Capítulo 1

Capítulo 1 - Mundos

de Save me, por Leticia Petra

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É sufocante, sabe? Agonizante, interminável, indigesto, é como uma morte lenta, eu poderia citar inúmeras outras nomeações existentes, entretanto, nenhuma seria o suficiente para descrever aquele momento, aquela prisão invisível em que vivia há tanto tempo. Não era o que eu queria, nunca foi, mas por que não consigo sair? Tenho 29 anos, uma carreira, tanto para viver. Deus, o que estou fazendo da minha vida? Essa conversa chata, essas pessoas tediosas, essa mão feia que toca a minha e que à noite tocava o meu corpo sem um pingo de amor ou excitação. Esse homem que deitava em minha cama, que usufrui dos meus dias e ainda assim, eu me sentia terrivelmente sozinha.
Eu queria gritar!
— O novo projeto agradará, já posso até ver aquele prédio se erguendo, deixando todos embasbacados com a riqueza e a sua beleza. A altura da beleza da minha linda futura noiva. – Orlando piscou para mim. As conversas sempre eram muito superficiais, cheias de palavras calculadamente roteirizadas, não parecia ser um jantar de verdade. — Vai ser um dos mais luxuosos e imponentes da nossa região. Todos os mais ricos de Belém irão querer morar lá. Anotem o que estou falando. Vamos faturar!
Os dentes insuportavelmente brancos, os fios castanhos penteados para trás, a blusa polo engomada e religiosamente passada, o cheiro do perfume que exalava em meu travesseiro, que muitas vezes me enojava.
Indigesto!
— Querida, sua salada, coma... – Mirei o prato, guardei a minha frustração e comi cada garfada com um sabor amargo na garganta.
Eu não podia demonstrar a minha plena insatisfação.
— É um dos mais belos projetos que já vi, Orlando. A nossa construtora vai erguer aquele monumento e mostraremos o motivo de sermos os melhores. – Meu pai ergueu sua taça.
— E um dos mais caros. – Risadas e eu não achava nada engraçado. — Mas vai valer cada centavo.
O que pensariam se soubessem que aquele projeto é meu e que meu querido noivo me pediu? Na verdade, me implorou para apresenta-lo a meu pai.
— Fizemos uma obra prima, sogrão. – Eu queria rir.
— Você foi um achado, Orlando...
Faça-me o favor.
— O meu filho é muito talentoso, morro de orgulho. – O meu sogro salientou. — Olívia, você poderia seguir os passos do seu irmão, filha. Ainda dá tempo de voltar a sua profissão.
— Já temos engenheiros e arquitetos o suficiente na família, papai. Deixo toda a glória a vocês. – A minha cunhada respondeu.
Parecia entediada, assim como eu.
— Uma mulher que sabe o seu lugar. Deixe os homens assumirem seus postos. – Essa frase machista veio do meu pai, é claro.
— Viu, Bárbara? Quando casarmos, você não vai mais precisar trabalhar. – Olhei para o meu futuro noivo.
O quê?
— Concordo com o Orlando, filha.
É claro que concorda.
— Nem vai precisar se preocupar com mais nada, só em ser bonita do jeito que és. Você é a mulher mais linda que eu já vi. – Esse teatro todo, quando vai acabar?
Um troféu esquecido no alto de uma prateleira.
— Tão provedor, esse menino.
Olívia rolou os olhos lentamente com a fala da mãe. Bebi um gole da água gelada que descia feito facas.
— Sorte grande da Bárbara. – Aí, pai. Que vontade de lhe mandar calar essa boca.
— O projeto poderia ter o seu nome, querida. Residencial Bárbara...
— Não, acredito que deva ter teu nome, Orlando. Afinal, o projeto é seu...
Meu pai não perdia uma oportunidade.
Aquela conversa perdurou, nenhuma pergunta foi feita a mim, mesmo sendo formada na área, mesmo sendo uma excelente arquiteta, e digo isso com propriedade, as minhas notas eram excelentes, vendi alguns projetos quando morava no exterior. Mesmo assim, eles nunca se dirigiam a mim. Totalmente e completamente invisível. E pelo o que parece, futuramente, serei esposa troféu.
Um enfeite.
— O jantar estava incrível, o restaurante de fato é um lugar promissor. – Luana, a minha sogra, comentou comigo.
— A massa é boa mesmo. Com certeza será um nome de peso. – Sorri sem vontade.
O restaurante é de um dos amigos do meu sogro.
— Bárbara, querida, virá comigo? – Na frente dos outros ele é sempre tão gentil.
— Não, papai, vou pra casa. Preciso descansar, amanhã estarei na construtora cedo.
— Ah, essa minha nora é tão dedicada. Orlando, você é um homem de sorte. – Deus, eu só queria ir para casa.
— E eu não sei, papai?! Mesmo não precisando, a Bárbara é muito dedicada ao trabalho. – Trinquei o maxilar, apertei tão forte e depois aliviei.
— Bem, vamos nos despedindo. Até a próxima, queridos. Orlando, cuide da minha filha.
Ele veio até a mim, me abraçou brevemente.
— Muda essa cara, garota, vão pensar que está aqui forçada. – Respirei fundo.
Eu só respirava fundo.
— Tchau, papai. – Me afastei.
O caminho até o meu apartamento foi feito em completo silêncio e eu agradeci por isso. No geral, não conversávamos, o teatro só era feito quando havia plateia. Fui direto para o banheiro, tomei um banho longo e tentei adiar a minha volta ao quarto, o meu noivo me esperava para mais uma noite sem graça de sexo. Talvez eu fosse o problema, não tinha libido, não o desejava, nunca desejei.
Nos nossos três anos juntos, alguma vez ele me levou ao céu? Um orgasmo, mesmo que breve? A minha vida sexual não é algo variado, estive apenas com o Orlando na cama, beijei dois outros rapazes, mas sem paixões avassaladoras.
— Bárbara, venha logo.
A batida na porta me fez sair do torpor.
— Já vou, Orlando.
Aceitei que não daria para fugir, deixei a banheira, coloquei o roupão e sai do banheiro. Foram os cinco minutos mais longos da minha vida e o alívio quando o vi se jogar para o lado foi indescritível. Levantei, entrei no banheiro e com raiva, apaguei do meu corpo os seus toques e os seus beijos. Me encarei no espelho, eu sou uma mulher bonita, eu sei disso, vejo como muitos me olham, mas nada disso importa se nesse corpo uma covarde habita.
— Uma covarde, é isso que você é. Uma grande covarde!
Decidi ir para a sala e acabei adormecendo no sofá.

Cheguei à construtora às 08:00h em ponto, fui para a minha sala que ficava no segundo andar, havia algumas pessoas na recepção do RH, uma funcionária seria contratada em breve para o meu setor, o financeiro. Sim, apesar de ser formada em outra área, o meu pai achou mais justo me manter longe da minha real profissão. Qual era o seu medo, afinal? Que eu fosse melhor que ele?
— Senhorita Bárbara?
— Pois não?
— A senhorita gostaria de participar da entrevista? – No primeiro momento, fiquei sem entender. — O senhor presidente não lhe avisou? Uma das candidatas é para ocupar a vaga como sua auxiliar direta.
Não, ele não disse nada. Ele nunca me informa de nada.
“Querendo alguém pra me substituir aos poucos pra finalmente ser a esposa troféu do Orlando”. Pensei rancorosa.
— Ah, sim. Havia me esquecido, Roberta. Irei sim, obrigada.
Fiquei de pé, a contragosto, deixei a minha sala. A sala do RH ficava no mesmo corredor que o financeiro, então não demorou mais que alguns segundos para chegar à recepção, cumprimentei a todas e entramos. Sentei ao lado de Roberta e iniciamos as entrevistas.
— Vou chamar a primeira. – Roberta foi até a porta e chamou a menina pelo nome.
Uma mulher negra, alta e bem vestida entrou.
— Bom dia...
— Bom dia. – Ela se acomodou a nossa frente.
Tentei focar somente naquele momento.
Nenhum dos currículos me agradou, as candidatas estavam nervosas, algumas pareciam sem a mínima vontade de realmente estar ali e quando acabou, agradeci a Deus.
— A senhorita gostou de alguma?
— Pra ser sincera, nenhuma se encaixou. Sei que a vaga não é nenhuma chance imperdível, mas não consegui ver potencial.
— Também tive a mesma percepção. Amanhã teremos mais algumas, a senhorita poderá vir? – Havia opção?
Não, não havia.
— Virei, Roberta. Estarei à disposição.
— Agradeço, senhorita Bárbara.
No almoço, decidi comer na minha sala, pois havia muita documentação para analisar. Era o único momento que havia paz, ninguém para me dizer o que fazer e como fazer. Tirei os óculos de leitura, fechei os olhos por alguns segundos e isso me levou há 20 anos. Lembrava perfeitamente do dia, da hora, da estação. Do cheiro de terra molhada, o som dos fracos pingos de chuva.
— Desculpa, minha criança, mas eu preciso fazer isso. – Os olhos tão parecidos com os meus estavam nublados, assim como aquele dia. — Eu amo você, Bárbara, amo você. Não esqueça disso, minha menina. Um dia voltarei pra te buscar. Eu prometo...
Uma promessa que nunca foi cumprida.
— Mamãe, eu não quero ficar. Por favor, me leve com você. – A minha voz saiu em suplica.
— Logo, minha filha. Je t’aime.
— Eu te odeio, mãe, odeio por ter me deixado, odeio por ter morrido... te odeio.
O meu rosto estava seco, eu não conseguia derramar mais nenhuma lágrima por ela. Helena não merecia, ela foi uma puta, como o meu pai adorava chama-la quando estava bêbado na sala de sua casa. Foi capaz de me deixar sem o menor remorso, sem se preocupar com o destino que me aguardava, com os traumas que ganharia ao longo dos anos seguintes.
Ouvi duas batidas na porta.
— Pode entrar.
— Desculpe o incomodo. – Ela sorriu.
— Tá tudo bem.
— A entrevista foi remarcada, senhorita Bárbara. Será em dois dias, tudo bem?
— Sem problema algum, Roberta.
— Espero que possamos achar alguém dessa vez.
— Estou na torcida. – Ela riu, fechando a porta.
Deixei a minha sala.
Caminhei entre as pessoas que estavam na recepção, da entrada pude ver os primeiros indícios que o Cirio estava chegando, a Basílica começava a ganhar enfeites e o tão famoso parque estava sendo montado. Jamais havia pisado ali, o meu pai jamais permitiu. Apesar de não seguir as tradições do seu país de origem, ele tinha entranhado em si algumas características daquele lugar.
O machismo era um deles.
— Com licença? – Foquei a minha atenção na mulher a minha frente.
— Pois não? – Ela me olhava com certo espanto.
— Você trabalha aqui?
Apontou para a construtora.
— Sim, trabalho.
— Poderia me informar onde fica a sala do senhor Amal Karam? – Sua pronuncia foi perfeita, eu diria.
— Fica no segundo andar, última porta a esquerda. – Ela poderia ter perguntado a recepcionista.
— Muito obrigada. – A mulher sorriu.
Era uma pessoa bonita e bem vestida.
Continuei na entrada, respirei um pouco do ar quente de Belém. Particularmente, eu amava os únicos dois climas daquele lugar. Na época das chuvas, ficar olhando o céu nublado descarregar a sua fúria sobre a cidade era um dos meus passa tempo preferidos.
A chuva e eu, nós tínhamos uma atração mutua.

Voltando para a minha sala, vi a mulher de mais cedo deixando a sala do meu pai e ele fez questão de leva-la até a porta, lhe apertou a mão com entusiasmo e se despediram. Tão solicito e gentil com outras mulheres. Eu sempre me perguntei o que fiz para ser merecedora de seu desprezo, mas acho que fundo, eu sabia.
Ao me ver, ela veio em minha direção, sorrindo outra vez.
— Obrigada pela ajuda de mais cedo. Nem ao menos me apresentei, eu me chamo Natalia Valente.
— Bárbara, e não precisa agradecer. – Fiquei desconfiada.
Não me culpe, o meio que vivo não é cercado gentileza.
— Só Bárbara?
— Só Bárbara.
Ela riu.
— Espero te ver mais vezes, só Bárbara...
Acho que fiz uma expressão estranha, pois a vi rir outra vez. Seguiu pelo corredor até o elevador.
— Você tá aí. – Orlando me beijou os lábios.
Eu odiava quando ele fazia aquilo em público.
— Falei com o seu pai, ele acabou de me informar que a venda dos apartamentos irá iniciar em breve. O lugar está totalmente apto e vão liberar a venda nos estandes.
— Isso é ótimo. Fico feliz por vocês, Orlando.
— Querida, prometo que darei o meu melhor para que o seu projeto seja um grande sucesso.
— Maravilha...
— Te darei todos os créditos quando a hora chegar.
Eu sabia que não o faria.
— É claro. – Me esquivei do abraço e segui par a minha sala.
— Precisa fingir melhor. – Franzi o cenho.
Ele fechou a porta. A mudança incrivelmente rápida.
— Você tem que ser mais carinhosa na frente dos outros. – Não era uma boa hora.
— Já fingimos muito. – Ele abriu o blazer.
— Então finja melhor.
Ele deixou a minha sala.
Sentei em minha cadeira e deixei o meu corpo se desmanchar ali. Não deveria ter voltado do exterior, teria adiado o meu enlace com Orlando. Podia ter inventado algo ao meu pai, ganharia tempo.
Um dia conseguirei me rebelar? Sou tão, tão patética.

Voltei do trabalho exausta, o meu apartamento estava em um silencio sepulcral, mas eu sabia que ele estava ali por conta do seu perfume importado. Deixei os sapatos, joguei a bolsa sobre o sofá e andei sem pressa até o meu quarto. A voz de Orlando me fez estancar.
— É um horror, uma merda. Faz três anos que estamos juntos e ela não melhorou nada. O sexo é sem graça, ela parece uma morta... – Aspirei o ar com calma. — Nada, do que adianta ser tão bonita, se não dá de quatro, não me chupa, não faz absolutamente nada. Ah, cara, eu preciso de sexo de verdade. Prometi que iria parar, mas eu quero ver uma mulher cheia de tesão sentando no meu pau.
Decidi me afastar.
Qualquer mulher ficaria triste, abalada, qualquer mulher odiaria ouvir aquele monte de atrocidades, mas não eu. Tive vontade de rir, tudo o que fiz ao longo daquele tempo funcionará perfeitamente.
Ele não me tocaria aquela noite e isso me deixava em euforia.
— Bárbara, chegou há quanto tempo?
— Acabei de chegar. – Tirei o meu blazer.
— Não poderei ficar está noite. Combinei de jogar futebol com uns amigos e vamos beber um pouco depois. Vou pra casa em seguida.
Perfeito.
— Espero que se divirta e por favor, use proteção.
Ele arregalou os olhos.
— Como assim?
— Você não é o goleiro? – Ergui a sobrancelha, me divertindo com a sua expressão.
— Ah, sim, sim. – Ele beijou o topo da minha cabeça. — Até amanhã.
— Até, Orlando...
Ele deixou o meu apartamento e eu senti uma paz indescritível.
— Finalmente!
Preparei um banho morno, uma taça de vinho e degustei algumas músicas nacionais, relaxada como nunca antes. Alguém alguma vez disse que a solidão é viciante e de fato, estar sozinha é totalmente viciante.
Viveria tranquilamente assim.


Eu sempre fui muito sonhadora, almejei coisas grandes, sabe? Não falo em ser rica ou ter um carro de 1 milhão, nada disso. Quero coisas solidas, mesmo sendo contraditório. Queria uma carreira, poder ser a minha própria chefe. Poder dar o mínimo e o máximo a minha mãe. Tudo por nós duas. E isso é um grande problema, pois se contentar com menos do que se almeja é frustrante. Acho que é assim que a maioria de nós, adultos, seguimos...
... sobrevivendo.
Nunca fica mais fácil, todo dia há um novo desafio, uma conta para pagar. Me sinto cansada, mas não posso desistir assim, em algum momento irá dar certo e eu só preciso me manter firme até lá. Todos os sacrifícios que fiz irão valer a pena. Todas as minhas horas dedicadas aos estudos serão recompensadas. Eu nunca fui de deixar que os problemas fosses maiores que os meus sonhos e não será diferente agora.
Só precisava pensar direito e fazer as coisas com cautela.
— Filha, aquela mulher não para de me ligar. – Deixei a calculadora de lado. — Já é a quinta vez somente hoje.
— Bloqueia, mãe. Uma hora ela irá parar, então vamos apenas ignorar. – Massageei as têmporas.
— Brenda, você deveria denunciar aquela maldita mulher. Faz meses e ela continua perturbando todo santo dia. Ignorar não vai resolver, minha filha.
— Não tenho tempo pra ela, mamãe. Amanhã terei duas entrevistas, quero focar somente nisso. – Apoiei minhas costas na parede.
— Filha, você tem certeza? Eu posso segurar as pontas até que você consiga uma vaga na sua área. Me dá dó ver todo o seu esforço desperdiçado em uma um cargo que não é seu. Você estudou tanto, meu amor.
Mordi a bochecha por dentro.
— As vezes temos que contar com a sorte nesse meio, mamãe. Faz dois anos, mãe, eu preciso de um emprego, não posso deixar todas as despesas de casa pra você. Veja só, o armário não suportará nem mais um mês. Preciso pegar o que vier...
— O de casa... – Ouvimos duas palmas.
— Vou abrir pra ela.
Levei a xicara com café aos lábios.
— Você não perde esse habito, não é?
— O gelado das lajotas é relaxante. – A morena sorriu.
— Eu tenho uma indicação pra te dar. – Nataly sentou ao meu lado. — A Natalia foi contratada pra trabalhar em um empreendimento do grupo Karam.
— Isso é fantástico.
— Também achei, mas não é esse o ponto. Fui dar uma pesquisada e vi no site do grupo que estão fazendo uma seleção, é para se auxiliar da diretora do financeiro. Eu sei que tá muito longe de ser a sua área, mas quem sabe você não consegue mostrar seus talentos de engenharia? Tem grandes chances de crescer lá dentro.
— Sim, é uma oportunidade. Qual é o site?
— Então, eu já te escrevi. – Nataly deu de ombros.
— Você não existe, Nat...
— Eles vão te ligar a qualquer momento, então fique atenta ao celular. Outra coisa, acho que seria bom você pesquisar um pouco sobre o grupo.
— Farei isso. Obrigada, Nataly. – A abracei.
— Sempre aqui, minha amiga. – A encarei.
— Você não parece bem. Aconteceu alguma coisa? – O sorriso sem dentes me deu a resposta. — O que ele fez?
— Me deixou ontem pra correr com os amigos, ele sempre tem uma coisa melhor pra fazer do que ficar comigo. Passei a noite toda pensando e decidi que irei terminar o meu relacionamento. Ele não me faz mais feliz e é obvio, a reciproca é verdadeira.
— Eu sinto muito por isso...
— Pior que o amo muito, mas já deu o que tinha que dar. – Nataly sorriu.
Ouvimos a buzina de um carro conhecido.
— Minha carona chegou. – Ficamos de pé.
— Te levo até o portão.
— Tchau, dona Lívia. Volto em breve...
— Tchau, filha.
Me aproximei do portão e olhei para a motorista do carro. Natalia apenas ficou olhando para frente, nem por um segundo dirigiu o seu olhar a mim. Enfiei as mãos nos bolsos da calça social que vestia.
— Fica atenta, Brenda. Não fica longe do celular.
— Não ficarei.
A Mercedes partiu, totalmente incompatível com o bairro em que moro e isso me despertou uma crise de risos. Eu não tinha vergonha da minha realidade, nenhum pouco, amava aquela rua, cresci com as crianças dali. A casa que moramos foi herdada da minha tia, irmã da minha mãe, que infelizmente nos deixou durante a pandemia. A minha vontade sempre foi a de reconstruí-la, deixa-la linda e morar nela até o dia que pudesse ter a minha própria casa.
— Essa menina tem o nariz em pé. Nunca gostei dela. – Minha mãe estava ao meu lado.
— Ela sabe bem disso, mamãe. – Ela apenas deu de ombros.
— Ainda bem que terminaram. Tão diferente da menina Nataly, que é um amor de menina e não tem soberba no olhar.
— Deixa de ser fofoqueira e vamos entrar, ainda temos que preparar o jantar.
— Apenas falando a verdade. Ainda lembro do dia em que ela te xingou porque não foi ao jantar com o pessoal da faculdade.
— Mãe, já faz tanto tempo.
— Mas não esqueci, Brenda. Não queria falar, não, mas você tem o dedo podre para mulheres, minha filha.
Gargalhei.
— Infelizmente, não posso discordar.
— Nem tente. – Seguimos para a cozinha. — Vamos falar sobre o seu trabalho.
— Lá, lá, lá... não estou ouvindo.
Havia tido as duas entrevistas, ambas em lugares totalmente opostos ao meu currículo, mas que não poderiam ser desperdiçadas. Fui para uma praça de alimentação para comer algo, mandei mensagem para a minha mãe, avisando que estava bem. Olhei para uma mesa a frente e vi o olhar insistente de um homem. Ele estava com mais dois caras e em certo momento, todos olharam para mim. Quis revirar os olhos, mas optei por só ignorar. Pedi um lanche rápido e quando terminava de comer, o meu celular tocou e era um número desconhecido. Atendi de imediato, pois poderia ser de uma das empresas que fiz as entrevistas.
— Alô...
— Alô, boa tarde. É a Brenda Moreira Gomes?
— Sim, é ela. Boa tarde. – Franzi o cenho.
— Oi, Brenda. Me chamo Roberta e sou a responsável pelo RH da Karam Construtora, gostaria de saber se há interesse em participar da entrevista para a vaga de auxiliar de financeiro.
O meu coração acelerou.
— Sim, estou muito interessada. Quando poderei participar da entrevista?
— Amanhã, as nove da manhã. Traga o seu currículo atualizado. Tudo bem?
— Tudo sim. – Deus...
— Ótimo! Então, o seu número para contato também é WhatsApp? — Finalmente.
— Sim, ele é. – Eu queria gritar de felicidade.
— Perfeito! Passarei em instantes o endereço completo. – Nataly, sua filha da mãe maravilhosa.
— Eu ficarei no aguardo. Muito, muito obrigada!
— Nada. Tenha uma excelente tarde.
A chamada chegou ao fim.
— Deus...
Mandei uma mensagem em imediato para Nataly e a resposta veio poucos segundos depois.
“Essa vaga já é sua, minha amiga.”
Deixei a praça de alimentação, desci um piso e entrei em uma loja de moveis. Escolhi um armário, seria entregue em pouco mais de dois dias. Minha mãe falaria horrores, mas ainda assim, era preciso.
— Vai dar tudo certo.
Caminhei até a parada de ônibus, as vias começavam a ficar cheias e os ônibus não tão diferente. Quase uma hora depois, cheguei em casa. A minha mãe não estava, certamente deveria estar na outra rua jogando domino com as suas amigas. Vesti uma roupa fresca e fui para o quintal, havia algumas plantinhas que necessitavam de ajuda. Passei o resto da tarde ali e só entrei quando já era noite. Tomei um longo banho e voltei para o quintal, precisava estudar um pouco.
O meu telefone tocou e eu sabia perfeitamente de quem se tratava e não atenderia.
— Filha, você não vai pra academia? – Minha mãe surgiu no quintal.
Olhei o relógio.
— Não tinha prestado atenção na hora. Volto em duas horas, não precisa me esperar pra jantar.
— Ora, mas é claro que vou. Cuidado, filha.
Era quase que uma tradição, fazíamos ao menos uma refeição juntas no dia.
Troquei de roupa, deixei o celular e segui para a academia. Há cinco meses que frequentava o lugar e há dois iniciei as aulas de auto defesa. Sai de uma relação extremamente complicada e o meu subconsciente me alertava que as aulas nos fortaleceriam.
— Chegou a mais bela. Achei que não viria hoje. – Lucas me abraçou.
— Jamais faltaria a sua aula. Estou doida pra te deixar no tatame outra vez. – Pisquei para ele.
— Brenda, que delícia. – Não controlei o riso. — Ah, se eu não fosse casada.
— Como que ser casada pesasse algo, não é, Betina? – Ela gargalhou.
— Quem manda ser linda desse jeito. Deus tem seus preferidos...
— Você tem uma mulher lindíssima, com toda certeza Deus tem seus preferidos.
— Não joga charme pra minha mulher, Brenda. É uma piscada sua e eu fico solteira.
Lucas gargalhou e eu não pude ficar imune.
— Então se comporta e levante as mãos para o céu. – Passamos a nos aquecer.
— Tá, tá bom. Sempre levo um fora... – Não tinha jeito.
No final do treino, eu estava suada e jogada. Betina me ofereceu uma água, que desceu perfeitamente.
— Você evoluiu muito, Brenda. Fico impressionado todas as vezes que te vejo jogar a Betina no chão. – Ela rolou os olhos. — Você é extremamente hábil.
— Obrigada. Principalmente por ter me apresentado a delicia que é. Me sinto incrível quando estou aqui.
— Você acabou comigo, mas logo vou te dar o troco. – Betina sempre dizia isso.
— Faz mais de um mês que diz a mesma coisa e sigo invicta. – Me gabei.
— Você era mais humilde quando te conheci, viu?
— Sigo humilde e boa de porrada. – Eu não me achava aquele ponto, mas era divertido implicar com ela.
— Betina?
— Vida!
Aline veio em nossa direção.
— Boa noite, meninos. – Ela era uma mulher muito elegante.
E muito apaixonada pela esposa.
— Boa noite. – Respondemos em coro.
— Vamos, querida? Estou muito cansada.
— Vamos sim, meu amor. Pessoal, até a próxima. – Betina, apesar do jeito cafajeste, amava a esposa.
— Brenda? – A encarei.
— Sim?
— Ela te importunou?
Betina arregalou os olhos e com os dedos, fazia um gesto, implorando para que eu dissesse não.
— Sim...
— Vamos conversar, dona Betina. Anda logo...
Betina, muito contrariada, foi a frente. Aline, virou para nós e piscou, deixando a sala em seguida.
— Você é má, Brenda. – Gargalhei.
— Sou! Não mexe comigo...
Deixei a academia quase nove da noite, a rua estava movimentada, mas uma sensação horrível de estar sendo observada me assolou. Olhei para trás e um carro com os faróis apagados vinha rua abaixo.
Eu conhecia aquele veículo. Parei e esperei.
— Não pode ser verdade. – O vidro foi abaixando.
— Deixa eu te levar em casa. – Ri em descrença. — Entra, Brenda.
— Nem morta. Sai daqui ou eu vou ligar pra polícia. – O olhar forte seguiu para a cicatriz em minha coxa esquerda.
— Não precisa disso, Brenda. Vamos conversar...
— Eu quero que você se foda. – A interrompi. — Vou gritar...
— Eu já vou...
Ela ligou o carro, dando partida em seguida.
— Merda...
O meu corpo tremia em ódio, tanto que o meu coração acelerou que doía.
Talvez a minha mãe tivesse razão, eu deveria mesmo fazer um boletim de ocorrência e pedir uma medida protetiva. Quem sabe assim essa mulher mantivesse distancia, sumisse da minha vida de uma vez.
— Desgraçada.
Ao chegar no portão, a minha mãe estava me esperando na sala. Decidi não contar a ela sobre o meu encontro desagradável. Tomei um banho rápido e jantamos, conversamos alguns minutos e então decidimos que era a hora de descansar. Somente naquele momento, notei o quanto estava cansada.
Dormi quase que instantaneamente.
— Bom dia, minha menina. – Minha mãe beijou a minha testa.
— Bom dia, mamãe. – Ela abriu a geladeira e colocou a minha frente uma vasilha azul.
— Fiz pra você enquanto passa o dia fora. Leve suco também. – Ela é perfeita.
— Eu nem sei o que seria de mim sem a senhora. – O sorriso que eu herdei surgiu.
— Lembre-se, minha filha, eu morro de orgulho da mulher que você se tornou. – Limpei a garganta, os meus olhos lacrimejaram.
— Vai me fazer chorar desse jeito. – Ela sorriu.
Por ela, sempre valeria a pena todos os esforços. Iríamos vencer juntas, eu tinha certeza que assim seria.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
T

Tany

24/09/2026 às 10:15

Um prazer ter você de volta, adoro sua escrita e sentir sua falta, feliz por ter voltado a postar novamente pra gente. Primeiro capítulo ja entregando, aguardando o próximo, sei que vai sair uma história maravilhosa, tu arrasa sempre querida.
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