Capítulo 3

Capítulo 3 - Percepções

de Save me, por Leticia Petra

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Orlando olhava para Brenda de uma forma totalmente descarada. Não bastava o meu pai, agora a droga do meu futuro noivo também caiu de amores por ela. Aquilo me irritou profundamente, mas me recordei dos dizeres do todo poderoso Amal Karam. Com a paciência que estava longe de sentir, pedi que se retirasse.
— Querido, estamos no meio do trabalho. Podes nos dar licença? – Ele finalmente se tocou e o olhar safado mudou para retraído.
Esse idiota acha mesmo que não sei de todas as suas traições? Só pode ser um completo idiota mesmo.
— Ah, sim. Desculpa, não sabia que havia uma nova funcionaria. Bem-vinda.
— Eu agradeço. – Brenda respondeu de forma seca, me fazendo criar um questionário.
Mais um milhão de perguntas que acho que jamais serão respondidas.
— Bem, vou indo.
Ele fechou a porta.
— Ele é meu futuro noivo.
— A senhorita é muito bonita pra ele. – Ergui as sobrancelhas.
Brenda fechou os olhos, pondo a mão esquerda sobre o rosto.
— Me desculpe, senhorita Bárbara. Me perdoe pelo comentário infeliz. – Tive vontade de rir, a menina estava totalmente sem jeito. — Eu não sei o motivo de ter dito isso...
Mas mantive a minha postura, eu não podia ser amiga de ninguém na construtora.
— Vamos voltar ao trabalho. – Suavizei a voz, mas fui direta.
— Sim senhora. – Ela sentou, voltando a tirar as bailarinas dos documentos.
Me permitir olha-la, analisa-la. Fiz um julgamento precipitado com relação ao meu pai? Ela não parecia ser o tipo de mulher desesperada por qualquer tipo de atenção masculina, muito pelo contrário.
Afastei os pensamentos e continuei a trabalhar, a venda dos apartamentos do novo empreendimento havia começado, então iria entrar muito dinheiro em breve. Seriam longos meses de trabalho. Na hora do almoço, decidi almoçar em um restaurante. Brenda havia saído há mais de vinte minutos para o intervalo e ao passar em uma das salas, a vi almoçando com algumas funcionária e já estava totalmente à vontade, pelo o que parecia.
— Só Bárbara. – Levantei a cabeça.
— Boa tarde. – O que essa mulher queria? — Posso ajudar?
— Por que é sempre tão formal? – Ela sorriu.
— Por que deveria ser de outra forma? – A minha resposta a divertiu ainda mais.
— Só quero ser gentil. – Ah, por favor. — Posso sentar aqui?
— Eu já terminei.
— Podemos tomar café. – Essa mulher está dando em cima de mim?
— O que você quer?
— Sentar e tomar café com uma mulher bonita. – Que inusitado.
Eu sei que sou uma mulher bonita e que chamo a atenção de ambos os sexos, mas é a primeira vez que uma mulher flerta comigo.
— Acredito que não tenho nada pra te oferecer. Sou uma mulher comprometida. – Natalia fez uma expressão engraçada.
— Então eu me contento em ser amiga. – Amiga. — Pode? Essa vaga está aberta?
Ela riu, parecia que o tempo todo estava rindo as minhas custas.
A única amiga que tive foi no tempo na escola e faculdade, desde que fui obrigada a voltar ao Brasil, nunca mais me dei ao luxo de ter amigos. Que vida sem graça eu levava. A única coisa que poderia oferecer a alguém seria um rosto bonito e um passado cheio de amargura.
— Tudo bem. Acho que tem espaço aqui para uma amiga. – Ela sorriu. — A moça daquele dia.
— A Nataly, ela é minha irmã.
— Ela está melhor?
— Tá passando por uma separação, mas vai superar. O cara é um babaca.
— Ela parece ser uma boa menina.
— E ela é. A Nataly é tudo que há de mais doce. – Deve ser bom ter uma irmã.
— Ela passa algo bom...
Natalia sorriu.
— O que foi?
— Você finalmente relaxou. – Dei de ombros.
— Gostei da sua irmã, senti algo bom nela.
— E em mim não?
— Você? Ainda não sei.
— Au! – Ela colocou as mãos sobre o peito de forma teatral.
Continuamos a conversar sobre coisas leves, ela não fez mais nenhuma gracinha, era a primeira vez em anos que conversava com alguém fora do ciclo de amizades do meu pai. Voltamos juntas para a construtora e ao chegar no corredor da minha sala, Brenda saía acompanhada por meu pai.
Ele sutilmente tocou em seu ombro.
— Sim, eu agradeço muito senhor.
— Pare de me chamar de senhor, só Amal. – Novamente aquilo me incomodou.
Ela estava dando brecha a ele. O seu olhar veio até nós e parou em Natalia.
— Meninas, almoçando juntas? – O meu pai cumprimentou Natalia, a mim nada falou.
— Jogando conversa fora.
— Engenheira Natalia, essa é a nova aquisição da construtora, Brenda Gomes.
Aquisição...
— Olá, Natalia. Que bom te ver. – Franzi o cenho. — Nos conhecemos há alguns anos, sou uma grande amiga da irmã dela.
Que mundo pequeno.
— Que bom te ver aqui, Brenda. Espero que este seja o ponta pé que você precisava. – Eu podia sentir a tensão entre elas.
Não vou negar, isso me deixou muito curiosa.
— Bem, já que todas se conhecem, vou me despedir. Tenho algumas reuniões agora. – Ele tocou mais uma vez no ombro de Brenda.
— Também vou voltar ao trabalho. Até logo, Bárbara.
— Obrigada pela companhia.
— Que possa virar rotina. Tchau, Brenda.
Natalia seguiu ao lado do meu pai. Entrei na minha sala, acompanhada de Brenda. Ela parecia pensativa, desde hoje de manhã não voltou a falar nada que não fosse sobre o trabalho.
— Senti uma certa tensão entre você e a Natalia. – O que eu estava fazendo?
Ela me olhou, pareceu demorar a absorver o que eu disse.
— Ela não gosta muito de mim. – Não pergunta mais nada, Bárbara.
— Por quê? – Merda, só cala a boca. — Me desculpe, estou sendo invasiva.
— Tá tudo bem... – Ela sorriu.
Eu senti aquela mesma leveza de quando ela entrou no RH.
— A gente namorou no tempo da faculdade. Eu a magoei e ela me odeia desde então. – A minha surpresa foi tremenda.
Brenda gosta de mulheres.
— Prometo que isso não será um problema, senhorita Bárbara. Sei distinguir o pessoal do profissional. – Eu deveria dizer alguma coisa.
Por que estou tão surpresa? Vivemos em uma sociedade moderna.
— Eu não tenho problemas com isso, não se preocupe. – Ela ficou muda por alguns segundos.
— Ainda assim, não haverá nenhum incomodo. – Ela sorriu, mas sem mostrar os dentes perfeitamente cuidados.
Ela fez um coque com os fios loiros, seu olhar teve uma ligeira mudança. Uma batida na porta me fez desviar a minha atenção.
— Entre.
— Com licença, senhorita Bárbara. – Era a menina que trabalhava no almoxarifado. — Vim entregar isso aqui a Brenda.
— A mim?
Olhei para a tela do meu notebook.
— Obrigada, Renata.
— De nada, Brendinha. – Brendinha? O que era aquilo?
A porta foi fechada.
Brenda deixou a sacolinha bege sobre a sua mesa e não fez menção alguma que iria abrir, na verdade vi certa preocupação em sua face. A curiosidade mais uma vez bateu forte, mas dessa vez preferi ficar calada. A vida pessoa dela não me interessava.
— Senhorita Bárbara, já terminei a digitalização do terceiro volume. Vou fazer um café, a senhorita gostaria?
— Eu agradeço muito.
— Sem açúcar, certo?
— Certo.
Ela pegou o recebido e jogou no lixo depois de ler um pequeno papel. Fiquei olhando para a lixeira, dividida entre a curiosidade e o senso do ridículo. Por Deus, eu não sou dessa forma.

No fim do expediente, Brenda deixou a sala antes de mim. Finalizei algumas pendencias e antes de deixar a minha sala, olhei para o lixeiro mais uma vez. Repeti outra vez que não era da minha conta, desliguei as luzes e sai. Ao chegar no estacionamento, vi que Brenda estava sentada em uma mureta baixa, estava com uma roupa totalmente diferente.
Certamente iria a academia, pois estava de legging, tênis, um moletom rosa e um boné preto. Caminhei lentamente até ela, e quando notou a minha presença, ela sorriu.
— Pensei que já estaria a caminho da sua casa.
— O motorista me deixou na mão. Estou tentando pedir outro, mas esse horário o trânsito está um inferno. – Brinquei com as chaves. — Um acaba de aceitar. Gloria!
— Tem certeza que vai entrar no carro de um desconhecido?
Ela riu.
— Bem, vou tentar a sorte. Obrigada por toda a paciência comigo e pela a oportunidade. – Ela tirou o boné preto.
— O seu currículo é algo que não tem como ignorar.
— Acho que passou por sua cabeça o porquê de alguém com o meu currículo ter se candidatado a vaga de auxiliar. – Brenda enfiou as mãos nos bolsos do moletom.
— Pra ser sincera, fiquei curiosa. – Eu não conseguia não sentir curiosidade sobre essa mulher.
Talvez eu tivesse um pouco de inveja por ela ser tão livre?
— O meu carro chegou. – Um gol preto entrou no estacionamento. — Vou lhe contar outra hora, não quero te assustar com a parte invisível do meu currículo.
Abri a boca de leve, mas nada disse.
— Bom descanso, senhorita Bárbara. – Ela entrou no carro.
Fiquei parada no estacionamento, vendo o carro sumir.
O meu celular tocou, olhei na tela e se tratava de Orlando. Até pensei em recusar, porém ele foi insistente. Atendi e eu estava sendo convocada para um jantar para comemorar o sucesso que as vendas do novo empreendimento estava sendo.
Meu empreendimento.
— Vou em casa tomar banho e me arrumar. Vejo vocês daqui a pouco. – Finalizei a chamada.
Fiquei submersa na banheira, o meu corpo começava a mostrar sinais de cansaço, eu não queria mais uma festa chata, com pessoas chatas, com as mesmas conversas fiadas de sempre, nada disso me interessava.
— Você não pode decidir tudo nessa casa, Amal. Eu sou sua esposa...
— Eu posso e acho bom me obedecer, Helena. Não testa a minha paciência...
— Ou se não o que? Vai me bater? – Abracei as minhas próprias pernas.
— Nunca toquei em mulher nenhuma, não vou começar por você. Ou as coisas são da minha maneira, ou pode embora, mas não pense que a Bárbara irá com você. – Era a quinta vez em uma semana.
— Eu vou levar a minha filha aonde eu for. Nada nessa vida é mais importante que a Bárbara...
Mentirosa!
Na primeira oportunidade que teve, me abandonou, me deixou. Eu era um fardo, um fardo que ela não teve o menor remorso em deixar para trás. Vou odiá-la até o último dia da miséria da minha vida. Se eu pudesse, apagaria todas as lembranças que tenho de dela.

Vesti um jeans solto, uma blusa folgada e fiz um coque. Não era do meu desejo chamar a mínima atenção. Deixei o meu apartamento depois das oito e cheguei ao restaurante quarenta minutos depois. O meu pai, Orlando e para a minha surpresa, Natalia estava na mesa. Pelo menos um alivio em meio a toda aquela encenação.
— Amor. – Ele beijou rapidamente os meus lábios.
— Oi... – Limpei a garganta. — Boa noite a todos.
— Sente aqui. – Notei que havia mais dois lugares.
— Teremos mais companhia? – Perguntei.
— Dois sócios, logo eles chegam. Enquanto isso, vamos pedir um vinho. – Encarei Natalia e correspondi a seu sorriso.
Depois de quase vinte minutos, os sócios chegaram e a mesa se transformou em debates sobre politica e futebol. Natalia e eu subimos para o segundo piso, onde havia uma sacada grande com vista para o rio. Estavamos na Estação das Docas, um ponto turístico de Belém.
Ao menos aquela noite não seria um fracasso total.


Fui jogada no chão pela quinta vez seguida, a minha bunda doía, só não mais que o meu orgulho. Jamais fui tão humilhada assim e ainda por cima, por Betina, que começou a ter coordenação motora há pouco tempo. Antes disso, ela era um fiasco, vivia de cara no tatame. Fiquei por alguns segundos recuperando o folego, enquanto ela ria de mim. Lucas me ofereceu um pouco de água.
— Que surra, hein! – Rolei os olhos.
— O que tá acontecendo com você? – Consegui sentar.
— Nem sei por onde começar. – Puxei o ar com mais força.
— Temos a noite toda. – A água desceu perfeitamente.
Uma delícia.
— Sábado sai com a Nataly e um idiota deu em cima de mim. – Um grande idiota.
— Até aí, zero novidade...
— Ele trabalha na construtora.
— Uuuuh... – Os dois fizeram até bico.
— E piora. – A minha respiração se regularizava. — Ele é namorado da minha chefe.
— Que escroto. – Lucas adivinhou o que eu estava pensando.
— E piora ainda mais. – Eu esperava que não tivesse problemas na empresa. Não de novo, seria muita falta de sorte. — A Natalia tá trabalhando lá e é amiga da minha chefe.
— Nossa, Brenda. O que você tem de bonita, tem de azarada. – Eu nem iria falar do presente que recebi de Eliza. — Caramba. Olha, na BR tem uma igreja e tem a semana do descarrego. Podemos ir lá
Rolei os olhos, enquanto Betina ria.
— Devo ter sido uma pessoa muito ruim na vida passada. – Bebi o resto da água. — Pagando dobrado. Imã de problemas ou tô me vitimizando?
— Imã de problema. – Responderam juntos.
— Se esse cara te der problema, Brenda, não guarda pra si. Não pense na reputação dele, coloque a sua em primeiro lugar.
Lucas tinha razão.
— Espero que não precise chegar a este ponto. Eu não entendo, ela é tão mulher, extremante educada e nem vou falar de quanto é bonita. Como um cara, não, um idiota desses tem a coragem de dar em cima de outras mulheres?
Os dois me olhavam de sobrancelhas erguidas.
— O que? – Fiquei confusa.
— Você está defendendo sua chefe com muita paixão. – Betina riu.
— Não é nada disso. – Não era.
— Espero que não seja, Brenda. Pro seu próprio bem. – Lucas me deu dois tapinhas no ombro.
Não, eu só não entendia, era somente isso. Dona Bárbara era uma área totalmente hétero e proibida para mim. Não seria louca ao ponto de mergulhar em algo assim. De forma alguma. O que sentia por ela é um grande respeito e nada mais do que isso. Claro, eu a achava linda, mas sei perfeitamente o meu lugar.
— Parece que você levou uma tremenda surra. – Nataly estava na porta.
— Levou mesmo e foi eu quem deu. – Betina piscou e eu sorri.
— Ah, oi Nataly.
— Oi, Lucas. Oi Betina. – Tive vontade de rir da cara de decepção do meu amigo. — Seguinte, vou dormir na sua casa.
— Sim senhora. – Olhei as horas.
— Você deveria vir mais vezes, Nataly. – Lucas tentou outra vez.
— Um dia desses apareço pra uma aula. – O meu amigo abriu um sorriso largo.
— Sou um ótimo professor. – Se gabou.
— É ótimo mesmo. A Betina conseguiu dar até uma surra na Brenda.
Rolei os olhos.
— Não vão me deixar esquecer disso, pelo o que parece. – Aqueles três quando se juntavam.
— Não mesmo. Agora vamos, quero comer a comida da tia Lívia. – O meu estomago roncou.
— Cuidado, meninas. Boa noite. Minha esposa tá me esperando. – Betina se despediu. — Lucas, fecha a boca.
Ele ficou vermelho, fazendo Betina gargalhar.
Chegamos a minha casa alguns minutos depois, tomei um banho rápido e jantamos a especialidade da minha mãe: frango no tucupi. Decidimos assistir um pouco de tv. A minha mãe, como sempre, estava cochilando no sofá e resolveu ir dormir.
— Natalia foi pra um jantar de comemoração. – Certamente, ela estaria com a Bárbara. — Não queria ficar sozinha.
— A encontrei hoje na construtora.
— E como foi?
— O olhar de ódio de sempre.
— A Natalia já deveria ter superado isso, não é como se você tivesse traído ela, as coisas só não deram certo entre vocês.
— Eu deveria ter sido mais paciente, mais entregue...
— Brenda, você estava correndo atrás das suas conquistas, a Natalia e eu já tínhamos tudo nas mãos, você não. Amor não enche barriga e a minha irmã já tá crescidinha o suficiente pra superar.
— Acha mesmo isso?
— Não acho, tenho convicção. Agora me conta, como foi o seu dia e quero todos os detalhes, até aquele que você ache desinteressante.
Eu ri.
Passei as mãos sobre a face demoradamente, organizando os meus pensamentos e passei a narrar absolutamente tudo, até mesmo a minha garfe ao dizer para a minha chefe que ela era bonita demais para o idiota do namorado dela. Nataly riu da minha cara, mas riu de ficar sem ar.
Esperei ela terminar de rir igual uma chaleira, eu não sairia ilesa.
— Respira...
Nat foi parando aos poucos, ficando menos vermelha.
— Você acha que ele te dará problemas? – Fechei os olhos.
O cansaço começava a bater.
— Espero sinceramente que não. Preciso desse emprego, preciso me manter lá até conseguir algo na minha área.
— Você vai, Brenda. Você sempre consegue o que quer, porque você merece, tem um coração enorme. – Nataly deitou sobre o meu peito. — Sobre a Eliza, você precisa pedir uma medida protetiva.
— Você sabe que um pedaço de papel não vai impedi-la de nada. Nem esse suposto casamento conseguiu.
— Essa mulher precisa de interdição. Louca de pedra.
— O mais engraçado disso tudo é que tudo partiu dela. Ela me deixou a primeira vez, me traiu e depois... – Respirei fundo.
— Pede a medida protetiva, Brenda, suja o nome dela, é o mínimo. Essa mulher quase te matou, ela é um perigo e você precisa se prevenir.
— Eu sei...
Eu só não queria aquele tipo de exposição.
Deitamos já passava das dez da noite, dormi quase que instantaneamente. Acordei cedo e Nataly também, ela me daria uma carona até o trabalho e depois iria para a clinica que trabalha, mesmo de férias, ela passava por lá com constância. Chegamos à construtora faltando vinte minutos para as oito. Assim que estacionamos, um carro parou ao lado.
Bárbara deixou o veículo, uma pick-up azul, bem fora do padrão que as pessoas da alta sociedade usavam, ainda mais se tratando de uma mulher.
— Bom dia, Brenda. – Ela olhou para Nataly. — Bom dia, senhorita Valente.
— Bom dia, Bárbara. – As duas se abraçaram rapidamente.
Elas se conhecem. O que eu perdi? Resolvi não perguntar, mas fiquei curiosa.
— Você está melhor? – Franzi o cenho.
— Melhor?
— Ah, no dia que nos conhecemos eu estava um pouco enjoada. Não se preocupa, eu fiz o teste e deu negativo.
— Nataly...
— Relaxa, acho que foi do vinho que naquela noite tomei bastante. Bem, vou me despedindo. – Ela sorriu. — Cuide da minha amiga, ela é muito preciosa.
— As vezes você parece a minha mãe, Nataly.
— Que bom, pois a dona Lívia é adorável. – Ela me beijou a bochecha e novamente deu um abraço em Bárbara.
O veículo logo deu partida.
— Vamos tomar café, senhorita Bárbara? Paramos em uma padaria e olha. – Mostrei a sacola.
— Parecem deliciosos. Eu faço o café. – Franzi o cenho. — Nada contra o seu café, mas o meu é muito melhor.
Abri a boca de leve.
— Ok. Me lembrarei disso. – Ela estava tão acessível.
Liguei os computadores, enquanto Bárbara fazia o café. Aos poucos os outros funcionários começaram a chegar. Tomamos café em silencio e depois cada uma foi para a sua mesa. Ela ficou totalmente imersa no trabalho e eu me permiti observa-la.
Não, preciso parar com isso. Estavamos nos dando bem e isso era ótimo.
No horário do almoço, Natalia apareceu na sala e chamou a minha chefe para almoçar e eu fingi que estava muito atarefada para não ter que lidar com aquilo. Depois que as duas saíram, deixei a sala e fui para a copa almoçar com algumas meninas que havia conhecido ontem.
— Estavamos falando de você agora mesmo. – Felipa falou.
— Coisas boas, espero. – Sorri.
— Na verdade, estávamos curiosas mesmo. – Victoria falou como se estivesse contando um segredo.
— Com o que?
Peguei a minha marmita na geladeira e coloquei para esquentar.
— Em como é trabalhar com a dona Bárbara. – Franzi o cenho.
— Vocês trabalham com ela a mais tempo que eu, então acho que devem saber. – Ri da cara de desagrado pela resposta.
— A Brenda, você entendeu. Nenhuma de nós jamais trabalhou tão próximo a ela e pra ser sincera, não sabemos quase nada dela. A mulher é praticamente uma divindade, só ouvimos falar e quase não temos contato.
— E o que as senhoritas andam ouvindo por aí? – Sentei e preparei o meu prato.
— Que ela é um poço de frieza. Acredita que até já disseram que ela é um robô? – Essa não pude aguentar e acabei rindo.
— Um robô? Meninas, vocês não são muito grandinhas pra acreditarem em coisas do tipo?
— Não é que eu acredite, mas é só o que o povo fala. Eles são estranhos, bonitos, mas estanhos.
— Faz algum tempo que presenciei uma cena. – Victoria nos fez olha-la. — Vi o senhor Amal segurando o braço da senhorita Bárbara muito forte. Ela pedia pra parar, que estava a machucando, mas ele não parou. Falava coisas horríveis pra ela.
O senhor Amal? Mas ele parecia tão gente boa. Essa informação é mesmo verídica?
— A senhorita Bárbara é muito gentil e educada. – As duas me encaravam. — Muito reservada, mas extremamente paciente. Não posso dizer muita coisa, mas as poucas horas trabalhando com ela tem sido boas.
— Aquela engenheira nova, não fui com a cara dela. Vi ela conversando com a senhorita Bárbara no corredor e só faltou come-la com os olhos. Além de ser muito arrogante...
Será? Não, a Natalia jamais daria em cima de uma mulher comprometida. Ela era certinha demais para isso.
— Vamos falar de outra coisa? Vai que alguém entra e acaba escutando uma conversa pela metade? – Dei uma garfada na minha comida.
— Tem razão. Vamos falar de você, Brenda. – Victoria fez um movimento com as sobrancelhas. — É solteira?
— Victoria?
— Que? Ela é gata, ué.
As duas passaram a brigar e isso me fez rir, entretanto a informação sobre o senhor Amal não me saia da cabeça. Isso explicaria a saída de dona Bárbara do RH no dia da minha admissão. Seria realmente assim? Ficaria mais atenta.
Depois do almoço, fui para o banheiro escovar os dentes e me arrumar para voltar a sala, mas tive um encontro desagradável na saída. Olhei para os lados, desejando que alguém passasse ali e me livrasse daquele momento.
— Não tive a oportunidade de falar com você. – Cruzei os braços.
— Não temos nada pra falar, senhor. – Ele ergueu as sobrancelhas.
— Não temos? – Ele olhou para os lados. — Naquele dia...
— Que dia, senhor? Não me recordo de te visto o senhor antes daqui. – Esperava ter sido clara o suficiente. — Agora se me dá licença...
— Como posso acreditar em você? Como não terei receios que conte a Bárbara? – Como aquela mulher se interessou por alguém como você?
Como?
— Vai ter que apostar na sorte. – Passei por ele.
— Não tente nada...
Uma ameaça.
— Não quero nada do senhor a não ser uma longuíssima distância. – O olhei com a cara mais enfezada que pude. — Mais alguma coisa, senhor?
Ele fechou a cara.
— Licença.
Entrei na sala e sobre a minha mesa estava uma sacolinha de papel. A peguei e a joguei no lixo. Sentei e respirei fundo. Ficaria longe daquele homem, pois do contrário ele me traria sérios problemas e não posso me dar o luxo de perder o emprego.
Seria tudo diferente dessa vez.
— Perdão pelo atraso, Brenda. Vamos terminar aqueles relatórios? – Dona Bárbara foi tirando o blazer.
— Vamos sim, dona Bárbara. Por favor, não se desculpe, a senhorita é a minha chefe.
Então me olhou, me analisou por alguns segundos.
— Aconteceu alguma coisa? – Droga.
— Não, nada. – Tentei sorrir. — Vamos voltar para os relatórios.
— Certeza? – Ela ainda estava parada, me encarando.
Tentei soar mais convincente.
— Certeza, dona Bárbara.
— Tudo bem, então. Traga a sua cadeira para mais perto ou eu levarei a minha até aí...
Ela não me deu tempo de responder, simplesmente trouxe a sua cadeira e logo em seguida os relatórios. Tentei acompanhar os seus movimentos e foi quando o seu perfume invadiu os meus sentidos, me deixando atordoada. O meu corpo tremulou e quando o seu braço encostou de leve no meu em um movimento não intencional, os pelos do meu corpo se arrepiaram e só não podiam ser vistos por conta da minha blusa de mangas longas.
Senti o impacto de um ato singelo, mas ela nada percebeu. Totalmente alheia a avalanche que me causou.
— Ficou muito bom tudo o que fez aqui. – Então voltei ao meu controle.
— Não há algo que queira mudar? – Não a olhava.
Olhava diretamente para o documento a nossa frente.
— Nada. Em absoluto, nada. Ficou perfeito, Brenda. – Ela empurrou meu ombro com o seu. — Deus, ainda bem que você apareceu.
Senti um arrepio.
— Então podemos seguir para o próximo? – Precisava desesperadamente focar no trabalho.
— Com toda a certeza.
Meu Deus! Por favor, não!

Não!

Fim do capítulo

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