atendida imediatamente.
— Que bom que conseguiu fazer tudo a tempo. – Ela olhava a documentação. — Vamos falar sobre o salário e benefícios. Você tem alguma pergunta?
— Na verdade, tenho sim, mas não é sobre o salário. – Roberta franziu o cenho.
— Sobre a senhorita Karam?
— Exatamente. – Eu não queria começar errado com ela.
— A senhorita Karam é uma profissional excelente, muito focada, quase sempre é a primeira a chegar. Muito reservada e educada. – Isso me aliviou. — Você não terá problemas com ela.
Ela tinha os olhos tristes, belíssimos, mas tristes e saiu de fininho depois que o pai entrou. Eles teriam problemas?
— Isso é ótimo. E o dono?
As feições de Roberta mudaram.
— Com ele você terá que ser um pouco mais cautelosa. Tudo bem?
Acho que aquilo significava: não pergunte mais nada.
— Tudo bem...
— Sobre o salário, você ganhará...
Ela passou a listar tudo o que eu teria direito, não era o salário dos sonhos, entretanto, um começo.
Deixei a construtora e fui para casa, Nataly passaria para me pegar, pois iriamos a um barzinho. Fui mais cedo a academia e outra vez tive a sensação de estar sendo observada. Eu sabia que ela estava a me seguir.
— Não, não me deixe...
— Sem condições de te perdoar, Eliza. – Tirei sua mão do meu braço.
— Foi só um deslize, amor. Uma coisa sem a menor importância. Eu juro...
— Tanto faz o motivo, você fez e isso é imperdoável.
— Não vou te deixar sair daqui. Jamais sairá da minha vida, Brenda...
— Solta isso, Eliza! Solta!
— Brenda? Brenda? Me perdoa, amor...
Toquei a minha cicatriz.
Foi muito difícil depois da separação, foram quase três anos juntas, havia tantos planos, planejamos até mesmo morar fora do país. Foi a primeira vez que me apaixonei de verdade, fechei os olhos para algumas coisas. Eu deveria ter fugido no primeiro sinal.
— Brenda, a Nataly está no portão.
— Já estou indo, mãe. – Passei uma camada leve de batom.
Deixei o meu quarto, dei um beijo em minha mãe e sai.
— Linda e cheirosa. – Nataly deu partida.
— Minha amiga merece a minha melhor versão.
— Não joga charme, Brenda.
— Você quem começou.
Chegamos a um barzinho no centro de Belém, pegamos uma mesa do lado de fora, pedimos bebidas leves, chopp de vinho rose. Uma mulher cantava MPB, a sua voz era rouca, boa de se ouvir. Nataly não tirava os olhos do pequeno palco.
— Deveria voltar a tocar. – Ela sorriu, ainda mirava a cantora.
— Não tenho mais tempo, a realidade não me deixa espaço para sonhar. – Bebi um pouco da bebida rosa que era divina.
— Você tem uma voz incrível. Quando terei shows particulares outra vez? – Agora ela me olhou.
— Quando tiver churrasco da dona Lívia. Estava me recordando, no dia do jantar beneficente, conheci uma mulher. Brenda, é a mulher mais linda que já vi em toda a minha vida. Ela aparentava ser de outro país, tinha uns traços fortes do oriente médio. Os olhos pareciam duas piscinas...
— Está gostando de mulheres agora, é? – Nataly gargalhou.
— Não, mas ela era bonita. Não, era uma divindade. Bonita é pouco para descrever.
Recordei da minha chefe, do quanto fiquei embasbacada com a beleza de Bárbara.
— A minha futura chefe também é uma deusa. A mulher é um soco na autoestima de qualquer mulher. – Os olhos eram irreais.
— Você não pode ser apaixonar por sua chefe, Brenda. – Não segurei a risada.
— Eu estou ciente disso, então não se preocupe.
— Chega de mulher louca na sua vida. Ok?
— Ok.
— Um brinde a sua nova caminhada, amiga. – Aspirei o ar.
— Um brinde.
Uma nova jornada se iniciaria.
— Boa noite. – A voz masculina se fez presente.
— Boa noite. – Nataly respondeu.
Conhecia aquele cara de algum lugar.
— Quase não acreditei quando vi você. – Ele se dirigia a mim. — Você é a moça do shopping.
Ah.
— Meu nome é Pedro. – Nataly ergueu a sobrancelha.
— Me chamo Brenda, essa é a Nataly. Eu posso ajudar?
Ele sorriu e sem ser convidado, sentou conosco.
— Prazer, Nataly. – Não estava acreditando na ousadia. — Desculpa a ousadia, mas é que desde que te vi no shopping, não consigo parar de pensar em você e quando te vi aqui, tive que vir.
Ele era bonito, mas os meus instintos me alertavam.
— Desculpa te decepcionar, bonitão, mas eu não estou interessada.
— Oh, você tem namorado ou é casada?
— Não, eu não estou muito interessada mesmo. Além do mais, gosto de mulheres.
Vi em sua face o descontentamento.
— Não posso acreditar.
— Pois acredite.
— Bem, não posso te culpar. Mulheres são mulheres... – Ele sorriu.
Senti vontade de rolar os olhos.
— Então, perdão pela falta de tato, mas você poderia por favor sair? Minha amiga e eu queremos privacidade.
— Ah, entendi. – Ele ficou de pé. — Amiga, não é? Bem, o dia que quiser experimentar coisas novas, saiba que tenho interesse.
Ele piscou e se afastou.
— Por que eu nasci hétero, hein? – Nataly passou a mão sobre a testa.
— Má sorte, eu acho.
Não seguramos a risada. O bobalhão foi o nosso assunto da noite.
Segunda-feira.
Acordei cedo na segunda, pedi um carro por aplicativo para chegar no horário correto, pois os horários dos ônibus na minha cidade não eram confiáveis, pontualidade não é um ponto forte do brasileiro. Cheguei meia hora antes, apenas o segurança, que agora eu sabia que se chamava Leno, estava na entrada. Ele me cumprimentou e me desejou sorte no meu primeiro dia. Subi a escadaria, caminhei pelo corredor e assim que adentrei a sala que seria meu local de trabalho, me assustei com a pessoa de costas para mim.
— Senhorita Bárbara.
— Ah, bom dia, Brenda. – Ela olhou para o relógio em seu pulso. — Você chegou muito cedo, menina.
— Me desculpe, eu só queria me anteceder. – Que mulher linda.
— Não precisa se desculpar, Brenda. Fique à vontade. – Ela parecia cansada. — Tem café quente e pãezinhos. A sua mesa é essa aqui, pedi para comprar uma nova e uma cadeira mais confortável também, então decore da forma que desejar.
— Obrigada, senhorita Bárbara. Não deveria ter se dado ao trabalho.
— Não foi. Vamos passar muito tempo sentadas, nada mais justo que você tenha o mínimo de conforto.
Uau!
— Muito obrigada. – Deixei a minha bolsa sobre a mesa. — Que cheiro divino.
Tentei puxar assunto.
— Espero que goste. E está sem açúcar, então tome cuidado ao beber.
Me servi de um pouco de café puro, pouco adoçante.
— Estou pronta para trabalhar. Por onde posso começar?
Dona Bárbara me olhou por alguns segundos e depois desviou. Havia alguma coisa estranha. Apesar de toda a educação que estava usando comigo, dava para notar que ela estava incomodada com algo.
— Tenho uma pilha de documentos que precisam ser digitalizados e passados para o HD. Você poderia iniciar?
— Claro. Quais são?
Ela pegou uma pequena chave em sua gaveta, foi até o armário e tirou de lá uma pilha de documentos. Não parecia nada de mais, em pouco tempo conseguiria terminar.
— Esse é o primeiro volume. A copiadora é excelente, então acredito que não terá problemas.
Totalmente direta e reta. Senti uma necessidade de quebrar o gelo, mas me calei.
— Alguns volumes precisarão de uma capa nova. Você pode usar o mesmo modelo, mas se preferir, pode usar um novo. Só as informações e a logo da empresa precisam estar nas capas.
— Sem problemas. Alguma observação?
— Assim que eu recordar, te digo.
Diretíssima.
Estava na última pasta de documentos, havia se passado apenas duas horas. A minha chefe estava totalmente imersa em seu notebook. Uma vez ou outra, a olhava de canto de olho. É como eu disse a Nataly, aquela mulher era um soco na autoestima de qualquer ser humano.
— Amor, vir pegar o orçamento do... – Franzi o cenho, tirei a minha atenção das páginas e ao olhar para a pessoa na porta, não acreditei na minha falta de sorte. — Bom dia.
Não e não!
— Bom dia. – Merda!
— Orlando, por favor, bata na porta antes de entrar. – Orlando?
É claro.
— Desculpe. Preciso daquele orçamento. – Ele me olhou da cabeça aos pés.
Não podia ser, o cara chato do bar.
Fim do capítulo

Tany
29/09/2026 às 23:15